segunda-feira, 18 de maio de 2026
Qual o próximo pretexto para o Holocausto?
Vi o fim do fascismo. Foi bom. Vejo o fim do comunismo. É bom. E vi durante toda a vida como um e outro foram úteis para o ódio se cumprir. Mas finda a utilidade desses pretextos, que outro pretexto vai ser? Curamos os efeitos da doença, guardamos a doença para outra vez. É a reserva maior do homem, essa, a do mal, Há o que lhe é inevitável, mas não lhe basta. Cataclismos, traições do irmão corpo. Não chega. E a própria morte, que é a sua fatalidade, ele não a desperdiça e aproveita-a para ir matando mais cedo. Como a um animal do seu sustento. O homem. Que enormidade.
Vergílio Ferreira
Etelvina, acertei no milhar!
Todo corpo contém massa (m) e energia (E). A energia não é algo que esteja dentro da massa; é a sua própria essência (como o calor e a luz, por exemplo). A massa é concreta, palpável e visível a olho nu; a energia é intrínseca a ela. Em física, massa e energia são equivalentes: E = mc². Uma pequena quantidade de massa corresponde a uma enorme quantidade de energia, pois a constante c² representa a velocidade da luz – um número muito grande – elevada ao quadrado.
Perdas de massa equivalem a perdas de Energia, ganhos também. O Sol perde cerca de 4 milhões de toneladas por segundo – de sua massa de 2 quintilhões de toneladas. A Energia que se desprende do Sol, na forma de luz e calor, leva 8 minutos para percorrer os 150 milhões de quilômetros que o separam dos chamados organismos vivos da Terra e que os alimenta.Os organismos vivos da Terra apresentam capacidade de reprodução, regulada pelo equilíbrio ecológico. A massa de uma minúscula semente pode conter um embrião com nutrientes e instruções completas para gerar uma estrondosa árvore. A massa de um óvulo fecundado por um espermatozoide pode conter um embrião com nutrientes e instruções completas para gerar um mamífero (inclusive o assim chamado ser racional). E isso é tudo o que sabemos do mundo em que vivemos, de onde viemos e para onde vamos – ou seja, muito pouco. A origem de tudo isso, do Big Bang, do Universo, do hidrogênio, do Sol, dos organismos vivos e de quem aqui vos fala? Não sabemos! Continua sendo um mistério.
Apertem os cintos, porque, em um salto epistemológico e com liberdade poética, vamos aterrar nas humanidades. Você pode se sentir atraído e conhecer o corpo de uma pessoa – concreto, palpável e visível a olho nu –, mas dificilmente tem ciência de sua energia. É mesmo comum ouvir pessoas dizerem que passaram uma vida ao lado de outra, que não conhecem. O corpo de uma pessoa que temos à nossa frente (sua massa) corresponde a uma enorme quantidade de energia (não palpável, profunda, fora de nosso alcance).
A Revolução Industrial na Inglaterra, que inaugurou o capitalismo industrial e generalizou a mercadoria, produziu “maravilhas maiores do que as pirâmides do Egito”, progresso, riquezas, redução da mortalidade infantil, aumento da longevidade, desigualdades, guerras em proporções devastadoras, armamentos, bombas de hidrogênio, o antropocentrismo, poluição, desastres ambientais, aquecimento global etc. e propiciou a globalização do mundo sob o domínio da Europa e dos Estados Unidos, que, em 2020, agregavam apenas 14% dos 8 bilhões de habitantes do planeta – esta participação deve cair para 12% em 2050 e 10% em 2100. A China, que foi subjugada em meados do século XIX, está atualmente desafiando a hegemonia ocidental, com a utilização das armas do próprio ocidente, o mundo da mercadoria e o progresso.
Casar e ter filhos, até há pouco tempo, era parte da vida, da existência, que se fazia automaticamente, sem pensar. Historicamente, altas taxas de fertilidade acompanhavam as altas taxas de mortalidade infantil, que reduziam o número de filhos sobreviventes. A princípio, a fertilidade caiu, acompanhando a mortalidade infantil decrescente. Em 1950, a taxa de fertilidade na Europa registrava 2,7 filhos por mulher. Entretanto, independentemente da mortalidade infantil, a fertilidade continua caindo na Europa que, em 2020, registrou 1,5 filhos por mulher, muito abaixo do nível de reposição populacional, 2,1. Nos Estados Unidos, a taxa de fertilidade, 3,1 filhos por mulher em 1950, caiu para 1,6 em 2020.
