Durante 1 hora e 24 minutos, o homem mais rico do planeta expôs à editora-chefe da revista The Economist suas ideias sobre o futuro e o presente. Criador do sistema de pagamentos eletrônico Paypal, Elon Musk é proprietário da Tesla, que fabrica carros elétricos; do aplicativo de mensagens X (antigo Twitter) —além de fundador da empresa SpaceX, que pretende revolucionar a tecnologia espacial para fazer dos seres humanos uma espécie interplanetária, capaz de colonizar Marte.
Durante os primeiros sete meses desta segunda administração Trump, Musk chefiou o Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês) —o qual, a pretexto de reduzir desperdícios, fechou agências estatais, cortou recursos e destruiu muitos órgãos federais importantes. A entrevista pode ser vista em The Insider, publicação digital exclusiva para os assinantes do semanário britânico.
Na primeira parte, a conversa é amena: o trilionário discorre sobre o futuro, quando robôs e inteligência artificial serão os motores da sociedade da abundância, o dinheiro perderá a razão de existir e será possível garantir renda a todos e cada um dos terráqueos para fazer o que bem entenderem com seu tempo livre.
Algo semelhante à sociedade comunista imaginada por Karl Marx, na qual as pessoas poderiam caçar pela manhã, pescar à tarde, cuidar do gado ao anoitecer e criticar depois do jantar, sem se tornarem caçadores, pescadores, pecuaristas ou críticos. Só que, agora, no trajeto até o radioso futuro, substitua-se a liderança do Partido Comunista pela condução dos iluminados do Silicon Valley.
Na segunda parte, quando a entrevistadora aterrissa as perguntas no presente, o Musk visionário vira fascista, defensor do duro controle à imigração; do encolhimento da capacidade reguladora do Estado; da substituição dos freios e contrapesos da democracia representativa pelo pulso firme do líder político. A conversa fica tensa e a amabilidade dá lugar à crítica agressiva à imprensa profissional.
Tendo apoiado candidatos do Partido Democrata à Presidência — Barack Obama, Hillary Clinton e Joe Biden — Musk aderiu a Donald Trump nas eleições de 2024. E se tornou defensor da Alternativa para a Alemanha (AfD) e de outros partidos europeus de extrema direita. Sua trajetória não é singular: acompanha o movimento de empresários como Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Tim Cook (Apple), entre outros que abandonaram os democratas e se passaram para o lado dos republicanos.
Não se trata só de cálculo eleitoral. A mudança de lealdade político-partidária é, também, abandono da democracia liberal representativa por um ideário político que percebe suas regras como parceiras da ineficiência e obstáculos à aceleração tecnológica. No lugar do governo limitado da maioria, flertam com um sistema que aumente a incidência política de quem esteja à frente da criação de novas tecnologias: uma espécie de tecnocracia da era digital, ainda que acoplada a um líder mercurial, sabidamente incapaz de concluir um raciocínio.
A desconfiança em relação à igualdade política, que a democracia representativa garante, não é nova no pensamento americano. Mas nunca esteve ancorada em tanto — e tão concentrado — poder econômico.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Quando a esperança virou aposta?
Nunca foi tão fácil apostar. Um celular, alguns cliques, o jogo está aberto: na fila do pão, no ônibus lotado, às três da manhã com a luz do quarto apagada.
Propaganda no intervalo do jornal, influenciador fazendo dancinha com o logo da casa de aposta, programa de auditório que sorteia prêmio, camisa do time com o nome da bet estampado no peito e ações publicitárias no meio do maior evento esportivo do mundo. Em poucos anos, as bets tomaram a paisagem brasileira com uma velocidade que quase não deixou espaço para pergunta. Apostar deixou de parecer exceção. Tornou-se parte da rotina.
Os números só confirmam o que a rua já anuncia. Em artigo publicado no Estadão em junho passado, o economista Pedro Fernando Nery mostrou uma coisa difícil de digerir: as famílias brasileiras já gastam mais com bets do que com livros, cinema e música. Gastam mais com bets do que com frutas, legumes e verduras. Isso não é só economia. É um retrato do que estamos priorizando, e, mais do que isso, dos ambientes que estamos montando, tijolo por tijolo, para as pessoas viverem dentro.
Essa naturalização tem custo. A cientista política Esther Solano vem documentando isso em suas pesquisas, e a palavra que ela usa não é por acaso: o impacto das bets sobre as famílias é “devastador”.
A perda financeira dói, claro. Mas o dano mais persistente é outro, e é mais silencioso. Angústia, ansiedade, depressão: essas coisas deixam de atingir só quem aposta e passam a reorganizar a vida de todo mundo em volta. Solano descreve o processo como uma bomba lançada no meio da sala de casa.
Nas pesquisas com adolescentes, ela encontrou jovens apostando durante a aula, como quem checa o WhatsApp. Banalizado. Nas comunidades mais vulneráveis, as dívidas alimentam brigas, fazem circular empréstimo informal com juros que ninguém anota no papel, empurram situações de violência para um grau novo. Casos de sofrimento psíquico grave, risco de suicídio, começam a aparecer com uma frequência que obriga a pergunta incômoda: a gente está mesmo entendendo o tamanho do que está construindo?
O que Esther Solano descreve, porém, vai além de uma sequência de consequências. É um mecanismo. A perda financeira alimenta a ansiedade. A ansiedade estreita o repertório de escolhas. Decisões tomadas sob maior sofrimento tendem a produzir novas perdas. O circuito passa a se alimentar de si mesmo.
Forma-se uma espiral. E espirais têm uma característica inquietante: quanto mais se alimentam de si mesmas, mais parecem obedecer a uma força própria.
Mas será que essa gravidade é inevitável?
De longe, parece que sim. Uma espiral descendente vista de perto transmite a impressão de coisa viva, com vontade própria. A ciência oferece uma perspectiva menos fatalista. Espirais não têm direção própria: elas seguem a direção das condições que as alimentam. Se certos ambientes empurram pra ciclos de perda, outros podem empurrar pra ciclos de fortalecimento. A pergunta de verdade, então, não é só como interromper a queda. É como criar condições para que outra trajetória comece a fazer sentido.
