domingo, 27 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


'Monopólio total'

Apoiadora fiel de Donald Trump e mulher mais rica da Austrália, a bilionária Gina Rinehart está por trás de uma mineradora estrangeira que quer explorar terras raras na Bahia. O plano é vendido como uma oportunidade de desenvolvimento econômico e social para o estado.

O projeto, no entanto, quer explorar até em área de preservação ambiental e pressiona moradores de uma comunidade rural a venderem seus terrenos no Vale do Jiquiriçá, na região sul do recôncavo baiano.

Além disso, tem a intenção de explorar urânio na região – o que omite da comunidade, que teme o risco de contaminação radioativa. E tem mais: a iniciativa mira implantar uma refinaria de terras raras de escala industrial para destinar a produção para combater o domínio da China, algo que interessa diretamente aos Estados Unidos.

Batizada de Monte Alto, a iniciativa é uma das maiores de exploração de terras raras no Brasil. É liderada pela empresa australiana Brazilian Rare Earths, a BRE, que já declarou se tratar da “descoberta de terras raras mais significativa do mundo”.


Rinehart, que é propagadora da ideologia MAGA (Make America Great Again ou Tornar a América Grande Novamente, em tradução livre), é a maior investidora em elementos de terras raras fora da China. Por meio de sua empresa Hancock Prospecting, ela é uma das acionistas da BRE, que no Brasil é representada pela subsidiária Borborema Recursos Estratégicos.

As terras raras são um um grupo de elementos químicos cada vez mais valorizados por sua importância estratégica, em especial para a produção de tecnologia, o que inclui desde telefones e carros elétricos até aparatos militares, e para desenvolver a inteligência artificial.

O Brasil é alvo de uma ofensiva estrangeira porque tem mais de 20% das reservas mundiais de terras raras – fica atrás só da China. Não à toa os Estados Unidos investiram mais de 1 bilhão de dólares, inclusive com financiamento do governo Trump, para comprar a única mineradora especializada já em operação no nosso país: a Serra Verde, localizada em Goiás.

Mas é a Bahia quem lidera as pesquisas por terras raras no Brasil. Um levantamento do Intercept Brasil feito a partir dos dados do Sistema de Informações Geográficas da Mineração da Agência Nacional de Mineração, a ANM, mostra que o estado alcança quase um em cada três processos minerários ativos dessas substâncias no país – são 1.204 no total, o equivalente a 31% dos registros. Destes, mais da metade estão na região do Vale do Jiquiriçá, território onde moram cerca de 20 mil famílias da agricultura familiar, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia.

“Vivenciamos uma nova corrida, o chamado neoextrativismo. Isso perpetua a situação do Brasil como um país dependente da exploração de matérias-primas e da mercantilização da natureza. A Bahia está no centro desse foco”, pontua Lucas Zenha Antonino, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, a UFRB, e pesquisador do grupo Geografar, da Universidade Federal da Bahia, a UFBA.

Neste cenário, a BRE não está perdendo tempo. Sozinha, a empresa responde por 230 requisições que envolvem a mineração de terras raras – 19,1% dos processos ativos na Bahia. De todas, a lavra mais próxima de começar a exploração é a do projeto Monte Alto, batizado pela Borborema com o mesmo nome da comunidade que pode ser expulsa da região.

Até o momento, o avanço do projeto tem recebido o aval do governo da Bahia e dos órgãos federais responsáveis. A ANM liberou a extração de lavra experimental, que está agora em análise pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, o Inema, órgão ambiental baiano.

De competência federal, o licenciamento ambiental para a extração comercial depende de aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama, que informou ao Intercept ainda estar no aguardo do estudo e do relatório de impacto ambiental da mineradora.

Por ter minerais radioativos, o empreendimento também tem um processo em tramitação na Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, a ANSN. Segundo a autarquia, ele está em fase inicial de avaliação regulatória.

A BRE informa publicamente que 167,6 mil hectares estão sob o seu controle na região, com pesquisas minerárias ativas liberadas pela ANM. Elas fazem parte do que a mineradora chama de Província Mineral Rocha da Rocha, zona com 124 processos minerários ativos.

A região tem minérios com teores de terras raras cuja concentração chega a até 100 vezes acima na comparação com a Serra Verde, única operação em produção comercial no Brasil, em Minaçu, Goiás – o que, na prática, significa que são encontradas em maior quantidade, de acordo com o parâmetro de concentração de Óxidos de Terras Raras Totais, o TREO.

