sábado, 25 de abril de 2026
Os novos templários
O embate com o papa Leão XIV, portanto, era apenas questão de tempo. Quando o pontífice assumiu a defesa de uma posição cristã contrária às guerras, a Casa Branca decidiu que era hora de iniciar uma ofensiva contra o Vaticano. O que estava em jogo não era apenas uma disputa de versões. Ver o chefe da Igreja denunciar o uso do nome de Deus para justificar a guerra foi considerado um obstáculo às ambições dos Estados Unidos.
Polêmicas não são novidade na vida do secretário de Trump. Em 2015, num episódio que se tornou público, um Hegseth embriagado em um bar de Ohio causou constrangimento ao cantar de forma descontrolada “morte aos muçulmanos”. Mesmo sem o efeito do álcool, ele nunca escondeu quem era. Ao longo dos últimos anos, defendeu uma “guerra santa de 360 graus” para exorcizar “o espectro esquerdista que domina a educação, a religião e a cultura”.
Para justificar a derrota das tropas norte-americanas no Afeganistão, Hegseth alegou que “o fanatismo foi uma vantagem para eles (milícias do Talebã) que mal levamos em consideração”. Em um de seus livros, de 2016, o secretário relembrou como se sentiu ao ver uma imagem online de um combatente do Estado Islâmico com o Alcorão em uma mão e um AK-47 na outra. “Com Deus ao seu lado e o vento a seu favor, ele é um guerreiro conquistador”, escreveu. “Ele está lutando por algo maior do que ele mesmo. Ele está lutando por seu Deus.” Em seguida, veio o apelo por uma postura parecida entre os cristãos. “Reconheço esse combatente, mesmo sem nunca o ter conhecido. Sinto-me atraído por ele porque me identifico com ele”, prosseguiu. “Deploro o que ele representa, o que ele faz e como o faz. Ele é um soldado do ódio, da subjugação e da pura maldade. Mas compreendo suas paixões.”
Quatro anos depois, Hegseth publicaria outro livro com um título ainda mais escancarado sobre suas intenções: A Cruzada Americana. Nele, vê os Estados Unidos em uma luta travada por cristãos brancos conservadores em nome de Deus. “Nosso momento atual é muito parecido com o século XI. Não queremos lutar, mas, como nossos irmãos cristãos há mil anos, devemos”, afirmou, numa referência às cruzadas. O livro conclui: “Juntos, com a ajuda de Deus, salvaremos a América”.
Grande parte da “inspiração” para as declarações e pensamento do senhor da guerra nos EUA vem do pastor Doug Wilson, do estado de Idaho. Ultraconservador, Wilson coleciona polêmicas e suas opiniões são extremas, mesmo para a direita cristã. Defensor do “patriarcado bíblico”, o pastor sugere que esposas se submetam aos maridos, que os pais imponham disciplina “dolorosa” aos filhos e que os meninos aprendam a “teologia da luta corporal”. Afirma ainda que a escravidão era uma “instituição americana benéfica” e se descreveu como filosoficamente “em dívida” com Robert Dabney, o capelão militar do general confederado Stonewall Jackson, personagem que defendeu a escravidão e que difundia abertamente a tese da supremacia branca.
O mentor de Hegseth causou, em 2025, um profundo mal-estar quando sugeriu que o direito ao voto para as mulheres deveria “ser repensado”. Outro aspecto polêmico de seu pensamento refere-se aos alvos militares legítimos. Wilson acredita na existência de uma batalha religiosa a ser travada no mundo e que, se necessário, mulheres e crianças devem ser sacrificadas. Na congregação fundada pelo pastor e da qual faz parte o chefe do Pentágono, há um sistema de tribunais eclesiásticos que aplica punições por heresia.