É aqui que a ciência do florescimento humano oferece uma contribuição que vale a pena levar a sério. Barbara Fredrickson mostrou em sua Teoria da Ampliação e Construção, que emoções positivas não são só o resultado de quem já está bem. Elas ajudam a construir o bem-estar. Quando uma pessoa sente segurança, pertencimento, esperança, conexão, o repertório dela amplia. Ela enxerga possibilidades que antes não via, fortalece vínculos, toma decisões menos desesperadas, desenvolve recursos pra aguentar o tranco da próxima adversidade. Esses recursos vão se acumulando, e escolhas mais saudáveis passam a ser mais prováveis. Fredrickson chama isso de espiral ascendente.
As bets prometem dinheiro. Para muitas pessoas, porém, o que elas oferecem é outra coisa: uma promessa de esperança. Só que não é a esperança construída devagar, com reconstrução de vida, com vínculo, com possibilidade concreta de transformação. É uma esperança-atalho: a expectativa de que um único acontecimento possa resolver aquilo que anos de dificuldade produziram. Atalhos quase nunca constroem recursos. Apenas adiam o encontro com a realidade.
Por isso o enfrentamento das bets não pode parar no controle da oferta.
Regular plataformas, segurar propaganda e proteger público vulnerável: tudo isso é necessário. Mas não basta. A pergunta que sobra é outra, e é mais incômoda: o que faz uma promessa tão improvável parecer, na hora do aperto, emocionalmente convincente?
Se a espiral de baixo se alimenta de vulnerabilidade, a espiral de cima nasce de recurso. Às vezes basta um tio que senta do lado e diz “vamos ver isso juntos” para que a mão não vá sozinha ao celular. Às vezes é uma oficina no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) que faz a pessoa perceber que existiam três saídas onde ela só enxergava uma. Às vezes, e isso não é romantismo, é simplesmente ter um lugar no bairro onde alguém sabe o seu nome. Pequenas mudanças de contexto, sustentadas ao longo do tempo, tornam escolhas saudáveis mais prováveis.
Uma coisa que quase ninguém discute no debate público é justamente isso. A gente passa horas discutindo como impedir que as pessoas apostem. Quase nenhum minuto em como construir ambientes nos quais apostar deixe de parecer a melhor alternativa disponível. E é aí que a conversa deixa de ser só sobre bets. Vira conversa sobre bem-estar e sobre florescimento.
Florescimento não é ausência de sofrimento. Seria uma definição triste. É a presença de condições que permitem às pessoas desenvolver capacidades, fortalecer vínculos, cultivar uma esperança realista, construir sentido pra própria vida. Essas condições não brotam do chão. São produzidas por escolhas culturais, educacionais, econômicas e políticas.
Toda sociedade exerce uma força sobre quem vive nela. A gente já sabe muito bem como se constrói um ambiente que naturaliza a infelicidade, empurrando o cidadão pra dívida, para o isolamento, para o adoecimento. Estamos construindo vários, em tempo real.
O que ainda não decidimos é se vamos levar a sério o outro lado: escola que ensina a lidar com dinheiro, posto de saúde que identifica a angústia antes da crise, quadra, praça, vizinhança e vínculos autênticos. Se fomos capazes de normalizar, em poucos anos, uma cultura que transforma vulnerabilidade em oportunidade de negócio, também somos capazes de fortalecer outra lógica. Uma que invista em educação financeira desde a escola, em saúde mental como política de Estado, em esporte, cultura, convivência, família, comunidade.
O antídoto de verdade para gravidade das bets não é só impedir alguém de apostar. É construir ambientes que ampliem recursos psicológicos, sociais e econômicos, pra que a esperança deixe de depender do acaso e volte a ser construída pelas relações, pelas oportunidades e pelas escolhas que efetivamente estão ao alcance. Democratizar a felicidade talvez seja exatamente isso.
O florescimento nunca foi produzido só pelas escolhas individuais. Nunca foi. Ele também é consequência dos ambientes que a gente decide (ou consegue) construir, das oportunidades que a gente oferece (ou consegue acessar), das condições que a gente torna possíveis para que pessoas, famílias e comunidades possam florescer.
Toda sociedade faz apostas sobre o próprio futuro. Algumas naturalizam o acaso e alimentam vícios que empobrecem o florescimento humano. Outras cultivam virtudes e investem, pacientemente, na construção das condições que tornam a felicidade mais possível.
Propaganda no intervalo do jornal, influenciador fazendo dancinha com o logo da casa de aposta, programa de auditório que sorteia prêmio, camisa do time com o nome da bet estampado no peito e ações publicitárias no meio do maior evento esportivo do mundo. Em poucos anos, as bets tomaram a paisagem brasileira com uma velocidade que quase não deixou espaço para pergunta. Apostar deixou de parecer exceção. Tornou-se parte da rotina.
Os números só confirmam o que a rua já anuncia. Em artigo publicado no Estadão em junho passado, o economista Pedro Fernando Nery mostrou uma coisa difícil de digerir: as famílias brasileiras já gastam mais com bets do que com livros, cinema e música. Gastam mais com bets do que com frutas, legumes e verduras. Isso não é só economia. É um retrato do que estamos priorizando, e, mais do que isso, dos ambientes que estamos montando, tijolo por tijolo, para as pessoas viverem dentro.
Essa naturalização tem custo. A cientista política Esther Solano vem documentando isso em suas pesquisas, e a palavra que ela usa não é por acaso: o impacto das bets sobre as famílias é “devastador”.
A perda financeira dói, claro. Mas o dano mais persistente é outro, e é mais silencioso. Angústia, ansiedade, depressão: essas coisas deixam de atingir só quem aposta e passam a reorganizar a vida de todo mundo em volta. Solano descreve o processo como uma bomba lançada no meio da sala de casa.
