quarta-feira, 16 de setembro de 2026
O STF, as eleições e o futuro do Brasil
A melancólica sessão deste 15 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF) terá impacto decisivo nas urnas, e o resultado das eleições que se avizinham, tanto para a Presidência da República quanto para a composição do futuro Congresso, certamente contribuirá para uma mudança significativa no papel institucional do STF.
Os ministros optaram por implodir a ordem vigente para evitar a singela abertura de uma investigação a respeito da conduta de um dos seus. Mas há sério risco de que sejam, eles próprios, os principais atingidos por essa decisão de radicalização.
Os avisos já vinham sendo dados há dias, semanas até. Mas a ferocidade com que o grupo de ministros mais próximo de Alexandre de Moraes se lançou à tarefa de dilapidar a autoridade de Edson Fachin durante quase sete horas de sessão pegou a todos de surpresa.
O ápice foi a decisão de Flávio Dino, ele próprio autor da questão de ordem que monopolizou toda a sessão, de pedir vista da petição, a tal “PET” a que aludiram durante horas, tendo, para isso, de voltar atrás por ora no próprio voto pela análise em conjunto dos casos de Moraes e André Mendonça.
Diante da evidência de que a questão de ordem produziria um empate e, a partir disso, poderia de novo caber a Fachin decidir o caminho a seguir, optou-se pelo plano B que esteve o tempo todo no horizonte: empurrar a decisão para depois das eleições. A ala “alexandrina” do STF apontou ação político-eleitoral de André Mendonça pelos métodos e pela escolha da data próxima ao 7 de Setembro para investir contra Moraes. O timing adotado pelo relator do Master de fato autoriza essa imputação.
Mas, com o espetáculo que promoveram na sessão de ontem, provavelmente esses ministros contribuíram de maneira mais decisiva para reforçar o discurso anti-STF que vem sendo entoado de forma oportunista pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ele próprio investigado pelo mesmo STF desde julho, por ter recebido milhões de Daniel Vorcaro e não ter explicado a destinação desses recursos.
Para a estratégia de Lula de se desvencilhar da crise do STF e do destino de Moraes, o protagonismo de Dino, indicado por ele e seu ex-ministro da Justiça, não ajuda em nada. Para leigos que não entendem a linguagem por vezes pernóstica e sempre inacessível dos ministros, o que restou do papelão de ontem é uma conclusão simples: os ministros estão dispostos a tudo, inclusive a enterrar a imagem do tribunal, para evitar que um deles seja até mesmo investigado.
Diante da decisão ostensiva por não deliberar, que deve levar, por um mínimo de coerência, a que se adie também na semana que vem a necessária apuração a respeito da conduta e dos procedimentos de Mendonça, a eleição acontecerá com esse imenso elefante espalhado na sala.
A depender do ânimo do eleitor perplexo e atordoado com tanto tumulto processual —razão por que a ministra Cármen Lúcia pediu desculpas tardias e pouco convincentes depois de um silêncio sepulcral durante todo o show de horrores —, os ministros podem deparar com uma composição de Executivo e Legislativo que os leve a discutir, na marra e completamente divididos, o que se recusam a tratar agora.
É extremamente grave e preocupante que a eleição tenha como um dos vetores principais uma ameaça explícita de reforma do Judiciário por vias tortas, a partir de um sentido de revanche e vingança. Mas é inegável que foi o próprio STF que mais contribuiu para essa situação, ao misturar de forma irresponsável a conduta pessoal de seus ministros com a respeitabilidade da própria Corte.
A depender do resultado de outubro, a reforma adiada do STF e a adoção de um simples Código de Conduta podem dar lugar ao emparedamento de um dos Poderes da República. Que não terá a coesão sequer para se contrapor a isso.
Os ministros optaram por implodir a ordem vigente para evitar a singela abertura de uma investigação a respeito da conduta de um dos seus. Mas há sério risco de que sejam, eles próprios, os principais atingidos por essa decisão de radicalização.
Os avisos já vinham sendo dados há dias, semanas até. Mas a ferocidade com que o grupo de ministros mais próximo de Alexandre de Moraes se lançou à tarefa de dilapidar a autoridade de Edson Fachin durante quase sete horas de sessão pegou a todos de surpresa.
O ápice foi a decisão de Flávio Dino, ele próprio autor da questão de ordem que monopolizou toda a sessão, de pedir vista da petição, a tal “PET” a que aludiram durante horas, tendo, para isso, de voltar atrás por ora no próprio voto pela análise em conjunto dos casos de Moraes e André Mendonça.
Diante da evidência de que a questão de ordem produziria um empate e, a partir disso, poderia de novo caber a Fachin decidir o caminho a seguir, optou-se pelo plano B que esteve o tempo todo no horizonte: empurrar a decisão para depois das eleições. A ala “alexandrina” do STF apontou ação político-eleitoral de André Mendonça pelos métodos e pela escolha da data próxima ao 7 de Setembro para investir contra Moraes. O timing adotado pelo relator do Master de fato autoriza essa imputação.
Mas, com o espetáculo que promoveram na sessão de ontem, provavelmente esses ministros contribuíram de maneira mais decisiva para reforçar o discurso anti-STF que vem sendo entoado de forma oportunista pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ele próprio investigado pelo mesmo STF desde julho, por ter recebido milhões de Daniel Vorcaro e não ter explicado a destinação desses recursos.
