domingo, 11 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Mais uma vez à beira do abismo

Mal saímos do primeiro turno e já temos um rol de preocupações sobre o futuro para administrar. Bem-posicionado nas pesquisas e muito confiante de sua vitória, Flávio Bolsonaro não tem tido pudor ao anunciar suas pretensões para quando se assenhorar da cadeira da presidência da república. Não há, aqui, espaço para o engano, as propostas são claras e merecem toda a nossa atenção.

A mais alarmante de todas é o desejo explícito de mudar a constituição para torná-la, segundo o candidato, "mais democrática". A ambição não é impossível: depois de eleger a maior bancada de deputados federais e de senadores, o Partido Liberal irá despontar como força parlamentar na próxima legislatura, tornando mais desafiadora a defesa das agendas mais associadas à esquerda progressista. O Brasil, ao que parece, vai mesmo "endireitar", o que deveria ser motivo de angústia para trabalhadores, mulheres e demais grupos vulneráveis.


Quando indagado sobre o que seria objeto de mudança, Bolsonaro afirmou que é seu desejo alterar as regras sobre acesso ao STF, sobre o tempo de permanência dos ministros, sobre as competências do tribunal e sobre o espaço para decisões monocráticas. Não é pouca coisa e, considerando o dado de que o próximo presidente irá indicar, pelo menos, 4 ministros à corte, a chance de neutralização da STF não é pequena, está no campo das altas probabilidades.

Sem um STF independente e forte, o que fica em risco é a defesa da supremacia da constituição. Quaisquer iniciativas que violem seus dispositivos não poderão ser revertidas ou interrompidas pela falta de um controle externo. Dito isso, a segunda promessa de mudança preocupa ainda mais: o desejo de alterar muitas das normas relacionadas à ordem social.

Organização da educação nacional, proteção do meio ambiente e da família, sistemas de assistência e previdência social, tudo fica exposto às iniciativas de emenda constitucional quando o candidato afirma ter a pretensão de reduzir o equivalente a 250 bilhões em "gasto". Serviços públicos custam dinheiro e absorvem um mínimo obrigatório de orçamento previsto na constituição. A única forma de economizar com o custeio do SUS ou das universidades é mutilando a carta constitucional para deixá-la menos próxima de um estado do bem-estar social e mais parecida com a carta de um estado mínimo.

O cenário que Flávio Bolsonaro nos anuncia, caso seja eleito, é o de uma terra arrasada para o projeto do constituinte de 1988, um Brasil comprometido com a redução das desigualdades sociais e com a democracia. É um abismo que, mais uma vez, se coloca diante de nós, agora em circunstâncias mais severas, pois o guardião dos nossos direitos, o STF, nunca esteve tão fraco e envergonhado.

Esquema bolsonarista define eleição no Rio

No Rio de Janeiro, a política é um negócio de família. O método genealógico –uma tradição na história brasileira, basta lembrar dos Andradas de Minas Gerais, que atuam desde antes da declaração de independência do país – domina as relações de poder na atual sociedade fluminense, aí incluídas as igrejas evangélicas e as milícias.

A partir de 2018 o clã Bolsonaro – em torno do qual gravitam os clãs menores– instalou no estado uma espécie de novo chaguismo, sistema baseado no uso da máquina e no desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos e a obtenção de imbatível vantagem eleitoral.


Depois de Wilson Witzel e de Cláudio Castro, ambos marcados por denúncias de corrupção, a bola da vez para assumir o governo é Douglas Ruas, filho do PM reformado Capitão Nelson, que desde 2021 é prefeito de São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado. Nelson é suspeito de ter comandado um "carro da linguiça", expressão usada no Rio para se referir a veículos clandestinos a serviço de grupos de extermínio que agem em áreas periféricas.

Quatro vezes prefeito da capital, Eduardo Paes, em seu sonho de se tornar governador, tentou neutralizar o esquema bolsonarista nos municípios da Baixada Fluminense – um retrato sem filtro do Rio de Janeiro, com imóveis de alto padrão, onde vivem empresários e caciques eleitorais, a poucos metros de barracos ocupados por famílias sem a sorte e a esperteza de ter entrado para a política ou arranjado os contatos certos.

