segunda-feira, 27 de julho de 2026

Quebra de protocolo diplomático por Milei teve ajuda de Tarcísio e Flávio Bolsonaro

Todos os protocolos diplomáticos foram quebrados pela visita de Javier Milei ao Brasil. Já testemunhei muitas crises entre Brasil e Argentina, mas esta é, de fato, uma das mais graves. A tensão instalada entre os dois países após os ataques de Milei domina as manchetes do Clarín e do La Nación, os principais jornais argentinos, nesta segunda-feira.

O primeiro protocolo quebrado é vir sem avisar ao governo. O fato é que qualquer viagem de um chefe de Estado a outro país, ainda que tenha caráter privado, segue um protocolo mínimo, que inclui a comunicação prévia ao governo anfitrião — procedimento completamente ignorado por Milei. O presidente argentino foi diretamente a São Paulo, onde participou da convenção do PL. Antes disso foi recebido com um tapete azul, em referência à chamada "onda azul", alusão as eleições de candidatos de direita, no Palácio Bandeirantes, pelo governador Tarcísio de Freitas que concedeu a ele a Medalha da Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo. Tarcísio o recebeu com honras de chefe de Estado.


Ele veio como convidado de honra para o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Milei adotou, em seu discurso, uma postura de completo desrespeito ao governo brasileiro e ao próprio processo eleitoral do país. O presidente argentino utilizou palavras ofensivas e desairosas ao se referir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do STF Alexandre de Moraes. O Brasil respondeu pelos canais diplomáticos: chamou de volta o embaixador brasileiro na Argentina para consultas e convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos sobre a conduta de seu presidente — uma tarefa que dificilmente será simples.

Na volta à Argentina, Milei concedeu uma entrevista em que afirmou, sem provas, que o governo brasileiro financiou uma campanha midiática contra a Argentina após a Copa do Mundo. Chegou a dizer que 25% dos recursos da suposta campanha teriam saído do Brasil, em reportagem publicada no Clarín. A alegação, no entanto, não foi acompanhada de qualquer prova e carece de fundamento conhecido. Nada disso faz o menor sentido.

Mais do que apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei parece ter buscado projetar sua imagem em um momento delicado de seu governo, marcado por dificuldades internas e elevados índices de desaprovação, que variam entre 60% e 65%, segundo pesquisas de opinião. Para isso, escolheu confrontar justamente o principal parceiro comercial da Argentina, destino da maior parte das exportações industriais argentinas. Caberá agora à diplomacia dos dois países desfazer esse impasse — e não será uma tarefa fácil.

Míriam Leitão

Deu no que deu


O abandono, pelas elites, da classe operária facilitou a receptividade às ideias alternativas

Jaime Nogueira Pinto

Os influencers já não tem rosto, trends ou seguidores. Tem dados

A Inteligência Artificial está a mudar a forma como escolhemos marcas e grande parte das empresas ainda não perceberam que já estão a perder vendas sem sequer saberem porquê.

Durante anos, o mercado confundiu reputação com notoriedade. Contavam-se seguidores, visualizações, gostos, partilhas e cliques. Quanto maior fosse a exposição de uma pessoa, de uma campanha ou de uma marca, maior seria, supostamente, a sua capacidade de influenciar decisões. Contudo, esse paradigma está a desaparecer. Não significa que os influenciadores tenham deixado de ter relevância ou que as redes sociais tenham perdido utilidade. Significa apenas que notoriedade, influência e confiança deixaram de ser a mesma coisa.

Por consequência de um marketing fútil, repetitivo e até previsível, o consumidor tornou-se mais desconfiado em relação aos conteúdos promovidos, às recomendações patrocinadas e às narrativas demasiado perfeitas. Começou a procurar sinais mais difíceis de fabricar: experiências reais, padrões de comportamento, capacidade de resposta, transparência e validação por outras pessoas. Agora, com a Inteligência Artificial, essa transformação acelerou.