Para a estratégia de Lula de se desvencilhar da crise do STF e do destino de Moraes, o protagonismo de Dino, indicado por ele e seu ex-ministro da Justiça, não ajuda em nada. Para leigos que não entendem a linguagem por vezes pernóstica e sempre inacessível dos ministros, o que restou do papelão de ontem é uma conclusão simples: os ministros estão dispostos a tudo, inclusive a enterrar a imagem do tribunal, para evitar que um deles seja até mesmo investigado.
Diante da decisão ostensiva por não deliberar, que deve levar, por um mínimo de coerência, a que se adie também na semana que vem a necessária apuração a respeito da conduta e dos procedimentos de Mendonça, a eleição acontecerá com esse imenso elefante espalhado na sala.
A depender do ânimo do eleitor perplexo e atordoado com tanto tumulto processual —razão por que a ministra Cármen Lúcia pediu desculpas tardias e pouco convincentes depois de um silêncio sepulcral durante todo o show de horrores —, os ministros podem deparar com uma composição de Executivo e Legislativo que os leve a discutir, na marra e completamente divididos, o que se recusam a tratar agora.
É extremamente grave e preocupante que a eleição tenha como um dos vetores principais uma ameaça explícita de reforma do Judiciário por vias tortas, a partir de um sentido de revanche e vingança. Mas é inegável que foi o próprio STF que mais contribuiu para essa situação, ao misturar de forma irresponsável a conduta pessoal de seus ministros com a respeitabilidade da própria Corte.
A depender do resultado de outubro, a reforma adiada do STF e a adoção de um simples Código de Conduta podem dar lugar ao emparedamento de um dos Poderes da República. Que não terá a coesão sequer para se contrapor a isso.
Crises da imaginação progressista
Política é encenação. Nos últimos anos, virou um picadeiro em que lideranças disputam a opinião pública a partir do riso, do escárnio. Constatar o elemento teatral da política, porém, costuma ser tarefa dos cínicos, aqueles que demonizam a atividade humana por excelência acusando-a de teatro de marionetes.
É fora dessa lógica, no entanto, que afirmo que política é encenação. Na verdade, tudo que corresponde à vida social é encenado, ainda que inconscientemente. Os estudos de gênero, por exemplo, estão avançados na hipótese de que a performance orienta as maneiras de ser no mundo, como mostra Judith Butler.
Na política institucional, o esquema é parecido. Basta ver as inúmeras imagens de bolsonaristas ajoelhados rezando ao Deus neopentecostal dentro dos parlamentos brasileiros. A performatividade, no entanto, é comum a todos os espectros ideológicos. Afinal, o populismo, tão demonizado, é gênero discurso e não programa partidário, segundo Maria Esperanza Casullo.
Quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no debate presidencial de 2022 da TV Bandeirantes usando broche de campanha de combate à violência sexual contra menores, ele performou ser contra a pedofilia, contrapondo-se ao então presidente Jair Bolsonaro, que disse que “pintou um clima” com meninas venezuelas de 14 e 15 anos. Sintetizando, é provável, visto o histórico, que o petista realmente rechace a pedofilia – nem toda performance é falsa. Agora, a ação política foi encenada. Era uma mensagem clara aos eleitores de que ele demoniza a violência sexual e, de forma subliminar ma non troppo, acusar o adversário de ter postura oposta. Tudo isso é válido. Faz parte do jogo.
No passado, este tipo de estratégia na política era quase exclusividade dos períodos eleitorais. Com a comunicação digital, as campanhas se tornaram permanentes. E para fazer campanhas, grupos com mais orçamento contratam consultores, que se valem de diversas metodologias quantitativas e qualitativas das ciências sociais para traçarem diagnósticos da opinião pública. O rápido desenvolvimento tecnológico torna os resultados mais precisos ano a ano.
Com as informações, os profissionais desenvolvem estratégias para conquistar objetivos, mitigando possíveis impactos negativos e ressaltando aspectos positivos. Criam-se linhas narrativas. Em outras palavras, planejamentos estratégicos que guiarão a encenação do candidato ao longo do período pré-estabelecido – ou até os grupos focais mostrarem que tais discursos perderam a validade. As narrativas valem-se da poética, de recursos literários para obterem seus resultados. É performance, mas é como se Shakespeare tivesse à mão ferramentas de análise de dados avançadíssimas.
O que os profissionais da comunicação política chamam de “campanha permanente” é, na realidade, o auge do que Walter Benjamin chamou de “estetização da política”. O filósofo alemão argumenta que a reprodutibilidade técnica atrofia a aura da obra de arte, isto é, a distância contemplativa entre o emissor e o receptador da obra de arte.
Com isso, o objeto artístico perderia sua autenticidade, transformando a função social da arte, o culto, fundando-se à política. Essa transposição teria criado a cultura de massas. Sem aura, a arte torna-se mero entretenimento servindo a fins mercadológicos. O público passaria, portanto, a cultuar o produto exposto.