As ideias de Hegseth, conhecidas desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2025, ganharam espaço e passaram a ser expostas de maneira mais escancarada ao longo dos últimos meses. A chancela da Casa Branca ao movimento ultraconservador permitiu que essas ideias prosperassem. Nos primeiros dias de governo, Trump assinou uma ordem executiva de criação de uma força-tarefa na procuradoria-geral para investigar “ataques” na sociedade norte-americana dirigidos a cristãos. Também determinou a “erradicação” de qualquer “tendência anticristã” nas agências federais. O republicano criou ainda um Escritório de Fé da Casa Branca, liderado pela reverenda Paula White, apresentada como “conselheira religiosa” do presidente e “tele-evangelista”. Polêmica, White chegou a sugerir que “confederações demoníacas” roubaram e eleição de 2020 na qual Trump foi derrotado. No seu currículo, acumula a acusação de ter vendido orações aos fiéis.
O tom messiânico do governo logo se transformou em política. Uma das decisões foi adotar um novo estilo de propaganda. Para ampliar o recrutamento de jovens, Hegseth ordenou o uso de imagens religiosas nas campanhas. Num vídeo publicado nas redes sociais, o Pentágono anunciava: “Somos uma nação sob Deus”. Nas imagens, com paraquedistas a saltar de um avião e soldados com fuzis de assalto em punho, o Salmo 18:37 era exibido na tela. “Persegui os meus inimigos e os alcancei; não virei as costas até que eles fossem destruídos”, diz o versículo.
A situação ficou ainda mais problemática quando, em janeiro de 2026, os funcionários do Pentágono receberam um e-mail no qual eram convocados a participar de uma oração, marcada para dias depois. O texto dizia tratar-se de uma atividade voluntária, mas os comandantes teriam registrado a participação (ou não) de cada um de seus soldados. Hegseth realizava os cultos uma vez por mês. Mas, desde janeiro, o convite estendeu-se a todos os servidores e para os integrantes de empresas que fornecem equipamentos ao Pentágono, entre elas a Boeing. Detalhe: 30% dos militares norte-americanos são agnósticos ou professam outra fé.
Em fevereiro deste ano, o secretário convidou para uma visita à sede do Pentágono seu próprio mentor, o pastor Wilson. Em um discurso de 15 minutos, o evangélico descreveu o evento no quartel-general militar dos Estados Unidos como o potencial início de uma transformação nacional. A partir daquele momento, o país seria levado para as asas da proteção de Deus. Wilson voltou a repetir aos soldados a tese da guerra religiosa. “Se você carrega o nome de Jesus Cristo, não há armadura maior do que essa”, pregou. “As equipes de pesquisa e desenvolvimento do diabo não conseguirão criar nada capaz de penetrar essa armadura.” Mais:
“O que estamos pedindo em oração, pelo que estamos trabalhando, o que estamos buscando, o que ansiamos é por um avivamento raro e imprevisível, uma reforma rara e imprevisível. Muitas coisas mais estranhas já aconteceram. Deus é grande”.
“Juntos, com a ajuda de Deus, salvaremos a América”, escreveu o secretário Hegseth
Em compasso com a chegada dos ultraconservadores ao poder, o governo promoveu um expurgo. Dias antes do Natal de 2025, Hegseth demitiu ou afastou os religiosos que serviam de conselheiros e atendiam os militares na instituição. O argumento era de que os conselheiros adotavam “posturas seculares” no diálogo com os soldados. Nos batalhões, o governo impôs novos critérios que podem simplesmente excluir centenas de mulheres do serviço militar.
Segundo os críticos, o governo Trump avança para impor o nacionalismo cristão fundamentalista como base de valores em uma instituição que, de mãos dadas com a política externa, derruba governos e instaura seus próprios aliados pelo mundo. Ter essa posição permeada por um grupo que se alinha a supremacistas brancos tem deixado diplomatas e observadores alarmados.
Em 5 de fevereiro, Hegseth evocou, em um discurso, Urbano II, o papa que lançou as Cruzadas em 1095 com a promessa de que aqueles que lutassem receberiam a remissão de todos os pecados.
“A disposição para fazer sacrifícios em nome de seu país nasce de uma coisa, uma crença profunda e inabalável no amor de Deus por nós e em sua promessa de vida eterna”, defendeu Hegseth. “O guerreiro que estiver disposto a dar a vida por sua unidade, seu país e seu Criador, esse guerreiro encontrará a vida eterna.”
