segunda-feira, 18 de maio de 2020

Pensamento do Dia


Cadáver barato

Os ministros podem fazer e dizer o que quiserem pois estão protegidos por um ato de excludente de ilicitude.

Eu assisti na íntegra as entrevistas do ministro Chefe da Casa Civil, general Braga Netto, do ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos e do Ministro da Economia, o banqueiro Paulo Guedes.

Os três afinados relativizaram a pandemia da covid-19.

É um indício de que o governo federal vai torpedear toda a política de combate a tragédia sanitária de governadores e prefeitos. As falas dos senhores ministros deram a entender que a covid-19 foi superestimada por institutos de pesquisas brasileiros, universidades, entidades médicas e de saúde no Brasil.

Como não sou um especialista em saúde pública, sanitarismo e epidemiologia, ancorei minha percepção nos relatos do Roberto Medronho, Edmilson Migowski, Denise Pires de Carvalho, Nísia Trindade Lima, Olga Chaim e/ou outros cientistas das universidades brasileiras, universidades dos EUA e Europa.

Com a entrevista do dia 16 de maio, os três ministros querem que eu desacredite de todos os especialistas da área médica e saúde pública e passe a acreditar neles.

Agora eu entendi as intenções da MP 966/2020 que anistia omissões, erros e desvios de autoridades públicas na pandemia.

Os ministros podem fazer e dizer o que quiserem pois estão protegidos por um ato de excludente de ilicitude.

Veremos nos próximos dias um chamamento contra o distanciamento físico e social por parte do presidente da República, dos ministros e outras autoridades federais contra prefeitos e governadores.

O brasileiro é um cadáver barato, não serve nem para estatísticas sanitárias.

Resta a morte aos 'vassalos'

Ocupara o ar com seus aplausos, a terra com seus exércitos, a água com seus navios, deixando o fogo para os corações dos vassalos
Conde de Cervelhos sobre o rei Carlos II da Espanha

O inverno de nossa desesperança

O título acima é do clássico livro de John Steinbeck, de 1961, antes de receber o Prêmio Nobel de Literatura. Que, por sua vez, puxou a expressão da peça Ricardo III, de Shakespeare. Em sua obra, o magistral escritor norte-americano descreve o mundo de um homem atormentado pelos dilemas impostos pelo dinheiro e pela moral, o protagonista Ethan Hawley, empregado de uma mercearia, casado, dois filhos, convivendo em uma comunidade de baleeiros e atormentado pela ideia de melhorar sua vida e a da família. Até onde vão os escrúpulos e a vida digna e honesta quando se trata de conseguir dinheiro? Um ser humano pode suportar a pressão de seu meio social sem romper com a ética da decência?

A lógica da pecúnia é pontuada com desencanto, a traduzir o dilema entre a trilha da ordem moral e o conforto material. O tema cai bem nesse momento em que o planeta enfrenta esta catástrofe considerada a maior dos últimos cem anos, em que os modos e costumes da vida contemporânea são submetidos às nossas consciências.


Afinal, tem sentido a competição entre as grandes Nações, em luta pelo ranking dos bens materiais, se nenhuma delas, com seus arsenais de guerra, consegue vencer um bichinho microscópico chamado Covid-19? Que adianta tanta grandeza se não se consegue sustar a corrente de milhões de pessoas infectadas e milhares de mortos? E o que dizer da política e suas disputas nos espaços dos Poderes?

São questões que batem nesse outono, prenunciando um inverno de desesperança e pleno de interrogações. A vacina está chegando ou ainda demora? O arsenal científico das Nações não tem resposta convincente? Quanta fragilidade em um mundo dominado por aparatos de poder.

Na falta de respostas, fenecem as esperanças. Há angústia e amargura diante das estatísticas de mortos, covas abertas, pessoas de máscaras nas ruas e um jeito esquisito de viver.

A sensação é de perda de rumos. Na área sanitária, o desastre da falta de equipamentos, UTIs esgotadas e os heróis do cotidiano – médicos e enfermeiros – confessando não dar conta da demanda.

