segunda-feira, 24 de agosto de 2026
A peste limpou as terras
“Deus é inglês”, disse o piedoso John Aylmer, pastor de almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.
O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.
A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.
Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.
A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.
A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"
Confundir paz com pás
Numa das minhas últimas viagens a Angola, ofereceram-me uma obra já antiga de Pepetela, o romance Parábola do cágado velho (Luanda: Texto ed., 2016). A estória, escrita com a conhecida mestria do autor, reflete a cultura popular e a vida dos camponeses no interior do país, durante a longa guerra civil que se seguiu à independência.
Registei, em especial, uma frase: “(…) ainda não há paz, só se anda à procura dela.” Ou seja, as pessoas desejavam que o conflito terminasse para tocarem a sua vida para a frente, em sossego, mas a realidade de todos os dias ia desmentindo a possibilidade de alcançar a tão almejada paz e a segurança que dela haveria de decorrer.
Depois de os angolanos terem lutado pela libertação do colonizador, não contra o povo português mas sim contra o governo autocrático de Lisboa, guerreavam agora entre si, que é a pior das guerras, irmãos contra irmãos. Nada de novo na História.
O processo político e militar que levou as 13 colónias britânicas da América do Norte a rebelarem-se contra o domínio da Grã-Bretanha ficou conhecido como Revolução Americana (1765-1783), tendo influenciado a Revolução Francesa e movimentos independentistas. Dela resultou a fundação dos Estados Unidos da América, formalizada pela Declaração de Independência de 4 de julho de 1776, e portadora duma nova filosofia política, inspirada nos ideais liberais e iluministas europeus.
Décadas mais tarde, estalou a Guerra da Secessão (1861-1865), um confronto muito mais curto na duração mas muito mais penalizador em vidas humanas. Desse confronto, que opôs o norte industrializado ao sul agrário e esclavagista, resultaram cerca de 600 mil mortos, revelando-se assim muito mais devastador do que o processo da independência.
Como dizia a personagem de Pepetela, é preciso andar à procura da paz até a encontrar. Não é coisa que se descubra debaixo duma pedra, que se colha das árvores ou que se compre numa loja qualquer. A resolução de qualquer conflito parte de atitudes humanas de quem tem o poder. Tem que ser pacientemente tecida com muita determinação e consciência.
A guerra é a atividade humana mais estúpida ao cimo da terra, visto que ninguém ganha com ela, mesmo quando parece que sim. Mas se formos a ver até o vencedor declarado – quando o há – tem que lamber as feridas e pagar o preço de devastação na economia e no edificado, além dos mortos, feridos, estropiados e perturbados mental e emocionalmente. A guerra diminui-nos como seres humanos. Por isso Einstein dizia que “a paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.”
Isto devia levar os governantes dos países a pensar muito bem antes de iniciar um conflito armado. A administração Trump atirou-se ao Irão e afinal agora não sabe como sair de lá sem dar a ideia de derrota. Não alcançou nenhum dos seus objetivos e, entretanto, a situação ficou bem pior do que antes, como se vê pelo estado em que se encontra o Estreito de Ormuz. Lembremo-nos que a maior potência militar do mundo já antes tinha saído com o rabo entre as pernas do Vietname e, mais recentemente, do Afeganistão.
O Império Britânico não conseguiu impedir a independência dos Estados Unidos, nem da Índia e do Paquistão. O regime desumano do apartheid na África do Sul não conseguiu subsistir. As colónias africanas não puderam continuar a ser mantidas pelas potências europeias desde os anos sessenta. E no entanto todos recorreram à força para evitar o inevitável.
A ideia de que a paz se faz pela guerra é muito questionável. Normalmente, comportamento gera comportamento, e o povo diz que quem semeia ventos colhe tempestades. Segundo John Kennedy, “são precisos dois para fazer a paz.”
E claro, nunca é demais lembrar a afirmação de Jesus Cristo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27). Mas esta é uma paz suprema, a paz espiritual, que está acima de qualquer outra.
A paz ambicionada não pode continuar a ser confundida com as pás de enterrar os mortos em Gaza, no Líbano, na Ucrânia, na Rússia e em tantos outros lugares de que pouco se fala. Tenham juízo, procurem a paz.
Registei, em especial, uma frase: “(…) ainda não há paz, só se anda à procura dela.” Ou seja, as pessoas desejavam que o conflito terminasse para tocarem a sua vida para a frente, em sossego, mas a realidade de todos os dias ia desmentindo a possibilidade de alcançar a tão almejada paz e a segurança que dela haveria de decorrer.
Depois de os angolanos terem lutado pela libertação do colonizador, não contra o povo português mas sim contra o governo autocrático de Lisboa, guerreavam agora entre si, que é a pior das guerras, irmãos contra irmãos. Nada de novo na História.
O processo político e militar que levou as 13 colónias britânicas da América do Norte a rebelarem-se contra o domínio da Grã-Bretanha ficou conhecido como Revolução Americana (1765-1783), tendo influenciado a Revolução Francesa e movimentos independentistas. Dela resultou a fundação dos Estados Unidos da América, formalizada pela Declaração de Independência de 4 de julho de 1776, e portadora duma nova filosofia política, inspirada nos ideais liberais e iluministas europeus.
Décadas mais tarde, estalou a Guerra da Secessão (1861-1865), um confronto muito mais curto na duração mas muito mais penalizador em vidas humanas. Desse confronto, que opôs o norte industrializado ao sul agrário e esclavagista, resultaram cerca de 600 mil mortos, revelando-se assim muito mais devastador do que o processo da independência.
Como dizia a personagem de Pepetela, é preciso andar à procura da paz até a encontrar. Não é coisa que se descubra debaixo duma pedra, que se colha das árvores ou que se compre numa loja qualquer. A resolução de qualquer conflito parte de atitudes humanas de quem tem o poder. Tem que ser pacientemente tecida com muita determinação e consciência.
A guerra é a atividade humana mais estúpida ao cimo da terra, visto que ninguém ganha com ela, mesmo quando parece que sim. Mas se formos a ver até o vencedor declarado – quando o há – tem que lamber as feridas e pagar o preço de devastação na economia e no edificado, além dos mortos, feridos, estropiados e perturbados mental e emocionalmente. A guerra diminui-nos como seres humanos. Por isso Einstein dizia que “a paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.”
Isto devia levar os governantes dos países a pensar muito bem antes de iniciar um conflito armado. A administração Trump atirou-se ao Irão e afinal agora não sabe como sair de lá sem dar a ideia de derrota. Não alcançou nenhum dos seus objetivos e, entretanto, a situação ficou bem pior do que antes, como se vê pelo estado em que se encontra o Estreito de Ormuz. Lembremo-nos que a maior potência militar do mundo já antes tinha saído com o rabo entre as pernas do Vietname e, mais recentemente, do Afeganistão.
O Império Britânico não conseguiu impedir a independência dos Estados Unidos, nem da Índia e do Paquistão. O regime desumano do apartheid na África do Sul não conseguiu subsistir. As colónias africanas não puderam continuar a ser mantidas pelas potências europeias desde os anos sessenta. E no entanto todos recorreram à força para evitar o inevitável.
A ideia de que a paz se faz pela guerra é muito questionável. Normalmente, comportamento gera comportamento, e o povo diz que quem semeia ventos colhe tempestades. Segundo John Kennedy, “são precisos dois para fazer a paz.”
E claro, nunca é demais lembrar a afirmação de Jesus Cristo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27). Mas esta é uma paz suprema, a paz espiritual, que está acima de qualquer outra.
A paz ambicionada não pode continuar a ser confundida com as pás de enterrar os mortos em Gaza, no Líbano, na Ucrânia, na Rússia e em tantos outros lugares de que pouco se fala. Tenham juízo, procurem a paz.
Considerações sobre o ‘interregno’
Como tudo na vida, palavras envelhecem, e talvez seja essa a sensação que nos assalta ao depararmos com o uso reiterado de “interregno” para indicar o atual estado das coisas. Na conhecida formulação de Gramsci, a velha ordem está morta e não mais regula corações e mentes, enquanto a nova ainda não consegue se afirmar. No intervalo entre ambas, o mundo se enche de sintomas mórbidos. Provocadora, a imagem parece explicar o caos ao redor, mas há quem nela observe a persistência de uma certeza anacrônica sobre a nova ordem que viria a se impor por meio da revolução.
