terça-feira, 28 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


A fúria dos eleitores ao redor do mundo

Na últma semana, o Reino Unido empossou seu sétimo premiê em uma década. A França viu passar quase o mesmo número de líderes em alguns anos. Sua próxima presidente pode ser Marine Le Pen, figura antes marginalizada. Na Alemanha, o partido de extrema direita AfD – minúsculo há poucos anos – lidera as pesquisas.

Até as democracias do Leste da Ásia – estáveis, prudentes e até monótonas – viram governos no Japão, na Coreia do Sul e em Taiwan enfrentarem dificuldades em meio à crescente insatisfação popular. E, onde populistas estão no poder, a situação não é muito diferente. Donald Trump registra um índice de aprovação perto do mais baixo já visto entre presidentes americanos modernos nesta fase do mandato. As democracias conseguem funcionar?


Em todo o mundo democrático, muitos países tributam, contraem empréstimos e gastam quantias exorbitantes. Os gastos já representam, em média, mais de 40% do PIB de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e a relação entre a dívida e PIB nesses países mais do que dobrou nas últimas três décadas. No entanto, as pessoas não parecem acreditar terem sido beneficiadas.

Por que isso aconteceu? Parte da explicação é econômica. O custo elevado da moradia, a estagnação da renda e o aumento da desigualdade alimentaram a insatisfação. Mas a economia é apenas uma parte da história. Os EUA registraram um crescimento mais robusto do que a maioria das outras economias avançadas.

A França, sob a presidência de Emmanuel Macron, reduziu o desemprego e atraiu mais projetos de investimento estrangeiro do que qualquer outro país da Europa por sete anos consecutivos, segundo análise da Ernst & Young. A Coreia do Sul é um caso de sucesso econômico. O Japão vivenciava uma recuperação. No entanto, governos democráticos são impopulares em quase todas as partes.

A explicação mais ampla é que estamos vivendo uma das grandes revoluções tecnológicas da história. E essas transformações sempre geram profunda ansiedade e medo.

A última transformação tecnológica dessa magnitude ocorreu entre 1880 e 1920. A eletricidade, o telefone, as ferrovias, o automóvel e o cinema revolucionaram setores inteiros e modos de vida. Milhões de pessoas deixaram o campo rumo às cidades.

O comércio global desestabilizou economias locais. Novas fortunas surgiram da noite para o dia, enquanto antigas profissões desapareciam. Nesse cenário de turbulência, a frustração e a raiva encontraram canais de expressão política. A esquerda voltou-se para o comunismo; a direita, para o fascismo. O que se seguiu foram novos movimentos de massa, convulsões culturais e uma guerra mundial.

Nossa revolução é digital, e não elétrica: começou com os computadores, seguiuse com a internet, depois com os smartphones e as redes sociais e, agora, com a inteligência artificial. Esta última pode vir a ser a mais transformadora de todas. Como disse na semana passada Demis Hassabis, da DeepMind: “Encontramos uma maneira de fazer a areia pensar” – uma referência aos chips de silício, feitos de areia.

A capacidade de produzir inteligência em massa – uma inteligência que se torna mais poderosa a cada mês – é, certamente, o maior triunfo tecnológico da história. Mas isso também significa que ela pode ser a mais disruptiva.

O cientista político Samuel Huntington observou que “o problema fundamental da política é a defasagem no desenvolvimento das instituições políticas em relação às mudanças sociais e econômicas”. Mudanças em grande escala geram ansiedade. E sociedades ansiosas exigem mais da política. Os cidadãos querem líderes que restaurem a ordem, garantam a segurança e os ajudem a recuperar a sensação de controle sobre forças que parecem, cada vez mais, escapar ao alcance de qualquer pessoa.

Embora a tecnologia eleve drasticamente as expectativas, ela também torna o governo democrático menos capaz em comparação. Chamamos um carro em três minutos. Uma encomenda chega no mesmo dia. A IA responde a perguntas complexas em segundos e realiza, em poucos minutos, tarefas que antes levavam meses para serem concluídas por pessoas.

