segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Os tempos de Daniel Vorcaro

O que Daniel Vorcaro não esperava no tempo da economia está virando realidade: o rastreamento do dinheiro externo tem sido bem sucedido e estão sendo encontrados mais ativos do que ele acreditava que o processo de liquidação conseguiria achar. O liquidante contratou empresas especializadas em rastreamento. Foi localizado um fundo que havia recebido fluxo de recursos através de vários intermediários, entre eles Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro. Os ativos do fundo, na ordem do bilhão, foram congelados e serão usados como pagamento do passivo de Vorcaro. Há outros ativos sendo rastreados.

Enquanto isso, na Casa da Justiça, a vida do ex-banqueiro, que comprava políticos e juízes, tem sido facilitada pela confusão. Se todos brigam e não se sabe sequer quem está na relatoria do Caso Master no STF, Vorcaro pode fazer o que fez sexta: pedir o relaxamento da prisão. Seus advogados aguardam o tempo certo para pedir a nulidade do processo.


No Supremo Tribunal Federal todos se acusam. E todos têm razão. O ministro Alexandre de Moraes foi acusado pelo ministro André Mendonça de ter recebido mensagens de Vorcaro que deveriam ser investigadas. Mendonça tem razão. Os ministros Alexandre e Gilmar Mendes acusam André Mendonça de ter sido seletivo, e tomado decisões com finalidades eleitorais. Eles têm razão. O ministro Flávio Dino defendeu, junto a Gilmar Mendes, que todos os casos de ministros de tribunais superiores e magistrados que estejam implicados no caso Vorcaro sejam investigados. Dino tem razão. Mas ainda não se sabe o tempo em que isso acontecerá e nesse atraso ninguém tem razão.

O que dizem os que acompanham o caso Daniel Vorcaro desde o começo é que ele espera o tempo da política, apostando numa mudança de governo. Estaria contando com a confusão no STF, e um resultado eleitoral favorável, para que possa se sair melhor do que está hoje.

No processo de liquidação do banco ele não pode contar com a mesma sorte. Seu tempo acabou. O Master não existe mais, ele não poderá reverter o processo, como chegou a defender, usando seus braços no Congresso, na Justiça e no Tribunal de Contas.

— O banco em si acabou, não tem o que fazer. Mas tenho pouca dúvida de que ele está esperando um resultado eleitoral favorável para que possa reembaralhar as cartas — disse uma fonte que acompanha o caso de dentro.

Houve um tempo em que Vorcaro achava que poderia sair da prisão e reverter a liquidação. Ficaria com um banco menor, mas como metade do passivo já havia sido pago pelo Fundo Garantidor de Crédito, ele calculava que conseguiria retomar os negócios. Se os precatórios fossem pagos poderia se reerguer de alguma forma.

Vorcaro demonstrou irritação recentemente ao perceber que os ativos que tinha no exterior estavam sendo encontrados. Ele imaginava que não existia caminho para o dinheiro. Errou. Agora alguns dos seus laranjas têm se apresentado à Justiça americana se dizendo donos reais do dinheiro e entrando em disputa com os liquidantes.

Os recursos encontrados no Brasil e no exterior serão usados para pagar credores. Primeiro, a dívida trabalhista. Em seguida será ressarcido o Fundo Garantidor de Crédito e depois os investidores qualificados como os fundos de pensão dos servidores públicos. O processo de liquidação teria conseguido ativos, aqui e lá fora, em torno de 60% do passivo.

Daniel Vorcaro nunca se mostra como culpado, e sim como um perseguido. Na verdade, nas palavras de uma autoridade que eu ouvi, ele não se apresenta como um inocente. Ele se comporta como se fosse vítima de uma injustiça.

— Afinal, ele pagou por uma proteção que não teve e hoje está preso.

Flávio Bolsonaro, de todos os competidores pela cadeira de presidente do Brasil, é o único que está diretamente envolvido no caso Master. Pediu dinheiro, foi à casa do ex-banqueiro depois que ele havia sido preso, recebeu dinheiro, e fez a ele juras de amizade eterna.

O candidato aproveita a poeira do escândalo que se espalhou pelo Planalto Central para fingir. Quando houve a sessão do Supremo, aquela que nunca terminou, ele disse o seguinte: “Ninguém mais aguenta os ministros do Lula atrapalhando a nossa democracia. Sem os ministros do Lula, a democracia vive”. Ele é filho de Jair Bolsonaro, que tentou um golpe de Estado, e sempre defendeu a ditadura militar. Nesta estranha campanha, Flávio Bolsonaro diz defender a democracia.