Admitida a observação, pode-se ainda teimar em que a metáfora ao menos chama a atenção para os riscos próprios de épocas de transição como a nossa. Não por acaso, circulam por aí ideias-zumbis e figuras extravagantes, que recusam comportamentos baseados em regras, ainda que imperfeitas, e proclamam a lei do mais forte. Os sintomas precisam ser pesquisados, assim como buscados os remédios, todos eles políticos, naturalmente. Essa procura incessante, sem prescindir de analogias, não pode se limitar a elas – os adversários da sociedade aberta não são os mesmos de 1930 nem liquidá-los como “fascistas” nos deixa necessariamente em posição mais segura.
Pode ser que estejamos de novo em plena mudança estrutural do espaço público – mudança que, significativamente, Anton Jäger, pesquisador belga da Universidade de Oxford, descreve em termos de “hiperpolítica” (cf. Hyperpolitics: Extreme Politicization Without Political Consequences, Verso Books). Para onde quer que olhemos, pessoas comuns estão em meio a polêmicas ferozes e a contraposições intratáveis. Parecem se contentar com identidades fixas numa sequência interminável de guerras digitais. Algoritmos invisíveis confinam em guetos até quem, pouco antes da entronização das redes sociais, tocava em paz a vida, imerso no próprio mundo privado. Uma politização inflamada, sem dúvida, mas de modo geral sem engajamento em partido, sindicato ou associação “real”.
De fato, essa não é a política de massas da alta modernidade. Para o bem e para o mal, os partidos eram como que a “nomenclatura das classes”. Partidos conservadores podiam ter uma base popular considerável ou, se fossem democratas cristãos, inseriam uma dimensão solidária no liberalismo.
Partidos trabalhistas ou comunistas enraizavam-se na vida sindical, buscando integrar institucionalmente os “de baixo” ou mobilizá-los para a utópica nova ordem anteriormente mencionada. Tudo somado, um processo amplo de incorporação política, abalado, de tempos em tempos, por choques ideológicos que levaram a sacrifícios enormes e a guerras de violência sem precedentes.
A globalização neoliberal dos anos 1990 significa ruptura radical com este “mundo de ontem”. A revolução assim desencadeada, disseminando a mercantilização de todos ou quase todos os âmbitos da vida, teve uma característica singular: fez da economia o fator de ordenação tendencialmente total. Com Reagan e Thatcher, o capitalismo se reinventa e mais uma vez dissolve no ar tudo o que aparentava solidez. A administração das coisas predomina, as instituições se esvaziam, os partidos apresentam programas que mal se distinguem uns dos outros. Afinal, “não havia alternativa”, uma frase de rara soberba que se proclamava aos quatro ventos.
O século 21, sobretudo a partir da grande crise de 2008, se encarregou de liquidar as ilusões economicistas da “pós política” – e aqui voltamos ao argumento mais original de Jäger sobre o “interregno”. Coletivamente não nos livramos da rarefação institucional anterior, até porque não se interrompeu a individualização frenética da vida. Movemo-nos como átomos, as mobilizações hiperpolíticas podem ser intensas, mas são também fugazes e instáveis. E o drama maior é que não há caminho de volta: impossível, ou inaceitável, voltar às formas organizacionais da maior parte do século passado, que não mais seriam vividas como vetores de liberdade.
A reconstrução da sociedade civil, espaço de mediação entre indivíduo e Estado, é o desafio posto diante das forças democráticas há muito na defensiva. No variado espectro do liberalismo, há gente disposta a experimentar formas inovadoras de mudança e recriação da vida social. E, felizmente, o mesmo pode ser dito dos socialistas que não se curvaram ao canto das sereias populistas e à sua recorrente desconfiança dos procedimentos democráticos. Fazer com que aqui e ali, e ainda que aos poucos, se estabeleçam nexos entre essas duas grandes áreas político-culturais é um objetivo permanente, não uma tática para circunstâncias críticas.
O motor de tal convergência é a constatação de que, no presente “interregno”, o frenesi hiperpolítico e a pobreza institucional formam terreno propício para a recomposição dos poderes fortes e a afirmação dos homens providenciais. Tais processos negativos – é dispensável dizer – constituem o núcleo dos sintomas mórbidos que vêm corroendo por dentro as modernas democracias e o sistema de liberdades que lutas seculares nelas inscreveram.
Admitida a observação, pode-se ainda teimar em que a metáfora ao menos chama a atenção para os riscos próprios de épocas de transição como a nossa. Não por acaso, circulam por aí ideias-zumbis e figuras extravagantes, que recusam comportamentos baseados em regras, ainda que imperfeitas, e proclamam a lei do mais forte. Os sintomas precisam ser pesquisados, assim como buscados os remédios, todos eles políticos, naturalmente. Essa procura incessante, sem prescindir de analogias, não pode se limitar a elas – os adversários da sociedade aberta não são os mesmos de 1930 nem liquidá-los como “fascistas” nos deixa necessariamente em posição mais segura.
Pode ser que estejamos de novo em plena mudança estrutural do espaço público – mudança que, significativamente, Anton Jäger, pesquisador belga da Universidade de Oxford, descreve em termos de “hiperpolítica” (cf. Hyperpolitics: Extreme Politicization Without Political Consequences, Verso Books). Para onde quer que olhemos, pessoas comuns estão em meio a polêmicas ferozes e a contraposições intratáveis. Parecem se contentar com identidades fixas numa sequência interminável de guerras digitais. Algoritmos invisíveis confinam em guetos até quem, pouco antes da entronização das redes sociais, tocava em paz a vida, imerso no próprio mundo privado. Uma politização inflamada, sem dúvida, mas de modo geral sem engajamento em partido, sindicato ou associação “real”.
De fato, essa não é a política de massas da alta modernidade. Para o bem e para o mal, os partidos eram como que a “nomenclatura das classes”. Partidos conservadores podiam ter uma base popular considerável ou, se fossem democratas cristãos, inseriam uma dimensão solidária no liberalismo.
Partidos trabalhistas ou comunistas enraizavam-se na vida sindical, buscando integrar institucionalmente os “de baixo” ou mobilizá-los para a utópica nova ordem anteriormente mencionada. Tudo somado, um processo amplo de incorporação política, abalado, de tempos em tempos, por choques ideológicos que levaram a sacrifícios enormes e a guerras de violência sem precedentes.
A globalização neoliberal dos anos 1990 significa ruptura radical com este “mundo de ontem”. A revolução assim desencadeada, disseminando a mercantilização de todos ou quase todos os âmbitos da vida, teve uma característica singular: fez da economia o fator de ordenação tendencialmente total. Com Reagan e Thatcher, o capitalismo se reinventa e mais uma vez dissolve no ar tudo o que aparentava solidez. A administração das coisas predomina, as instituições se esvaziam, os partidos apresentam programas que mal se distinguem uns dos outros. Afinal, “não havia alternativa”, uma frase de rara soberba que se proclamava aos quatro ventos.
O século 21, sobretudo a partir da grande crise de 2008, se encarregou de liquidar as ilusões economicistas da “pós política” – e aqui voltamos ao argumento mais original de Jäger sobre o “interregno”. Coletivamente não nos livramos da rarefação institucional anterior, até porque não se interrompeu a individualização frenética da vida. Movemo-nos como átomos, as mobilizações hiperpolíticas podem ser intensas, mas são também fugazes e instáveis. E o drama maior é que não há caminho de volta: impossível, ou inaceitável, voltar às formas organizacionais da maior parte do século passado, que não mais seriam vividas como vetores de liberdade.
A reconstrução da sociedade civil, espaço de mediação entre indivíduo e Estado, é o desafio posto diante das forças democráticas há muito na defensiva. No variado espectro do liberalismo, há gente disposta a experimentar formas inovadoras de mudança e recriação da vida social. E, felizmente, o mesmo pode ser dito dos socialistas que não se curvaram ao canto das sereias populistas e à sua recorrente desconfiança dos procedimentos democráticos. Fazer com que aqui e ali, e ainda que aos poucos, se estabeleçam nexos entre essas duas grandes áreas político-culturais é um objetivo permanente, não uma tática para circunstâncias críticas.
O motor de tal convergência é a constatação de que, no presente “interregno”, o frenesi hiperpolítico e a pobreza institucional formam terreno propício para a recomposição dos poderes fortes e a afirmação dos homens providenciais. Tais processos negativos – é dispensável dizer – constituem o núcleo dos sintomas mórbidos que vêm corroendo por dentro as modernas democracias e o sistema de liberdades que lutas seculares nelas inscreveram.