Paes fez um acordo com o dono de Duque de Caxias. Para vice na chapa, indicou Jane Reis, irmã de Washington Reis, ex-secretário de Castro e o homem que conseguiu o certificado de vacina falso para Bolsonaro. Reis elegeu os dois irmãos, Rosenverg e Gutemberg — o primeiro para a Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e o segundo para a Câmara dos Deputados —, mas deu um perdido no aliado. Douglas Ruas teve 50% dos votos válidos em Caxias. Na vizinha Nova Iguaçu, domínio da família Canella, quase 60%.

Para vencer, Ruas não precisava da canetada do Tribunal Superior Eleitoral nem da confusão armada de propósito pelo velho Garotinho.

Poder e saber

O eleitorado brasileiro decidiu aposentar a geração de 1988. Este time foi para casa. Seus últimos representantes são José Sarney e Luís Inácio Lulas da Silva. Um, curado de uma pneumonia aos 96 anos, faz ginástica todos os dias, está distante da política. O outro, aos 81 anos, tentou sem sucesso a recondução à Presidência da República no primeiro turno. Junto com eles, mais de trinta nomes expressivos na política foram mandados para casa. Foi um massacre.

Vou citar alguns: Gleisi Hoffmann, José Dirceu, Aécio Neves, Fernando Haddad, Simone Tebet, Marina Silva, Roseana Sarney, Ciro Nogueira, Benedita da Silva, Requião Filho, Randolfe Rodrigues, Jorge Viana, Manuela d’Ávila, Érika Kokay, Tulio Gadelha, Paulo Pimenta, Vicentinho, Tiririca, Marcelo Crivella, Soraya Thronicke, Renan Filho e Renan Calheiros. A lista é abrangente. Não respeita idade, partido político ou orientação ideológica. Junto com esta turma, alguns comentaristas na televisão e nos jornais ficaram falando sozinhos. Não perceberam o que estava acontecendo debaixo de seus respectivos narizes


Eleição é sempre uma surpresa. No caso brasileiro, a surpresa veio pelo péssimo serviço prestado pelos institutos de pesquisa que fizeram previsões completamente equivocadas: no Rio de Janeiro, Douglas Ruas chegou muito perto de vencer no primeiro turno, quando os institutos indicavam vitória tranquila de Eduardo Paes. No plano nacional, Flavio Bolsonaro quase foi eleito no primeiro turno, contra, também, todas as previsões das instituições que supostamente mediam as intenções do eleitorado. Tudo errado. Além disto, 183 deputados foram eleitos em primeiro mandato para a Câmara dos Deputados. Outra surpresa.

O Partido Liberal passou a ter 28 representantes no Senado. Junto com seus aliados, a atual oposição deve contar com 49 votos capazes de modificar o texto da Constituição e, se quiser, promover o impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal. Sob este aspecto a eleição já terminou. Não há segundo turno para escolha de integrantes do Congresso. A oposição fez a maioria. O que faz supor que, junto com a aposentadoria de uma geração, acabou, também o sonho da social-democracia brasileira. A direita que vem prevalecendo no mundo ocidental mostrou suas armas no Brasil.

O eleitorado fez sua opção. Quer um país com menos governo e mais desenvolvimento. Menos burocracia e mais ação de empresários. Menor taxa de juros e desenvolvimento rápido. O presidente Lula e seu partido demonstravam estarem perigosamente plantados nas ideias econômicas dos anos sessenta, do crescimento baseado na intervenção do estado. Mas, as empresas estatais apresentam enorme ineficiência e déficits orçamentários monstruosos. A sociedade percebeu o problema.

A eleição presidencial só vai terminar no final deste mês. Lula e sua equipe vão ter que suar a camisa e ter muita imaginação para reverter a votação e fazer a maioria. Não é fácil. Será necessário mergulhar numa autocrítica rigorosa, calçar as sandálias da humildade e enxergar a realidade. O brasileiro melhorou de vida nos últimos anos e pretende se credenciar para novas conquistas. O país precisa abrir novas fronteiras de trabalho, criar melhores expectativas de emprego e fazer a economia crescer, de fato, além dos discursos triunfalistas pronunciados no Palácio do Planalto. O mundo informatizado, regido por decisões rapidíssimas, exige competência, conhecimento e cultura. É o século 21 que chegou ao Brasil.

