terça-feira, 7 de julho de 2026
Soberania em IA é mais importante que regulação
Uma reportagem publicada na semana passada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).
A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.
Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.
O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.
O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.
Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.
Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.
O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.
Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.
A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.
Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.
A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.
Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.
O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.
O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.
Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.
Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.
O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.
Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.
A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.
Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.
Complexo nacional
Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores
Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, a 31 de maio de 1958
Nelson Rodrigues, Manchete Esportiva, a 31 de maio de 1958
Escombros
Na madrugada de 24 de junho, a terra tremeu no norte da Venezuela. Dois sismos seguidos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, uma brutalidade. Dezenas, talvez centenas de milhares de desaparecidos, ninguém sabe bem ao certo, o número de mortos não pára de subir a cada hora que passa.
E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.
Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.
É legítimo. É o mínimo que se espera.
Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: e Gaza?
Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.
Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.
Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.
O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.
É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.
Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.
Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.
A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.
A diferença está no nosso olhar.
E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.
Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.
É legítimo. É o mínimo que se espera.
Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: e Gaza?
Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.
Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.
Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.
O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.
É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.
Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.
Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.
A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.
A diferença está no nosso olhar.
Orwellianos são os outros
Qualquer apreciador de distopias concebe como estruturantes, pelo menos, duas obras: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Não obstante a qualidade comparável ou até, atrevo-me, superior da primeira, a segunda colhe muito mais sucesso. Bastante difundida em tempos de Guerra Fria e até hoje altamente comercializada, viu um dos seus principais conceitos homenageados no célebre reality show Big Brother e já se converteu em novela gráfica, filme… e ainda arma de arremesso.
Não seria excessivo constatar que orwelliano é um epíteto comum no debate político hodierno. Em Portugal, é especialmente mobilizado por um setor amplo e transpartidário da direita, que o retira convenientemente da algibeira a qualquer sinal de esforço de regulação ou política mais ou menos de esquerda. Regular as redes sociais? Orwelliano. Aumentar a participação do Estado num dos setores estratégicos nacionais? Vem aí o Grande Irmão. Averiguar casos evidentes de racismo ou misoginia no Twitter/X ou noutras redes sociais? Lá estão eles a limitar a liberdade de expressão. O 1984 previu isto. Ironia histórica ou não, o certo é que Orwell viveu filiado à tradição socialista, ainda que fosse revendo periodicamente algumas posições.
É verdade que as distopias, enquanto exercícios de imaginação crítica do futuro, são sempre infundidas de ânsias do presente. Contudo, não me parece que nenhum dos seus consagrados autores demonstraria apreço por ser sinónimo de acusações rasteiras e que, não raro, denunciam um profundo desconhecimento dos enredos. Já enquanto leitor, estou plenamente convicto do meu desprezo pela bastardização de livros cuja mensagem pode fazer a diferença na vida de muitos.
No meu caso, 1984 foi incontornável. A presença do duplo-pensar e da polícia de pensamento na narrativa desencadeou um período de reflexão que me permitiu identificar os mecanismos de controlo e uniformização aos quais fui sujeito durante 19 anos no culto religioso em que me criaram.
Irritações literárias à parte, se a instrumentalização leviana de Orwell veio para ficar, surpreende-me que os alarmes não tenham soado aquando do anúncio da Prestação Social Única (PSU). O projeto de integração de 13 prestações sociais – incluindo o rendimento social de inserção (RSI) e o subsídio social de desemprego – numa só acende legitimamente as paixões. O principal objeto de conflito tem sido a obrigatoriedade do trabalho social para beneficiários com grau de incapacidade inferior a 80%, que incluirá potencialmente doentes com cancro e pessoas com deficiência. Mesmo a promessa do Governo de uma avaliação “caso a caso” não produziu a esperada acalmia, e tal deve-se à multiplicidade de problemáticas que a PSU suscita, das quais destaco três.
