quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Trump fará mais pela guerra do que pela paz
Na sua primeira reunião, o Conselho da Paz de Donald Trump serviu para dois atos nada pacíficos: ameaçar de guerra o Irã e insinuar que uma organização que só obedece ao narcisismo e megalomania do Presidente dos EUA poderia substituir ou tutelar a ONU.
Embalado pelo rapto de Nicolás Maduro, Trump quer derrubar a teocracia iraniana em nome de quê? O Presidente dos EUA não tem nenhum argumento plausível para atacar o Irão. Foi o próprio que afirmou que a capacidade iraniana de enriquecimento de urânio tinha sido fortemente comprometida após os bombardeamentos em Junho do ano passado, pelo que um segundo ataque, em menos de um ano, contradiz o discurso anterior de vitória.
Contrariamente ao que aconteceu na Venezuela, não há ninguém em Teerã para desempenhar o papel que Delcy Rodríguez desempenha em Caracas. Nem o exilado Reza Pahlavi tem as mesmas condições para desempenhar no futuro do Irã o mesmo papel que Corina Machado pode desempenhar um dia no futuro de Caracas.
Um quase certo ataque ao Irã só favorece o Governo de Benjamin Netanyahu. Thomas L. Friedman, conhecido colunista do New York Times, tem estatuto para dizer o que a outros causaria demasiados incómodos: “Ao mesmo tempo que mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis iranianos — que, embora reduzida, ainda é muito real e terá de ser enfrentada diplomática ou militarmente —, Bibi está, fundamentalmente, a ameaçar os interesses mais amplos do EUA no Médio Oriente, sem mencionar a segurança dos judeus em todo o mundo.”
Friedman sustenta que as tentativas claras de anexação da Cisjordânia e de permanência em Gaza, “negando aos palestinianos direitos políticos, é um “empreendimento messiânico”, com consequências para as instituições judaicas em todo o mundo. O argumento é este: as suas semelhanças com o apartheid sul-africano são indistinguíveis e elas só contribuirão para que um “número crescente de jovens democratas e republicanos dos EUA se volte contra Israel e, em alguns casos, contra os judeus em geral”.
Como diz Friedman, o Irã nada tem que ver com os esforços de Netanyahu para limitar o Estado de direito em Israel, com a insistência no afastamento da procuradora-geral, com a isenção total do serviço militar para os judeus ultra ortodoxos, que o mantêm no poder. Nem com o impedimento de uma comissão independente de inquérito às falhas do 7 de outubro de 2023, quando se suspeita de que o mesmo fora avisado dos planos do Hamas para atacar Israel. No fundo, Netanyahu é uma ameaça para o seu próprio país e de nada valem os acordos de Abraão, celebrados ou a celebrar, enquanto israelitas e palestinianos não fizerem a paz.
Este Conselho da Paz, do qual Trump se autointitula presidente vitalício, imaginando-se como presidente do mundo, é uma farsa patética na qual só alinham os subservientes do costume. Israel lá está, ao lado das monarquias do Golfo. O organismo foi anunciado em outubro, na sequência de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e tem servido para encobrir a anexação em curso da Cisjordânia, a continuidade do genocídio lento e silencioso de Gaza e para fazer planos de negócio imobiliário com a reconstrução do enclave destruído, à custa de uma provável deportação forçada.
Zangado com a academia norueguesa, por esta não lhe ter concedido o Prêmio Nobel da Paz, insatisfeito pela atribuição do Prêmio de Paz FIFA, Trump considera que os países que não aceitaram o convite para entrarem no seu clube pacifista estão a “aramar-se em espertos” (Portugal optou pelo estatuto de observador).
O israelita Yuval Noah Harari escrevia no Financial Times que o mantra para resolver o conflito israel-palestino foi o da solução “dois estados para dois povos” e que, se ambos “não puderem ser mais generosos, a solução final para o conflito poderá ser ‘zero estados para zero pessoas’”. Referindo-se à Ucrânia, Harari observava que a “guerra não é vencida por quem conquista mais território, destrói mais cidades ou mata mais pessoas. A guerra é vencida por quem alcança os seus objetivos políticos. E, na Ucrânia, já está claro que Putin falhou em atingir o seu principal objetivo de guerra: a destruição da nação ucraniana. E na Palestina?
Com um presidente como Trump em Washington e num cenário de impotência e desvalorização do papel da ONU, é pouco provável que Netanyahu e Vladimir Putin desistam das guerras que travam e que aceitem uma negociação justa. Dois anos e quatro meses depois, o primeiro não cede na limpeza étnica em curso. E, quatro anos depois da invasão da Ucrânia, o segundo irá até onde lhe for possível para se declarar triunfante. Uma coisa parece certa: o falso clube pacifista de Trump fará mais pela guerra do que pela paz.
Embalado pelo rapto de Nicolás Maduro, Trump quer derrubar a teocracia iraniana em nome de quê? O Presidente dos EUA não tem nenhum argumento plausível para atacar o Irão. Foi o próprio que afirmou que a capacidade iraniana de enriquecimento de urânio tinha sido fortemente comprometida após os bombardeamentos em Junho do ano passado, pelo que um segundo ataque, em menos de um ano, contradiz o discurso anterior de vitória.
Contrariamente ao que aconteceu na Venezuela, não há ninguém em Teerã para desempenhar o papel que Delcy Rodríguez desempenha em Caracas. Nem o exilado Reza Pahlavi tem as mesmas condições para desempenhar no futuro do Irã o mesmo papel que Corina Machado pode desempenhar um dia no futuro de Caracas.