Naturalmente, os cidadãos passam a esperar uma eficiência semelhante por parte do governo. No entanto, a democracia não foi concebida para a velocidade; ela foi concebida para a legitimidade. Ela negocia, busca consensos, consulta tribunais, protege grupos vulneráveis e equilibra interesses conflitantes. São justamente essas salvaguardas que distinguem a democracia do autoritarismo. Contudo, em uma era marcada pela velocidade vertiginosa da tecnologia, elas parecem cada vez mais sinal de paralisia.

 As redes sociais ampliam essa lacuna. Cada erro governamental torna-se instantaneamente visível. Cada decepção transforma-se em uma polêmica viral. Qualquer cidadão frustrado pode mobilizar milhares de outros antes mesmo que os governos comecem a reagir.

Isso ajuda a explicar a trajetória peculiar do populismo moderno. Políticos como Donald Trump, o brasileiro Jair Bolsonaro e o argentino Javier Milei ascenderam ao poder prometendo romper à força os impasses institucionais. No entanto, uma vez no cargo, a maioria deparou-se com a mesma realidade enfrentada pelos líderes que substituíram. Os insurgentes de hoje rapidamente se tornam os governantes decepcionantes de amanhã.

As pessoas não parecem ter perdido a confiança na democracia. Elas não viraram as costas para eleições, constituições e tribunais independentes. Contudo, estão profundamente insatisfeitas com o desempenho democrático. As democracias precisam provar, mais uma vez, que são capazes de construir casas e infraestrutura, modernizar serviços públicos, gerir mudanças tecnológicas e reduzir a desigualdade – e fazer tudo com urgência e eficácia.

A história oferece motivos para otimismo. Sociedades livres frequentemente parecem mais frágeis em meio a grandes transformações tecnológicas, pois avançam lentamente e debatem incessantemente. No entanto, ao longo do tempo, elas geralmente se adaptam melhor do que as autocracias, justamente por serem capazes de aprender, corrigir erros e mudar de rumo sem recorrer à violência ou à repressão.

Líderes democráticos não devem tentar competir em velocidade com a tecnologia. Eles não conseguiriam vence-la. Devem, porém, demonstrar – por meio de competência e foco incansável – que as democracias são capazes de entregar resultados. Assim, as pessoas compreenderão que o atrito inerente à prestação de contas e o peso da legitimidade não são falhas do sistema. São, na verdade, as características que preservam a nossa liberdade.

Sonho de uma ansiedade de verão

Estou dentro de um carro. No banco de trás. De repente, percebo que não há condutor. Inquieto-me. Salto para o banco da frente, onde me apercebo de que não sei conduzir ou que, sendo ainda uma criança, não consigo ao mesmo tempo ver a estrada e carregar nos pedais. O automóvel avança descontrolado. Sei que vou ter um acidente. Acordo. Sempre antes do embate. Mas sempre com a mesma sensação de ansiedade e falta de controlo. Tenho este sonho recorrentemente há muitos anos. Desde criança, na verdade. A marca e o modelo do carro vão variando, a paisagem também. Mas a sensação é sempre a mesma. E talvez não seja preciso grande psicanálise para se concluir que o meu subconsciente se aflige com as coisas que me escapam ao controlo e que tendo a achar que tenho de assumir responsabilidades, mesmo quando devia deixar-me levar como passageira de uma viagem que se descontrola.


A catadupa de notícias capazes de causar indignação gera uma sensação semelhante à de quem se apercebe de repente que não sabe como controlar um carro que avança desgovernadamente. Há caos nos exames, a água falha em Almada, pequenas cirurgias são retiradas administrativamente da lista de espera por uma portaria, a Câmara Municipal de Lisboa (a cidade onde já não se consegue viver) vende dez terrenos que podiam ser para habitação pública, a mesma câmara gasta milhões em festivais ao mesmo tempo que corta nas refeições escolares, os lucros das petrolíferas engordam e o Governo diz que nada pode fazer sobre o escandaloso preço do combustível a não ser o que já fez (baixar impostos), por todo o território avançam manchas de painéis solares engolindo o verde que anunciam querer proteger, a GNR abre à força caminho por propriedades privadas nas Covas do Barroso para a construção de minas de lítio que vão destruir o modo de vida sustentável que as suas populações querem proteger, em Itália vão poder deter-se menores preventivamente antes de manifestações, em França a polícia passa a ter garantida a presunção de legítima defesa e tem ordem para matar, em Gaza continua o extermínio do povo palestiniano e Trump destrói a democracia enquanto brinca com a vida do mundo no estreito de Ormuz. E estes nem sequer são todos os temas que me fizeram indignar-me nos últimos oito dias.

