sábado, 28 de março de 2026
Sob escuta
No Hospital Miguel Bombarda existe um dos poucos edifícios panóticos construídos no mundo. Trata-se do Pavilhão de Segurança, hoje museu. Visitá-lo é perturbador se tivermos presente que se destinava a presos políticos e, no centro da edificação (construída em círculo), existia uma torre central com persianas que permitia ver sem ser visto. O sentimento de estar ou parecer estar sob constante vigilância induzia ao “bom comportamento”. A arquitetura incutia terror.
Um sentimento semelhante é o sentido pelos imigrantes nos Estados Unidos da América. A torre é a Inteligência Artificial, que cruza dados para identificar e localizar imigrantes ilegais.
Os imigrantes ilegais não têm os documentos adequados, mas o seu nome é conhecido pelas autoridades (a maioria iniciou o processo de legalização ou pedido de asilo). A ICE (a agência responsável pelo serviço de controlo de fronteiras) precisa, apenas, de uma morada atualizada.
O consumo de eletricidade numa habitação, o sinal de um telemóvel, uma câmara de vigilância num espaço público, o registo automóvel, a carta de condução, análises de crédito, dados das Finanças e da Segurança Social… Dados de registos públicos e de empresas privadas − sobre o imigrante e aqueles com quem se relaciona − são cruzados para localizar indivíduos e cumprir a promessa de deter e deportar os ilegais. Sejam ou não indivíduos com historial criminal (de acordo com os dados divulgados pela própria ICE, dois terços dos detidos não têm registo criminal).
Embora a Anthropic não tenha nenhum contrato com a ICE, no seu recente conflito com a Administração Trump afirmou que a utilização de Inteligência Artificial para “vigilância doméstica em massa” viola princípios democráticos. Dados inócuos per se, que quando conjugados permitem um retrato abrangente de qualquer pessoa – imigrante ou não. As ferramentas são hoje tão poderosas, que tal pode ser feito de forma sistemática, em grande escala e num curtíssimo espaço de tempo.
Do conforto da nossa casa, aqui na Europa, não devemos assumir que estamos imunes a abusos semelhantes. A questão sobre que dados são recolhidos por entidades públicas e privadas e como são usados não deve ser-nos indiferente.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos tem vindo a pronunciar-se sobre a violação do artigo 8 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, que estabelece a proteção dos dados pessoais, pelas leis de vários Estados-membros. Leis que impõem deveres genéricos de manutenção de registos de comunicações e partilha com as autoridades para a investigação de crimes graves, fora de um processo judicial específico.
O Tribunal admite este arquivo e acesso, mas com limitações. Os Estados, na sequência das decisões, estabelecem regras que na prática impõem um arquivo generalizado.
França alega a ameaça terrorista para manter um dever genérico de manutenção de registos. A Dinamarca estabelece o risco de criminalidade em termos tão apertados que 70% da população se encontra abrangida. Em Portugal, as operadoras de telecomunicações estão obrigadas a manter o registo de todas as comunicações pelo prazo de um ano.
Para que o sentimento de “sob escuta” não exista, melhor seria que o tema fosse abertamente discutido na revisão em curso do RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados) e que regras claras fossem estabelecidas quanto aos dados que podem ser recolhidos, mantidos e quando e para que fins podem ser cruzados com outros (e quais) por autoridades públicas. Não é apenas nos Estados Unidos da América que a lei não acompanha o poder da Inteligência Artificial.
Um sentimento semelhante é o sentido pelos imigrantes nos Estados Unidos da América. A torre é a Inteligência Artificial, que cruza dados para identificar e localizar imigrantes ilegais.
Os imigrantes ilegais não têm os documentos adequados, mas o seu nome é conhecido pelas autoridades (a maioria iniciou o processo de legalização ou pedido de asilo). A ICE (a agência responsável pelo serviço de controlo de fronteiras) precisa, apenas, de uma morada atualizada.
O consumo de eletricidade numa habitação, o sinal de um telemóvel, uma câmara de vigilância num espaço público, o registo automóvel, a carta de condução, análises de crédito, dados das Finanças e da Segurança Social… Dados de registos públicos e de empresas privadas − sobre o imigrante e aqueles com quem se relaciona − são cruzados para localizar indivíduos e cumprir a promessa de deter e deportar os ilegais. Sejam ou não indivíduos com historial criminal (de acordo com os dados divulgados pela própria ICE, dois terços dos detidos não têm registo criminal).
Embora a Anthropic não tenha nenhum contrato com a ICE, no seu recente conflito com a Administração Trump afirmou que a utilização de Inteligência Artificial para “vigilância doméstica em massa” viola princípios democráticos. Dados inócuos per se, que quando conjugados permitem um retrato abrangente de qualquer pessoa – imigrante ou não. As ferramentas são hoje tão poderosas, que tal pode ser feito de forma sistemática, em grande escala e num curtíssimo espaço de tempo.
Do conforto da nossa casa, aqui na Europa, não devemos assumir que estamos imunes a abusos semelhantes. A questão sobre que dados são recolhidos por entidades públicas e privadas e como são usados não deve ser-nos indiferente.
O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos tem vindo a pronunciar-se sobre a violação do artigo 8 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, que estabelece a proteção dos dados pessoais, pelas leis de vários Estados-membros. Leis que impõem deveres genéricos de manutenção de registos de comunicações e partilha com as autoridades para a investigação de crimes graves, fora de um processo judicial específico.
O Tribunal admite este arquivo e acesso, mas com limitações. Os Estados, na sequência das decisões, estabelecem regras que na prática impõem um arquivo generalizado.