Flávio Bolsonaro tem a seu lado um personagem interessante, Rogério Marinho, neto do saudoso Djalma Marinho, que marcou com honradez sua passagem pela Câmara dos Deputados. Ele se recusou a fazer a vontade dos militares e renunciou à presidência da Comissão de Constituição e Justiça para não abrir processo contra o deputado Márcio Moreira Alves. Isto aconteceu em 1968, antes da decretação do Ato Institucional número 5. O senador do Rio Grande do Norte pode fazer a diferença. Ele já procurou ministros do Supremo Tribunal Federal para dizer que não haverá revanche. Ou seja, seu grupo não está preocupado em promover uma vingança, mas sim em governar.

Neste quesito aparece uma enorme interrogação. Flávio Bolsonaro, filho de Jair, vai querer a presença de seu pai na sua solenidade de posse, se vencer. Será o primeiro impasse. O outro vai ocorrer naturalmente. Ele é filho de Jair, fala muito e não costuma refletir sobre palavras e atos. No início do governo Bolsonaro, os militares achavam que poderiam controlar Jair. Não controlaram e ele meteu os pés pelas mãos. Tentou o golpe depois de perder a reeleição. Flávio não tem experiência administrativa, equipe, saber jurídico ou vivência política para exercer as funções de Presidente da República. É um noviço. Se for eleito, ficará na difícil posição do líder que pode mais do que sabe.

A escolha de um governante é o espelho dos valores de uma sociedade

Está tudo aí, à mostra. Ninguém poderá dizer que não viu. A verdade é que quase todo mundo enxerga o cenário real, mas uma grande parte concorda com o que lhe é oferecido — ou simplesmente não se incomoda.

Foi exatamente assim que, em 2018, Jair Bolsonaro — um deputado do baixo clero que passou duas décadas na Câmara sem grande relevância — se elegeu presidente da República. O que ele prometia? Derrubar o sistema. Para quê? Para pôr outro no lugar. Qual? Ele nunca dizia. Como resultado, seu governo terminou com uma tentativa de golpe de Estado.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, não fala em derrubar o sistema. Até porque ele é o candidato do próprio sistema, aquele que deseja que tudo permaneça exatamente como está.


Esse projeto político ignora o debate sobre justiça social, rejeita a redução da jornada de trabalho e desidrata os investimentos em programas sociais. Mais do que isso: jamais aceitará que os mais ricos paguem impostos proporcionais, mantendo a conta mais pesada sobre os ombros dos mais necessitados. Os Estados Unidos são o espelho dessa linha de pensamento; a Argentina de Javier Milei também.

A escolha de um governante é o reflexo mais nítido dos valores de uma sociedade. Se formos capazes de conduzir à Presidência da República uma figura pública com o histórico de Flávio — formalmente investigado pelo STF no caso Dark Horse sob suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e corrupção, além de carregar um histórico de notórias ligações com milicianos —, essa decisão não poderá ser entendida como um deslize. É tudo, menos isso.

Em uma era hiperconectada, o argumento da ignorância perdeu completamente a validade. Detalhes sobre repasses financeiros e movimentações sob a lupa da Polícia Federal são de amplo conhecimento público.

Portanto, um eventual triunfo eleitoral desse projeto não decorrerá de imprevidência, engano ou falta de informação. Será, sim, um endosso consciente e deliberado. A responsabilidade final não recairá apenas sobre quem governa, mas sobre a própria coletividade que escolheu o autoengano, provando que uma nação acaba tendo o governo que tolera e merece.

O espírito de Ekuikui

A democracia é, antes de mais nada, um exercício de escuta. Aprender a escutar o outro — aquele que não pensa como nós — deveria ser uma disciplina obrigatória no ensino básico.

Infelizmente, mergulhamos num tempo em que pouca gente se esforça para praticar a escuta, a empatia, a alteridade. Vemos até pessoas muito influentes, como Elon Musk, condenando a empatia, encarada como uma espécie de falha civilizacional: “A fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”, disse o empresário, assim mesmo, com todas as letras. Segundo ele, a empatia pode ser utilizada como uma arma contra a própria sociedade.

A frase de Musk resume muito bem a ideologia da direita mais radical, que vem conquistando terreno nas Américas e na Europa. Suspeito que será lembrada e discutida por muito tempo.


E assim avançamos (ou recuamos), cegos e surdos, dispostos a escutar apenas aqueles que confirmam nossos próprios preconceitos.