Um quase certo ataque ao Irã só favorece o Governo de Benjamin Netanyahu. Thomas L. Friedman, conhecido colunista do New York Times, tem estatuto para dizer o que a outros causaria demasiados incómodos: “Ao mesmo tempo que mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis iranianos — que, embora reduzida, ainda é muito real e terá de ser enfrentada diplomática ou militarmente —, Bibi está, fundamentalmente, a ameaçar os interesses mais amplos do EUA no Médio Oriente, sem mencionar a segurança dos judeus em todo o mundo.”
Friedman sustenta que as tentativas claras de anexação da Cisjordânia e de permanência em Gaza, “negando aos palestinianos direitos políticos, é um “empreendimento messiânico”, com consequências para as instituições judaicas em todo o mundo. O argumento é este: as suas semelhanças com o apartheid sul-africano são indistinguíveis e elas só contribuirão para que um “número crescente de jovens democratas e republicanos dos EUA se volte contra Israel e, em alguns casos, contra os judeus em geral”.
Como diz Friedman, o Irã nada tem que ver com os esforços de Netanyahu para limitar o Estado de direito em Israel, com a insistência no afastamento da procuradora-geral, com a isenção total do serviço militar para os judeus ultra ortodoxos, que o mantêm no poder. Nem com o impedimento de uma comissão independente de inquérito às falhas do 7 de outubro de 2023, quando se suspeita de que o mesmo fora avisado dos planos do Hamas para atacar Israel. No fundo, Netanyahu é uma ameaça para o seu próprio país e de nada valem os acordos de Abraão, celebrados ou a celebrar, enquanto israelitas e palestinianos não fizerem a paz.
Este Conselho da Paz, do qual Trump se autointitula presidente vitalício, imaginando-se como presidente do mundo, é uma farsa patética na qual só alinham os subservientes do costume. Israel lá está, ao lado das monarquias do Golfo. O organismo foi anunciado em outubro, na sequência de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e tem servido para encobrir a anexação em curso da Cisjordânia, a continuidade do genocídio lento e silencioso de Gaza e para fazer planos de negócio imobiliário com a reconstrução do enclave destruído, à custa de uma provável deportação forçada.
Zangado com a academia norueguesa, por esta não lhe ter concedido o Prêmio Nobel da Paz, insatisfeito pela atribuição do Prêmio de Paz FIFA, Trump considera que os países que não aceitaram o convite para entrarem no seu clube pacifista estão a “aramar-se em espertos” (Portugal optou pelo estatuto de observador).
O israelita Yuval Noah Harari escrevia no Financial Times que o mantra para resolver o conflito israel-palestino foi o da solução “dois estados para dois povos” e que, se ambos “não puderem ser mais generosos, a solução final para o conflito poderá ser ‘zero estados para zero pessoas’”. Referindo-se à Ucrânia, Harari observava que a “guerra não é vencida por quem conquista mais território, destrói mais cidades ou mata mais pessoas. A guerra é vencida por quem alcança os seus objetivos políticos. E, na Ucrânia, já está claro que Putin falhou em atingir o seu principal objetivo de guerra: a destruição da nação ucraniana. E na Palestina?
Com um presidente como Trump em Washington e num cenário de impotência e desvalorização do papel da ONU, é pouco provável que Netanyahu e Vladimir Putin desistam das guerras que travam e que aceitem uma negociação justa. Dois anos e quatro meses depois, o primeiro não cede na limpeza étnica em curso. E, quatro anos depois da invasão da Ucrânia, o segundo irá até onde lhe for possível para se declarar triunfante. Uma coisa parece certa: o falso clube pacifista de Trump fará mais pela guerra do que pela paz.
Pesadelo palestino
Ninguém poderia imaginar que o fim da Guerra Fria iria mergulhar o mundo em sangrentos conflitos – que saudades da Guerra Fria! Entre os muitos confrontos em meio à Guerra EUA-China em curso, a carnificina em escala industrial no Levante me atinge particularmente, porque a Palestina é a minha terra natal.
Com o fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus (ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em massa dos judeus. Com que direito as Nações Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.
Durante a catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3 milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e 400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200 mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados palestinos às suas casas.
A crise causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por 700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países muçulmanos (300 mil).
Israel não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas controladas por Israel; e Gaza encontra-se totalmente arrasada.
Em sua política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo (mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos anos 1990, após a dissolução da União Soviética).
Apesar dos sionistas de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste processo.
Para a Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo ocidental e a maioria dos judeus festejaram as vitórias militares israelenses como atos heroicos que contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da diáspora).
Além disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam “formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra santa contra o Islão.
O pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas, documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre Israel e Hamas, realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda (45%).
No decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas.
Os palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o Estado de Israel, inclusive os judeus ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula o antissemitismo.
Quando e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia.
A Europa, principalmente a Alemanha, palco do Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas, embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções.
A Torah e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em 1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em 1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios.
Samuel Kilsztajn
Com o fim do Império Otomano, a Palestina foi entregue à Inglaterra por mandato da Liga das Nações, que agenciou a imigração dos judeus do Leste Europeu. Os alemães, por sua vez, expulsaram seus (ex) cidadãos judeus para a Palestina nos anos 1930, Juden raus! Auf nach Palastina! No decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Europa promoveu o extermínio em massa dos judeus. Com que direito as Nações Unidas resolveram partilhar a Palestina para despejar os sobreviventes europeus indesejados? Acharam por bem desvestir um santo para vestir outro – enquanto os judeus deixavam os campos de refugiados na Europa, os palestinos foram forçados a deixar as suas casas para se aglomerar nos campos de refugiados na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e ao longo das fronteiras com os países árabes vizinhos.