França alega a ameaça terrorista para manter um dever genérico de manutenção de registos. A Dinamarca estabelece o risco de criminalidade em termos tão apertados que 70% da população se encontra abrangida. Em Portugal, as operadoras de telecomunicações estão obrigadas a manter o registo de todas as comunicações pelo prazo de um ano.
Para que o sentimento de “sob escuta” não exista, melhor seria que o tema fosse abertamente discutido na revisão em curso do RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados) e que regras claras fossem estabelecidas quanto aos dados que podem ser recolhidos, mantidos e quando e para que fins podem ser cruzados com outros (e quais) por autoridades públicas. Não é apenas nos Estados Unidos da América que a lei não acompanha o poder da Inteligência Artificial.
Inteligências
Sistemas algorítmicos exercem cada vez mais influência em decisões judiciais, políticas públicas, campanhas eleitorais, rotinas administrativas e no próprio funcionamento da esfera pública em geral. Mas não parecem alterar o contraste entre os pavores e os entusiasmos relativos à inteligência artificial (IA).
Segundo alguns conceituados analistas, sistemas de IA tendem a destruir instituições cívicas capitais. Corroer a expertise, prejudicar decisões e isolar as pessoas umas das outras. Contra os desejáveis níveis de transparência, cooperação e responsabilidade, há quem garanta que a IA é um “câncer”.
Numa economia baseada em intensa extração de dados comportamentais, a IA não apenas organiza informações, mas antecipa, direciona e molda condutas humanas. Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica, concentrados nas mãos de gigantescas plataformas privadas.
Além disto, é uma infraestrutura pesada, dependente de recursos naturais, trabalho humano precarizado e escolhas políticas. Na qual os algoritmos reproduzem e ampliam desigualdades — raciais, socioeconômicas e geopolíticas —, além de introduzir novas assimetrias de poder.
No extremo oposto, não falta quem veja na IA uma oportunidade decisiva de fortalecimento institucional. Enfatizando que ela aumentará substancialmente a capacidade produtiva e administrativa de Estados e organizações.
Para eles, o problema não estaria na tecnologia em si, mas na forma como seus ganhos são distribuídos. Instituições bem desenhadas poderiam usar sistemas inteligentes para melhorar políticas públicas, ampliar o acesso a serviços e liberar servidores humanos de tarefas repetitivas.
Mas também há quem prefira rejeitar a alternativa. Pois a IA seria uma tecnologia “plástica”, com efeitos que dependem dos incentivos econômicos, das regras institucionais e do grau de controle democrático. Sem regulação, tende a concentrar poder e renda, mas, com adequada gestão, pode favorecer participação, transparência e inovação institucional.
A ideia-chave desta espécie de “caminho do meio” é que os impactos da IA não estarão predeterminados por linhas de código. Mas, sim, pelas decisões coletivas que definirem quem controla os sistemas, com quais objetivos e sob quais mecanismos de responsabilização.
Não é outra a postura que mais pode estimular o pragmatismo: botar tamanha controvérsia em banho-maria de fogo baixíssimo, para melhor investigar as dinâmicas evolutivas de empresas que já façam uso dos sistemas algorítmicos.
Foi o que fez um time de 14 profissionais dedicados a este tipo de prática, cujas principais conclusões podem ser sintetizadas em meia dúzia de afirmações.
Isolada, a IA tende a gerar ganhos pontuais de eficiência. Mas, se incorporada a uma boa estratégia, pode redefinir o papel das empresas na economia e na sociedade. Ela só funciona bem se integrada a uma visão mais ampla de sustentabilidade, propósito e regeneração.
O comportamento empresarial contemporâneo precisa superar a lógica extrativista. Em um contexto de crise climática, desigualdade social e instabilidade econômica, modelos regenerativos — capazes de restaurar recursos naturais, fortalecer comunidades e criar valor de longo prazo — deixam de ser periféricos e passam a ser centrais.
Nesta perspectiva, a IA funciona como catalisadora: ao ampliar a capacidade analítica e preditiva das organizações, permite decisões mais informadas, responsáveis e voltadas a objetivos socioambientais.
Muitas empresas aplicam soluções de IA dissociadas da cultura organizacional, da governança e da diversidade, o que limita os seus melhores efeitos. Não terão êxito sem integração entre tecnologia, pessoas e valores, além de lideranças capazes de traduzir dados em boas decisões econômica e sociais.
No fundo, a IA tende a dar um novo sentido ao termo “estratégia”. Em vez de planos rígidos e lineares, as organizações precisam operar com aprendizagem contínua, adaptação e visão de longo prazo. E há empresas de diferentes setores usando inteligência artificial para inovar, reduzir riscos e reposicionar os seus negócios em direção a uma economia mais sustentável.
Em suma, não se trata apenas de usar inteligência artificial, mas de convertê-la em “inteligência estratégica”, colocando a tecnologia a serviço de um modelo de desenvolvimento menos vulnerável, versátil, ético e regenerativo.
São justificativas bem circunstanciadas destes seis entendimentos que constituem a riqueza reflexiva do livro “Inteligência Estratégica — Como IA e Regeneração Transformam os Negócios”.
Quase todo o conteúdo é de produção coletiva, apresentado em capítulos em coautoria com a organizadora Regina Magalhães. Consultora em inovação e sustentabilidade, Regina é doutora em ciência ambiental (Procam-USP), teve formações executivas no MIT e Stanford e ocupou posições de liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC.
Segundo alguns conceituados analistas, sistemas de IA tendem a destruir instituições cívicas capitais. Corroer a expertise, prejudicar decisões e isolar as pessoas umas das outras. Contra os desejáveis níveis de transparência, cooperação e responsabilidade, há quem garanta que a IA é um “câncer”.