Seria bom se os brasileiros conseguissem aproveitar os próximos dias — estes dias de grande tensão antes do segundo turno das eleições presidenciais — para se olharem nos olhos e se escutarem.

Ambos os lados falam na necessidade de “virar voto”. Porém, como conseguiremos convencer alguém a “mudar de opinião” se não o escutarmos?

José Saramago, a propósito, dizia que tentar convencer alguém lhe parecia uma falta de respeito, uma tentativa de colonização do outro. Compreendo o que pretendia dizer, embora não concorde inteiramente com ele. Afinal, o debate de ideias é essencial à democracia. O que me parece uma pequena brutalidade — no mínimo, uma descortesia — é tentar persuadir alguém sem antes nos darmos ao trabalho de escutá-lo. Incomoda-me a arrogância de quem entra numa discussão não para escutar, mas apenas para vencer. Quem não admite a possibilidade de estar equivocado não quer conversar — quer discursar.

Conta-se que Ekuikui II, que governou o reino do Bailundo, no centro de Angola, no fim do século XIX, pouco antes da ocupação portuguesa, gostava de se transformar em toupeira para escutar as queixas de seus súditos. O rei ovimbundo não estava interessado nos elogios, e sim nas reclamações. Imagino-o avançando pelo subsolo, de casa em casa, com os pequenos ouvidos atentos às conversas de seus súditos. Ao contrário de tantos outros soberanos, que se rodeavam de aduladores, Ekuikui procurava aqueles que tinham razões para estar descontentes. Sabia que não aprendemos nada com quem se limita a nos aplaudir.

O espírito de Ekuikui me parece fundamental no momento atual. Não basta falar para aqueles que já nos escutam. É preciso ter a coragem de procurar os que discordam de nós, ouvir atentamente suas razões, compreender seus receios. A gentileza não pode ser confundida com fraqueza. É uma maneira de manter aberto o diálogo, mesmo quando tudo parece convidar ao confronto.

Há dois pensamentos distintos nestas eleições — um acredita que a empatia é uma peça fundamental no avanço das civilizações; o outro pensa o contrário. Se a democracia vencer — como espero que aconteça — será através de um forte reforço da empatia.

O que está vir, caso Flávio Bolsonaro seja eleito

Pelo menos desde a publicação de "Como as democracias morrem", de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, sabemos que mudanças repentinas da ordem política – por golpes militares, revoluções ou invasões externas – deixaram de ser a via esperada do colapso da democracia. Exemplo disso foi o fracasso do golpe de Jair Bolsonaro, em janeiro de 2023. Democracias também morrem lentamente, pela mão dos próprios eleitos, que pouco a pouco corroem a distribuição institucional do poder e os procedimentos deliberativos de tomada de decisão, que possibilitam alguma convergência ou, ao menos, convivência onde há divergência. Morrem pela coerção ou cooptação da oposição, dos órgãos de controle, dos tribunais e das Forças Armadas, ou ainda pela mudança das regras do jogo em favor dos eleitos. A erosão é difícil de perceber por ser gradual, por manter a aparência de legalidade. Este será, possivelmente, o caminho de Flávio Bolsonaro.


Ao contrário do pai, Flávio estará, se eleito, a poucos votos de uma maioria qualificada nas duas Casas do Congresso. Conforme mostra o gráfico que acompanha este texto, faltam apenas 4 votos no Senado e 56 na Câmara para que a extrema direita e a direita alcancem o quórum de 2/3, último recurso estabelecido pela Constituição Federal para assegurar a estabilidade institucional. A maioria de 3/5 já a possuem no Senado. Chegar aos 2/3 em ambas Casas seria factível, pois os ministérios e o orçamento da União se consolidaram como veículos do presidencialismo de coalizão. Para que o leitor tenha a dimensão disso: são necessários 3/5 dos votos para aprovar emendas à Constituição – lembre-se da emenda da reeleição, no governo FHC – e 2/3 para o impeachment do presidente da República e de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Para a cassação de congressistas, basta a maioria absoluta. Isso significa que, seja qual for o resultado de 25 de outubro, o equilíbrio entre os Poderes estará nas mãos dos conservadores. 

Dada essa configuração de forças, o que pode acontecer em um eventual governo de Flávio Bolsonaro? A seguir, apresento algumas tendências que julgo razoáveis. Não tratarei de medidas de curto alcance, como a concessão de indulto presidencial ao pai e aos militares condenados pelo 8 de janeiro. Mais importante é antecipar possíveis mudanças estruturais, que surtiriam efeitos a longo prazo.