Na economia, um paradoxo emerge com força. Desde o final dos anos 80, com a queda do Muro de Berlim, alinhou-se a régua econômica traçada pelo liberalismo, com as lições de Friedrich Hayek e Milton Friedman. Eles pregam o Estado mínimo, com maior mobilidade econômica e sem centralização excessiva, zelando pelo bom funcionamento do mercado e proteção à iniciativa privada. Liberalismo que se desenvolve a partir da Universidade de Chicago, onde Paulo Guedes estudou.

E quando pensávamos nessa pauta, com a promessa de privatização de cerca de 600 braços do Estado, surge a figura de John Maynard Keynes, o economista britânico que pontuou sobre a forte intervenção do Estado para garantir pleno emprego e controle da inflação. Nessa direção tateia um tal de plano Pró-Brasil. Qual será o porte do Estado brasileiro sob o comando de um ex-capitão do Exército cercado de generais?

Afinal, para onde vamos, com o risco de queda de 5% do PIB este ano e aumento desenfreado do desemprego? Não se sabe até quando vai a pandemia.

Daí a desesperança. Tememos que o vento frio do inverno apague a chama bruxuleante de nossa lamparina.
Gaudêncio Torquato

Gente em tempos sombrios

Dizem que vivemos a maior crise depois da Segunda Guerra. Não conheci a Segunda Guerra: ela é tão antiga que me colheu nos primeiros anos de vida.

Isso não me impede de comparar. Para o Brasil, creio, a Segunda Guerra foi menos devastadora que a pandemia do coronavírus. Perdemos 471 homens e tivemos 12 mil feridos. Nesta semana, a pandemia já alcança 200 mil casos e ultrapassa as 15 mil mortes.

Na Segunda Guerra, Vargas demorou mas acabou encontrando o rumo, e o Brasil se colocou do lado certo no conflito. Bolsonaro subestimou a importância do vírus e, infelizmente, não alterou sua posição diante dos fatos, recusando-se a desenvolver uma política nacional e solidária.


Isso configura uma tempestade perfeita. Tanto na guerra como na pandemia, escolhas erradas nos levam ao pior dos mundos.

Mas não adianta chorar. Sempre me interroguei sobre como sobreviver no pior dos mundos. Não tive respostas definitivas.

Lembro-me de que estava cobrindo a chegada dos refugiados albaneses numa praia italiana, no fim do regime. Na multidão que saía do navio, vi um casal vestido modestamente, mas com muita elegância. Pareciam tranquilos e felizes. Imaginei que eram ligados por um profundo laço amoroso, e isto os ajudou a atravessar o pesadelo do regime autoritário de Enver Hoxha.

Mais tarde li “Homens em tempos sombrios”, de Hannah Arendt. Ali era a coragem intelectual diante do stalinismo e do fascismo que despontava como elemento essencial na sobrevivência.

Finalmente, quando li os escritores cubanos dissidentes, muitos perseguidos e aniquilados, outros resistindo através de sua literatura, cheguei a uma nova conclusão.

Creio que a expressei numa introdução ao livro do poeta Raúl Rivero, cuja saída de Cuba para a Espanha acompanhei, tentando apoiá-lo também do Brasil. Nesse caso, a sensualidade inspirada no cotidiano do próprio povo pareceu-me um fator de sobrevivência e de recusa à mediocridade burocrática.

Apesar de tantas indicações na experiência de vida, a tempestade perfeita me colhe numa situação singular. Será necessário inventar porque, apesar das experiências terríveis dos outros, nenhuma das outras tempestades perfeitas apresenta os ventos, trovões e raios como a nossa. A água que aqui transborda, não transborda como lá.

Estamos diante de um inimigo invisível. Muitos de nós somos do grupo de risco. A energia popular está distante porque fomos confinados. No passado, ouvia bater de panelas. Agora, nem isso. De vez em quando, alguns gritos ao longe, ou mesmo a voz de crianças empinando pipas no sol de outono.