O padrão é sempre o mesmo: esmagar a maioria, engordar o poder de uma minoria cada vez mais restrita

Por esta altura, o leitor – se ainda não desistiu face ao rol de desgraças – talvez esteja a pensar em como precisamos todos dessa coisa chamada silly season, que nos últimos anos caiu em desuso e que consistia num mês inteiro de férias grandes das notícias importantes, numa espécie de suspensão da realidade. Era como se todas as desgraças do mundo ficassem em suspenso, enquanto rumávamos a sul, para dias de mergulhos e gelados. Era uma ilusão, claro. A ilusão possível apenas para os privilegiados, aqueles que podiam efetivamente tirar férias e esquecer as tragédias, que nem por isso se detinham, só desapareciam da nossa atenção.

Fingir que as coisas não estão a acontecer não as faz desaparecer. E, no entanto, é cada vez mais essa a resposta dos que se sentem atolados numa sucessão de desgraças e emergências, todas igualmente urgentes, todas a acontecer ao mesmo tempo. Essa reação não é um sintoma de fraqueza. Pelo contrário: é a consequência do efeito de impotência que a indústria da indignação, em todas as suas formas, pretende conseguir. Cidadãos que se sentem impotentes, esmagados perante a impossibilidade de reagir face a cada nova indignidade, demitem-se da democracia, refugiam-se na ignorância ou engordam hordas de fanáticos, com vontade de destruir todos os que não pensam da mesma forma, ao mesmo tempo que desculpam qualquer falha aos líderes das suas tribos. “Eles são todos iguais” é a frase que coroa o sucesso desta operação.

Não, não vamos conseguir reagir a tudo isoladamente. Não vamos corrigir as injustiças do mundo uma a uma, desmontar cada gesto de corrupção, violência e arbitrariedade. Mas podemos fazer alguma coisa se começarmos a perceber os padrões. E não é assim tão difícil.

De cada vez que alguém gritar “falha do Estado”, é tentar perceber se ele antes não foi desmantelado para garantir que o seu falhanço se transformava numa oportunidade de negócio. De cada vez que alguém gritar “é a modernidade” ou “não há alternativa”, é tentar ver quais seriam as alternativas que preferiam que ignorássemos e quem lucra com as inevitabilidades decretadas. De cada vez que se defender “o progresso” à custa da destruição do futuro, acusando de egoísmo aqueles que terão de sofrer as suas consequências, é procurar os que enriquecerão com isso, em quintais a salvo desses efeitos. De cada vez que alguém defender a barbárie como solução, é olhar para os que ficarão com os despojos e os que pagarão a fatura da destruição e da morte. De cada vez que alguém se indignar com a “grande substituição”, é pensar em como apoiam e estimulam os nómadas digitais, os unicórnios e os fundos que tornam todos os países plasticamente iguais e indistinguíveis.

O padrão é sempre o mesmo: esmagar a maioria, engordar o poder de uma minoria cada vez mais restrita. E, pelo meio, convencer-nos de que a culpa é nossa, de que somos uns falhados, de que os direitos são uma coisa escassa que é preciso racionar ou, simplesmente, convencer-nos de que as coisas são como são, nunca serão de outra maneira e o melhor é seguir com a vidinha o melhor possível, indiferentes às injustiças, aos atropelos, às corrupções e aos compadrios, ao ódio e à violência.