Instituir uma democracia restrita, de mando autoritário 

Recentemente, Flávio Bolsonaro disse publicamente que pretende alterar a Constituição. O que pretende fazer? Propõe a redução da maioridade penal, a restrição das atribuições dos ministros do STF, o fim da reeleição, entre outras medidas. No entanto, a julgar pelos autos, não pelas falas, é razoável supor que buscará prolongar-se no poder. A família Bolsonaro tentou um golpe de Estado, mesmo sem amplo apoio no Congresso. A mesma maioria que permitiria acabar com a reeleição, permitiria também eliminar o limite de dois mandatos consecutivos para cargos do Executivo. Isso aproximaria o presidencialismo brasileiro da Venezuela, de El Salvador e da Nicarágua, ou ainda da Indonésia de Suharto, que se reelegeu sucessivamente por trinta anos. Flávio tem 45 anos. Caso o custo político de um “golpe branco” como esse seja excessivo, resta ainda a opção da alternância no poder entre pai e filho, entre filhos e agregados.

Controle do STF, sem necessidade de cabo nem soldado 

Atualmente, a extrema direita tem dois ministros na Corte (Kassio Nunes Marques e André Mendonça). O próximo presidente nomeará quatro ministros, o que, somado aos dois atuais, lhe garantiria maioria absoluta até o fim do mandato: seis dos onze votos. Além disso, com 2/3 do Senado, Flávio Bolsonaro poderá manter a Corte sob coerção, sob ameaça de impeachment. Não seria surpreendente se, caso eleito, aventasse, já no primeiro ano de mandato, o impedimento de Alexandre de Moraes, não apenas como filius patris inspirado pela lei de talião, mas também, e sobretudo, como demonstração de poder. É preferível ser temido, quando não se pode ser amado – nos ensinou Maquiavel. Se isso acontecer, a extrema direita terá nomeado sete ministros até 2030.

Hegemonia cultural

O Estado é reprodutor e gerador de valores e símbolos. Reproduz e transforma o que é aceitável. Isso se deve não apenas ao alcance da voz daqueles que passam a representar a vontade coletiva, mas também, e sobretudo, à criação de leis e à sua aplicação na vida cotidiana. Com o controle da Presidência, do Congresso e do STF, a extrema direita terá as condições institucionais para consolidar o evangelismo como convenção cultural e, em última instância, como ideologia hegemônica. Nesse processo, poderão contar com a vasta rede do Partido Digital Bolsonarista – ver o trabalho recente de Marcos Nobre – e a imprensa evangélica, cuja influência tenderá a crescer. Segundo o último Censo do IBGE (2022), evangélicos somam 26,9% dos brasileiros, e se considerarmos o caráter combativo de algumas denominações, é provável que intolerância religiosa e conflitos dela decorrentes – como a recente polêmica em torno à Nossa Senhora Aparecida – cresçam em frequência e intensidade.

A milícia como organização político-econômica paramilitar

Milícias não são apenas organizações criminosas que praticam contrabando, extorsão ou tráfico de drogas. Foram formadas por agentes de segurança do Estado (sobretudo policiais) e detêm o controle econômico do território: cobram “taxa de segurança”, vendem botijões de gás, organizam o transporte e o mercado imobiliário. O controle, no entanto, não se restringe à atividade econômica, converte-se também em voto, em curral eleitoral – como mostra Bruno Paes Manso em "A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro"; ver também os relatórios do GENI/UFF e do Observatório das Metrópoles. Pode-se dizer, apesar das diferenças de contexto, que a milícia é uma forma urbana e criminosa de coronelismo – sobre o qual a análise canônica é a de Victor Nunes Leal. A milícia é uma organização econômica de mando político paramilitar. Se eleito, Flávio poderá contar com o apoio de dez governadores eleitos – e, potencialmente, de outros sete, dependendo do resultado do segundo turno – e das respectivas polícias militares e civis. Em conjunto, o controle do orçamento federal e o apoio dos estados poderão favorecer a expansão nacional do modelo de controle político-econômico que o candidato consolidou no Rio de Janeiro, estado governado por aliados da família desde 2019. Se isso acontecer, as milícias passarão por um processo de institucionalização nacional, que as unificará sob o comando centralizado do governo federal, podendo consolidar-se como polícia política.

