quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A eleição da desesperança

A eleição presidencial adentrou na casa dos brasileiros com o início da campanha na televisão, na internet e nas rádios. As sabatinas da TV Globo serviram para apresentar aos brasileiros os presidenciáveis, embora a maioria deles seja figurinha carimbada de outros carnavais. Ou melhor, de outras campanhas. Se entrou nos lares do Brasil, a eleição não encantou. Ao contrário, predomina um clima de apatia, desencanto e exaustão.


Poucas eleições presidenciais desde 1989 começaram com tamanho clima de desencanto. Naquele ano, o Brasil se reencontrou com a democracia e voltamos a eleger o presidente da República pelo voto direto e secreto. De lá para cá, tivemos momentos culminantes da afirmação, pelo voto, da soberania popular e de esperanças que se tornaram realidade, como o fim da inflação crônica e a construção de uma rede de proteção social. A grande diferença da corrida eleitoral atual é o baixo-astral e a desesperança.

Não se pode atribuir este fenômeno apenas ao mau humor dos brasileiros face ao endividamento de suas famílias. Há também a descrença de boa parte da população nas instituições e no próprio sistema representativo. Esses fenômenos têm aparecido em pesquisas que buscam entender a cabeça do eleitor que vai às urnas, e chama a atenção o descrédito com os três Poderes da República e a insatisfação com um Estado que arrecada muito e entrega à população serviços públicos de baixa qualidade.

Tudo isso é verdade, mas há um fator peculiar mais visível, constatado por diversos analistas. O país cansou da polarização que dividiu os brasileiros praticamente ao meio e instalou entre nós um clima de guerra permanente. Assim foi nas duas últimas eleições presidenciais e volta a repetir-se agora.

Essa é a eleição da rejeição. O voto não é definido por propostas para o futuro, mas por um sentimento punitivista, de um lado punir o outro. Entre as duas bolhas, há um oceano de eleitores que não se identificam com nenhum dos campos ideológicos, mas são atraídos para um dos polos pela força da inércia.

Em 2022, os riscos para a democracia representados pela reeleição de Bolsonaro levaram parte ponderável do eleitor independente e de centro a votar em Lula, ainda que o atual presidente não apresentasse nenhuma perspectiva de futuro e fosse mais do mesmo. Mas e agora? O voto vai ser definido por fantasmas do passado?

O Brasil pagou um preço imenso por uma polarização que já deu o que tinha de dar. Seu resultado mais deletério foi a desestruturação do amplo campo político que não se situava em um dos dois extremos, estabelecendo uma realidade binária esquerda-direita no cenário político nacional.

Lula e Flávio Bolsonaro representam, cada um a seu modo, a continuidade de uma polarização que já esgotou boa parte da sociedade. E, no meio, não apareceram alternativas capazes de se diferenciar e de romper as grades da jaula da polarização na qual os brasileiros estão aprisionados. No campo da direita mais moderada, seus candidatos continuam reféns da mentalidade do bolsonarismo, sem conseguir se diferenciar. E, no campo da esquerda, é Lula ou Lula.

Esse é o ponto. A polarização mobiliza militantes, mas tende a afastar o eleitor que não se identifica integralmente com nenhum dos polos. Numa eleição ditada pelo passadismo que não oferece esperanças para o futuro, esse contingente eleitoral pode simplesmente se abster ou anular o voto por sentir que nada muda em sua vida se ganhar um ou outro.

A ausência de um centro democrático orgânico abre espaço para outsiders, pois em política o espaço vazio, mais cedo do que se pensa, é preenchido por novos atores. A rápida visibilidade conquistada pela candidatura de Augusto Cury é um indício desse fenômeno. Em algumas pesquisas, já apareceu com dois dígitos na intenção de votos e em terceiro lugar.

Seria, portanto, uma leitura equivocada atribuir ao desinteresse pela política uma postura abstencionista do eleitor com esse perfil. Ela decorre da crise de alternativas aos dois polos existentes. Talvez o eleitor esteja menos decepcionado com a democracia do que desesperançado com as opções tradicionais que a política lhe oferece. Se os candidatos parecem representar apenas variações do passado, a eleição deixa de ser percebida como uma escolha de futuro.