A China, neste mesmo período, apresentou uma trajetória muito particular. Após a Revolução de 1949, quando o país somava 500 milhões de habitantes, o governo chinês considerou estratégico incentivar o crescimento populacional. A taxa de fertilidade na China, que antes da revolução era de 5,0 filhos por mulher, em 1963 atingiu 7,5. Nos anos 1960, o governo achou por bem inverter a sua estratégia bem-sucedida e resolveu incentivar o controle da natalidade. Durante a Revolução Cultural, rapazes e moças foram encorajados a canalizar as suas energias para a revolução e se abster de relações sexuais até os 28 anos, idade sugerida para o acasalamento – sexo antes do casamento era proibido, prostituição também. Em 1979, quando a sua população estava beirando um bilhão, a China implementou a política de filho único (com alguma tolerância na zona rural). A política de filho único foi relaxada em 2015, mas a taxa de fertilidade segue caindo, 1,3 filhos por mulher em 2020 e 1,0 filho em 2024.
Filhos, filhos? Melhor não tê-los!
Mas como sabê-los (sem tê-los), diria Vinícius de Moraes. Alan Grant, por sua vez, em Jurassic Park, diz que crianças são barulhentas, bagunceiras, custam caro e fedem.
Tradicionalmente, a identidade sexual biológica, masculina e feminina, era reforçada pela divisão sexual do trabalho, vestuário e normas de comportamento. Sexo e gênero eram uma só categoria e, em regra, homens e mulheres se acasalavam e procriavam – a esterilidade era temida e desprezada. O antropólogo João Paulo Lima Barreto, Yupuri entre os Tukanos do Alto Rio Negro, na introdução autobiográfica de sua premiada tese de doutorado, escreveu que, entre seu povo, quando criança, lhe diziam que “se eu me aproximasse da fabricação dos utensílios reservados às mulheres, iriam crescer feridas em minha barriga”.
A Revolução Industrial implodiu o mundo tradicional e a divisão sexual do trabalho. O capital, em sua racionalidade, instituiu uma divisão técnica e um mercado de trabalho que, democraticamente, emprega homens, mulheres e crianças. O capital não tem preconceitos e, de seu ponto de vista, todos são iguais, ou melhor, as diferenças podem ser comensuradas de acordo com o desempenho e o custo de cada categoria. A vida passou a ser governada pelo mundo da mercadoria, no trabalho, no consumo e em todas as suas outras possíveis dimensões. O mundo passou por um processo de urbanização, as famílias tornaram-se nucleares e ambos os cônjuges foram arregimentados para trabalhar diretamente para o capital.
As pessoas são hoje agentes econômicos a serviço do capital e as relações sociais passaram a ser mediadas pelo mercado, ou seja, foram instituídas relações materiais entre pessoas. O tradicional casamento e a procriação também tiveram que se subordinar à racionalidade do mercado. O indivíduo não é mais induzido a casar e procriar, pode agora exercer o livre arbítrio e estabelecer o planejamento familiar. Nos anos 1960, enquanto vivenciávamos a Revolução Sexual, o Vaticano insistia em associar o prazer sexual exclusivamente à reprodução. Na atualidade, contudo, mesmo a Igreja Católica adotou uma postura mais flexível.
Além do investimento financeiro com os filhos, perde-se muito tempo com o imprescindível investimento narcísico nos mesmos. Se a questão fosse meramente financeira, os ricos teriam mais filhos que os pobres. Mas é exatamente o contrário. No sambinha popularizado por Moreira da Silva, Barbolino, em sonhos, fica rico e resolve viver viajando – “E os nossos filhos, oh, que inferno; eu vou pô-los num colégio interno.”
