segunda-feira, 27 de julho de 2026

O povo está fora do Congresso

Com as convenções partidárias em andamento, começam oficialmente as eleições de 2026. É uma rotina sem tropeços ou obstáculos autoritários desde a derrubada da ditadura. Parece um sonho de verão, só que a realidade de escândalos, a miséria de ideias e a grossa corrupção levam às perguntas:

— Sou representado pelos políticos eleitos para o Congresso?

Ou, mais direto:

— O Congresso é a cara do Brasil?

Para ambas as perguntas, a resposta só pode ser:

— Não.

Nem precisaria de estatística para chegar ao óbvio: basta olhar a estrutura montada com dinheiro público para alçar um cidadão (ou cidadã) ao Parlamento. Aos poucos, os políticos construíram um edifício de facilidades, benesses, macetes e espertezas que resultou num clube fechado; em resumo, é quase impossível de ser acessado por quem está do lado de fora, sem toda essa mão na roda que é dada a um “irmãozão”.


Como os critérios de assunção à legenda e ao financiamento das candidaturas se encontram na mão dos chefes partidários, pode-se dizer adeus à renovação, salvo milagre. A Constituição de 1988 e a legislação eleitoral deixaram em aberto vários flancos, a começar pela possibilidade de reeleição infinita do parlamentar. Pelo arcabouço institucional, é o próprio Congresso que se autolegisla e, portanto, autobeneficia-se como demonstram os escândalos dos últimos anos.

Nos dados publicados pela Justiça Eleitoral, a sombra e água fresca aparece estampada nos seguintes números:

1. Os 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral devem receber para as eleições de 2026 quase R$ 5 bilhões do fundo eleitoral.

2. O fundo partidário, cujo nome de fato é Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, repassou a 19 partidos, em 2025, R$ 1,1 bilhão.

De acordo com a Lei Eleitoral, retrofitada a cada novo ciclo pelos políticos, cerca de 95% do fundo partidário é distribuído aos partidos na proporção de votos obtidos na eleição para a Câmara dos Deputados. É um sistema de retroalimentação: a votação conseguida com dinheiro público resulta no montante dado à agremiação política para disputar o pleito seguinte.

Parece algo bacana, mas é essa esperta engenharia que faz o Brasil ter uma das piores representações desde a redemocratização. A partir da proibição de doações empresariais, o país passou por duas eleições gerais (2018 e 2022) e três municipais (2016, 2020 e 2024). Sob a nova legislação, o que se viu foi uma baixíssima renovação — além do aumento absurdo das verbas públicas destinadas às agremiações partidárias por iniciativa dos próprios beneficiários.

O novo modelo de financiamento tirou a roupa de um santo para vestir outro. Se o argumento era que somente algumas empresas controlavam as doações — falava-se em 1% delas —, talvez parte da chamada polarização e da vigente miséria intelectual dos parlamentares tenha relação com os bilhões públicos colocados na mão dos dirigentes partidários nos últimos anos (desde 2015). É um dinheiro que não vem por mérito.

Estudo publicado no American Economic Journal: Economic Policy, em 2024, mostrou que a decisão de 1995 na França, semelhante à tomada pelo STF, provocou uma maior radicalização nos discursos de candidatos fora do mainstream da política — segundo Julia Cagé e coautoras em citação no artigo de Manoel Gehrke no site da Transparência Internacional.

Pode ser cedo para cravar no financiamento público, nos moldes costurados pelos políticos, o gosto amargo da polarização. Não custa, porém, colocar os números na mesa. Os maiores beneficiários em 2026 são os dois polos da polarização: o PL, com R$ 881 milhões; e o PT, com R$ 615 milhões. Em seguida, União Brasil, com R$ 526 milhões. Aos fundos destinados às agremiações, se somam os diversos tipos de emendas parlamentares, que vão diretamente aos mandatos individuais — em 2025, R$ 58,4 bilhões.

Sendo dinheiro público, é melhor aprofundar a análise, lembrando os salários anuais dos dirigentes partidários. Entre as melhores remunerações, em números de 2025, estão o conhecidíssimo Ovasco Resende, do famoso PRD, que recebeu R$ 630 mil; José Luiz Penna, do PV, com R$ 501 mil; e Valdemar Costa Neto, do PL, com R$ 404 mil.

Sempre que é citada uma maracutaia na Câmara, Hugo Motta defende que querem criminalizar a política. Como notou Joaquim Falcão em “A oligarquia dos Poderes — E a crise da democracia”, há um arranjo estranho entre os Poderes da República para não cumprir seus deveres — eu diria: um cobrindo o erro do outro. O Congresso é só uma peça dentro do arranjo. É assim que o Brasil deixou de ter um Parlamento que seja a sua cara. Em seu lugar, uma minoria esperta que esfacelou a democracia representativa.
Miguel de Almeida

O ódio é como o dinheiro

O ódio não é só contagioso: é uma moeda. Como o euro, precisa de ser aceite por toda a gente para poder circular à vontade.