Em primeiro lugar, inserir nas fileiras produtivas indivíduos que serão remunerados a valores muito inferiores aos praticados no mercado abre a possibilidade de barateamento do trabalho. Em segundo, a premissa de todo o programa assenta numa noção de criminalização da pobreza, edifício ideológico que reduz os pobres a uma entidade monolítica constituída por sujeitos moralmente desviantes. Ser pobre deixa de ser fruto de azares, um triste desfecho de uma vida que não correu bem ou, se formos mais avançados, uma condição estrutural e estruturante do nosso modo de organização social e económica. Passa a indiciar uma corrupção no âmago do eu, uma identidade essencialmente mesquinha que assim se manifesta materialmente. Tudo isto apesar de o número de beneficiários do RSI ser o mais baixo desde 2005.
Em terceiro, e retornando ao mote deste artigo, a PSU instituirá um canal de denúncia que permitirá a cada cidadão reportar fraudes ou suspeitas de fraudes na atribuição de benefícios. Bom, eu diria que se há momento para desatar pelas colinas a gritar "Big Brother is watching you", é este. A cultura generalizada de denúncia dos pares é um dos eixos canónicos de 1984 e provavelmente um dos mais desconcertantes. É, por isso, com enorme espanto que reparo na falta de referências orwellianas ante este revivalismo tragicómico da chibaria pidesca. Onde está o queixume ensurdecedor, onde estão os prantos efusivos e o rasgar de vestes pelo ocaso da liberdade? Será que a sua ausência é fruto de falta de leitura ou de falta de interesse?
Enfatizo a gravidade da medida. Não se trata de um mero instrumento administrativo de consulta cidadã. Não é um meio para aproximar os órgãos da administração pública dos utentes. É um mecanismo de massificação da desconfiança que produz sujeitos vigilantes do outro. É a ressurreição digital e caricatural do bufo salazarista, mas desta vez sem a frequente condenação social à qual esta figura era votada. E, além disso, encerra uma contradição: se o corpo administrativo irá avaliar casuisticamente a incapacidade para o trabalho social, não deveria municiar também a Segurança Social e outras entidades de meios para averiguar incumprimentos? Questiono-me se o recurso ao povo não é uma forma de, novamente, tapar buracos e evitar, como sempre, o investimento sério em fiscalização.
O que interessa, de qualquer das formas, é que desta vez as sensibilidades distópicas não foram despertadas. Os lamentos habituais não se ouvem e os seus autores não querem fazer-se ouvir. A lição a retirar é que, nas contendas políticas, orwellianos são os outros.
Não seria excessivo constatar que orwelliano é um epíteto comum no debate político hodierno. Em Portugal, é especialmente mobilizado por um setor amplo e transpartidário da direita, que o retira convenientemente da algibeira a qualquer sinal de esforço de regulação ou política mais ou menos de esquerda. Regular as redes sociais? Orwelliano. Aumentar a participação do Estado num dos setores estratégicos nacionais? Vem aí o Grande Irmão. Averiguar casos evidentes de racismo ou misoginia no Twitter/X ou noutras redes sociais? Lá estão eles a limitar a liberdade de expressão. O 1984 previu isto. Ironia histórica ou não, o certo é que Orwell viveu filiado à tradição socialista, ainda que fosse revendo periodicamente algumas posições.
É verdade que as distopias, enquanto exercícios de imaginação crítica do futuro, são sempre infundidas de ânsias do presente. Contudo, não me parece que nenhum dos seus consagrados autores demonstraria apreço por ser sinónimo de acusações rasteiras e que, não raro, denunciam um profundo desconhecimento dos enredos. Já enquanto leitor, estou plenamente convicto do meu desprezo pela bastardização de livros cuja mensagem pode fazer a diferença na vida de muitos.
No meu caso, 1984 foi incontornável. A presença do duplo-pensar e da polícia de pensamento na narrativa desencadeou um período de reflexão que me permitiu identificar os mecanismos de controlo e uniformização aos quais fui sujeito durante 19 anos no culto religioso em que me criaram.