Para se ter uma ideia, a Serra Verde opera com 0,12% de TREO, enquanto, em Monte Alto, o teor médio chega a 11,3%, de acordo com um estudo de escopo publicado pela BRE no dia 13 de agosto.

Mas o que empolga a BRE não é motivo de alegria na comunidade rural de Monte Alto. Nós fomos até lá e ouvimos dos moradores que a circulação de caminhões e máquinas de sonda, o barulho e o alargamento da estrada já estão mudando o cotidiano e causando transtornos.

Berenice*, uma moradora que pediu para não ter o seu nome revelado porque teme represálias, relatou ao Intercept que as investidas da mineradora para comprar os terrenos da comunidade estão “causando medo, pressão psicológica, até mesmo o adoecimento”.

Das cerca de 120 famílias que vivem na comunidade Monte Alto, 17 já venderam seus imóveis para a Borborema, de acordo com os moradores. A reportagem pediu esses números à mineradora, mas a empresa não os informou. “Enquanto eles avançam, sentimos o peso de deixar para trás nossas vidas, a nossa paz e a separação de várias famílias”, conta Berenice.

A comunidade tem resistido como pode. Já chegou até a entregar um manifesto no escritório da Borborema, em abril, reiterando a “insatisfação coletiva” com a mineradora, por gerar “insegurança”, “desinformação” e “desgaste social”.

Outra preocupação é com o impacto ambiental. No caso do projeto Monte Alto, a poligonal minerária – delimitação geográfica da área sobre a qual uma empresa requisita o direito para minerar – não está em um lugar qualquer. Cerca de metade dela está sobreposta à Área de Preservação Ambiental, ou APA, Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, com nascentes e quedas d’água como a cachoeira do Guigó.

A lei não veda a exploração mineral em APA, desde que autorizada – no caso, pela ANM, uma autarquia federal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, o MME, e pelo órgão ambiental responsável. Mas o apetite da BRE vai além e chega até a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, uma unidade de proteção integral em que a mineração é proibida por lei.

A preocupação é crescente na região porque, apesar de o projeto estar na fase do “direito de requerer lavra” – a terceira de cinco etapas para a concessão do direito de exploração comercial das terras raras —, a Borborema já conseguiu um atalho para antecipar o início dos trabalhos.

Em março deste ano, a ANM concedeu uma Guia de Utilização à mineradora. Na prática, isso permite que a lavra comece a ser explorada antes do licenciamento definitivo. Assim, foi autorizada a extração de 2 mil toneladas de minério por ano, ao longo de três anos. 

Procurada pelo Intercept, a Borborema garantiu que ainda não começou a extração. Apenas informou que a operação depende das “autorizações ambientais e radiológicas aplicáveis”. O caso está em análise pelo governo da Bahia – sob gestão de Jerônimo Rodrigues, do PT, candidato à reeleição –, que nos explicou que a “lavra experimental” só poderá começar a ser explorada após receber autorização.

Ainda que a operação não tenha iniciado oficialmente, um cronograma da BRE feito em agosto deste ano prevê a entrega do Estudo de Impacto Ambiental, o EIA/RIMA, ao Ibama entre o fim de 2026 e o primeiro semestre de 2027. Na projeção feita pela mineradora australiana aos seus investidores, a licença para instalar a infraestrutura física da mina deve sair entre 2028 e 2029. Já a concessão definitiva de lavra, entre 2029 e 2031.

Embora isso ainda dependa de validação, o diretor-geral e CEO da BRE, Bernardo da Veiga, vangloriou-se, em entrevista ao canal canadense Investor News, que a empresa tem “um monopólio total dessa província de terras raras”, tendo passado de 40 mil para 400 mil hectares sob seu controle em três anos. E foi além: disse que o Brasil é excelente para os negócios porque “é uma jurisdição de baixo custo, com baixo custo de energia e mão de obra barata”.

“Trouxemos investidores muito importantes, investidores de peso, por assim dizer. Eles nos financiaram para adquirir toda aquela província”, afirmou Veiga, citando nominalmente a bilionária Gina Rinehart. “Somos muito honrados por ter alguém tão importante e, além disso, tão qualificado em nosso quadro de acionistas”.