Nas pesquisas com adolescentes, ela encontrou jovens apostando durante a aula, como quem checa o WhatsApp. Banalizado. Nas comunidades mais vulneráveis, as dívidas alimentam brigas, fazem circular empréstimo informal com juros que ninguém anota no papel, empurram situações de violência para um grau novo. Casos de sofrimento psíquico grave, risco de suicídio, começam a aparecer com uma frequência que obriga a pergunta incômoda: a gente está mesmo entendendo o tamanho do que está construindo?
O que Esther Solano descreve, porém, vai além de uma sequência de consequências. É um mecanismo. A perda financeira alimenta a ansiedade. A ansiedade estreita o repertório de escolhas. Decisões tomadas sob maior sofrimento tendem a produzir novas perdas. O circuito passa a se alimentar de si mesmo.
Forma-se uma espiral. E espirais têm uma característica inquietante: quanto mais se alimentam de si mesmas, mais parecem obedecer a uma força própria.
Mas será que essa gravidade é inevitável?
De longe, parece que sim. Uma espiral descendente vista de perto transmite a impressão de coisa viva, com vontade própria. A ciência oferece uma perspectiva menos fatalista. Espirais não têm direção própria: elas seguem a direção das condições que as alimentam. Se certos ambientes empurram pra ciclos de perda, outros podem empurrar pra ciclos de fortalecimento. A pergunta de verdade, então, não é só como interromper a queda. É como criar condições para que outra trajetória comece a fazer sentido.
É aqui que a ciência do florescimento humano oferece uma contribuição que vale a pena levar a sério. Barbara Fredrickson mostrou em sua Teoria da Ampliação e Construção, que emoções positivas não são só o resultado de quem já está bem. Elas ajudam a construir o bem-estar. Quando uma pessoa sente segurança, pertencimento, esperança, conexão, o repertório dela amplia. Ela enxerga possibilidades que antes não via, fortalece vínculos, toma decisões menos desesperadas, desenvolve recursos pra aguentar o tranco da próxima adversidade. Esses recursos vão se acumulando, e escolhas mais saudáveis passam a ser mais prováveis. Fredrickson chama isso de espiral ascendente.
As bets prometem dinheiro. Para muitas pessoas, porém, o que elas oferecem é outra coisa: uma promessa de esperança. Só que não é a esperança construída devagar, com reconstrução de vida, com vínculo, com possibilidade concreta de transformação. É uma esperança-atalho: a expectativa de que um único acontecimento possa resolver aquilo que anos de dificuldade produziram. Atalhos quase nunca constroem recursos. Apenas adiam o encontro com a realidade.
Por isso o enfrentamento das bets não pode parar no controle da oferta.
Regular plataformas, segurar propaganda e proteger público vulnerável: tudo isso é necessário. Mas não basta. A pergunta que sobra é outra, e é mais incômoda: o que faz uma promessa tão improvável parecer, na hora do aperto, emocionalmente convincente?
Se a espiral de baixo se alimenta de vulnerabilidade, a espiral de cima nasce de recurso. Às vezes basta um tio que senta do lado e diz “vamos ver isso juntos” para que a mão não vá sozinha ao celular. Às vezes é uma oficina no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) que faz a pessoa perceber que existiam três saídas onde ela só enxergava uma. Às vezes, e isso não é romantismo, é simplesmente ter um lugar no bairro onde alguém sabe o seu nome. Pequenas mudanças de contexto, sustentadas ao longo do tempo, tornam escolhas saudáveis mais prováveis.
Uma coisa que quase ninguém discute no debate público é justamente isso. A gente passa horas discutindo como impedir que as pessoas apostem. Quase nenhum minuto em como construir ambientes nos quais apostar deixe de parecer a melhor alternativa disponível. E é aí que a conversa deixa de ser só sobre bets. Vira conversa sobre bem-estar e sobre florescimento.
Florescimento não é ausência de sofrimento. Seria uma definição triste. É a presença de condições que permitem às pessoas desenvolver capacidades, fortalecer vínculos, cultivar uma esperança realista, construir sentido pra própria vida. Essas condições não brotam do chão. São produzidas por escolhas culturais, educacionais, econômicas e políticas.
Toda sociedade exerce uma força sobre quem vive nela. A gente já sabe muito bem como se constrói um ambiente que naturaliza a infelicidade, empurrando o cidadão pra dívida, para o isolamento, para o adoecimento. Estamos construindo vários, em tempo real.
O que ainda não decidimos é se vamos levar a sério o outro lado: escola que ensina a lidar com dinheiro, posto de saúde que identifica a angústia antes da crise, quadra, praça, vizinhança e vínculos autênticos. Se fomos capazes de normalizar, em poucos anos, uma cultura que transforma vulnerabilidade em oportunidade de negócio, também somos capazes de fortalecer outra lógica. Uma que invista em educação financeira desde a escola, em saúde mental como política de Estado, em esporte, cultura, convivência, família, comunidade.
O antídoto de verdade para gravidade das bets não é só impedir alguém de apostar. É construir ambientes que ampliem recursos psicológicos, sociais e econômicos, pra que a esperança deixe de depender do acaso e volte a ser construída pelas relações, pelas oportunidades e pelas escolhas que efetivamente estão ao alcance. Democratizar a felicidade talvez seja exatamente isso.
O florescimento nunca foi produzido só pelas escolhas individuais. Nunca foi. Ele também é consequência dos ambientes que a gente decide (ou consegue) construir, das oportunidades que a gente oferece (ou consegue acessar), das condições que a gente torna possíveis para que pessoas, famílias e comunidades possam florescer.
Toda sociedade faz apostas sobre o próprio futuro. Algumas naturalizam o acaso e alimentam vícios que empobrecem o florescimento humano. Outras cultivam virtudes e investem, pacientemente, na construção das condições que tornam a felicidade mais possível.