Sim, também me apetece ir esticar-me num areal, deixar de ler notícias, ouvir apenas o marulhar do mar e mergulhar até sentir os olhos a arder e a boca inchada de sal. Mas também sei que me abster de lutar, encolher os ombros às maldades do mundo, ignorar a injustiça, não irá fazer desaparecer nenhuma dessas coisas. E, um dia, estando à espera de mais uma maré cheia de mergulhos, talvez seja eu a engolida pela onda dos que têm tanta fome de poder que nada os saciará.

É por isso, caro leitor, que vou refrear os meus anseios por esse dolce far niente alienado enquanto o mundo arde. Não me entenda mal. Também eu hei de rumar ao sul, à procura de manhãs que começam no mar e de mergulhos inebriantes até ao sol se pôr. A vida não é uma escolha entre a felicidade e alienação. E é bem possível ser feliz, sabendo que há muito que está mal e ganhando forças e alegria para mudar tudo. Uma coisa de cada vez.

'Não aqui'

Consciente de que nossa democracia está mais uma vez ameaçada hoje por forças que buscam fazer do antissemitismo, do racismo, do chauvinismo e do nacionalismo pilares do Estado, estamos precisamente no lugar certo, para dizer 'Não aqui'.

Katharina Wagner, possivelmente a última descendente de Richard Wagner, na abertura do 150º Festival de Bayreuth, na Alemanha

Para o TSE: 'Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!'

Novinha em folha, sem nunca ter sido tocada, a bola está na marca do pênalti à espera de quem a chute. No caso, será o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não há goleiro para defendê-la. Devagar ou com força, basta empurrá-la na direção do gol e sair para celebrar o que a lei determina.

Afinal, diz a Resolução nº 23.732 do TSE, de 27 de fevereiro de 2024: “É proibido o uso, para prejudicar ou para favorecer candidatura, de conteúdo sintético em formato de áudio, vídeo ou combinação de ambos, que tenha sido gerado ou manipulado digitalmente, ainda que mediante autorização, para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de pessoa viva, falecida ou fictícia (deep fake)”.

Jair Bolsonaro mandou a resolução às favas — e com ela também a proibição do Supremo Tribunal Federal de se manifestar sobre assuntos políticos direta ou indiretamente. Assim, abriu a convenção do Partido Liberal (PL) que lançou seu filho Flávio como candidato à Presidência da República. Valeu-se justamente de uma deep fake, exibida em um telão.

“Isso que vocês estão vendo não sou eu, é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial”, advertiu logo de início. E continuou, no melhor estilo de mestre de cerimônias: “Como todos aqui sabem, eu estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária, baseada em algo que eu nunca fiz. Mas eu garanto: nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que carregamos. Nenhuma prisão vai calar milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé. O Brasil tem futuro e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.

Não foi a primeira vez que Bolsonaro quebrou o silêncio ao qual está obrigado desde que foi mandado para a prisão domiciliar. Em 24 de dezembro do ano passado, Flávio postou nas redes sociais a carta onde seu pai comunica aos interessados que seu candidato a presidente seria ele.

Há duas semanas, Flávio postou outra, dessa vez dirigida “aos brasileiros”, na qual Bolsonaro afirma: “Saudoso do contato com o povo ao qual devo lealdade, escrevo num momento de decisão para todos nós. O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”.

Bolsonaro e Flávio são reincidentes, portanto. Desrespeitam seguidamente as ordens da Justiça e parecem não estar nem aí para eventuais punições. “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”, escreveu na década de 1960 o jornalista Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.

Ao ministro Nunes Marques, só resta bater o pênalti e acertar o gol; na trave, não. Perdê-lo seria impensável.
Ricardo Noblat

A IA está descontrolada

Quando uma inteligência artificial escapa dos servidores de quem a criou sem ser percebida e invade sistemas de outra companhia, deveríamos ao menos fazer uma pausa dramática. Porque parece mesmo filme de ficção científica. Aconteceu no início do mês, foi divulgado na semana passada, e é claro que nós, da imprensa, nos refestelaríamos com uma notícia dessas. Dá boa manchete, mexe com a imaginação e rende motivo até para uma pitada de sensacionalismo. Isso atrapalha um pouco a compreensão do que ocorreu entre  OpenAI e a startup Hugging Face. Porque a notícia parece sensacionalista, mas de fato é sensacional. E não apenas no bom sentido.