Numa economia baseada em intensa extração de dados comportamentais, a IA não apenas organiza informações, mas antecipa, direciona e molda condutas humanas. Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica, concentrados nas mãos de gigantescas plataformas privadas.
Além disto, é uma infraestrutura pesada, dependente de recursos naturais, trabalho humano precarizado e escolhas políticas. Na qual os algoritmos reproduzem e ampliam desigualdades — raciais, socioeconômicas e geopolíticas —, além de introduzir novas assimetrias de poder.
No extremo oposto, não falta quem veja na IA uma oportunidade decisiva de fortalecimento institucional. Enfatizando que ela aumentará substancialmente a capacidade produtiva e administrativa de Estados e organizações.
Para eles, o problema não estaria na tecnologia em si, mas na forma como seus ganhos são distribuídos. Instituições bem desenhadas poderiam usar sistemas inteligentes para melhorar políticas públicas, ampliar o acesso a serviços e liberar servidores humanos de tarefas repetitivas.
Mas também há quem prefira rejeitar a alternativa. Pois a IA seria uma tecnologia “plástica”, com efeitos que dependem dos incentivos econômicos, das regras institucionais e do grau de controle democrático. Sem regulação, tende a concentrar poder e renda, mas, com adequada gestão, pode favorecer participação, transparência e inovação institucional.
A ideia-chave desta espécie de “caminho do meio” é que os impactos da IA não estarão predeterminados por linhas de código. Mas, sim, pelas decisões coletivas que definirem quem controla os sistemas, com quais objetivos e sob quais mecanismos de responsabilização.
Não é outra a postura que mais pode estimular o pragmatismo: botar tamanha controvérsia em banho-maria de fogo baixíssimo, para melhor investigar as dinâmicas evolutivas de empresas que já façam uso dos sistemas algorítmicos.
Foi o que fez um time de 14 profissionais dedicados a este tipo de prática, cujas principais conclusões podem ser sintetizadas em meia dúzia de afirmações.
Isolada, a IA tende a gerar ganhos pontuais de eficiência. Mas, se incorporada a uma boa estratégia, pode redefinir o papel das empresas na economia e na sociedade. Ela só funciona bem se integrada a uma visão mais ampla de sustentabilidade, propósito e regeneração.
O comportamento empresarial contemporâneo precisa superar a lógica extrativista. Em um contexto de crise climática, desigualdade social e instabilidade econômica, modelos regenerativos — capazes de restaurar recursos naturais, fortalecer comunidades e criar valor de longo prazo — deixam de ser periféricos e passam a ser centrais.
Nesta perspectiva, a IA funciona como catalisadora: ao ampliar a capacidade analítica e preditiva das organizações, permite decisões mais informadas, responsáveis e voltadas a objetivos socioambientais.
Muitas empresas aplicam soluções de IA dissociadas da cultura organizacional, da governança e da diversidade, o que limita os seus melhores efeitos. Não terão êxito sem integração entre tecnologia, pessoas e valores, além de lideranças capazes de traduzir dados em boas decisões econômica e sociais.
No fundo, a IA tende a dar um novo sentido ao termo “estratégia”. Em vez de planos rígidos e lineares, as organizações precisam operar com aprendizagem contínua, adaptação e visão de longo prazo. E há empresas de diferentes setores usando inteligência artificial para inovar, reduzir riscos e reposicionar os seus negócios em direção a uma economia mais sustentável.
Em suma, não se trata apenas de usar inteligência artificial, mas de convertê-la em “inteligência estratégica”, colocando a tecnologia a serviço de um modelo de desenvolvimento menos vulnerável, versátil, ético e regenerativo.
São justificativas bem circunstanciadas destes seis entendimentos que constituem a riqueza reflexiva do livro “Inteligência Estratégica — Como IA e Regeneração Transformam os Negócios”.
Quase todo o conteúdo é de produção coletiva, apresentado em capítulos em coautoria com a organizadora Regina Magalhães. Consultora em inovação e sustentabilidade, Regina é doutora em ciência ambiental (Procam-USP), teve formações executivas no MIT e Stanford e ocupou posições de liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC.
Os Estados Unidos sob ameaça autoritária
Os americanos já não vivem numa democracia liberal: eis a conclusão do instituto sueco V-Dem, que monitora e classifica as democracias do mundo segundo a saúde de suas instituições. A organização mede periodicamente como os países efetivam os princípios constitutivos do ideal democrático: eleições livres; garantia das liberdades fundamentais; participação cidadã; processos decisórios com efetiva deliberação; e igualdade política plena.
A rigor, o relatório V-Dem 2026, que vê a potência do norte em franco processo de autocratização, apenas resume o colapso político em curso desde que Donald Trump voltou à Casa Branca. Os indicadores são inequívocos: rápida e gigantesca concentração de poder no Executivo federal; desmantelamento dos freios e contrapesos institucionais; desrespeito aos direitos civis e à igualdade de todos perante a lei; tentativas de calar a mídia, as vozes dissidentes e a academia; ameaça de supressão das associações livres.
Segundo o instituto sediado em Gotemburgo, está em curso o mais dramático declínio das instituições democráticas na América. Somente as regras eleitorais permanecem íntegras: os EUA são hoje uma democracia apenas eleitoral.
Pois agora são aquelas regras o alvo doméstico do presidente, ao mesmo tempo empenhado em destruir a arquitetura internacional pensada para assegurar a paz, quando possível. Na verdade, a integridade das eleições sempre esteve na mira de Trump. Ele nunca abandonou o falacioso discurso que atribuiu a vitória de Joe Biden, em 2020, a fraudes nas urnas.