Durante a catástrofe, Al-Nakba, Israel ocupou uma área superior à designada no Plano de Partilha e 700 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Em 1948, 1,3 milhão de árabes vivia na Palestina (900 mil em terras ocupadas por Israel e 400 mil na Cisjordânia e em Gaza). Apenas 200 mil palestinos foram autorizados a permanecer em Israel, o que garantia uma maioria judia no país. Em dezembro de 1948, as Nações Unidas aprovaram a Resolução 194, assegurando o direito de retorno dos refugiados palestinos às suas casas.
A crise causada pela criação do Estado de Israel motivou ainda a expulsão dos judeus que até então conviviam pacificamente com os muçulmanos nos países da África do Norte e do Oriente Médio. O resultado, na ocasião, foi a substituição dos 700 mil palestinos expulsos de suas terras por 700 mil judeus oriundos da Europa (400 mil) e dos países muçulmanos (300 mil).
Israel não restituiu os territórios palestinos designados no Plano de Partilha, nem permitiu o retorno dos 700 mil refugiados. Ao contrário, ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza em 1967 – hoje a Cisjordânia encontra-se reduzida a limitadas áreas entrecortadas por ocupações e estradas controladas por Israel; e Gaza encontra-se totalmente arrasada.
Em sua política oficial de limpeza étnica, enquanto extermina e desterra gradualmente a população nativa da Palestina, o Estado Judeu promove ativamente a imigração e concede cidadania a judeus oriundos de qualquer parte do globo (mais de 1.500.000 russos vivem hoje em Israel, a maioria tendo emigrado nos anos 1990, após a dissolução da União Soviética).
Apesar dos sionistas de esquerda responsabilizarem o atual governo de direita israelense pelas atuais atrocidades, a violência contra os palestinos é centenária. A expulsão do povo nativo em 1948, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza em 1967 e o assentamento de colonos em terras palestinas foram obras dos governos trabalhistas da esquerda sionista, acompanhadas por discursos dissimulados e apaziguadores. A direita no poder representa o coroamento deste processo.
Para a Europa, a criação do Estado de Israel serviu tanto para absorver os sobreviventes indesejados como para exorcizar o seu sentimento de culpa pelo extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – os palestinos pagaram e continuam pagando o preço pelos crimes que a civilização europeia cometeu em Auschwitz. O mundo ocidental e a maioria dos judeus festejaram as vitórias militares israelenses como atos heroicos que contrarrestavam a imagem do judeu brando e pacífico da diáspora (aventuras militares são efetivamente o avesso da cultura do judeu da diáspora).
Além disso, o antissemitismo judeu na Europa foi substituído pelo antissemitismo muçulmano. Neste sentido, a Europa e Israel têm um inimigo comum. Theodor Herzl, fundador do moderno sionismo político, no final do século XIX, escreveu que os judeus na Palestina deveriam “formar parte de uma fortaleza da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização contra a barbárie” (O estado judeu). Historicamente considerados estrangeiros asiáticos na Europa, os judeus são hoje vistos como europeus em território asiático em guerra santa contra o Islão.
O pesadelo palestino foi acirrado após a investida do Hamas em 2023, embora as ofensivas terroristas do Estado de Israel por mais de sete décadas, documentadas tanto pelos palestinos como por historiadores israelenses, tenham sido muito mais bárbaras e cruéis do que a iniciativa de 7 de outubro. A grande maioria dos israelenses apoiou a operação militar do governo em Gaza. Na pesquisa Visão israelense da guerra entre Israel e Hamas, realizada em março e abril de 2024, apenas 4% dos judeus israelenses declararam que a ofensiva foi longe demais. Com base no relatório da pesquisa, que não abre os demais dados entre judeus e árabes israelenses, estima-se que 96% dos judeus israelenses consideravam que a intervenção militar foi adequada (51%) ou mesmo muito branda (45%).
No decorrer da história da humanidade, várias atrocidades foram empreendidas, mas os responsáveis pelos crimes faziam questão de acobertar os seus atos e se empenhavam em negar extermínios promovidos em escala industrial, porque os consideravam vergonhosos. O que estamos presenciando neste momento são povos, que se acreditam civilizados, apoiando ou se abstendo de boicotar uma nação que está promovendo uma carnificina em massa veiculada em tempo real, em que os algozes se orgulham dos crimes cometidos contra a humanidade, inclusive bloqueando ajuda humanitária às suas vítimas.
Os palestinos e os demais coletivos pró-palestinos fazem questão de declarar que são antissionistas, mas não antissemitas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, instrumentalizando a memória do Holocausto, diz que fala tanto em nome do Estado Judeu como em nome dos judeus da diáspora (o reduzido número de judeus que se posiciona contra o Estado de Israel, inclusive os judeus ortodoxos Satmar e Neturei Karta, é considerado antissemita). Ou seja, o posicionamento do primeiro-ministro estimula o antissemitismo.