Por meio da Hancock Prospecting, Rinehart detinha uma participação de 6,4% na BRE em fevereiro de 2025 – embora o site Investing.com, que disponibiliza dados do mercado financeiro, indique que a parcela seja de 4,89%. A bilionária, que construiu sua fortuna com grandes ativos de minério de ferro no oeste da Austrália, integra um grupo de mulheres ricas e influentes autodenominado “trumpettes”.

Pela afinidade ideológica e pelo estilo, aliados do grupo passaram a chamar Rinehart de “Donald Trump feminina”. Ela chegou até mesmo a redesenhar a sede da Hancock Prospecting, em Perth, com elementos da estética MAGA.

Na noite da eleição estadunidense em 2024, a bilionária participou da festa da vitória de Trump na residência do republicano, em Mar-a-Lago.

Dias antes, ela já havia aparecido no mesmo local com Tiffany Trump, filha do presidente, segurando um cartaz com o slogan “drill, baby, drill” (“perfure, baby, perfure”, em tradução livre), que passou a usar para incentivar o aumento da exploração de petróleo e da mineração.

Entusiasta da exploração de carvão e gás, Rinehart defende que a Austrália abandone o Acordo de Paris sobre o clima e afirma que as energias renováveis são pouco confiáveis.

Além da BRE, a Hancock Prospecting tornou-se a maior acionista da St George Mining, empresa australiana que desenvolve o Projeto Araxá, de terras raras e nióbio, em Minas Gerais. Em junho de 2026, a Hancock investiu mais 20 milhões de dólares australianos na empresa, elevando sua participação para cerca de 10,5% após a conclusão da operação.

Já nos Estados Unidos, a empresa de Rinehart tornou-se a maior acionista da MP Materials, empresa que opera Mountain Pass, na Califórnia, o maior depósito de terras raras do país.

Procurada pelo Intercept, a Hancock Prospecting não quis se manifestar sobre o andamento do Projeto Monte Alto. A empresa de Rinehart se resumiu a dizer que, por ser “uma pequena acionista” da Brazilian Rare Earths, “questões dessa natureza devem ser direcionadas à Brazilian Rare Earths, que é responsável por administrar e conduzir o projeto”.
Moradores se mobilizam após pressão da mineradora

Para o plano da BRE com apoio da bilionária trumpette sair do papel, a subsidiária Borborema precisa ser dona das terras de Monte Alto. No caminho, entretanto, está uma comunidade tradicional.

Moradores contaram ao Intercept que a empresa não foi transparente quando chegou à região. “Em alguns lugares, pediam autorização para fazer coleta de solo para análise. Depois, chegaram as sondas, que faziam furos maiores. E aí foram tentando adquirir propriedades por preços muito abaixo, não deixando claro para as pessoas o que tinha no solo e o porquê da pressa”, conta Berenice.

Segundo ela, a Borborema comprou um imóvel na região, onde montou sua sede. Depois, outros três. A empresa não confirmou essa informação ao Intercept. “E aí começaram a criar um cerco”, afirma a moradora que, como seus bisavós, avós e pais, nasceu e se criou ali.

Quem trafega por Monte Alto percebe que o alargamento das ruas de terra é recente. Entre as casas espaçadas e plantações de cacau, circulam caminhões e caminhonetes com os logos da Borborema e da consultora Synergia Socioambiental. Tendo entre seus clientes o Banco Mundial, a Braskem, a Vale e a Hydro, a Synergia foi contratada pela Borborema para intermediar as negociações fundiárias com a comunidade.

“A primeira equipe chegou usando pressão psicológica. [Disseram] que eles só fariam três visitas para adquirir o terreno e, caso isso não fosse possível, partiriam para processo judicial”, relata Berenice. “Criaram um abismo entre comunidade e empresa”, complementa.

Em abril deste ano, um manifesto com a assinatura de 104 das 117 famílias de Monte Alto foi entregue à Borborema com críticas à atuação da mineradora.

O documento, ao qual o Intercept teve acesso, ainda cita que houve “pressão excessiva” da Synergia para “fechamento de acordo”, bem como “abordagens que geram constrangimento” e “falta de clareza e transparência nas informações prestadas”.

Os moradores de Monte Alto disseram, ainda, que a Synergia passou a “conduzir as tratativas com foco exclusivo na compra das propriedades, sem abertura para diálogo sobre alternativas”.