Ao regressar à Casa Branca, tentou por meio de uma ordem executiva —o equivalente ao decreto presidencial brasileiro— impor o controle federal sobre os pleitos e multiplicar exigências que de fato limitariam o direito de voto. Foi brecado pelo Judiciário, que considerou a manobra ilegal.
Em breve, o Senado apreciará o "SAVE America Act" —assim, em letra maiúscula, no melhor estilo trumpista para as redes sociais—, em que retoma, com outro fraseado, as intenções da fracassada ordem executiva. Caso aprovado, ficará mais difícil para os eleitores alistar-se e votar nos pleitos federais —o que, segundo os críticos, poderá privar alguns milhões da cidadania política, em prejuízo, sobretudo, do Partido Democrata.
A meta do golpe de mão é assegurar a vitória do republicano e de seu partido nas eleições legislativas de novembro deste ano e no pleito presidencial de 2028. Mas a retórica que a justifica faz parte de uma estratégia comum aos populistas com ambição de autocratas.
Trata-se de lançar suspeitas sobre regras e procedimentos eleitorais estabelecidos, alimentando a descrença dos cidadãos, criando um seguro contra uma futura derrota nas urnas e justificativa para, se for o caso, contestá-la "na marra". Tal discurso é prova de que, para os populistas, a democracia eleitoral é um caminho para chegar ao poder, não uma forma de limitar seu exercício. Por isso, é um sistema intrinsecamente instável: ou vem associada ao regime de liberdades e a freios e contrapesos à concentração de poder, ou vira antessala do autoritarismo.
Difícil imaginar os EUA ocupando a posição atual na próxima edição do relatório do V-Dem.
A rigor, o relatório V-Dem 2026, que vê a potência do norte em franco processo de autocratização, apenas resume o colapso político em curso desde que Donald Trump voltou à Casa Branca. Os indicadores são inequívocos: rápida e gigantesca concentração de poder no Executivo federal; desmantelamento dos freios e contrapesos institucionais; desrespeito aos direitos civis e à igualdade de todos perante a lei; tentativas de calar a mídia, as vozes dissidentes e a academia; ameaça de supressão das associações livres.
Segundo o instituto sediado em Gotemburgo, está em curso o mais dramático declínio das instituições democráticas na América. Somente as regras eleitorais permanecem íntegras: os EUA são hoje uma democracia apenas eleitoral.
Pois agora são aquelas regras o alvo doméstico do presidente, ao mesmo tempo empenhado em destruir a arquitetura internacional pensada para assegurar a paz, quando possível. Na verdade, a integridade das eleições sempre esteve na mira de Trump. Ele nunca abandonou o falacioso discurso que atribuiu a vitória de Joe Biden, em 2020, a fraudes nas urnas.
Ao regressar à Casa Branca, tentou por meio de uma ordem executiva —o equivalente ao decreto presidencial brasileiro— impor o controle federal sobre os pleitos e multiplicar exigências que de fato limitariam o direito de voto. Foi brecado pelo Judiciário, que considerou a manobra ilegal.
Em breve, o Senado apreciará o "SAVE America Act" —assim, em letra maiúscula, no melhor estilo trumpista para as redes sociais—, em que retoma, com outro fraseado, as intenções da fracassada ordem executiva. Caso aprovado, ficará mais difícil para os eleitores alistar-se e votar nos pleitos federais —o que, segundo os críticos, poderá privar alguns milhões da cidadania política, em prejuízo, sobretudo, do Partido Democrata.
A meta do golpe de mão é assegurar a vitória do republicano e de seu partido nas eleições legislativas de novembro deste ano e no pleito presidencial de 2028. Mas a retórica que a justifica faz parte de uma estratégia comum aos populistas com ambição de autocratas.
Trata-se de lançar suspeitas sobre regras e procedimentos eleitorais estabelecidos, alimentando a descrença dos cidadãos, criando um seguro contra uma futura derrota nas urnas e justificativa para, se for o caso, contestá-la "na marra". Tal discurso é prova de que, para os populistas, a democracia eleitoral é um caminho para chegar ao poder, não uma forma de limitar seu exercício. Por isso, é um sistema intrinsecamente instável: ou vem associada ao regime de liberdades e a freios e contrapesos à concentração de poder, ou vira antessala do autoritarismo.
Difícil imaginar os EUA ocupando a posição atual na próxima edição do relatório do V-Dem.
Quem é o outro?
Estão as duas à espera de que um equipamento fique livre no ginásio enquanto falam. Uma delas conta a viagem que fez, acompanhando um DJ americano de Londres para Lisboa, em trabalho. “Quando chegámos ao aeroporto, perguntou: porque é que temos de passar pela Imigração? Eu sou americano!” Riem-se as duas. Não sei se da soberba do americano, que se considera a si mesmo um cidadão do mundo, incapaz de se ver em algum momento como imigrante ou estrangeiro. Ou se da ironia revelada pelo espanto de quem vem de um país que tem um Presidente eleito à custa de fazer da perseguição aos imigrantes uma prioridade política. Creio que são duas boas razões para se rir: a soberba e a ironia. Mas há um momento em que temos de deixar de rir.
No dia em que ouvi esta conversa, tropecei nas redes sociais nas imagens de um político de extrema-direita. Estava, como é costume, no meio de uma moldura de gente, que se atropelava para conseguir ficar no enquadramento das fotografias, tiradas numa feira qualquer. Como é costume, eram muito jovens os que se acotovelavam para estar perto do homem. Nada de novo. Mas só à primeira vista. Ao olhar melhor para as fotos, reparei que em várias delas havia jovens negros. Rapazes e raparigas negros, felizes por se fotografarem ao lado de quem faz vida de dizer que os direitos devem ser só para “os portugueses de bem”, de quem desmente que haja o racismo que certamente sentem todos os dias na pele, de quem defende a bondade do colonialismo português.
