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| Henrique Monteiro (Portugal) |
domingo, 5 de julho de 2026
As favas mal contadas
Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".
A distância temporal não é significativa. Esses enunciados encontram um ponto de convergência em escusas declarações de "princípios" sopradas pela classe dominante aos sucessivos blocos dirigentes. Princípios do vale-tudo na manutenção e usufruto do poder. Violenta, a frase do coronel transfigurou a duração do ato num instante eterno, isto é, a falta de escrúpulos como uma negativa vontade de poder, destinada a soldar passado e futuro.
Essa morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5. Mas persistiu na reabertura liberal-democrática sob forma de uma infecção da classe política, cuja banda podre foi cultivada pelo regime ditatorial. O raquitismo moral, a sabujice, a degenerescência de caráter dessas lideranças produziram um magno aviltamento coletivo, outro nome para corrupção como prática societária.
O inferno chama pelo inferno. Na memória, como se fosse hoje: logo após anunciado o AI-5, um dos donos de uma empresa editorial carioca entrou na redação aos gritos exultantes de "não mais teremos de pagar indenização aos demitidos". Meio século depois, pequenos empresários confessavam o voto em Bolsonaro por essa mesma expectativa. Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior.
Esse "mesmo" perdurável dá margem à hipótese de que o ponto convergente entre o espírito da frase do coronel e a posterioridade cívica seja a corrupção pura e crua, sem fixa ideologia de fundo. Certo, a máquina metafísica do fascismo funcionou na ausência de projeto nacional coerente e do esvaziamento da dignidade cívica, entendido como vácuo do sentimento de comunidade nacional.
"Às favas os escrúpulos" e "às favas o Brasil" são variações frasais com o mesmo sentido. Não ainda como pleno fascismo, que é forma estrutural de pensamento, dependente, estilo Mussolini, de mitos "fundadores de civilidade". O que há mesmo é aviltamento corruptivo como azeite de relações sociais. Esse é o legado moral e cívico da ditadura. Embora se diga cívico-militar, a banda golpista jamais quis escutar outra coisa de civis senão palavras de bajulação.
Virótica, a corrupção infecciona a esquerda política. Vorcaro é personagem conceitual: assim como a medicina dispõe de marcadores biológicos de saúde, ele se tornou marcador do grau corruptivo do sistema. O escândalo do Master mostra que o crime organizado no país não se limita a facções classificáveis como "terroristas", mas que também se organiza em conluio com altos aparatos dos Poderes. Embora posto às vezes em modo de sobrevivência, como agora, é um ecossistema de teias onde rastejam seres aranhosos, permeáveis à sedução cínica do dinheiro. Brasil, escrúpulos? Às favas.
A distância temporal não é significativa. Esses enunciados encontram um ponto de convergência em escusas declarações de "princípios" sopradas pela classe dominante aos sucessivos blocos dirigentes. Princípios do vale-tudo na manutenção e usufruto do poder. Violenta, a frase do coronel transfigurou a duração do ato num instante eterno, isto é, a falta de escrúpulos como uma negativa vontade de poder, destinada a soldar passado e futuro.
Essa morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5. Mas persistiu na reabertura liberal-democrática sob forma de uma infecção da classe política, cuja banda podre foi cultivada pelo regime ditatorial. O raquitismo moral, a sabujice, a degenerescência de caráter dessas lideranças produziram um magno aviltamento coletivo, outro nome para corrupção como prática societária.
O inferno chama pelo inferno. Na memória, como se fosse hoje: logo após anunciado o AI-5, um dos donos de uma empresa editorial carioca entrou na redação aos gritos exultantes de "não mais teremos de pagar indenização aos demitidos". Meio século depois, pequenos empresários confessavam o voto em Bolsonaro por essa mesma expectativa. Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior.
Esse "mesmo" perdurável dá margem à hipótese de que o ponto convergente entre o espírito da frase do coronel e a posterioridade cívica seja a corrupção pura e crua, sem fixa ideologia de fundo. Certo, a máquina metafísica do fascismo funcionou na ausência de projeto nacional coerente e do esvaziamento da dignidade cívica, entendido como vácuo do sentimento de comunidade nacional.