Manifestando “profunda preocupação” com os “impactos ambientais do empreendimento”, a carta termina informando que “a comunidade e os proprietários rurais” estão “formalmente organizados, buscando garantir seus direitos”.

A mobilização, explica João*, outro morador de Monte Alto, ocorreu após se darem conta do risco de os moradores saírem “do conforto para a miséria”. “A gente era tido como roceiros, ignorantes, pessoas sem conhecimento, fácil de serem manipulados. E eles viram que não somos”, enfatiza Berenice.

Os moradores também contam que, após a entrega do manifesto, pessoas vistas como impulsionadoras da mobilização foram chamadas para conversas particulares com representantes da mineradora. “Eles têm medo que a comunidade se inflame”, diz Luciene*, outra moradora de Monte Alto. “Os mais velhos falaram para a gente: ‘Vocês tenham cuidado com a vida de vocês’”, relata.

Em resposta ao manifesto, a Borborema marcou uma reunião com os moradores em maio deste ano. Entre as demandas, ouviu que a Synergia fosse destituída – mas não acatou. De acordo com moradores, as únicas mudanças foram a troca da equipe e uma melhora “ínfima” nos valores oferecidos para comprar os terrenos.

Edgar*, agricultor de Monte Alto visitado pelo Intercept, tem cerca de 15 hectares dedicados ao cacau e outros cultivos. Segundo ele, a proposta da Borborema pela área foi de R$ 50 mil. Somando os secadores de cacau e a casa existente, que tem três quartos e uma suíte, a oferta chegou a R$ 800 mil. Até o momento, ele não quis.

“No início, falaram que a terra seria indenizada por seu valor minerário, não rural. Depois, quando questionei, falaram que não tinha isso e que a proposta é feita de acordo com o valor da terra nua e as benfeitorias”, critica Berenice. “Estão nessas investidas. Passam duas, três vezes na semana na casa das pessoas”, conta.

Berenice também pontua que as pessoas que aceitaram vender seus imóveis o fizeram, em sua maioria, por medo de permanecer e por acreditarem que vai ser impossível barrar o avanço da mineração.

Firmino*, agricultor que vive do cacau que vende em um armazém em Jiquiriçá, diz que a mineradora já argumentou que os moradores não podem ficar na área. “O povo se junta, mas eles falam que deu minério e vai ter que explorar”, afirma. “A gente tem medo, porque a gente já nasceu, foi criado aqui. Para sair, acostumar lá fora… Aqui é sossegado, é bom demais”, pontua. 

Questionada pelo Intercept, a Borborema informou, em nota, que “não admite pressão, constrangimento ou conduta inadequada por parte de empregados, prestadores de serviços ou representantes”. Ainda disse estar “disponível para apurar formalmente qualquer relato dessa natureza” e tomar “as providências cabíveis”.

A Borborema destacou que “as negociações são realizadas de forma individualizada, com base em avaliações técnicas”. Segundo a companhia, “eventuais direitos legais do proprietário da superfície relacionados a uma futura produção mineral permanecem preservados e são distintos da negociação imobiliária”. A Synergia não respondeu aos questionamentos feitos pelo Intercept. 

Além do impasse com moradores, os impactos ambientais do projeto da BRE e da Borborema também são alvo de polêmica. Em maio de 2025, o Ibama inspecionou o local e apontou em relatório que “a cava prevista impactará nascente e curso d’água, além de atingir remanescentes de Mata Atlântica e áreas próximas a sete comunidades”.

Mas tem mais: a área do processo minerário do projeto Monte Alto inclui cerca de 18,4% da APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, abrangendo 42,2 mil hectares. Um levantamento feito pelo Intercept com dados da ANM mostra haver 29 requisições minerárias da Borborema no local.

Além da sua relevância ecológica e hídrica, a área é a morada de animais considerados ameaçados de extinção pelo Inema. Entre eles, estão o tamanduá-mirim, o bicho-preguiça, o quati e o mico-estrela.

A lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, o SNUC, que rege as unidades de conservação, exige que todas tenham um plano de manejo. Apesar de ter sido criada em 2003, a APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança até hoje não tem um. Questionado, o governo da Bahia informou que “a elaboração ainda não foi iniciada”, sem explicar por que tanta demora.