O brasileiro não está necessariamente indiferente à política. Ele pode estar cansado de esperar. A esperança de que uma eleição produza uma grande mudança foi substituída pela expectativa de que o próximo governo apenas administre problemas que parecem insolúveis e perpetue o passado.

A desesperança não é, portanto, consequência da demanda. O eleitor quer ter esperança. O problema está na oferta. Está na falta de candidatos com mensagem capaz de fazer despertar nos brasileiros o sentimento de que o futuro pode ser diferente do presente.

Como reposicionar a América Latina na nova era geopolítica

A América Latina e o Caribe são vistos há muito tempo como uma região caracterizada por sua passividade em momentos de grande magnitude geopolítica e pressão hegemônica dos EUA. Um sinal disso é a fragilidade histórica da integração latino-americana .

Atualmente, observa-se também a ausência de uma voz comum e um aumento considerável da polarização na região, com crescentes divergências e incapacidade de articular interesses compartilhados. A falta de vontade política para agir coletivamente como região é claramente impulsionada pela polarização política e ideológica em nível nacional, o que não augura nada de bom para a superação dos conflitos entre os governos no poder.

Para estabelecer diretrizes para o posicionamento da América Latina diante dos desafios impostos pelo avanço da geopolítica no âmbito internacional, a CEPAL convocou a "Comissão sobre Geopolítica, Globalização e Desenvolvimento para a América Latina e o Caribe".

Copresidida pelos ex-presidentes Michelle Bachelet, do Chile, e Iván Duque, da Colômbia, e composta por figuras internacionais de destaque, esta Comissão apresentou recentemente um importante relatório intitulado "Rupturas e Oportunidades: Propostas para a América Latina e o Caribe Prosperarem na Nova Era Geopolítica". O relatório descreve os resultados de suas deliberações, que visam fomentar um debate público sobre os caminhos que a região pode e deve seguir para enfrentar estes tempos críticos.


A Comissão, acertadamente, partiu das rupturas sofridas pela chamada "ordem liberal internacional". O relatório aponta, entre outros aspectos, para uma globalização reconfigurada, na qual a eficiência econômica deu lugar à segurança, especialmente no que diz respeito à relocalização e à reestruturação das cadeias de valor internacionais.

Com a erosão do multilateralismo e as consequentes mudanças na governança global, emergiu uma competição multipolar entre as principais potências mundiais, levando ao colapso de muitas das regras que caracterizaram o multilateralismo nas últimas décadas. Nesse contexto, as aspirações da região de desenvolver força geopolítica tornaram-se particularmente evidentes, e sua capacidade de lidar com as rupturas da nova geopolítica global precisa agora ser debatida.

O subcontinente viu suas próprias vulnerabilidades aumentarem com o retrocesso da democracia e a crescente polarização política, acompanhados pelos efeitos da desinformação , que o relatório descreve como uma "crise da verdade", e pela deterioração do Estado de Direito. A América Latina, que no passado vivenciou seus próprios ciclos de oportunidade e potencial, agora enfrenta a perda de caminhos estabelecidos devido a uma reconfiguração do soft power (o declínio dos EUA e a ascensão da China), o rompimento do consenso sobre as mudanças climáticas e a erosão dos fundamentos da coexistência devido a imposições externas.

Com base nessas rupturas, o relatório oferece um diagnóstico oportuno e uma base viável para propor possíveis soluções em uma ordem futura caracterizada por sua natureza híbrida e volátil, e marcada por assimetrias significativas. Ao mesmo tempo, a Comissão conseguiu evitar a tentação de oferecer uma abordagem prescritiva para uma região de crescente heterogeneidade, onde cada país busca sua própria visão de futuro.

Para escapar das armadilhas tradicionais do desenvolvimento na região, como baixa capacidade de crescimento, alta desigualdade e capacidades institucionais limitadas que dificultam as reformas estruturais necessárias, o relatório identifica cinco categorias de ativos estratégicos com os quais a região pode se posicionar e fortalecer sua participação no cenário mundial.

Isso inclui a dotação de recursos naturais, capacidades produtivas, humanas e financeiras, influência política e o poder brando da região, que podem se tornar um trunfo graças à dimensão do seu mercado e à sua efetiva integração, caso a ação seja coletiva, mesmo que em formatos de geometrias variáveis.

