Mais certo do que qualquer uma destas coisas é a minha convicção de que não passa um dia sem que alguém neste país tente convencer outra pessoa, através da mais robusta razão, de que uma determinada proposta da extrema-direita é estapafúrdia.
Encontramos cada vez mais pessoas que parecem ser absolutamente impermeáveis à razão, dizem as coisas mais absurdas, mantêm raciocínios contraditórios. A imunidade ao mais elementar raciocínio lógico é compreensivelmente aflitiva.
O historiador José Pacheco Pereira, pessoa a quem dificilmente se colará o adjetivo de ingénuo, cometeu a enorme ingenuidade de achar que, num debate televisivo, conseguiria expôr as mentiras de André Ventura através do uso da razão e da urbanidade. O resultado foi o previsível descarrilamento e um total de pessoas convencidas da vacuidade de Ventura que, arrisco, terá sido exatamente zero.
Aqui mesmo, nas páginas da VISÃO, Margarida Davim, a propósito da senhora bolsonarista-socialista, avisa que não é ao nível do discurso, mas ao da prática que é possível chegar a estas pessoas. Não basta desmontar falácias mais ou menos cómicas, é preciso acabar com um ciclo de mentiras e promessas quebradas, tradição que tem governado a ação do “arco da governação” nas últimas décadas.
Tem razão, mas temo que o problema não esteja aí. Creio até que não há melhorias das condições de vida das pessoas que as afastem deste lamaçal. Poderíamos ser o país mais seguro do mundo, com 365 crimes num ano, e haveria quem fosse todos os dias para as redes sociais dizer que “houve mais um” e que nos “querem convencer de que são só perceções”. A imigração poderia diminuir drasticamente que haveria sempre quem encontrasse um exemplo de uma pessoa não branca a atravessar fora da passadeira como exemplo de uma suposta selvajaria.
Entre aqueles que se interessam por política, que independentemente da sua ideologia olham para a Ágora como o local onde se debatem e testam ideias, a forma como milhões de eleitores parecem ter imunidade à razão é um fenómeno difícil de entender.
Há uma corrente na sociologia, avançada por Luc Boltanski, que se debruça sobre controvérsias públicas e disputas sobre o que é justo e injusto. Simplificando, o sociólogo francês diz que quem debate no espaço público, dependendo do contexto, tem de se submeter a uma certa lógica, tem de apresentar argumentos que sejam aceites como válidos para todos. Por exemplo, o pai pode apresentar a sua idade como fonte do poder que tem sobre o filho, mas se a mesma pessoa usar esse argumento para dar ordens ao diretor da sua empresa, ver-se-á em papos de aranha.
Diz Boltanski que, quando há uma disputa pública, os intervenientes não podem simplesmente invocar argumentos aleatórios, casuísticos e, claro, não se deve contradizer, sob pena de não serem reconhecidos. Precisam de se guiar por princípios de justiça e por uma ideia de bem comum, isto se não querem ser questionados. Mas, perante a realidade, esta teoria cai por terra. Como compreender que um líder político que enche a boca com “lei e ordem” desrespeite ostensivamente a lei quando as decisões dos tribunais não lhe convém ou quando os criminosos são polícias?
Há uma certa estranheza entre aqueles que acompanham mais de perto os fenómenos políticos, como se tivesse acabado uma época em que as pessoas se moviam em torno de ideologias coerentes, sujeitas a testes de razoabilidade e justiça. Mas essa época terá alguma vez existido?
Quando a cada eleição o eleitorado se mobilizava para votar massivamente em Aníbal Cavaco Silva, José Sócrates ou, mais recentemente, António Costa, fá-lo-ia de forma mais consciente do que aqueles que votam agora em forças políticas marcadas pela demagogia, pelo ódio e pela mais descarada incoerência?
A verdade é que, durante décadas, a existência de uma grande parte do eleitorado que votava de forma mais emotiva que racional, sem qualquer bússola ideológica, serviu os interesses do partidos que se alternavam no poder e agora se queixam. E o que esses partidos fizeram foi criar condições de vida para que os eleitores andassem demasiado ocupados em chegar ao fim do mês para se darem ao luxo de se preocupar com veleidades exóticas como a política.
O que é que fizeram os sucessivos governos da nossa democracia-liberal para que o sistema de ensino criasse cidadãos com capacidade crítica, conscientes da dimensão política da sua vida, capazes de discernir entre programas políticos distintos? Eles concentraram os seus esforços na criação de cidadãos consumidores/trabalhadores enquanto isso lhes permitiu vencer eleições com base em promessas vagas, hinos de campanha, porta-chaves e conselhos de consultores de imagem. Agora choram porque lhes roubaram a clientela.
Mas agora é demasiado tarde. Houve uma altura em que foi possível dotar as pessoas de capacidades para participar de forma crítica no processo político, mas preferiu-se embarcar em esquemas que artificialmente reconheciam competências com graus académicos. Agora, de cada vez que há alguma tentativa de mudar currículos ou controlar a quantidade de desinformação que inunda as redes sociais, imediatamente surgem as vozes que alertam para a possibilidade de o País se estar a tornar numa Coreia do Norte.
Os partidos do arco da governação estão a colher os frutos que semearam. Foi pela sua mão que a política, em vez de ser vista como a forma como nos juntamos para decidir a nossa vida coletiva, se tornou numa feira de vaidades. Agora que estão a ser derrotados no seu próprio jogo, choram.
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