quinta-feira, 4 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Quando a política se transforma em fé

Quando era adolescente, lembro que, certa vez, em um sábado de manhã, um grupo religioso missionário tocou a campainha de casa e fui atendê-los. Queriam me convencer da palavra de Deus. Como sempre me interessei pelo Antigo Testamento e pela arqueologia, incluindo o surgimento do ser humano, comecei o que pensei que seria uma conversa entre pessoas com opiniões diferentes, sobre quais seriam as evidências científicas de que descendíamos de Adão e Eva, e não de processos de evolução biológica. Durante semanas, todos os sábados de manhã, essas pessoas voltavam com os mesmos discursos sobre o que dizia a Bíblia, pois, para elas, tratava-se da palavra de Deus, enquanto eu buscava publicações e argumentos científicos sobre as últimas descobertas da ciência, pensando que poderia os fazer entender a diferença entre fé e ciência.

Era uma discussão interminável: não importavam as evidências nem as informações apresentadas, porque qualquer dado contrário às crenças daquelas pessoas era imediatamente negado. Depois de quase dois meses desses encontros na porta de casa, e contra a minha vontade, meu pai interveio e simplesmente disse para aqueles religiosos que não voltassem mais ou chamaria a polícia. Demorei para perceber que nunca se tratou de uma discussão de ideias, mas de uma disputa de fé. E a fé não funciona no plano racional.

Basta refletir sobre a história da humanidade para entender que o poder político sempre esteve profundamente associado à religião. Reis, imperadores e governantes legitimavam sua autoridade por meio de uma suposta conexão direta com o divino. Em alguns casos, o soberano era considerado um deus vivo; em outros, um representante de deus na Terra. Atualmente, o Vaticano é talvez um dos exemplos mais visíveis dessa lógica: os fiéis não escolhem diretamente seu líder, mas um grupo restrito de cardeais decide quem ocupará o cargo máximo. Até o momento da eleição, o futuro papa é apenas mais um homem dentro da Igreja. Mas, após o ritual, muda de nome, de vestimenta e de posição no mundo. Renasce simbolicamente investido de uma autoridade transcendente.

Em outras sociedades, o caráter sagrado do poder é depositado em determinadas famílias, estabelecendo linhagens políticas e religiosas que atravessam gerações. Em ambos os casos, o resultado é semelhante: sistemas profundamente antidemocráticos que se perpetuam em razão do sustento simbólico da fé.

As democracias modernas tentaram romper com essa lógica. Não por acaso, muitas de suas constituições estabeleceram a separação entre Estado e religião como condição fundamental para garantir a existência de cidadãos livres, e não de súditos obedientes. A política deveria transformar-se em um espaço de debate racional entre projetos, interesses e ideias, e não em uma disputa entre fiéis.

No entanto, nas últimas décadas, assistimos a um processo inverso. A política voltou a adquirir traços religiosos. Os novos pastores misturam espetáculo, fé e poder político. Já não basta controlar templos (que em muitos casos viraram fábricas de eleitores): o sonho de toda grande igreja é controlar meios de comunicação, rádios, canais de televisão e, mais recentemente, as redes sociais, com influenciadores digitais religiosos. A lógica é poderosa: convencer as pessoas de que elas não estão discutindo política, mas o bem contra o mal, Deus contra o demônio. Quando isso acontece, desaparece a possibilidade de argumentação racional. A fé não se debate; vive-se. E justamente por isso ela é uma das forças mais potentes de mobilização coletiva que existem.

Esse fenômeno de mistura entre política e religião não se limita ao Brasil. Existem exemplos em diversas partes do mundo: Irã, Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel, entre muitos outros. No mundo ocidental, vem crescendo o poder dos grupos associados ao “dominionismo”, corrente teológica e política cristã que defende que os cristãos possuem um mandato divino para ocupar posições de poder e assumir o controle das instituições civis e seculares da sociedade.