Durante a guerra no Irã, à medida que os objetivos militares se tornaram pouco claros e o governo passou a enfrentar dificuldades para explicar os motivos que o levaram a atacar o país do Oriente Médio, Hegseth e Trump passaram a justificar a operação com “argumentos bíblicos”, alguns deles constrangedores, como a citação pelo secretário de Guerra de um trecho bíblico falso declamado pelo matador de aluguel interpretado por Samuel L. Jackson no filme Pulp Fiction. O secretário, vê-se, é um devoto que não conhece as Escrituras.
Não se trata apenas de uma cortina de fumaça para esconder um fracasso. Trump, Hegseth e outros radicais se imaginam, de fato, em uma cruzada. São os novos templários.
Jamil Chade
Pesquisas e a experiencia da vida como ela é
Enquanto isso o eleitor médio comum toca a vida. Enfrenta a carestia no supermercado, encara a fila na unidade de saúde, pega o carro, o ônibus ou metrô para chegar ao trabalho, leva os filhos na escola, pensa em como melhorar a vida.
É mentira que as pessoas não se preocupem com política. Podem estar desanimadas ou sem esperança, mas sabem, de forma clara ou intuitiva, que as escolhas políticas repercutem em sua vida individual e familiar. No entanto, a maioria absoluta não tem militância ativa, não participa de partidos, não integra bolhas ideológicas. Não tem a ansiedade característica do metiê político. Guardam-se para a hora certa.
O governador mineiro Hélio Garcia respondia aos ansiosos que “eleição só depois da parada”. Se referia ao desfile de Sete de Setembro. Não precisamos chegar a tanto. Nesta época, a eleição em turno único era em novembro e não existia o frenesi das redes sociais e da internet. A última pesquisa Genial/Quaest mostrou que 62% dos eleitores, coisa de 96 milhões de brasileiros, não têm ainda candidato à presidente. O que importa agora são questões qualitativas sobre o que está movendo a vida e a opinião das pessoas. O grau de conhecimento não é homogêneo, o debate ainda não começou e o voto induzido é cheio de artificialidade. Melhor seguir o mestre Didi: “treino é treino, jogo é jogo”. A história das eleições é pródiga em provar uma coisa óbvia: campanha é feita para mudar realidades pré-estabelecidas supostamente imutáveis. Nos meus 44 anos de militância assisti muitas viradas espetaculares e vitórias improváveis.
Collor era um ilustre governador alagoano desconhecido, pegou a onda certa da opinião pública, atropelou toda a elite política brasileira, de A a Z, e venceu. Eduardo Azeredo, em 1994, fez uma virada sensacional em cima de Hélio Costa, dado como virtual governador pelos analistas. Em 2008, participei de duas vitórias improváveis. Márcio Lacerda era empresário desconhecido, começou com 3%. Com uma semana de TV, foi a 41% e se tornou prefeito de BH, porque estava sintonizado com o sentimento das pessoas e tinha os apoios certos. Já Custódio Mattos chegou em segundo lugar no primeiro turno com 27% dos votos, em Juiz de Fora, contra os 41% de votos da candidata do PT, Margarida Salomão. Tornou-se prefeito da cidade ganhando de 45% a 42% dos votos totais. Romeu Zema entrou no debate da GLOBO, na terça-feira à noite, desconhecido e com apenas 5% das intenções de voto, havia 35% de indecisos e o ambiente disruptivo antissistema, típico de 2018. Em apenas 5 dias alcançou 41%. Depois, venceu o segundo turno, ainda sem ser conhecido.
Casos como esses existem às centenas. Tudo pode acontecer, inclusive nada. As polarizações iniciais podem se confirmar. Mas antes de cravar um prognóstico, melhor pensar: “devagar com o andor, que o santo é de barro” e “paciência e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.
'Tecnofascismo':ccausa polêmica com manifesto
No último fim de semana, a Palantir publicou um resumo do livro de Karp, intitulado "22 teses", em sua conta corporativa oficial no Twitter. A publicação assemelha-se a um manifesto político da empresa e gerou considerável debate entre entusiastas de tecnologia e política.