O lado evangélico da força
A estrutura moral sobre a qual se erguem as religiões é tão rígida que, se não houvesse a figura do perdão, seria humanamente impossível segui-la. Mas os crentes podem ficar descansados porque perfeito só Deus e até Jesus Cristo vacilou na hora da morte quando exclamou: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Era a solidão extrema a falar, depois de carregar os pecados do mundo. Para os humanos, existe um consolo: podem pecar, são humanos, e arrepender-se depois, alcançando o perdão da bondade divina.
Nos tempos atuais, as contradições entre o que manda a lei divina e o que os crentes pensam parecem ter deixado de ser dilemas morais dilacerantes que exigem arrependimento. Podemos acreditar em Deus e nos seus mandamentos (“Não matarás”) e defender abertamente a pena de morte em público, pregando-a até através dos média.
Não levantar falsos testemunhos, não cometer adultério, não cobiçar as coisas alheias… tudo muito relativo numa lista de mandamentos que devia ser absoluta. A famosa hipocrisia que sempre se atribuiu à Igreja Católica (pregando a humildade e o jejum enquanto os seus representantes se refastelavam em riquezas e banquetes) é o novo normal dos crentes em geral, não só os católicos. E aqui falaremos dos cristãos, católicos e evangélicos, que se dizem guiados pela palavra de Jesus Cristo.
Somos todos irmãos? Mais ou menos. Para a ultradireita religiosa, ciganos, africanos ou indostânicos não são propriamente nossos irmãos, não têm o direito de habitar o nosso país, como um irmão que queremos ver expulso de nossa casa. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra? Especial cuidado com esta, podemos acabar violentamente apedrejados pelo julgamento precipitado de quem não mostra qualquer misericórdia.
Somos contra a imigração, mas aceitamos o apoio de evangélicos brasileiros? Claro, são uma franja importante da direita radical a quem é preciso dar a mão. Deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, integram o novo movimento de mulheres conservadoras, onde se incluem várias brasileiras evangélicas. Não estão lá por acaso, elas têm um papel principal, refletido, aliás, nos vídeos de promoção.
Os vídeos de mulheres cristãs conservadoras são uma ferramenta preciosa para os grupos red pill, de homens que odeiam a emancipação feminina. Eles usam-nas justamente para mostrar que as próprias mulheres defendem este regresso a casa e à família, como se alguma vez elas tivessem deixado de ter o trabalho maior em casa e com os filhos. Curioso que muitos destes homens nem sequer têm um salário que lhes permita sustentar sozinhos uma família, mas isso são pormenores, contradições – e talvez a grande causa do seu ódio contra as mulheres independentes.
As mulheres conservadoras cristãs também vivem um paradoxo sem nenhuma lógica. Se defendem que o voto, por exemplo, deve ser familiar (ou seja, um voto por família, centrado no chefe da casa, como pedem tantos movimentos evangélicos), o que andam a fazer em vídeos nas redes sociais ou por que andam a criar movimentos para ter voz? Não devíamos estar a ouvi-las a elas, mas sim aos maridos.
Sem nenhuma coerência entre o que dizem e o que fazem, fica difícil convencer os não crentes. Neste atentado à razão, resta suspirar, como Jesus Cristo: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.”
Nos tempos atuais, as contradições entre o que manda a lei divina e o que os crentes pensam parecem ter deixado de ser dilemas morais dilacerantes que exigem arrependimento. Podemos acreditar em Deus e nos seus mandamentos (“Não matarás”) e defender abertamente a pena de morte em público, pregando-a até através dos média.
Não levantar falsos testemunhos, não cometer adultério, não cobiçar as coisas alheias… tudo muito relativo numa lista de mandamentos que devia ser absoluta. A famosa hipocrisia que sempre se atribuiu à Igreja Católica (pregando a humildade e o jejum enquanto os seus representantes se refastelavam em riquezas e banquetes) é o novo normal dos crentes em geral, não só os católicos. E aqui falaremos dos cristãos, católicos e evangélicos, que se dizem guiados pela palavra de Jesus Cristo.
Somos todos irmãos? Mais ou menos. Para a ultradireita religiosa, ciganos, africanos ou indostânicos não são propriamente nossos irmãos, não têm o direito de habitar o nosso país, como um irmão que queremos ver expulso de nossa casa. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra? Especial cuidado com esta, podemos acabar violentamente apedrejados pelo julgamento precipitado de quem não mostra qualquer misericórdia.
Somos contra a imigração, mas aceitamos o apoio de evangélicos brasileiros? Claro, são uma franja importante da direita radical a quem é preciso dar a mão. Deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, integram o novo movimento de mulheres conservadoras, onde se incluem várias brasileiras evangélicas. Não estão lá por acaso, elas têm um papel principal, refletido, aliás, nos vídeos de promoção.
Os vídeos de mulheres cristãs conservadoras são uma ferramenta preciosa para os grupos red pill, de homens que odeiam a emancipação feminina. Eles usam-nas justamente para mostrar que as próprias mulheres defendem este regresso a casa e à família, como se alguma vez elas tivessem deixado de ter o trabalho maior em casa e com os filhos. Curioso que muitos destes homens nem sequer têm um salário que lhes permita sustentar sozinhos uma família, mas isso são pormenores, contradições – e talvez a grande causa do seu ódio contra as mulheres independentes.
As mulheres conservadoras cristãs também vivem um paradoxo sem nenhuma lógica. Se defendem que o voto, por exemplo, deve ser familiar (ou seja, um voto por família, centrado no chefe da casa, como pedem tantos movimentos evangélicos), o que andam a fazer em vídeos nas redes sociais ou por que andam a criar movimentos para ter voz? Não devíamos estar a ouvi-las a elas, mas sim aos maridos.
Sem nenhuma coerência entre o que dizem e o que fazem, fica difícil convencer os não crentes. Neste atentado à razão, resta suspirar, como Jesus Cristo: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.”
Este filme já passou e no fim o bandido morre. Mas se não morrer?
Saudades de quando Flávio Bolsonaro ensaiava, meio sem jeito, dancinhas despojadas de graça e se apresentava como a versão moderada do pai — aquela tão desejada pelo Brasil, segundo ele. Agora, Flávio desfila pelos palcos do país como uma cópia quase perfeita do pai, condenado a 23 anos e sete meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. É uma cópia quase perfeita porque o pai tem carisma e ele não, além de o pai ser muito mais inteligente do que o filho.
O escândalo do Banco Master começou a derrubar a farsa do Flávio bonzinho, educado e conciliador. Uma vez que fracassou na tarefa de atrair o apoio de outros partidos ao seu nome, restou-lhe se conformar com o que de fato é: aliado de milicianos, adepto de práticas heterodoxas no manuseio do dinheiro público, capaz de prestar vassalagem a presidentes estrangeiros e de negociar os interesses nacionais, se preciso for, para se eleger.
Com isso, está de volta o Flávio defensor da retirada de circulação, “em pé ou deitado”, de bandidos, “porque quem tem de andar nas ruas é a população”. Está de volta o Flávio que também promete aprovar no Congresso a castração química para estupradores de crianças e mulheres. “Não gostou? Vote em defensor de bandido”, ele sugere. Está de volta o Flávio que ataca a segurança das urnas eletrônicas e se propõe a reformar, ao seu gosto, o Poder Judiciário.
Esse filme já passou, e no fim o bandido morre. Mas isso foi no tempo em que o espectador sabia distinguir com clareza entre bandido e mocinho. Na era da busca incessante por justiceiros, o bandido pode parecer mais eficaz do que o mocinho de bons modos. Os ritos da democracia costumam ser mais lentos do que os da ditadura, e os golpistas se aproveitam disso para alcançar seus objetivos. Espantoso é que o façam em nome da democracia e da liberdade de expressão.
Por fim, derrotar o bolsonarismo pela segunda vez consecutiva não o sepultará para sempre, mas daqui a quatro anos ele estará mais fraco. Pensem nisso na hora de votar.
O escândalo do Banco Master começou a derrubar a farsa do Flávio bonzinho, educado e conciliador. Uma vez que fracassou na tarefa de atrair o apoio de outros partidos ao seu nome, restou-lhe se conformar com o que de fato é: aliado de milicianos, adepto de práticas heterodoxas no manuseio do dinheiro público, capaz de prestar vassalagem a presidentes estrangeiros e de negociar os interesses nacionais, se preciso for, para se eleger.