Quando e como terminará o pesadelo palestino? Embora somem 14 milhões – 7 milhões na diáspora, 3 milhões na Cisjordânia, 2 milhões em Gaza e 2 milhões em território israelense – o objetivo de Israel é varrer, desterrar a população nativa para provar aos judeus e ao mundo que a Palestina era uma terra sem povo antes da imigração dos judeus. Para os incrédulos que não acreditam que a Palestina era um deserto que foi transformado em oásis, Israel argumenta que os palestinos abandonaram as suas terras em 1948, assim como estão hoje evacuando a faixa de Gaza e as terras ocupadas pelos colonos judeus na Cisjordânia.
A Europa, principalmente a Alemanha, palco do Holocausto, reprime qualquer ato pró-Palestina. A despeito das manifestações em defesa do povo palestino ao redor do mundo, praticamente todos os países não muçulmanos continuam mantendo relações comerciais e diplomáticas com o Estado de Israel, mesmo aqueles que o acusam de estar cometendo genocídio, mesmo os membros do BRICS (iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa), que hoje inclui vários outros países emergentes. Israel alardeia que foi criado por determinação das Nações Unidas, embora se recuse sistematicamente a acatar as suas resoluções.
A Torah e a história do povo judeu foram moldadas e escritas a partir do Exílio Babilônico, há cerca de dois mil e quinhentos anos. Em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, Sartre escreveu que a brandura dos judeus frente às injustiças e à violência é a verdadeira marca da grandeza do povo judeu. Em 1952, pouco depois da catástrofe que se abateu sobre os palestinos em 1948, Frantz Fanon nos advertiu que os judeus que se instalaram em Israel criariam em menos de cem anos um inconsciente coletivo diferente daquele que possuíam em 1945, nos países de onde foram expulsos. Setenta e quatro anos depois, qualquer que seja o desfecho do pesadelo palestino, podemos dizer que a mácula deixada pelo Estado de Israel na história do povo judeu está fadada a atravessar os próximos milênios.
Samuel Kilsztajn
Mercado de IA já contrata por valores de craques de futebol
Um bilhão de dólares por uma contratação. Isso é novo. Semana passada foi a primeira vez em que a imprensa de economia que olha para o mundo digital falou de compra de passe como se fosse jornalismo esportivo. E teve disputa. A Microsoft chamou o desenvolvedor austríaco Peter Steinberger para conversar, a Meta mandou um envelope com proposta. Ao fim, ele topou o convite da OpenAI. E o valor do contrato foi este: US$ 1 bilhão. A OpenAI pode parecer rica, mas, no jogo das três líderes do mercado de inteligência artificial, que inclui também Anthropic e Google, é a que está com o caixa mais pressionado. Não é dinheiro gasto com facilidade. Ainda assim, pagou. Por quê?
Steinberger é o desenvolvedor que, em algumas semanas entre novembro e dezembro, criou o OpenClaw. Neste ano, é a terceira vez que esse software é tema por aqui. Complicado de instalar, com inúmeros problemas de segurança, ele leva a IA para o mundo. Permite criar um robô autônomo dentro de qualquer computador conectado à internet, que usa a rede para fazer o que seu humano mandar. Se não sabe fazer, escreve o programa que lhe permite agir. Nas palavras de Sam Altman, CEO da OpenAI, a missão de Steinberger será liderar o time que fará o mesmo que o OpenClaw, mas de forma que “até minha avó possa usar”. Um sistema assim não está longe de surgir. Coisa de um, dois anos.
Mas o que é? Imagine o smartphone reinventado. Em vez de abrir um app de chamar carro, simplesmente mandar um zap ao robô: “Chama para mim um carro executivo”. Ele não procurará num só aplicativo, procurará em todos e escolherá o mais barato. Ou então mandar outra mensagem: “Quero viajar com a família para a França no ano que vem, qual a melhor época?”. Ele diz quando o clima é melhor, quando as passagens são mais baratas, fala que viajar na quarta traz mais chance de upgrade que na sexta. Desenha o roteiro, modifica conforme o pedido. E, quando todas as decisões estiverem tomadas, escolhe em que época é melhor comprar a passagem, reservar os hotéis. Aí faz os pagamentos.
Ou então volte-se ao mundo corporativo. Grandes empresas trabalham com plataformas caras de software. Gerenciam folha de pagamento, estoque de produtos, relação com fornecedores e consumidores, tudo. Como cada companhia tem suas particularidades, boa parte do ganho dessas fornecedoras está na consultoria que vem junto. É caro montar o pacote para fazer o negócio girar e, todo ano, essas gigantes do software impõem um aumento. Como o custo para trocar fornecedor é sempre muito alto, ficam trancadas na escolha. Quando um robô inteligente pode ir desenvolvendo seu sistema internamente, o gerencia e conserta bugs que apareçam eventualmente, a vida melhora. Melhora muito. Os custos com tecnologia despencam.
Apenas exemplos corriqueiros de como agentes assim, autônomos, são transformadores. Reorganizam a vida de todo mundo e mexem radicalmente na economia física e na digital. Um OpenClaw fácil de usar pode ter muitas interfaces diferentes. Para muitos dos usos atuais de smartphones, ninguém precisará de um paralelepípedo com tela. Chamar um carro? Basta dar a ordem por voz. Isso se resolve com fone, relógio ou par de óculos. O robô da empresa vive na nuvem. Não quer dizer que smartphones deixarão de existir, mas possivelmente não serão mais o centro da vida digital.
E não é só a interface, a forma como interagimos com tecnologia. Para que, exatamente, servirão negócios como agências de turismo? Como empresas aéreas gerenciarão seus preços e disputarão mercado? Como funcionarão investimentos quando todo mundo tiver sistemas equivalentes para escolher no que aplicar dinheiro? Publicidade anunciará de que jeito?