Com essas teses, a Palantir se posiciona como um ator-chave na interseção entre tecnologia e política de segurança. De modo geral, as teses podem ser divididas em diversas áreas: Geopolítica e política de segurança: “A era nuclear está chegando ao fim”, afirma ele, por exemplo; a dissuasão não será mais alcançada por meio de armas nucleares, mas por meio de sistemas de inteligência artificial ( IA ). E ele é ainda mais explícito: “A questão não é se armas de IA serão construídas, mas quem as construirá e com que propósito”. Os adversários não se perderão em debates teatrais, mas seguirão em frente. Em outro trecho, Palantir postula a necessidade de instrumentos de poder “duros” apoiados por software: “Os limites do soft power e da retórica grandiloquente foram revelados”. Além disso, o poder americano possibilitou um período de paz extraordinariamente longo. Em alguns momentos, o manifesto se torna politicamente muito específico: “A castração da Alemanha e do Japão no pós-guerra deve ser revertida”. A Europa, que permanece fracamente armada até hoje, está pagando um preço alto pelo desarmamento alemão após a Segunda Guerra Mundial . E se a “devoção altamente teatral ao pacifismo japonês ” continuar, uma mudança de poder na Ásia é iminente.
A relação entre sociedade e política: a Palantir argumenta que, no discurso atual, é "proibido" discutir as diversas histórias de sucesso de várias "culturas". Além disso, os Estados Unidos devem resistir à tentação do "pluralismo vazio e superficial". Ambos os pontos se alinham com a ideologia MAGA associada ao presidente americano Donald Trump e seu círculo. No entanto, a Palantir evita bajular descaradamente Trump, como fazem alguns setores do Vale do Silício . "A psicologização da política moderna nos desvia do caminho", afirma a empresa. Buscar satisfação nos políticos só leva à decepção. Da mesma forma, a empresa defende a reflexão sobre o triunfo sobre os inimigos, em vez da celebração imediata.
O papel da indústria tecnológica: A relação entre as empresas de tecnologia e o governo dos EUA é um tema recorrente: "O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que fomentou seu crescimento" é um dos argumentos centrais. A Palantir defende que se vá além dos aplicativos e que a economia tecnológica continue a gerar crescimento e segurança. "O Vale do Silício deve desempenhar um papel na luta contra o crime violento", afirma a empresa, que vende seus produtos para agências de segurança pública em todo o mundo.
O que pensam os críticos sobre o manifesto político da Palantir?
O economista grego e ex-ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, compartilhou a publicação original com o comentário: "Se o mal pudesse usar o Twitter, este seria o conteúdo!"
O pesquisador holandês Cas Mudde, especialista em populismo, interpretou o manifesto da Palantir como um apelo por um mundo dominado por Estados Unidos autoritários e controlado por empresas de vigilância tecnológica: "Puro tecnofascismo!", declarou. Em sua opinião, o manifesto desqualifica a Palantir "como parceira comercial de qualquer outro país", escreveu Mudde no LinkedIn. A Europa não deveria apenas interromper toda nova cooperação, mas também encerrar todos os investimentos "nesta empresa tecnofascista".
O blogueiro britânico e fundador da plataforma de pesquisa Bellingcat, Eliot Higgins, comentou ironicamente sobre as questões sociopolíticas do debate cultural e do pluralismo, afirmando ser "perfeitamente normal e aceitável" que empresas publiquem declarações desse tipo.
O nome Palantir vem do épico romance de fantasia de J.R.R. Tolkien, "O Senhor dos Anéis". Nele aparecem as chamadas "pedras videntes", poderosas ferramentas de comunicação em posse de vilões que desejam subjugar os povos livres da Terra-média.
O co-fundador e principal investidor é Peter Thiel, cujo apoio também é considerado crucial para a ascensão política de Donald Trump. Thiel nasceu em Frankfurt, na Alemanha, cidade onde Alex Karp também viveu por alguns anos.