Controle geopolítico estadunidense

Com maioria qualificada no Congresso, o alinhamento do Brasil aos EUA se tornará estrutural e perdurará nos próximos governos, por meio da atuação de empresas estadunidenses em território nacional. Como na Venezuela, isso significará a cessão de parte de nossa soberania e a continuidade de uma posição periférica.

Direta ou indiretamente, Jair e Flávio Bolsonaro verbalizaram cada uma das tendências acima. Se em algo sempre foram honestos, foi sobre suas intenções autoritárias e à submissão aos EUA. Identificar essas tendências tem o propósito de ajudar a nós, democratas, a nos preparar para o que está por vir. O que fazer?

Para responder a essa pergunta, precisamos entender o que nos levou até aqui. Como foi possível que, depois do sofrimento coletivo causado pela pandemia de covid-19, dos escândalos sucessivos de corrupção envolvendo a família, do apoio consistente e público a milícias e do culto aberto à violência, os Bolsonaro tenham mantido tamanha força eleitoral? Certamente, “plataformização” do trabalho, ressentimento e sonho das classes populares são elementos importantes – sobre isso, ver o artigo recente de Rosana Pinheiro-Machado. A isso, acrescentaria uma mudança estrutural: de modo semelhante ao que aconteceu com a generalização do acesso ao rádio e à televisão ao longo do século XX, a comunicação digital alterou as formas de socialização e de integração social, e com elas, o modo como ideologia e, em particular, vontade política são construídas. Entre os deputados federais mais votados, por exemplo, há jovens com forte presença nas redes sociais. O “influenciador” parece ter se tornado a nova liderança de bairro. Além disso, tendo em vista o êxito eleitoral dos conservadores nos estados, a comunicação digital parece anunciar uma centralização ideológica mais ampla, na qual líderes regionais perdem força.

Estevão Bosco, Pró-Reitor da Universidade Americana do Mediterrâneo (Espanha).

Vivemos em apneia

Hannah Arendt trouxe para a discussão uma expressão que ainda hoje nos obriga a pensar: a banalidade do mal. Não porque o mal seja banal, mas porque podemos chegar a um ponto em que certas realidades, de tão repetidas, deixam de nos provocar o espanto necessário para as questionarmos.

Talvez valha a pena olhar para o nosso tempo a partir de uma inquietação semelhante: estaremos a banalizar o conceito de crise?


Vivemos uma crise da habitação, uma crise energética, uma crise ambiental, uma crise inflacionária, uma crise demográfica, uma crise cultural. A palavra tornou-se omnipresente. Quase tudo parece estar em crise.

Mas o que é, afinal, uma crise?

A palavra pressupõe uma rutura. Algo interrompe um estado anterior, considerado normal, e obriga-nos a reagir. A crise seria, portanto, uma espécie de desvio à norma.

Mas quem constrói essa norma?

Michel Foucault mostrou-nos que a norma não é simplesmente aquilo que existe antes de nós. É construída, produzida e reproduzida por instituições, discursos e relações de poder. E esta ideia é particularmente importante quando olhamos para a forma como descrevemos o presente.

Será que estamos perante uma crise da transformação digital ou perante uma transformação profunda da sociedade que ainda não aprendemos a acompanhar? Será uma crise do trabalho ou uma mudança estrutural na forma como trabalhamos? Será uma crise demográfica ou o resultado de uma sociedade que mudou e para a qual continuamos a responder com modelos pensados para outra realidade?

Não se trata de negar as crises. A dificuldade em pagar uma casa não é uma construção discursiva. A pobreza não é uma metáfora. As alterações climáticas não deixam de existir porque lhes mudamos o nome. A questão é outra: o que acontece quando passamos a interpretar quase tudo através da ideia de crise?

Talvez comecemos a viver num estado permanente de alerta. Uma espécie de apneia coletiva.

Não temos tempo para respirar entre uma emergência e a seguinte. Reagimos. Corrigimos. Anunciamos. Regulamos. Criamos medidas. Respondemos à urgência.

E, nesse movimento permanente, podemos perder a capacidade de distinguir o essencial do acessório.

É aqui que a palavra crise pode tornar-se perigosa. Não necessariamente porque esconda os problemas, mas porque pode tornar-nos excessivamente reativos. Uma sociedade em permanente estado de emergência pode tornar-se muito competente a apagar fogos e extraordinariamente incompetente a perguntar por que razão estão sempre a surgir incêndios.