Há uma razão para a Anthropic, dona do Claude, não ter apresentado qualquer proposta para Steinberger. Ela é quem está mais avançada num agente. Seu Cowork funciona por enquanto apenas nos computadores pessoais, já gerencia arquivos fora da janela de chat e abre alguns aplicativos, como Notion ou Excel, e, dentro deles, manipula dados. Tudo a partir de uma ordem dada pelo usuário.
Essa supercontratação deixa evidente parte da loucura que é o mercado de IA. Em outubro, não estava ainda claro que agentes autônomos chegariam tão rápido. Os passos são, muitas vezes, assim. Saltos repentinos. Esse ritmo deverá aumentar.
Steinberger é o desenvolvedor que, em algumas semanas entre novembro e dezembro, criou o OpenClaw. Neste ano, é a terceira vez que esse software é tema por aqui. Complicado de instalar, com inúmeros problemas de segurança, ele leva a IA para o mundo. Permite criar um robô autônomo dentro de qualquer computador conectado à internet, que usa a rede para fazer o que seu humano mandar. Se não sabe fazer, escreve o programa que lhe permite agir. Nas palavras de Sam Altman, CEO da OpenAI, a missão de Steinberger será liderar o time que fará o mesmo que o OpenClaw, mas de forma que “até minha avó possa usar”. Um sistema assim não está longe de surgir. Coisa de um, dois anos.
Mas o que é? Imagine o smartphone reinventado. Em vez de abrir um app de chamar carro, simplesmente mandar um zap ao robô: “Chama para mim um carro executivo”. Ele não procurará num só aplicativo, procurará em todos e escolherá o mais barato. Ou então mandar outra mensagem: “Quero viajar com a família para a França no ano que vem, qual a melhor época?”. Ele diz quando o clima é melhor, quando as passagens são mais baratas, fala que viajar na quarta traz mais chance de upgrade que na sexta. Desenha o roteiro, modifica conforme o pedido. E, quando todas as decisões estiverem tomadas, escolhe em que época é melhor comprar a passagem, reservar os hotéis. Aí faz os pagamentos.
Ou então volte-se ao mundo corporativo. Grandes empresas trabalham com plataformas caras de software. Gerenciam folha de pagamento, estoque de produtos, relação com fornecedores e consumidores, tudo. Como cada companhia tem suas particularidades, boa parte do ganho dessas fornecedoras está na consultoria que vem junto. É caro montar o pacote para fazer o negócio girar e, todo ano, essas gigantes do software impõem um aumento. Como o custo para trocar fornecedor é sempre muito alto, ficam trancadas na escolha. Quando um robô inteligente pode ir desenvolvendo seu sistema internamente, o gerencia e conserta bugs que apareçam eventualmente, a vida melhora. Melhora muito. Os custos com tecnologia despencam.
Apenas exemplos corriqueiros de como agentes assim, autônomos, são transformadores. Reorganizam a vida de todo mundo e mexem radicalmente na economia física e na digital. Um OpenClaw fácil de usar pode ter muitas interfaces diferentes. Para muitos dos usos atuais de smartphones, ninguém precisará de um paralelepípedo com tela. Chamar um carro? Basta dar a ordem por voz. Isso se resolve com fone, relógio ou par de óculos. O robô da empresa vive na nuvem. Não quer dizer que smartphones deixarão de existir, mas possivelmente não serão mais o centro da vida digital.
E não é só a interface, a forma como interagimos com tecnologia. Para que, exatamente, servirão negócios como agências de turismo? Como empresas aéreas gerenciarão seus preços e disputarão mercado? Como funcionarão investimentos quando todo mundo tiver sistemas equivalentes para escolher no que aplicar dinheiro? Publicidade anunciará de que jeito?
Há uma razão para a Anthropic, dona do Claude, não ter apresentado qualquer proposta para Steinberger. Ela é quem está mais avançada num agente. Seu Cowork funciona por enquanto apenas nos computadores pessoais, já gerencia arquivos fora da janela de chat e abre alguns aplicativos, como Notion ou Excel, e, dentro deles, manipula dados. Tudo a partir de uma ordem dada pelo usuário.
Essa supercontratação deixa evidente parte da loucura que é o mercado de IA. Em outubro, não estava ainda claro que agentes autônomos chegariam tão rápido. Os passos são, muitas vezes, assim. Saltos repentinos. Esse ritmo deverá aumentar.
Lacerdismo volta à política brasileira
O pensador grego Aristóteles, um dos fundadores da filosofia ocidental, que viveu há cerca de 2.500 anos, ensinava que a arte da política consistia na busca do bem comum, pautado por justiça e equidade, por meio de um debate racional, travado franca e abertamente. Esse ideal, que corresponde à própria essência da democracia, embora jamais tenha se concretizado em toda a sua plenitude, sempre pautou a ação daqueles que, filiados a tal tradição, atuaram na arena pública.
Lamentavelmente, de uns tempos para cá, ressurge entre nós, na contramão desse respeitável legado, uma prática nefasta, que julgávamos definitivamente sepultada no passado, que atende pelo nome de “lacerdismo”. Cuida-se de um estilo peculiar de ação política que privilegia uma retórica agressiva e inflamada, pautada num moralismo refalsado, cujo objetivo único é deslegitimar os adversários, destruindo suas reputações.