Felizmente, o relatório evita a tentação de assumir uma transformação quase automática de ativos estratégicos em uma presença e agência internacional relevante para a região. Em vez disso, enfatiza a necessidade de tomar decisões para fortalecer a capacidade do Estado, restaurar a confiança institucional e aumentar a capacidade de resposta, bem como alcançar um consenso mínimo em cenários complicados pela polarização predominante. Menciona também o combate à expansão do crime organizado e às economias ilícitas como um desafio central.

A chave para ampliar as opções de ação da região reside na expansão da capacidade regional. Claramente, a única maneira de alcançar isso é por meio de estruturas flexíveis, evitando alinhamentos rígidos e preservando a flexibilidade baseada no desalinhamento ativo. Somente assim a América Latina poderá buscar seus interesses dentro da estrutura de responsabilidades setoriais, superando a ambição de sempre buscar a unanimidade, como era costume no passado.

Contudo, o relatório não pode ignorar a complexa realidade política da região, onde a falta de consenso capaz de sobreviver às mudanças de governo impede as transformações necessárias e a implementação de opções estratégicas para alcançar maior relevância global e impacto no atual cenário geopolítico. O valor do relatório da Comissão, e da própria CEPAL, reside precisamente em abrir o debate e apresentar possíveis caminhos não só aos governos, mas também ao setor privado, à academia e às organizações da sociedade civil.

Com a ditadura no bolso

Diante da hipotética possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial (afinal, está concorrendo), vamos a um rápido e razoável exercício de adivinhação sobre o que poderá acontecer. Na posse, como já prometeu, ele subirá a rampa do Planalto de braço com seu pai, um subitamente ágil e lépido Jair Bolsonaro, sem soluços e com os movimentos peristálticos funcionando. Ao receber a faixa das mãos de seu antecessor, não será surpresa se Flávio B. retribuir esse gesto democrático com uma cusparada no rosto do ex-presidente.


Como seu primeiro ato será assinar a anistia dos criminosos do 8/1, a cerimônia será abrilhantada pelos oficiais condenados por tentativa de golpe e assassinato de autoridades, adrede libertados das prisões onde cumpriam pena. Ao seu lado, na foto oficial, Antônio Cláudio Ferreira, destruidor do relógio de Dom João 6º, dona Fátima de Tubarão, hidrófoba senhora que ia "pegar o Xandão", e Fábio de Oliveira, que se sentou na cadeira do ministro no STF. Com os pés no assento do Rolls na carreata comemorativa, estará não apenas o 02 Carlos Bolsonaro, repetindo sua façanha de 2019, como o 03 Eduardo Bolsonaro, desembarcado em segredo naquela manhã.

O discurso de moderação desaparecerá assim que o novo presidente destampar a caneta. Empossado, Flávio B. tirará do bolso o plano urdido por seu pai para o segundo mandato que não houve: o de aferrolhar por dentro as instituições —militares, jurídicas e policiais— e instituir a ditadura.

O Supremo sofrerá intervenção imediata, com a demissão dos ministros independentes e sua substituição por sequazes invertebrados. A maioria dos parlamentares, como é de tradição da categoria, se acoelhará à nova ordem —isto se o Congresso não for fechado. Órgãos de comunicação, cultura e ensino serão arrolhados pela censura ou asfixiados financeiramente. A Faria Lima estourará champanhas e, dispensando intermediários, um dos seus comandará a economia.

Metade do país aplaudirá essas medidas. Falta combinar com a outra metade.

Grande imprensa ignora interferência dos EUA na democracia do Brasil

O cientista político Celso Rocha de Barros apontou uma obviedade que a grande imprensa tem omitido: essa não será uma eleição normal.

“Será que todo dia a gente não devia tratar do fato que tem uma superpotência que tomou a economia brasileira como refém para exigir que os brasileiros votem no candidato que elas preferem? Eu acho muito esquisito e desconfortável a gente falar dessa eleição como uma eleição normal, que está correndo sob a mais completa normalidade”, refletiu Celso.

A maior potência bélica do planeta enfiou o pescoço na democracia brasileira e já está interferindo nas eleições. O aparato de estado dos Estados Unidos tem sido usado para impulsionar a agenda política de Flávio Bolsonaro, que em troca prometeu entregar as terras raras brasileiras e muito mais.

Ataques de Trump à democracia brasileira são tratadas como questão diplomática pela grande imprensa.