Bolsonaristas voltaram a explorar desinformação sobre a covid-19 às vésperas da eleição
A audiência do ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), Anthony Fauci, no Congresso americano foi usada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para recolocar a pandemia de covid-19 no centro do debate político.
Vídeos publicados nos últimos dias voltaram a questionar vacinas, máscaras e medidas adotadas durante a crise sanitária.
Do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro ao senador Magno Malta (PL-ES), a base bolsonarista voltou a repetir alegações que não são sustentadas pelas evidências científicas, segundo especialistas.
Na semana passada, em 29 de julho, Fauci, ex-principal assessor médico da Casa Branca, compareceu perante um comitê do Senado dos Estados Unidos que investiga sua atuação durante a pandemia.
Durante o depoimento, ele invocou mais de 100 vezes a Quinta Emenda da Constituição americana, que garante o direito de uma pessoa não produzir provas contra si mesma — o que irritou parlamentares republicanos.
O advogado de Fauci afirmou que seu cliente está "amparado pela lei" e negou que a decisão represente qualquer admissão de culpa.
Invocar a Quinta Emenda não constitui crime e é um instrumento amplamente utilizado no sistema judicial americano. O próprio presidente Donald Trump recorreu ao dispositivo durante um depoimento em um processo civil envolvendo a Trump Organization, em 2022, antes de retornar à Casa Branca.
O fato de Fauci ter optado por não responder às perguntas não altera, por si só, o conhecimento científico acumulado sobre vacinas, máscaras ou tratamentos contra a covid-19, afirmam especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.
Para elas, a audiência e, principalmente, a forma como ela vem sendo explorada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro fazem parte de uma estratégia de mobilização política em meio à aproximação das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e das eleições gerais no Brasil, previstas para outubro.
A audiência foi convocada pelo senador republicano Rand Paul, presidente do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado. Há anos, Paul acusa Fauci de tentar encobrir a origem da covid-19 e de financiar pesquisas no Instituto de Virologia de Wuhan, na China.
A origem da pandemia, no entanto, continua sendo alvo de debate dentro do próprio governo americano.
Segundo um relatório desclassificado do Escritório do Diretor Nacional de Inteligência, divulgado em 2023, o Conselho Nacional de Inteligência e outras quatro agências concluíram que a primeira infecção humana ocorreu por exposição natural a um animal infectado. Já o Departamento de Energia e o FBI avaliaram que a hipótese de um incidente relacionado a laboratório era mais provável.
Em 2025, já durante o segundo mandato de Donald Trump, a CIA informou que passou a considerar mais provável a hipótese de vazamento em laboratório, mas classificou essa avaliação como de baixa confiança, ressaltando que as evidências continuam limitadas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, afirmou no ano passado que a hipótese de transmissão natural de animais para humanos segue sendo a mais bem sustentada pelas evidências disponíveis, embora a origem da pandemia permaneça inconclusiva.
Durante a audiência, parlamentares republicanos também questionaram Fauci sobre mudanças nas recomendações de saúde pública ao longo da pandemia. As orientações foram alteradas conforme novas evidências científicas surgiam, algo que Fauci já havia defendido em outras ocasiões.
Diversos senadores democratas saíram em sua defesa. A senadora Maggie Hassan afirmou que a audiência foi "planejada para criar uma armadilha".
Fauci nega qualquer irregularidade.
Após a audiência, políticos do campo bolsonarista passaram a usar o episódio para afirmar que decisões tomadas durante a pandemia teriam sido desmentidas.
Dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro foi um dos primeiros a vir a público dizer que pessoas deveriam "pedir desculpas" a seu pai. "Eu sei que muita gente de bom coração culpou Jair Bolsonaro pela morte de um parente querido, ou por alguma coisa, né. Caiu em uma fake news em relação à vacina."
Além dele, outros aliados do ex-presidente adotaram discurso semelhante de "Bolsonaro tinha razão".
"Essas últimas revelações do governo americano sobre o Dr. Anthony Fauci só provam que nós e o presidente Bolsonaro estávamos certos desde o início", publicou Magno Malta.
O jornalista e influenciador Paulo Figueiredo escreveu no X: "Bolsonaro tinha razão em basicamente TUDO durante a covid", afirmou, seguindo com uma série de xingamentos à imprensa e aos defensores das políticas de distanciamento.
Já a médica Mayra Pinheiro, que ficou conhecida como "capitã Cloroquina" quando atuou no Ministério da Saúde durante a gestão do ex-presidente, afirmou que segue "de mãos limpas" e que Fauci "mentiu e foi desmascarado".
O vídeo de maior alcance, no entanto, foi publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), candidato à reeleição para a Câmara dos Deputados. Com a promessa de contar "a verdade" sobre a covid-19, a gravação ultrapassou 37 milhões de visualizações no Instagram.
No vídeo, Nikolas afirma, sem apresentar evidências, que diários pessoais de Fauci revelariam contradições entre suas conversas privadas e suas decisões públicas durante a pandemia.
O deputado também afirma, sem provas, que Fauci teria sofrido um efeito adverso pulmonar após ser vacinado e escondido essa informação do público.
Em outro trecho, sustenta que Fauci abandonou a hidroxicloroquina após o então presidente Donald Trump defender o medicamento e afirma que essa mudança teria impedido um tratamento que "poderia ter salvado milhões de pessoas".
A hipótese, porém, não é respaldada pelos grandes ensaios clínicos realizados sobre hidroxicloroquina e ivermectina, segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute.
Ao final do vídeo, Nikolas conclui: "Ou seja, tinha alguém que tinha razão. Jair Bolsonaro. Nada como o tempo".
O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello publicou um vídeo em que afirma, também sem citar novas evidências científicas, que a narrativa construída durante a pandemia "está sendo desmontada" cinco anos depois dos acontecimentos.
No vídeo, ele afirma que o ex-presidente e médicos que questionaram medidas adotadas durante a pandemia foram injustamente rotulados como "genocidas", "negacionistas" e "antivacina".