O lacerdismo tem origem na figura de Carlos Lacerda, político e jornalista que liderava a oposição aos governos trabalhistas nos anos 1950 e 1960. Atuava basicamente por meio de um constante e feroz denuncismo, artificialmente construído, que dispensava qualquer proposta para o país, limitando-se a apontar, com o cinismo e a desfaçatez que lhe eram próprios, supostos atos de corrupção, subversão ou outros desvios de conduta de opositores reais ou imaginários.
Essa prática renasce atualmente, de forma difusa e transversal, sem respeitar diferenças partidárias ou ideológicas, manifestando-se tanto à direita como à esquerda do espectro político. Expressa-se geralmente sob a forma de uma cruzada puritana farisaica, em que os adversários são tratados como inimigos, destinados a proscrição, cadeia ou eliminação física.
A disputa não se trava mais entre projetos ou programas de governo, mas passa por um permanente embate de narrativas morais concorrentes, que, não raro, encontra expressão em comissões parlamentares de inquérito, as quais se arvoram em investigar temas cuja apuração, em geral, já vem sendo realizada por parte dos órgãos constitucionalmente competentes.
De fato, é mais simples denunciar do que propor soluções consistentes. Apresentar propostas estruturadas e coerentes para o país exige esforço intelectual, disposição para o debate e abertura ao compromisso, atributos hoje escassos entre aqueles que atuam nas lides da política.
Não é à toa que o lacerdismo inspirou a atuação da famosa “banda de música”, integrada por parlamentares da extinta União Democrática Nacional (UDN) que fustigaram os governos nacionalistas e populistas entre os anos 1946 e 1964, com discursos afinados e slogans mordazes, levando o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, acusado de chafurdar num “mar de lama”.
É mais fácil e cômodo repetir palavras de ordem curtas e simples, revestidas de uma indignação hipócrita, porém contundente, preferencialmente através de mídias digitais, perpetuando a polarização e o confronto, do que propor soluções que permitam o desenvolvimento social, cultural e econômico da sociedade.
O lacerdismo hoje redivivo, que atinge tanto os que atuam na vida pública como aqueles que se encontram fora dela, corresponde à antipolítica, por empobrecer o debate democrático, fomentar a descrença nas instituições e estimular a equivocada convicção segundo a qual apenas soluções extravagantes — judiciais, tecnocráticas ou autoritárias — são capazes de resolver os problemas nacionais, cuja origem, aliás, remonta à própria colonização do Brasil.
Ricardo Lewandowski
Lamentavelmente, de uns tempos para cá, ressurge entre nós, na contramão desse respeitável legado, uma prática nefasta, que julgávamos definitivamente sepultada no passado, que atende pelo nome de “lacerdismo”. Cuida-se de um estilo peculiar de ação política que privilegia uma retórica agressiva e inflamada, pautada num moralismo refalsado, cujo objetivo único é deslegitimar os adversários, destruindo suas reputações.
O lacerdismo tem origem na figura de Carlos Lacerda, político e jornalista que liderava a oposição aos governos trabalhistas nos anos 1950 e 1960. Atuava basicamente por meio de um constante e feroz denuncismo, artificialmente construído, que dispensava qualquer proposta para o país, limitando-se a apontar, com o cinismo e a desfaçatez que lhe eram próprios, supostos atos de corrupção, subversão ou outros desvios de conduta de opositores reais ou imaginários.
Essa prática renasce atualmente, de forma difusa e transversal, sem respeitar diferenças partidárias ou ideológicas, manifestando-se tanto à direita como à esquerda do espectro político. Expressa-se geralmente sob a forma de uma cruzada puritana farisaica, em que os adversários são tratados como inimigos, destinados a proscrição, cadeia ou eliminação física.
A disputa não se trava mais entre projetos ou programas de governo, mas passa por um permanente embate de narrativas morais concorrentes, que, não raro, encontra expressão em comissões parlamentares de inquérito, as quais se arvoram em investigar temas cuja apuração, em geral, já vem sendo realizada por parte dos órgãos constitucionalmente competentes.
De fato, é mais simples denunciar do que propor soluções consistentes. Apresentar propostas estruturadas e coerentes para o país exige esforço intelectual, disposição para o debate e abertura ao compromisso, atributos hoje escassos entre aqueles que atuam nas lides da política.
Não é à toa que o lacerdismo inspirou a atuação da famosa “banda de música”, integrada por parlamentares da extinta União Democrática Nacional (UDN) que fustigaram os governos nacionalistas e populistas entre os anos 1946 e 1964, com discursos afinados e slogans mordazes, levando o presidente Getúlio Vargas ao suicídio, acusado de chafurdar num “mar de lama”.
É mais fácil e cômodo repetir palavras de ordem curtas e simples, revestidas de uma indignação hipócrita, porém contundente, preferencialmente através de mídias digitais, perpetuando a polarização e o confronto, do que propor soluções que permitam o desenvolvimento social, cultural e econômico da sociedade.
O lacerdismo hoje redivivo, que atinge tanto os que atuam na vida pública como aqueles que se encontram fora dela, corresponde à antipolítica, por empobrecer o debate democrático, fomentar a descrença nas instituições e estimular a equivocada convicção segundo a qual apenas soluções extravagantes — judiciais, tecnocráticas ou autoritárias — são capazes de resolver os problemas nacionais, cuja origem, aliás, remonta à própria colonização do Brasil.