Irritações literárias à parte, se a instrumentalização leviana de Orwell veio para ficar, surpreende-me que os alarmes não tenham soado aquando do anúncio da Prestação Social Única (PSU). O projeto de integração de 13 prestações sociais – incluindo o rendimento social de inserção (RSI) e o subsídio social de desemprego – numa só acende legitimamente as paixões. O principal objeto de conflito tem sido a obrigatoriedade do trabalho social para beneficiários com grau de incapacidade inferior a 80%, que incluirá potencialmente doentes com cancro e pessoas com deficiência. Mesmo a promessa do Governo de uma avaliação “caso a caso” não produziu a esperada acalmia, e tal deve-se à multiplicidade de problemáticas que a PSU suscita, das quais destaco três.
Em primeiro lugar, inserir nas fileiras produtivas indivíduos que serão remunerados a valores muito inferiores aos praticados no mercado abre a possibilidade de barateamento do trabalho. Em segundo, a premissa de todo o programa assenta numa noção de criminalização da pobreza, edifício ideológico que reduz os pobres a uma entidade monolítica constituída por sujeitos moralmente desviantes. Ser pobre deixa de ser fruto de azares, um triste desfecho de uma vida que não correu bem ou, se formos mais avançados, uma condição estrutural e estruturante do nosso modo de organização social e económica. Passa a indiciar uma corrupção no âmago do eu, uma identidade essencialmente mesquinha que assim se manifesta materialmente. Tudo isto apesar de o número de beneficiários do RSI ser o mais baixo desde 2005.
Em terceiro, e retornando ao mote deste artigo, a PSU instituirá um canal de denúncia que permitirá a cada cidadão reportar fraudes ou suspeitas de fraudes na atribuição de benefícios. Bom, eu diria que se há momento para desatar pelas colinas a gritar "Big Brother is watching you", é este. A cultura generalizada de denúncia dos pares é um dos eixos canónicos de 1984 e provavelmente um dos mais desconcertantes. É, por isso, com enorme espanto que reparo na falta de referências orwellianas ante este revivalismo tragicómico da chibaria pidesca. Onde está o queixume ensurdecedor, onde estão os prantos efusivos e o rasgar de vestes pelo ocaso da liberdade? Será que a sua ausência é fruto de falta de leitura ou de falta de interesse?
Enfatizo a gravidade da medida. Não se trata de um mero instrumento administrativo de consulta cidadã. Não é um meio para aproximar os órgãos da administração pública dos utentes. É um mecanismo de massificação da desconfiança que produz sujeitos vigilantes do outro. É a ressurreição digital e caricatural do bufo salazarista, mas desta vez sem a frequente condenação social à qual esta figura era votada. E, além disso, encerra uma contradição: se o corpo administrativo irá avaliar casuisticamente a incapacidade para o trabalho social, não deveria municiar também a Segurança Social e outras entidades de meios para averiguar incumprimentos? Questiono-me se o recurso ao povo não é uma forma de, novamente, tapar buracos e evitar, como sempre, o investimento sério em fiscalização.
O que interessa, de qualquer das formas, é que desta vez as sensibilidades distópicas não foram despertadas. Os lamentos habituais não se ouvem e os seus autores não querem fazer-se ouvir. A lição a retirar é que, nas contendas políticas, orwellianos são os outros.
Primeira infância deve estar no centro do planejamento urbano
As mudanças climáticas têm tornado cada vez mais evidente a necessidade de repensar a forma como planejamos e ocupamos os territórios. Enchentes, ondas de calor, deslizamentos e outros eventos extremos afetam cidades de diferentes portes e expõem desigualdades históricas que atingem principalmente as populações mais vulneráveis. Nesse cenário, cresce a discussão sobre cidades resilientes – aquelas capazes de se adaptar, responder e se recuperar diante dos desafios ambientais e sociais. No entanto, ainda há um aspecto pouco explorado nesse debate: os impactos que as escolhas urbanas produzem sobre a primeira infância.
Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem bases fundamentais para a saúde, aprendizagem, convivência social e bem-estar ao longo da vida. Por isso, pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade. Afinal, a forma como uma cidade acolhe suas crianças revela, em grande medida, sua capacidade de promover qualidade de vida para todas as pessoas.