O fascismo, então, se aproveitaria de tal dinâmica para corromper a massa, apagando a formação de consciência de classe. Assim, “o fascismo caminha diretamente em direção a uma estetização da vida política. Com D’Annunzio a decadência penetrou a política; com Marinetti, o futurismo; e com Hitler, a tradição de Schwabling”. Tudo isso culminou, para Benjamin, em guerra. O manifesto de Marinetti, inclusive, referencia a guerra como objetivo estético.
A reprodutibilidade técnica a que Walter Benjamin se refere é a fotografia e, principalmente, o cinema. No século 21, os serviços de inteligência artificial e o predomínio da comunicação digital – mediada pelas Big Techs do Vale do Silício – elevou a reprodução ao máximo de sua eficiência.
Em 2007, Steve Jobs apresenta a primeira versão do iPhone, ainda rudimentar. No ano seguinte, Barack Obama é eleito presidente dos Estados Unidos, sendo pioneiro no uso das redes sociais digitais em campanhas. Em 2016, menos de dez anos depois, os smartphones já estavam nas mãos de quase toda a totalidade dos eleitores estadunidenses. E é nesse ano que este país elege o populista de extrema direita Donald Trump, abrindo margem para líderes autoritários. Em 2022, a Open AI lança o ChatGPT, mudando para sempre a (re)produção intelectual humana. Em 2026, enquanto escrevo essa dissertação, o mundo vive em hegemonia fascista. Gaza e Ucrânia ardem no seio de uma batalha que é, antes de tudo, estética.
Escutei um rapaz conversando com um amigo nos corredores da universidade. “A arte nunca foi tão acessível. Nunca houve tantas pessoas consumindo arte”, disse ele, e a frase permaneceu reverberando em mim, que ouvi a conversa de escanteio. Todos estão conectados, assistindo a filmes e séries, ouvindo músicas nas plataformas de streaming. Com o Instagram e TikTok, a imagem se tornou permanente na vida das massas. Com isso, argumenta-se que há hegemonia progressista no campo das artes (olá, olavistas), afinal temas ditos identitários parecem ganhar algum tipo de tração nos espaços intelectualizados.
Isso é mentira em partes, visto que as redes operam em bolhas, evidenciando aquilo que o público quer ver – mesmo que seja para odiar. Porém, caso fosse verdadeiro, elas funcionam a partir da lógica do consumo. Os algoritmos entregam ao público aquilo que tem função mercadológica, tudo se torna pasteurizado. Um lançamento parece ser sempre o mesmo. O público de Taylor Swift celebra os relançamentos de álbuns da cantora como se fossem novidade.
O fascismo contemporâneo aproveita, então, a corrosão da função social da arte, como apontava Walter Benjamin, culminando na ausência de consciência de classe, para estetizar sua prática política. Propagam-se, então, narrativas populistas que dividem a sociedade entre um povo oprimido e uma elite opressora, composta por vilões caricatos (o bilionário judeu, a lésbica feminista, o terrorista imigrante). Os salvadores seguem perfeitamente a jornada do herói. Deus opera pelas mãos de Donald Trump, Javier Milei é o leão que veio para devorar a casta, Jair Bolsonaro é o mito que, com mãos de ferro, salvará o Brasil da corrupção e do progressismo desmoralizante. Para nós, os antifascistas, chega a ser engraçado descrever essas estratégias. E o desconforto cômico que sentimos é pela inautenticidade. Afinal, tudo isso é ficção. A política é encenação.
“Assim configura-se a estetização da política operada pelo fascismo. A ele o comunismo responde com a politização da arte”, analisa Benjamin. Ele infelizmente não sobreviveu ao nazismo, suicidando-se na fronteira da França para evitar ser enviado a um campo de concentração. O que derrotou o fascismo foram os exércitos, não a politização da arte. Esta serviu no processo de desnazificação. Mas interpreto a sentença de Benjamin ainda na etapa de disputa, quando o fascismo busca consolidar-se. Aí sim a politização da arte é capaz de fazer frente a estetização da política.
Acontece que, neste tempo, no século 21, é ingenuidade falar em comunismo. Ao ser perguntada sobre a maior conquista de seu governo, Margareth Thatcher respondeu que é Tony Blair e o novo Trabalhismo inglês. Isto é, a esquerda tornou-se neoliberal, mas com verniz progressista, diria Nancy Fraser. E assim é possível afirmar que houve intensa politização da arte justamente no sentido neoliberal. O que é mais individual do que o eu? E quais são os romances em destaque no mercado, nas listas de recomendações? A grande tendência da literatura contemporânea são as “autoficções”, trabalhos autobiográficos com alto componente narcísico em que, quase sempre, as narrações são sobre as dores, as lutas – mas, note-se, sempre individuais. Edouard Louis fala da sua homofobia sofrida. Annie Ernaux fala do seu aborto. É lógico que são experiências com forte componente universal. Os leitores, então, se identificam com as narrativas do eu. A politização da arte é, então, uma politização conservadora. Não aponta para mudanças estruturais, não imagina o futuro, mas instiga o ressentimento de seu público.
Com isso, o progressismo monetiza traumas, colocando-se sempre na posição de vítima. E a vítima, que passa a vida toda ressentida sem agir, não é mais do que um ser impotente. Já não há mais consciência de classe, apenas glorificação da dor, a aceitação do lugar de derrotado. Território fértil para o fascimo.
