domingo, 25 de outubro de 2026

Data

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação.

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão.

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça.
Sophia de Mello B. Andresen

A personalidade autoritária: o fascínio pelo tirano

Theodor Adorno, filósofo e sociólogo alemão, grande estudioso do autoritarismo, investigou uma das contradições mais perturbadoras da democracia: a possibilidade de que indivíduos aparentemente comuns, educados dentro dos valores da família, da ordem e da moral, desenvolvam uma disposição para venerar líderes autoritários, perseguir os diferentes e aceitar a violência como instrumento de poder. Décadas depois, suas descobertas continuam a iluminar as raízes psicológicas do fascismo.


Há uma pergunta que as democracias deveriam fazer a si mesmas antes que seja tarde demais: como pessoas comuns, que se consideram decentes, trabalhadoras e moralmente corretas, podem apoiar líderes que desprezam a verdade, cultivam o ódio, humilham os mais frágeis e ameaçam as próprias instituições que as protegem?

A resposta não está apenas na propaganda, na manipulação das massas ou nas crises econômicas. Está também na estrutura psicológica de uma parcela da sociedade. Foi essa dimensão obscura da política que Theodor Adorno procurou compreender ao investigar a chamada personalidade autoritária.

Publicado em 1950, o estudo The Authoritarian Personality, desenvolvido por Adorno e seus colaboradores, procurava compreender as condições psicológicas que haviam tornado possível a ascensão do nazismo. A pergunta que orientava a investigação era tão inquietante quanto necessária: o fascismo é apenas uma ideologia imposta de cima para baixo ou encontra, em determinados indivíduos, uma predisposição íntima para prosperar?

Adorno identificou algo perturbador: o autoritarismo não depende necessariamente de pessoas que se reconheçam como cruéis. Pode prosperar entre aqueles que se consideram defensores da ordem, da tradição, da família e dos bons costumes. Seu perigo começa justamente quando a obediência se confunde com virtude, a submissão com caráter e a intolerância com defesa da moral.

Para compreender a personalidade autoritária, é preciso ir além da figura do tirano. O líder autoritário não governa apenas pela força. Ele também oferece aos seus seguidores uma recompensa psicológica: a sensação de pertencer a um grupo superior, de participar de uma missão histórica e de estar protegido por alguém que promete restaurar uma ordem supostamente perdida.

Em uma sociedade atravessada pela insegurança, pela desigualdade e pelo medo do futuro, essa promessa pode exercer enorme atração. O líder apresenta respostas simples para problemas complexos, identifica culpados, transforma adversários em inimigos e oferece aos seguidores uma identidade coletiva construída sobre a exclusão.

O indivíduo deixa de precisar enfrentar sozinho as ambiguidades do mundo. Basta acreditar, obedecer e marchar ao lado dos seus.

É nesse ponto que a análise de Adorno ganha profundidade. A personalidade autoritária tende a combinar submissão diante de figuras percebidas como fortes com agressividade contra aqueles considerados fracos, desviantes ou inferiores. Curva-se diante do poder e procura exercê-lo sobre quem não pode revidar.

A contradição é reveladora: o mesmo indivíduo que aceita humilhações de cima pode buscar compensação humilhando quem está abaixo. É como se, para esse indivíduo, o jogo domínio/submissão proporcionasse algum tipo de prazer perverso secreto.

Não se trata de uma regra universal nem de um diagnóstico aplicável indistintamente a todos os conservadores ou defensores da autoridade. Trata-se de uma disposição psicológica que, em determinadas condições sociais e políticas, pode favorecer a adesão ao autoritarismo.

O autoritário precisa fabricar um inimigo. Toda política autoritária necessita de uma ameaça. Quando os problemas reais não podem ser resolvidos com facilidade, o líder oferece um atalho: aponta um grupo que supostamente encarna a origem de todos os males.

O estrangeiro, o imigrante, o intelectual, o jornalista, o adversário político, a minoria religiosa ou sexual – a identidade do inimigo varia conforme a época e a conveniência. O mecanismo, porém, permanece reconhecível: atribuir a um grupo heterogêneo a responsabilidade por uma realidade que é complexa demais para caber em uma explicação única.