"Às favas os escrúpulos" e "às favas o Brasil" são variações frasais com o mesmo sentido. Não ainda como pleno fascismo, que é forma estrutural de pensamento, dependente, estilo Mussolini, de mitos "fundadores de civilidade". O que há mesmo é aviltamento corruptivo como azeite de relações sociais. Esse é o legado moral e cívico da ditadura. Embora se diga cívico-militar, a banda golpista jamais quis escutar outra coisa de civis senão palavras de bajulação.
Virótica, a corrupção infecciona a esquerda política. Vorcaro é personagem conceitual: assim como a medicina dispõe de marcadores biológicos de saúde, ele se tornou marcador do grau corruptivo do sistema. O escândalo do Master mostra que o crime organizado no país não se limita a facções classificáveis como "terroristas", mas que também se organiza em conluio com altos aparatos dos Poderes. Embora posto às vezes em modo de sobrevivência, como agora, é um ecossistema de teias onde rastejam seres aranhosos, permeáveis à sedução cínica do dinheiro. Brasil, escrúpulos? Às favas.
A insustentável leveza das autocracias
Donald Trump não é o primeiro nem será o último autocrata empenhado em dominar o mundo.
Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.
Mas, claro, a história não termina aqui. Trump é também aliado de unha e carne das outras duas superpotências econômicas e militares – a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping. Somados, esses três países detêm ogivas nucleares suficientes para destruir nosso planeta centenas de vezes.
Com essa troica pairando sobre nossas cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil. A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis refeições na mesa de cada família.
O pano de fundo acima exposto explica em grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.
Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes eleições no Peru e na Colômbia.
O problema, em ambos os países, vai muito além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA incrustado em seu passado de ódios.
Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de la Espriella – descrito pelo Estadão como representante da “direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente, com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.
Os acordes variam, mas a melodia é a mesma. Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.
Desde a Antiguidade, incontáveis construtores de impérios, geralmente agindo com extrema violência, tiveram tal ambição. De Alexandre o Grande (século 4 a. C.) a Átila (século V d.C.), o “rei dos hunos”, a quem é atribuída a frase “a erva não voltará a crescer onde minha cavalaria houver passado”, a estirpe é extensa. A diferença entre Donald Trump e os “bárbaros” da Antiguidade não reside, pois, só na diplomacia do “murro na mesa”, nem na riqueza e outros traços do presidente norteamericano. Reside, desde logo, no fato de haver encontrado um adversário feito sob medida, o Irã. A teocracia iraniana não é um caudilho individual, mas é um Estado. Teerã pleiteia, com uma mão, o controle exclusivo sobre Ormuz, uma estreita passagem de mar por onde transita 20% do petróleo de que o mundo necessita e, com a outra, uma enorme capacidade bélica, inclusive uma formidável quantidade de urânio enriquecido quase até o ponto necessário para fabricar armas nucleares. Entre Teerã e Trump, para onde vão as simpatias? Escolha difícil, não? Assim, Trump retém um nível de apoio e consegue aliados políticos (assunto tratado abaixo) que dificilmente obteria sem o confronto com os aiatolás, que, no fim das contas, lhe é benéfico.
Com essa troica pairando sobre nossas cabeças, chega a ser um milagre que um certo grau de democracia ainda seja possível; a razão principal é que um estado de guerra permanente privaria os três protagonistas principais de uma grande parte dos recursos naturais, notadamente alimentos, sem os quais a situação doméstica dos três seria muito mais difícil. A China, por exemplo, mesmo despendendo cifras estonteantes só para manter o terror policial sobre seus cidadãos, não teria como pôr, diariamente, seis refeições na mesa de cada família.
O pano de fundo acima exposto explica em grande parte o vai e vem entre caudilhismos e aspirações democráticas que, bem ou mal, continuamente se repete em toda a América Latina. Assim como há lideranças querendo se afastar de amigos externos que só conhecem a diplomacia do “murro na mesa”, outras há que não se sustentariam sem o ácido carinho que as grandes potências militares lhes prodigalizam. Aqui temos um troca-troca verdadeiramente trágico: um domínio territorial barato para os Trump da vida e um ganho de poder e sobrevivência para autocratas menores de idade que de outra forma pagariam caro pelo comezinho ato de disputar eleições.