Congelei por um momento. Fiquei a olhar para as fotografias. Para aqueles rostos sorridentes, os cabelos afro, os fatos de treino da Adidas e todos aqueles sinais exteriores de quem vem da periferia. Todos aqueles sinais que, na rua errada à hora errada, são motivo suficiente para ficar encostado a uma parede, numa rusga da polícia. Aquela polícia que a extrema-direita acha que deve “atirar a matar”, antes mesmo de perguntar.
Mesmo muito jovens, é impossível que ainda ninguém lhes tenha atirado um “preto, vai para a tua terra”, que não tenham percebido como os seguranças os seguem quando entram numa loja ou como algumas mulheres se agarram às carteiras e baixam o rosto quando passam por eles num passeio. É impossível que não percebam que, quando se fala em “portugueses de bem”, estão excluídos, mesmo que estudem e se matem a trabalhar, mesmo que sigam todas as leis e todas as regras. É impossível que não tenham percebido já que, para alguns, é muito mais fácil seguir todas as leis e todas as regras do que para outros. Ou será que não? Será que a sucessão encantatória de vídeos no TikTok os anestesiou a ponto de acharem que o mérito tudo alcança, que a pobreza é coisa de falhados, que a riqueza está à distância de um post viral ou da aposta certa numa criptomoeda?
Independentemente do que pensem estes jovens sobre tudo isso, uma coisa é certa: eles não se consideram o alvo do discurso de ódio da extrema-direita. Da mesma maneira que o americano não se considera estrangeiro, mesmo quando atravessa as fronteiras de outro país. Da mesma forma que uma e outra vez ouvi imigrantes (muitas vezes brasileiros) alinharem com o discurso de que têm de se mandar embora todos aqueles que aqui vivem de subsídios, mesmo que não haja subsídios para quem nunca descontou por eles (à exceção do RSI, que tem o valor de €155,52 por pessoa e só abrange neste momento 80 mil famílias).
E depois há as mulheres. Aquelas que acham que as mulheres deviam estar em casa a cuidar dos filhos, mas estão no Parlamento. Aquelas que acham que as mulheres não deviam votar, mas são militantes de um partido e por vezes candidatas a que votem nelas. Aquelas que defendem que os homens é que devem sustentar-nos, porque o trabalho não combina com a energia feminina, mas fazem fortunas a partilhar vídeos machistas no Instagram. Aquelas que têm nojo do feminismo que lhes deu voz e escolhas e nem ousam questionar um capitalismo que invisibiliza e desqualifica um trabalho de cuidado que escraviza tantas mulheres, deixando-as à beira do esgotamento.
O que tem toda esta gente em comum? Todos eles se acham exceção. Todos eles ouvem discursos de ódio feitos à medida da pele que vestem e acreditam que, por alguma razão, não serão atingidos. Todos se acham acima da categoria de alvo que apontam aos outros. Todos se sentem a salvo dos ataques.
Não sei o suficiente de psicologia para descortinar as razões desta incapacidade de perceber que se é aquele que se odeia, que se está com as palavras a atiçar uma fogueira onde outros quererão ver-nos arder. Mas talvez tudo isto tenha que ver com o mesmo mecanismo que faz um racista abrir uma exceção para “um amigo preto”, um homofóbico exibir “um amigo gay” ou um machista ressalvar sempre que ama “a mulher e as irmãs”. O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil.
As pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres, gays, que se juntam às fileiras de partidos de extrema-direita ou que dão força aos seus discursos olham para si e não veem o que imaginam nas pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres e gays que acham que já têm direitos a mais, que vivem à custa de subsídios, que têm a vida fácil, que não cumprem a lei nem trabalham. Porque cada um deles sabe interiormente que os seus direitos são frágeis, que nunca viveram à custa de um subsídio e que se matam a trabalhar. Se eles não são assim, nunca serão penalizados pelo ódio que instigam. Serão os outros. E nunca ninguém sabe bem quem é outro. Nunca ninguém lhe sabe o nome ou lhe conhece a história. E, se conhece, então é só mais uma exceção. Os outros é que são os maus, os preguiçosos, os que andam à mama.
No dia em que ouvi esta conversa, tropecei nas redes sociais nas imagens de um político de extrema-direita. Estava, como é costume, no meio de uma moldura de gente, que se atropelava para conseguir ficar no enquadramento das fotografias, tiradas numa feira qualquer. Como é costume, eram muito jovens os que se acotovelavam para estar perto do homem. Nada de novo. Mas só à primeira vista. Ao olhar melhor para as fotos, reparei que em várias delas havia jovens negros. Rapazes e raparigas negros, felizes por se fotografarem ao lado de quem faz vida de dizer que os direitos devem ser só para “os portugueses de bem”, de quem desmente que haja o racismo que certamente sentem todos os dias na pele, de quem defende a bondade do colonialismo português.
Congelei por um momento. Fiquei a olhar para as fotografias. Para aqueles rostos sorridentes, os cabelos afro, os fatos de treino da Adidas e todos aqueles sinais exteriores de quem vem da periferia. Todos aqueles sinais que, na rua errada à hora errada, são motivo suficiente para ficar encostado a uma parede, numa rusga da polícia. Aquela polícia que a extrema-direita acha que deve “atirar a matar”, antes mesmo de perguntar.