Quando falamos em planejamento urbano voltado à primeira infância, estamos nos referindo à promoção da mobilidade segura, ao acesso a áreas verdes, à moradia adequada, ao saneamento básico, a equipamentos públicos acessíveis e a espaços de convivência que estimulem o brincar e as interações sociais. Estamos falando também de bairros que permitam que famílias realizem seus deslocamentos cotidianos com segurança e tenham acesso aos serviços essenciais sem percorrer longas distâncias. São elementos que influenciam diretamente o desenvolvimento infantil e fortalecem os vínculos comunitários.
Essa visão dialoga com reflexões desenvolvidas pelo arquiteto e urbanista Kevin Lynch, que já na década de 1970, defendia a importância de considerar crianças e adolescentes como sujeitos legítimos na avaliação e no planejamento das cidades. Essa perspectiva foi apresentada no projeto Children’s Perception of Space (A Percepção do Espaço pelas Crianças), desenvolvido no âmbito do programa da UNESCO Man and His Environment – Design for Living e coordenado por Lynch em países como Argentina, Austrália, México e Polônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na obra Growing Up in Cities (Lynch, 1977), que evidenciou como a experiência cotidiana das crianças pode oferecer importantes subsídios para a construção de cidades mais humanas, acolhedoras e capazes de responder às necessidades reais da população. Mais de cinquenta anos depois, esse entendimento continua desafiando gestores e planejadores urbanos.
Ao observarmos uma cidade sob a perspectiva de uma criança pequena, muitos desafios urbanos tornam-se mais evidentes. Calçadas inadequadas, travessias inseguras, falta de arborização, ausência de áreas de lazer e equipamentos públicos distantes impactam diretamente a vida das famílias e limitam o acesso a oportunidades de desenvolvimento. Por outro lado, quando esses elementos são pensados de forma integrada, os benefícios alcançam diferentes grupos sociais e contribuem para uma ocupação mais equilibrada e inclusiva do território.
A lógica é simples. Se uma mãe ou um pai consegue circular com segurança empurrando um carrinho de bebê, uma pessoa idosa ou com deficiência também encontrará melhores condições de mobilidade. Se uma criança consegue acessar uma praça próxima de casa para brincar e conviver, aquele território provavelmente oferece mais oportunidades de encontro, pertencimento e participação comunitária. Dessa forma, a criança passa a ser um importante indicador da qualidade urbana e da capacidade de uma cidade promover bem-estar para seus moradores.
Essa compreensão tem orientado iniciativas em diferentes municípios brasileiros. Entre elas está o Primeira Infância Cidadã (PiC), projeto da Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Petrobras, que integra o Programa Petrobras Socioambiental, que apoia gestores públicos na elaboração e implementação de políticas voltadas às crianças de até seis anos. Mais do que estimular ações específicas para a infância, experiências como essa têm contribuído para ampliar o debate sobre a necessidade de integrar áreas como urbanismo, mobilidade, assistência social, saúde, educação, cultura e meio ambiente na construção de cidades mais acolhedoras e preparadas para os desafios contemporâneos.
A relação entre a primeira infância e o planejamento urbano torna-se ainda mais evidente diante dos impactos das mudanças climáticas. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, pois dependem de condições adequadas de saúde, proteção e acesso a serviços essenciais para seu pleno desenvolvimento. Enchentes podem interromper o acesso às creches e às escolas, comprometer a alimentação e ampliar a exposição a doenças. As ondas de calor afetam o sono, a atenção e o bem-estar infantil, enquanto a escassez de áreas verdes reduz as oportunidades de brincar, de convivência e de desenvolvimento socio-emocional.
Os efeitos desses fenômenos são ainda mais severos em territórios marcados por déficits de infraestrutura, habitação precária e acesso limitado a serviços públicos. Nessas localidades, os impactos ambientais costumam se somar a desigualdades históricas, ampliando vulnerabilidades e restringindo oportunidades para crianças e suas famílias. Por essa razão, políticas de adaptação climática precisam considerar não apenas a proteção dos espaços urbanos, mas também as condições necessárias para garantir o desenvolvimento saudável da população infantil.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais importante que diferentes áreas da gestão pública atuem de forma articulada. Urbanismo, mobilidade, saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente não podem ser tratados como temas isolados quando o objetivo é construir territórios mais resilientes e inclusivos. A chamada cidade do cuidado nasce justamente dessa compreensão, reconhecendo que o desenvolvimento das crianças está diretamente relacionado à qualidade dos espaços onde elas vivem, circulam, aprendem e convivem.