Ricardo Lewandowski
De fascismo a fascismo
Alguns lembrarão que houve Umberto Eco. Que falta ele faz para rirmos o bom riso! Eco explicava o fascismo eterno, que é uma combinação de certos pontos, entre eles o culto das tradições (interpretadas de uma maneira própria), a recusa da modernidade e da razão, o irracionalismo e o culto da ação pela ação, a rejeição das críticas e do espírito crítico, o medo da diversidade e o racismo, a obsessão com as conspirações, a ideia de guerra permanente, o desprezo pelos fracos, o uso de uma neolíngua (como descrevia Orwell). Se você vê pessoas e grupos com essas características, já sabe: é lícito dizer que são fascistas.
Eco nos ensinava também que a internet é um instrumento do fascismo contemporâneo e que as redes sociais “dão a palavra a uma legião de imbecis que falavam no bar sobre um copo de vinho e agora têm o mesmo direito de palavra dos Prêmio Nobel”. Outro italiano, Alberto Brandolini, descobriu uma lei: “A quantidade de energia necessária para refutar bullshit é de uma ordem de grandeza maior que a necessária para produzi-lo.” E Jonathan Koomey: “Um idiota pode criar mais merda do que você jamais pode ter a esperança de refutar.”
Nada disso é tão relevante quanto a emergência do twosidism, que faz os jornais dizerem que têm de publicar as opiniões divergentes com o mesmo rigor, mesmo se uma é de que a Terra é plana. Mas hoje o que vemos é outra coisa: é a ressurgência de um delírio que quase destruiu o Brasil, a lavajato. Disfarçada de moral e bons costumes, ela — inominada — tomou agora como foco a destruição do Supremo Tribunal Federal. Como já disse, a “operação linchamento” tem duas motivações: a primeira é o processo de Sérgio Moro, cujo relator é Dias Toffoli; a segunda é a desqualificação do julgamento de Bolsonaro. É claro que ambas fazem parte do mesmo discurso fascista, no falso adágio maquiavélico de que o fim justifica os meios.
Para a destruição das reputações vale tudo, inclusive, sob a proteção do sigilo das fontes (art. 5º, XIV), quebrar os sigilos pessoais (art. 5º, XII) dos ministros. Ambos são sagrados, mas divulgar informações sigilosas é crime (Código Penal, art. 154, 1 a 4 anos; art. 154A, para dispositivo informático, §3º e 4º, 2 a 5 anos, mais 2/3; art.154B, se contra a administração pública dispensa representação; art. 325, §2º, violação de sigilo com dano, 2 a 6 anos). Isto é, a pessoa não precisa revelar quem lhe deu a informação, mas comete um crime. E essas penas são acrescidas de multa, sem definição exata de valor. Se fosse na França a multa seria de 300 mil euros, doeria na parte sensível do corpo capitalista.
Mas, assumindo o comando as redes sociais, os caras que quebraram os sigilos passaram a ser uns heróis, coitados, estão fazendo o mesmo que tantos heróis já fizeram, como Silvério dos Reis e outros praticantes do dedodurismo anônimo. Por outro lado, os donos dos IP que divulgam o neolavajatismo certamente não se importam que quebrem os deles, que só estão exercendo a liberdade de expressão.
Aliás, destruído o STF, o soluçante reinstalado no Alvorada, as cadeias e os cemitérios cheios de discordantes, eleições unânimes o elegerão pelos séculos dos séculos e depois o 01, o 02 e assim por diante. Episódios como o dessa semana na França, quando um agitador de extrema-direita foi linchado por agitadores de extrema-esquerda, não acontecerão, porque os milicianos terão exclusividade nos linchamentos. Viva Deus Pátria Família!
Expressão por expressão, acho curioso que o Brasil, que já teve um dos cleros mais avançados do mundo — conheci D. Helder já magrelo e ainda bispo auxiliar — tenha agora um dos mais retrógrados, com D. Orani bancando um Lefebvre social: tomou o partido dos evangélicos que vestiram a carapuça, reprovou “a utilização de símbolos da fé cristã e da instituição familiar em manifestações culturais de maneira que compreendemos como ofensiva”. Enquanto isso, os bispos americanos, considerados dos mais reacionários, estão trabalhando valentemente contra a guerra miliciana que o Trump faz contra quem não é ku klux klan — o que inclui deportar ou matar os seres inferiores, como mulheres, crianças, lgbt+, não branquelos, que não falam inglês etc. É claro que eles, bispos, são influenciados pelo papa peruano e imigrante que nasceu americano, ¿que tal?
É verdade que a ala 22, quase fechando a escola que homenageava o Lula — sacrilégio! — tinha umas fantasias de lata de conserva e, falo por ler, que não consegui ver, umas bíblias na mão — horror, deviam estar com o livrinho vermelho de Mao ou o verde do Khomeini. Não era algo puro, como desfilar com o troço de fora, com uma estrelinha cobrindo a coisa, fantasiado de diabo e outras delicadezas que fazem parte das boas manifestações culturais.
Realmente a família, a boa, fascista, da agronegociata, de bíblia e bala, estava sendo atacada. Pelo menos segundo a excelsa michela — assim chamava José Bonifácio à Domitila, significando o registrado pelo Houaiss, Brasil tabu prostituta, meretriz, tadinha dela que não era nada disso, só cobrava dos clientes —, que classificou de “um escárnio”. Já que estou indo de dicionário, escárnio é: 1 aquilo que é objeto de desdém, ironia ou sarcasmo | 2 o que é feito ou dito com intenção de provocar riso ou hilariedade acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria | 3 atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, por vezes indignado.