Os jovens rebeldes dos anos 1950 costumavam enfrentar os pais dizendo que não pediram para nascer. Por outro lado, gerar filhos é uma afirmação pela vida, algo como pedir para ter nascido, ser militante da vida. A família e a geração de filhos passam atualmente por uma crise sem horizontes discerníveis. Qual será o impacto existencial dos desdobramentos desta crise?
Não sei se caso ou se compro uma bicicleta. Lado a lado, convivem frutos de concepções indesejadas – principalmente entre adolescentes, que em parte atendem à demanda por adoção – com os frutos das milionárias inseminações artificiais, que atendem aos casais estressados pelo ritmo de atividade insano a que a vida moderna nos induz, além de iniciativas eugênicas, “melhoria da raça”, eticamente questionáveis.
Os seres vivos nascem e morrem, mas a vida segue sendo imortal. Nas sociedades tradicionais africanas, chamar uma pessoa de indivíduo (sem família, não integrado ao coletivo, desenraizado) é insultuoso, enquanto, no ocidente, a individualização é a meta – a individualização da massa do nosso corpo e da enorme quantidade de energia que habita cada um de nós.
Cumplicidade da mídia ocidental nos crimes de guerra de Israel é uma traição ao jornalismo básico
O poder de narrar, ou de impedir que outras narrativas se formem e emerjam, é muito importante para a cultura e o imperialismo, e constitui uma das principais conexões entre eles
As plataformas de mídia ocidentais que demonstram tenacidade em manter uma relação de "baaskap" (relação de amizade/relacionamento) com os consumidores estão entre os muitos covardes da classe jornalística que regularmente "eliminam" o genocídio de Israel em Gaza.
“Baaskap” refere-se a uma filosofia política racista predominante durante o apartheid na África do Sul, semelhante à “suserania” colonial – ambas exercendo supremacia, poder e controle.
Ironicamente, apesar do domínio que exerce, os magnatas da mídia ocidental evitam antagonizar o regime colonial judaico de Israel.
Muitos fatores contribuem para o que melhor se descreve como "covardia", mas o principal é o medo avassalador da intimidação e das acusações de "antissemitismo".
Em suma, existe uma "regra" não escrita que dita o formato da cobertura jornalística relacionada a Israel – uma completa traição à ética do jornalismo. A erosão da confiança e da integridade decorre da autocensura, que minimiza a brutal realidade do horror infligido pelo regime de Netanyahu em Gaza.
O padrão de enquadramento é evidente na escolha de uma linguagem suave, bem como na omissão do contexto crítico.
Criticar a resistência palestina que marca o dia 7 de outubro de 2023 sem analisar décadas de ocupação ilegal por Israel, o bloqueio de Gaza que já dura 17 anos e o estatuto jurídico do território perante o direito internacional é extremamente injusto, tendencioso e enganoso.
De fato, pode-se argumentar que reportagens da mídia que começam com 7 de outubro, enquadrando a justificativa de Israel como uma “guerra justa” ou “contraterrorismo”, enquanto omitem o contexto histórico de ocupação, bloqueio e apartheid, seriam equivalentes a fabricar consentimento para o genocídio.
Na ausência de um contexto crucial, as plataformas de mídia atuam como câmaras de eco da Hasbara (propaganda) de Israel. Reportagens e comentários que surgem dessas omissões cruciais alimentam narrativas sionistas que buscam justificar o genocídio.
Sobre a questão da "linguagem amena", memorandos internos vazados de alguns veículos da grande mídia supostamente instruíam jornalistas a evitar ou restringir termos como genocídio, limpeza étnica e territórios ocupados.
Não há justificativa para o uso de termos como "massacre" e "carnificina" para descrever a retaliação palestina, enquanto termos neutros como "conflito" ou "explosões" são usados para os bombardeios israelenses generalizados e implacáveis contra civis palestinos.
É importante lembrar que o Instituto Lemkin para a Prevenção do Genocídio instou a mídia ocidental a parar de usar uma retórica que "protege ativamente" Israel da responsabilização por crimes internacionais.
