segunda-feira, 25 de maio de 2026
Morro abaixo
Flávio Bolsonaro personifica essa degradação.
Um mentiroso contumaz, enrolado com a milícia e “rachadinhas”, que disse nunca ter feito contato e muito menos recebido milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro – e mesmo assim colhe poucos danos à sua imagem, com delitos considerados administráveis por seus pares.
Na sexta-feira, gente de sua turma comemorou a pesquisa Datafolha, com números menos desastrosos do que imaginavam. No primeiro turno, a diferença em favor de Lula aumentou de 3 para 9 pontos percentuais. No segundo a oscilação foi ainda menor. De um empate em 45% na penúltima rodada, no levantamento atual o senador caiu apenas dois pontos percentuais. Ainda que à frente – 47% a 43% -, Lula pontua no limite da margem de erro.
Pela pesquisa, o conhecimento do imbróglio Flávio-Vorcaro é de 64%, número idêntico ao dos que acham que o senador errou ao se meter com o ex-banqueiro, mas ainda baixo perto da dimensão do escândalo. Para o time de Flávio isso é o suficiente para reorganizar a campanha. O eleitor, mesmo fora da bolha bolsonarista, pode até não gostar, mas teria engolido a balela de que os contatos se deram para o financiamento do filme do papai. E que mesmo machucado, o senador ainda se sai melhor do que qualquer outro candidato da oposição, incluindo a madrasta Michelle, preferida do dono do PL Valdemar Costa Neto, mas em atrito permanente com o clã.
Os resultados tidos como positivos da pesquisa teriam enterrado a hipótese de substituição de Flávio. Nessa altura, seus apoiadores imaginam que nem o PT de Lula, que o tem como opositor ideal, insistirá nas explicações do inexplicável.
Podem surgir novas histórias e dificuldades para o candidato, embora, estranhamente, a Polícia Federal tenha iniciado diligências sobre transferências de dinheiro para o irmão Eduardo, autoexilado nos Estados Unidos, sem sequer ter ameaçado investigar Flávio.
Há questões tão óbvias que até parecem não terem sido feitas para proteger a candidatura dele. Por exemplo: no áudio, Flávio pede a Vorcaro para honrar as parcelas de financiamento do filme Dark Horse. O ex-banqueiro já havia colocado R$ 61 milhões (U$ 12 milhões) dos R$ 134 milhões prometidos para a brincadeira. Dias depois do vazamento do diálogo, Karina Ferreira Gama, produtora do filme, disse que a cinebiografia estava quase pronta – teria custado U$ 13 milhões, 90% bancados por Vorcaro. Ora, e para o que mesmo Flávio queria os R$ 63 milhões restantes? Ninguém perguntou?
Mesmo sem as respostas mínimas, Flávio tem a seu favor a armadura paterna que o blinda e a cegueira de milhões de fieis mantidos sob a lei da desinformação multiplicada nas redes sociais. Ele não é o único.
Nesse Brasil ao avesso, a transgressão tem vencido. Reduzem-se penas para golpistas condenados, concedem-se privilégios para criminosos que têm como custear as mais caras bancas de advocacia. Fazem-se vistas grossas para delitos supremos, permitem-se salários estratosféricos para uma casta. Perdoam-se devedores contumazes, pune-se quem paga as contas em dia.
O cidadão comum é o trouxa que paga impostos enquanto os grandes e espertos sonegam. Só o enrolado Grupo Refit deve R$ 26 bilhões ao fisco, a Ambev, das cervejas, mais de R$ 6 bilhões, a Vivo, quase R$ 4 bilhões. É o cidadão comum quem financia os R$ 1,5 bilhão do fundo partidário e os quase R$ 5 bilhões do fundão eleitoral que custeiam políticos, a maioria deles só de olho em seus próprios umbigos.
Refém da violência cotidiana, sem serviços públicos dignos e carente do mínimo, esse cidadão, impotente diante da intensidade dos abusos, torna-se um descrente total – alvo perfeito para ser cooptado por falsos herois e mentirosos.
Talvez essa seja a aposta do Zero Um.
Jogos nada olímpicos em Las Vegas
| Peter Thiel |
Para os financiadores do projeto, trata-se de acelerar a expansão da economia, com suas startups voltadas à extensão da vida, embrulhar o pacote num espetáculo esportivo macho alfa e levar os espectadores a consumir os milagrosos produtos que haverão de ser anunciados.