Mesmo muito jovens, é impossível que ainda ninguém lhes tenha atirado um “preto, vai para a tua terra”, que não tenham percebido como os seguranças os seguem quando entram numa loja ou como algumas mulheres se agarram às carteiras e baixam o rosto quando passam por eles num passeio. É impossível que não percebam que, quando se fala em “portugueses de bem”, estão excluídos, mesmo que estudem e se matem a trabalhar, mesmo que sigam todas as leis e todas as regras. É impossível que não tenham percebido já que, para alguns, é muito mais fácil seguir todas as leis e todas as regras do que para outros. Ou será que não? Será que a sucessão encantatória de vídeos no TikTok os anestesiou a ponto de acharem que o mérito tudo alcança, que a pobreza é coisa de falhados, que a riqueza está à distância de um post viral ou da aposta certa numa criptomoeda?
Independentemente do que pensem estes jovens sobre tudo isso, uma coisa é certa: eles não se consideram o alvo do discurso de ódio da extrema-direita. Da mesma maneira que o americano não se considera estrangeiro, mesmo quando atravessa as fronteiras de outro país. Da mesma forma que uma e outra vez ouvi imigrantes (muitas vezes brasileiros) alinharem com o discurso de que têm de se mandar embora todos aqueles que aqui vivem de subsídios, mesmo que não haja subsídios para quem nunca descontou por eles (à exceção do RSI, que tem o valor de €155,52 por pessoa e só abrange neste momento 80 mil famílias).
E depois há as mulheres. Aquelas que acham que as mulheres deviam estar em casa a cuidar dos filhos, mas estão no Parlamento. Aquelas que acham que as mulheres não deviam votar, mas são militantes de um partido e por vezes candidatas a que votem nelas. Aquelas que defendem que os homens é que devem sustentar-nos, porque o trabalho não combina com a energia feminina, mas fazem fortunas a partilhar vídeos machistas no Instagram. Aquelas que têm nojo do feminismo que lhes deu voz e escolhas e nem ousam questionar um capitalismo que invisibiliza e desqualifica um trabalho de cuidado que escraviza tantas mulheres, deixando-as à beira do esgotamento.
O que tem toda esta gente em comum? Todos eles se acham exceção. Todos eles ouvem discursos de ódio feitos à medida da pele que vestem e acreditam que, por alguma razão, não serão atingidos. Todos se acham acima da categoria de alvo que apontam aos outros. Todos se sentem a salvo dos ataques.
Não sei o suficiente de psicologia para descortinar as razões desta incapacidade de perceber que se é aquele que se odeia, que se está com as palavras a atiçar uma fogueira onde outros quererão ver-nos arder. Mas talvez tudo isto tenha que ver com o mesmo mecanismo que faz um racista abrir uma exceção para “um amigo preto”, um homofóbico exibir “um amigo gay” ou um machista ressalvar sempre que ama “a mulher e as irmãs”. O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil.
As pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres, gays, que se juntam às fileiras de partidos de extrema-direita ou que dão força aos seus discursos olham para si e não veem o que imaginam nas pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres e gays que acham que já têm direitos a mais, que vivem à custa de subsídios, que têm a vida fácil, que não cumprem a lei nem trabalham. Porque cada um deles sabe interiormente que os seus direitos são frágeis, que nunca viveram à custa de um subsídio e que se matam a trabalhar. Se eles não são assim, nunca serão penalizados pelo ódio que instigam. Serão os outros. E nunca ninguém sabe bem quem é outro. Nunca ninguém lhe sabe o nome ou lhe conhece a história. E, se conhece, então é só mais uma exceção. Os outros é que são os maus, os preguiçosos, os que andam à mama.
A desumanização é a maior arma das políticas de ódio. E é por isso que a proximidade as desarma. Nada combate melhor esse vírus do que conhecer o outro, ver-lhe a cara, dar-lhe um nome. Nada desmontará melhor esses discursos do que sairmos das redes sociais e encontrarmo-nos cara a cara, onde não há caricaturas, mas gente. Nada será mais eficaz do que erguermos comunidades de gente que se conhece e que se ajuda. Podemos e devemos mudar o mundo, uma rua de cada vez, um encontro de cada vez, recebendo os outros com um sorriso e a vontade de os escutar. No fim, perceberemos que somos todos muito mais iguais do que imaginávamos.
Não se deve subestimar o perigo à democracia
A democracia corre grave perigo, em todo o mundo. Essa é a mensagem de dois conceituados relatórios recentes - um da V-Dem, da Suécia, intitulado, “Desmonte da Era Democrática?”, o outro da Freedom House, dos Estados Unidos, intitulado “A Crescente Sombra da Autocracia”. Eles apresentam dois argumentos fundamentais. O primeiro é que fenômeno chamado por Larry Diamond, de Stanford, de “recessão democrática”, iniciado há 20 anos, começa perigosamente a parecer-se mais a uma depressão democrática. O outro é que, em 2025, o governo Trump iniciou o que se revelou o declínio mais rápido na saúde de qualquer grande democracia nos últimos tempos.
De acordo com a Freedom House, “a liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025”. “Um total de 54 países passou por uma deterioração em seus direitos políticos e liberdades civis, enquanto só 35 registraram melhoras”. A V-Dem mensura esse declínio não apenas pelo número de países afetados, mas também pelo número de pessoas. Conclui que entre 2005 e 2025, a proporção da população mundial vivendo em autocracias aumentou de 50% para 74%, enquanto a que vive em verdadeiras democracias liberais, onde se oferece um leque completo de direitos civis e legais, além de eleições, desabou de 17% para apenas 7%.