“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, sentencia Mark Fisher. A questão é que com a reprodutibilidade técnica, imaginar tornou-se ato desnecessário. Tudo é literal, tudo é biográfico, ainda que fantasioso. É missão do nosso tempo, portanto, mostrar que é possível um futuro melhor, mais justo. Cabe à literatura e às artes imaginar o amanhã.
Por outro lado, esta arte não deve ser panfletária. Jacques Rancière classifica a forma propagandista de se fazer arte como parte de um “regime ético”. A proposta, então, não é um movimento artístico que defina quem são os bons e os maus – isso a autoficção vitimista já faz.
Leitores são capazes de, por seu próprio sentido ético, identificarem os conflitos sociais narrados. A missão ética da arte, esta sim, com alto caráter revolucionário, é tão somente imaginar e oferecer ferramentas poéticas e metáforas para tanto. Mostrar que é possível imaginar, esperançar.
É fora dessa lógica, no entanto, que afirmo que política é encenação. Na verdade, tudo que corresponde à vida social é encenado, ainda que inconscientemente. Os estudos de gênero, por exemplo, estão avançados na hipótese de que a performance orienta as maneiras de ser no mundo, como mostra Judith Butler.
Na política institucional, o esquema é parecido. Basta ver as inúmeras imagens de bolsonaristas ajoelhados rezando ao Deus neopentecostal dentro dos parlamentos brasileiros. A performatividade, no entanto, é comum a todos os espectros ideológicos. Afinal, o populismo, tão demonizado, é gênero discurso e não programa partidário, segundo Maria Esperanza Casullo.
Quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no debate presidencial de 2022 da TV Bandeirantes usando broche de campanha de combate à violência sexual contra menores, ele performou ser contra a pedofilia, contrapondo-se ao então presidente Jair Bolsonaro, que disse que “pintou um clima” com meninas venezuelas de 14 e 15 anos. Sintetizando, é provável, visto o histórico, que o petista realmente rechace a pedofilia – nem toda performance é falsa. Agora, a ação política foi encenada. Era uma mensagem clara aos eleitores de que ele demoniza a violência sexual e, de forma subliminar ma non troppo, acusar o adversário de ter postura oposta. Tudo isso é válido. Faz parte do jogo.
No passado, este tipo de estratégia na política era quase exclusividade dos períodos eleitorais. Com a comunicação digital, as campanhas se tornaram permanentes. E para fazer campanhas, grupos com mais orçamento contratam consultores, que se valem de diversas metodologias quantitativas e qualitativas das ciências sociais para traçarem diagnósticos da opinião pública. O rápido desenvolvimento tecnológico torna os resultados mais precisos ano a ano.
Com as informações, os profissionais desenvolvem estratégias para conquistar objetivos, mitigando possíveis impactos negativos e ressaltando aspectos positivos. Criam-se linhas narrativas. Em outras palavras, planejamentos estratégicos que guiarão a encenação do candidato ao longo do período pré-estabelecido – ou até os grupos focais mostrarem que tais discursos perderam a validade. As narrativas valem-se da poética, de recursos literários para obterem seus resultados. É performance, mas é como se Shakespeare tivesse à mão ferramentas de análise de dados avançadíssimas.
O que os profissionais da comunicação política chamam de “campanha permanente” é, na realidade, o auge do que Walter Benjamin chamou de “estetização da política”. O filósofo alemão argumenta que a reprodutibilidade técnica atrofia a aura da obra de arte, isto é, a distância contemplativa entre o emissor e o receptador da obra de arte.
Com isso, o objeto artístico perderia sua autenticidade, transformando a função social da arte, o culto, fundando-se à política. Essa transposição teria criado a cultura de massas. Sem aura, a arte torna-se mero entretenimento servindo a fins mercadológicos. O público passaria, portanto, a cultuar o produto exposto.
O fascismo, então, se aproveitaria de tal dinâmica para corromper a massa, apagando a formação de consciência de classe. Assim, “o fascismo caminha diretamente em direção a uma estetização da vida política. Com D’Annunzio a decadência penetrou a política; com Marinetti, o futurismo; e com Hitler, a tradição de Schwabling”. Tudo isso culminou, para Benjamin, em guerra. O manifesto de Marinetti, inclusive, referencia a guerra como objetivo estético.
A reprodutibilidade técnica a que Walter Benjamin se refere é a fotografia e, principalmente, o cinema. No século 21, os serviços de inteligência artificial e o predomínio da comunicação digital – mediada pelas Big Techs do Vale do Silício – elevou a reprodução ao máximo de sua eficiência.
Em 2007, Steve Jobs apresenta a primeira versão do iPhone, ainda rudimentar. No ano seguinte, Barack Obama é eleito presidente dos Estados Unidos, sendo pioneiro no uso das redes sociais digitais em campanhas. Em 2016, menos de dez anos depois, os smartphones já estavam nas mãos de quase toda a totalidade dos eleitores estadunidenses. E é nesse ano que este país elege o populista de extrema direita Donald Trump, abrindo margem para líderes autoritários. Em 2022, a Open AI lança o ChatGPT, mudando para sempre a (re)produção intelectual humana. Em 2026, enquanto escrevo essa dissertação, o mundo vive em hegemonia fascista. Gaza e Ucrânia ardem no seio de uma batalha que é, antes de tudo, estética.