Planejar cidades para a primeira infância não significa criar espaços exclusivos para crianças. Significa construir ambientes mais seguros, saudáveis e acolhedores para todos, capazes de fortalecer vínculos comunitários, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Em um momento em que os desafios climáticos e urbanos se tornam cada vez mais complexos, colocar a infância no centro do planejamento não é apenas uma questão de proteção social, mas uma estratégia inteligente para pensar o presente e o futuro das cidades.
Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento humano. É nesse período que se estabelecem bases fundamentais para a saúde, aprendizagem, convivência social e bem-estar ao longo da vida. Por isso, pensar cidades a partir das necessidades das crianças pequenas não é uma pauta restrita à infância, mas uma estratégia de desenvolvimento que beneficia toda a sociedade. Afinal, a forma como uma cidade acolhe suas crianças revela, em grande medida, sua capacidade de promover qualidade de vida para todas as pessoas.
Quando falamos em planejamento urbano voltado à primeira infância, estamos nos referindo à promoção da mobilidade segura, ao acesso a áreas verdes, à moradia adequada, ao saneamento básico, a equipamentos públicos acessíveis e a espaços de convivência que estimulem o brincar e as interações sociais. Estamos falando também de bairros que permitam que famílias realizem seus deslocamentos cotidianos com segurança e tenham acesso aos serviços essenciais sem percorrer longas distâncias. São elementos que influenciam diretamente o desenvolvimento infantil e fortalecem os vínculos comunitários.
Essa visão dialoga com reflexões desenvolvidas pelo arquiteto e urbanista Kevin Lynch, que já na década de 1970, defendia a importância de considerar crianças e adolescentes como sujeitos legítimos na avaliação e no planejamento das cidades. Essa perspectiva foi apresentada no projeto Children’s Perception of Space (A Percepção do Espaço pelas Crianças), desenvolvido no âmbito do programa da UNESCO Man and His Environment – Design for Living e coordenado por Lynch em países como Argentina, Austrália, México e Polônia. Os resultados da pesquisa foram publicados na obra Growing Up in Cities (Lynch, 1977), que evidenciou como a experiência cotidiana das crianças pode oferecer importantes subsídios para a construção de cidades mais humanas, acolhedoras e capazes de responder às necessidades reais da população. Mais de cinquenta anos depois, esse entendimento continua desafiando gestores e planejadores urbanos.
| Uma cidade boa para as crianças é melhor para todos |
Ao observarmos uma cidade sob a perspectiva de uma criança pequena, muitos desafios urbanos tornam-se mais evidentes. Calçadas inadequadas, travessias inseguras, falta de arborização, ausência de áreas de lazer e equipamentos públicos distantes impactam diretamente a vida das famílias e limitam o acesso a oportunidades de desenvolvimento. Por outro lado, quando esses elementos são pensados de forma integrada, os benefícios alcançam diferentes grupos sociais e contribuem para uma ocupação mais equilibrada e inclusiva do território.
A lógica é simples. Se uma mãe ou um pai consegue circular com segurança empurrando um carrinho de bebê, uma pessoa idosa ou com deficiência também encontrará melhores condições de mobilidade. Se uma criança consegue acessar uma praça próxima de casa para brincar e conviver, aquele território provavelmente oferece mais oportunidades de encontro, pertencimento e participação comunitária. Dessa forma, a criança passa a ser um importante indicador da qualidade urbana e da capacidade de uma cidade promover bem-estar para seus moradores.
Essa compreensão tem orientado iniciativas em diferentes municípios brasileiros. Entre elas está o Primeira Infância Cidadã (PiC), projeto da Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a Petrobras, que integra o Programa Petrobras Socioambiental, que apoia gestores públicos na elaboração e implementação de políticas voltadas às crianças de até seis anos. Mais do que estimular ações específicas para a infância, experiências como essa têm contribuído para ampliar o debate sobre a necessidade de integrar áreas como urbanismo, mobilidade, assistência social, saúde, educação, cultura e meio ambiente na construção de cidades mais acolhedoras e preparadas para os desafios contemporâneos.