A Palantir anuncia em seu site um software que supostamente facilita a tomada de decisões em tempo real em governos e empresas, "das fábricas à linha de frente".
Muitas agências governamentais dos EUA utilizam o Palantir. O programa Vantage, por exemplo, foi desenvolvido especificamente como um sistema operacional para as forças armadas americanas. Na guerra contra o Irã, o software de aquisição de alvos baseado em inteligência artificial, Maven, forneceu dados para inúmeros ataques aéreos.
A plataforma de análise de dados Foundry é utilizada por autoridades nos EUA, bem como na Europa, para diversos fins. Os Países Baixos e a Grécia utilizaram o serviço para rastrear a propagação do coronavírus .
Talvez a aplicação mais conhecida da Palantir seja o Gotham, usado por agências de segurança pública para coletar rapidamente informações sobre indivíduos a partir de fontes públicas e privadas. Agências americanas como a CIA e o ICE são clientes importantes, assim como organizações de segurança europeias.
Diversas forças policiais nos estados federais alemães também utilizam versões modificadas do Palantir, incluindo as de Hesse e Baviera. Na Renânia do Norte-Vestfália, um contrato plurianual expira em outubro; esse estado lançou uma nova licitação para software de investigação, na qual a Palantir e seus concorrentes podem participar.
Na Alemanha, o governo federal planeja introduzir uma legislação que permitiria que softwares analisassem grandes quantidades de gravações disponíveis publicamente, como vozes e rostos em postagens de redes sociais, e criassem perfis biométricos a partir delas. Isso facilitaria investigações por parte de agências de aplicação da lei que utilizam o Palantir ou aplicativos concorrentes. No entanto, críticos argumentam que isso representaria um passo em direção a um estado de vigilância.
Era só em 25 de abril de 1974?
Havia fome, havia miséria, havia crianças descalças a andarem quilómetros para chegar à escola, havia humilhações constantes para os mais pobres, destituídos de qualquer direito, merecedores apenas das migalhas inconstantes da caridade, pelas quais deviam mostrar-se agradecidos. E havia os que iam fazendo pela vida. Os que mantinham um certo estatuto social, fazendo da conivência com os poderes uma alavanca social, aproveitando a pobreza dos outros para ter criados que de outra forma não teriam como pagar. Havia ainda, menos numerosos e visíveis, os incrivelmente ricos. Umas quantas famílias a quem o velho ditador que morreu pobre garantiu a riqueza, através de monopólios e rendas, oleando com essas trocas de favor uma máquina do Estado profundamente corrupta, que se fazia de pequenos e grandes favores, cunhas, pedidos, atenções.
Margarida Davim
A Tirania do Polegar: quando o silêncio se disfarça de resposta
O polegar não responde: despacha. Não dialoga: encerra. É a versão digital de um silêncio que se quer educado, mas que, na verdade, comunica desinteresse. Quem o recebe sente‑o como uma tradução sumária do que acabou de acontecer: horas de pensamento, cuidado, nuance ou vulnerabilidade devolvidas com um símbolo que cabe num pixel. É pouco. E sabe‑se que é pouco.
Talvez por isso este gesto carregue um peso simbólico maior do que parece. Ao longo da história, o polegar nunca foi um mero ornamento do corpo. Na Roma antiga, um simples movimento desse dedo decidia destinos: absolvia ou condenava na arena, conferia vida ou sentenciava a morte. Hoje, longe dos coliseus, o gesto regressa desinfetado e digital, mas não inocente. Já não julga corpos, mas avalia discursos; já não decreta o fim físico, mas distribui reconhecimento ou negação simbólica. Continua, ainda assim, a exercer poder — rápido, unilateral, sem explicação. Mata!
Vivemos uma época que se orgulha da comunicação instantânea, mas que parece cada vez menos interessada na reciprocidade. O polegar transforma a relação em transação e o interlocutor num ficheiro arquivado. Não é cansaço inocente nem simples economia de tempo. É desistência. É abdicação da presença. Onde não há palavra, o outro deixa de existir como sujeito e passa a ser apenas um elemento funcional da conversa.