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Isso é mentira em partes, visto que as redes operam em bolhas, evidenciando aquilo que o público quer ver – mesmo que seja para odiar. Porém, caso fosse verdadeiro, elas funcionam a partir da lógica do consumo. Os algoritmos entregam ao público aquilo que tem função mercadológica, tudo se torna pasteurizado. Um lançamento parece ser sempre o mesmo. O público de Taylor Swift celebra os relançamentos de álbuns da cantora como se fossem novidade.
O fascismo contemporâneo aproveita, então, a corrosão da função social da arte, como apontava Walter Benjamin, culminando na ausência de consciência de classe, para estetizar sua prática política. Propagam-se, então, narrativas populistas que dividem a sociedade entre um povo oprimido e uma elite opressora, composta por vilões caricatos (o bilionário judeu, a lésbica feminista, o terrorista imigrante). Os salvadores seguem perfeitamente a jornada do herói. Deus opera pelas mãos de Donald Trump, Javier Milei é o leão que veio para devorar a casta, Jair Bolsonaro é o mito que, com mãos de ferro, salvará o Brasil da corrupção e do progressismo desmoralizante. Para nós, os antifascistas, chega a ser engraçado descrever essas estratégias. E o desconforto cômico que sentimos é pela inautenticidade. Afinal, tudo isso é ficção. A política é encenação.
“Assim configura-se a estetização da política operada pelo fascismo. A ele o comunismo responde com a politização da arte”, analisa Benjamin. Ele infelizmente não sobreviveu ao nazismo, suicidando-se na fronteira da França para evitar ser enviado a um campo de concentração. O que derrotou o fascismo foram os exércitos, não a politização da arte. Esta serviu no processo de desnazificação. Mas interpreto a sentença de Benjamin ainda na etapa de disputa, quando o fascismo busca consolidar-se. Aí sim a politização da arte é capaz de fazer frente a estetização da política.
Acontece que, neste tempo, no século 21, é ingenuidade falar em comunismo. Ao ser perguntada sobre a maior conquista de seu governo, Margareth Thatcher respondeu que é Tony Blair e o novo Trabalhismo inglês. Isto é, a esquerda tornou-se neoliberal, mas com verniz progressista, diria Nancy Fraser. E assim é possível afirmar que houve intensa politização da arte justamente no sentido neoliberal. O que é mais individual do que o eu? E quais são os romances em destaque no mercado, nas listas de recomendações? A grande tendência da literatura contemporânea são as “autoficções”, trabalhos autobiográficos com alto componente narcísico em que, quase sempre, as narrações são sobre as dores, as lutas – mas, note-se, sempre individuais. Edouard Louis fala da sua homofobia sofrida. Annie Ernaux fala do seu aborto. É lógico que são experiências com forte componente universal. Os leitores, então, se identificam com as narrativas do eu. A politização da arte é, então, uma politização conservadora. Não aponta para mudanças estruturais, não imagina o futuro, mas instiga o ressentimento de seu público.
Com isso, o progressismo monetiza traumas, colocando-se sempre na posição de vítima. E a vítima, que passa a vida toda ressentida sem agir, não é mais do que um ser impotente. Já não há mais consciência de classe, apenas glorificação da dor, a aceitação do lugar de derrotado. Território fértil para o fascimo.
“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, sentencia Mark Fisher. A questão é que com a reprodutibilidade técnica, imaginar tornou-se ato desnecessário. Tudo é literal, tudo é biográfico, ainda que fantasioso. É missão do nosso tempo, portanto, mostrar que é possível um futuro melhor, mais justo. Cabe à literatura e às artes imaginar o amanhã.
Por outro lado, esta arte não deve ser panfletária. Jacques Rancière classifica a forma propagandista de se fazer arte como parte de um “regime ético”. A proposta, então, não é um movimento artístico que defina quem são os bons e os maus – isso a autoficção vitimista já faz.
Leitores são capazes de, por seu próprio sentido ético, identificarem os conflitos sociais narrados. A missão ética da arte, esta sim, com alto caráter revolucionário, é tão somente imaginar e oferecer ferramentas poéticas e metáforas para tanto. Mostrar que é possível imaginar, esperançar.
Política e esperança, substantivos femininos
Pelo menos duas instituições internacionais relevantes apontam a Dinamarca como o país onde há menos corrupção governamental no mundo. Em ambas as listas, o Brasil não figura sequer entre os 50 melhores colocados.
Não faltam argumentos para explicar o exemplo positivo do país europeu, para além de suas estruturas de governo ou de seu alto índice de desenvolvimento humano, mas vamos nos concentrar em uma razão que não costuma ser iluminada da forma devida: a participação das mulheres na política.
A Dinamarca também apresenta altos índices de qualidade de vida e felicidade de seus habitantes. Não é um país tropical abençoado por Deus, mas uma nação nórdica governada por uma primeira-ministra desde 2019 e com 48% das cadeiras do parlamento nacional preenchidas por mulheres.
Pesquisa do Instituto Ideia com a Voga Inteligência e Comunicação, divulgada recentemente, mostra que 55% dos brasileiros afirmam que o Brasil seria um país menos corrupto com mais mulheres na política. E 58% acreditam que elas têm soluções melhores para os problemas reais do Brasil. No entanto, 35% ainda afirmam que causa estranhamento ver mulheres na política, índice que só é menor do que a presença de mulheres nas forças armadas.