Além de impor sanções econômicas, o governo estadunidense praticou uma série de ações para favorecer a candidatura bolsonarista. Chegou até a tentar enviar para o Brasil dois oficiais para questionar as urnas eletrônicas.

Essa flagrante violação da soberania nacional tem sido tratada como um problema diplomático entre os dois países, o que é evidentemente falso. Estamos sendo intimidados pelo mesmo extremista maluco que invadiu a Venezuela, sequestrou seu presidente e roubou seu petróleo.

Inacreditavelmente, essa não parece ser a grande preocupação da imprensa brasileira. O assunto tem sido tratado de forma lateral no noticiário e nas colunas de opinião.

Nas sabatinas do Jornal Nacional, por exemplo, a soberania nacional não foi uma questão central. Nenhum candidato até agora recebeu perguntas sobre o risco de uma intervenção estrangeira. Os jornalistas não perguntaram nem mesmo para o presidente da República. E isso se repete em outras entrevistas e sabatinas.

As eleições correm risco de sofrer uma intervenção internacional, mas isso tem sido tratado como uma questão menor, quase irrelevante. A maior parte do tempo é gasta pelos jornalistas com escândalos de corrupção, que está bem longe de ser o maior dos nossos problemas.

Lula e Renan Santos são os únicos candidatos que denunciam a sanha interventora de Donald Trump sobre as eleições. Mas, diferente do petista, que trata o tema como questão fundamental, Renan só toca no assunto para marcar posição fora do bolsonarismo e surfar na impopularidade de Donald Trump.

Além da normalização dos ataques à soberania, há também uma normalização dos ataques à democracia. Quase todos os candidatos da direita nesta eleição prometeram anistiar os golpistas condenados pelo 8 de Janeiro. É como se a tentativa de golpe de estado não estivesse fartamente comprovada.

Já tem até livro de ex-comandante da Aeronáutica no governo Bolsonaro dando detalhes da trama golpista, mas o negacionismo do golpe ainda é tratado como opinião legítima no debate público. Chegaremos ao pleito com mais da metade dos candidatos prometendo tirar golpista da cadeia. Assim, fica ainda mais difícil chamar as eleições de “festa da democracia”.

A direita brasileira, inclusive a que se diz não bolsonarista, não tem mais compromisso com os valores democráticos. Durante um longo período após a redemocratização, a direita brasileira repudiou o golpe de 64. Até pouco tempo, era inimaginável um candidato relativizar a ditadura.

Hoje, Romeu Zema não demonstra o menor pudor em dizer que chamar o regime militar de ditadura é uma mera “questão de interpretação”. Ronaldo Caiado também relativiza o período e se recusa a classificá-lo como ditadura. É natural que eles defendam a anistia para os golpistas de 8 de Janeiro.

O candidato do partido Missão é o único direitista que condena a ação dos golpistas, mas nem por isso é alguém com apreço pela democracia. Seu discurso é tão ou mais autoritário que o de Flávio Bolsonaro. Ele promete um “banho de sangue” para acabar com a violência e diz que não respeitará nenhuma decisão do Supremo Tribunal Federal que considere ilegal. Esse é o retrato trágico da direita brasileira.

O único não bolsonarista disponível no mercado eleitoral é um “Milei na forma e Bukele no conteúdo”, como ele mesmo admite.

Para os progressistas e democratas, essa eleição será parecida com a de 2022. A lógica plebiscitária é a mesma. De um lado, temos uma direita entreguista que quer anistiar o golpismo. Do outro, temos Lula, o único que trata a defesa da democracia e da soberania nacional como temas centrais da sua candidatura.

Assim como na eleição anterior, Lula não é apenas um candidato, mas a barreira de contenção de projetos autoritários e entreguistas. Desta vez, o risco ainda é maior, já que temos no nosso cangote a maior potência bélica e econômica do mundo, que parece disposta a mover mundos para colocar seu fantoche no poder.

Uma eleição realizada nessas condições deveria estar causando grande indignação coletiva, mas está sendo tratada na grande imprensa como mais um passeio no parque. Nem parece que ela está ameaçada por um ditador com sanha imperialista que acabou de invadir um país vizinho para roubar petróleo.

Quando a imprensa trata esse risco como uma questão diplomática e a anistia aos golpistas como uma proposta legítima, ela não está sendo neutra, mas conivente com o entreguismo e com o golpismo.