A relação entre a primeira infância e o planejamento urbano torna-se ainda mais evidente diante dos impactos das mudanças climáticas. As crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos, pois dependem de condições adequadas de saúde, proteção e acesso a serviços essenciais para seu pleno desenvolvimento. Enchentes podem interromper o acesso às creches e às escolas, comprometer a alimentação e ampliar a exposição a doenças. As ondas de calor afetam o sono, a atenção e o bem-estar infantil, enquanto a escassez de áreas verdes reduz as oportunidades de brincar, de convivência e de desenvolvimento socio-emocional.
Os efeitos desses fenômenos são ainda mais severos em territórios marcados por déficits de infraestrutura, habitação precária e acesso limitado a serviços públicos. Nessas localidades, os impactos ambientais costumam se somar a desigualdades históricas, ampliando vulnerabilidades e restringindo oportunidades para crianças e suas famílias. Por essa razão, políticas de adaptação climática precisam considerar não apenas a proteção dos espaços urbanos, mas também as condições necessárias para garantir o desenvolvimento saudável da população infantil.
Diante desse cenário, torna-se cada vez mais importante que diferentes áreas da gestão pública atuem de forma articulada. Urbanismo, mobilidade, saúde, educação, assistência social, cultura e meio ambiente não podem ser tratados como temas isolados quando o objetivo é construir territórios mais resilientes e inclusivos. A chamada cidade do cuidado nasce justamente dessa compreensão, reconhecendo que o desenvolvimento das crianças está diretamente relacionado à qualidade dos espaços onde elas vivem, circulam, aprendem e convivem.
Planejar cidades para a primeira infância não significa criar espaços exclusivos para crianças. Significa construir ambientes mais seguros, saudáveis e acolhedores para todos, capazes de fortalecer vínculos comunitários, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Em um momento em que os desafios climáticos e urbanos se tornam cada vez mais complexos, colocar a infância no centro do planejamento não é apenas uma questão de proteção social, mas uma estratégia inteligente para pensar o presente e o futuro das cidades.
Trem para o futuro
Nos anos 1840, o príncipe herdeiro de Hanôver, que depois se tornaria rei Ernesto Augusto, opôs-se à implantação de ferrovias em seu país porque “não queria qualquer sapateiro ou alfaiate viajando tão rápido quanto ele”. A frase é citada por Orlando Figes no livro Os Europeus, ao tratar do impacto da revolução ferroviária na política, na cultura e na economia da Europa. Pois o príncipe mudou de posição e transformou-se em defensor das ferrovias, colocando a Alemanha na vanguarda do desenvolvimento. Não tivesse adotado os trilhos, o país teria ficado para trás entre as nações do continente.
O que o príncipe pensava há 200 anos é o que sente a elite dirigente brasileira em relação à ideia de um sistema nacional de escolas com a mesma qualidade para todos. A minoria privilegiada sabe que uma boa escola é o trem para o futuro e procura reservá-la apenas para seus filhos, mesmo que isso signifique sacrificar o avanço do país. Esse teria sido nosso trem para o futuro: nenhum cérebro deixado para trás, todos dispondo do mapa para buscar sua felicidade e as ferramentas para construir o país. No livro Jogados ao Mar, uma militante progressista demite sua empregada doméstica porque esta, em vez de pedir aumento salarial, teve a ousadia de reivindicar para seus filhos a mesma escola frequentada pelos da patroa. A empregada argumentava que não via futuro para suas crianças, deixadas sem acesso a um ensino de qualidade e sujeitas a greves. Ainda teve a petulância de comparar as escolas das crianças.