São muitas décadas em que o machismo estrutural molda percepções e decisões políticas no Brasil. Sua face visível é uma maioria de homens brancos que se revezam no comando de instituições públicas e governos (com algumas honrosas exceções). Quando se pensa em desenvolvimento humano, equidade, distribuição de renda e qualidade de vida em larga escala, esse modo de fazer política produziu resultados medíocres para um país com as riquezas e o potencial do Brasil.
E quanto à corrupção em todas as esferas de poder, compactuada por entes privados que se beneficiam dela, quando exposta e escancarada, revela invariavelmente como protagonistas homens de ternos bem cortados, gostos extravagantes e reputação fabricada.
Na Dinamarca, a afirmação da equidade de gênero é resultado de uma visão de estado e de mundo que entendeu que representatividade não é retórica e que o pensamento e a atuação feminina nas corporações, instituições e governos traz não apenas um saudável e necessário equilíbrio para o debate e as decisões, mas também demonstra maturidade política e produz resultados melhores.
Enquanto por aqui todos os partidos, do PL ao PT, pleitearam conjuntamente ao TSE flexibilizar a política de cotas para mulheres e negros nas eleições deste ano. Pode-se dizer que foi a única coisa que uniu esquerda e direita neste Brasil polarizado. Olhando para o primeiro quarto deste novo século, houve mudança significativa na realidade sociodemográfica brasileira, com mais mulheres chefiando lares, empreendendo e tornando-se maioria absoluta na formação acadêmica. Movimento de autonomia que cresceu na mesma medida em que todos os tipos de violência contra a mulher, chegando à brutal estatística atual de feminicídios no país.
Se a realidade social mudou, o fato é que política não conseguiu acompanhar. Segundo a ONU, o Brasil ocupa a vergonhosa posição de 139º no mundo em representação parlamentar feminina, com apenas 17% das cadeiras ocupadas por mulheres, um terço do que é hoje o retrato da população do país. Nem é preciso comparar com o mundo desenvolvido para perceber como ficamos muito para trás.
Podemos crer que a mudança, assim como na Dinamarca, acontecerá de dentro para fora, com a tardia consciência e atuação dos dirigentes partidários, das lideranças políticas nacionais ou de poderes relevantes (como a imprensa) para enfrentar o problema. Mas a história do Brasil, infelizmente, não faz jus à crença.
Portanto, talvez a mudança possa começar a acontecer através da manifestação popular democrática – o voto – nesta eleição de 2026. E como provavelmente você ainda não escolheu seus candidatos para o pleito de outubro, passe a considerar fortemente as candidatas. Vai fazer um bem enorme ao Brasil.
Não faltam argumentos para explicar o exemplo positivo do país europeu, para além de suas estruturas de governo ou de seu alto índice de desenvolvimento humano, mas vamos nos concentrar em uma razão que não costuma ser iluminada da forma devida: a participação das mulheres na política.
A Dinamarca também apresenta altos índices de qualidade de vida e felicidade de seus habitantes. Não é um país tropical abençoado por Deus, mas uma nação nórdica governada por uma primeira-ministra desde 2019 e com 48% das cadeiras do parlamento nacional preenchidas por mulheres.
Pesquisa do Instituto Ideia com a Voga Inteligência e Comunicação, divulgada recentemente, mostra que 55% dos brasileiros afirmam que o Brasil seria um país menos corrupto com mais mulheres na política. E 58% acreditam que elas têm soluções melhores para os problemas reais do Brasil. No entanto, 35% ainda afirmam que causa estranhamento ver mulheres na política, índice que só é menor do que a presença de mulheres nas forças armadas.
São muitas décadas em que o machismo estrutural molda percepções e decisões políticas no Brasil. Sua face visível é uma maioria de homens brancos que se revezam no comando de instituições públicas e governos (com algumas honrosas exceções). Quando se pensa em desenvolvimento humano, equidade, distribuição de renda e qualidade de vida em larga escala, esse modo de fazer política produziu resultados medíocres para um país com as riquezas e o potencial do Brasil.
E quanto à corrupção em todas as esferas de poder, compactuada por entes privados que se beneficiam dela, quando exposta e escancarada, revela invariavelmente como protagonistas homens de ternos bem cortados, gostos extravagantes e reputação fabricada.
Na Dinamarca, a afirmação da equidade de gênero é resultado de uma visão de estado e de mundo que entendeu que representatividade não é retórica e que o pensamento e a atuação feminina nas corporações, instituições e governos traz não apenas um saudável e necessário equilíbrio para o debate e as decisões, mas também demonstra maturidade política e produz resultados melhores.
Enquanto por aqui todos os partidos, do PL ao PT, pleitearam conjuntamente ao TSE flexibilizar a política de cotas para mulheres e negros nas eleições deste ano. Pode-se dizer que foi a única coisa que uniu esquerda e direita neste Brasil polarizado. Olhando para o primeiro quarto deste novo século, houve mudança significativa na realidade sociodemográfica brasileira, com mais mulheres chefiando lares, empreendendo e tornando-se maioria absoluta na formação acadêmica. Movimento de autonomia que cresceu na mesma medida em que todos os tipos de violência contra a mulher, chegando à brutal estatística atual de feminicídios no país.