Nenhuma IA criou vontade própria e partiu para o ataque. Os programadores da OpenAI testavam um modelo novo, já treinado, mas ainda não compreendido. Essa fase exige uma série de testes para descobrir suas capacidades e limites. Em geral, esses testes são realizados numa sandbox, caixa de areia na tradução literal, que não passa de um conjunto de computadores isolados, sem conexão à internet. Ali, os modelos novos podem aprontar das suas sem pôr nada em risco. Se danificarem algum computador, sem problemas, corrige-se, e vamos adiante. Testes são para isso mesmo.

A turma da OpenAI testava, justamente, a capacidade do modelo em cibersegurança. Deram a ele um problema difícil de resolver. E esta parte é importante: ele foi instruído a descobrir como resolver, por conta própria, um problema difícil de cibersegurança. Só que, aí, entra o como. A IA concluiu que, mais fácil que resolver por conta própria, era achar a resposta onde já estivesse pronta. A sandbox não era tão segura assim. Sem que os engenheiros percebessem, encontrou o caminho para outro computador na rede interna da OpenAI, daí para um segundo e, de lá, obteve acesso à internet aberta. Fez suas buscas. Concluiu que, no site da Hugging Face, encontraria a resposta. Dedicou-se, pois, a descobrir como entrar nos servidores da startup. E conseguiu. Tudo sem que seus criadores percebessem.

A Hugging Face é uma startup voltada a oferecer ferramentas para quem usa inteligência artificial. A IA revoltada tinha razão — lá encontraria a resposta para o desafio que lhe apresentaram. Mas encontrou, também, uma equipe de segurança que percebeu a invasão. Só que é raramente trivial descobrir quem ataca. Fizeram o que se faz em 2026: decidiram usar uma IA para facilitar a identificação.

É aí que a história toma uma bifurcação fascinante. Tentaram usar o Claude, da Anthropic, tentaram igualmente apelar ao GPT da própria OpenAI. Os dois modelos recusaram-se a ajudar. Por exigência do governo americano, esses sistemas de ponta à disposição do mercado não podem ser usados para agir em casos assim. O objetivo é não permitir que hackers os usem. Mas impedem também que quem deseja se defender dos hackers possa lançar mão deles. Com as ferramentas americanas bloqueadas, apelaram a um modelo aberto chinês, o GLM-5.2, da Z.ai.

O modelo americano atacou uma empresa americana que, por restrições impostas pelo governo americano para garantir segurança, não pode se defender com tecnologia americana. Foi o modelo chinês, inseguro, que desvendou os mistérios. Aí um executivo da Hugging Face lançou mão do telefone para conversar com um executivo da OpenAI.

Nenhuma inteligência artificial, nessa história, decidiu por conta própria cometer um ataque. Ela foi instruída a cometê-lo. Ocorre que os servidores em que estava não haviam sido isolados o suficiente. A responsabilidade, nesse caso, é claramente da OpenAI. Deveriam ter tomado mais cuidado.

Isso posto, a partir de agora duas questões se apresentam ao mundo. Nenhuma das duas, trivial. A primeira é de segurança. Porque acontecerá novamente. As IAs estão cada vez mais poderosas e se comportarão de formas que surpreendem. Com o objetivo de cumprir ordens humanas mal articuladas, farão de tudo. E o que farão para cumprir o que lhes foi pedido pode causar bem mais dano que isso.

A segunda questão é óbvia: as travas de segurança impostas pela Casa Branca não garantem segurança. No início de 2025, um grupo de engenheiros de IA redigiu um relatório avisando sobre os riscos que se apresentariam. Foi tratado como exagerado. Um deles era este: para eles, não demoraria para uma IA invadir uma empresa por conta própria. Previam que o problema ocorreria no início de 2027. Erraram por seis meses.