No caso brasileiro, essa situação torna-se cada vez mais visível. Uma pesquisa recente mostrou que grande parte dos eleitores do candidato presidencial Flávio Bolsonaro continua apoiando-o mesmo após as revelações sobre suas relações com figuras polêmicas e esquemas ocultos de poder. Para muitos de seus eleitores, tudo não passaria de uma invenção, uma perseguição contra alguém que se autoproclamou representante “de um projeto de Deus” para combater os inimigos da nação e da fé. O ponto central já não é se as acusações são verdadeiras ou falsas. O importante é que, para muitos seguidores, nenhuma evidência é capaz de alterar essa crença sustentada pela fé.

Seu próprio pai, Jair Bolsonaro, em 2018, deixou de ocupar uma posição política marginal para transformar-se em uma figura quase messiânica, capaz de transferir legitimidade aos filhos e a todo um campo político que depende simbolicamente dele. E é interessante fazer um paralelo com aquilo que foi mencionado anteriormente quando me referi ao processo de transformação de uma pessoa em pontífice: um sujeito comum que, já na etapa final da vida, é proclamado líder por vontade divina, em uma espécie de renascimento, passa a ter sua história recontada de forma completamente diferente (obviamente com algumas partes apagadas), e qualquer acontecimento banal de sua trajetória passa a ser reinterpretado como sinal de uma escolha direta de Deus.

Esse processo de mistura entre fé e política é profundamente preocupante porque destrói a própria base dos princípios democráticos. Quando o adversário deixa de ser visto como um oponente legítimo e passa a representar o mal absoluto, qualquer diálogo se torna impossível. A crítica é interpretada como blasfêmia; a dúvida, como traição.

Nesse contexto, o Congresso corre o risco de transformar-se em um grande templo ocupado por pastores-deputados e senadores – e agora também por ministros da mais alta corte – que falam mais em nome de verdades reveladas do que de projetos políticos e demandas populares. Pouco a pouco, a fronteira entre religião e Estado vai tornando-se cada vez mais frágil e difusa.

A história demonstra que sociedades organizadas em torno de lideranças “sagradas” tendem a produzir formas autoritárias de poder. Quando a política se transforma em fé, os cidadãos deixam de agir como sujeitos críticos e passam a comportar-se como fiéis. E ali onde a fé substitui o debate, a democracia começa lentamente a desaparecer.

Os eleitores devem estar loucos

Mais certo do que qualquer uma destas coisas é a minha convicção de que não passa um dia sem que alguém neste país tente convencer outra pessoa, através da mais robusta razão, de que uma determinada proposta da extrema-direita é estapafúrdia.

Encontramos cada vez mais pessoas que parecem ser absolutamente impermeáveis à razão, dizem as coisas mais absurdas, mantêm raciocínios contraditórios. A imunidade ao mais elementar raciocínio lógico é compreensivelmente aflitiva.

O historiador José Pacheco Pereira, pessoa a quem dificilmente se colará o adjetivo de ingénuo, cometeu a enorme ingenuidade de achar que, num debate televisivo, conseguiria expôr as mentiras de André Ventura através do uso da razão e da urbanidade. O resultado foi o previsível descarrilamento e um total de pessoas convencidas da vacuidade de Ventura que, arrisco, terá sido exatamente zero.

Aqui mesmo, nas páginas da VISÃO, Margarida Davim, a propósito da senhora bolsonarista-socialista, avisa que não é ao nível do discurso, mas ao da prática que é possível chegar a estas pessoas. Não basta desmontar falácias mais ou menos cómicas, é preciso acabar com um ciclo de mentiras e promessas quebradas, tradição que tem governado a ação do “arco da governação” nas últimas décadas.

Tem razão, mas temo que o problema não esteja aí. Creio até que não há melhorias das condições de vida das pessoas que as afastem deste lamaçal. Poderíamos ser o país mais seguro do mundo, com 365 crimes num ano, e haveria quem fosse todos os dias para as redes sociais dizer que “houve mais um” e que nos “querem convencer de que são só perceções”. A imigração poderia diminuir drasticamente que haveria sempre quem encontrasse um exemplo de uma pessoa não branca a atravessar fora da passadeira como exemplo de uma suposta selvajaria.

Entre aqueles que se interessam por política, que independentemente da sua ideologia olham para a Ágora como o local onde se debatem e testam ideias, a forma como milhões de eleitores parecem ter imunidade à razão é um fenómeno difícil de entender.