Aqui mesmo, em nossa vizinhança, estamos vendo se configurar uma situação como a que acima descrevi. Falo das recentes eleições no Peru e na Colômbia.
O problema, em ambos os países, vai muito além de divergências constitucionais ou ideológicas. Em ambos os casos, um passado de espessa violência. No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Fujimori, disputou a Presidência pela quarta vez e venceu, após uma longa e conturbada apuração, com 50,13% dos votos. Num país que teve oito presidentes em dez anos, essa vantagem não soa como um bom augúrio. Ela tem feito gestos de conciliação e convergência – a única coisa sensata que poderia fazer –, mas a questão é se sua atitude e eventual habilidade conseguirão sobrestar o DNA incrustado em seu passado de ódios.
Na Colômbia, o antinomia esquerda vs. direita ressurgiu muito mais carregada, e pelas mesmas razões: guerrilha, tráfico de drogas e uma relação odienta entre setores da elite. Inicialmente, o favorito à sucessão do presidente Gustavo Petro era o alto dirigente comunista Iván Cepeda. Mas uma reviravolta absolutamente inesperada pôs à frente Abelardo de la Espriella – descrito pelo Estadão como representante da “direita populista”. Ainda o Estadão, ibidem: “De 47 anos, é um advogado e empresário milionário que entrou para a política para impedir que a Colômbia seja ‘destruída’ pela esquerda. Ele é admirador do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei (...). Vestido com ternos impecáveis e, recentemente, com colete à prova de balas (...), antes de disputar a presidência vivia na cidade italiana de Florença. Promovia seus negócios de rum e vinho, viajava em jatos particulares e cantava ópera”. Sua plataforma, conhecida na América Latina, foi propor “(...) uma aliança militar com EUA e Israel, a construção de megapresídios e medidas para incentivar o porte de armas”. E conclui: “Em meu governo, bandido que não se submeter à Justiça será abatido”.
Os acordes variam, mas a melodia é a mesma. Países que não têm uma Constituição respeitada e em que a violência e o tráfico de drogas tenham rédea solta dificilmente se reconstituem de forma ordeira. Quase ninguém acreditava, mas essa é também a história dos EUA na era Trump.
A república da amnésia
Na manhã do dia 7 de abril de 1988, uma forte explosão sacudiu o habitualmente plácido bairro de Sommerschield, em Maputo, capital de Moçambique. Albie Sachs — professor de Direito na Universidade Eduardo Mondlane e destacado opositor do regime do apartheid, na vizinha África do Sul — acabava de ser vítima de um atentado, no qual perdeu um braço e a visão de um olho.
Sachs escreveu sobre essa manhã num testemunho extraordinário, sem qualquer sinal de rancor, que a editora Caminho publicou em Portugal, em 1990, com o título “A suave vingança de um combatente da liberdade”. Poucos anos mais tarde, o homem que a polícia do apartheid tentou matar em Maputo ajudaria a redigir a Constituição da nova África do Sul.
Aquela não foi a primeira vez, nem a última, que os serviços secretos sul-africanos intervieram diretamente em Moçambique. Outros países da região pagaram durante décadas um elevado preço por acolherem combatentes da luta contra o apartheid. Muitos morreram por causa dessa solidariedade.
Lembro-me de ouvir Ruy Mingas — o Chico Buarque angolano — cantar em rodas de amigos uma canção belíssima, sobre a contribuição angolana na luta contra o apartheid. A canção começava assim: “Sou ventre da África Austral/ com os filhos que gerei/ já fui granada do amanhecer na Namíbia,/ do amanhecer no Zimbábue/ e na África do Sul.”
As recentes manifestações contra imigrantes africanos na África do Sul estão sendo recebidas no restante do continente com perplexidade, revolta e um profundo sentimento de injustiça. Moçambique, Angola, Zâmbia e outros países sacrificaram-se para que os sul-africanos alcançassem a liberdade. Como compreender agora este ódio?
Milhares de moçambicanos, zimbabuenses, nigerianos, senegaleses e malianos estão abandonando a África do Sul. Muitos escapam apenas com a roupa que trazem no corpo, deixando para trás lojas, casas, bens diversos e, por vezes, as próprias famílias. O seu desespero é enorme.