O estudo “O Consumidor Impulsionado pela IA: Manual de Sobrevivência para Marcas”, desenvolvido pela LLYC e pela Appinio a partir de 700 entrevistas em Portugal, revela uma mudança profunda: cerca de 45% dos consumidores portugueses já utilizam habitualmente ferramentas de Inteligência Artificial generativa. Entre os jovens dos 18 aos 24 anos, esse valor sobe para 65,9 por cento. Mais relevante ainda: 23,6% dos consumidores já iniciam diretamente nos assistentes de IA a sua jornada de pesquisa. Ao mesmo tempo, a confiança nos influenciadores apresenta, segundo o estudo, um índice negativo de 67,4 por cento. A credibilidade está a deslocar-se para especialistas, validação técnica, conteúdos genuínos e sistemas algorítmicos capazes de cruzar múltiplas fontes. Praticamente estamos a assistir a uma transferência de poder.

O consumidor já não quer necessariamente visitar dez páginas, abrir vinte separadores, analisar comparadores, ler publicações patrocinadas e tentar perceber quem é mais confiável. Na verdade, o que faz é simples e direto. Coloca uma pergunta diretamente ao modelo LLM:

“Qual é a melhor marca?”
“Esta empresa é de confiança?”
“Que problemas têm os clientes?”
“Qual destas opções tem melhor serviço?”
“Vale a pena comprar?”

Espera uma resposta e toma uma decisão.

Durante duas décadas, as marcas organizaram a sua estratégia digital em torno de uma ideia simples: conquistar o clique. Investiram em SEO para aparecer no Google, em publicidade para gerar tráfego, em conteúdos para conduzir o consumidor ao site e em remarketing para voltar a contactá-lo caso não comprasse imediatamente.

Nos modelos conversacionais, a lógica é diferente. O consumidor não escolhe necessariamente entre uma lista de resultados. Toma a sua decisão com base nas respostas apresentadas pela Inteligência Artificial.

A descoberta, a comparação, a avaliação e a recomendação podem acontecer dentro da mesma conversa. Em muitos casos, o consumidor toma a sua decisão sem visitar o site da marca, sem entrar numa rede social e sem deixar os sinais digitais que tradicionalmente alimentavam as estratégias de remarketing. Isto significa que milhares de consumidores estão, neste momento, a tomar decisões sem o conhecimento das marcas envolvidas. Não preencheram um formulário. Não entraram num site. Não abandonaram um carrinho. Não aceitaram cookies. Não foram incluídos numa audiência de remarketing. Simplesmente perguntaram a uma Inteligência Artificial e escolheram outra empresa.

A marca que perdeu a venda não sabe onde aconteceu, quando aconteceu, qual foi a pergunta, que alternativas foram apresentadas ou por que razão ficou fora da recomendação. Para muitas administrações, essa perda é invisível, pois, não aparece no CRM, no Google Analytics, no relatório comercial ou no dashboard de marketing. Surge apenas como uma venda que nunca chegou a existir.

É neste contexto que plataformas como o Portal da Queixa assumem uma importância muito superior àquela que normalmente lhes é atribuída. Com perto de 2 milhões de reclamações publicadas, reúne um enorme histórico de experiências reais, respostas das marcas, resoluções, avaliações, índices de satisfação e padrões de comportamento. O próprio site apresentava, em junho de 2026, mais de 12 milhões de interações entre consumidores e marcas nos últimos 30 dias, conteúdo com características particularmente valiosas para os sistemas de Inteligência Artificial: é público, pesquisável, contextual, cronológico, específico e produzido a partir de acontecimentos concretos. São experiências partilhadas pelos clientes e não apenas frases publicitárias escritas pela própria marca. Não são promessas sobre a qualidade futura do serviço, mas evidências sobre aquilo que aconteceu quando existiu um problema. A grande vantagem para os modelos é que não mostram apenas que uma empresa recebeu uma reclamação. Mostram se respondeu, quanto tempo demorou, como comunicou, se resolveu a situação e como o cliente avaliou o desfecho.

Plataformas de partilha pública de experiências não influenciam porque publicam opiniões editoriais sobre as marcas, mas porque tornam visível aquilo que as marcas fazem quando são confrontadas com a insatisfação dos clientes. A sua autoridade resulta dessa dimensão, da transparência e, sobretudo, da autenticidade do conteúdo partilhado pelos consumidores.

Mas por que razão a IA valoriza estas plataformas, como por exempo o Reddit?

