sábado, 19 de setembro de 2026

Extrema direita agradece a autodestruição do Supremo

Nos projetos de destruição da democracia por dentro, a luta contra o Judiciário é essencial. Em vez de fechar os tribunais, usando a força, com "um cabo e um soldado", o autocrata atual age para enfraquecer, aparelhar ou neutralizar a independência das cortes.

Exemplos não faltam de que a Suprema Corte é o alvo número 1: Hungria, Venezuela, Israel, Polônia, Turquia. A relação entre Executivo e Judiciário gera embates nos Estados Unidos, na Argentina, na Itália, na Colômbia, países que estão na rota do tsunami de extrema direita.


Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele —modelo para as candidaturas de Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado— substituiu ministros para mudar a Constituição e se reeleger. Derrotado nas eleições de 2022, após passar todo o mandato atacando e desacreditando o Supremo, Jair Bolsonaro tentou um golpe que só não deu certo porque Exército e Aeronáutica pularam fora e, sobretudo, porque não teve o apoio dos EUA, sob Joe Biden.

Herdeiro do golpismo de Jair, o filho 01 tem hoje um ministro que lhe facilita a campanha presidencial e meio trabalho realizado diante de uma corte que resolveu se autodestruir, com conchavos, interesses não republicanos, traições, cinismo e corrupção.

Pelo menos cinco ministros se deixaram vorcarizar. Puxando a fila está Alexandre de Moraes, que combateu o presidente golpista, mas se rendeu ao empresário picareta. Suas explicações não convencem. Idem para André Mendonça, que "esqueceu" de avisar ao país que Flávio Bolsonaro é investigado por ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro. Tragado pelo buraco Master, Dias Toffoli finge-se de morto.

Mensagens do celular de Vorcaro tratam de pagamentos (que seriam de R$ 500 mil mensais) destinados ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques. Outras revelam sua intimidade com Rodrigo Fux, filho do ministro do STF. Rodrigo, a exemplo de Flávio Bolsonaro, chama o banqueiro de "irmão".

Os amigos do rei formavam uma espécie de irmandade, que se dedicava a mamatas e surubas.

Não é pelos 20 centavos

Rio de Janeiro, agosto de 1979. Uma multidão segue rumo à Cinelândia, exigindo anistia ampla, geral e irrestrita aos perseguidos pelo regime militar. Na altura do Theatro Municipal, o estudante de arquitetura de 20 anos recebe das mãos de um desconhecido a vara que sustenta uma das pontas de uma faixa de protesto e a carrega até que o braço se canse, e ele a passe adiante. Ainda levará quase seis anos para que a ditadura acabe, mas em poucos dias os primeiros exilados começarão a chegar.

Fevereiro, Belo Horizonte, 1984. Nunca se saberá ao certo quantos estão ali, na Avenida Afonso Pena, no comício pelas Diretas Já. Funcionário do Banco do Brasil, 24 anos, ele está lá, prestes a ter sua primeira crise de pânico: é gente demais, impossível se mover — e maior que o desejo de enfim votar para presidente é o medo de morrer esmagado. Não morre, e o voto só virá cinco anos mais tarde — no candidato do Partido Comunista Brasileiro.


Junho de 2013, Rio de Janeiro. Corrupção, precariedade dos serviços públicos, violência policial. “Vem pra rua”, “O gigante acordou”, “Queremos hospitais e escolas padrão Fifa”. Aos 54 anos, arquiteto, câmera fotográfica em punho, ele vai aos protestos no Centro, na Barra, em Copacabana, atento para debandar antes que cheguem os black blocs.

Salvador, 2016. Domingo de abril, Jardim de Alah apinhado de gente de verde e amarelo, pedindo o segundo impeachment desde a redemocratização. O arquiteto fechou o escritório, trabalha como freelancer e, às vésperas dos 57, precisa dar um jeito de recomeçar a vida. Acha que o Brasil também.

Setembro de 2026, Rio de Janeiro. Aposentado, tardiamente cronista, 67 anos, ele podia hoje ter retomado as anotações sobre o novo mapa-múndi, o disco que Elis não gravou, as cartas dos leitores, o chacundum, o patrimônio arquitetônico que o Rio está perdendo. Ou, quem sabe, algo lírico sobre seus cachorros. Mas, como se perguntava o grande escritor que ocupava este mesmo espaço às quintas-feiras, “poesia numa hora dessas?”.