Alguns analistas recusam o termo xenofobia. Não se trata de simples hostilidade contra estrangeiros. As comunidades de origem europeia ou asiática raramente são alvo destes ataques. Talvez a palavra mais exata seja afrofobia: o medo e o ódio dirigidos aos próprios africanos.
O que mais surpreende é a amnésia.
Durante décadas, sul-africanos perseguidos atravessaram fronteiras em busca de abrigo. Encontraram refúgio em Luanda, em Maputo, em Lusaca, em Dar es Salaam. Muitos viveram durante anos longe de casa. Outros, como Albie Sachs, quase morreram. Hoje a viagem faz-se em sentido contrário. São os moçambicanos que atravessam a fronteira para sul. E encontram homens que lhes dizem: voltem para casa.
Retorno à canção de Ruy Mingas. Nos versos finais ele cantava: “Quero,/ hoje eu quero mil vulcões,/ tempestades no deserto,/ quero a chuva mais perto/ de todos os furacões.”
A África do Sul democrática, o país do arco-íris, nasceu da solidariedade africana. Agora, ao trair o continente, volta a ficar isolada. A grande questão é — a quem interessa tal isolamento? Quem, na sombra, está fomentando a divisão?
Sachs escreveu sobre essa manhã num testemunho extraordinário, sem qualquer sinal de rancor, que a editora Caminho publicou em Portugal, em 1990, com o título “A suave vingança de um combatente da liberdade”. Poucos anos mais tarde, o homem que a polícia do apartheid tentou matar em Maputo ajudaria a redigir a Constituição da nova África do Sul.
Aquela não foi a primeira vez, nem a última, que os serviços secretos sul-africanos intervieram diretamente em Moçambique. Outros países da região pagaram durante décadas um elevado preço por acolherem combatentes da luta contra o apartheid. Muitos morreram por causa dessa solidariedade.
Lembro-me de ouvir Ruy Mingas — o Chico Buarque angolano — cantar em rodas de amigos uma canção belíssima, sobre a contribuição angolana na luta contra o apartheid. A canção começava assim: “Sou ventre da África Austral/ com os filhos que gerei/ já fui granada do amanhecer na Namíbia,/ do amanhecer no Zimbábue/ e na África do Sul.”
As recentes manifestações contra imigrantes africanos na África do Sul estão sendo recebidas no restante do continente com perplexidade, revolta e um profundo sentimento de injustiça. Moçambique, Angola, Zâmbia e outros países sacrificaram-se para que os sul-africanos alcançassem a liberdade. Como compreender agora este ódio?
Milhares de moçambicanos, zimbabuenses, nigerianos, senegaleses e malianos estão abandonando a África do Sul. Muitos escapam apenas com a roupa que trazem no corpo, deixando para trás lojas, casas, bens diversos e, por vezes, as próprias famílias. O seu desespero é enorme.
Alguns analistas recusam o termo xenofobia. Não se trata de simples hostilidade contra estrangeiros. As comunidades de origem europeia ou asiática raramente são alvo destes ataques. Talvez a palavra mais exata seja afrofobia: o medo e o ódio dirigidos aos próprios africanos.
O que mais surpreende é a amnésia.
Durante décadas, sul-africanos perseguidos atravessaram fronteiras em busca de abrigo. Encontraram refúgio em Luanda, em Maputo, em Lusaca, em Dar es Salaam. Muitos viveram durante anos longe de casa. Outros, como Albie Sachs, quase morreram. Hoje a viagem faz-se em sentido contrário. São os moçambicanos que atravessam a fronteira para sul. E encontram homens que lhes dizem: voltem para casa.
Retorno à canção de Ruy Mingas. Nos versos finais ele cantava: “Quero,/ hoje eu quero mil vulcões,/ tempestades no deserto,/ quero a chuva mais perto/ de todos os furacões.”
A África do Sul democrática, o país do arco-íris, nasceu da solidariedade africana. Agora, ao trair o continente, volta a ficar isolada. A grande questão é — a quem interessa tal isolamento? Quem, na sombra, está fomentando a divisão?
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