quarta-feira, 11 de maio de 2022

Eleição tira a máscara do fingimento

Permitam ao cronista que não gosta muito deste “vale de lágrimas” que escreva sobre o lugar onde entramos sem saber ou ser chamados, fugindo dos fatos alarmantes que nos levam ao pior e à dor.

Exceto o prazer físico, conjugado e afim ao “vale de lágrimas”, nem sempre existe o gozo corporal com um difícil “bem-querer”, que pode ser o amor mutuamente inevitável e certamente ambíguo, conforme cantam poetas, subfilósofos e malandros sedutores em todos os tempos.

Meu favorito é o velho Luís de Camões, caolho na visão, mas aberto no coração: Amor é fogo que arde sem se ver/É ferida que dói, e não se sente/É um contentamento descontente/É dor que desatina sem doer.

Relembro aqui sua abertura e seu final:

Mas como causar pode seu favor/Nos corações humanos amizade/Se tão contrário a si é o mesmo amor?

No final, brotam o humano — a ironia do “entretanto” e do “porém” — e as dívidas inerentes à liberdade que, como o amor, são fáceis de teorizar e tão difíceis de guiar a nossa insaciável índole humana, marcada justamente por projetos, desejos, escolhas e dúvidas. Aquilo que quase sempre é tão contrário a si mesmo, como torna claro a versão camoniana do amor...


Os mamíferos têm escolhas. Mas lembrem-se de que um elefante não come carne, e um leão devora um búfalo cru! Nós, entretanto, comemos cozido, e existem tantas formas de preparar uma carne quanto os canais de TV que assinamos.

Somos criaturas do “entretanto”, do “porém” e do “todavia”. Se sobreviver é básico, ele é sempre qualificado por alguma forma de dúvida — essa dimensão indispensável ao arbítrio. Essa areia de que somos feitos justamente porque, em todos os níveis, existem os intrometidos “entretantos”, ponderados “poréns” e oscilantes “entrementes” inerentes ao ato de escolher.

Em movediços tempos pré-eleitorais, quando podem “cair” os que estão em cima e —no entanto — “subir” os que estão em baixo, haja dúvida e perplexidade nesta sociedade que ainda não se quer aristocrática. Nada, porém, como o voto “livre” para, entrementes, descobrir nossos desencontros das alquimias entre Geraldos e Luizes Inácios. Uns absolutamente burocráticos como o chuchu; outros pensando que ainda são capazes de apimentar algum prato com a sagrada fórmula do “pão para os pobres”. Essa palavra de ordem do cinismo nacional. Pão para os pobres, rei e caviar para todos nós que podemos ofertar cristãmente esse sagrado pão.

Tenho visto muitas discussões durante minha longa vida. Na fila de minha quarta dose de vacina contra a Covid-19, vi dois velhinhos quase saírem no braço por um Lula visto por um como corrupto e visto por um outro para quem o Lancelot era o Capitão.

A escolha eleitoral, como as amorosas, abre os corações e tira a máscara “educada” do fingimento. Afinal, como dizia minha mamãe, “toda franqueza é rude”, como todo populismo, de que sentimos saudade, é como as promessas, esperançoso.

Sejam quais forem as opiniões dos especialistas, e olha que eles são multidão no Brasil, os tempos pré-eleitorais são de dúvidas e dos cálculos dos todavias, dos entretantos, do porém e daquilo que talvez mais chame minha atenção como um modesto observador da nossa sociedade, o dizer “sim” como “não” e vice-versa.

Mas o limite, a que finalmente chegamos, vem na forma de um elemento inusitado: a repetição que, como água benta, exorciza a dúvida como uma garantia de que seremos sempre o que gostamos de ser: os mesmos.

Tempo histórico do Brasil é o da tragédia contínua

"Esta infeliz atitude de vestal, tutor e messias, do militar, recrudesceu recentemente gerando os acontecimentos a que todos estamos assistindo. (...) Oxalá os bons militares meditem sobre isso, reconsiderem e retornem, com humildade e patriotismo, para a singela posição que a Constituição lhes aponta."

Eu poderia ter pescado o parágrafo acima de uma coluna recente qualquer, mas foi em uma velha revista Realidade onde o encontrei.

O texto, assinado pelo contra-almirante Norton D. Boiteux, divide a página com um segundo artigo, de autoria do então deputado Anísio Rocha. Os dois respondem a uma pergunta enviada por um leitor: "É verdade que, no Brasil, todo o poder está na mão dos militares?"