Educação tem nome próprio

Se existisse o Prêmio Nobel da Educação, teria havido provavelmente a chance de o Brasil contar pela primeira vez com essa láurea. E o contemplado não poderia ser outro senão aquele cujos 105 anos agora se celebram, in memoriam: Paulo Freire, um dos três intelectuais mais citados na área de ciências humanas no mundo, com 48 títulos de doutor honoris causa por universidades como Harvard, Oxford e Cambridge, em várias das quais foi professor. Na França, incluído entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.


É o Patrono da Educação do Brasil. Mas resta saber de que "Brasil" se trata. Não certamente o mesmo daqueles que o prenderam durante a ditadura militar, tentando desqualificar o seu método de alfabetização e seus conhecimentos sobre educação. Para eles, Paulo Freire não passaria de "um criptocomunista encapuzado sob a forma de alfabetizador". Cripto, encapuçado, quer dizer, "comunista oculto? Nunca foi, era cristão, católico de formação. Nem é também o mesmo país das figuras recentes da extrema direita que o elegeram como alvo de "guerra cultural". O ex-presidente hoje enjaulado prometia "entrar com um lança-chamas no MEC para tirar Paulo Freire de lá". Ainda que sem saber por quê, claro.

Não só: o parque jurássico da pedagogia sempre talhou carapuças injuriosas a Freire. O porquê pedagógico exigiria a redação de um tratado. Para começar, seria preciso deixar claro que Paulo Freire não foi mero "alfabetizador". Ele é mesmo uma exceção histórica, por destoar do liberalismo puro, valorizando a tomada de consciência das condições sociais em que se dá o processo educacional. Alguém que enfatiza a autonomia da consciência do educando e as práticas escolares afinadas com a compreensão dos conteúdos do saber.

Pressupondo uma simbiose da consciência do mundo e da consciência de si, Freire propõe um "método de conscientização" como centro de sua teoria pedagógica. Portanto, um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária. Inovador nesse panorama é o fato de que, desde a década de 1990 no Brasil, os movimentos sociais ditos "rurais" ou "do campo" põem a educação entre as suas demandas principais. Presentes, a inspiração teórica de Freire e o fundo utópico que lastreia o direcionamento político de um projeto popular, ideologicamente apoiado na educação.

Voltada para as classes exteriores ao poder econômico-político, a educação freireana induz os movimentos sociais a se constituírem como sujeitos pedagógicos coletivos. Uma pedagogia shakespeareana do sonho construtivo: "I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space, were it not that I have bad dreams" (Hamlet, ato 2, cena 2). "Eu poderia estar encerrado numa casca de noz e me achar rei do espaço infinito, se não tivesse maus sonhos". Falando da liberdade sonhada dentro de um espaço limitado, Shakespeare dialoga com Paulo Freire: a consciência se educa para ser livre, ainda que estreitos o seu entorno e a mente dos brucutus.

Banqueiros

Que fazer com estes banqueiros? Conta-se que nos primórdios da banca, aí pelos séculos XVI e XVII, os banqueiros, pelo menos na Europa Central, eram no geral calvinistas, gente com um código moral exigente que, durante um tempo, teve o louvável escrúpulo de aplicar à sua profissão. Tempo que terá sido breve, haja vista o infinito poder corruptor do dinheiro. Enfim, a banca mudou muito e sempre para pior. Agora, em plena crise económica e do sistema financeiro mundial, começamos a ter a incómoda sensação de que quem se irá safar melhor da tormenta serão precisamente os senhores banqueiros. Em toda a parte, os governos, seguindo a lógica do absurdo, correram a salvar a banca de apertos de que ela tinha sido, em grande parte, responsável. Milhões de milhões têm saído dos cofres dos Estados (ou do bolso dos contribuintes) para pôr a flutuar centenas de grandes bancos, de modo a retomarem uma das suas principais funções, a creditícia. Parece que há sinais graves de que os banqueiros acenaram com as orelhas, considerando abusivamente que aquele dinheiro, por estar na sua posse, lhes pertence, e, como se isto não fosse já bastante, reagem com frieza à pressão dos governos para que ele seja posto rapidamente em circulação, única maneira de salvar da falência milhares de empresas e do desemprego milhões de trabalhadores. Está claro que os banqueiros não são gente de confiança, a prova é a facilidade com que mordem a mão de quem lhes dá de comer.