Em 2024, a OpenAI anunciou uma parceria com o Reddit para aceder, através da sua API, a conteúdos públicos, estruturados, atualizados e produzidos pelas respetivas comunidades. Os modelos precisam deste tipo de informação porque a internet institucional é insuficiente. Nos sites corporativos, todas as marcas são inovadoras, próximas, sustentáveis e orientadas para o cliente. Dificilmente uma empresa admite que o seu apoio ao cliente não funciona, que demora semanas a responder ou que repete sistematicamente os mesmos erros. Para compreender a realidade, a inteligência artificial necessita de confrontar o discurso oficial com fontes independentes e experiências concretas.

Aquilo que os consumidores dizem, a forma como a marca responde e os padrões públicos que ficam registados condicionam a sua probabilidade de ser recomendada por uma Inteligência Artificial. Uma empresa com milhares de reclamações ignoradas, respostas defensivas ou problemas recorrentes pode continuar a investir milhões em publicidade. Pode comprar alcance, patrocinar conteúdos e gerar notoriedade, mas terá cada vez mais dificuldade em contrariar aquilo que os dados públicos demonstram.

Por isso, uma marca que não faça uma gestão ativa e adequada da sua reputação pública corre hoje um risco muito superior ao de receber críticas. Corre o risco de não ser escolhida. E, na maioria das vezes, nem sequer saberá que esteve a ser considerada.

Em suma, esta mudança obriga que os conselhos de administração a revejam a forma como acompanham a reputação. Pois já não basta medir notoriedade, alcance, sentimento nas redes sociais ou número de notícias publicadas. É necessário perceber como a marca é descrita pelos modelos de Inteligência Artificial, em que contextos é recomendada, quais são os concorrentes apresentados, que fontes sustentam essas respostas e que problemas afastam a empresa das escolhas dos consumidores.

A influência pertence agora a quem consegue provar que é de confiança. Porque a próxima corrida comercial de uma marca, não vai acontecer no ponto de venda, no site ou no carrinho de compras. Poderá acontecer dentro de uma conversa privada entre um consumidor e uma Inteligência Artificial.

Sem clique. Sem visita. Sem lead. E sem aviso.

O povo está fora do Congresso

Com as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de 2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:

— Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?

Ou, mais direto:

— O Congresso é a cara do Brasil?

Para ambas as perguntas, a resposta só pode ser:

— Não.

Nem precisaria de estatística para chegar ao óbvio: basta olhar a estrutura montada com dinheiro público para alçar um cidadão (ou cidadã) ao Parlamento. Aos poucos, os políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado; em resumo, é quase impossível de ser acessado por quem está do lado de fora, sem toda essa mão na roda que é dada a um “irmãozão”.


Como os critérios de assunção à legenda e ao financiamento das candidaturas se encontram na mão dos chefes partidários, pode-se dizer adeus à renovação, salvo milagre. A Constituição de 1988 e a legislação eleitoral deixaram em aberto vários flancos, a começar pela possibilidade de reeleição infinita do parlamentar. Pelo arcabouço institucional, é o próprio Congresso que se autolegisla e, portanto, autobeneficia-se como demonstram os escândalos dos últimos anos.

Nos dados publicados pela Justiça Eleitoral, a sombra e água fresca aparece estampada nos seguintes números:

1. Os 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral devem receber para as eleições de 2026 quase R$ 5 bilhões do fundo eleitoral.

2. O fundo partidário, cujo nome de fato é Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, repassou a 19 partidos, em 2025, R$ 1,1 bilhão.

De acordo com a Lei Eleitoral, retrofitada a cada novo ciclo pelos políticos, cerca de 95% do fundo partidário é distribuído aos partidos na proporção de votos obtidos na eleição para a Câmara dos Deputados. É um sistema de retroalimentação: a votação conseguida com dinheiro público resulta no montante dado à agremiação política para disputar o pleito seguinte.

Parece algo bacana, mas é essa esperta engenharia que faz o Brasil ter uma das piores representações desde a redemocratização. A partir da proibição de doações empresariais, o país passou por duas eleições gerais (2018 e 2022) e três municipais (2016, 2020 e 2024). Sob a nova legislação, o que se viu foi uma baixíssima renovação — além do aumento absurdo das verbas públicas destinadas às agremiações partidárias por iniciativa dos próprios beneficiários.