Para bom brasileiro, não causa espanto que a resposta do militar seja sim, e a do deputado, não. O que de fato surpreende é a data da publicação: junho de 1966. O golpe militar já havia sido consumado há dois anos.

Rocha, no entanto, abre seu texto defendendo que "tanto o Poder Judiciário como o Poder Legislativo estão funcionando em toda a sua plenitude, em que pesem os Atos Institucionais surgidos com o advento da Revolução". (Corrigida pela inflação, a frase hoje soaria algo como "as instituições estão funcionando, apesar das ações do presidente".)

Os atos institucionais emitidos até 1966, e minimizados pelo deputado, cassaram mandatos, prenderam opositores, extinguiram partidos e tornaram indiretas as eleições para presidente e governador. Que dúvida poderia restar sobre as mãos que detinham o poder?

Voltemos ao presente. A Folha perguntou a seus leitores, na semana passada, se a democracia brasileira corre risco. Quão pertinente ou absurda essa questão vai soar no futuro, diante de tudo o que estamos vivendo?

Os historiadores dizem que o distanciamento é fundamental para que se compreenda um fenômeno. O problema do Brasil é que o tempo parece não passar: a história nem sequer chega a se repetir como farsa. A tragédia é contínua.

O que nos espera, um desmame ou um derrame?

A partir de agosto uma enxurrada de promessas, ameaças, falsidades e agressões serão derramadas sobre os brasileiros pelos candidatos à Presidência da República, que se consideram protegidos, nesses dois a três meses, pela legislação eleitoral. Não podem ser agredidos nem censurados. Entretanto, essa alegria não parece durar muito. Seja quem for o eleito, um dilema já está posto: a mudança do sistema (forma)de governo.

Passadas as eleições e iniciada mais uma legislatura no Congresso, a Câmara dos Deputados promoverá, oficialmente, uma discussão sobre a adoção no Brasil de um sistema de governo semipresidencialista. O presidente da Câmara, Arthur Lira, criou um grupo de trabalho para discutir o assunto, e apresentar uma proposta de mudança constitucional nesse sentido. Pela suposta e futura nova forma de governo, o poderosíssimo cargo de Presidente da República, que reúne em um só ente a chefia do Estado com a chefia do Governo, perderia parte de sua força governativa para o Congresso Nacional.

O presidencialismo adotado no Brasil é um sistema altamente empoderador e, ao mesmo tempo, subserviente. Expressa-se na estrutura do Estado, como o Executivo, tendo como contraparte, o Legislativo e o Judiciário. São os tais "Três Poderes". É representado pelo Presidente da República e todo seu aparato ministerial, seis milhões de funcionários públicos, as forças armadas, as empresa públicas, as autarquias o patrimônio nacional e todas as obras públicas federais em andamento no País.


A essa força expressiva acrescenta-se ainda o privilégio de elaborar e executar o orçamento nacional de quase dois trilhões de reais, o direito de cobrar impostos, de gastar todo dinheiro público e, por cima, exercer o poder de polícia. Uau! ... Poderosíssimo! Muitos dos que chegam ao cargo não resistem a esses afagos e sacralidades da lei, e tornam-se autoritários ou carismáticos, reivindicando ainda mais poder.

A legislação eleitoral não contém dispositivos suficientes, senão retóricos, para impedir a subordinação desse gigantesco aparato de Estado a um único sujeito, que pode ser alguém portador de dupla personalidade - os políticos são os que mais se aproximam disso -, ser um corrupto ou mesmo um incompetente, como tem acontecido. O aparelho institucional é enorme, e o exercício de sua gestão nos campos da política, da economia e da sociedade exige daquele que o detém além de sanidade, ética e competência gestora. Alguns chegam a ele sem nunca ter ocupado quaisquer funções administrativas públicas ou mesmo na iniciativa privada. Então o cargo não pode ser ocupado por qualquer um, desde que saiba ler e escrever.

Que opções teriam os brasileiros para conduzir este País a um futuro mais confiável? Na democracia têm-se praticamente dois sistemas de governo: o presidencialismo e o parlamentarismo. Ambos já foram testados por aqui. Embora dê aparência de maior estabilidade, ao dividir a responsabilidade do Executivo com o Legislativo, a experiência parlamentarista no Brasil republicano foi um fracasso. Por sua vez, o presidencialismo, copiado do modelo norte-americano, vem se arrastando há cem anos, sem encontrar um rumo certo para a Nação, cuja governança é transformada astutamente em um espaço de negócios, sem a participação do povo.