José Saramago, "O caderno"

Glosa sobre o fanatismo

O fanatismo embrutece
ou a estupidez fanatiza?
A burrice não me enternece
e o fanático barbariza.

O fanático tem certezas,
onde certezas não existem:
estão repletas de bichezas
que são nocivas e persistem.

A fé não é conhecimento,
pelo menos, até mais ver.
Transforma o mundo em turbulento
e estupora o bom viver.

Crê quem desiste de entender,
por isso o crente é perigoso:
quando não sabe convencer,
vira tirano afanoso.

O fanático não tolera
aquilo que não compreende:
torna-se logo uma fera,
filha bastarda de duende!
Eugénio Lisboa ( poema inédito)

'Dark Horse' foi o caixa 2 do tarifaço

Novas evidências sugerem que "Dark Horse" foi o caixa 2 do tarifaço.

Eduardo Bolsonaro foi para os Estados Unidos na mesma época em que começaram os pagamentos de Daniel Vorcaro para o caixa do filme. Até pouco tempo antes, como mostrou reportagem de Breno Pires na revista piauí de setembro, os esforços de captação de recursos para "Dark Horse" haviam tido pouco sucesso.

Reportagem de Leticia Casado para o UOL em 13 de setembro mostrou que, no celular de Daniel Vorcaro, havia uma mensagem do publicitário Thiago Miranda com o texto "Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme".

A mensagem foi enviada em 13 de março de 2025 às 9h34. Duas horas depois, às 11h37, Eduardo postou em suas redes sociais que faria uma live para anunciar sua mudança definitiva para os Estados Unidos.

Ao que tudo indica, Eduardo Bolsonaro só decidiu se estabelecer definitivamente nos Estados Unidos quando ficou acertado que a grana de Vorcaro continuaria chegando.

A história de Eduardo Bolsonaro com o Master merece ser mais bem conhecida.


Matéria de 12 de junho da coluna da jornalista Malu Gaspar mostrou fortes indícios de que Eduardo Bolsonaro trabalhava pelo Master por meio do deputado Filipe Barros (PL-PR), seu sucessor na presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados.

Sob a presidência de Barros, a comissão foi utilizada para intimidar autoridades que ameaçavam o Master, um tema completamente alheio à sua área de atuação. Filipe Barros também é o autor do Projeto de Lei nº4395/2024, que ampliava o limite de cobertura do FGC como forma de tentar salvar o Master.

Em julho de 2025, o jornalista João Batista Jr., da revista piauí, perguntou a Eduardo quem pagava seus vôos de primeira classe nos Estados Unidos. Eduardo respondeu: "um amigo do amigo do meu pai".

É preciso parar de tratar "Dark Horse" como a história de um filme, como uma discussão sobre as inconsistências de seu financiamento, sobre a trajetória inexplicável do dinheiro pelos Estados Unidos ou sobre o valor ridiculamente superfaturado de absolutamente tudo que envolveu sua produção.

Isso tudo parece mal explicado se você estiver pensando em um filme. Se você estiver pensando em um caixa 2 para desviar dinheiro que Vorcaro roubava dos aposentados brasileiros para financiar uma tentativa de golpe de Estado com ajuda de potência estrangeira, as coisas parecem surpreendentemente claras.

Os R$ 130 milhões de Vorcaro são dinheiro demais para fazer um filme picareta com Jim Caviezel de peruca do Zacarias. É dinheiro demais para sustentar mesmo a vida luxuosa que Eduardo Bolsonaro leva nos Estados Unidos. Mas pode ser um valor adequado para pagar lobistas e comprar acesso aos escalões superiores do governo Trump. O lobby, vale dizer, é permitido pela lei americana.

Os detalhes da operação ainda serão esclarecidos pela investigação policial em curso. Mas tudo sugere que "Dark Horse" é o ponto de contato entre os dois grandes temas da eleição presidencial de 2026: o Banco Master e a conspiração com potência estrangeira para estrangular a economia brasileira, dois dos maiores crimes na extensa ficha policial do bolsonarismo.
Celso Rocha de Barros

Falta foco à diplomacia americana

A divulgação dos documentos de outubro do ano passado e de janeiro passado que continham o que seriam as condições para a abertura de negociações comerciais com o Brasil mostra algo inquietante: a diplomacia americana perdeu o foco, virou assembleia estudantil.