É igualmente importante lembrar que, dias depois de 7 de outubro, o presidente de Israel, Herzog, disse que não eram apenas os militantes, mas “uma nação inteira” a responsável pela violência, e que Israel lutaria “até quebrar a espinha dorsal deles”.
Em 9 de outubro, o ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, referiu-se aos palestinos como "animais humanos" e afirmou que as forças israelenses estavam "agindo de acordo". Mais tarde, ele disse às tropas israelenses na fronteira: "Vamos eliminar tudo".
Em 16 de outubro, em um discurso formal ao Knesset israelense, o principal senhor da guerra do regime, Netanyahu, afirmou que a situação era “uma luta entre os filhos da luz e os filhos das trevas, entre a humanidade e a lei da selva”. Essa citação também foi publicada em sua conta oficial X, mas posteriormente foi apagada.
Apesar de a grande mídia ocidental ter contribuído para a criação de consenso em torno do genocídio em Gaza e dos assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada, a desumanização dos palestinos por políticos e soldados israelenses permanece, em grande parte, sem contestação por parte dela.
O recente fiasco em torno da descrição feita pelo Financial Times do deslocamento forçado e racista de palestinos na Cisjordânia pelo regime sionista como "anexação legal" é uma prova de que se está a tentar minimizar a limpeza étnica por meio da força militar violenta, que, segundo todos os relatos, é fundamentalmente criminosa de acordo com o direito internacional.
Não existe nenhum "mecanismo" ou "regulamento" legal que possa legitimar a tomada unilateral de território ocupado.
Em julho de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), a mais alta instância jurídica do mundo, proferiu uma decisão histórica: a presença de Israel no território palestino ocupado é ilegal.
O Tribunal Internacional de Justiça concluiu que Israel deve pôr fim à sua ocupação o mais rapidamente possível, cessar toda a atividade de novos assentamentos e evacuar todos os colonos.
A cobertura branda da destruição de vidas e propriedades permite que o regime de Netanyahu a disfarce como nada mais do que a autoridade civil burocrática exercendo poderes administrativos.
A cumplicidade da mídia volta a ocupar o centro do palco ao repetir acriticamente a narrativa ardilosa do regime, sem questionar os fatos que revelariam que tais violações visam tornar a anexação irreversível.
Permitir tal fracasso é ignorar relatórios da ONU do início de 2026 que confirmam que essa expansão deslocou à força mais de 36.000 palestinos em meio à crescente violência dos colonos, além de alertas de agências humanitárias de que essas políticas indicam um esforço concertado de transferência forçada em massa.
A omissão de fatos, contexto e a escolha da linguagem permitem a existência de um vácuo que persiste, reforçando os mitos sionistas.
Tudo que parece sólido desmancha no Master
Tudo o que é sólido desmancha no ar. Foi o que aconteceu com a candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. Ela não resistiu a um bilhete curto e mal escrito, assinado por Bolsonaro, proclamando o filho Flávio como seu legítimo sucessor no comando da direita. Restou a Tarcísio conformar-se e atender à ordem vinda do alto — exatamente como se procede nos quartéis.
Estava escrito nos alfarrábios e nas estrelas que seria assim, um negócio de pai para filho. Apenas a imprensa porta-voz da direita engravatada não viu; esta torceu por Tarcísio até o último minuto e, de lá para cá, só faz lamentar. É notável a incapacidade da direita de parir um candidato decente e eleitoralmente viável. O último foi Fernando Henrique Cardoso, em 1994, que sequer era de direita. O anterior, em 1960, foi Jânio Quadros, ex-governador de São Paulo que renunciou à Presidência da República em menos de seis meses. Populista e excêntrico, Jânio vivia ébrio e se queixava da solidão de Brasília. Levou consigo a faixa presidencial e pretendia retomar o cargo, desde que fosse com plenos poderes para governar o país como ditador.
Condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro, convenhamos, foi menos ambicioso. Orientou Flávio a disfarçar-se de “o Bolsonaro que todos gostariam de ver”: um dançarino capaz de atrair o voto dos jovens e um político com largo trânsito no Congresso, que não representaria uma ameaça imediata à democracia por carecer de apoio dos militares. Esqueceu, porém, que, dos seus quatro filhos, Flávio sempre foi o que demonstrou maior gosto por dinheiro e por transações obscuras e arriscadas. Carlos meteu-se na política obrigado pelo pai; nunca foi sua praia. Eduardo é movido por ideologia e busca de reconhecimento. Jair Renan ainda não disse a que veio.
