domingo, 11 de outubro de 2026

Vivemos em apneia

Hannah Arendt trouxe para a discussão uma expressão que ainda hoje nos obriga a pensar: a banalidade do mal. Não porque o mal seja banal, mas porque podemos chegar a um ponto em que certas realidades, de tão repetidas, deixam de nos provocar o espanto necessário para as questionarmos.

Talvez valha a pena olhar para o nosso tempo a partir de uma inquietação semelhante: estaremos a banalizar o conceito de crise?


Vivemos uma crise da habitação, uma crise energética, uma crise ambiental, uma crise inflacionária, uma crise demográfica, uma crise cultural. A palavra tornou-se omnipresente. Quase tudo parece estar em crise.

Mas o que é, afinal, uma crise?

A palavra pressupõe uma rutura. Algo interrompe um estado anterior, considerado normal, e obriga-nos a reagir. A crise seria, portanto, uma espécie de desvio à norma.

Mas quem constrói essa norma?

Michel Foucault mostrou-nos que a norma não é simplesmente aquilo que existe antes de nós. É construída, produzida e reproduzida por instituições, discursos e relações de poder. E esta ideia é particularmente importante quando olhamos para a forma como descrevemos o presente.

Será que estamos perante uma crise da transformação digital ou perante uma transformação profunda da sociedade que ainda não aprendemos a acompanhar? Será uma crise do trabalho ou uma mudança estrutural na forma como trabalhamos? Será uma crise demográfica ou o resultado de uma sociedade que mudou e para a qual continuamos a responder com modelos pensados para outra realidade?

Não se trata de negar as crises. A dificuldade em pagar uma casa não é uma construção discursiva. A pobreza não é uma metáfora. As alterações climáticas não deixam de existir porque lhes mudamos o nome. A questão é outra: o que acontece quando passamos a interpretar quase tudo através da ideia de crise?

Talvez comecemos a viver num estado permanente de alerta. Uma espécie de apneia coletiva.

Não temos tempo para respirar entre uma emergência e a seguinte. Reagimos. Corrigimos. Anunciamos. Regulamos. Criamos medidas. Respondemos à urgência.

E, nesse movimento permanente, podemos perder a capacidade de distinguir o essencial do acessório.

É aqui que a palavra crise pode tornar-se perigosa. Não necessariamente porque esconda os problemas, mas porque pode tornar-nos excessivamente reativos. Uma sociedade em permanente estado de emergência pode tornar-se muito competente a apagar fogos e extraordinariamente incompetente a perguntar por que razão estão sempre a surgir incêndios.

Também os governos podem ficar presos nesta lógica. Entre a urgência mediática, a pressão social e a necessidade de apresentar respostas imediatas, corre-se o risco de mergulhar no acessório enquanto o essencial permanece à superfície.

A crise da habitação, por exemplo, não é apenas uma questão de preços. É uma questão de modelo económico, território, emprego, mobilidade, demografia e condições de vida. A crise demográfica não se resolve apenas com incentivos à natalidade. A transformação digital não se resolve apenas comprando tecnologia. E a crise ambiental não se resolve apenas acrescentando novas regras a um modelo que talvez precise de ser profundamente repensado.

Talvez precisemos de menos respostas para cada crise e de mais capacidade para compreender as transformações que estão por detrás delas. Porque talvez algumas das coisas a que chamamos crises sejam, na verdade, mudanças de paradigma que ainda insistimos em medir com as ferramentas do mundo anterior.

E talvez esta seja uma das grandes dificuldades do nosso tempo: confundimos a perda da normalidade com a necessidade de regressar a ela.

Mas e se essa normalidade já não existir? E se o mundo estiver, simplesmente, a mudar?

Nesse caso, insistir em chamar crise a tudo pode ser uma forma confortável de adiar a pergunta verdadeiramente difícil: que sociedade queremos construir a partir daqui?

Talvez precisemos de voltar a respirar. De parar, por momentos, a sucessão de emergências e olhar para aquilo que permanece quando a espuma baixa. Porque uma sociedade não pode viver eternamente em apneia.

E talvez a verdadeira urgência do nosso tempo seja precisamente esta: deixar de correr atrás de todas as crises para começar a decidir, com alguma lucidez, o que é realmente essencial.

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