Há uma corrente na sociologia, avançada por Luc Boltanski, que se debruça sobre controvérsias públicas e disputas sobre o que é justo e injusto. Simplificando, o sociólogo francês diz que quem debate no espaço público, dependendo do contexto, tem de se submeter a uma certa lógica, tem de apresentar argumentos que sejam aceites como válidos para todos. Por exemplo, o pai pode apresentar a sua idade como fonte do poder que tem sobre o filho, mas se a mesma pessoa usar esse argumento para dar ordens ao diretor da sua empresa, ver-se-á em papos de aranha.

Diz Boltanski que, quando há uma disputa pública, os intervenientes não podem simplesmente invocar argumentos aleatórios, casuísticos e, claro, não se deve contradizer, sob pena de não serem reconhecidos. Precisam de se guiar por princípios de justiça e por uma ideia de bem comum, isto se não querem ser questionados. Mas, perante a realidade, esta teoria cai por terra. Como compreender que um líder político que enche a boca com “lei e ordem” desrespeite ostensivamente a lei quando as decisões dos tribunais não lhe convém ou quando os criminosos são polícias?

Há uma certa estranheza entre aqueles que acompanham mais de perto os fenómenos políticos, como se tivesse acabado uma época em que as pessoas se moviam em torno de ideologias coerentes, sujeitas a testes de razoabilidade e justiça. Mas essa época terá alguma vez existido?

Quando a cada eleição o eleitorado se mobilizava para votar massivamente em Aníbal Cavaco Silva, José Sócrates ou, mais recentemente, António Costa, fá-lo-ia de forma mais consciente do que aqueles que votam agora em forças políticas marcadas pela demagogia, pelo ódio e pela mais descarada incoerência?

A verdade é que, durante décadas, a existência de uma grande parte do eleitorado que votava de forma mais emotiva que racional, sem qualquer bússola ideológica, serviu os interesses do partidos que se alternavam no poder e agora se queixam. E o que esses partidos fizeram foi criar condições de vida para que os eleitores andassem demasiado ocupados em chegar ao fim do mês para se darem ao luxo de se preocupar com veleidades exóticas como a política.

O que é que fizeram os sucessivos governos da nossa democracia-liberal para que o sistema de ensino criasse cidadãos com capacidade crítica, conscientes da dimensão política da sua vida, capazes de discernir entre programas políticos distintos? Eles concentraram os seus esforços na criação de cidadãos consumidores/trabalhadores enquanto isso lhes permitiu vencer eleições com base em promessas vagas, hinos de campanha, porta-chaves e conselhos de consultores de imagem. Agora choram porque lhes roubaram a clientela.

Mas agora é demasiado tarde. Houve uma altura em que foi possível dotar as pessoas de capacidades para participar de forma crítica no processo político, mas preferiu-se embarcar em esquemas que artificialmente reconheciam competências com graus académicos. Agora, de cada vez que há alguma tentativa de mudar currículos ou controlar a quantidade de desinformação que inunda as redes sociais, imediatamente surgem as vozes que alertam para a possibilidade de o País se estar a tornar numa Coreia do Norte.

Os partidos do arco da governação estão a colher os frutos que semearam. Foi pela sua mão que a política, em vez de ser vista como a forma como nos juntamos para decidir a nossa vida coletiva, se tornou numa feira de vaidades. Agora que estão a ser derrotados no seu próprio jogo, choram.

Subserviência dos Bolsonaro a Trump pode custar a eleição de Flávio

A falta de vida inteligente e bem informada na campanha de Flávio Bolsonaro explica por que ele foi visitar Donald Trump às vésperas do novo tarifaço e do ataque ao Pix, sem que ninguém o advertisse sobre os riscos que correria. Lembra-se da carta enviada por Trump a Lula em julho de 2025, em defesa da suspensão imediata do julgamento de Jair Bolsonaro e dos demais golpistas do 8 de janeiro? Estava lá a determinação de Trump para que o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) começasse a investigar o Brasil pela prática de atos nocivos e em desacordo com os superiores interesses comerciais norte-americanos.