O governo é de extrema direita. Ainda há liberdade de criticá-lo, mas na solidão virtual. Nos anos 60, fervilhavam as assembleias, uma corrente fraternal eletrizava os opositores, amores brotavam no asfalto como as flores do poeta.

Na semana passada, preparando-me para uma live com o embaixador Marcos Azambuja, escrevi um artigo sobre as características gerais dessa tempestade: ecologia, política externa, experiências históricas de negação da realidade.

Ao concluir o artigo preparatório, cheguei à conclusão de que era preciso aos poucos responder para esta época a pergunta que me intrigava em outras épocas e lugares.

Não sou adepto da ideia do novo homem. Fico com Shakespeare e acho que a humanidade com suas misérias e grandezas não muda essencialmente através do tempo. No entanto, não há dúvida de que a pandemia nos coloca a questão da solidariedade. Por menos que seja nosso gesto, sentimos que a resposta específica para esse tempo sombrio passa por aí.

Da mesma forma, a luta pela democracia, o esforço para manter nossos valores culturais e espirituais diante do impulso destruidor da extrema direita e sua política de morte.

Só está faltando talvez a superação dos ressentimentos, a certeza de que é possível formar uma ampla unidade de diferentes, sem veleidades hegemônicas, algo que em outras épocas foi o instrumento decisivo para combater governos extremistas.

Evidentemente, não tenho a fórmula acabada para esta união. Parece-me apenas que discutir, neste momento, quem tem mais culpa na ascensão de Bolsonaro é continuar no pântano.
Fernando Gabeira

Resolvam isso aí!

O aperto de mãos entre o falecido general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército, e o recém-empossado presidente José Sarney, em 1985, na transição do regime militar à democracia, simbolizou o momento em que a tutela militar sobre a nação, iniciada pouco antes da Guerra do Paraguai(1864 a 1870), ainda no Império, havia acabado. Durante mais de um século, até então, militares da ativa atuaram politicamente e se pronunciaram sobre a vida institucional do país, muitas vezes de forma truculenta e brutal. O gesto pôs um ponto final na ditadura implantada após a destituição do presidente João Goulart, em 1964.

Na madrugada de 15 de março de 1985, com a nação perplexa diante da internação de Tancredo Neves no Hospital de Base de Brasília, o então ministro do Exército, com a Constituição na mão, convencera as lideranças políticas da época de que o vice-presidente eleito, José Sarney, deveria tomar posse. Havia controvérsias, alguns achavam que Ulysses Guimarães, o líder do MDB, deveria assumir interinamente e convocar novas eleições. O então chefe da Casa Civil, ministro Leitão de Abreu, ajudou a dirimir dúvidas entre os dois principais protagonistas da democratização: Sarney queria que Ulysses assumisse. Seria o caos. Para evitar a crise, Ulysses sempre defendeu o contrário. O general comunicou a decisão da maioria: “Boa noite, presidente!”, disse-lhe ao telefone.

Nos bastidores do finado governo Figueiredo, alguns generais pretendiam aproveitar a situação para manter o regime. Além do próprio presidente da República, o ministro do Exército, Walter Pires, e o chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), Octávio Medeiros. Durante a madrugada, Pires ameaçou movimentar as tropas para manter João Batista Figueiredo, mas Leitão de Abreu disse-lhe que já não era mais ministro. Sua demissão viria publicada no Diário Oficial. Leônidas Pires Gonçalves era o novo chefe militar. Figueiredo saiu pelos fundos do Palácio do Planalto, não transmitiu o cargo. À Presidência, Sarney convocou uma Constituinte e passou o cargo ao sucessor eleito pelo voto direto, Fernando Collor de Mello, com a Constituição de 1988 em plena vigência. Presidiu o país em meio a turbulências, uma hiperinflação galopante e milhares de greves operárias e ocupações de terras, mas ajudou a construir um Estado democrático.