Há algo de particularmente inquietante quando este gesto parte de quem sabe escrever. De quem lê, articula ideias, domina a sintaxe e conhece o valor da palavra. Nesse caso, o polegar não é ignorância: é opção. Revela que a cultura sem caráter é apenas verniz. Mostra que a erudição, quando prescinde da cortesia, se transforma em vaidade. Saber escrever e escolher não o fazer é uma forma polida — e socialmente aceite — de desprezo.
Não há aqui neutralidade: há uma escolha clara entre relação e utilidade. Entre reconhecer o outro como presença ou reduzi‑lo a um gesto automático que encerra a conversa antes mesmo de ela existir. As palavras exigem risco, atenção, responsabilidade. O ícone oferece conforto: diz tudo sem dizer nada, aprova sem compromisso, fecha sem se expor.
As palavras são a mais antiga tecnologia de empatia que conhecemos. Com elas hesitamos, corrigimos, afinamos o pensamento e reconhecemos o outro como alguém. Substituí‑las sistematicamente por símbolos é empobrecer a relação humana até ao osso. Não se trata de poupar tempo; trata‑se de abdicar de humanidade. Quando a palavra deixa de circular, deixa também de haver encontro.
Talvez esteja na hora de recusar esta pobreza comunicacional. De exigir, sem alarido e sem arrogância, aquilo que sempre sustentou a convivência humana: uma resposta. Uma palavra. Um sinal de presença real. Porque responder é reconhecer — e fingir que se respondeu é já uma forma de negar. Não se trata de exigir longos discursos nem de impor consensos; trata‑se apenas de não reduzir o outro a um reflexo apressado, a um gesto mecânico que encerra a relação antes mesmo de a assumir.
O polegar continuará a erguer‑se nos ecrãs, sinal mínimo de uma relação cada vez mais reduzida. Mas nós, seres de língua, pensamento e relação, talvez devêssemos fazer o movimento inverso: descer do pedestal confortável da indiferença e regressar ao chão exigente das palavras. Mesmo quando discordam. Mesmo quando custam. Porque escrever — e responder — continua a ser um ato de coragem, de consideração e de humanidade. E porque, no fim, aquilo que nos separa do vazio não é a tecnologia que usamos, mas a escolha de ainda nos darmos ao trabalho de dizer algo a alguém.
A política errática de Trump
A Forbes indica que o patrimônio de Trump quase que dobrou em seu primeiro ano de governo, indo, segundo a revista, de US$ 4,3 bilhões para US 7,3 bilhões. O aumento do patrimônio se deveria ao lançamento de sua nova empresa World Liberty Financial (WLFI), venture capital em criptomoedas, e de merchandise e licenciamentos.
A lógica do assim hoje chamado de “populismo”, com Viktor Órban, Trump, Milei e Bolsonaro, dentre outros, é uma versão moderna do que se pode caracterizar como “fascismo” na década de 1930 e 1940, com Hitler e Mussolini, modelos caracterizados por lideranças radicais de direita que se apropriam do poder, supostamente em prol das classes médias economicamente declinantes em seu poder de compra, com as classes dominantes, em verdade, se regendo pela apropriação do produto social. As classes dominantes ficam com o produto econômico, e as classes supostamente representadas ficam com a ideologia e o discurso. Esse tipo de poder, também, pode não durar a longo prazo. O principal motivo da derrota de Viktor Órban para Péter Magyar na Hungria, após 16 anos de sua “democracia iliberal”, foi o fraco desempenho na economia, sem a geração de benefícios para a população, e a corrupção.
Como diz o dito popular, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.
Ricardo Guedes
O trabalho que mata
Às vésperas do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, terça-feira que vem, a OIT põe o dedo numa ferida de impacto não apenas humanitário, mas também econômico-financeiro. As perdas estimadas com os riscos psicossociais equivalem a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) global, a cada ano. Tudo resultado de como as atividades laborais são concebidas, organizadas e geridas num mundo assentado em flexibilização e informalidade.
