No dia em que ouvi esta conversa, tropecei nas redes sociais nas imagens de um político de extrema-direita. Estava, como é costume, no meio de uma moldura de gente, que se atropelava para conseguir ficar no enquadramento das fotografias, tiradas numa feira qualquer. Como é costume, eram muito jovens os que se acotovelavam para estar perto do homem. Nada de novo. Mas só à primeira vista. Ao olhar melhor para as fotos, reparei que em várias delas havia jovens negros. Rapazes e raparigas negros, felizes por se fotografarem ao lado de quem faz vida de dizer que os direitos devem ser só para “os portugueses de bem”, de quem desmente que haja o racismo que certamente sentem todos os dias na pele, de quem defende a bondade do colonialismo português.
Congelei por um momento. Fiquei a olhar para as fotografias. Para aqueles rostos sorridentes, os cabelos afro, os fatos de treino da Adidas e todos aqueles sinais exteriores de quem vem da periferia. Todos aqueles sinais que, na rua errada à hora errada, são motivo suficiente para ficar encostado a uma parede, numa rusga da polícia. Aquela polícia que a extrema-direita acha que deve “atirar a matar”, antes mesmo de perguntar.
Mesmo muito jovens, é impossível que ainda ninguém lhes tenha atirado um “preto, vai para a tua terra”, que não tenham percebido como os seguranças os seguem quando entram numa loja ou como algumas mulheres se agarram às carteiras e baixam o rosto quando passam por eles num passeio. É impossível que não percebam que, quando se fala em “portugueses de bem”, estão excluídos, mesmo que estudem e se matem a trabalhar, mesmo que sigam todas as leis e todas as regras. É impossível que não tenham percebido já que, para alguns, é muito mais fácil seguir todas as leis e todas as regras do que para outros. Ou será que não? Será que a sucessão encantatória de vídeos no TikTok os anestesiou a ponto de acharem que o mérito tudo alcança, que a pobreza é coisa de falhados, que a riqueza está à distância de um post viral ou da aposta certa numa criptomoeda?
Independentemente do que pensem estes jovens sobre tudo isso, uma coisa é certa: eles não se consideram o alvo do discurso de ódio da extrema-direita. Da mesma maneira que o americano não se considera estrangeiro, mesmo quando atravessa as fronteiras de outro país. Da mesma forma que uma e outra vez ouvi imigrantes (muitas vezes brasileiros) alinharem com o discurso de que têm de se mandar embora todos aqueles que aqui vivem de subsídios, mesmo que não haja subsídios para quem nunca descontou por eles (à exceção do RSI, que tem o valor de €155,52 por pessoa e só abrange neste momento 80 mil famílias).
E depois há as mulheres. Aquelas que acham que as mulheres deviam estar em casa a cuidar dos filhos, mas estão no Parlamento. Aquelas que acham que as mulheres não deviam votar, mas são militantes de um partido e por vezes candidatas a que votem nelas. Aquelas que defendem que os homens é que devem sustentar-nos, porque o trabalho não combina com a energia feminina, mas fazem fortunas a partilhar vídeos machistas no Instagram. Aquelas que têm nojo do feminismo que lhes deu voz e escolhas e nem ousam questionar um capitalismo que invisibiliza e desqualifica um trabalho de cuidado que escraviza tantas mulheres, deixando-as à beira do esgotamento.
O que tem toda esta gente em comum? Todos eles se acham exceção. Todos eles ouvem discursos de ódio feitos à medida da pele que vestem e acreditam que, por alguma razão, não serão atingidos. Todos se acham acima da categoria de alvo que apontam aos outros. Todos se sentem a salvo dos ataques.
Não sei o suficiente de psicologia para descortinar as razões desta incapacidade de perceber que se é aquele que se odeia, que se está com as palavras a atiçar uma fogueira onde outros quererão ver-nos arder. Mas talvez tudo isto tenha que ver com o mesmo mecanismo que faz um racista abrir uma exceção para “um amigo preto”, um homofóbico exibir “um amigo gay” ou um machista ressalvar sempre que ama “a mulher e as irmãs”. O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil.
As pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres, gays, que se juntam às fileiras de partidos de extrema-direita ou que dão força aos seus discursos olham para si e não veem o que imaginam nas pessoas racializadas, imigrantes, pobres, mulheres e gays que acham que já têm direitos a mais, que vivem à custa de subsídios, que têm a vida fácil, que não cumprem a lei nem trabalham. Porque cada um deles sabe interiormente que os seus direitos são frágeis, que nunca viveram à custa de um subsídio e que se matam a trabalhar. Se eles não são assim, nunca serão penalizados pelo ódio que instigam. Serão os outros. E nunca ninguém sabe bem quem é outro. Nunca ninguém lhe sabe o nome ou lhe conhece a história. E, se conhece, então é só mais uma exceção. Os outros é que são os maus, os preguiçosos, os que andam à mama.
A desumanização é a maior arma das políticas de ódio. E é por isso que a proximidade as desarma. Nada combate melhor esse vírus do que conhecer o outro, ver-lhe a cara, dar-lhe um nome. Nada desmontará melhor esses discursos do que sairmos das redes sociais e encontrarmo-nos cara a cara, onde não há caricaturas, mas gente. Nada será mais eficaz do que erguermos comunidades de gente que se conhece e que se ajuda. Podemos e devemos mudar o mundo, uma rua de cada vez, um encontro de cada vez, recebendo os outros com um sorriso e a vontade de os escutar. No fim, perceberemos que somos todos muito mais iguais do que imaginávamos.
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