Ao longo dos últimos três meses, 37 dos 50 atletas admitidos para a competição se submeteram a um intensivão de treinos e doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico contratado pela organização. Confinados num resort cinco estrelas em Abu Dhabi, voluntariam seus corpos para o experimento com testosterona, esteroides anabolizantes, drogas de crescimento como HGH e EPO, moduladores metabólicos, hormônios, estimulantes como Adderall — tudo o que é proibidíssimo em olimpíadas, mundiais ou pela sempre fraudada ética da competição limpa.
O que leva um atleta de alto rendimento a participar desse evento quando sabe que estará automaticamente barrado de qualquer olimpíada ou competição esportiva convencional? O dinheiro. Além do dinheiro, a chance de compensar os muitos anos de treino inglório. E a permanente suspeita de doping não detectado, ou detectado tardiamente, em determinadas delegações.
Tome-se o exemplo do nadador greco-búlgaro Kristian Gkolomeev. Em três olimpíadas recentes (Londres, Rio, Japão), ele quase chegou ao pódio nos 50m nado livre. Treinou mais quatro anos para Paris 2024, mas novamente perdeu a medalha de bronze por 0,03 segundo. Estava com 30 anos, um filho pequeno e diante de uma vitória cada vez mais fugidia. Fez as contas e percebeu que, somados seus rendimentos com o esporte ao longo de 14 anos, ganhou menos do que se tivesse trabalhado num McDonald’s.
Pois bem, em fevereiro de 2025, Gkolomeev havia se juntado à turma do Enhanced Games e nadou turbinado por um coquetel medicamentoso, enfiado num maiô inteiro de poliuretano, que reduz o atrito na água e está proibido desde 2010 pela Federação Internacional de Natação (Fina). Longe dos holofotes e da homologação oficial, bateu o recorde mundial que já durava 16 anos por 0,02 segundo. Foi recompensado com um cheque de US$ 1 milhão. De lá para cá, o mesmo recorde foi novamente batido, sem doping, pelo australiano Cameron McEvoy em evento na China não homologado pela Fina. Não recebeu um tostão.
A expectativa maior em Las Vegas estará na prova outrora considerada a mais pura, bela, clara, primal, universalmente compreensível e intuitiva a qualquer bípede: a corrida de 100m rasos. O jamaicano Usain Bolt fez dela uma arte, transformou-a em cultura, imortalizou-a na marca de 9s58, com seu corpo estalando de sadio. Para o australiano Aron D’Souza, um dos fundadores do Enhanced Games, o queixo do mundo haverá de cair quando ficar provado que o Übermensch em produção nos laboratórios das startups é melhor que o ser humano natural.
Quem mais está na origem do experimento? O cavernoso Peter Thiel, é claro, com sua obsessão transumanista que tantas vezes já se revelou anti-humanista. E Donald Trump Jr., sempre à espreita de um novo negócio, além do rei da biotecnologia alemã Christian Angermayer, e do príncipe saudita Khaled bin Alwaleed Al Saud. Cripto brothers também não haverão de faltar, assim como a Big Pharma, de olho em novas fronteiras de pesquisa. Bryan Johnson, outro multimilionário associado aos Enhanced Games, sustenta que, aos 48 anos, consegue manter a mesma idade biológica de seus anos de juventude. Será o comentarista da transmissão, sob medida para vender o sonho da juventude eterna e da virilidade indomável. Só faltou Elon Musk, cujos 14 filhos foram gerados para garantir a reprodução de seus genes. Em suma, o retrato da elite que comanda o mundo de hoje.
O show de encerramento do experimento estará a cargo da banda The Killers. Tudo a ver.
Resistir à impossível vida moderna
É uma sociedade traumatizada pela pandemia da Covid, mas não só. O que se seguiu foi um agravamento silencioso, com um contexto político cada vez mais polarizado e agreste. Há uma dessensibilização progressiva que nos foi tornando indiferentes ao que antes nos horrorizava. Mas é nas pequenas lutas diárias que notamos um desgaste maior, seja na incapacidade de desligar do trabalho, no medo constante de instabilidade financeira ou na exaustão e na saturação que sentimos pelos fluxos infinitos de informação à nossa volta. Todos os dias parece surgir mais um motivo para olharmos para o futuro com apreensão.
Chegados a este ponto, não é de estranhar a sensação de perda e desorientação. De lutarmos contra forças maiores que não controlamos. De sentirmos que há dias em que vivemos num tempo de desconcerto absoluto. O que me leva à grande questão que me tem perseguido: como nos tornamos funcionais numa sociedade que vive num estado de permanente crise aguda? Funcionar parece fácil, se as peças estiverem todas montadas para esse efeito. Mas o que acontece quando as peças começam a soltar-se? Quando a nossa mente começa a ficar menos oleada? Quando as engrenagens do nosso corpo começam a rodar mais lentamente face à ansiedade e ao alarme? Quando não conseguimos controlar as emoções, as frustrações, a tristeza avassaladora? A psicologia e a psiquiatria têm procurado dar respostas, mas por vezes parece ser apenas o suficiente para resistirmos a esta impossível vida moderna em que nos vemos aprisionados.