Já nem precisamos do papel das notas: aceitamos que aqueles números no écran são dinheiro. E porquê? Porque os outros também aceitam que aqueles dígitos eletrônicos servem para receber e gastar.

Mas o que aconteceria se, de repente, todos exigíssemos aqueles números todos em notas? Ou em ouro?

O ódio precisa do mesmo acordo silencioso: a nossa moeda política agora é o ódio.

O ódio faz mal a quem o sente: isto está mais do que provado. O ódio ocupa a cabeça e a cabeça fica sem lugar para as coisas que fazem bem. O ódio gasta a nossa sensibilidade. O coração deixa de registar as ternuras e miudezas de que precisa para estar aberto à beleza e à bondade.

Odiar quem nos odeia é fazer o jogo deles. É o que os extremistas querem. Querem odiar-nos e, como tal, agradecem quaisquer motivos para odiar-nos que nós lhes possamos dar.

É como o jogo da sardinha: é preciso que a outra pessoa aceite jogar e estique as mãos que vão levar a chapada. Quanto mais forte for a chapada que nos dão, maior a facilidade com que lhes daremos uma chapada igualmente forte.

É assim com toda a violência e todo a política do ódio: resume-se a queixinhas de “ele é que começou” e “ele é que me bateu primeiro na cara”.

Para assistir a estas tristezas, é preciso haver espectadores, e árbitros. E estes não podem odiar. Senão os odiadores nem sequer se procurarão justificar diante deles.

A resposta errada ao ódio é o ódio. O conteúdo quase não interessa. E quase não interessa de que lado é que se está.

A única coisa que interessa é isolar o ódio. É deixá-lo a brincar sozinho. É responder não com amor, não com a oferta da outra face, mas com frieza, com indiferença às causas daquele ódio, porque o ódio tira a razão a quem a tem. Por isso é que o ódio sabe tão bem e é tão perigoso: é uma vingança instantânea e permanente.

Merece a solidão.
Miguel Esteves Cardoso

A democracia degenerada

Em A oligarquia dos Poderes: e a crise da democracia, Joaquim Falcão nos oferece um livro que fará parte do cânone das obras de interpretação do Brasil neste momento de nossa história. Ao mesmo tempo defende e aponta os defeitos da democracia brasileira, apropriada por uma oligarquia que usa o Estado para obter benefícios para seus grupos e parentes. Falcão faz uma espécie de autópsia de como nossa democracia é usada por oligarquias — sejam escravocratas, latifundiários, usineiros, advogados, políticos, juízes, banqueiros, industriais, sindicalistas — que se sucedem sem respeitos aos interesses do povo ou da nação. Ele explicita que a legalidade foi criada e é usada para beneficiar oligarcas, seus grupos e famílias, por meio de manipulações das leis e dos orçamentos que elaboram e operam em benefício próprio.


Com robusta base analítica, lucidez, conhecimento e coragem, o autor mostra a ossatura histórica de nosso sistema político e expõe com tal crueza as entranhas das instituições que nos permite usar o termo degenerada como adjetivo para qualificar nossa democracia. Essa é a impressão que permanece ao longo de uma leitura que deslumbra pelo estilo e assusta pelo conteúdo, desferindo verdadeiros tapas na consciência do leitor brasileiro.

Com estilo leve, mas conteúdo rigoroso e conhecimento profundo, Joaquim Falcão define as características da "democracia originária importada, cujas adaptações a tornaram oligárquica politicamente e degenerada socialmente". Sustenta que as seis intenções originais não sobreviveram no Brasil: pluralidade dos Poderes, independência dos Poderes, freios e contrapesos, existência de uma palavra final, eleições gerais, livres e periódicas e, sobretudo, a necessária adesão social, sem a qual a democracia carece de justificativa ética e de sustentação política.

Embora faça gestos para beneficiar parcelas excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios como supersalários, isenções fiscais, penduricalhos, aposentadorias especiais, benesses e subsídios e, sobretudo, um sistema de segregação educacional. É um sistema de privilégios construído graças ao que o autor chama de conluio entre grupos e "parentela".

Cada capítulo permite ver a imoralidade política e a maldade social da elite oligárquica que dirige o país nos Três Poderes ao longo da história, inclusive no quase meio século desde a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988. De tempos em tempos, essa democracia degenerada promove uma falsa adesão social: condecora alguns plebeus com títulos de nobreza sem romper os privilégios aristocráticos. É como se, em vez de abolir a senzala, alguns escravos fossem escolhidos para morar na casa-grande. É o que ocorre com as cotas sociais para dar ingresso de alguns pobres no ensino superior sem que os filhos do povo sejam todos alfabetizados e colocados no mesmo sistema nacional de educação básica com qualidade e equidade.