Assim, com menos de seis meses de exposição, Flávio atravessou a linha vermelha. Desde 2022, era público o processo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para apurar operações fraudulentas no mercado de capitais. O presidente da CVM até julho de 2025 era amigo de infância de Flávio. Em dezembro de 2024, o filho do ex-presidente procurou Vorcaro pedindo fundos para produzir um filme de exaltação ao pai. Para fins de comparação, o orçamento da produção mais cara do cinema brasileiro recente, “Ainda Estou Aqui” — que disputou o Oscar —, foi de R$ 45 milhões. Flávio conta que Vorcaro lhe repassou R$ 60 milhões.
O recebimento do montante não impediu o parlamentar de defender a instalação de uma CPI para investigar o escândalo financeiro do Banco Master, tentando atribuí-lo ao governo Lula. “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, escreveu Flávio a Vorcaro um dia antes da prisão do ex-banqueiro.
Agora, a candidatura de Flávio está na corda bamba. Ele teme o surgimento de novos fatos que possam fragilizá-lo ainda mais, enquanto a Polícia Federal permanece em seus calcanhares. Até o final desta semana, a nova pesquisa Datafolha deverá revelar o tamanho real do estrago.
Ricardo Noblat
A vida é feita de opções, mas só para quem pode
Os capacetes nas cabeças, os fatos de proteção volumosos e um pouco hirtos, as grandes mochilas às costas. Parecem astronautas movendo-se lentamente sobre a superfície lunar, permanentemente consultando as rotas de GPS nos telemóveis que trazem nas mãos. É quase hora do almoço, para quem come cedo. Talvez a hora do brunch para quem se levantou tarde neste domingo. Por isso são tantos a chegar à praceta de canteiros bem arranjados, rodeada de apartamentos que se vendem facilmente por dez mil euros o metro quadrado. São seguramente estrangeiros e têm a pele escura estes homens que cirandam por ali à procura dos números de porta certos para as entregas. Pelas entradas dos prédios vejo passar outras pessoas, seguramente estrangeiras e de pele muito clara. Uns e outros são humanos de planetas diferentes. Separam-nos muitas milhas de desigualdade e provavelmente de incompreensão mútua.
Passo muitas vezes pelos entregadores de comida à porta de um centro comercial ou de um restaurante. Vejo-os quase sempre sentados no chão, numa espera de prontidão. Vagueiam, com olhos vazios de cansaço, pelos ecrãs dos telefones e quase parecem adormecidos nesse entorpecimento de expectativa. Mas é evidente neles uma espécie de mola à espera de ser ativada por mais uma notificação, mais uma viagem, feita às vezes em bicicletas que carregam esforçados pelas colinas de Lisboa acima, outras em motos, com as quais desafiam a morte e as probabilidades, para chegar mais depressa ao destino e seguir outra vez para ganhar mais uns euros antes que o dia se acabe.
Os profetas do empreendedorismo deviam considerá-los deuses. São modernamente flexíveis. Não conhecem a cara do patrão e, ainda que sejam escravos de um algoritmo, são para todos os efeitos “empresários por conta própria”. Não estão fechados num escritório nem numa rotina. E, com esta descrição, creio que já citei todas as maravilhas que os arautos da precariedade consideram ser tão apelativas para os jovens. Curiosamente, nas minhas deambulações pela cidade, raramente encontro jovens portugueses brancos de mochilas de Uber e Glovo às costas. Não se percebe.
Também não encontro assim muitos jovens portugueses brancos ao volante dos TVDE em que circulo. Encontro, sim, muitos portugueses (e portuguesas) e imigrantes menos jovens, que me contam como precisam do biscate para compor as contas do salário ou da reforma que não chegam ou como, num golpe da vida, aquela se tornou a única opção. Há os que gostam de andar por aí a conduzir e de falar com os clientes dispostos a trocar dois dedos de conversa, mas também há muito cansaço, muitas horas duras e a sensação de que se precisa de esticar as horas do dia para que os euros cheguem até ao fim do mês.