O novo modelo de financiamento tirou a roupa de um santo para vestir outro. Se o argumento era que somente algumas empresas controlavam as doações — falava-se em 1% delas —, talvez parte da chamada polarização e da vigente miséria intelectual dos parlamentares tenha relação com os bilhões públicos colocados na mão dos dirigentes partidários nos últimos anos (desde 2015). É um dinheiro que não vem por mérito.

Estudo publicado no American Economic Journal: Economic Policy, em 2024, mostrou que a decisão de 1995 na França, semelhante à tomada pelo STF, provocou uma maior radicalização nos discursos de candidatos fora do mainstream da política — segundo Julia Cagé e coautoras em citação no artigo de Manoel Gehrke no site da Transparência Internacional.

Pode ser cedo para cravar no financiamento público, nos moldes costurados pelos políticos, o gosto amargo da polarização. Não custa, porém, colocar os números na mesa. Os maiores beneficiários em 2026 são os dois polos da polarização: o PL, com R$ 881 milhões; e o PT, com R$ 615 milhões. Em seguida, União Brasil, com R$ 526 milhões. Aos fundos destinados às agremiações, se somam os diversos tipos de emendas parlamentares, que vão diretamente aos mandatos individuais — em 2025, R$ 58,4 bilhões.

Sendo dinheiro público, é melhor aprofundar a análise, lembrando os salários anuais dos dirigentes partidários. Entre as melhores remunerações, em números de 2025, estão o conhecidíssimo Ovasco Resende, do famoso PRD, que recebeu R$ 630 mil; José Luiz Penna, do PV, com R$ 501 mil; e Valdemar Costa Neto, do PL, com R$ 404 mil.

Sempre que é citada uma maracutaia na Câmara, Hugo Motta defende que querem criminalizar a política. Como notou Joaquim Falcão em “A oligarquia dos Poderes — E a crise da democracia”, há um arranjo estranho entre os Poderes da República para não cumprir seus deveres — eu diria: um cobrindo o erro do outro. O Congresso é só uma peça dentro do arranjo. É assim que o Brasil deixou de ter um Parlamento que seja a sua cara. Em seu lugar, uma minoria esperta que esfacelou a democracia representativa.
Miguel de Almeida

O ódio é como o dinheiro

O ódio não é só contagioso: é uma moeda. Como o euro, precisa de ser aceite por toda a gente para poder circular à vontade.

Já nem precisamos do papel das notas: aceitamos que aqueles números no écran são dinheiro. E porquê? Porque os outros também aceitam que aqueles dígitos eletrônicos servem para receber e gastar.

Mas o que aconteceria se, de repente, todos exigíssemos aqueles números todos em notas? Ou em ouro?

O ódio precisa do mesmo acordo silencioso: a nossa moeda política agora é o ódio.

O ódio faz mal a quem o sente: isto está mais do que provado. O ódio ocupa a cabeça e a cabeça fica sem lugar para as coisas que fazem bem. O ódio gasta a nossa sensibilidade. O coração deixa de registar as ternuras e miudezas de que precisa para estar aberto à beleza e à bondade.

Odiar quem nos odeia é fazer o jogo deles. É o que os extremistas querem. Querem odiar-nos e, como tal, agradecem quaisquer motivos para odiar-nos que nós lhes possamos dar.

É como o jogo da sardinha: é preciso que a outra pessoa aceite jogar e estique as mãos que vão levar a chapada. Quanto mais forte for a chapada que nos dão, maior a facilidade com que lhes daremos uma chapada igualmente forte.

É assim com toda a violência e todo a política do ódio: resume-se a queixinhas de “ele é que começou” e “ele é que me bateu primeiro na cara”.

Para assistir a estas tristezas, é preciso haver espectadores, e árbitros. E estes não podem odiar. Senão os odiadores nem sequer se procurarão justificar diante deles.

A resposta errada ao ódio é o ódio. O conteúdo quase não interessa. E quase não interessa de que lado é que se está.