Acima de tudo, a V-Dem argumenta que o mundo nunca antes viu tantos países se “autocratizando” ao mesmo tempo. A liberdade de expressão sofre uma queda particularmente rápida, com 44 países tendo apresentado um declínio nesse aspecto em 2025. Até a tortura vem sendo mais empregada.
Ainda mais importante, isso também vem ocorrendo nos EUA. O índice agregado da V-Dem sobre a saúde da democracia dos EUA caiu para os patamares de 1965, logo na esteira da Lei dos Direitos Civis de 1964. Desta vez, contudo, o que vemos é um exemplo clássico de uma tentativa de um Poder Executivo de derrubar uma democracia liberal por dentro. Os freios legislativos ao Executivo - possivelmente o mais fundamental de todos os controles constitucionais - chegaram a seu menor patamar em 100 anos, segundo a V-Dem. Os direitos civis e a igualdade diante da Justiça caíram para os piores níveis desde meados dos anos 1960 e, apesar de toda a ladainha sobre o “discurso livre”, a liberdade de expressão está em seu pior ponto desde o início dos anos 1950. Segundo avalia a V-Dem, apenas os componentes eleitorais da democracia ficaram intocados, pelo menos por enquanto.
Para os que duvidam de tudo isso, recomendo a leitura de Trump Action Tracker (o rastreador das atitudes de Trump), que lista 2.816 ações tomadas desde janeiro de 2025. Talvez o aspecto mais gritante do que está ocorrendo seja o descaramento da corrupção. A ideia pela qual se lutou por tanto tempo de que o serviço público é confiado a alguém em nome do benefício público, não uma oportunidade para enriquecimento pessoal, foi quase inteiramente abandonada. Alguns argumentam, de forma plausível infelizmente, que pessoas com informações privilegiadas têm conseguido lucrar com operações financeiras por possuírem conhecimento prévio de anúncios presidenciais, como o desta semana que retirou ameaças contra o Irã.
O que se deduz a partir de tudo isso? De acordo com a Freedom House, a qualidade da democracia americana está agora no mesmo nível da sul-africana, embora esta venha melhorando, não se deteriorando. Segundo a V-Dem, a velocidade do declínio americano em 2025 superou em muito a da Rússia, Índia, Turquia e Hungria no início da queda desses países. Caso volte a ocorrer um declínio similar no índice de democracia liberal da V-Dem em 2026, os EUA chegariam no patamar em que a Hungria estava em 2018 e terão chegado lá muito mais rápido.
A liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025 (Freedom House). De um total de 54 países, só 35 registraram melhoras em seus direitos políticos e liberdades civis. Subiu a 74% a proporção da população mundial que vive sob uma autocracia (V-Dem)
Infelizmente, até agora nenhum desses outros declínios foi revertido. Isso porque esses aspirantes a autocratas sabem muito bem que não podem se dar ao luxo de perder eleições, e porque conquistaram poder suficiente para impedir isso. A primeira parte certamente já se aplica a Donald Trump, sua família e muitos membros do governo. Alguém duvida, então, de que o governo fará tudo o que estiver a seu alcance para “vencer” as eleições de meio de mandato em novembro, sem dúvida alegando o tempo todo que vêm tentando apenas garantir eleições “justas”? Se eles vão ter sucesso? Veremos.
Na história da humanidade, a democracia, em qualquer forma, é uma raridade, em especial em grandes potências. Muito mais comuns são a autocracia, a oligarquia ou alguma combinação das duas. Foi apenas no fim do século XX que a democracia se tornou uma espécie de norma global. Os EUA tiveram um papel decisivo nesse êxito, tanto em virtude de seu poder quanto de seu exemplo.
O “poder” ainda permanece, embora o governo Trump esteja montando um ataque contra os alicerces desse poder no Estado de Direito, na segurança dos direitos de propriedade, na governança eficaz, na ciência avançada e na liberdade de imprensa. Já o “exemplo” deixou de existir. Para o mundo, os EUA demonstram diariamente seu repúdio aos valores que as pessoas acreditavam que o país representava. Em particular, nos países em desenvolvimento, mas também em muitos outros, as pessoas estão mais do que familiarizadas com aquilo que os EUA de Trump representam: despotismo. Os EUA nunca estiveram perto de ser um modelo perfeito dos ideais democráticos. No entanto, eram esses ideais que o mundo passou a acreditar que os EUA representavam.
Com os EUA sob o comando de pessoas que desprezam a tradição iluminista que criou a civilização ocidental atual (que não é aquela que eles imaginam), onde iremos parar? Não sabemos. Talvez, a democracia americana dê um jeito de se salvar. Talvez, a pura ferocidade do ataque gere a resposta necessária. Infelizmente, a Europa continua dividida entre seus membros, e dentro deles próprios. Portanto, hoje carece da disposição de defender a democracia pelo mundo. O restante das democracias reais pelo mundo também é fraco demais para fazer grande coisa nesta era de autocratas.
Ainda assim, recuso-me a entrar em desespero. As noções de que o Estado não pertence a um governante absoluto, mas, sim, ao povo; de que as pessoas precisam ter o direito de falar e de ser ouvidas; de que a lei existe para protegê-las; e de que não se pode confiar a ninguém poder absoluto sobre elas continuam sendo, na minha visão, as melhores da política. No entanto, seria tolice acreditar que elas estão seguras. Mais uma vez, elas correm gravíssimo perigo.
De acordo com a Freedom House, “a liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025”. “Um total de 54 países passou por uma deterioração em seus direitos políticos e liberdades civis, enquanto só 35 registraram melhoras”. A V-Dem mensura esse declínio não apenas pelo número de países afetados, mas também pelo número de pessoas. Conclui que entre 2005 e 2025, a proporção da população mundial vivendo em autocracias aumentou de 50% para 74%, enquanto a que vive em verdadeiras democracias liberais, onde se oferece um leque completo de direitos civis e legais, além de eleições, desabou de 17% para apenas 7%.