Adorno e seus colaboradores estudaram tendências como a submissão à autoridade, a agressividade autoritária, a adesão rígida a convenções e a disposição para pensar por estereótipos. Também investigaram a projeção: a tendência a atribuir aos outros impulsos, intenções ou características que o próprio indivíduo não consegue reconhecer em si mesmo – um mecanismo que está na própria base da psicologia humana.

A operação produz um alívio moral. O sujeito já não precisa examinar suas próprias contradições. O mal está sempre fora, instalado no outro. O inimigo passa a concentrar tudo aquilo que o grupo rejeita, teme ou não suporta reconhecer.

É assim que o preconceito deixa de ser apenas uma opinião e se converte em instrumento de organização política. O ódio oferece coesão. A hostilidade cria pertencimento. A perseguição passa a ser apresentada como defesa da comunidade.

Quando isso acontece, a violência pode adquirir uma aparência respeitável. Não se persegue alguém por crueldade, mas em nome da segurança. Não se silencia o adversário por medo da liberdade, mas para proteger a nação. Não se destrói o pluralismo por desprezo à democracia, mas para salvá-la de seus supostos inimigos.

A linguagem moral funciona, então, como disfarce para a intolerância.

A obediência que dispensa o pensamento: O autoritarismo não exige apenas fidelidade a um chefe. Exige, em sua forma mais perigosa, a renúncia progressiva à autonomia de julgamento.

O líder passa a determinar o que é verdade, quem merece confiança, quais instituições são legítimas e quais acontecimentos devem ser ignorados. Os fatos deixam de ser avaliados por sua consistência e passam a ser julgados segundo sua utilidade para o grupo.

Se favorecem o líder, são aceitos. Se o contradizem, tornam-se suspeitos, falsos ou parte de uma conspiração.

Nesse ambiente, a contradição não provoca reflexão: provoca raiva. A crítica não é recebida como contribuição ao debate público, mas como agressão pessoal. O adversário deixa de ser alguém que pensa de maneira diferente e passa a ser alguém cuja própria existência ameaça a identidade do grupo.

O resultado é uma espécie de terceirização da consciência. Em vez de perguntar se uma afirmação é verdadeira, o indivíduo pergunta quem a pronunciou. Em vez de avaliar se uma decisão é justa, pergunta se ela beneficia os seus. Em vez de reconhecer os limites do poder, exige que o poder seja exercido com ainda mais força.

A democracia, entretanto, depende exatamente do contrário: da capacidade de discordar, revisar convicções, reconhecer erros e aceitar que ninguém possui o monopólio da verdade.

Por isso, o problema da personalidade autoritária não se resume à preferência por governos fortes. Está também na dificuldade de conviver com a incerteza, com a diferença e com a liberdade alheia.

Há, nesse processo, uma ironia cruel. O indivíduo que não aprendeu a exercer a própria liberdade pode passar a temê-la nos outros. A autonomia alheia parece desordem; a diversidade, ameaça; a igualdade, perda de posição. Para restaurar a segurança que acredita ter perdido, ele procura autoridades capazes de impor limites a todos – especialmente àqueles que ousam viver de maneira diferente.

O autoritarismo revela, assim, uma relação contraditória com a liberdade: deseja a própria proteção contra a insegurança, mas frequentemente procura obtê-la restringindo a liberdade alheia.

O fascismo não precisa voltar com o mesmo rosto. O autoritarismo contemporâneo nem sempre se apresenta com uniformes, símbolos totalitários ou discursos abertamente ditatoriais. Pode vestir a linguagem da eficiência, da moralidade, da segurança pública, do nacionalismo ou da defesa dos cidadãos de bem.

Pode utilizar as eleições para chegar ao poder e, uma vez instalado, procurar desacreditar a imprensa, deslegitimar os tribunais, intimidar adversários e enfraquecer os mecanismos de controle. Pode explorar as redes sociais para multiplicar ressentimentos, transformar divergências em guerras morais e converter a mentira repetida em instrumento de mobilização.