Se a realidade social mudou, o fato é que política não conseguiu acompanhar. Segundo a ONU, o Brasil ocupa a vergonhosa posição de 139º no mundo em representação parlamentar feminina, com apenas 17% das cadeiras ocupadas por mulheres, um terço do que é hoje o retrato da população do país. Nem é preciso comparar com o mundo desenvolvido para perceber como ficamos muito para trás.
Podemos crer que a mudança, assim como na Dinamarca, acontecerá de dentro para fora, com a tardia consciência e atuação dos dirigentes partidários, das lideranças políticas nacionais ou de poderes relevantes (como a imprensa) para enfrentar o problema. Mas a história do Brasil, infelizmente, não faz jus à crença.
Portanto, talvez a mudança possa começar a acontecer através da manifestação popular democrática – o voto – nesta eleição de 2026. E como provavelmente você ainda não escolheu seus candidatos para o pleito de outubro, passe a considerar fortemente as candidatas. Vai fazer um bem enorme ao Brasil.
As Cruzadas são fonte recorrente de inspiração para líderes políticos
“O momento atual é muito semelhante ao século XI… Não queremos lutar, mas, como nossos irmãos cristãos há mil anos, devemos fazê-lo.” Essas são as palavras de Pete Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA, em seu livro de 2020, Cruzada Americana: Nossa Luta para Permanecer Livre . Hegseth tem usado repetidamente a linguagem bíblica e o simbolismo das Cruzadas para enquadrar tanto a política interna quanto a internacional.
E ele não é o único. A questão é por que as Cruzadas são uma fonte de inspiração tão poderosa para os líderes contemporâneos.
A história das Cruzadas é um exemplo de como a religião pode se tornar uma ferramenta poderosa para fins políticos em larga escala.
Em meados do século XI, os turcos seljúcidas (muçulmanos) conquistaram vastos territórios no Oriente Médio. No início da década de 1070, eles haviam tomado o controle de Jerusalém, o local mais sagrado da cristandade. O imperador bizantino Aleixo I Comneno apelou ao Papa Urbano II em 1095 por ajuda para se defender dos seljúcidas. Para o papado, essa era uma oportunidade de demonstrar seu poder, mobilizando a nobreza europeia e embarcando em nada menos que uma Guerra Santa.
No contexto da Europa medieval, uma era assolada por secas, fomes e epidemias, a crença no "fim dos tempos" era generalizada. O apelo de Urbano II por uma Guerra Santa para "libertar a Igreja de Deus" demonizou os muçulmanos e prometeu aos cruzados o perdão de todos os seus pecados passados e a salvação eterna.
"Se pensarmos no que uma cruzada implicava, veremos que as pessoas eram solicitadas a aventurar-se no desconhecido, viajando milhares de quilômetros para terras inexploradas", diz Jonathan Phillips, especialista em história das Cruzadas da Royal Holloway University, em Londres. As chances de morte variavam de 35 a 40 por cento, afirma ele.
O apelo de Urbano à Guerra Santa foi atendido por homens e mulheres de todas as classes sociais, "de príncipes a camponeses", observa Phillips, e, acompanhados por pregadores, partiram para a Terra Santa em 1096. A chamada Cruzada Popular fez suas primeiras vítimas na Renânia, onde comunidades judaicas foram massacradas em um dos primeiros surtos de antissemitismo na Europa medieval.
A Terra Santa, localizada entre o que hoje são a Turquia, a Síria e o Egito, era uma sociedade multilíngue dividida entre os turcos seljúcidas (sunitas) e o califado fatímida (xiitas).
Mohamad El-Merheb, especialista no Mediterrâneo oriental islâmico pré-moderno da SOAS, Universidade de Londres, acredita que "algumas cidades eram bem defendidas e outras não; mas tudo isso ocorreu em um contexto de poder político muito fragmentado".
Os cruzados realizaram o que El-Merheb descreve como uma série de conquistas rápidas de cidades importantes. No entanto, a maioria retornou para casa ou morreu de doenças, fome ou puro esgotamento.
Quando conquistaram Jerusalém em 1099, os cruzados massacraram milhares de muçulmanos e judeus, pois não conseguiam distinguir entre eles.
Muitos historiadores consideram a queda de Acre para os guerreiros mamelucos em 1291 como o marco do fim das Cruzadas na Terra Santa. No entanto, outras cruzadas foram convocadas, seja para deter o avanço dos turcos otomanos na Europa Oriental durante o século XIV, seja como campanhas militares cristãs da Reconquista para retomar o controle da Península Ibérica do domínio muçulmano até o final do século XV.
O legado das Cruzadas permanece um poderoso e controverso ponto de referência cultural tanto no Oriente quanto no Ocidente. A memória histórica dessas guerras santas medievais é frequentemente usada para definir identidades, políticas e conflitos modernos .
Em 2001, o presidente dos EUA, George W. Bush, causou grande alvoroço ao descrever a chamada "Guerra ao Terror" como uma "cruzada", um termo que Osama bin Laden havia usado anteriormente para retratar as guerras lideradas pelos EUA como conflitos religiosos com o objetivo de destruir o Islã.