Acima de tudo, a V-Dem argumenta que o mundo nunca antes viu tantos países se “autocratizando” ao mesmo tempo. A liberdade de expressão sofre uma queda particularmente rápida, com 44 países tendo apresentado um declínio nesse aspecto em 2025. Até a tortura vem sendo mais empregada.
Ainda mais importante, isso também vem ocorrendo nos EUA. O índice agregado da V-Dem sobre a saúde da democracia dos EUA caiu para os patamares de 1965, logo na esteira da Lei dos Direitos Civis de 1964. Desta vez, contudo, o que vemos é um exemplo clássico de uma tentativa de um Poder Executivo de derrubar uma democracia liberal por dentro. Os freios legislativos ao Executivo - possivelmente o mais fundamental de todos os controles constitucionais - chegaram a seu menor patamar em 100 anos, segundo a V-Dem. Os direitos civis e a igualdade diante da Justiça caíram para os piores níveis desde meados dos anos 1960 e, apesar de toda a ladainha sobre o “discurso livre”, a liberdade de expressão está em seu pior ponto desde o início dos anos 1950. Segundo avalia a V-Dem, apenas os componentes eleitorais da democracia ficaram intocados, pelo menos por enquanto.
Para os que duvidam de tudo isso, recomendo a leitura de Trump Action Tracker (o rastreador das atitudes de Trump), que lista 2.816 ações tomadas desde janeiro de 2025. Talvez o aspecto mais gritante do que está ocorrendo seja o descaramento da corrupção. A ideia pela qual se lutou por tanto tempo de que o serviço público é confiado a alguém em nome do benefício público, não uma oportunidade para enriquecimento pessoal, foi quase inteiramente abandonada. Alguns argumentam, de forma plausível infelizmente, que pessoas com informações privilegiadas têm conseguido lucrar com operações financeiras por possuírem conhecimento prévio de anúncios presidenciais, como o desta semana que retirou ameaças contra o Irã.
O que se deduz a partir de tudo isso? De acordo com a Freedom House, a qualidade da democracia americana está agora no mesmo nível da sul-africana, embora esta venha melhorando, não se deteriorando. Segundo a V-Dem, a velocidade do declínio americano em 2025 superou em muito a da Rússia, Índia, Turquia e Hungria no início da queda desses países. Caso volte a ocorrer um declínio similar no índice de democracia liberal da V-Dem em 2026, os EUA chegariam no patamar em que a Hungria estava em 2018 e terão chegado lá muito mais rápido.
A liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025 (Freedom House). De um total de 54 países, só 35 registraram melhoras em seus direitos políticos e liberdades civis. Subiu a 74% a proporção da população mundial que vive sob uma autocracia (V-Dem)
Infelizmente, até agora nenhum desses outros declínios foi revertido. Isso porque esses aspirantes a autocratas sabem muito bem que não podem se dar ao luxo de perder eleições, e porque conquistaram poder suficiente para impedir isso. A primeira parte certamente já se aplica a Donald Trump, sua família e muitos membros do governo. Alguém duvida, então, de que o governo fará tudo o que estiver a seu alcance para “vencer” as eleições de meio de mandato em novembro, sem dúvida alegando o tempo todo que vêm tentando apenas garantir eleições “justas”? Se eles vão ter sucesso? Veremos.
Na história da humanidade, a democracia, em qualquer forma, é uma raridade, em especial em grandes potências. Muito mais comuns são a autocracia, a oligarquia ou alguma combinação das duas. Foi apenas no fim do século XX que a democracia se tornou uma espécie de norma global. Os EUA tiveram um papel decisivo nesse êxito, tanto em virtude de seu poder quanto de seu exemplo.
O “poder” ainda permanece, embora o governo Trump esteja montando um ataque contra os alicerces desse poder no Estado de Direito, na segurança dos direitos de propriedade, na governança eficaz, na ciência avançada e na liberdade de imprensa. Já o “exemplo” deixou de existir. Para o mundo, os EUA demonstram diariamente seu repúdio aos valores que as pessoas acreditavam que o país representava. Em particular, nos países em desenvolvimento, mas também em muitos outros, as pessoas estão mais do que familiarizadas com aquilo que os EUA de Trump representam: despotismo. Os EUA nunca estiveram perto de ser um modelo perfeito dos ideais democráticos. No entanto, eram esses ideais que o mundo passou a acreditar que os EUA representavam.
Com os EUA sob o comando de pessoas que desprezam a tradição iluminista que criou a civilização ocidental atual (que não é aquela que eles imaginam), onde iremos parar? Não sabemos. Talvez, a democracia americana dê um jeito de se salvar. Talvez, a pura ferocidade do ataque gere a resposta necessária. Infelizmente, a Europa continua dividida entre seus membros, e dentro deles próprios. Portanto, hoje carece da disposição de defender a democracia pelo mundo. O restante das democracias reais pelo mundo também é fraco demais para fazer grande coisa nesta era de autocratas.
Ainda assim, recuso-me a entrar em desespero. As noções de que o Estado não pertence a um governante absoluto, mas, sim, ao povo; de que as pessoas precisam ter o direito de falar e de ser ouvidas; de que a lei existe para protegê-las; e de que não se pode confiar a ninguém poder absoluto sobre elas continuam sendo, na minha visão, as melhores da política. No entanto, seria tolice acreditar que elas estão seguras. Mais uma vez, elas correm gravíssimo perigo.
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