Certos momentos parecem congelar a História, como aquele do aperto de mãos do general e o político. No século passado, o principal foi Conferência de Yalta, na Crimeia, entre 4 e 11 de fevereiro de 1945, o segundo de três encontros entre Franklin Roosevelt (Estados Unidos), Winston Churchill (Reino Unido) e Josef Stálin (União Soviética), com o objetivo de repartir as zonas de influência entre as três potências vitoriosas. Entretanto, com o fim da União Soviética e o colapso dos regimes comunistas da Europa, o fio da história foi retomado, descongelando um filme iniciado com o atentado de Sarajevo, em 28 de junho de 1914, no qual o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, foi morto por um nacionalista sérvio, pretexto para a Áustria-Hungria, da qual faziam parte a Bósnia e a Croácia, declarar guerra à Sérvia, um mês depois, dando início à I Guerra Mundial.


No Brasil dos anos 1980, os militares se retiraram do poder derrotados, mas em ordem. Foram mais bem-sucedidos na estratégia de abertura política iniciada pelo presidente Ernesto Geisel do que na condução da economia, devido ao fracasso do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), colapsado pela crise do petróleo. A anistia recíproca de 1979, consolidada pela nova Constituição, pôs uma pedra sobre o passado. Todas as tentativas de revisão que colocaram em risco esse pacto entre os militares e a antiga oposição foram rechaçadas, inclusive pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Restaram a eterna dor dos familiares dos desaparecidos e a frustração e ressentimento daqueles que viam na caserna uma via de ascensão ao poder político, e não, exclusivamente, uma vocação militar, como acontece desde 1985. A vida militar, que exige estudo, disciplina e sacrifícios, é um canal de ascensão e mobilidade social, como certas profissões liberais e carreiras do serviço público, mas não é nem deve voltar a ser uma rampa de acesso direto ao poder político na democracia.

Somente durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que bajulou e foi bajulado pelos comandantes militares, voltou-se a discutir o papel das Forças Armadas, numa ótica de projeção nacional na globalização, além da atualização e modernização das forças armadas e suas doutrinas. O ressentimento em relação à marginalização imposta por governos anteriores, principalmente o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, porém, foi estimulado. Entretanto, o governo de Dilma Rousseff foi um desastre em relação aos militares. Havia ojeriza recíproca, por causa do passado, que os militares dissimulavam, mas a “presidenta” fazia questão de compartilhar, até nos elevadores. Quando o governo colapsou, com sua nova matriz econômica, em meio à recessão e a Lava-Jato, os militares lhe deram o troco. “Resolvam isso aí!”, dizia o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, um grande líder militar, aos políticos que se queixavam. Era a senha para o impeachment.

Enfraquecido por denúncias, o presidente Michel Temer devolveu aos militares o Ministério da Defesa, nomeando o general Joaquim Silva e Luna para o cargo. O resto da história estamos assistindo. O engajamento dos militares na eleição de Jair Bolsonaro, na onda do descontentamento popular com a corrupção e a recessão; a formação de um governo assumidamente reacionário nas ideias, ultraliberal na economia e conservador nos costumes; No Palácio do Planalto, generais pragmáticos, alguns com o cacoete do mandonismo, outros com gosto pela política do baixo clero, são comandados por um ex-capitão nostálgico dos tempos da linha-dura de Costa e Silva e Emílio Médici, o Presidente errático. Certo estava o “Coronel Y”, nos idos da Revolução de 1930, que mais tarde viria a ser o marechal Castelo Branco, o primeiro presidente do regime militar, ao defender uma Lei de Inatividade que obrigasse todo militar a se desligar definitivamente da carreira ao assumir funções civis e deixar a fila das promoções andar. Como a célebre fotografia dos Três Grandes e Yalta, a questão militar foi “descongelada”. No lugar da mão amiga, já estamos vendo o braço forte exibir seus músculos, como se fosse uma reprise cinematográfica.