Com isso, está de volta o Flávio defensor da retirada de circulação, “em pé ou deitado”, de bandidos, “porque quem tem de andar nas ruas é a população”. Está de volta o Flávio que também promete aprovar no Congresso a castração química para estupradores de crianças e mulheres. “Não gostou? Vote em defensor de bandido”, ele sugere. Está de volta o Flávio que ataca a segurança das urnas eletrônicas e se propõe a reformar, ao seu gosto, o Poder Judiciário.
Esse filme já passou, e no fim o bandido morre. Mas isso foi no tempo em que o espectador sabia distinguir com clareza entre bandido e mocinho. Na era da busca incessante por justiceiros, o bandido pode parecer mais eficaz do que o mocinho de bons modos. Os ritos da democracia costumam ser mais lentos do que os da ditadura, e os golpistas se aproveitam disso para alcançar seus objetivos. Espantoso é que o façam em nome da democracia e da liberdade de expressão.
Por fim, derrotar o bolsonarismo pela segunda vez consecutiva não o sepultará para sempre, mas daqui a quatro anos ele estará mais fraco. Pensem nisso na hora de votar.
Alerta urgente: a água que ainda teimamos em desperdiçar
Há viagens que nos deixam fotografias. Outras deixam-nos uma inquietação que regressa connosco a casa. A viagem que fizemos entre os dias 4 e 14 de agosto, ao longo de cerca de 2.900 quilómetros de estrada, entre Aveiro, Burgos, Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan, Bordéus, Valladolid e Tordesilhas, trouxe-me uma certeza física que é difícil ignorar: o clima que durante décadas associei a Cabo Verde, ao Brasil, à Guiné Equatorial, à Tunísia ou a outras geografias de calor e escassez começou a instalar-se dentro da Europa.
Em sucessivos dias, atravessámos temperaturas entre os 36 e os 41 graus Celsius. Em Albi, os registos apontaram para 40 graus nos dias 13 e 14; em Carcassonne, a estação registou 40,6 graus no dia 13; em Bordéus, a Météo-France registou 40,9 graus nesse mesmo dia; e, em Narbonne, as temperaturas máximas chegaram aos 40 e 41 graus. Não são apenas números: são temperaturas que modificam o comportamento, alteram o sono, dificultam o trabalho, tornam penosa a permanência ao ar livre, a respiração e transformam a simples deslocação de uma pessoa numa experiência árdua de resistência física.
Burgos não escapou a esse corredor de calor. No dia 12 de agosto, a estação do aeroporto chegou aos 36 graus durante a tarde. Em Valladolid, a estação da AEMET registou 37,3 graus às 18 horas do dia 12, depois de uma manhã que já começara com temperaturas elevadas; no dia seguinte, as previsões locais apontavam para 39 graus. Em Tordesilhas, onde parámos antes do regresso, a temperatura acompanhava a mesma massa de ar quente que afetava a província de Valladolid. O termómetro pode variar alguns graus entre estações e localidades, mas a sensação no corpo não precisa de uma casa decimal para se tornar evidente: atravessávamos uma Espanha e uma França que nos obrigavam a reorganizar o dia em função do calor.
Em Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan e Bordéus, a paisagem continuava magnífica, mas o corpo já não a recebia da mesma maneira. Há um momento em que o calor deixa de ser apenas uma característica do lugar e passa a dominar o lugar. O monumento continua no mesmo sítio, o rio Garonne e o Canal du Midi continuam a correr, a praça continua cheia de história, as vinhas continuam alinhadas no horizonte; mas nós começamos a perguntar-nos quanto tempo podemos permanecer ali. O clima deixa de ser pano de fundo e transforma-se em protagonista.
Conheço essa sensação. Vivi em Cabo Verde, na Tunísia, no Brasil e na Guiné Equatorial. Conheço o que significa viver numa geografia onde a água não é uma evidência quotidiana. Sei o que é passar semanas sem água. Sei o que significa receber na cisterna uma tonelada de água para um mês inteiro e ter de a distribuir pela higiene, pelo banho, pela cozinha, pela roupa, pela limpeza da casa e pelas restantes necessidades essenciais. Uma tonelada são mil litros. Divididos por 30 dias, representam cerca de 33,3 litros por dia. Não 33 litros para beber, porque é impossível por ser perigosa. Não 33 litros para tomar banho. Trinta e três litros para tudo.
Quando se vive assim, a água muda de estatuto. Deixa de ser invisível. Cada banho é uma decisão. Meio copo de água para lavar os dentes. Cada lavagem de roupa implica planeamento. Cada balde tem um destino. Cada litro desperdiçado transforma-se numa perda concreta. Em Cabo Verde, lavavam o meu carro com meio balde de água. Aquilo que um europeu pode interpretar como uma curiosidade ou uma extravagância de contenção era, na realidade, uma resposta racional à escassez. Quando a água pode faltar durante dias ou semanas, desperdiçá-la deixa de ser um comportamento banal e passa a ser uma forma de irresponsabilidade.
É impossível transportar essa experiência para a Europa sem fazer uma pergunta incómoda: quanto gastamos nós?
Um residente europeu utiliza, em média, cerca de 124 litros de água por pessoa e por dia no abastecimento doméstico, embora existam diferenças muito significativas entre países e regiões. Isto significa que o consumo doméstico médio europeu é aproximadamente 3,7 vezes superior aos 33,3 litros diários com que aprendi a viver em situações de escassez. A diferença é tão grande que deveria bastar para nos obrigar a repensar a palavra “normalidade”. O que chamamos consumo normal numa sociedade de abundância seria, noutro contexto, um luxo difícil de imaginar.
Há, porém, uma segunda conta, muito mais perturbadora. Os 124 litros não representam a água escondida nos alimentos que comemos, na energia que consumimos ou nos bens que compramos. Quando se calcula a pegada hídrica associada ao consumo de um cidadão médio da União Europeia, incluindo a água incorporada nos processos de produção, a estimativa chega a cerca de 5.011 litros por pessoa e por dia. Desses, aproximadamente 3.687 litros correspondem à alimentação. Não estamos, portanto, perante cinco mil litros que cada europeu abre diariamente numa torneira. Estamos perante água incorporada naquilo que consumimos, grande parte dela invisível para o consumidor final. A dimensão desta diferença é decisiva: os 33 litros da escassez e os 124 litros do uso doméstico tornam-se quase incompreensíveis quando os comparamos com uma pegada hídrica de milhares de litros por dia.
É precisamente nesta água invisível que começa uma parte fundamental da discussão sobre o desperdício.
Quando deitamos fora comida, estamos também a desperdiçar a água utilizada para a produzir. Quando compramos mais alimentos do que aqueles que conseguimos consumir, não estamos apenas a desperdiçar euros. Desperdiçamos água, solo, energia, trabalho agrícola, transporte e tempo. Quando exigimos frutas e legumes disponíveis durante todo o ano, indiferentes à estação, ao território e à disponibilidade hídrica, estamos a transferir o custo ambiental para regiões onde a água já é escassa. Quando consumimos produtos agrícolas produzidos em contextos de forte pressão sobre os recursos hídricos, a água continua a fazer parte do produto, embora já não esteja diante dos nossos olhos.
A água que não vemos é, muitas vezes, a água que mais desperdiçamos.
É por isso que a questão climática não pode ficar confinada à temperatura do ar. Os 41 graus que sentimos em determinados momentos da viagem são apenas uma parte da equação. A outra está debaixo dos nossos pés: nos solos secos, nos aquíferos pressionados, nos rios com caudais reduzidos, nas culturas agrícolas que precisam de água precisamente quando a evaporação é maior, nos agricultores que olham para o céu e sabem que uma semana sem chuva pode significar uma parte substancial do rendimento anual perdida.
Os dados do Joint Research Centre da Comissão Europeia mostram precisamente esse problema. As ondas de calor e a precipitação limitada têm afetado a humidade dos solos e a produção agrícola em várias regiões europeias, com revisões em baixa das previsões para diferentes culturas, incluindo milho e girassol. A agricultura está a entrar numa nova relação com o clima: não basta saber se choverá; é necessário saber quando choverá, quanto choverá, durante quanto tempo o solo conseguirá reter essa água e se a temperatura permitirá que a planta complete o seu ciclo.