Embora a lei do SNUC não vete a exploração mineral em uma APA, desde que haja autorização prévia, existe um pequeno pedaço do terreno da Caminhos Ecológicos da Boa Esperança que não pode ser utilizado de jeito nenhum para este fim: os 2,4 mil hectares que compõem a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães.

O motivo é que este local, a cerca de 30 quilômetros da comunidade de Monte Alto, é uma unidade de proteção integral dentro da APA. Na prática, isso significa que ali não só a mineração como até mesmo a visitação pública são proibidas pela lei do SNUC.

Apesar disso, há quatro processos minerários ativos na ANM sobrepostos à Estação Ecológica Wenceslau Guimarães – todos da Borborema. Os dois mais avançados visam a exploração de terras raras, e estão na etapa do “direito de requerer lavra” – terceira de cinco fases do processo.

Questionada, a ANM afirmou que, se chegar o momento de a mineradora requisitar o aval para fazer a lavra, a autarquia fará a análise dos “procedimentos de retirada de interferências com as áreas em que eventualmente a mineração não é permitida”. A extração, reiterou a ANM, só é autorizada “mediante a devida a licença ambiental expedida pelo órgão ambiental competente”. Neste caso, por ser uma unidade de conservação estadual, seria o Inema.

Já a Borborema informou que este direito minerário integra o projeto Amargosa/Alurion, em análise para ser cedido pela companhia. Sem entrar em mais detalhes, a mineradora reforçou que o fato de ser titular deste processo ativo na ANM não quer dizer que ela já está autorizada a fazer mineração na área.

“A gente tem observado, a partir dos dados oficiais, a expansão da fronteira mineral para a Bahia em um ritmo muito acelerado”, pontua a pesquisadora e professora do Instituto Federal Baiano, Valdirene Rocha.

Segundo ela, entre 2021 e 2025, houve um aumento de mais de 46% das autorizações de pesquisa mineral no estado. “Atualmente, são 22.875 processos com autorização de pesquisa mineral e outros 1.075 requerimentos de pesquisa. Esses números continuam em crescente e estão associados ao discurso da transição energética”, destaca Rocha, que é também pesquisadora do Geografar, da UFBA.

A Borborema tem falado pouco à imprensa e nada às famílias de Monte Alto de que o seu interesse não está apenas nos minérios de terras raras – como neodímio, praseodímio, ítrio e térbio. Há, também, a intenção de explorar urânio na região – o que exige cuidados especiais diante do risco de contaminação radioativa.

Em áudios enviados no WhatsApp e cartazes espalhados por Monte Alto, a Borborema informa prezar pelo diálogo e garantir uma “conversa aberta” com a comunidade.

A própria subsidiária da BRE disse ao Intercept que “a presença natural de urânio e tório associados à mineralização” está sendo “abordada nas atividades de relacionamento com a comunidade”. Mas moradores ouvidos pela reportagem relataram que o tema não foi debatido nas reuniões.

A empresa ainda garantiu que “Monte Alto não é uma mina de urânio e não produzirá o concentrado de urânio, nem realizará enriquecimento ou processamento químico de urânio no local”. 

No mais recente encontro que a empresa convocou com a comunidade, em 24 de julho, foram apresentadas “informações sobre a formação geológica dos minerais identificados na região”, conforme a ata. Mas a palavra urânio não consta no documento – e moradores que estavam na reunião disseram ao Intercept que o assunto não foi discutido.

Embora não converse com a comunidade sobre isso, o CEO da BRE, Bernardo da Veiga, fala abertamente a respeito do tema com a imprensa estrangeira. Em entrevista a um veículo do Canadá voltado a investidores, ele citou que a região de Monte Alto tem “níveis muito elevados de urânio”.

A constatação, relatou Veiga na entrevista, foi crucial para atrair investidores. “Nós sempre soubemos que não seria um problema. O Brasil é um país nuclear e está confortável com o urânio”, afirmou o empresário.

De acordo com a BRE, o urânio será um coproduto no projeto Monte Alto, e testes metalúrgicos confirmaram que poderá ser transformado em yellow cake – uma etapa na cadeia da produção do combustível nuclear. O urânio, porém, não aparece no processo minerário registrado pela Borborema na ANM. Questionada, a autarquia federal disse que “vai verificar a situação”.