O conjunto de condicionantes virou um terreno baldio, fica a impressão de que os diversos lobbies de Washington passavam pelo rascunho e jogavam seus pleitos. A Boeing quer que as empresas aéreas brasileiras só comprem seus produtos. As big techs querem continuar fazendo o que bem entendem e os plantadores de soja querem que o Brasil ajude a “estabilizar o comércio mundial de soja”. Traduzindo: querem que o agro brasileiro ajude a turma da soja americana.

As propostas americanas foram rechaçadas, até porque essas negociações não podem ser conduzidas como pacotes. Cada item é um item e conversa-se devagar. Lidos de uma vez, parecem um instrumento de capitulação.

Os itens que tratam da próxima eleição brasileira são de uma ignorância abissal, como se em Pindorama houvesse um candidato prometendo melar o pleito.

A diplomacia americana já foi outra, ela dava pouco espaço ao improviso, ajudava os lobbies, porém mantinha a elegância.

A diplomacia trumpista é arrogante e vazia. O melhor que se pode fazer nesses casos é ficar longe. Bater boca não adianta nada e tentar negociar a sério poderá ser possível, mas dará muito mais trabalho, pois não havendo foco, não haverá prioridades.

Brasil de instituições em ruína e mal-estar econômico facilita projetos autoritários

O Brasil prepara a cama para quem venha a tentar uma solução autoritária? Para um autocrata eleito pela coalizão dos desesperados com os espertos do status quo?

Imagine-se uma situação em que seja extensa a sensação de baderna e descontrole, de expansão do crime e de ameaça a valores que constituem a identidade de seu grupo; um ambiente de notícias de corrupção, de padecimento socioeconômico e de cinismo em relação ao sistema de governo, sentimentos então exacerbados por pânicos político-morais manejados de modo a dar sentido a tudo isso.


Em escala menor, havia ingredientes dessa lista entre os mal-estares que precederam a revolta de 2013. Nenhum grupo político deu consequência imediata às insatisfações de então, de resto voltadas contra os partidos que estavam ali. No entanto, passou a se organizar um movimento que viria a se valer do desgosto antissistêmico, aprofundado pela Grande Recessão. Tal movimento chegou ao poder em 2018, com Jair Bolsonaro. Desde então conta com o apoio de um terço a metade do eleitorado.

O risco de autoritarismo vai além daquele representado pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que em parte se baseia na ideia de restauração de Bolsonaro 1 e, pois, de negação de que houve tentativa de golpe e de afirmação do plano de controlar instituições como polícia e Justiça. Além disso, tal candidatura elogia autocratas, de Bukele a Orban, passando por Trump, ou a eles se associam.

Para certos grupos sociais, o bolsonarismo seria apenas um Cavalo de Troia no qual galopariam para defender reformas ou interesses econômicos —em vez de cavalcantes, podem ser cavalgados. Não é destino. Graças, artimanhas e reconfigurações da política e até do ambiente econômico podem dar em resultados diversos. Mas o campo arruinado está aberto para aventuras políticas diversas.

O Supremo, quase metade sob suspeita de corrupção, está dividido entre grupos que disputam a maioria de votos pelo poder de controlar a política, seus acordões, favores empresariais e o que passa por Justiça —o conflito vai além desta eleição. A disputa eleitoral de 2026 também é corrida para subverter ainda mais o STF.

O crime das facções entranhou-se no poder em estados como o Rio de Janeiro e infiltra-se em cidades como São Paulo. Domina a amazônia, aproveitando-se da destruição, e por ali também organiza a empresa bandida (associada a empresas "legais") de drogas, armas, minérios, gado e madeira.

Entrincheirou-se nos combustíveis e tem domínios na finança, a mesma que administra o dinheiro da corrupção política e empresarial. O Congresso é disputa de feudos para a apropriação de recursos estatais a fim de eternizar dinastias e grupos políticos, empresariais ou puramente criminais. A facilidade com que Daniel Vorcaro comprou a elite no poder reforça a ideia de que o comércio político seja ainda mais extenso.

O país passará no mínimo por um período de dificuldades econômicas. Parte da solução do problema envolve a disputa mais acirrada pelo Orçamento —no curto prazo, perdas e ganhos, embora vá muito além disso, o que a desinformada esquerda não entende. O cinismo ou a revolta em relação ao sistema político não vai diminuir em tempos de dureza econômica e instituições destruídas. Diante da paisagem arruinada e do conflito sociopolítico, a ideia de solução autocrática pode atrair adeptos das piores intenções ou das piores ilusões.