Segundo ele, as recentes discussões envolvendo Anthony Fauci nos Estados Unidos reforçariam críticas feitas à condução da pandemia.
Ele defende que o governo buscou equilibrar o combate à covid-19 com a preservação da atividade econômica, afirmando que Bolsonaro defendia "o direito de trabalhar" e a "autonomia médica" para que médicos e pacientes discutissem tratamentos. Segundo Pazuello, isso "nunca significou negar a ciência", mas reconhecer as incertezas existentes no início da pandemia.
As alegações feitas por Nikolas Ferreira e por outros aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro entram em conflito com o conhecimento científico acumulado desde o início da pandemia, segundo especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.
Entre as principais afirmações contestadas estão a de que máscaras seriam ineficazes, que hidroxicloroquina e ivermectina poderiam ter salvado milhões de vidas e que os efeitos adversos das vacinas teriam sido ocultados.
Segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, essas conclusões não são sustentadas pelas evidências científicas.
"Não ficou provado que as máscaras eram ineficazes. Os grandes ensaios clínicos não demonstraram benefício da ivermectina ou da hidroxicloroquina. E os efeitos adversos das vacinas foram monitorados, identificados e divulgados justamente pelos sistemas de vigilância de segurança", afirma.
"No início da pandemia era correto investigar esses medicamentos. Mas, quando foram realizados ensaios clínicos maiores, randomizados e mais confiáveis, os benefícios esperados não foram confirmados."
Garrett também ressalta que o fato de Anthony Fauci ter invocado a Quinta Emenda durante seu depoimento ao Senado americano não altera o consenso científico sobre a pandemia.
"Invocar um direito constitucional não comprova nenhuma alegação científica. Não transforma um medicamento ineficaz em eficaz e não apaga os resultados de milhares de estudos realizados em diferentes países."
Segundo a especialista, a audiência pode investigar a atuação de autoridades públicas, mas não modifica as evidências produzidas ao longo da pandemia.
"O que sabemos hoje sobre vacinas, máscaras, medicamentos e transmissão não depende do depoimento de Anthony Fauci, mas de milhares de estudos realizados por pesquisadores em vários países."
Para a infectologista, o aspecto mais perigoso do vídeo é combinar fatos verdadeiros com conclusões que eles não sustentam. "A desinformação mais convincente normalmente começa com alguma verdade, mas retira dela o contexto necessário."
Ela reconhece que houve falhas na condução da pandemia, como mudanças nas recomendações à medida que novas evidências surgiam, problemas de comunicação das autoridades e restrições que provocaram impactos sociais, econômicos e educacionais.
Também lembra que as vacinas podem provocar eventos adversos raros, como miocardite, sobretudo em adolescentes e homens jovens após determinadas doses das vacinas de RNA mensageiro.
"Mas reconhecer que houve um risco raro de miocardite não significa que as vacinas tenham sido mais perigosas do que a doença. Reconhecer que algumas restrições foram excessivas não significa que todas as medidas de distanciamento foram inúteis."
Para Garrett, é legítimo discutir erros cometidos durante a pandemia, mas isso não pode servir para reescrever o consenso científico. "Uma revisão honesta não pode transformar falhas reais em argumentos para defender medicamentos ineficazes ou negar que as vacinas reduziram doença grave e mortes."
Para a cientista política Carolina Botelho, doutora em Ciência Política e pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, a divulgação dos vídeos faz parte de uma estratégia eleitoral baseada em um tema que continua mobilizando a polarização política.
"Ele pega a questão da pandemia, que sabe que divide opiniões, e a recoloca na agenda política. É a velha estratégia da extrema-direita para lidar com temas controversos e mobilizar sua base", afirma.
Na visão de Botelho, o objetivo não é reabrir o debate científico sobre a pandemia, mas reforçar convicções já existentes entre apoiadores.
"O que eles precisam é do efeito do viés de confirmação. Quando uma liderança como Nikolas Ferreira ou Jair Bolsonaro fala sobre esse tema, eles sabem que haverá um grande grupo de eleitores que vai repercutir esse conteúdo e se sentir validado."
Na sua avaliação, essa estratégia vem sendo utilizada desde a campanha presidencial de 2018 e ganhou força com a consolidação das redes sociais como principal arena de disputa política.
"Você pega uma informação falsa ou distorcida e uma liderança política a distribui para milhões de pessoas porque sabe que ela será rapidamente multiplicada."
Botelho avalia que a retomada desse debate também pode ajudar a mobilizar a base bolsonarista em um momento considerado delicado para o grupo político.
"Eles movimentam a base eleitoral e trazem atenção para um momento em que Flávio Bolsonaro enfrenta um cenário mais desfavorável. Faz sentido que tentem recolocar na agenda um tema que mobiliza fortemente seus apoiadores."
Mas ela pondera que o tiro pode sair pela culatra, já que o alcance dessa estratégia tende a ser limitado.
"A maioria da população brasileira acredita nas vacinas e reconhece que elas tiveram um papel importante para reduzir casos graves e mortes durante a pandemia. Esse tipo de narrativa tende a fortalecer quem já concorda com ela, mas dificilmente amplia muito esse público."
Segundo a pesquisadora, os vídeos não apresentam elementos novos, apenas retomam discursos que circulam desde a pandemia. "Parece uma novidade, mas não é. O discurso é praticamente o mesmo, com ataques às vacinas, à ciência e aos especialistas. O objetivo continua sendo mobilizar a própria militância."
Ela afirma ainda que a escolha do tema também dialoga com a lógica das plataformas digitais.
"Assuntos controversos circulam mais rapidamente nas redes sociais. Nikolas Ferreira domina essa dinâmica e sabe que esse tipo de conteúdo gera grande engajamento entre seus apoiadores."
Para a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Deisy Ventura, a circulação dos vídeos não representa um episódio isolado, mas a continuidade de um processo de desinformação que, segundo ela, persiste desde o auge da pandemia.