Para chegar ao número de mortes, os pesquisadores cruzaram duas fontes de evidência. Primeiro, reuniram dados sobre a ocorrência global dos cinco principais fatores de risco psicossocial no trabalho: pressão excessiva; desequilíbrio entre esforço e recompensa; insegurança na contratação; longas jornadas; bullying e assédio. Na sequência, identificaram como esses fatores aumentam a probabilidade de condições graves de saúde, entre as quais doenças cardiovasculares e transtornos mentais. Por fim, relacionaram aos indicadores de mortalidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao estudo Global Burden of Disease (Carga Global de Doenças, em tradução livre), que quantifica perda de saúde por enfermidades, lesões e fatores de risco.
Além de quase 1 milhão de mortes, a OIT estimou 45 milhões de anos de vida saudável perdidos por trabalhadores de todo o planeta. Longas jornadas estão associadas a males do coração e acidente vascular cerebral. Estima-se que um terço (35%) das pessoas ocupadas trabalhem mais de 48 horas por semana. Ao longo da carreira, um em cada quatro trabalhadores (23%) sofreu ao menos um episódio de assédio; 18% foram vítimas de violência psicológica.
Em publicação da entidade, Manal Azzi, da área de Políticas e Sistemas de Segurança e Saúde no Trabalho, afirmou que “os riscos psicossociais estão se tornando um dos desafios mais significativos no mundo moderno do trabalho”. Assim, o enfrentamento ao problema é essencial tanto para proteger a saúde física e mental dos trabalhadores quanto para fortalecer a produtividade, o desempenho das empresas e o desenvolvimento sustentável dos países.
O relatório merece atenção particular num Brasil com quase 40 milhões de trabalhadores na informalidade — a despeito do desemprego na mínima histórica — e em pleno debate sobre redução de jornada para implantação do regime de dois dias de folga por cinco de trabalho. Há um par de PECs protocoladas no Congresso Nacional para alterar a legislação que, desde 1988, fixou em 44 horas a carga semanal. Dias atrás, o governo apresentou Projeto de Lei de teor assemelhado pedindo urgência na tramitação. O fim da escala 6x1 tornou-se plataforma de campanha do presidente Lula pelo quarto mandato. O empresariado, de modo geral, resiste à mudança, sob o argumento de aumento de custos e perda de produtividade na economia.
— A economia brasileira foi erigida por pessoas escravizadas que nunca descansavam, morriam cedo e eram substituídas por outras, traficadas a baixo custo. Até hoje, parte do país acredita que precisamos explorar mais nossos trabalhadores para conseguir competir, mas foi com dois dias de descanso que os Estados Unidos aumentaram a produtividade nos anos 1940. Aqui, a maioria já descansa dois dias, mas isso não foi garantido para todos. Precisa ser. A economia não quebrará, como não quebra com aumentos do salário mínimo de custo similar, nem quebrou em 1988, quando a jornada máxima foi reduzida de 48 para 44 horas semanais. O mesmo foi dito quando se quis acabar com a escravidão ou estabelecer outros direitos trabalhistas, que ajudaram a modernizar e fortalecer a economia, melhorando a saúde da população — argumenta Marcos Hecksher, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Um ano atrás, o Ministério do Trabalho anunciou a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, após diálogos com representantes de trabalhadores e empregadores. O primeiro ano foi de adaptação. A previsão é que, a partir do fim do mês que vem, as normas passem a ser inspecionadas, com possibilidade de autuação. A OIT mencionou no relatório a decisão brasileira.
O estudo da organização também aponta que jornadas com dois dias seguidos de descanso favorecem o desligamento cognitivo. Isso significa que o trabalhador pode usar um dia para descansar e outro para lazer e/ou atividades pessoais. As pausas podem reduzir diagnóstico de burnout, já classificado como doença laboral, e de outros males. Sem falar que, no capitalismo, mais tempo para viver também implica horas adicionais de consumo de mercadorias e serviços. Urge fazer das facilidades do mundo moderno e digitalizado não apenas meio de lucratividade exagerada, mas ferramenta de bem-estar. Em vez de pulsão de morte, impulso à (boa) vida.