Ao Intercept, a Borborema informou que a produção, o enriquecimento e o processamento químico de urânio não vão acontecer no local da mina de Monte Alto. “A potencial recuperação de urânio na forma de concentrado de urânio está prevista apenas para uma futura planta industrial centralizada em Camaçari”, disse a empresa.

“Essa planta dependerá de estudos adicionais, do licenciamento, das autorizações da ANSN [Autoridade Nacional de Segurança Nuclear], dos acordos necessários com a INB [Indústrias Nucleares do Brasil] e da decisão final de investimento”, destacou a Borborema.

A ANSN – autarquia reguladora que responde pelo licenciamento de processos minerários quando envolvem material radioativo – afirmou à reportagem que existe um processo da Borborema em “fase inicial de avaliação regulatória”, mas que “não emitiu autorização para produção de concentrado de urânio no empreendimento Monte Alto”.

Em um de seus relatórios, no entanto, a mineradora afirma que já obteve autorização de operação da ANSN para a planta-piloto em Camaçari e que a ANSN aprovou a categorização do projeto, permitindo que a BRE avance com o relatório de análise de segurança nuclear.

Já a Indústrias Nucleares do Brasil, a INB, empresa estatal que representa a União na cadeia do urânio e combustível nuclear no país, disse que firmou um “protocolo de intenções” com a BRE. O objetivo, informou a INB, é “avaliar e desenvolver conjuntamente o potencial de aproveitamento do urânio como coproduto dos projetos de terras raras da empresa”.

O plano da BRE é beneficiar os minerais de terras raras extraídos em Monte Alto por britagem no próprio Vale do Jiquiriçá. O concentrado, então, vai ser transportado por cerca de 260 quilômetros até o Complexo Industrial de Camaçari, que fica próximo ao Porto de Aratu.

Perto dali, em Salvador, a mineradora está construindo uma planta piloto, com 58% do financiamento vindo do Senai Cimatec por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a Embrapii, uma organização social movida a contratos de gestão com o governo federal.

A partir dela, a BRE quer implantar uma refinaria de terras raras de escala industrial. A ideia da mineradora é produzir óxido de neodímio-praseodímio (NdPr), concentrado de terras raras pesadas (HRE+) e yellowcake de urânio.

O destino principal da produção é a França. Mas, em um relatório de julho deste ano, a BRE destaca, além da Europa, o Japão e os Estados Unidos como possíveis rotas. Os indícios de que os minérios vão para o país adorado pela trumpette são fortes.

Em outubro de 2025, a BRE inclusive assinou um acordo com a empresa francesa Carester que é, em parte, da estadunidense USA Rare Earth. A parceria prevê que, na próxima década, o concentrado de terras raras pesadas produzido pela BRE vai ser comprado pela Carester.

Além disso, a empresa francesa se comprometeu a prestar serviços de engenharia e assistência para a futura refinaria da BRE em Camaçari, que tem a pretensão de ser a primeira unidade a fazer separação de óxidos de terras raras em escala industrial no Brasil.

Isso é estratégico porque aumenta o valor agregado da produção e, em nível global, fortalece a Carester na rivalidade direta com a China. Mas também pode atender a interesses dos EUA, já que o Departamento de Guerra do país declarou que os ímãs permanentes de terras raras, em especial o térbio – escasso no mundo e presente em grande quantidade na região de Monte Alto –, são fundamentais para seus sistemas militares, incluindo submarinos, drones, mísseis e bombas.

Falta uma carta nesta campanha

O senador Flávio Bolsonaro nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele foi exigido. Devia ter sido. Estamos a uma semana do primeiro turno. Ele tem chances reais de ser eleito e carrega um enorme passivo autoritário, decorrente dos atos e palavras dele e da família toda. Em 2002, o país exigiu do então candidato Lula da Silva que se comprometesse com as bases econômicas do Plano Real. Havia dúvidas razoáveis sobre o programa econômico do PT. Lula escreveu a “Carta aos Brasileiros” e a cumpriu.

Há dúvidas razoáveis sobre o candidato do PL. O senador teve relações com integrantes da facção criminosa conhecida como milícia, está sendo investigado pelo dinheiro recebido do ex-banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, teve uma loja de chocolate com faturamento atípico, nunca ficou claro como conseguiu comprar uma mansão em Brasília. Sua amizade estreita com o advogado Willer Tomaz é outro foco de incerteza. Willer é reincidente em casos de corrupção. Chegou a ser preso por envolvimento na Operação Greenfield, em 2017, que apurou fraudes com fundos de pensão, e agora é investigado no caso do INSS.