"Essa desinformação jamais cessou. Mesmo depois do fim da emergência sanitária, continuamos vendo perfis, organizações e cursos que sistematicamente divulgam informações falsas sobre saúde pública e covid-19", afirma.
Na avaliação da pesquisadora, a permanência dessas narrativas está ligada à falta de responsabilização de quem difundiu desinformação durante a pandemia.
"Estamos colhendo os frutos da impunidade. A desinformação continua rendendo dinheiro, gerando engajamento e sendo usada politicamente. Não se trata apenas desse vídeo, mas de um ecossistema de desinformação sobre saúde pública."
Ventura afirma que o Estado brasileiro falhou ao não reagir de forma mais contundente à disseminação de informações falsas.
"Na primeira fake news divulgada por autoridades públicas, se houvesse responsabilização, estaríamos em outro lugar hoje", afirma. Ela também aponta a ausência de uma política de memória sobre a pandemia como um fator que facilita a retomada dessas narrativas.
Sobre a audiência de Anthony Fauci no Senado americano, a professora também afirma que ela vem sendo utilizada politicamente, mas não altera o conhecimento científico produzido desde o início da pandemia.
"Não há nada de novo nos diários de Fauci que modifique o consenso científico. Eles mostram discussões, hipóteses e dúvidas próprias de um momento em que pesquisadores buscavam compreender uma doença desconhecida", diz.
"A reiteração da ideia de que vacinas fazem mal ou de que a ciência ocultou a verdade serve para alimentar narrativas políticas, não para produzir conhecimento."
Vídeos publicados nos últimos dias voltaram a questionar vacinas, máscaras e medidas adotadas durante a crise sanitária.
Do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro ao senador Magno Malta (PL-ES), a base bolsonarista voltou a repetir alegações que não são sustentadas pelas evidências científicas, segundo especialistas.
Na semana passada, em 29 de julho, Fauci, ex-principal assessor médico da Casa Branca, compareceu perante um comitê do Senado dos Estados Unidos que investiga sua atuação durante a pandemia.
Durante o depoimento, ele invocou mais de 100 vezes a Quinta Emenda da Constituição americana, que garante o direito de uma pessoa não produzir provas contra si mesma — o que irritou parlamentares republicanos.
O advogado de Fauci afirmou que seu cliente está "amparado pela lei" e negou que a decisão represente qualquer admissão de culpa.
Invocar a Quinta Emenda não constitui crime e é um instrumento amplamente utilizado no sistema judicial americano. O próprio presidente Donald Trump recorreu ao dispositivo durante um depoimento em um processo civil envolvendo a Trump Organization, em 2022, antes de retornar à Casa Branca.
Para elas, a audiência e, principalmente, a forma como ela vem sendo explorada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro fazem parte de uma estratégia de mobilização política em meio à aproximação das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e das eleições gerais no Brasil, previstas para outubro.
A audiência foi convocada pelo senador republicano Rand Paul, presidente do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado. Há anos, Paul acusa Fauci de tentar encobrir a origem da covid-19 e de financiar pesquisas no Instituto de Virologia de Wuhan, na China.
A origem da pandemia, no entanto, continua sendo alvo de debate dentro do próprio governo americano.
Segundo um relatório desclassificado do Escritório do Diretor Nacional de Inteligência, divulgado em 2023, o Conselho Nacional de Inteligência e outras quatro agências concluíram que a primeira infecção humana ocorreu por exposição natural a um animal infectado. Já o Departamento de Energia e o FBI avaliaram que a hipótese de um incidente relacionado a laboratório era mais provável.
Em 2025, já durante o segundo mandato de Donald Trump, a CIA informou que passou a considerar mais provável a hipótese de vazamento em laboratório, mas classificou essa avaliação como de baixa confiança, ressaltando que as evidências continuam limitadas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, afirmou no ano passado que a hipótese de transmissão natural de animais para humanos segue sendo a mais bem sustentada pelas evidências disponíveis, embora a origem da pandemia permaneça inconclusiva.
Durante a audiência, parlamentares republicanos também questionaram Fauci sobre mudanças nas recomendações de saúde pública ao longo da pandemia. As orientações foram alteradas conforme novas evidências científicas surgiam, algo que Fauci já havia defendido em outras ocasiões.
Diversos senadores democratas saíram em sua defesa. A senadora Maggie Hassan afirmou que a audiência foi "planejada para criar uma armadilha".
Fauci nega qualquer irregularidade.
Após a audiência, políticos do campo bolsonarista passaram a usar o episódio para afirmar que decisões tomadas durante a pandemia teriam sido desmentidas.
Dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro foi um dos primeiros a vir a público dizer que pessoas deveriam "pedir desculpas" a seu pai. "Eu sei que muita gente de bom coração culpou Jair Bolsonaro pela morte de um parente querido, ou por alguma coisa, né. Caiu em uma fake news em relação à vacina."
Além dele, outros aliados do ex-presidente adotaram discurso semelhante de "Bolsonaro tinha razão".
"Essas últimas revelações do governo americano sobre o Dr. Anthony Fauci só provam que nós e o presidente Bolsonaro estávamos certos desde o início", publicou Magno Malta.
O jornalista e influenciador Paulo Figueiredo escreveu no X: "Bolsonaro tinha razão em basicamente TUDO durante a covid", afirmou, seguindo com uma série de xingamentos à imprensa e aos defensores das políticas de distanciamento.
Já a médica Mayra Pinheiro, que ficou conhecida como "capitã Cloroquina" quando atuou no Ministério da Saúde durante a gestão do ex-presidente, afirmou que segue "de mãos limpas" e que Fauci "mentiu e foi desmascarado".
O vídeo de maior alcance, no entanto, foi publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), candidato à reeleição para a Câmara dos Deputados. Com a promessa de contar "a verdade" sobre a covid-19, a gravação ultrapassou 37 milhões de visualizações no Instagram.
No vídeo, Nikolas afirma, sem apresentar evidências, que diários pessoais de Fauci revelariam contradições entre suas conversas privadas e suas decisões públicas durante a pandemia.