A única coisa que interessa é isolar o ódio. É deixá-lo a brincar sozinho. É responder não com amor, não com a oferta da outra face, mas com frieza, com indiferença às causas daquele ódio, porque o ódio tira a razão a quem a tem. Por isso é que o ódio sabe tão bem e é tão perigoso: é uma vingança instantânea e permanente.

Merece a solidão.
Miguel Esteves Cardoso

A democracia degenerada

Em A oligarquia dos Poderes: e a crise da democracia, Joaquim Falcão nos oferece um livro que fará parte do cânone das obras de interpretação do Brasil neste momento de nossa história. Ao mesmo tempo defende e aponta os defeitos da democracia brasileira, apropriada por uma oligarquia que usa o Estado para obter benefícios para seus grupos e parentes. Falcão faz uma espécie de autópsia de como nossa democracia é usada por oligarquias — sejam escravocratas, latifundiários, usineiros, advogados, políticos, juízes, banqueiros, industriais, sindicalistas — que se sucedem sem respeitos aos interesses do povo ou da nação. Ele explicita que a legalidade foi criada e é usada para beneficiar oligarcas, seus grupos e famílias, por meio de manipulações das leis e dos orçamentos que elaboram e operam em benefício próprio.


Com robusta base analítica, lucidez, conhecimento e coragem, o autor mostra a ossatura histórica de nosso sistema político e expõe com tal crueza as entranhas das instituições que nos permite usar o termo degenerada como adjetivo para qualificar nossa democracia. Essa é a impressão que permanece ao longo de uma leitura que deslumbra pelo estilo e assusta pelo conteúdo, desferindo verdadeiros tapas na consciência do leitor brasileiro.

Com estilo leve, mas conteúdo rigoroso e conhecimento profundo, Joaquim Falcão define as características da "democracia originária importada, cujas adaptações a tornaram oligárquica politicamente e degenerada socialmente". Sustenta que as seis intenções originais não sobreviveram no Brasil: pluralidade dos Poderes, independência dos Poderes, freios e contrapesos, existência de uma palavra final, eleições gerais, livres e periódicas e, sobretudo, a necessária adesão social, sem a qual a democracia carece de justificativa ética e de sustentação política.

Embora faça gestos para beneficiar parcelas excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios como supersalários, isenções fiscais, penduricalhos, aposentadorias especiais, benesses e subsídios e, sobretudo, um sistema de segregação educacional. É um sistema de privilégios construído graças ao que o autor chama de conluio entre grupos e "parentela".

Cada capítulo permite ver a imoralidade política e a maldade social da elite oligárquica que dirige o país nos Três Poderes ao longo da história, inclusive no quase meio século desde a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988. De tempos em tempos, essa democracia degenerada promove uma falsa adesão social: condecora alguns plebeus com títulos de nobreza sem romper os privilégios aristocráticos. É como se, em vez de abolir a senzala, alguns escravos fossem escolhidos para morar na casa-grande. É o que ocorre com as cotas sociais para dar ingresso de alguns pobres no ensino superior sem que os filhos do povo sejam todos alfabetizados e colocados no mesmo sistema nacional de educação básica com qualidade e equidade.

Ao ler os capítulos sobre como se constrói a práxis oligárquica do conluio e da parentela, o leitor sente um misto de indignação e vergonha ao perceber que somos parte desse conluio e ao refletir sobre como regenerar a democracia. O livro terá papel fundamental para o futuro se os seus leitores se lembrarem que também são eleitores: responsáveis, culpados e capazes de romper a oligarquia dos poderosos, enfrentando a principal causa da degeneração — a desigualdade como a educação separa os filhos do povo dos filhos da elite para perpetuar a democracia oligárquica brasileira.

O pequeno livro de ficção Jogados ao mar transmite essa realidade em um capítulo no qual uma médica, militante no seu sindicato e em um partido de esquerda, demite sua empregada doméstica porque ela reivindicava que seus filhos estudassem na mesma escola que os filhos da patroa. Tanto quanto os trabalhadores brancos na África do Sul, ela faz parte da oligarquia.