Brasil em isolamento


Fábulas improvisadas

Conta a lenda que um cabrito atrevido durante anos dizia impropérios contra todos na planície em que vivia. Nenhum bicho com aquilo se assustava. Um certo dia, porém, o puseram na torre mais alta do lugar e de lá ele berrava agressões e zombarias contra a maioria. O carneiro, que nunca o levou a sério, finalmente se incomodou. E o alertou: "Ei, meu caro, não é você que me injuria, mas o lugar onde você está. Preste atenção, as circunstâncias mudaram, não você. E o que conta na vida são as circunstâncias."

De fato, circunstancias mal compreendidas costumam favorecer atrevimentos. No escuro do cinema tímidos ficam destemidos. Em altos cargos maquinações de um fraco sugerem força de um afoito. Em camionete grande traficante acha que é polícia. Atitudes previsíveis que são um desperdício.

Como revela outra história de um bode que atravessava um rio levando ao pescoço uma faixa que dizia que ele era dono da pastagem do lugar. Ao observar na água sua própria imagem engrandecida, mas convencido de que era outra de maior tamanho o que via destorcido, e isso significasse algo bem maior a competir com ele, largou a faixa que possuía e avançou alucinado para tomar a outra. A ambição cega, ele fica sem as duas. Sem a que não alcançou porque não existia, e sem a sua que foi por água abaixo.


É nesse diapasão que ele vai fagocitando seus ministros mais populares e atentos a valores. Se livra da pressão das virtudes e desentendimentos éticos. Pouca valia tem a lei para o cavalo que corre sem os freios. O tempo é sempre circular e opera em eterno retorno. E reconhece apologias: riacho dos lobos, onda da espada.

Enquanto isso um conselho de pavões se reúne para reivindicar para seus iguais a condição de sábios do terreiro. Todos os alados que foram consultados se dispuseram a votar neles, menos dois, o galo e o sabiá, representantes das mais populares aves do lugar. Reconheço em vocês a formosura com que vestem esta toga, mas quando a águia voa solta e nos ameaça o melhor adorno não é a vaidade, mas sabedoria no uso do poder. O atrito entre os 11 superiores e o direito de esconder a saúde por decisão de um 12 aspirante é um alerta: a sentença é um testamento dos anticorpos que as aves pequenas não possuem para se proteger dos amigos das águias.

Na selva da política, muitas espécies-subespécies, família, subfamílias, sem expressão nacional, vivem no Centrão de seus habitats locais aprontando sem serem incomodados. Como geralmente são políticos desconhecidos ou sem imagem nacional, o custo político do que fazem é baixo e por isso nunca são vigiados de perto em seus rolos regionais.

Costumam passar muitos anos com mandatos de pastor, bajulando pavões e cordeiros. Andando tão perto do rebanho no qual concentram o apetite principal que as ovelhas entendem que se trata mais de um protetor do que de um embusteiro. Quando aproveita a chance e sobe mais, só aí que a floresta conhece bem o predador.

Ideias amplamente minoritárias sempre agiram contra a democracia mesmo em períodos democráticos. Mas metódico, objetivo e persistente no seu caos, somente esse no script de Pedro Malasartes.

Quando trabalhava só para si, abrindo vaga para a prole, não buscava sócio para seus duelos. Agora, percebendo que pode compor mais o figurino, imaginou um combo: quer assimilar seu nome a algum papel social e a valores para envernizar à fama de destemperado. O sistema heroico no qual quer se encaixar não se sustenta. Rente e sem verniz é assimétrico, mas nunca está às cegas. Nem parece sozinho. E presidente imprevisível faz governo perigoso.

A conversa de ser soldado fornece um encorajamento especial para valorizar o estilo street fighter. Anda vasculhando os três poderes atrás de uma fresta mole na convicção democrática em busca de amor à primeira vista. Marcha em passo de ganso sobre os poderes. Quer apoio para agir sem autorização. Vai cobrindo de saliva os militares para comê-los sem engasgar.