O deputado também afirma, sem provas, que Fauci teria sofrido um efeito adverso pulmonar após ser vacinado e escondido essa informação do público.
Em outro trecho, sustenta que Fauci abandonou a hidroxicloroquina após o então presidente Donald Trump defender o medicamento e afirma que essa mudança teria impedido um tratamento que "poderia ter salvado milhões de pessoas".
A hipótese, porém, não é respaldada pelos grandes ensaios clínicos realizados sobre hidroxicloroquina e ivermectina, segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute.
Ao final do vídeo, Nikolas conclui: "Ou seja, tinha alguém que tinha razão. Jair Bolsonaro. Nada como o tempo".
O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello publicou um vídeo em que afirma, também sem citar novas evidências científicas, que a narrativa construída durante a pandemia "está sendo desmontada" cinco anos depois dos acontecimentos.
No vídeo, ele afirma que o ex-presidente e médicos que questionaram medidas adotadas durante a pandemia foram injustamente rotulados como "genocidas", "negacionistas" e "antivacina".
Segundo ele, as recentes discussões envolvendo Anthony Fauci nos Estados Unidos reforçariam críticas feitas à condução da pandemia.
Ele defende que o governo buscou equilibrar o combate à covid-19 com a preservação da atividade econômica, afirmando que Bolsonaro defendia "o direito de trabalhar" e a "autonomia médica" para que médicos e pacientes discutissem tratamentos. Segundo Pazuello, isso "nunca significou negar a ciência", mas reconhecer as incertezas existentes no início da pandemia.
As alegações feitas por Nikolas Ferreira e por outros aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro entram em conflito com o conhecimento científico acumulado desde o início da pandemia, segundo especialistas ouvidas pela BBC News Brasil.
Entre as principais afirmações contestadas estão a de que máscaras seriam ineficazes, que hidroxicloroquina e ivermectina poderiam ter salvado milhões de vidas e que os efeitos adversos das vacinas teriam sido ocultados.
Segundo a infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, essas conclusões não são sustentadas pelas evidências científicas.
"Não ficou provado que as máscaras eram ineficazes. Os grandes ensaios clínicos não demonstraram benefício da ivermectina ou da hidroxicloroquina. E os efeitos adversos das vacinas foram monitorados, identificados e divulgados justamente pelos sistemas de vigilância de segurança", afirma.
"No início da pandemia era correto investigar esses medicamentos. Mas, quando foram realizados ensaios clínicos maiores, randomizados e mais confiáveis, os benefícios esperados não foram confirmados."
Garrett também ressalta que o fato de Anthony Fauci ter invocado a Quinta Emenda durante seu depoimento ao Senado americano não altera o consenso científico sobre a pandemia.
"Invocar um direito constitucional não comprova nenhuma alegação científica. Não transforma um medicamento ineficaz em eficaz e não apaga os resultados de milhares de estudos realizados em diferentes países."
Segundo a especialista, a audiência pode investigar a atuação de autoridades públicas, mas não modifica as evidências produzidas ao longo da pandemia.
"O que sabemos hoje sobre vacinas, máscaras, medicamentos e transmissão não depende do depoimento de Anthony Fauci, mas de milhares de estudos realizados por pesquisadores em vários países."
Para a infectologista, o aspecto mais perigoso do vídeo é combinar fatos verdadeiros com conclusões que eles não sustentam. "A desinformação mais convincente normalmente começa com alguma verdade, mas retira dela o contexto necessário."
Ela reconhece que houve falhas na condução da pandemia, como mudanças nas recomendações à medida que novas evidências surgiam, problemas de comunicação das autoridades e restrições que provocaram impactos sociais, econômicos e educacionais.
Também lembra que as vacinas podem provocar eventos adversos raros, como miocardite, sobretudo em adolescentes e homens jovens após determinadas doses das vacinas de RNA mensageiro.
"Mas reconhecer que houve um risco raro de miocardite não significa que as vacinas tenham sido mais perigosas do que a doença. Reconhecer que algumas restrições foram excessivas não significa que todas as medidas de distanciamento foram inúteis."
Para Garrett, é legítimo discutir erros cometidos durante a pandemia, mas isso não pode servir para reescrever o consenso científico. "Uma revisão honesta não pode transformar falhas reais em argumentos para defender medicamentos ineficazes ou negar que as vacinas reduziram doença grave e mortes."
Para a cientista política Carolina Botelho, doutora em Ciência Política e pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, a divulgação dos vídeos faz parte de uma estratégia eleitoral baseada em um tema que continua mobilizando a polarização política.
"Ele pega a questão da pandemia, que sabe que divide opiniões, e a recoloca na agenda política. É a velha estratégia da extrema-direita para lidar com temas controversos e mobilizar sua base", afirma.
Na visão de Botelho, o objetivo não é reabrir o debate científico sobre a pandemia, mas reforçar convicções já existentes entre apoiadores.
"O que eles precisam é do efeito do viés de confirmação. Quando uma liderança como Nikolas Ferreira ou Jair Bolsonaro fala sobre esse tema, eles sabem que haverá um grande grupo de eleitores que vai repercutir esse conteúdo e se sentir validado."
Na sua avaliação, essa estratégia vem sendo utilizada desde a campanha presidencial de 2018 e ganhou força com a consolidação das redes sociais como principal arena de disputa política.
"Você pega uma informação falsa ou distorcida e uma liderança política a distribui para milhões de pessoas porque sabe que ela será rapidamente multiplicada."
Botelho avalia que a retomada desse debate também pode ajudar a mobilizar a base bolsonarista em um momento considerado delicado para o grupo político.
"Eles movimentam a base eleitoral e trazem atenção para um momento em que Flávio Bolsonaro enfrenta um cenário mais desfavorável. Faz sentido que tentem recolocar na agenda um tema que mobiliza fortemente seus apoiadores."
Mas ela pondera que o tiro pode sair pela culatra, já que o alcance dessa estratégia tende a ser limitado.