O agricultor encontra-se no centro deste dilema. É ele quem recebe a primeira fatura de um clima alterado. Uma indústria pode, dentro de determinados limites, mudar processos, deslocar horários, instalar sistemas de refrigeração. A agricultura não pode simplesmente mandar uma planta esperar que a temperatura desça. O trigo, o milho, o girassol, a vinha, a oliveira, as árvores de fruto e as hortaliças têm ciclos biológicos. Uma cultura não negoceia com o calendário económico. Precisa de água numa determinada fase, de temperaturas compatíveis com a floração, de solos capazes de reter humidade e de condições que permitam a maturação.
Quando tudo isso falha, perdemos mais do que uma colheita. Perdemos alimento. E quando perdemos alimento, aumentam os preços. Quando aumentam os preços dos alimentos, a inflação deixa de ser um conceito macroeconómico e passa a entrar diretamente no orçamento das famílias.
A França oferece um exemplo evidente. A seca e o calor de agosto afetaram fortemente as culturas de milho, com estimativas de quebra significativa da produção nacional. O problema não termina no campo francês: a redução da produção de um grande produtor europeu altera os equilíbrios de mercado, aumenta a necessidade de importações e pode repercutir-se na alimentação animal, nos preços e em toda a cadeia agroalimentar.
Precisamos de compreender esta cadeia antes de dizermos que a água é apenas uma questão ambiental. A água é agricultura. A agricultura é alimentação. A alimentação é economia. A economia é estabilidade social. E a estabilidade social é política.
Uma seca prolongada pode começar num aquífero e acabar numa eleição.
É por isso que o editorial de Rui Tavares Guedes, publicado na VISÃO de 19 de agosto, merece ser lido como um sinal de mudança de escala. O clima deixou de ser uma preocupação que podíamos projetar para um futuro distante ou atribuir a regiões pobres e vulneráveis do planeta. A seca e o calor estão agora a atingir diretamente a Europa rica, com consequências económicas que o próprio editorial estima em dezenas ou mesmo centenas de milhares de milhões de euros. O clima voltou a ser urgente porque já deixou de ser abstrato.
Mas falta acrescentar uma palavra que, na minha opinião, deve ocupar o centro desta discussão: desperdício.
Enquanto agricultores enfrentam restrições de água, continuamos a alimentar uma cultura de consumo excessivo. Enquanto rios e aquíferos suportam pressão, aceitamos usos de água que poderiam ser substituídos ou reduzidos. Enquanto discutimos a seca, continuamos a lavar automóveis com água potável, a limpar pavimentos com mangueiras, a manter jardins que exigem rega intensa, a encher piscinas e a comportarmo-nos como se cada verão fosse garantidamente igual ao anterior.
A Agência Europeia do Ambiente chama a atenção para um dado igualmente relevante: o turismo pode representar consumos muito superiores ao uso doméstico dos residentes em determinadas regiões. A estimativa citada pela Agência situa o consumo turístico entre 300 e 2.000 litros por pessoa e por dia, devido sobretudo a hotéis, piscinas, restauração, espaços verdes e outros serviços. O problema torna-se particularmente sensível em áreas mediterrânicas, onde a pressão turística coincide precisamente com os meses de maior escassez de água.
A pergunta torna-se inevitável: que sentido faz continuar a tratar a água como um recurso barato e praticamente ilimitado precisamente nos lugares e nos meses em que ela é mais escassa?
Não defendo uma cultura de privação. Defendo uma cultura de inteligência. Não precisamos de voltar ao meio balde de água para lavar um carro. Precisamos de aprender com a lógica que existe por detrás dele: usar apenas aquilo que é necessário.
Há uma enorme diferença entre austeridade e eficiência. A austeridade é imposta pela falta. A eficiência é construída antes da falta. Essa diferença deveria orientar a política de água, como prioridade e urgência absoluta.
Precisamos de redes de abastecimento com menos perdas. Precisamos de reutilizar águas residuais tratadas sempre que isso seja tecnicamente e sanitariamente seguro. Precisamos de recolher água da chuva. Precisamos de sistemas de rega mais eficientes. Precisamos de culturas agrícolas adaptadas às características hídricas de cada território. Precisamos de solos ricos em matéria orgânica, capazes de reter água durante mais tempo. Precisamos de proteger zonas húmidas, rios, nascentes e aquíferos. Precisamos de cidades desenhadas para absorver e guardar água e não apenas para a escoar rapidamente para longe.
E precisamos de começar a discutir sem tabus aquilo que a escassez obrigará a discutir mais tarde: prioridades.
Quando a água não chega para todos, quem tem prioridade? A água para beber ou a água para uma piscina? A água para produzir alimentos ou a água para manter um jardim ornamental? A água para uma comunidade ou a água para uma atividade económica altamente consumidora?
Estas perguntas não podem ser adiadas até ao momento em que os depósitos estejam vazios. Uma política de água responsável estabelece critérios antes da emergência.
Também os agricultores precisam de uma política de transição. Não podemos pedir-lhes que mudem culturas, sistemas de rega, variedades de sementes e técnicas agrícolas sem financiamento, conhecimento e assistência técnica. Não podemos exigir alimentos baratos e abundantes e, simultaneamente, deixar o produtor sozinho perante uma transformação climática que não provocou.
A agricultura de amanhã terá de produzir mais alimento com menos água, mas isso não acontecerá por decreto. Exigirá ciência, tecnologia, investigação agronómica, seleção genética, gestão dos solos, agricultura de precisão, conhecimento local e investimento. Exigirá também uma mudança no consumidor. Comprar local, respeitar a sazonalidade, reduzir desperdício alimentar e aceitar que determinados produtos podem tornar-se mais caros ou menos disponíveis constituem formas concretas de participar nessa adaptação.
A escola também terá de mudar.
Uma criança portuguesa deveria saber que a água que sai da torneira não nasce na torneira. Deveria compreender o ciclo hidrológico, conhecer o conceito de bacia hidrográfica, perceber a importância dos aquíferos, saber quanto custa tratar água e compreender a relação entre aquilo que come e a água utilizada para produzir esse alimento. Deve ainda possuir uma família inteligente, sábia, esclarecida.
Devemos ensinar que deitar comida fora é também deitar água fora. Devemos ensinar que um jardim não precisa necessariamente de plantas importadas de climas húmidos. Devemos ensinar que abrir uma torneira durante cinco minutos não é um gesto neutro. Uma torneira aberta durante cinco minutos pode desperdiçar entre 45 e 60 litros de água. Devemos ensinar que a água é um bem comum antes de ser um serviço. E devemos ensinar uma palavra que durante décadas confundimos com privação: contenção.
Conter não é viver pior. Conter é saber distinguir o necessário do excessivo.
A Europa construiu um modelo de vida baseado na disponibilidade permanente. Água disponível. Energia disponível. Alimentos disponíveis. Transporte disponível. Consumo disponível. Esse modelo funcionou enquanto os recursos pareceram abundantes e os seus custos ambientais permaneceram escondidos. A crise climática está a revelar o preço que não quisemos ver.
É neste ponto que o estudo associado ao MIT e ao modelo World3 precisa de ser lido sem exageros. A notícia do canal francês TF1, no dia 19 de agosto, apresentou o tema sob um enquadramento alarmista, sugerindo um eventual colapso da civilização em 15 anos. O estudo científico não afirma que a civilização terminará numa data concreta. O que a investigação fez foi recalibrar o modelo com dados empíricos mais recentes e verificar que, num cenário de continuidade das tendências, persiste uma dinâmica de overshoot and collapse: crescimento para além dos limites do sistema, seguido de deterioração de algumas variáveis fundamentais. O valor do estudo não está numa profecia apocalíptica, mas na demonstração de que sistemas complexos podem ultrapassar limites antes de a sociedade perceber que os ultrapassou.
Esta diferença é fundamental. O futuro não é uma data marcada num calendário. É uma consequência. E as consequências começam com milhões de decisões aparentemente pequenas.
Uma torneira aberta. Uma piscina cheia. Um jardim regado durante as horas de maior evaporação. Um carro lavado com água potável. Uma cultura agrícola plantada num lugar onde a água já não chega. Uma floresta sem capacidade de retenção. Um solo empobrecido. Um alimento comprado e depois deitado fora. Uma rede de abastecimento que perde água antes de ela chegar a casa.
Cada ato isolado parece pequeno. O sistema de muitos milhões de atos deixa de ser pequeno.