Apesar do grupo de trabalho da Câmara, não será fácil, contudo, mudar o presidencialismo que aí está. Ele é alimentado por egos, oligarquias e um certo fanatismo, quase fora de controle. Por isso, a resistência à mudança começa sempre dentro do próprio Estado. É algo estruturalmente doentio, que agrega um poder imenso, quase divino, a um ou outro sujeito eleitos por votos populares, nem sempre computado como sensatos, já dizia Pelé. Por isso, há quem defenda o parlamentarismo, uma forma de compartilhar a responsabilidade de governar entre o Executivo e o Legislativo.

A Câmara dos Deputados tem em mãos uma terceira opção. Para proteger o Estado e a Nação dos riscos elencados acima, pretende propor no início da nova legislatura, em 2023, a adoção de um sistema de governo semi presidencial para o Brasil, pelo qual o Presidente da República é eleito pelo povo como chefe de Estado, assim como já fazem países como França, Itália, Alemanha, Israel, Rússia e outros, mas tem seus amplos poderes limitados a função de comandante em chefe das forças armadas e condutor das relações externas, cabendo-lhe ainda sancionar ou vetar leis e materializar, com sua existência física, a legitimidade constitucional do Estado e do Governo.

Mas a administração das políticas públicas internas sairia do seu controle. Passaria a um primeiro ministro, indicado por ele, com a aprovação da maioria no Parlamento. O modelo é adotado por muitos países, cada um com estilo próprio. A governabilidade chega a ficar um pouco confusa, conforme ocorre na França, na Itália e na Rússia. Quase todos recorrem às coalizões, a agregação, no Congresso, de dois ou três partidos de apoio. Nem sempre isso se dá sem a utilização de recursos escusos, conforme tem mostrado aí o imaginário sistema de presidencialista de coalizão.

Existe um problema que não pode ser descartado. Na coalizão, o partido ou o seu representante não abre mão da sua maneira de entender os objetivos do Estado e a direção das políticas públicas. Um ministro oriundo de um partido conservador minimiza a política agrária, um mais à esquerda fortalece-a. A política da indústria e comércio vista do ponto de vista empresarial é uma, da perspectiva ambiental é outra. Termina por confundir a governabilidade e a envolver mesmo o gabinete executivo em desvios fraudulentos.

A coalizão gera quase sempre também, um grupo de partidos oposicionistas fortes ou barulhentos, que negando apoio aos governantes e desqualificando a governabilidade tumultuam a gestão de governo. Sobrevive disso: ser oposição. E creiam: dá dinheiro. Recusam-se a dialogar com os governantes. Passam todo o tempo tentando solapar as bases da gestão do Estado, mesmo contradizendo, em alguns casos, as próprias posições. Para se ter uma ideia, no Brasil mais atual tem partido que pediu - e repetiu - o impeachment de todos os governos. Não se sabe, portanto, se o semipresidencialismo é uma tentativa de desmamar que m vive pendurado nas tetas do Estado ou se se trata de um derrame indireto dos recursos e do Poder do Estado. Dos governos no Brasil deve-se sempre esperar a confirmação do anátema de Alkmin: Moralizemos, ou locupletemos todos.

Brasil primata

 


Contra a guerra, a coragem de construir a paz

A quem é que, perante as imagens de horror desta guerra na Ucrânia ditada por um megalómeno humilhado e insensato — mortes incontáveis, a tragédia de valas comuns, milhões de deslocados e refugiados, mulheres, crianças, idosos em total desamparo, na falta de tudo, quando nada é poupado à destruição: maternidades, escolas, hospitais —, não vieram já as lágrimas aos olhos?