Há quem ache que a vida é feita de opções. Esses são os privilegiados. Os que podem ter escolhas de carreira, porque tiveram dinheiro para pagar os estudos e bons contactos para começar a trabalhar nos sítios certos. Os que já têm a casa paga ou perto disso, porque a receberam de herança ou com a ajuda dos pais, e nem se apercebem como tal se reverte em horas de tempo livre e, lá está, opções. Os que sabem que podem arriscar e pensar “fora da caixa” ou “fazer acontecer” porque têm uma rede familiar e contas bancárias que o permitem e que garantem que terão forma de arranjar quem lhes cuide dos filhos, que poderão tratar da saúde e manter o aspeto certo para que o sucesso lhes bata à porta. Pois são exatamente esses que mais acreditam no seu próprio mérito. São esses os que acham que tudo na vida se consegue com esforço. (Pausa para lançar uma sonora gargalhada).
Tenho-me apercebido, à medida que vou envelhecendo, de que no meu círculo de amigos e conhecidos as grandes diferenças sociais residem quase sempre na capacidade financeira dos pais… Não tanto no esforço, no mérito ou no talento. Mas naquela herança ou ajuda que os pais foram capazes de deixar e que, muitas vezes, já vinha de alguma forma dos avós (embora nem sempre, porque na geração dos meus pais houve efetivamente quem subisse na escada social só com o salário, quase sempre através da possibilidade de comprar casas). Há uma espécie de cadeia cármica, ou talvez seja de casta, que se passa de uma geração para a outra e que faz com que uns comecem a corrida muito à frente dos outros e ainda assim achem que estão à frente porque o merecem. Os que ficam para trás, claro, são uns falhados, que fizeram más opções na vida.
Esta mentira sobre o mérito tem um objetivo: apresentar como obsoletas e inúteis as políticas públicas que aumentam a igualdade. E os números mostram que a estratégia está a dar frutos. Uma análise publicada pela Comissão Europeia revela que os 10% mais ricos em Portugal controlam 60,2% da riqueza. Isto representa um aumento de três pontos na desigualdade desde 1995. Quem espalha esta ideologia da meritocracia tira daí bons proveitos.
Para os que apresentam dúvidas de fé, há a liturgia da literacia financeira, que há de nos ensinar os truques para ficar rico com o investimento certo em criptomoedas que não se tem como pagar ou poupando aquilo que não sobra (certamente por incompetência do próprio) do salário ao fim do mês. Há também as missas dos coaches que nos ensinam a visualizar para conseguir ter tudo o que não se consegue comprar e os missais dos livros de autoajuda, tudo, claro, vendido a bom preço. Exigir salários dignos é para meninos, fazer greves é para preguiçosos, reclamar melhores serviços públicos é para quem gosta de andar à mama, rejeitar políticas de opressão e austeridade é para ingénuos, defender impostos mais altos para o capital do que para o trabalho é para perigosos radicais.
Não sei se os vossos pais tiveram dinheiro para vos mandar para a melhor universidade sem terem de vos pôr a trabalhar, se têm um daqueles apelidos sonantes que abrem portas, se desde pequeninos têm um networking digno desse nome, se receberam uma herança que faz com que não precisem de ficar acordados à noite a pensar como é que pagam contas inesperadas, se podem fazer compras sem olhar para o saldo e usufruir de lazer e cultura à vontade e sem créditos. Se responderam a tudo que sim, são só o vosso umbiguismo e a vossa insensibilidade social que vos impedem de perceber a importância de terem uma sociedade mais justa, que será também uma sociedade menos tensa e mais segura. Se não e ainda acreditam que a meritocracia, o empreendedorismo, a literacia financeira e a flexibilidade vão salvar-vos, então não sei o que vos diga.