Quando o Palácio do Supremo Tribunal Federal foi depredado por vândalos na baderna do 8 de Janeiro, o país reagiu com atos em defesa da democracia. Agora a própria Justiça é vilipendiada pelo escárnio dos ministros, na infame sessão de 15 de setembro, e ninguém foi para a rua protestar. Uma facção togada decidiu que está acima da lei, e não há uma passeata, uma greve geral, um panelaço — nada.

Não é pelas relações impróprias entre um ex-banqueiro e os presidentes da Câmara e do Senado, o procurador-geral da República, servidores do Banco Central. Não é pelos indícios de pagamento de R$ 10 mil a uma prostituta por serviços prestados a um ministro ou de repasses mensais de R$ 500 mil ao filho dele. Não é pelos R$ 35 milhões em negócios envolvendo um resort no Paraná, de empresa da família de outro ministro. Não é pelos R$ 61 milhões para financiar a hagiografia cinematográfica de um ex-presidente — parcialmente desviados, com emendas parlamentares, para fins ainda menos nobres. Não é pelos R$ 130 milhões do contrato com a mulher de um ministro ou pela assessoria clandestina que, ao que tudo indica, esse ministro prestava a um investigado pelos crimes de fraude financeira, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Não é pelos bilhões do Rioprevidência e do Banco de Brasília.

É pelos 20 centavos da nossa dignidade, da nossa cidadania.

E as ruas, as praias, as praças estão vazias.

Predadores digitais: o negócio dos dados pessoais

Todo mundo tem segredos que não contaria a ninguém. Exceto, talvez, ao seu aplicativo de namoro. Que tipo de parceiro procuram. Que lugares gostam de frequentar para conhecer pessoas. Talvez até suas preferências sexuais ou seu estado de saúde. Com essas informações, o aplicativo os ajuda a encontrar pessoas compatíveis. Os usuários geralmente não percebem que esses dados também são vendidos para outras empresas.

Foi exatamente isso que supostamente aconteceu com o Grindr, um aplicativo de encontros voltado explicitamente para a comunidade LGBTQ+. Cerca de 12.000 usuários do aplicativo processaram a empresa no Reino Unido por supostamente transmitir informações pessoais altamente sensíveis a anunciantes. Em alguns casos, isso incluía até mesmo o status de HIV dos usuários .

A batalha judicial acaba de terminar com um acordo totalizando 26 milhões de libras, embora o Grindr negue qualquer responsabilidade. Em outras palavras, eles pagaram uma quantia substancial, mas não houve admissão oficial de culpa, nem condenação. Segundo o quê?


Para nós, usuários, um aplicativo é antes de tudo um produto útil, mas por trás dele geralmente existem também serviços em nuvem, ferramentas de análise, redes de publicidade e outros provedores de serviços. Estes armazenam e transmitem dados, os interligam e os analisam.

Muitas das grandes empresas de tecnologia, explica o especialista em políticas digitais Jan Penfrat, queriam "tornar o mais difícil possível para os usuários e autoridades de supervisão entenderem quais dados cada entidade coleta em nossos dispositivos e para qual finalidade".

Todo mundo sabe disso: um aplicativo — por exemplo, um serviço de mensagens — instala-se rapidamente e, quando surge a questão sobre se os dados pessoais podem ser usados , os usuários geralmente clicam em "Sim". Quem quer ler páginas e páginas de políticas de privacidade?
Imagens de conversas privadas

Mas o problema está nos detalhes. Por exemplo, o WhatsApp acessa os contatos do smartphone durante a instalação. Isso significa que os números de telefone de pessoas que nem sequer usam o WhatsApp e que nunca consentiram em compartilhar seus contatos também são transmitidos para os servidores.

O serviço de mensagens Discord coleta todas as mensagens de texto, imagens e links enviados por seus usuários — mesmo em chats privados — a menos que eles se oponham explicitamente a essa prática. Somente após anos de reclamações, em maio de 2016, o Discord introduziu a criptografia para gravações de voz e vídeo.

Quanto maior e mais interconectada for uma empresa, menos se trata de pontos de dados individuais e mais se trata de padrões: "O Google controla muitas partes diferentes de nossas vidas digitais e, por assim dizer, introduziu sistemas de coleta de dados e vigilância em praticamente todos os níveis", explica Penfrat.