Ao ler os capítulos sobre como se constrói a práxis oligárquica do conluio e da parentela, o leitor sente um misto de indignação e vergonha ao perceber que somos parte desse conluio e ao refletir sobre como regenerar a democracia. O livro terá papel fundamental para o futuro se os seus leitores se lembrarem que também são eleitores: responsáveis, culpados e capazes de romper a oligarquia dos poderosos, enfrentando a principal causa da degeneração — a desigualdade como a educação separa os filhos do povo dos filhos da elite para perpetuar a democracia oligárquica brasileira.

O pequeno livro de ficção Jogados ao mar transmite essa realidade em um capítulo no qual uma médica, militante no seu sindicato e em um partido de esquerda, demite sua empregada doméstica porque ela reivindicava que seus filhos estudassem na mesma escola que os filhos da patroa. Tanto quanto os trabalhadores brancos na África do Sul, ela faz parte da oligarquia.

A oligarquia sabe que, mais do que a manipulação das leis ou o uso de militares como fantoches, a permanência de seu poder decorre da recusa em oferecer aos próprios filhos a mesma escola destinada aos filhos do povo. A democracia degenerada separa desde o nascimento seus filhos dos filhos do povo — esse é o berço contínuo da desigualdade e segregação. A regeneração da democracia brasileira passa pela adoção de um sistema nacional sem oligarquia escolar, todos com a mesma chance para desenvolver seu talento.

Um bom motivo para se orgulhar: e não é o futebol

Mais uma vez o SUS nos dá motivo para comemorar. Os avanços trazidos pela vacinação no Brasil são muito significativos. O mais impressionante deles é a redução, em 2026, de 52% nos casos de síndrome respiratória aguda grave pelo Vírus Sincicial Respiratório, o VSR, principal causa da bronquiolite — uma queda de mais da metade das internações de bebês pela doença. Isso significa a redução de mortes, sequelas e sofrimento para inúmeras famílias.


Essa grande conquista é atribuída à vacinação das gestantes contra o VSR, indicada a partir da 28ª semana de gravidez. A vacina estimula a produção de anticorpos pela mãe, que são transferidos ao bebê durante a gestação, promovendo sua proteção nos primeiros 5 a 6 meses de vida, quando o risco de casos graves pelo VSR é mais elevado.

A adesão das gestantes foi maciça, algo extraordinário nesses tempos de negacionismo vacinal. Com mais de um milhão de doses aplicadas, a cobertura ficou próxima dos 90%. O resultado: no primeiro semestre de 2026 foram registrados 6.674 casos graves em bebês menores de seis meses (dados do Ministério da Saúde), contra 14.061 no mesmo período de 2025.

É bom lembrar que o SUS também oferece outra arma eficaz contra esse perigoso vírus: o nirsevimabe, um anticorpo monoclonal muito eficaz para evitar casos graves, para prematuros de até 37 semanas e crianças de até 23 meses com comorbidades.

Outro dado que representa uma excelente notícia é a redução progressiva do número de crianças com zero dose de vacina, isto é, que não receberam nenhuma dose da vacina Pentavalente. O número caiu de 360 mil em 2023 para 250 mil em 2024 e apenas 50 mil em 2025 (dados do Unicef – OMS), numa progressão fantástica.

Estamos recuperando nossas altas coberturas vacinais, que sempre nos orgulharam e protegeram nossa população, depois de uma década de queda. A gestão do Ministério da Saúde no governo Lula, a competência das equipes, o combate à desinformação pelo governo, influenciadores e grande mídia, o esforço de secretarias municipais de saúde, entre as quais o Rio se destaca, são fatores que levaram a esse avanço significativo.

O SUS é talvez a maior conquista civilizatória do Brasil. Nenhum país com mais de 200 milhões de habitantes ousou construir um sistema de saúde universal, integral e gratuito — e nós o fizemos. Ele está na vigilância sanitária que protege nossas fronteiras, regulamenta e fiscaliza nossos remédios e alimentos. Está na prevenção e no saneamento, na vacinação que erradicou doenças graves. Vai das equipes de Saúde da Família, que conhecem cada morador e prestam cuidado integral nas comunidades, ao maior sistema público de transplantes do mundo. Vai da unidade básica ao hospital de alta complexidade, do consultório dentário à ambulância UTI do SAMU, do pré-natal à cirurgia mais sofisticada, da farmácia popular à quimioterapia de última geração. Tudo isso sem que o dinheiro se interponha na relação entre quem cuida e quem é cuidado. Muito diferente de países como os EUA, onde uma internação pode significar a falência familiar. O SUS tem problemas: filas, carências, desafios de gestão e subfinanciamento crônico — mas ainda assim é o que garante que a saúde seja direito de todos, e não mercadoria.

Se a seleção brasileira não nos deu motivo de orgulho, é bom lembrar que temos o SUS: uma política pública que cuida, protege, distribui renda, trata e previne doenças, atuando do nascimento aos cuidados paliativos, do individual ao coletivo, à qual têm direito todos os mais de 200 milhões de brasileiros. Apesar das suas falhas, que não poderiam deixar de existir num sistema tão complexo e ambicioso, ele representa uma conquista gigantesca e um motivo de tremendo orgulho para todos nós.