Foi isso que compreendi ao regressar de uma viagem em que atravessei Espanha e França sob temperaturas que o meu corpo reconheceu, mas que o meu imaginário europeu ainda não estava preparado para aceitar como rotina. De Aveiro a Burgos, de Burgos a Toulouse, de Toulouse a Carcassonne e Albi, de Albi a Narbonne e à costa mediterrânica, de Narbonne a Bordéus, e depois novamente para Valladolid, Tordesilhas e Aveiro, a paisagem foi mudando. A sensação permaneceu.
Calor. Secura. Cansaço. Necessidade de procurar sombra. Necessidade de água.
E uma pergunta cada vez mais insistente: quanto tempo conseguimos continuar a viver como se a água nunca fosse faltar?
Não considero a Europa condenada. Considero-a atrasada na aprendizagem.
Há milhões de pessoas no mundo que sabem viver com muito menos água do que nós porque foram obrigadas a fazê-lo. Aprenderam a guardar, reutilizar, selecionar, conter. Aprenderam que um recurso escasso merece outra relação.
Eu próprio aprendi isso com uma tonelada de água. Mil litros. Trinta e três litros por dia.
Hoje, diante de uma Europa que consome, em média, cerca de 124 litros por pessoa diariamente, apenas no uso doméstico, e cuja pegada hídrica associada ao consumo pode ultrapassar os 5.000 litros por dia, essa experiência deixou de ser apenas uma memória pessoal. Tornou-se uma unidade de medida moral.
Não precisamos de viver com 33 litros por dia. Precisamos de deixar de viver como se tivéssemos água infinita. Essa é a verdadeira urgência.
Não basta combater as alterações climáticas. Temos de aprender a adaptar-nos ao clima que já mudou e, ao mesmo tempo, reduzir tudo aquilo que aumenta a pressão sobre os recursos.
Não basta pedir chuva. Temos de proteger a água quando ela chega. Não basta pedir aos agricultores que poupem. Temos de mudar a agricultura. Não basta pedir aos cidadãos que fechem a torneira. Temos de transformar as cidades e as redes de abastecimento. Não basta falar de sustentabilidade. Temos de transformar hábitos, políticas públicas, agricultura, educação e economia.
A água não é o futuro. A água é o presente. O futuro depende da forma como decidimos tratá-la hoje.
E quando, depois de quase três mil quilómetros de estrada, regressamos a casa e abrimos uma torneira, deveríamos lembrar-nos de que há pessoas para quem esse gesto continua a ser um privilégio.
Foi isso que Cabo Verde, a Tunísia e outros lugares onde vivi me ensinaram. A escassez não começa quando a torneira deixa de deitar água. Começa muito antes. Começa no momento em que deixamos de compreender o valor de cada litro, cada gota.
Fica aqui o desafio ao leitor dos 33,3 litros por dia.
Em sucessivos dias, atravessámos temperaturas entre os 36 e os 41 graus Celsius. Em Albi, os registos apontaram para 40 graus nos dias 13 e 14; em Carcassonne, a estação registou 40,6 graus no dia 13; em Bordéus, a Météo-France registou 40,9 graus nesse mesmo dia; e, em Narbonne, as temperaturas máximas chegaram aos 40 e 41 graus. Não são apenas números: são temperaturas que modificam o comportamento, alteram o sono, dificultam o trabalho, tornam penosa a permanência ao ar livre, a respiração e transformam a simples deslocação de uma pessoa numa experiência árdua de resistência física.
Burgos não escapou a esse corredor de calor. No dia 12 de agosto, a estação do aeroporto chegou aos 36 graus durante a tarde. Em Valladolid, a estação da AEMET registou 37,3 graus às 18 horas do dia 12, depois de uma manhã que já começara com temperaturas elevadas; no dia seguinte, as previsões locais apontavam para 39 graus. Em Tordesilhas, onde parámos antes do regresso, a temperatura acompanhava a mesma massa de ar quente que afetava a província de Valladolid. O termómetro pode variar alguns graus entre estações e localidades, mas a sensação no corpo não precisa de uma casa decimal para se tornar evidente: atravessávamos uma Espanha e uma França que nos obrigavam a reorganizar o dia em função do calor.
Em Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan e Bordéus, a paisagem continuava magnífica, mas o corpo já não a recebia da mesma maneira. Há um momento em que o calor deixa de ser apenas uma característica do lugar e passa a dominar o lugar. O monumento continua no mesmo sítio, o rio Garonne e o Canal du Midi continuam a correr, a praça continua cheia de história, as vinhas continuam alinhadas no horizonte; mas nós começamos a perguntar-nos quanto tempo podemos permanecer ali. O clima deixa de ser pano de fundo e transforma-se em protagonista.
Conheço essa sensação. Vivi em Cabo Verde, na Tunísia, no Brasil e na Guiné Equatorial. Conheço o que significa viver numa geografia onde a água não é uma evidência quotidiana. Sei o que é passar semanas sem água. Sei o que significa receber na cisterna uma tonelada de água para um mês inteiro e ter de a distribuir pela higiene, pelo banho, pela cozinha, pela roupa, pela limpeza da casa e pelas restantes necessidades essenciais. Uma tonelada são mil litros. Divididos por 30 dias, representam cerca de 33,3 litros por dia. Não 33 litros para beber, porque é impossível por ser perigosa. Não 33 litros para tomar banho. Trinta e três litros para tudo.
Quando se vive assim, a água muda de estatuto. Deixa de ser invisível. Cada banho é uma decisão. Meio copo de água para lavar os dentes. Cada lavagem de roupa implica planeamento. Cada balde tem um destino. Cada litro desperdiçado transforma-se numa perda concreta. Em Cabo Verde, lavavam o meu carro com meio balde de água. Aquilo que um europeu pode interpretar como uma curiosidade ou uma extravagância de contenção era, na realidade, uma resposta racional à escassez. Quando a água pode faltar durante dias ou semanas, desperdiçá-la deixa de ser um comportamento banal e passa a ser uma forma de irresponsabilidade.
É impossível transportar essa experiência para a Europa sem fazer uma pergunta incómoda: quanto gastamos nós?
Um residente europeu utiliza, em média, cerca de 124 litros de água por pessoa e por dia no abastecimento doméstico, embora existam diferenças muito significativas entre países e regiões. Isto significa que o consumo doméstico médio europeu é aproximadamente 3,7 vezes superior aos 33,3 litros diários com que aprendi a viver em situações de escassez. A diferença é tão grande que deveria bastar para nos obrigar a repensar a palavra “normalidade”. O que chamamos consumo normal numa sociedade de abundância seria, noutro contexto, um luxo difícil de imaginar.
Há, porém, uma segunda conta, muito mais perturbadora. Os 124 litros não representam a água escondida nos alimentos que comemos, na energia que consumimos ou nos bens que compramos. Quando se calcula a pegada hídrica associada ao consumo de um cidadão médio da União Europeia, incluindo a água incorporada nos processos de produção, a estimativa chega a cerca de 5.011 litros por pessoa e por dia. Desses, aproximadamente 3.687 litros correspondem à alimentação. Não estamos, portanto, perante cinco mil litros que cada europeu abre diariamente numa torneira. Estamos perante água incorporada naquilo que consumimos, grande parte dela invisível para o consumidor final. A dimensão desta diferença é decisiva: os 33 litros da escassez e os 124 litros do uso doméstico tornam-se quase incompreensíveis quando os comparamos com uma pegada hídrica de milhares de litros por dia.
É precisamente nesta água invisível que começa uma parte fundamental da discussão sobre o desperdício.
Quando deitamos fora comida, estamos também a desperdiçar a água utilizada para a produzir. Quando compramos mais alimentos do que aqueles que conseguimos consumir, não estamos apenas a desperdiçar euros. Desperdiçamos água, solo, energia, trabalho agrícola, transporte e tempo. Quando exigimos frutas e legumes disponíveis durante todo o ano, indiferentes à estação, ao território e à disponibilidade hídrica, estamos a transferir o custo ambiental para regiões onde a água já é escassa. Quando consumimos produtos agrícolas produzidos em contextos de forte pressão sobre os recursos hídricos, a água continua a fazer parte do produto, embora já não esteja diante dos nossos olhos.
A água que não vemos é, muitas vezes, a água que mais desperdiçamos.