Também os governos podem ficar presos nesta lógica. Entre a urgência mediática, a pressão social e a necessidade de apresentar respostas imediatas, corre-se o risco de mergulhar no acessório enquanto o essencial permanece à superfície.

A crise da habitação, por exemplo, não é apenas uma questão de preços. É uma questão de modelo económico, território, emprego, mobilidade, demografia e condições de vida. A crise demográfica não se resolve apenas com incentivos à natalidade. A transformação digital não se resolve apenas comprando tecnologia. E a crise ambiental não se resolve apenas acrescentando novas regras a um modelo que talvez precise de ser profundamente repensado.

Talvez precisemos de menos respostas para cada crise e de mais capacidade para compreender as transformações que estão por detrás delas. Porque talvez algumas das coisas a que chamamos crises sejam, na verdade, mudanças de paradigma que ainda insistimos em medir com as ferramentas do mundo anterior.

E talvez esta seja uma das grandes dificuldades do nosso tempo: confundimos a perda da normalidade com a necessidade de regressar a ela.

Mas e se essa normalidade já não existir? E se o mundo estiver, simplesmente, a mudar?

Nesse caso, insistir em chamar crise a tudo pode ser uma forma confortável de adiar a pergunta verdadeiramente difícil: que sociedade queremos construir a partir daqui?

Talvez precisemos de voltar a respirar. De parar, por momentos, a sucessão de emergências e olhar para aquilo que permanece quando a espuma baixa. Porque uma sociedade não pode viver eternamente em apneia.

E talvez a verdadeira urgência do nosso tempo seja precisamente esta: deixar de correr atrás de todas as crises para começar a decidir, com alguma lucidez, o que é realmente essencial.

O poder de decidir uma vida melhor

Quem trabalha na assistência social conhece bem essa cena: a mulher chega ao CRAS com os documentos numa pasta, a criança no colo e as contas do mês calculadas de cabeça. Às vezes fala baixo, pede desculpas por estar ali e faz questão de explicar que trabalha, que não está pedindo favor. Depois de tantos anos nessa profissão, aprendi a reconhecer o peso desse constrangimento. É como se, ao acessar um direito, alguém fosse obrigado a se justificar. 

Essa mulher não deve nada a ninguém. Muitas vezes, trabalha na informalidade e faz o recurso recebido render até o fim do mês como pode. Além disso, cuida dos filhos, dos netos, da mãe idosa ou de alguém da família com deficiência. São mulheres que fazem um trabalho essencial, mas que quase nunca é reconhecido como trabalho. Também são mães que deixam o emprego para acompanhar terapias, consultas e a vida escolar dos filhos. Para muitas famílias, o BPC é o que permite manter esse cuidado. No caminho, enfrentam filas, cadastros, perícias e preconceito. Não precisam de julgamento. Precisam ter seus direitos respeitados.


E essas mulheres também são eleitoras. Na urna, o voto delas vale tanto quanto o de um empresário, de um deputado ou de qualquer outra pessoa. Mesmo assim, ainda se tenta convencer quem vive com pouco de que política não é assunto seu, de que tanto faz quem ganha ou que o benefício vai continuar de qualquer jeito. Não é assim que funciona.

O Bolsa Família e o BPC são direitos construídos com a Constituição de 1988, e com muita luta social. Ninguém precisa agradecer a um governante por receber aquilo a que tem direito. Mas é preciso saber que o valor do benefício, as regras de acesso e o dinheiro destinado às políticas sociais dependem de decisões de quem governa e de quem legisla. Isso vale para o Bolsa Família, para o BPC e também para políticas como a Farmácia Popular, as creches e o Pé-de-Meia.

Em 2023, o governo Lula recriou o Bolsa Família, com valor mínimo de R$600 e adicionais de R$150 por criança de até 6 anos e de R$50 para gestantes, nutrizes e crianças e adolescentes de 7 a 18 anos. A Lei nº 14.601/2023, também estabeleceu a correção periódica dos valores e a proibição de reduzi-los. Neste mês, segundo os dados apresentados pelo governo, o reajuste de 15,04% recompõe a inflação acumulada desde 2023, e eleva o piso para R$691. Foi também o governo Lula que criou o Pé-de-Meia, uma poupança para incentivar jovens de baixa renda a permanecer no ensino médio. Retomou o Farmácia Popular, para que as pessoas não decidam entre um remédio ou a mistura do mês. Essas medidas não aconteceram por acaso. Foram escolhas políticas.