Ser funcional hoje em dia é um grande ato de coragem e determinação. Não é um exagero dizê-lo, porque a nossa capacidade de adaptação é formidável, mas também nos leva a adaptarmo-nos a coisas que deveriam ser recusadas. Recordo-me sempre de Bartleby, o escrivão, a personagem criada por Herman Melville em 1853. Já então Melville descrevia a figura de um funcionário em Wall Street como o símbolo de uma vida em piloto automático, que, pouco depois de ser contratado, começa a recusar pedidos com a frase “I prefer not to”. Lentamente, Bartleby entra num processo de resistência passiva perante o materialismo e a prepotência burguesa da sua chefia. Chefia esta que falha em compreender as motivações, o isolamento e a recusa extrema de viver de Bartleby.
Para uma história escrita no séc. XIX, é extraordinariamente presciente. Mas não temos de recusar o mundo como Bartleby e ceder ao niilismo. Ele escolheu a recusa total. Nós, por razões que nem sempre conseguimos articular, escolhemos ficar. Não porque sejamos mais corajosos ou mais capazes, mas porque há uma escolha de continuar a estar presentes, mesmo sem garantias.
Todos os dias há pequenos gestos de teimosia silenciosa, de quem se recusa a baixar os braços. O gesto de telefonar a um amigo. De fazer o jantar. De ir trabalhar de manhã mesmo quando tudo parece demasiado pesado.
Ser funcional, nesse sentido, não é um triunfo. É um gesto quotidiano, repetido, muitas vezes sem glória. Mas há qualquer coisa de notável e profundamente humano em prosseguirmos, mesmo sem descortinarmos o horizonte. Continuar a amar, a criar, a protestar, a fazer planos que podem não se concretizar. Não por ingenuidade, mas porque é dessa insistência teimosa, e não das grandes certezas, que a vida se faz. Melville sabia onde estava o problema. A resposta, essa, temos de a encontrar nós.
Grandes batalhas do século
José Saramago, "As palavras de Saramago"
Uma demanda de limpeza ética
Malandro, porém, se atrapalha mesmo. Tantas fez e cargos inventou o ex-governador para multiplicar favores a prefeitos, legisladores e dono de refinaria que o pote de espertezas transbordou como vaso sanitário. Garantido pelo STF, o interino Ricardo Couto comanda uma reorganização que já limpou um terço das secretarias e cerca de 1.700 cargos comissionados. A maioria não precisava sequer comparecer ao trabalho. Inexistente, por sinal, como dita a lei da malandragem.
Em princípio, seria chover no molhado qualquer análise das engrenagens de um desgoverno, considerando-se que a corrosão da função pública transparece sem filtros no apodrecimento ético dos dirigentes. Podre, aliás, não é metáfora gratuita: assim o mercado financeiro chama papel sem nenhum valor. Cláudio Castro investiu neles R$ 1 bilhão do fundo de pensão do estado para ajudar o Banco Master.
Abismo chama abismo. Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão, com desenredo especial pelo oxímoro Castro: inelegível, mas aspirante ao Senado. Ele tornou mais visível o epílogo de um longo e ruinoso percurso político, não só no nível das finanças públicas, mas também das consequências sociais das gestões corruptas. A varredura atual é alvissareira, embora provisória e assediada por clãs, ávidos por uma marcha-a-ré.
Com os velhos caciques, o Rio era uma feitoria político-social. Hoje, uma malfeitoria estrutural. No balanço das governanças impolíticas, transparece um estado afetado por déficit fiscal insanável e pela voracidade de grupos em torno da apropriação dos recursos públicos. Não mais caciquismo político, e sim uma malandragem tóxica constituída por clãs, híbridos de famílias com delinquentes. Cargos oficiais são criados e canibalizados por interesses temporários. Uma subsecretaria de bem-comer e por que não uma superintendência de demandas gourmets? Malandro sugeriu, fez-se.
Há disso tudo noutras regiões, mas o Rio virou laboratório de graves patologias sociais. Primeiro, a síndrome dos territórios, demarcados por milhares de barricadas e defendidos com armas de guerra e mercenários de know-how ucraniano. Bicheiros, milicianos, traficantes e policiais dão-se as mãos ou se engalfinham ante o pano de fundo cenográfico da mídia que envelopa a cidade. Depois, o tecido social criminogênico que, desde "zonas de influência" ilegalistas, favorece o recrutamento para a bandidagem e a malignidade dos clãs políticos, cujos rebentos almejam no Estado-nação o status de malandros federais.