"A maioria da população brasileira acredita nas vacinas e reconhece que elas tiveram um papel importante para reduzir casos graves e mortes durante a pandemia. Esse tipo de narrativa tende a fortalecer quem já concorda com ela, mas dificilmente amplia muito esse público."
Segundo a pesquisadora, os vídeos não apresentam elementos novos, apenas retomam discursos que circulam desde a pandemia. "Parece uma novidade, mas não é. O discurso é praticamente o mesmo, com ataques às vacinas, à ciência e aos especialistas. O objetivo continua sendo mobilizar a própria militância."
Ela afirma ainda que a escolha do tema também dialoga com a lógica das plataformas digitais.
"Assuntos controversos circulam mais rapidamente nas redes sociais. Nikolas Ferreira domina essa dinâmica e sabe que esse tipo de conteúdo gera grande engajamento entre seus apoiadores."
Para a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Deisy Ventura, a circulação dos vídeos não representa um episódio isolado, mas a continuidade de um processo de desinformação que, segundo ela, persiste desde o auge da pandemia.
"Essa desinformação jamais cessou. Mesmo depois do fim da emergência sanitária, continuamos vendo perfis, organizações e cursos que sistematicamente divulgam informações falsas sobre saúde pública e covid-19", afirma.
Na avaliação da pesquisadora, a permanência dessas narrativas está ligada à falta de responsabilização de quem difundiu desinformação durante a pandemia.
"Estamos colhendo os frutos da impunidade. A desinformação continua rendendo dinheiro, gerando engajamento e sendo usada politicamente. Não se trata apenas desse vídeo, mas de um ecossistema de desinformação sobre saúde pública."
Ventura afirma que o Estado brasileiro falhou ao não reagir de forma mais contundente à disseminação de informações falsas.
"Na primeira fake news divulgada por autoridades públicas, se houvesse responsabilização, estaríamos em outro lugar hoje", afirma. Ela também aponta a ausência de uma política de memória sobre a pandemia como um fator que facilita a retomada dessas narrativas.
Sobre a audiência de Anthony Fauci no Senado americano, a professora também afirma que ela vem sendo utilizada politicamente, mas não altera o conhecimento científico produzido desde o início da pandemia.
"Não há nada de novo nos diários de Fauci que modifique o consenso científico. Eles mostram discussões, hipóteses e dúvidas próprias de um momento em que pesquisadores buscavam compreender uma doença desconhecida", diz.
"A reiteração da ideia de que vacinas fazem mal ou de que a ciência ocultou a verdade serve para alimentar narrativas políticas, não para produzir conhecimento."
Segurança pública é um bom negócio racista
O Anuário de Segurança Pública 2026 (FBSP) confirma o caráter racista da violência no Brasil, com origem econômica histórica. Foram 36 mil brasileiros negros assinados em 2025 (80% do total dos homicídios). Pior ainda nas mortes causadas por intervenção policial (82% dos mortos eram negros). Não é um número casual. Reduzir a análise do problema da segurança pública no Brasil a casos de polícia é varrer o lixo para baixo do tapete. O fenômeno da criminalidade brasileira é político-racial. Um modelo socioeconômico. Tem origem colonial. Em 1500 não havia por aqui pessoas brancas e negras, tampouco agropecuária e mineração em larga escala. Havia uma biodiversidade exuberante, sob a qual repousavam terras potencialmente agricultáveis com dimensões continentais, habitadas por milhões de indígenas (centenas de etnias que falavam dezenas de idiomas).
A violência que fustiga o país é remanescente do modo de produção que motivou a vinda dos mercantilistas portugueses, assim como espanhóis, holandeses e franceses que invadiram esses territórios que atualmente constituem o Brasil. A escravização de povos negros africanos pelos europeus era o fator de viabilização dos novos negócios de larga escala daquela época e estava na base do modelo colonial. Os europeus procuravam onde instalar sua produção baseada em escravidão. Nesse sentido, o Brasil foi uma invenção econômica-escravista, cuja feição racista perdura até hoje. No século XVI, o que aconteceu aqui foi a implantação em escala empresarial de dois experimentos macabros bem sucedidos realizados no século anterior. Um deles foi o uso de pessoas negras para trabalharem como escravos em lavouras e minerações na própria África, Caribe e em ilhas atlânticas. O outro laboratório exitoso, também no século XIV, foi a própria comercialização em si desses negros em mercados da África Ocidental, Moçambique, Península Ibérica e América Central.
Portanto, não houve descoberta incidental do Brasil pela esquadra de Cabral. Foi jogo combinado. Os colonizadores europeus haviam transformado o trabalho escravo no negócio mais lucrativo da história da humanidade. Um modelo econômico desumano em escala mundial. O que aconteceu em 22 de abril de 1500 foi a formalização da posse pelas cortes de Lisboa de um território ideal para a instalação de empresas minerais, florestais e agropecuárias baseadas no uso da mão-de-obra negra escrava e na rapina de recursos naturais. A tentativa inicial foi a escravização dos nativos, mas as condições objetivas para sua escravização produtiva – no seu próprio local de origem e captura – não se mostraram lucrativas e funcionais. Por 400 anos o Brasil foi erguido e consolidado em cima da exploração violenta de uma população majoritariamente negra e escravizada.
Há apenas pouco mais de cem anos a escravidão foi oficialmente abolida. Ao invés de se proceder uma inclusão social e econômica desse estrato da população brasileira, na esteira da modernização capitalista, o que se viu foi a cristalização de uma desigualdade social manifestada nas diversas dimensões da cidadania: renda, riqueza, saúde, educação, segurança, bens públicos, moradia, urbanismo, entre outros direitos democráticos sonegados. Uma desigualdade com motivação original econômica e racista em um país com população atual de mais de 120 milhões de pessoas negras (cerca de 56% do total). Mudar essa realidade é responsabilidade de todos, a começar pelo andar superior do PIB e da política.
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