"Isso começa com o hardware, quando o Google fabrica seus próprios telefones, e continua com o sistema operacional, ou seja, o Android, que já possui um identificador de publicidade único e permanente que identifica cada dispositivo durante toda a sua vida útil."

A isso se somam os aplicativos que o Google gerencia diretamente e que geralmente vêm pré-instalados: Gmail, agenda de endereços, contatos, calendário e, por último, mas não menos importante, o Google Maps, "onde você pode registrar os locais onde as pessoas estão a cada minuto. E tudo isso acaba formando parte de um enorme perfil."

O Google é apenas um dos muitos fornecedores. "É um mercado global gigantesco, de bilhões de dólares, onde os perfis de dados pessoais das pessoas são simplesmente negociados."

A União Europeia já possui uma das regulamentações de proteção de dados mais rigorosas do mundo. O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) visa proteger os dados pessoais e a privacidade dos indivíduos.

Outras leis digitais da UE, como a Lei dos Mercados Digitais e a Lei dos Serviços Digitais, visam impedir que grandes empresas de tecnologia abusem do seu poder contra empresas e utilizadores. Estas leis também devem ser respeitadas pelas empresas americanas quando oferecem os seus serviços a pessoas na Europa ou monitorizam o seu comportamento.

Mas um controle verdadeiramente eficaz por parte da UE não é tão simples: as gigantes da tecnologia possuem infraestruturas globais, enormes recursos financeiros e modelos de negócios complexos. As autoridades europeias teriam primeiro que penetrar e compreendê-las.

A isso se soma a própria dependência da Europa: serviços em nuvem, sistemas operacionais, plataformas e, cada vez mais, também a infraestrutura de inteligência artificial são — pelo menos até agora — fornecidos em grande parte por empresas americanas .

Então, o que um consumidor pode fazer? Jan Penfrat menciona duas regras básicas: "Uma é sempre me perguntar: qual é o modelo de negócios? Como o dinheiro é ganho aqui? E aqui se aplica a frase de ouro: 'Se eu não pagar, eu sou o produto'."

Clima extremo afeta o bolso do consumidor no mundo

Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados no planeta. Essa mudança climática se manifesta em eventos extremos, como ondas de calor e incêndios florestais. Mas menos evidentes são os preços mais altos e os salários menores associados a um mundo cada vez mais quente.

Segundo um estudo de 2026 da MIT Sloan School of Management e da UCLA School of Law, as mudanças climáticas já elevaram as despesas médias das famílias americanas em 900 dólares (cerca de R$ 4,6 mil) por ano, chegando a mais de 1,3 mil dólares em um de cada dez condados dos Estados Unidos.

Esses custos não existiriam em um mundo sem mudanças climáticas. Eles incluem o aumento dos seguros residenciais (em média 600 dólares mais caros), a elevação de impostos estaduais e federais devido aos custos de recuperação de desastres ou aos impactos da fumaça dos incêndios florestais sobre a saúde, por exemplo.

"A inação climática não é apenas um fracasso ambiental; ela funciona como um imposto sobre todas as famílias americanas", escreveram os pesquisadores.


Um relatório de 2024 do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impactos Climáticos, na Alemanha, estimou que os danos das mudanças climáticas à agricultura, à infraestrutura e à saúde, bem como as perdas de produtividade, podem custar à economia mundial 38 trilhões de dólares por ano até 2050.

Mas de que forma os eventos climáticos extremos impulsionados pelas mudanças do clima já afetaram salários e orçamentos familiares?

"Se não conseguirmos descobrir quanto as mudanças climáticas já estão nos custando com os dados que temos, projetar o futuro se torna quase impossível", afirmou Derek Lemoine, professor de economia da Universidade do Arizona, que estimou uma redução de 12% na renda dos americanos à medida que as temperaturas globais aumentaram. A comparação é feita com um cenário sem mudanças climáticas.

Lemoine mostra como extremos de temperatura em um condado dos Estados Unidos estão provocando impactos econômicos em cascata em localidades distantes com clima mais ameno, devido à interconexão do comércio e das cadeias de suprimentos.

"Muitos estudos analisam as mudanças climáticas como se elas alterassem o clima em apenas um ano e em um único lugar por vez", disse Lemoine à DW.