Nas fábulas tomadas de Esopo é possível perceber como estamos integrados ao mundo dos bichos. De todos os esforços obtidos pelos brasileiros até aqui para tolerar o presidencialismo, com qualquer um governando e, todos alterando a Constituição a seu favor, o mandato atual é o que mais se aproxima da necessidade de um fim deste regime sem conserto. Não é possível algo tão desmoderno e fundamentalmente não sério.

Só no presidencialismo o Um consegue levar todo um país na conversa em momento de tragédia e incerteza como agora. Exclusivamente porque o presidencialismo permite que presidente confunda a atividade política com a natureza de um antropófago que cria vítima e faz festim no velório do eleitor.
Paulo Delgado 

Direita 'cavalona'

Politizou a coisa. Fica parecendo que quem não quer morrer é comunista. E quem quer morrer, mas protesta em caminhonete cabine dupla, é de direita. Enquanto isso, a gente vê cidade que não tem um respirador sequer abrindo o comércio
Alexandre Kalil (PSD), prefeito de Belo Horizonte, terceira menor taxa de incidência de coronavírus (43 casos por 100.000 habitantes) entre as capitais, atrás somente de Curitiba e Porto Alegre

A estratégia da mentira

Todo mundo mente nesse mundo. Quando a gente é criança, mesmo que ninguém nos ensine a mentir, a gente mente. Às vezes, por motivos até louváveis, como livrar a cara de um amigo ameaçado por meninos da turma da namorada recém-conquistada. Outras, para contar vantagens inconsequentes, como na qualificação exagerada do pai ou de um tio. Pode-se mentir também por excesso de imaginação, impossível de ser contida.

Na minha infância, em Maceió, uma senhora negra tomava conta dos filhos de meus pais, narrando estórias maravilhosas para nos fazer dormir. A mim, por exemplo, Bazinha me contava as aventuras do Zumbi dos Palmares que, entre outras virtudes empolgantes, sabia voar, lá pela Serra da Barriga, perto de nossa cidade. Mais tarde, lendo de Monteiro Lobato a Ariano Suassuna, acabei verificando decepcionado que alguns heróis desses autores contavam estórias mais audaciosas que as da Bazinha. Isso para não falar dos livros de João Ubaldo Ribeiro, que li muito mais tarde, claro.

A mentira é uma característica da civilização humana e nasceu com a própria Gênesis, quando Adão e Eva tentaram iludir o Senhor, sobre terem experimentado do fruto proibido. Ou, que me desculpem a ousadia, quando o próprio Senhor ordenou a Abraão que sacrificasse, à sua glória, o filho Isaac. E era apenas uma prova de fé. Dentro ou fora de Livros Sagrados, em louvor ou não de deuses e senhores de nossas almas, a mentira se estabeleceu na cultura humana, como uma característica dela e só dela. Você já encontrou algum animal mentiroso? Nenhum deles é capaz de mentir. Só nós.


Como tudo que é humano, a mentira serve ao bem e ao mal, depende de quem e para o quê a utiliza. Foi impulsionado pela mentira organizada que Adolf Hitler se impôs ao povo alemão. Quando alguns de seus colaboradores se recusaram a apoiar o projeto de guerra para ocupação da Europa, militantes nazistas trataram de espalhar que a esposa do general Blomberg, ministro da Guerra e principal opositor ao plano guerreiro, tinha sido prostituta e que a mãe dela fora dona de um puteiro.

Até meados da Segunda Guerra Mundial, Hitler nunca teve o Exército que proclamava ter, enganando o mundo e o próprio povo alemão com exibições falsas e falsos desfiles em que soldados e equipamentos de guerra se repetiam. Na verdade, a anexação dos sudetos, as incorporações da Renânia e da Áustria, assim como o desmantelamento da Tchecoslováquia, preliminares da Guerra, não tinham sido propriamente vitórias militares, como Hitler afirmava para convencer os alemães de sua força e de seu poder. Foi com mentiras sucessivas, como essas, que Hitler desmantelou toda a estrutura democrática da Alemanha. E, com elas, quase faz a suástica cobrir o continente europeu inteiro.