O Papa Francisco não se cansa de clamar contra a guerra e apelar à paz: “Em nome de Deus peço-vos : parem este massacre!” “Um massacre sem sentido” e de “uma crueldade inumana e blasfema”. Por ocasião da celebração da Páscoa ortodoxa, no fim de semana passado, ele, a ONU, o Conselho Mundial das Igrejas apelaram a um cessar-fogo, também para abrir a possibilidade de corredores humanitários, mas não foram ouvidos. Quero sublinhar que, atendendo às celebrações pascais, o arcebispo de Munique, cardeal Reinhard Marx, foi particularmente duro na saudação pascal. Chamou “perversos” aos líderes religiosos que, como o Patriarca de Moscovo, Kirill, apoiam a guerra na Ucrânia, lamentou que ao longo da História “os cristãos tenham usado a violência sob o sinal da cruz”, algo que se repete hoje “na guerra actual, com cristãos baptizados a matar outros cristãos e recebendo o apoio de líderes das suas Igrejas”. A Igreja “deve erguer-se como um lugar de não violência, e a cruz como sinal da violência sofrida e superada.” Chamou “ditador” a Putin: “a Páscoa é a rebelião de Deus contra todas as forças da violência e da morte. A vitória da vida sobre a morte não pode ser detida, nem sequer com as armas de Putin e outros ditadores”.

Francisco confessa numa entrevista a “La Nación” que “está disposto a fazer tudo para deter a guerra — o Vaticano nunca descansa” — e acaba de publicar um livro precisamente com o título Contra a guerra. A coragem de construir a paz. Ficam aí algumas ideias fundamentais, a partir de Religión Digital.

Começa por lembrar como há um ano, na sua peregrinação ao martirizado Iraque, pôde constatar directamente o desastre causado pela guerra, a violência fratricida, o terrorismo, viu os escombros dos edifícios e as feridas dos corações. Também viu sementes de esperança. E “nunca teria imaginado que um ano depois rebentaria um conflito na Europa.”

Referi aqui muitas vezes que desde o início do seu pontificado, Francisco falou da Terceira Guerra Mundial em curso, mas “aos pedaços, por partes”. O que é facto é que essas partes se foram tornando cada vez maiores e ligando-se entre si. Neste momento há muitas guerras espalhadas pelo mundo, que causam “imensa dor, vítimas inocentes, especialmente crianças”, milhões de pessoas obrigadas a deixar a sua terra, as suas casas, as suas cidades destruídas. Mas essas guerras esquecemo-las, pois andamos distraídos e elas passam-se longe. “Até que, de repente, a guerra rebentou perto de nós. A Ucrânia foi atacada e invadida. E, no conflito, os mais atingidos são, desgraçadamente, muitos civis inocentes, muitas mulheres, muitas crianças e muitos idosos”, obrigados a viver em bunkers para proteger-se das bombas ou com as famílias separadas, pois, enquanto as mães e as avós atravessam fronteiras à procura de refúgio, os maridos, pais e avós ficam para combater.

Perante as imagens terríveis de horror que nos chegam todos os dias, “não podemos fazer outra coisa que não seja gritar: ‘Parem!’ A guerra não é a solução, a guerra é uma loucura, a guerra é um monstro, a guerra é um cancro que se autoalimenta devorando tudo. Mais: a guerra é um sacrilégio, que causa estragos no mais precioso que há sobre a terra: a vida humana, a inocência dos mais pequenos, a beleza da criação.” “Sim, a guerra é um sacrilégio”.

Pela enésima vez estamos perante a barbárie, porque perdemos a memória: esquecemos a História, esquecemos o que nos disseram os nossos avós, os nossos pais. “Se tivéssemos memória, não gastaríamos dezenas, centenas de milhares de milhões para nos equiparmos com armamentos cada vez mais sofisticados, para aumentar o mercado e o tráfico de armas que acabam por matar crianças, mulheres, anciãos. 1981 mil milhões de dólares por ano, segundo os cálculos de um importante centro de investigação de Estocolmo.”

Se tivéssemos memória, “saberíamos que a guerra, antes de chegar à frente de combate, tem de ser parada nos corações. É necessário o diálogo, a negociação, a escuta, a habilidade e criatividade diplomática, uma política com visão de futuro capaz de construir um novo sistema de convivência que já não se baseie nas armas, no poder das armas, na dissuasão.” Toda a guerra “representa não só uma derrota da política, mas também uma vergonhosa rendição perante as forças do mal.”