Em vez disso, ele busca entender como, se uma onda de calor destruir plantações de milho em todo o território americano, outras indústrias que dependem desse milho, incluindo produtores de gado e de alimentos, serão afetadas à medida que a commodity se tornar mais escassa e mais cara.

"À medida que os custos [dos produtores afetados em toda a cadeia de suprimentos do milho] aumentam", disse Lemoine, "isso fará com que a renda de todos os que dependem deles diminua".

Os impactos do clima sobre o comércio também já são sentidos na Alemanha, onde os níveis recordes de baixa do rio Reno, a via navegável interior mais movimentada da Europa, podem reduzir em até 0,2% a produção econômica alemã no terceiro trimestre de 2026, observou o Instituto Kiel para a Economia Mundial em julho.

O clima seco prolongado associado às mudanças climáticas é o responsável, já que a capacidade de transporte caiu para apenas 15% em alguns trechos do rio que conecta o maior porto da Europa, em Roterdã, na Holanda, a grande parte do oeste da Alemanha.

Um estudo australiano também analisa como mudanças climáticas amplas, e não apenas choques locais provocados por eventos extremos isolados, levaram gradualmente à queda da produtividade e da produção econômica.

Timothy Neal, pesquisador do Instituto para Risco e Resposta Climática da Universidade de New South Wales, na Austrália, foi coautor de um relatório que mostra que o aquecimento global reduziu a produção econômica do estado de NSW em cerca de 18% em média, o equivalente a 21.288 dólares australianos (cerca de R$ 80 mil) por pessoa em 2024.

"Os danos já foram bastante severos", disse Neal à DW, acrescentando que, em um cenário sem aquecimento global, os cidadãos teriam "preços mais baixos para os alimentos" e "menos pobreza".

O relatório menciona secas em partes de NSW em meados e no final da década de 2010 que reduziram a produtividade em todo o estado em até 10 bilhões de dólares australianos, devido à queda das colheitas e da renda agrícola, ao aumento dos custos da água e à maior dependência de assistência governamental.

Esses impactos financeiros se acumularam ao longo do tempo em toda a economia do estado, influenciando os custos de alimentos, seguros e manutenção de infraestrutura.

Nas palavras do relatório, esses efeitos também "agravam pressões econômicas já existentes e contribuem para ampliar as disparidades entre regiões", o que significa aumento da desigualdade de renda e riqueza.

"A ação climática não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, mas também como uma decisão economicamente sensata", afirmou Frank Jotzo, economista e comissário da Comissão Net Zero de NSW, que trabalha para descarbonizar o estado e encomendou o estudo citado acima.

Ao se referir a "investimentos defensivos contra as mudanças climáticas", como o reforço de estradas, ferrovias e infraestrutura de transporte marítimo para adaptação a um mundo mais quente, Jotzo acrescentou que "se não fosse pelas mudanças climáticas, poderíamos estar investindo esse dinheiro e esse esforço em outras coisas".

No entanto, medidas de adaptação, como a ampliação das áreas verdes nas cidades para reduzir os efeitos das ilhas de calor, serão fundamentais para evitar impactos econômicos muito mais severos no futuro.

As ondas de calor europeias de 2026, por exemplo, já custaram cerca de 180 bilhões de euros (R$ 1,06 trilhão), valor equivalente a todo o crescimento econômico projetado para a União Europeia neste ano, segundo uma análise.

A adaptação também envolverá o fortalecimento do sistemas de saúde e da rede hospitalar para enfrentar os efeitos das ondas de calor, que reduzem a produtividade à medida que trabalhadores submetidos ao estresse térmico se cansam mais rapidamente ou têm dificuldade para dormir, observou Jotzo.

Mas Lemoine afirma que a adaptação ao declínio econômico provocado pelas mudanças climáticas é tão "cara por si só" que pode agravar a perda de renda e ser ineficaz se não for implementada de forma abrangente.

Somente quando "todos os lugares" estiverem protegidos dos eventos climáticos extremos, será possível enfrentar os impactos econômicos em cascata, diz ele.

Ainda assim, tanto a adaptação quanto uma rápida redução das emissões que aquecem o planeta são necessárias para evitar perdas de renda impulsionadas pelas mudanças climáticas, que tendem a se agravar se o aquecimento global ultrapassar as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

"Mudanças climáticas sem controle criariam um peso permanente sobre os salários e a produtividade", concluiu Jotzo.