Em sua propaganda para legitimar sua jihad global, Bin Laden também invocou o legado de Saladino, um lendário sultão turco de origem curda, venerado até hoje como o herói que reconquistou Jerusalém dos cruzados em 1187.
El-Merheb explica que "ao longo do século XX, muitos grupos islamistas também começaram a se referir às potências ocidentais como cruzadas. Assim, isso se tornou parte do nacionalismo político, tanto em nível estatal quanto popular — por exemplo, no cinema. Agora, no Ocidente, está acontecendo o oposto."
A frase em latim "Deus vult" ("Deus o quer"), lema da Primeira Cruzada em 1095, foi usada pelo assassino em massa de extrema-direita Anders Breivik. Também foi usada pelo partido alemão de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), e Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos EUA, a tem tatuada no braço.
No entanto, El-Merheb acredita que essas referências muitas vezes reduzem as Cruzadas a um simples confronto entre o cristianismo e o islamismo, e "ignoram as inúmeras alianças inter-religiosas entre muçulmanos e cruzados".
E ele não é o único. A questão é por que as Cruzadas são uma fonte de inspiração tão poderosa para os líderes contemporâneos.
A história das Cruzadas é um exemplo de como a religião pode se tornar uma ferramenta poderosa para fins políticos em larga escala.
No Concilio de Clermont de 1095, o papa Urbano II convocou a guerra santa: "Deus vult!" |
No contexto da Europa medieval, uma era assolada por secas, fomes e epidemias, a crença no "fim dos tempos" era generalizada. O apelo de Urbano II por uma Guerra Santa para "libertar a Igreja de Deus" demonizou os muçulmanos e prometeu aos cruzados o perdão de todos os seus pecados passados e a salvação eterna.
"Se pensarmos no que uma cruzada implicava, veremos que as pessoas eram solicitadas a aventurar-se no desconhecido, viajando milhares de quilômetros para terras inexploradas", diz Jonathan Phillips, especialista em história das Cruzadas da Royal Holloway University, em Londres. As chances de morte variavam de 35 a 40 por cento, afirma ele.
O apelo de Urbano à Guerra Santa foi atendido por homens e mulheres de todas as classes sociais, "de príncipes a camponeses", observa Phillips, e, acompanhados por pregadores, partiram para a Terra Santa em 1096. A chamada Cruzada Popular fez suas primeiras vítimas na Renânia, onde comunidades judaicas foram massacradas em um dos primeiros surtos de antissemitismo na Europa medieval.
A Terra Santa, localizada entre o que hoje são a Turquia, a Síria e o Egito, era uma sociedade multilíngue dividida entre os turcos seljúcidas (sunitas) e o califado fatímida (xiitas).
Mohamad El-Merheb, especialista no Mediterrâneo oriental islâmico pré-moderno da SOAS, Universidade de Londres, acredita que "algumas cidades eram bem defendidas e outras não; mas tudo isso ocorreu em um contexto de poder político muito fragmentado".
Os cruzados realizaram o que El-Merheb descreve como uma série de conquistas rápidas de cidades importantes. No entanto, a maioria retornou para casa ou morreu de doenças, fome ou puro esgotamento.
Quando conquistaram Jerusalém em 1099, os cruzados massacraram milhares de muçulmanos e judeus, pois não conseguiam distinguir entre eles.
Muitos historiadores consideram a queda de Acre para os guerreiros mamelucos em 1291 como o marco do fim das Cruzadas na Terra Santa. No entanto, outras cruzadas foram convocadas, seja para deter o avanço dos turcos otomanos na Europa Oriental durante o século XIV, seja como campanhas militares cristãs da Reconquista para retomar o controle da Península Ibérica do domínio muçulmano até o final do século XV.
O legado das Cruzadas permanece um poderoso e controverso ponto de referência cultural tanto no Oriente quanto no Ocidente. A memória histórica dessas guerras santas medievais é frequentemente usada para definir identidades, políticas e conflitos modernos .
Em 2001, o presidente dos EUA, George W. Bush, causou grande alvoroço ao descrever a chamada "Guerra ao Terror" como uma "cruzada", um termo que Osama bin Laden havia usado anteriormente para retratar as guerras lideradas pelos EUA como conflitos religiosos com o objetivo de destruir o Islã.
Em sua propaganda para legitimar sua jihad global, Bin Laden também invocou o legado de Saladino, um lendário sultão turco de origem curda, venerado até hoje como o herói que reconquistou Jerusalém dos cruzados em 1187.
El-Merheb explica que "ao longo do século XX, muitos grupos islamistas também começaram a se referir às potências ocidentais como cruzadas. Assim, isso se tornou parte do nacionalismo político, tanto em nível estatal quanto popular — por exemplo, no cinema. Agora, no Ocidente, está acontecendo o oposto."
A frase em latim "Deus vult" ("Deus o quer"), lema da Primeira Cruzada em 1095, foi usada pelo assassino em massa de extrema-direita Anders Breivik. Também foi usada pelo partido alemão de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), e Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos EUA, a tem tatuada no braço.
No entanto, El-Merheb acredita que essas referências muitas vezes reduzem as Cruzadas a um simples confronto entre o cristianismo e o islamismo, e "ignoram as inúmeras alianças inter-religiosas entre muçulmanos e cruzados".
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