Acrescenta: em 2019, em Hiroshima, “cidade símbolo da Segunda Guerra Mundial, cujos habitantes foram massacrados, com os de Nagasaki, pelas bombas nucleares, reafirmei que o uso da energia atómica com fins bélicos é, hoje mais do que nunca, um crime. O uso da energia atómica com fins bélicos é imoral, como o é a posse de armas atómicas. Quem podia imaginar que menos de três anos depois, o espectro da guerra nuclear pairaria sobre a Europa? Assim, passo a passo, avançamos para a catástrofe. Pouco a pouco, o mundo corre o risco de transformar-se no cenário de uma única Terceira Guerra Mundial. Avançamos para ela como se fosse inelutável. Pelo contrário, devemos, todos juntos, repetir, com força: ‘Não, não é inelutável’. A guerra não é inelutável!”

Anselmo Borges, Diário de Notícias (Lisboa)

'Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil'

Meu caro amigo Marcelino,

tenho medo de voltar ao seu país porque cresci relutante para ser adulto e sei que me mantenho em tantas coisas apenas uma criança. Julgo que saio à rua ainda com a alegria de encontrar alguém com quem, de algum modo, possa pressentir a alegria que existia quando estávamos apenas a brincar. Eu não sei estar sozinho. Não aprecio a solidão, gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas. Mas agora tenho medo do seu país que eu amo. Fiquei toda a vida sonhando ser português e brasileiro, para pertencer a Machado de Assis e Fernando Pessoa. Sonhei que meu orgulho teria papel passado, como quem casa consciente, dedicado, de amor profundo, para toda a eternidade. Eu não previ este medo. Fico desolado.

Estão proibindo as pessoas de serem negras, Marcelino, proibiram de ser mulheres, Marcelino, agora decidiram proibir de ser criança e eu sabia que haveria alguma coisa que ainda me pegaria. Por isso, há muito que eu já brigava pelos negros e há muito que eu já brigava pelas mulheres, eu já brigava pelos viados todos e pelas pessoas sem explicação, tanta gente que só é, sem ter muito como entender ou fazer entender, e quer apenas estar em paz. Eu dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Sou muito despreparado. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e vi a melhor versão de cada instante, não vi que medravam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Marcelino.


Caminhei nessas ruas todas, tantos Estados, tantas capitais, e eu não dei conta desse ódio. Notei os sorrisos, o samba, o jeito generoso das garotas e de alguns garotos olhando para minha pouca beleza, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa e a obra do Tunga e Artur Bispo do Rosário bordando as vestes para alindar seu encontro com Deus. Marcelino, no Brasil eu senti invariavelmente que Deus era possível. Sabe quando você se depara com algo perfeito e isso só pode ser graça de uma inteligência superior? Eu vi uma arara azul gigante, devia ter mais de um metro, e ela era mesmo um atributo mágico do mundo, estava livre no cimo de uma árvore na floresta amazônica.

Naquele encontro, eu consumi tudo, Guimarães Rosa e Elza Soares, Tarsila do Amaral e Fernanda Montenegro mais Marília Pêra e Walter Salles, e Darcy Ribeiro mais Heitor Villa-Lobos, e Cartola com Cildo Meireles e Adriana Varejão. Mais Gal Costa e Mônica Salmaso e Paulo Freire lendo a mão de Chico César genial. Eu entendi que Brasil significa beleza e uma profunda esperança. Juro. Parecia uma experiência mística, como se algum espírito me informasse e eu virasse um mensageiro sagrado. Eu elogiei o Brasil em todas as ocasiões porque eu acreditei, e acreditei que minha mensagem era sagrada. Você acha que um espírito me enganaria? Viria sobre mim de propósito para me iludir?

Marcelino, eu não consumei minha adultez, sou apenas um menino, fui sempre ao seu país para encontrar mais amigos e brincar um pouco de ser feliz. Lembra de gostarmos tanto de Manoel de Barros? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto da poesia de Manoel de Barros. Ele usa pássaro e amigos e seus versos foram os melhores brinquedos. Minha história é rigorosamente igual. Não tinha muito mais. Pais, irmãos, amigos, os pássaros voando, versos. O lugar de guardar tudo é o verso. O único sentido de ter verso é amar gente e cuidar de pássaro livre.

Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí. Nós, as crianças mais claras não estamos na linha do tiro? Nem que seja por vergonha, vamos morrer também se não dissermos nada, se não fizermos nada. E se as crianças negras viraram proibidas, que legitimidade teremos nós? Sabe, Gilberto Freyre explicou tão certinho que os portugueses são os mestiços da Europa. Eu tenho sangue árabe, africano e europeu. Sou uma porção de cada coisa e minha pena é não lembrar, só minhas células sabem.