Ih!, acho que escarneci de umas pessoas. Será que serei excomungado? Deus me livre.
Pedro Costa
Eco nos ensinava também que a internet é um instrumento do fascismo contemporâneo e que as redes sociais “dão a palavra a uma legião de imbecis que falavam no bar sobre um copo de vinho e agora têm o mesmo direito de palavra dos Prêmio Nobel”. Outro italiano, Alberto Brandolini, descobriu uma lei: “A quantidade de energia necessária para refutar bullshit é de uma ordem de grandeza maior que a necessária para produzi-lo.” E Jonathan Koomey: “Um idiota pode criar mais merda do que você jamais pode ter a esperança de refutar.”
Nada disso é tão relevante quanto a emergência do twosidism, que faz os jornais dizerem que têm de publicar as opiniões divergentes com o mesmo rigor, mesmo se uma é de que a Terra é plana. Mas hoje o que vemos é outra coisa: é a ressurgência de um delírio que quase destruiu o Brasil, a lavajato. Disfarçada de moral e bons costumes, ela — inominada — tomou agora como foco a destruição do Supremo Tribunal Federal. Como já disse, a “operação linchamento” tem duas motivações: a primeira é o processo de Sérgio Moro, cujo relator é Dias Toffoli; a segunda é a desqualificação do julgamento de Bolsonaro. É claro que ambas fazem parte do mesmo discurso fascista, no falso adágio maquiavélico de que o fim justifica os meios.
Para a destruição das reputações vale tudo, inclusive, sob a proteção do sigilo das fontes (art. 5º, XIV), quebrar os sigilos pessoais (art. 5º, XII) dos ministros. Ambos são sagrados, mas divulgar informações sigilosas é crime (Código Penal, art. 154, 1 a 4 anos; art. 154A, para dispositivo informático, §3º e 4º, 2 a 5 anos, mais 2/3; art.154B, se contra a administração pública dispensa representação; art. 325, §2º, violação de sigilo com dano, 2 a 6 anos). Isto é, a pessoa não precisa revelar quem lhe deu a informação, mas comete um crime. E essas penas são acrescidas de multa, sem definição exata de valor. Se fosse na França a multa seria de 300 mil euros, doeria na parte sensível do corpo capitalista.
Mas, assumindo o comando as redes sociais, os caras que quebraram os sigilos passaram a ser uns heróis, coitados, estão fazendo o mesmo que tantos heróis já fizeram, como Silvério dos Reis e outros praticantes do dedodurismo anônimo. Por outro lado, os donos dos IP que divulgam o neolavajatismo certamente não se importam que quebrem os deles, que só estão exercendo a liberdade de expressão.
Aliás, destruído o STF, o soluçante reinstalado no Alvorada, as cadeias e os cemitérios cheios de discordantes, eleições unânimes o elegerão pelos séculos dos séculos e depois o 01, o 02 e assim por diante. Episódios como o dessa semana na França, quando um agitador de extrema-direita foi linchado por agitadores de extrema-esquerda, não acontecerão, porque os milicianos terão exclusividade nos linchamentos. Viva Deus Pátria Família!
Expressão por expressão, acho curioso que o Brasil, que já teve um dos cleros mais avançados do mundo — conheci D. Helder já magrelo e ainda bispo auxiliar — tenha agora um dos mais retrógrados, com D. Orani bancando um Lefebvre social: tomou o partido dos evangélicos que vestiram a carapuça, reprovou “a utilização de símbolos da fé cristã e da instituição familiar em manifestações culturais de maneira que compreendemos como ofensiva”. Enquanto isso, os bispos americanos, considerados dos mais reacionários, estão trabalhando valentemente contra a guerra miliciana que o Trump faz contra quem não é ku klux klan — o que inclui deportar ou matar os seres inferiores, como mulheres, crianças, lgbt+, não branquelos, que não falam inglês etc. É claro que eles, bispos, são influenciados pelo papa peruano e imigrante que nasceu americano, ¿que tal?
É verdade que a ala 22, quase fechando a escola que homenageava o Lula — sacrilégio! — tinha umas fantasias de lata de conserva e, falo por ler, que não consegui ver, umas bíblias na mão — horror, deviam estar com o livrinho vermelho de Mao ou o verde do Khomeini. Não era algo puro, como desfilar com o troço de fora, com uma estrelinha cobrindo a coisa, fantasiado de diabo e outras delicadezas que fazem parte das boas manifestações culturais.
Realmente a família, a boa, fascista, da agronegociata, de bíblia e bala, estava sendo atacada. Pelo menos segundo a excelsa michela — assim chamava José Bonifácio à Domitila, significando o registrado pelo Houaiss, Brasil tabu prostituta, meretriz, tadinha dela que não era nada disso, só cobrava dos clientes —, que classificou de “um escárnio”. Já que estou indo de dicionário, escárnio é: 1 aquilo que é objeto de desdém, ironia ou sarcasmo | 2 o que é feito ou dito com intenção de provocar riso ou hilariedade acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria | 3 atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, por vezes indignado.
Ih!, acho que escarneci de umas pessoas. Será que serei excomungado? Deus me livre.
Pedro Costa
Assinar:
Comentários (Atom)


:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2023/k/b/EbslAiRteMUadKInJoKQ/103554463-a-palestinian-youth-holds-a-flag-next-to-burning-tyres-during-a-protest-by-the-border-fenc.jpg)