A oligarquia sabe que, mais do que a manipulação das leis ou o uso de militares como fantoches, a permanência de seu poder decorre da recusa em oferecer aos próprios filhos a mesma escola destinada aos filhos do povo. A democracia degenerada separa desde o nascimento seus filhos dos filhos do povo — esse é o berço contínuo da desigualdade e segregação. A regeneração da democracia brasileira passa pela adoção de um sistema nacional sem oligarquia escolar, todos com a mesma chance para desenvolver seu talento.

Um bom motivo para se orgulhar: e não é o futebol

Mais uma vez o SUS nos dá motivo para comemorar. Os avanços trazidos pela vacinação no Brasil são muito significativos. O mais impressionante deles é a redução, em 2026, de 52% nos casos de síndrome respiratória aguda grave pelo Vírus Sincicial Respiratório, o VSR, principal causa da bronquiolite — uma queda de mais da metade das internações de bebês pela doença. Isso significa a redução de mortes, sequelas e sofrimento para inúmeras famílias.


Essa grande conquista é atribuída à vacinação das gestantes contra o VSR, indicada a partir da 28ª semana de gravidez. A vacina estimula a produção de anticorpos pela mãe, que são transferidos ao bebê durante a gestação, promovendo sua proteção nos primeiros 5 a 6 meses de vida, quando o risco de casos graves pelo VSR é mais elevado.

A adesão das gestantes foi maciça, algo extraordinário nesses tempos de negacionismo vacinal. Com mais de um milhão de doses aplicadas, a cobertura ficou próxima dos 90%. O resultado: no primeiro semestre de 2026 foram registrados 6.674 casos graves em bebês menores de seis meses (dados do Ministério da Saúde), contra 14.061 no mesmo período de 2025.

É bom lembrar que o SUS também oferece outra arma eficaz contra esse perigoso vírus: o nirsevimabe, um anticorpo monoclonal muito eficaz para evitar casos graves, para prematuros de até 37 semanas e crianças de até 23 meses com comorbidades.

Outro dado que representa uma excelente notícia é a redução progressiva do número de crianças com zero dose de vacina, isto é, que não receberam nenhuma dose da vacina Pentavalente. O número caiu de 360 mil em 2023 para 250 mil em 2024 e apenas 50 mil em 2025 (dados do Unicef – OMS), numa progressão fantástica.

Estamos recuperando nossas altas coberturas vacinais, que sempre nos orgulharam e protegeram nossa população, depois de uma década de queda. A gestão do Ministério da Saúde no governo Lula, a competência das equipes, o combate à desinformação pelo governo, influenciadores e grande mídia, o esforço de secretarias municipais de saúde, entre as quais o Rio se destaca, são fatores que levaram a esse avanço significativo.

O SUS é talvez a maior conquista civilizatória do Brasil. Nenhum país com mais de 200 milhões de habitantes ousou construir um sistema de saúde universal, integral e gratuito — e nós o fizemos. Ele está na vigilância sanitária que protege nossas fronteiras, regulamenta e fiscaliza nossos remédios e alimentos. Está na prevenção e no saneamento, na vacinação que erradicou doenças graves. Vai das equipes de Saúde da Família, que conhecem cada morador e prestam cuidado integral nas comunidades, ao maior sistema público de transplantes do mundo. Vai da unidade básica ao hospital de alta complexidade, do consultório dentário à ambulância UTI do SAMU, do pré-natal à cirurgia mais sofisticada, da farmácia popular à quimioterapia de última geração. Tudo isso sem que o dinheiro se interponha na relação entre quem cuida e quem é cuidado. Muito diferente de países como os EUA, onde uma internação pode significar a falência familiar. O SUS tem problemas: filas, carências, desafios de gestão e subfinanciamento crônico — mas ainda assim é o que garante que a saúde seja direito de todos, e não mercadoria.

Se a seleção brasileira não nos deu motivo de orgulho, é bom lembrar que temos o SUS: uma política pública que cuida, protege, distribui renda, trata e previne doenças, atuando do nascimento aos cuidados paliativos, do individual ao coletivo, à qual têm direito todos os mais de 200 milhões de brasileiros. Apesar das suas falhas, que não poderiam deixar de existir num sistema tão complexo e ambicioso, ele representa uma conquista gigantesca e um motivo de tremendo orgulho para todos nós.