segunda-feira, 25 de maio de 2026

Resistir à impossível vida moderna

Atualmente, conhecem alguém que não esteja a atravessar um momento difícil a nível pessoal ou profissional? À nossa volta parece haver cada vez mais pessoas que estão a lidar com alguma coisa que lhes causa uma aflição interna, um estado de alerta constante, uma espiral de preocupação sem fim. Não interessa a razão, pode ser separação e divórcio, luto, relações difíceis com familiares, trabalho precário e insatisfatório, motivos financeiros, complicações de saúde, desgosto amoroso, emigração. A lista é longa. Claro que há quem encontre equilíbrio e até esperança genuína neste tempo. Mas mesmo essas vidas parecem hoje atravessadas por uma sensação persistente de instabilidade.

É uma sociedade traumatizada pela pandemia da Covid, mas não só. O que se seguiu foi um agravamento silencioso, com um contexto político cada vez mais polarizado e agreste. Há uma dessensibilização progressiva que nos foi tornando indiferentes ao que antes nos horrorizava. Mas é nas pequenas lutas diárias que notamos um desgaste maior, seja na incapacidade de desligar do trabalho, no medo constante de instabilidade financeira ou na exaustão e na saturação que sentimos pelos fluxos infinitos de informação à nossa volta. Todos os dias parece surgir mais um motivo para olharmos para o futuro com apreensão.

Chegados a este ponto, não é de estranhar a sensação de perda e desorientação. De lutarmos contra forças maiores que não controlamos. De sentirmos que há dias em que vivemos num tempo de desconcerto absoluto. O que me leva à grande questão que me tem perseguido: como nos tornamos funcionais numa sociedade que vive num estado de permanente crise aguda? Funcionar parece fácil, se as peças estiverem todas montadas para esse efeito. Mas o que acontece quando as peças começam a soltar-se? Quando a nossa mente começa a ficar menos oleada? Quando as engrenagens do nosso corpo começam a rodar mais lentamente face à ansiedade e ao alarme? Quando não conseguimos controlar as emoções, as frustrações, a tristeza avassaladora? A psicologia e a psiquiatria têm procurado dar respostas, mas por vezes parece ser apenas o suficiente para resistirmos a esta impossível vida moderna em que nos vemos aprisionados.


Ser funcional hoje em dia é um grande ato de coragem e determinação. Não é um exagero dizê-lo, porque a nossa capacidade de adaptação é formidável, mas também nos leva a adaptarmo-nos a coisas que deveriam ser recusadas. Recordo-me sempre de Bartleby, o escrivão, a personagem criada por Herman Melville em 1853. Já então Melville descrevia a figura de um funcionário em Wall Street como o símbolo de uma vida em piloto automático, que, pouco depois de ser contratado, começa a recusar pedidos com a frase “I prefer not to”. Lentamente, Bartleby entra num processo de resistência passiva perante o materialismo e a prepotência burguesa da sua chefia. Chefia esta que falha em compreender as motivações, o isolamento e a recusa extrema de viver de Bartleby.

Para uma história escrita no séc. XIX, é extraordinariamente presciente. Mas não temos de recusar o mundo como Bartleby e ceder ao niilismo. Ele escolheu a recusa total. Nós, por razões que nem sempre conseguimos articular, escolhemos ficar. Não porque sejamos mais corajosos ou mais capazes, mas porque há uma escolha de continuar a estar presentes, mesmo sem garantias.

Todos os dias há pequenos gestos de teimosia silenciosa, de quem se recusa a baixar os braços. O gesto de telefonar a um amigo. De fazer o jantar. De ir trabalhar de manhã mesmo quando tudo parece demasiado pesado.

Ser funcional, nesse sentido, não é um triunfo. É um gesto quotidiano, repetido, muitas vezes sem glória. Mas há qualquer coisa de notável e profundamente humano em prosseguirmos, mesmo sem descortinarmos o horizonte. Continuar a amar, a criar, a protestar, a fazer planos que podem não se concretizar. Não por ingenuidade, mas porque é dessa insistência teimosa, e não das grandes certezas, que a vida se faz. Melville sabia onde estava o problema. A resposta, essa, temos de a encontrar nós.

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