Ao longo de mais de um século de República, nossos dirigentes pouco mudaram em sua resistência a permitir que seus filhos viajem para o futuro na mesma velocidade que os do chamado povão. Mesmo sem manifestar isso explicitamente, se assustam diante da ideia de vê-los estudando nas mesmas escolas que os filhos das camadas mais pobres. Quando oferecem matrícula para quase todos os brasileiros, negam a mesma qualidade a todas as escolas. Os dirigentes brasileiros não se importam com o rumo do país porque sabem que seus filhos estão cada vez mais preparados para integrar o “primeiro mundo internacional dos ricos”, no qual já vivem, mesmo morando no Brasil. Para eles, mudar de um país para outro não significa migrar, porque pertencem à mesma nação social dos ricos do mundo. Por isso, dentro de seu país geográfico, erguem muros contra os migrantes sociais do próprio Brasil. Além dos muros dos condomínios que os barram no presente, instalam catracas nos portões das escolas de qualidade para barrar o futuro.
Diferentemente do rei Ernesto Augusto, que compreendeu a importância das ferrovias, aceitou “viajar na mesma velocidade que sapateiros e alfaiates” para promover a revolução ferroviária e fez de Hanôver uma sociedade próspera, a minoria brasileira prefere reservar o trem-escola apenas para seus filhos. Prefere deixar o Brasil para trás, ainda que hoje seja muito mais fácil implantar uma rede nacional de escolas públicas de qualidade do que, há quase 200 anos, foi construir uma malha ferroviária na Europa. Infelizmente, ainda não adotamos nada semelhante à Lei Guizot, de 1833, que obrigou cada município da França a manter escolas públicas com padrões nacionais de qualidade para todos.
O que o príncipe pensava há 200 anos é o que sente a elite dirigente brasileira em relação à ideia de um sistema nacional de escolas com a mesma qualidade para todos. A minoria privilegiada sabe que uma boa escola é o trem para o futuro e procura reservá-la apenas para seus filhos, mesmo que isso signifique sacrificar o avanço do país. Esse teria sido nosso trem para o futuro: nenhum cérebro deixado para trás, todos dispondo do mapa para buscar sua felicidade e as ferramentas para construir o país. No livro Jogados ao Mar, uma militante progressista demite sua empregada doméstica porque esta, em vez de pedir aumento salarial, teve a ousadia de reivindicar para seus filhos a mesma escola frequentada pelos da patroa. A empregada argumentava que não via futuro para suas crianças, deixadas sem acesso a um ensino de qualidade e sujeitas a greves. Ainda teve a petulância de comparar as escolas das crianças.
Ao longo de mais de um século de República, nossos dirigentes pouco mudaram em sua resistência a permitir que seus filhos viajem para o futuro na mesma velocidade que os do chamado povão. Mesmo sem manifestar isso explicitamente, se assustam diante da ideia de vê-los estudando nas mesmas escolas que os filhos das camadas mais pobres. Quando oferecem matrícula para quase todos os brasileiros, negam a mesma qualidade a todas as escolas. Os dirigentes brasileiros não se importam com o rumo do país porque sabem que seus filhos estão cada vez mais preparados para integrar o “primeiro mundo internacional dos ricos”, no qual já vivem, mesmo morando no Brasil. Para eles, mudar de um país para outro não significa migrar, porque pertencem à mesma nação social dos ricos do mundo. Por isso, dentro de seu país geográfico, erguem muros contra os migrantes sociais do próprio Brasil. Além dos muros dos condomínios que os barram no presente, instalam catracas nos portões das escolas de qualidade para barrar o futuro.
Diferentemente do rei Ernesto Augusto, que compreendeu a importância das ferrovias, aceitou “viajar na mesma velocidade que sapateiros e alfaiates” para promover a revolução ferroviária e fez de Hanôver uma sociedade próspera, a minoria brasileira prefere reservar o trem-escola apenas para seus filhos. Prefere deixar o Brasil para trás, ainda que hoje seja muito mais fácil implantar uma rede nacional de escolas públicas de qualidade do que, há quase 200 anos, foi construir uma malha ferroviária na Europa. Infelizmente, ainda não adotamos nada semelhante à Lei Guizot, de 1833, que obrigou cada município da França a manter escolas públicas com padrões nacionais de qualidade para todos.
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