A estrutura moral sobre a qual se erguem as religiões é tão rígida que, se não houvesse a figura do perdão, seria humanamente impossível segui-la. Mas os crentes podem ficar descansados porque perfeito só Deus e até Jesus Cristo vacilou na hora da morte quando exclamou: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Era a solidão extrema a falar, depois de carregar os pecados do mundo. Para os humanos, existe um consolo: podem pecar, são humanos, e arrepender-se depois, alcançando o perdão da bondade divina.
Nos tempos atuais, as contradições entre o que manda a lei divina e o que os crentes pensam parecem ter deixado de ser dilemas morais dilacerantes que exigem arrependimento. Podemos acreditar em Deus e nos seus mandamentos (“Não matarás”) e defender abertamente a pena de morte em público, pregando-a até através dos média.
Não levantar falsos testemunhos, não cometer adultério, não cobiçar as coisas alheias… tudo muito relativo numa lista de mandamentos que devia ser absoluta. A famosa hipocrisia que sempre se atribuiu à Igreja Católica (pregando a humildade e o jejum enquanto os seus representantes se refastelavam em riquezas e banquetes) é o novo normal dos crentes em geral, não só os católicos. E aqui falaremos dos cristãos, católicos e evangélicos, que se dizem guiados pela palavra de Jesus Cristo.
Somos todos irmãos? Mais ou menos. Para a ultradireita religiosa, ciganos, africanos ou indostânicos não são propriamente nossos irmãos, não têm o direito de habitar o nosso país, como um irmão que queremos ver expulso de nossa casa. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra? Especial cuidado com esta, podemos acabar violentamente apedrejados pelo julgamento precipitado de quem não mostra qualquer misericórdia.
Somos contra a imigração, mas aceitamos o apoio de evangélicos brasileiros? Claro, são uma franja importante da direita radical a quem é preciso dar a mão. Deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, integram o novo movimento de mulheres conservadoras, onde se incluem várias brasileiras evangélicas. Não estão lá por acaso, elas têm um papel principal, refletido, aliás, nos vídeos de promoção.
Os vídeos de mulheres cristãs conservadoras são uma ferramenta preciosa para os grupos red pill, de homens que odeiam a emancipação feminina. Eles usam-nas justamente para mostrar que as próprias mulheres defendem este regresso a casa e à família, como se alguma vez elas tivessem deixado de ter o trabalho maior em casa e com os filhos. Curioso que muitos destes homens nem sequer têm um salário que lhes permita sustentar sozinhos uma família, mas isso são pormenores, contradições – e talvez a grande causa do seu ódio contra as mulheres independentes.
As mulheres conservadoras cristãs também vivem um paradoxo sem nenhuma lógica. Se defendem que o voto, por exemplo, deve ser familiar (ou seja, um voto por família, centrado no chefe da casa, como pedem tantos movimentos evangélicos), o que andam a fazer em vídeos nas redes sociais ou por que andam a criar movimentos para ter voz? Não devíamos estar a ouvi-las a elas, mas sim aos maridos.
Sem nenhuma coerência entre o que dizem e o que fazem, fica difícil convencer os não crentes. Neste atentado à razão, resta suspirar, como Jesus Cristo: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.”
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