É por isso que a questão climática não pode ficar confinada à temperatura do ar. Os 41 graus que sentimos em determinados momentos da viagem são apenas uma parte da equação. A outra está debaixo dos nossos pés: nos solos secos, nos aquíferos pressionados, nos rios com caudais reduzidos, nas culturas agrícolas que precisam de água precisamente quando a evaporação é maior, nos agricultores que olham para o céu e sabem que uma semana sem chuva pode significar uma parte substancial do rendimento anual perdida.
Os dados do Joint Research Centre da Comissão Europeia mostram precisamente esse problema. As ondas de calor e a precipitação limitada têm afetado a humidade dos solos e a produção agrícola em várias regiões europeias, com revisões em baixa das previsões para diferentes culturas, incluindo milho e girassol. A agricultura está a entrar numa nova relação com o clima: não basta saber se choverá; é necessário saber quando choverá, quanto choverá, durante quanto tempo o solo conseguirá reter essa água e se a temperatura permitirá que a planta complete o seu ciclo.
O agricultor encontra-se no centro deste dilema. É ele quem recebe a primeira fatura de um clima alterado. Uma indústria pode, dentro de determinados limites, mudar processos, deslocar horários, instalar sistemas de refrigeração. A agricultura não pode simplesmente mandar uma planta esperar que a temperatura desça. O trigo, o milho, o girassol, a vinha, a oliveira, as árvores de fruto e as hortaliças têm ciclos biológicos. Uma cultura não negoceia com o calendário económico. Precisa de água numa determinada fase, de temperaturas compatíveis com a floração, de solos capazes de reter humidade e de condições que permitam a maturação.
Quando tudo isso falha, perdemos mais do que uma colheita. Perdemos alimento. E quando perdemos alimento, aumentam os preços. Quando aumentam os preços dos alimentos, a inflação deixa de ser um conceito macroeconómico e passa a entrar diretamente no orçamento das famílias.
A França oferece um exemplo evidente. A seca e o calor de agosto afetaram fortemente as culturas de milho, com estimativas de quebra significativa da produção nacional. O problema não termina no campo francês: a redução da produção de um grande produtor europeu altera os equilíbrios de mercado, aumenta a necessidade de importações e pode repercutir-se na alimentação animal, nos preços e em toda a cadeia agroalimentar.
Precisamos de compreender esta cadeia antes de dizermos que a água é apenas uma questão ambiental. A água é agricultura. A agricultura é alimentação. A alimentação é economia. A economia é estabilidade social. E a estabilidade social é política.
Uma seca prolongada pode começar num aquífero e acabar numa eleição.
É por isso que o editorial de Rui Tavares Guedes, publicado na VISÃO de 19 de agosto, merece ser lido como um sinal de mudança de escala. O clima deixou de ser uma preocupação que podíamos projetar para um futuro distante ou atribuir a regiões pobres e vulneráveis do planeta. A seca e o calor estão agora a atingir diretamente a Europa rica, com consequências económicas que o próprio editorial estima em dezenas ou mesmo centenas de milhares de milhões de euros. O clima voltou a ser urgente porque já deixou de ser abstrato.
Mas falta acrescentar uma palavra que, na minha opinião, deve ocupar o centro desta discussão: desperdício.
Enquanto agricultores enfrentam restrições de água, continuamos a alimentar uma cultura de consumo excessivo. Enquanto rios e aquíferos suportam pressão, aceitamos usos de água que poderiam ser substituídos ou reduzidos. Enquanto discutimos a seca, continuamos a lavar automóveis com água potável, a limpar pavimentos com mangueiras, a manter jardins que exigem rega intensa, a encher piscinas e a comportarmo-nos como se cada verão fosse garantidamente igual ao anterior.
A Agência Europeia do Ambiente chama a atenção para um dado igualmente relevante: o turismo pode representar consumos muito superiores ao uso doméstico dos residentes em determinadas regiões. A estimativa citada pela Agência situa o consumo turístico entre 300 e 2.000 litros por pessoa e por dia, devido sobretudo a hotéis, piscinas, restauração, espaços verdes e outros serviços. O problema torna-se particularmente sensível em áreas mediterrânicas, onde a pressão turística coincide precisamente com os meses de maior escassez de água.
A pergunta torna-se inevitável: que sentido faz continuar a tratar a água como um recurso barato e praticamente ilimitado precisamente nos lugares e nos meses em que ela é mais escassa?
Não defendo uma cultura de privação. Defendo uma cultura de inteligência. Não precisamos de voltar ao meio balde de água para lavar um carro. Precisamos de aprender com a lógica que existe por detrás dele: usar apenas aquilo que é necessário.
Há uma enorme diferença entre austeridade e eficiência. A austeridade é imposta pela falta. A eficiência é construída antes da falta. Essa diferença deveria orientar a política de água, como prioridade e urgência absoluta.
Precisamos de redes de abastecimento com menos perdas. Precisamos de reutilizar águas residuais tratadas sempre que isso seja tecnicamente e sanitariamente seguro. Precisamos de recolher água da chuva. Precisamos de sistemas de rega mais eficientes. Precisamos de culturas agrícolas adaptadas às características hídricas de cada território. Precisamos de solos ricos em matéria orgânica, capazes de reter água durante mais tempo. Precisamos de proteger zonas húmidas, rios, nascentes e aquíferos. Precisamos de cidades desenhadas para absorver e guardar água e não apenas para a escoar rapidamente para longe.
E precisamos de começar a discutir sem tabus aquilo que a escassez obrigará a discutir mais tarde: prioridades.
Quando a água não chega para todos, quem tem prioridade? A água para beber ou a água para uma piscina? A água para produzir alimentos ou a água para manter um jardim ornamental? A água para uma comunidade ou a água para uma atividade económica altamente consumidora?
Estas perguntas não podem ser adiadas até ao momento em que os depósitos estejam vazios. Uma política de água responsável estabelece critérios antes da emergência.
Também os agricultores precisam de uma política de transição. Não podemos pedir-lhes que mudem culturas, sistemas de rega, variedades de sementes e técnicas agrícolas sem financiamento, conhecimento e assistência técnica. Não podemos exigir alimentos baratos e abundantes e, simultaneamente, deixar o produtor sozinho perante uma transformação climática que não provocou.
A agricultura de amanhã terá de produzir mais alimento com menos água, mas isso não acontecerá por decreto. Exigirá ciência, tecnologia, investigação agronómica, seleção genética, gestão dos solos, agricultura de precisão, conhecimento local e investimento. Exigirá também uma mudança no consumidor. Comprar local, respeitar a sazonalidade, reduzir desperdício alimentar e aceitar que determinados produtos podem tornar-se mais caros ou menos disponíveis constituem formas concretas de participar nessa adaptação.
A escola também terá de mudar.
Uma criança portuguesa deveria saber que a água que sai da torneira não nasce na torneira. Deveria compreender o ciclo hidrológico, conhecer o conceito de bacia hidrográfica, perceber a importância dos aquíferos, saber quanto custa tratar água e compreender a relação entre aquilo que come e a água utilizada para produzir esse alimento. Deve ainda possuir uma família inteligente, sábia, esclarecida.
Devemos ensinar que deitar comida fora é também deitar água fora. Devemos ensinar que um jardim não precisa necessariamente de plantas importadas de climas húmidos. Devemos ensinar que abrir uma torneira durante cinco minutos não é um gesto neutro. Uma torneira aberta durante cinco minutos pode desperdiçar entre 45 e 60 litros de água. Devemos ensinar que a água é um bem comum antes de ser um serviço. E devemos ensinar uma palavra que durante décadas confundimos com privação: contenção.
Conter não é viver pior. Conter é saber distinguir o necessário do excessivo.
A Europa construiu um modelo de vida baseado na disponibilidade permanente. Água disponível. Energia disponível. Alimentos disponíveis. Transporte disponível. Consumo disponível. Esse modelo funcionou enquanto os recursos pareceram abundantes e os seus custos ambientais permaneceram escondidos. A crise climática está a revelar o preço que não quisemos ver.
É neste ponto que o estudo associado ao MIT e ao modelo World3 precisa de ser lido sem exageros. A notícia do canal francês TF1, no dia 19 de agosto, apresentou o tema sob um enquadramento alarmista, sugerindo um eventual colapso da civilização em 15 anos. O estudo científico não afirma que a civilização terminará numa data concreta. O que a investigação fez foi recalibrar o modelo com dados empíricos mais recentes e verificar que, num cenário de continuidade das tendências, persiste uma dinâmica de overshoot and collapse: crescimento para além dos limites do sistema, seguido de deterioração de algumas variáveis fundamentais. O valor do estudo não está numa profecia apocalíptica, mas na demonstração de que sistemas complexos podem ultrapassar limites antes de a sociedade perceber que os ultrapassou.