É desanimador. Mas, como no mito, Hércules limpou com rios as estribarias do rei, a sujeira moral e cívica acumulada no Rio poderia ser lavada em urnas reais. Quando a sociedade civil acordasse.
Mudança para inglês ver
Há frases que atravessam o tempo porque encerram uma contradição permanente da condição humana. “É preciso que tudo mude para que tudo continue como está” — a célebre sentença atribuída ao jovem Tancredi Falconere, personagem do romance O Leopardo (de Giuseppe di Lampedusa), tornou-se uma das mais agudas metáforas da política, da sociedade e das instituições. A frase parece paradoxal, mas descreve com precisão muitos dos movimentos do nosso tempo.
Mudanças costumam ser anunciadas com fanfarra. Trocam-se nomes, slogans, bandeiras, equipes, discursos, cores e métodos de comunicação. Reformam-se fachadas. Multiplicam-se promessas de renovação. Mas, por trás do palco iluminado, os mecanismos profundos do poder permanecem intactos. A mudança, nesse caso, não passa de adaptação estética destinada a preservar estruturas. É algo, como se diz: “mudança para inglês ver”. A política oferece exemplos abundantes. A palavra mudança “teve papel central” no discurso de posse de Lula.
Em 1º de janeiro de 2023, na abertura de sua fala ao Congresso Nacional, Lula procurou marcar simbolicamente o retorno ao governo, associando-o à ideia de reconstrução e transformação do país. Começou assim: “A mensagem que quero deixar ao povo brasileiro é a de esperança e reconstrução “A grande mensagem do Brasil é a de mudança”.
Será mesmo que o Brasil mudou? A avaliação negativa de seu terceiro mandato é superior à avaliação positiva com dez pontos de diferença.
E, agora, presidente? Caso seja eleito, a palavra mudança continuará a ser a palavra-chave de um eventual quarto mandato? Ou será que a mudança será meramente cenográfica?
Partidos se reorganizam, alianças mudam de endereço ideológico, lideranças surgem com o discurso do novo, mas acabam reproduzindo velhos costumes: centralização decisória, loteamento de espaços, culto à personalidade e apego ao aparelho estatal. O eleitor, muitas vezes, percebe a troca de embalagem, mas encontra o mesmo produto na prateleira.
Esse fenômeno não é exclusivo da política. Empresas falam em inovação enquanto conservam modelos hierárquicos rígidos. Organizações anunciam revoluções tecnológicas sem alterar práticas de gestão. Universidades incorporam novas plataformas digitais, mas mantêm métodos pedagógicos herdados de séculos passados. Até as relações humanas experimentam o paradoxo: mudam as formas de comunicação, permanecem as angústias, os afetos e os conflitos.
A era digital intensificou esse mecanismo. Nunca houve tanta velocidade na circulação de informações. Nunca se produziram tantas narrativas de ruptura. E, paradoxalmente, poucas vezes o mundo pareceu tão preso a padrões repetitivos. As redes aceleram a aparência de mudança, mas nem sempre transformam substâncias. O espetáculo da novidade pode esconder a permanência das desigualdades, dos privilégios e dos vícios institucionais. Há, porém, outra leitura possível da frase. Nem toda mudança para conservar é negativa.
Algumas transformações são necessárias exatamente para proteger valores essenciais. Uma democracia precisa renovar instituições para preservar a liberdade. Uma sociedade precisa atualizar leis para manter a justiça. Uma empresa precisa inovar para conservar competitividade. Uma família muda hábitos para preservar vínculos.
O desafio está em distinguir mudança verdadeira de mudança cenográfica. As grandes transformações históricas não ocorreram porque se trocaram personagens; ocorreram quando se alteraram relações, regras, mentalidades e expectativas coletivas. A abolição não foi apenas o fim formal da escravidão; foi o início de uma lenta reconstrução social. A redemocratização não consistiu apenas em substituir governantes; exigiu reerguer instituições e restaurar a confiança pública.
Vivemos um tempo em que a palavra mudança se tornou moeda corrente. Todos prometem mudar. Poucos explicam o que desejam conservar. E talvez a pergunta decisiva seja justamente esta: mudar para quê? Porque há mudanças que apenas reciclam o passado e há mudanças que inauguram futuros.
No fim das contas, a frase continua atual porque revela um traço permanente da história: os sistemas resistem, adaptam-se e sobrevivem. Mas a sociedade, quando desperta, descobre que não basta trocar os móveis da sala. Às vezes, é preciso reconstruir a casa.Gaudêncio Torquato