O perigo não está apenas na existência de líderes dispostos a ultrapassar os limites democráticos. Está também na disposição de parcelas da sociedade para aplaudi-los quando prometem punir os inimigos escolhidos.

Há uma dificuldade que nenhuma sociedade pode ignorar: o autoritário raramente se percebe como tal. Ele costuma acreditar que está defendendo a ordem contra o caos, a moral contra a decadência, a pátria contra os traidores. Sua convicção de estar do lado do bem pode tornar ainda mais difícil reconhecer a violência que legitima.

É por isso que a pergunta fundamental não é apenas quem são os autoritários. É também quais condições permitem que o autoritarismo conquiste admiradores, se normalize e passe a ser confundido com coragem, liderança ou patriotismo.

Adorno nos convida a olhar para esse problema sem complacência. O fascismo não é somente uma ameaça externa que aparece de repente e se impõe a uma sociedade inocente. Pode encontrar terreno fértil em hábitos cotidianos de submissão, em preconceitos tolerados, na necessidade de encontrar culpados e na disposição de trocar a liberdade pela promessa de segurança.

O tirano precisa de poder para impor sua vontade. Mas precisa também de pessoas dispostas a transformar a obediência em virtude e o ódio em dever.

É nesse ponto que a democracia enfrenta sua prova mais difícil. Não basta impedir que o poder se torne absoluto. É preciso impedir que a sociedade passe a desejar a própria submissão – e a chamar de ordem o silêncio dos que já não podem discordar.

8 para Lula e 5 para Flávio. Se debate decidisse, “Nove Dedos” de lavada!

Todos querem saber quem venceu o debate. A resposta, para mim inequívoca, é esta: Lula. Pergunta a pergunta, deu as melhores respostas quando os temas eram específicos.

Foi Flávio a fazer um mea-culpa por seu voto contra a ampliação do tempo da licença-maternidade; foi Flávio a ter de confessar que estava errado sobre o Bolsa Família; foi Flávio a ter de se desculpar por ter chamado seu oponente de “Nove Dedos”, um epíteto infame que circula nas redes sociais para se referir ao petista.


O presidente, por seu turno, não teve de se pedir desculpa por nada. A cada resposta, bloco a bloco — exceção feita ao último, o dos 16 minutos, oito para cada candidato —, o filho de Bolsonaro foi, como se diz, “jantado” por seu adversário. E a razão é simples: o formato obrigava o candidato do PL a ser técnico; a deixar de lado a baixaria; a não incorrer na acusação vazia. Ficou evidente que ele não tinha noção exata do que falava.

Lula teve uma ligeira desvantagem, nada de grave, no último bloco, o do embate livre. A rigor, poderia ter sido até o mais fácil para ele. Falar à distância do evento, no conforto do sofá, é um tanto coisa de engenheiro de obra pronta. Eu mesmo não revejo meus programas porque sempre me ocorrem ideias melhores do que aquelas que articulei na hora, ao vivo, sem ponto.

Se o caso é lambança, quem pediu dinheiro a Vorcaro foi Flávio, não Lula; quem é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro é Flávio, não Lula; quem é sócio de Willer Tomaz, cujos bens acabam de ser tornados indisponíveis, é Flávio, não Lula.

Mas esse é sempre o território em que o presidente não consegue um desempenho exemplar porque tem uma cabeça talhada, vamos dizer, para as disputas de natureza política ou, como diriam os especialistas, para a economia política. Nesse terreno da desqualificação do adversário, não há dúvida de que o candidato do PL se sai melhor. Ele só não sabe o que fazer com o Brasil.

Um registro, para lembrar meus tempos de professor? Lula merece nota 8 — e não lhe dou 10 em razão do último bloco. Flávio fica com 5. E só não leva um 4,5 porque recorreu a um truque que também conheço daquela época: dizer impropriedades afetando dedicação e seriedade.

Se o desempenho no debate fosse sinônimo de vitória no domingo, o candidato à reeleição poderia se preparar para o próximo mandato. Mas quem decide é o eleitor. Espero que faça a coisa certa.