Esse currículo de dúvidas sobre o senador já seria suficiente para ele ser escrutinado com mais objetividade. No entanto, Flávio Bolsonaro foge das explicações necessárias, com a velha artimanha de atacar como se não tivesse enorme telhado de vidro.

De todas as questões que pesam sobre o senador Flávio Bolsonaro, a maior é o seu déficit democrático. Ele professa o mesmo ideário autoritário do pai e dos irmãos. Nisso, a família é bem unida. O Brasil não pode alegar desconhecimento desse risco, porque viu o projeto em ação. Foram anos de ataques sistemáticos às instituições, de defesa da ditadura militar, de demanda pela volta do AI-5, de tentativa de sedução das lideranças militares, de mobilização dos seus seguidores para não respeitar o resultado das urnas de 2022. A investigação da tentativa de golpe de 8 de janeiro revelou que a conspiração havia ido mais longe do que se pensara. Não cabe o benefício da dúvida quando os fatos são tão sólidos.

A pátria caminha para as urnas distraída. A extrema direita sempre foi muito competente em usar as ferramentas digitais para criar realidades paralelas. Em 2018, houve a onda das fake news. A partir de 2019, o chamado “gabinete do ódio” instalou-se no Palácio do Planalto e disparou contra todos os que via como adversários. Os jornalistas, principalmente as mulheres, foram alvo preferencial. Na pandemia, as mentiras contra a ciência elevaram o número de mortes e reduziram a cobertura vacinal de várias doenças. Até hoje o país luta contra as sequelas do atentado à confiança no programa de imunização. A urna eletrônica sobreviveu a um bombardeio, cujo objetivo era minar o processo eleitoral. Sabedor de tudo isso, o Brasil não pode subestimar o risco.

Em 2002, o medo principal era o retrocesso na economia. O país havia vencido a hiperinflação depois de uma luta muito árdua, de anos. O programa econômico do PT tinha propostas que poderiam abalar as bases da política econômica que mantinha a inflação sob controle. Era chamado de risco Lula. O mercado financeiro, então, exigiu um compromisso com a estabilização da moeda e Lula fez algo mais amplo. Falou para o país como um todo, na “Carta aos Brasileiros”. Acertou. O medo de perder o Real era da população em geral e não apenas dos gestores de investimento.

O risco democrático nunca preocupou o mercado financeiro. Deveria. Não há liberdade econômica, sem liberdade política. O poder sem limites, sem o sistema de freios e contrapesos, é um risco econômico também.

O senador Flávio Bolsonaro disse em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, que o eleito em 2026 tinha que se comprometer com o “uso da força” contra o Supremo, caso o STF considerasse inconstitucional o indulto aos condenados pelo 8 de janeiro. Ele não falava de impeachment de ministros dentro de um processo constitucional. Queria algo mais forte. “A gente está falando do uso da força. A gente está falando de interferência direta entre os poderes”. O senador Bolsonaro sempre negou ter havido tentativa de golpe, trata de forma anedótica o ataque físico e institucional aos poderes, promete subir a rampa com o pai. Nunca fez qualquer esforço para aplacar essas dúvidas. Esse é o risco Flávio Bolsonaro.
Míriam Leitão

Flávio Bolsonaro dá dinheiro aos 'peixes' da milícia

Ao lançar a campanha da reeleição, em agosto, Lula bateu duro no atual sistema de emendas parlamentares. O plano apresentado defende o estabelecimento de limites e controles e classifica as emendas impositivas como "grave distorção" que sequestra recursos do Executivo.

O tema, contudo, está submerso, intocável. A dinâmica da disputa contra o bolsonarismo impôs à campanha outros rumos de discussão — crise do STF, Lulinha, vazamentos do Master, interferência dos Estados Unidos, endividamento das famílias, escala 6x1, guerra contra a jogatina eletrônica.

O Congresso, que deverá ter baixa renovação, agradece o refresco. Prepara a proposta orçamentária de 2027 prevendo que, até 2030, o espaço disponível para emendas parlamentares crescerá em ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Executivo. Não é mais uma farra, uma baderna institucional.