Você sabe a razão para rejeitarem os negros para as periferias? Eu não descobri. As casas do centro não têm tamanho para negros? Eles são maiores? Aumentam quando dormem? Quando sonham? Ficam derrubando paredes, perigando as fundações dos prédios? Eu acho que não. Eu vi um moço entrando na livraria à minha frente, coube na porta melhor do que eu. Você acha que tem alguém obrigando a que ele corra para a periferia depois de pagar o seu livro? Eu não posso acreditar. Que pena que eu não falei com ele, devia ter perguntado. Talvez me contasse de como fica infinito sonhando, ao ponto de perturbar o silêncio, tremer o prédio, causar fumo. Você já pensou se nossos sonhos também fizessem isso? Eu ia querer, Marcelino. Eu ia querer que meus sonhos fossem tão grandes. Mas sonho só com a paz. Estar sossegado com minha família e meus amigos. Notar os pássaros voando.

Marcelino, façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Não somos senão ternuras gigantes, guerreiros açucarados, eu entendi que nós precisamos de um pacto poético para embravecer nossa cidadania. Você, que é meu amigo e escritor que tanto admiro, não me falte nunca desse lado. Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sônia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu. Marcelino, fico ouvindo Rodrigo Amarante e quase ainda acredito em tudo outra vez (Rodrigo é perfeito. Poderia ser a própria arara). Quase perco o medo. Vista também sua roupa de super-herói e sobreviva. Você tem de manter a maravilha do Brasil. Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente, e vamos ficar mais belos que os modelos nos filmes gringos. Vamos, sim, Marcelino.

Haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Marcelino, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Marcelino, muita coragem vai germinar.
Valter Hugo Mãe, em carta aberta a Marcelino Freire (2019)

'Putin só tem pela frente tipos diferentes de derrota'

Esta guerra não pode ser considerada uma vitória para a Rússia, em nenhum sentido.

Os sucessos militares de Putin fora de suas fronteiras após 2008 foram todos alcançados usando pequenas unidades de forças de elite, mercenários e grupos de milícias locais aliados ao poderio aéreo russo.

Isso deu a Moscou uma influência considerável a baixo custo durante intervenções na Geórgia, Nagorno-Karabakh, Síria, Líbia, Mali e duas vezes na Ucrânia em 2014 — primeiro na anexação ilegal da Crimeia e depois na criação dos autodenominados Estados russos em Luhansk e Donetsk.

Em todos esses exemplos, a Rússia agiu rápida e implacavelmente de maneiras que o mundo ocidental não conseguiu combater, exceto por meio de sanções graduais — nada que pudesse reverter a realidade. Putin é especialista em criar "novos fatos".

Em fevereiro, ele repetiu a mesma estratégia na maior escala possível na Ucrânia: conquistar o poder em cerca de 72 horas em um país de 45 milhões de pessoas que ocupa a segunda maior área terrestre da Europa. Foi uma aposta surpreendente e imprudente que fracassou completamente logo na primeira semana, que era crucial.


Putin agora tem poucas opções, a não ser seguir em frente e aumentar ainda mais a escala desta guerra — aumentá-la na Ucrânia ou aumentá-la avançando além de suas fronteiras. A escalada é parte do contexto atual, e a Europa atingiu um momento muito perigoso em sua história recente.

Tendo fracassado com seu Plano A de tomar o governo em Kiev antes que as forças do presidente Zelensky, ou o mundo exterior, pudessem reagir, Moscou então mudou para um Plano B. Esta foi uma abordagem militar baseada em manobras: cercar Kiev e avançar para outras cidades ucranianas — Chernihiv, Sumy, Kharkiv, Donetsk, Mariupol e Mykolaiv — e simplesmente extinguir a resistência armada ucraniana enquanto Kiev seria ameaçada de destruição caso não se rendesse.

Esse plano também fracassou. Kherson foi a única grande cidade que caiu para os russos e desde então vem resistindo à administração russa. O fato é que as forças russas eram pequenas demais para dominar um país tão grande; eles tiveram um desempenho muito ruim por causa de uma série de razões; eles foram mal liderados e dispersos em torno de quatro frentes separadas, de Kiev a Mykolaiv, sem comandante geral.

E eles acabaram enfrentando um exército ucraniano determinado e bem treinado que lutou em uma demonstração clássica de "defesa dinâmica" — não mantendo uma linha, mas atingindo os agressores em pontos de vulnerabilidade máxima.