O que chamamos, hoje, de segundo tarifaço de Trump é a conclusão daquela investigação. Embora esperneie — e tem mais é que fazê-lo —, o governo brasileiro não foi pego de surpresa. O setor de exportação tampouco, e sofrerá menos do que se espera, pois se preparou para o que veio. Surpreendido foi Flávio e seus aliados mais próximos.

Flávio saudou o “tarifaço 1”, que poderia ter ajudado seu pai a livrar-se da prisão. O “tarifaço 2”, no entanto, atingiu em cheio a sua candidatura, a ponto de estar sendo chamado de “Tariflávio”. Daí a sua agonia. Oito em cada dez mensagens opinativas sobre o assunto, trocadas nos mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram monitorados pela Palver, empresa de análise de dados, apontam Flávio como culpado pelas ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço.


O monitoramento cobre o período de 27 de maio a 2 de junho. Flávio reuniu-se com Trump no dia 26 de maio, e o “Tariflávio” é de 1º de junho. Segundo o relatório da Palver, as publicações predominantes acusam o senador e a família Bolsonaro de “traição à pátria” e de alinhamento a interesses estrangeiros, além de descrever a ofensiva americana como um ataque a uma conquista da população brasileira. Esse discurso repetido nas mensagens é semelhante ao que tem sido adotado por Lula em suas manifestações públicas.

Entre as mensagens que isentam Flávio, três linhas de argumentação se destacam: a classificação das acusações como desinformação ou manobra política da esquerda; a negação de risco concreto ao Pix; e a defesa de que a atuação do senador nos Estados Unidos mirava o combate ao crime organizado. Essa última vertente também critica o governo Lula por reagir às medidas americanas e usar o tema para desgastar Flávio.

O que é bom para os Estados Unidos não é necessariamente bom para o Brasil, ao contrário do que disse nos anos 1960 Juracy Magalhães, embaixador do Brasil em Washington à época do governo do general-presidente Humberto Castelo Branco, o primeiro da ditadura militar. A subserviência dos Bolsonaro a Trump poderá ser uma das razões da provável derrota de Flávio em outubro próximo.

Aprenda de uma vez, 01

Uma das glórias da matemática é a história de que um número elevado a zero é sempre igual a 1. Como pode? Não faz sentido. É algo que, para nós, leigos, alunos relapsos ou miseravelmente formados em humanas, parece absurdo. No entanto, se tivéssemos prestado atenção à aula onde se ensinou o conceito em vez de ficar olhando para as pernas da professora, veríamos como a questão é simples e coerente. Não vou me deter a explicá-la aqui, nem tenho autoridade para isso, mas vá por mim: qualquer número elevado a zero é 1 mesmo. E não só na matemática, como a família Bolsonaro deve estar descobrindo.


Os Bolsonaros têm a mania de, nos frequentes bate-bocas que promovem, tentar silenciar os interlocutores cortando-lhes a palavra com seus grosseiros bordões "Ponto final!", "Caso encerrado!", "Próxima pergunta!", "O recado está dado!", "E daí?", "Cala a boca!" e o favorito deles: "Zero! Chance zero!". Ouvimos isso de Jair Bolsonaro todos os dias durante quatro anos. Era como se, ao reduzir a zero qualquer pergunta, suspeita ou acusação, a dita pergunta, suspeita ou acusação desaparecesse por si só, virasse zero. A realidade provou que ele estava matemática e judicialmente errado.

Outro que repete o equívoco agora é seu filho Flávio Bolsonaro, por acaso o 01 dessa dinastia draculesca. Está até o pescoço com os tipos mais encalacrados do Brasil em matéria de transformar dinheiro público em dinheiro podre e, inquirido a respeito, responde: "Nada a ver! Zero!" —apenas para ser desmentido por gravações de sua própria voz ou por descobertas da polícia.

O momento mais sublime foi o que deu início à trapalhada envolvendo a chanchada sobre seu pai. Ao ser perguntado se tomara dinheiro de Daniel Vorcaro, riu nervoso para as câmeras e disse: "De onde você tirou isso? Zero!". Horas depois, sua tentativa de elevação desse caso a zero não se transformou em 1, mas em R$ 134 milhões que ele não consegue explicar nem fará desaparecer.

Aprenda de uma vez, 01: a matemática não falha. Zero!