O outro campo também tem um histórico que precisa ser lembrado. Em 2019, o governo Jair Bolsonaro apresentou uma reforma da Previdência que previa elevar para 70 anos a idade de acesso ao BPC e desvincular o benefício do salário mínimo. O Congresso barrou esses dois pontos. Em 2022, durante a campanha, Bolsonaro prometeu manter os R$600, mas enviou um orçamento para 2023, com valor médio de R$405 para o Auxílio Brasil.

Naquele mesmo ano, Flávio Bolsonaro, seu filho, votou contra a PEC da Transição, que abriu espaço no orçamento para o Bolsa Família de 2023. Agora, sua campanha anuncia um corte de cerca de R$190 bilhões já no primeiro ano, sem explicar de onde virá a economia. Ele ainda promete uma PEC de corte de gastos na transição. Uma medida assim pode atingir políticas sociais e direitos que hoje estão protegidos, entre eles, o BPC vinculado ao salário mínimo.

O PL também tem demonstrado claramente sua posição sobre quem recebe benefícios. No Rio Grande do Sul, em Bento Gonçalves, durante a gestão do prefeito Diogo Siqueira (PL), hoje deputado federal eleito, foi aprovada uma lei que prevê corte do benefício e multa de R$7,2 mil para famílias com cadastro irregular. O número de famílias que recebem Bolsa Família no município caiu de 2.115 para 1.266, entre novembro de 2024 e abril de 2026.

A Defensoria Pública da União questionou a lei. O deputado gaúcho Bibo Nunes, também do PL, é autor de uma proposta de emenda à Constituição que proíbe pessoas que recebem Bolsa Família de votar em ano eleitoral. Jair Bolsonaro já chamou o programa de “compra de votos” e seus beneficiários de “eleitores de cabresto”; Flávio Bolsonaro usou o apelido “bolsa-farelo”. São falas que tratam essas famílias com desconfiança e desrespeito, como se fossem cidadãs menores e com menos direitos que as outras.

A vida de muitas famílias melhorou, mas ainda há muita coisa para ser resolvida. O preço dos alimentos ainda pesa, o trabalho é instável e o acesso aos serviços públicos nem sempre funciona como deveria. Quem vive essa realidade sabe disso melhor do que ninguém. As mulheres que atendi não querem depender de benefício para sempre: querem trabalho digno, uma casa segura e a possibilidade de ver os filhos chegarem à universidade. O benefício ajuda a atravessar o presente e a construir outros caminhos. Para isso, precisamos avançar, não começar cortando justamente o que o País mais precisa. É por isso que defendo a continuidade do projeto de Lula.

No primeiro turno, 33,4 milhões de pessoas deixaram de votar, a maior abstenção desde 1998. A diferença entre os dois candidatos ficou em cerca de 2,2 milhões de votos. Entre as famílias de baixa renda, faltar à votação nem sempre é desinteresse. Pode ser a distância até a seção eleitoral, a falta de ônibus no domingo, a dificuldade de deixar as crianças com alguém ou o medo provocado por boatos. Quando essas mulheres não conseguem votar, outras pessoas acabam decidindo também sobre o futuro delas. Quando vão à urna, exercem o direito de escolher por si mesmas.

Por isso, é importante repetir: o voto é secreto e nenhum benefício depende de votar em determinado candidato. Ninguém na prefeitura, no CRAS, na igreja ou no trabalho tem como saber em quem uma pessoa votou. Constranger alguém por causa do voto pode configurar crime eleitoral. Quem não votou no primeiro turno pode votar no segundo. No dia 25, a votação será das 8h às 17h. Basta levar um documento oficial com foto. O transporte público será gratuito em todo o país.

Quem recebe benefício não vota por gratidão nem por cabresto. Vota a partir da própria experiência e do que vive dentro de casa. Vota pelo futuro que deseja para a sua família. No dia 25, essa escolha está nas mãos de cada eleitora. Pela mãe, pela filha, pela neta e por si mesma. Ninguém pode decidir por ela. Para continuar avançando na proteção social, meu voto é Lula.