Frustrada, a Rússia mudou agora para seu Plano C, que é desistir de Kiev e do norte, concentrando todas as suas forças para uma grande ofensiva na região de Donbas e no sul da Ucrânia, provavelmente até o porto de Odessa no sudoeste — tirando da Ucrânia a sua saída para o mar.

Esta é a campanha que agora vemos sendo realizada no leste ao redor de Izyum e Popasne, Kurulka e Brazhkivka.

As forças russas estão tentando cercar a Operação de Forças Conjuntas da Ucrânia (JFO) — cerca de 40% de seu exército, que está posicionado em frente às "repúblicas" separatistas de Luhansk e Donetsk desde 2014. Os principais objetivos russos são tomar Slovyansk e, um pouco mais além sul, Kramatorsk. Ambos são pontos estratégicos cruciais para o controle de toda a região de Donbas.

E a guerra passou para uma fase militar diferente — uma luta em campo mais aberto, em melhor clima, com tanques, infantaria mecanizada e, acima de tudo, artilharia, que é projetada para arrasar as linhas de defesa do oponente antes que as forças blindadas cheguem.

Mas o processo não é tão simples.

A ofensiva da Rússia teve um início cambaleante e o JFO da Ucrânia manteve a ofensiva russa bem longe das linhas que os comandantes russos esperavam já ter alcançado a essa altura. Os ucranianos ganharam um tempo precioso. Uma "corrida pesada" está em andamento, enquanto cada lado tenta trazer seu equipamento de combate pesado antes que a batalha seja totalmente iniciada. Poderemos observar isso nas próximas semanas.

O que acontece no Donbas, no entanto, oferece a Putin apenas uma escolha entre diferentes tipos de derrota.

Se a batalha chegar a um impasse no outono (que começa em setembro no hemisfério norte), Putin terá muito pouco para mostrar ao público russo que justifique tanta perda e dor. Se o ímpeto militar mudar e suas forças forem empurradas para trás, será ainda pior para ele. E mesmo que os russos consigam invadir todo o Donbas e todo o sul, eles ainda terão que manter esses territórios por um futuro indefinido diante de vários milhões de ucranianos que não os querem lá.

Qualquer sucesso militar russo significativo provavelmente criará uma grande insurgência aberta que ficará maior para cada distrito que as forças russas possam invadir. Putin fracassou em fevereiro com o Plano A. O fracasso desse esquema significa que os planos B, C ou quaisquer planos subsequentes ainda deixam a Rússia fracassada — precisando suprimir parte de um país muito grande, ou todo ele.

De um jeito ou outro, a Rússia terá que continuar lutando na Ucrânia, seja contra a população, seja contra o exército ucraniano, e possivelmente contra ambos simultaneamente. E enquanto Kiev se mantiver em sua posição atual que exige a retirada russa antes que qualquer concessão possa ser contemplada, não há muito que Putin possa fazer a não ser seguir em frente.

As potências ocidentais continuarão fornecendo armas e dinheiro para Kiev e não suspenderão sanções poderosas contra a Rússia tão cedo. Assim que a dependência energética da Europa for bastante reduzida, os EUA e a Europa poderão manter sanções duras em vigor com pequeno custo para suas próprias economias.

Não há caminho de volta para Vladimir Putin pessoalmente e ele pode até vir a ser indiciado como criminoso de guerra. Sua única estratégia política é transformar a guerra na Ucrânia em outra coisa — parte de uma luta pela sobrevivência da Rússia contra os "nazistas" e "imperialistas" do Ocidente que gostam da ideia de derrubar a Rússia.

É por isso que lhe convém brincar com a perigosa ideia de que a Rússia está enfrentando uma "Grande Guerra Patriótica 2.0" com o resto da Europa. Provavelmente ouviremos muito mais sobre isso no Dia da Vitória. O presidente Putin alegará ver luz no fim de um túnel muito escuro e longo no qual ele conduziu seu próprio país.

Como melar uma eleição democrática

A urna eletrônica é o maior avanço já realizado no Brasil para assegurar que nosso Estado de direito democrático seja realmente uma democracia de massas, segundo o princípio “cada cidadão um voto”, que caracteriza as eleições majoritárias no Brasil — principalmente as eleições para o Executivo, nos três níveis de federação. Só para ilustrar, esse princípio foi a principal reivindicação da luta contra o apartheid na África do Sul, em que pese a bandeira “Libertem Mandela”, o grande pai da democracia sul-africana.