É preciso arranjar outra palavra para descrever a voracidade de deputados e senadores, os donos do país.

Apesar das denúncias na imprensa e de mais de cem inquéritos no STF, os casos de desvio de finalidade e corrupção se multiplicam. O mais recente aponta o senador Flávio Bolsonaro, um candidato a presidente da República campeão de escândalos.

O filho 01 mandou uma emenda de quase R$ 200 mil para Robson Calixto, o Peixe, miliciano condenado por envolvimento na morte de Marielle Franco. O dinheiro foi destinado a um projeto de escolinha de futebol no bairro da Taquara, área de influência do ex-deputado Chiquinho Brazão e do conselheiro do TCE Domingos Brazão —condenados pela morte da vereadora.

A convivência da família Bolsonaro com milícias não é novidade. Pelos diálogos coletados pela PF no celular do Peixe (gíria carioca usada para se referir a alguém de confiança), nota-se a naturalidade com que a transação é realizada: "Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar".

Flávio Bolsonaro desenhou o mapa da mina: desvio de emendas e infiltração do crime organizado na política convergem para o mesmo ponto.
Alvaro Costa e Silva

Só resta para o chamado 'arco democrático' apoiar Lula outra vez

Não foi unicamente o antipetismo, como hoje se diz com pressa e frequência, que elegeu Jair Bolsonaro — deputado federal do baixo clero — presidente da República em 2018. Foi também a facada que ele levou em Juiz de Fora e o fato de que Lula, à época, estava preso em Curitiba, condenado pelo juiz Sérgio Moro, promovido meses mais tarde a ministro da Justiça do novo governo.

Até o final de agosto, trancado em uma cela de 15 metros quadrados da Polícia Federal, Lula liderou todas as pesquisas de intenção de voto. Seu substituto como candidato, Fernando Haddad, teve apenas 26 dias para fazer campanha durante o primeiro turno. Mesmo assim, no segundo turno, ainda obteve 44,87% do total dos votos válidos. Convenhamos: um desempenho e tanto, dadas as circunstâncias.


Em condições normais de temperatura e pressão, o antipetismo nunca derrotou o petismo desde que Lula se elegeu presidente pela primeira vez em 2002 — lá se vão 24 anos. Fernando Collor venceu Lula em 1989, quando o PT sequer completara 10 anos de existência. Foi a primeira eleição presidencial pelo voto popular depois que os militares bateram em retirada, devolvendo o poder aos civis.

Collor sofreu impeachment, acusado de corrupção, e assumiu seu vice, Itamar Franco. As eleições seguintes (1994 e 1998) transcorreram sob o impacto do Plano Real. Somente Nossa Senhora Aparecida teria sido capaz de derrotar Fernando Henrique Cardoso, apresentado aos eleitores como o pai do plano que dominou a inflação. Por aproximadamente quatro anos e meio, o real valeu um dólar. Beleza.

Lula se reelegeu presidente em 2006, apesar do escândalo do Mensalão do PT — a compra de votos de deputados para aprovar no Congresso projetos de interesse do governo. A oposição preferiu deixá-lo sangrar ao invés de tentar impichá-lo, porque estava convencida de que o derrotaria nas urnas, àquela altura já eletrônicas. Dilma Rousseff sucedeu a Lula em 2010 e se reelegeu em 2014.

Não foram as chamadas “pedaladas fiscais”, como a história oficial registra, que derrubaram Dilma em 2016. Como disse o senador Romero Jucá, do MDB, era preciso fazer um “grande acordo nacional” para “estancar a sangria” da Operação Lava Jato, “com o Supremo, com tudo”. E se fez o acordo que resultou no impeachment de Dilma. Michel Temer assumiu a Presidência.

Para livrar-se de Bolsonaro, o tal do “arco democrático” (leia-se: a direita que se diz civilizada) ajudou Lula a se eleger em 2022. Se esse arco for de fato democrático, tapando ou não o nariz, se sentirá obrigado a ajudá-lo a se reeleger daqui a sete dias por falta de melhor opção. Nenhum dos candidatos com pretensão à terceira via decolou. Ou se vota em Lula, ou em Flávio, uma cópia mal ajambrada do pai.

A hora da verdade chegou para todo mundo. Valei-nos, Senhora Aparecida.