Quando um ministro caía por US$ 830
Estamos em 1993, o presidente da República é Itamar Franco, e seu ministro da Fazenda é Eliseu Resende. Vaza a informação de que Resende recebera vantagens impróprias de uma empreiteira durante viagem a Nova York. Itamar o demite. A empreiteira era a Andrade Gutierrez, que pagara uma conta de hotel de Resende. Valor: US$ 830!
Reparem. O ministro, técnico respeitado, caiu por aceitar uma cortesia de míseros US$ 830. E mais: a viagem havia sido feita antes de Resende assumir o Ministério da Fazenda. Em dinheiro de hoje, esse valor paga uma diária no hotel Península de Londres, onde algumas autoridades se hospedaram por alguns dias, comeram e beberam por conta de Daniel Vorcaro. E acharam tudo muito normal.Outra do Itamar. Seu ministro-chefe da Casa Civil era Henrique Hargreaves, amigo de absoluta confiança. No Congresso, estava em andamento a CPI do Orçamento, e ali apareceram denúncias de que Hargreaves recebia dinheiro “por fora”. Eram suspeitas, mas Itamar resolveu afastá-lo até que se provasse sua inocência. O golpe foi tão pesado que Hargreaves sofreu um infarto. Sobreviveu, provou-se a inocência, e ele voltou ao cargo.
Há duas lições aqui. Primeira, a suspeita ou, como alguns diriam, a “simples” suspeita é, sim, causa de afastamento do serviço público. Segunda, um homem honrado pode literalmente morrer de vergonha quando envolvido em denúncias de corrupção.
Hoje, quando apanhado, o corrupto imediatamente se declara inocente, vítima de injustiças e perseguições. Quando não tem mais jeito de negar, vai para a delação premiada. Entrega, confessa, mas para salvar alguns trocados que garantam uma boa vida e — quem sabe? — a volta aos negócios. Já aconteceu com muitos que foram apanhados pela Operação Lava-Jato e hoje estão por aí, na boa, negociando com governos.
Itamar sucedia a Fernando Collor, que sofrera impeachment por causa de grossa corrupção. Ainda assim, na casa dos milhões. Na Lava-Jato, os valores do dinheiro roubado chegaram aos bilhões. No caso Vorcaro, dezenas de bilhões. Pode-se dizer que foram em vão os exemplos deixados por Itamar Franco.
No público, a impressão é que a roubalheira é generalizada em todos os governos, de Brasília aos municípios.
— A cada dia que passa, temos a sensação de que a corrupção tomou conta do país; não há o que fazer: sofremos de uma doença incurável — escreveu na revista Veja a economista Maria Cristina Pinotti, sem dúvida a maior autoridade no estudo dos impactos da corrupção na sociedade.
Para ela, entretanto, a doença não é incurável. A cura é difícil, mas absolutamente necessária para que o país escape dessa situação de baixo crescimento e enorme desigualdade. A sensação de roubalheira geral é disruptiva. Imagine o cidadão comum, que entrega em dia sua declaração de IR, paga os impostos e todo dia toma conhecimento de algum episódio de roubo de dinheiro público, o dinheiro que ele pagou. Por que pagar de novo?
O empresário honesto se vê numa competição desleal. O concorrente ganha os contratos não por ser mais eficiente, mas por dispor dos melhores contatos nos governos. As obras são feitas e os serviços prestados não para buscar o bem comum, mas porque dão mais dinheiro para alguns. Como escapar dessa situação? Pela atuação civil das pessoas honestas, pelo trabalho de instituições sérias e pelo apoio a políticos e servidores sérios.
Pinotti sugere o caminho. Primeiro, avaliar o tamanho da corrupção — tarefa obviamente difícil, mas que pode ser cumprida por boas pesquisas e análises dos gastos públicos. A partir daí, é necessário reformar a legislação penal, para redefinir o crime de corrupção e as penalidades. Para isso, claro, precisamos do Poder Legislativo. E, para aplicar uma nova legislação, precisamos da ação do Judiciário.
Imagino a sensação de desânimo do leitor... mas é nesses Poderes que encontramos corrupção. Pois é. Ninguém disse que é fácil. Mas a Itália conseguiu. E sempre temos o voto. Quem sabe nos aparece um novo Itamar.