As eleições proporcionais, embora tenham o mesmo princípio, não garantem uma representação exatamente proporcional ao número de eleitores de cada unidade da federação, porque São Paulo elege menos deputados do que seria a proporção de seu colégio eleitoral, e alguns estados com menos eleitores são sobrerepresentados, como Roraima, por exemplo.

Com a urna eletrônica, acabaram-se as fraudes eleitorais na contagem e na apuração dos votos, que eram muito frequentes quando o voto era impresso e apurados manualmente, inclusive durante o regime militar, e mesmo após a redemocratização. Em parte, o aperfeiçoamento do sistema decorreu da tentativa de fraude das eleições para o governo do Rio de Janeiro, em 1982, quando foi eleito o governador Leonel Brizola, numa operação tabajara realizada pelos órgãos de inteligência do governo do presidente João Batista Figueiredo.

Um sistema informatizado de apuração dos votos, feito pela empresa Proconsult, associada a antigos colaboradores do regime militar, transferia votos nulos e brancos para o candidato governista. Os indícios de que os resultados seriam fraudados surgiram da apuração paralela contratada pelo PDT à empresa Sysin Sistemas e Serviços de Informática, que divergiam completamente do resultado oficial. Outra fonte que obtinha resultados diferentes dos oficiais foi a Rádio Jornal do Brasil. A tentativa de fraude é analisada no documentário britânico "Beyond Citizen Kane", de 1993.


Com a adoção da urna eletrônica, porém, se tornou impossível alterar o resultado da votação na apuração e na computação dos votos, porque cada urna é um compartimento estanque, não conectado em rede, que registra, apura e emite o boletim de votação de cada seção eleitoral. Esses resultados, posteriormente, são transmitidos para os tribunais eleitorais e somados, num processo que possibilita a obtenção do resultado da eleição no mesmo dia.

Além disso, torna possível uma operação reversa de rastreamento, para conferir o resultado urna por urna, caso isso seja necessário. A inviolabilidade da urna eletrônica, porém, precisa ser atualizada a cada eleição, para impedir que sejam hackeadas.

Desde quando tomou posse, o presidente Jair Bolsonaro (PL) levanta suspeitas sobre as urnas eletrônicas. Afirma que venceu as eleições de 2018 no primeiro turno, o que é fantasioso, sem qualquer base nos fatos. Chegou a promover uma tentativa de restabelecimento do voto impresso, que foi rejeitada pelo Congresso. Com a aproximação das eleições desde ano, nas quais concorrerá à reeleição, o presidente da República intensificou seus ataques ao processo eleitoral, levantando suspeitas sobre as urnas eletrônicas e, até mesmo, em relação à idoneidade dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para neutralizar esses ataques, o então presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, decidiu ampliar o colégio de especialistas encarregado de testar a segurança das urnas e, para isso, também convidou um representante das Forças Armadas, que têm uma unidade de defesa cibernética a cargo do Exército. O que era para ser uma colaboração específica, entretanto, passou a ser tratado por Bolsonaro como uma espécie de tutela militar sobre processo eleitoral, o que é inconstitucional.

Mais de 80 questionamentos foram feitos pelo general Heber Garcia Portella, encarregado de representar as Forças Armadas nesse processo, que agora estão servindo de pretexto para desacreditar o processo, em lives e declarações do presidente da República. Ontem, o presidente do TSE, ministro Edson Fachin, encaminhou aos integrantes da Comissão de Transparência das Eleições (CTE) um ofício com as respostas técnicas da Corte às opiniões e recomendações expostas pelo Ministério da Defesa, em 22 de março deste ano.

As respostas tratam de novos questionamentos sobre a confiança do teste de integridade; o processo de amostragem aleatório para seleção de urnas que compõem o teste de integridade; a totalização com redundância pelos TREs; fiscalização e auditoria; a inclusão de urnas modelo UE2020 no teste público; os procedimentos normativos para a hipótese de verificação de irregularidade em teste de integridade; e as sugestões para uma possível duplicidade entre abstenção e voto.

Com esses esclarecimentos, o TSE deixou claro que a responsabilidade integral pela realização e lisura do pleito é da Justiça Eleitoral.