Esta diferença é fundamental. O futuro não é uma data marcada num calendário. É uma consequência. E as consequências começam com milhões de decisões aparentemente pequenas.
Uma torneira aberta. Uma piscina cheia. Um jardim regado durante as horas de maior evaporação. Um carro lavado com água potável. Uma cultura agrícola plantada num lugar onde a água já não chega. Uma floresta sem capacidade de retenção. Um solo empobrecido. Um alimento comprado e depois deitado fora. Uma rede de abastecimento que perde água antes de ela chegar a casa.
Cada ato isolado parece pequeno. O sistema de muitos milhões de atos deixa de ser pequeno.
Foi isso que compreendi ao regressar de uma viagem em que atravessei Espanha e França sob temperaturas que o meu corpo reconheceu, mas que o meu imaginário europeu ainda não estava preparado para aceitar como rotina. De Aveiro a Burgos, de Burgos a Toulouse, de Toulouse a Carcassonne e Albi, de Albi a Narbonne e à costa mediterrânica, de Narbonne a Bordéus, e depois novamente para Valladolid, Tordesilhas e Aveiro, a paisagem foi mudando. A sensação permaneceu.
Calor. Secura. Cansaço. Necessidade de procurar sombra. Necessidade de água.
E uma pergunta cada vez mais insistente: quanto tempo conseguimos continuar a viver como se a água nunca fosse faltar?
Não considero a Europa condenada. Considero-a atrasada na aprendizagem.
Há milhões de pessoas no mundo que sabem viver com muito menos água do que nós porque foram obrigadas a fazê-lo. Aprenderam a guardar, reutilizar, selecionar, conter. Aprenderam que um recurso escasso merece outra relação.
Eu próprio aprendi isso com uma tonelada de água. Mil litros. Trinta e três litros por dia.
Hoje, diante de uma Europa que consome, em média, cerca de 124 litros por pessoa diariamente, apenas no uso doméstico, e cuja pegada hídrica associada ao consumo pode ultrapassar os 5.000 litros por dia, essa experiência deixou de ser apenas uma memória pessoal. Tornou-se uma unidade de medida moral.
Não precisamos de viver com 33 litros por dia. Precisamos de deixar de viver como se tivéssemos água infinita. Essa é a verdadeira urgência.
Não basta combater as alterações climáticas. Temos de aprender a adaptar-nos ao clima que já mudou e, ao mesmo tempo, reduzir tudo aquilo que aumenta a pressão sobre os recursos.
Não basta pedir chuva. Temos de proteger a água quando ela chega. Não basta pedir aos agricultores que poupem. Temos de mudar a agricultura. Não basta pedir aos cidadãos que fechem a torneira. Temos de transformar as cidades e as redes de abastecimento. Não basta falar de sustentabilidade. Temos de transformar hábitos, políticas públicas, agricultura, educação e economia.
A água não é o futuro. A água é o presente. O futuro depende da forma como decidimos tratá-la hoje.
E quando, depois de quase três mil quilómetros de estrada, regressamos a casa e abrimos uma torneira, deveríamos lembrar-nos de que há pessoas para quem esse gesto continua a ser um privilégio.
Foi isso que Cabo Verde, a Tunísia e outros lugares onde vivi me ensinaram. A escassez não começa quando a torneira deixa de deitar água. Começa muito antes. Começa no momento em que deixamos de compreender o valor de cada litro, cada gota.
Fica aqui o desafio ao leitor dos 33,3 litros por dia.
Linchamento em Copacabana é o fundo do poço
Não chega a ser novidade a banalização da vida. No Rio de Janeiro. No Brasil. No mundo. Discute-se intensamente quais são os corpos suscetíveis à morte, deixados para morrer, matáveis. Cartão-postal carioca, território do maior réveillon do planeta, cenário de atrações internacionais todo mês de maio, bairro do hotel mais famoso do país, Copacabana agora é também palco da barbárie nua e crua. Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, foi espancado até a morte, em via pública, por quatro assassinos, por supostamente ter subtraído a bicicleta com que saíra para passear na noite de terça-feira, 11 de agosto.
Cláudio Rafael não era ladrão. A bicicleta com que saíra de Botafogo, outro bairro da Zona Sul, para Copacabana pertencia a uma de suas irmãs. Inocente, foi vítima do ódio homicida de quatro criminosos, dois deles disfarçados de seguranças privados — eufemismo Zona Sul para aqueles que, no subúrbio e na favela, são denominados milicianos — e os demais, de entregadores do iFood. Em seis minutos, o quarteto desferiu 57 pauladas, chutes, pisões e socos num homem neurodivergente. Cláudio permaneceu em agonia na calçada por meia hora, até ser resgatado por bombeiros. No hospital, faleceu.
O sangue da vítima ficou no calçamento. Dias atrás, depois que a família denunciou o assassinato, a polícia passou pelo local em busca de vestígios e imagens. Os registros não deixam dúvidas sobre a covardia. O delegado encarregado do caso, Ângelo Lages, titular da 12ª DP, classificou o crime como homicídio triplamente qualificado: por motivo fútil, cometido com crueldade e sem chance de defesa da vítima.
A barbaridade cometida pela gangue é infinitamente mais grave que o pretenso furto ou roubo da bicicleta, fosse Cláudio Rafael um assaltante. Tiraram a vida de um inocente. Mas linchamento, pena capital, execução sumária não são punições previstas no Código Penal para furto simples (um a quatro anos de detenção), qualificado (dois a oito anos), nem para roubo (quatro a dez anos), ainda que com lesão corporal (sete a 18) ou morte (20 a 30 anos).
Uma sociedade que permite linchamento está, ela própria, adoecida; se pactua com o justiçamento, está ferida de morte. No corpo inerte de Cláudio Rafael ficaram as digitais dos quatro homicidas. Mas há sangue nas mãos da gente que contrata e autoriza milícia privada a imputar crime, condenar e punir, à margem do Estado Democrático de Direito. Há sangue nas mãos de quem passou pela rua e nada fez; de quem assistiu da janela e não gritou. Há sangue nas mãos de quem não chamou a polícia; que valoriza patrimônio em detrimento da vida. Há responsabilidade de um Estado que, detentor do monopólio da força, se mostra incapaz de dar segurança aos cidadãos.
O Brasil anda tomado pela violência desmedida, por dolo ou indiferença. O Rio de Janeiro, em particular, parece entorpecido pelo sequestro longevo do poder público pelo crime. O estado teve seis governadores presos ou investigados. Há cinco meses, é governado e faxinado pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ). O Tribunal Superior Eleitoral condenou à inelegibilidade Cláudio Castro, o governador que se reelegeu em 2022 abusando do poder econômico; renunciou para não ser cassado; e, hoje, é suspeito de envolvimento com Ricardo Magro, dono da refinaria Refit, maior devedora e sonegadora de impostos do país, e com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, protagonista da maior fraude bancária da História. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, foi retirado da linha sucessória por envolvimento com o Comando Vermelho. Está preso em penitenciária federal. Foi tornado réu pela Primeira Turma do STF nesta semana.
Um dos maiores intelectuais do Brasil, Muniz Sodré, professor emérito da UFRJ, autor de dezenas de livros, em entrevista ao “Angu de Grilo”, podcast que mantenho com a jornalista Isabela Reis, minha filha, disse que a política perdeu o sentido. Por girar em torno dos próprios interesses, esvaziou-se. Ele se referia à morte, em junho, da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21 anos, lançada sem amarras da Ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis (SP), no que seria um salto de rope jump.
— Eu realmente fiquei estomagado com aquilo. Como é que três pessoas seguram uma moça, ela própria não percebeu também que não tinha cordas, e a lançam? Isso é o Brasil. As pessoas não percebem que é preciso cordas, porque é preciso vínculo. Vínculo é diferente de relação. Temos relações sociais, mas vínculo é diferente. Passa pelo corpo, pela perna, pelo coração, pelo braço. Estamos numa crise da vinculação, que é ao mesmo tempo uma crise da política, da política sem amarras. Então, de repente, se abre o buraco para o pior.
É o fundo do poço.
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