Esse uso esperto da mentira, criada com certa astúcia, é a mesma estratégia usada pelos bolsonaristas no Brasil. Além de afastar de perto dos fatos políticos perigosos democratas, atropelando-os ou simplesmente desmoralizando suas decisões, os militantes brasileiros do autoritarismo armado e mentiroso se dedicam à fabricação inesgotável de fake news<em>.</em> Chegaram a anunciar, por redes sociais, que os caixões que vemos serem enterrados pelo Brasil afora, fazendo sofrer tanta gente, estão vazios ou carregados de pedras. O desfile de caixões serve apenas para agravar as consequências irrelevantes da “gripezinha”.

De tanto se dedicar às porradas inconsequentes e às picuinhas tão vazias sobre o governador de São Paulo, Bolsonaro acabou se tornando o cabeça de ponte no lançamento da candidatura de João Doria, para 2022. Ninguém melhor para promovê-lo. O que mais nos confunde é que a ideologia do PR não tem muita tradução lógica em seus atos. Agora mesmo, ele vetou, mais uma vez, a proteção ao audiovisual brasileiro na televisão paga, pois isso nos prejudicaria a sorte que temos de assistir às formidáveis obras estrangeiras (sobretudo americanas) que elas, as emissoras, nos oferecem diariamente. Um gesto de extremo “globalismo”, realizado por um político que não perde a oportunidade de se declarar antiglobalista. E aí, Olavo de Carvalho, você não vai se manifestar? Ou o guru talvez esteja se reservando para a estranha defesa da cloroquina, um milagroso remédio para a Covid-19, praticamente vetado por todos os médicos do mundo.

O organizado serviço de fake news em todas as redes sociais, promovendo desprezo e desrespeito pela ciência, parece uma campanha sem direção. Não havendo um centro de discussão, nem um alvo iluminado para onde se destina, só existe a trajetória e, portanto, o desejo de crise, estado humano que se caracteriza pela possibilidade de várias alternativas propulsoras. Apenas o capricho do poder.

O tempora, o mores

Repito a mim mesmo um verso de um poema do Augusto Meyer, gaúcho como eu que conheci pelas mãos de Manuel Bandeira em 1958, no Instituto Nacional do Livro, no Rio de Janeiro. Tornamo-nos amigos então, ele encantado pelo fato de eu declamar alguns de seus poemas. Em especial aquele verso que, em glosa, agora repito assim: masco e remasco a minha ansiedade, minha angústia chewing gum.

Começo a escrever estas linhas também a partir do Cântico Negro, do José Régio: “não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí!”. O ímpeto de escrever a respeito de mim mesmo e da superposição do passado, do presente e do futuro toma conta de mim. Múltiplo enquanto ser humano, fui membro do Poder Judiciário, voltando a atuar como advogado desde 2010. Hoje produzo livros jurídicos e literatura de verdade, retornando à fotografia. Muitos eu mesmo no passado e no presente – hoje, aqui, agora – convictos de que o tempo é convenção.

Escrevi a respeito disso no meu "A(s) Mulher(es) que Eu Amo", afirmando que os acontecimentos não são encadeados, não se seguem uns aos outros. Menos ainda consequentes. Nada impede que o antes ocorra depois e um estalar de dedos seja mais longo do que a eternidade. No quadro da literatura que tento praticar, um sujeito inventou um descompressor do tempo, mexeu no lugar errado e pum! Entramos na Antiguidade e passamos a ser uma civilização sem pré-história. Começamos pela metade. Dei-me conta de que se aumentarmos cem vezes, exatamente na mesma proporção, o tamanho de todas as coisas que enxergamos, nada será diferente do que é. Tudo exatamente na mesma proporção. Objetos, pessoas, horizontes, nós mesmos. Multipliquem por mil ou os dividam por um milhão e tudo será exatamente igual ao que temos aqui, agora.

Realmente estou confuso. Não sei a respeito do que escrever, pois o tempo é uma convenção e – aprendi ouvindo o Lulu Santos – nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Pois tudo passa, tudo sempre passará. O velho Heráclito me ensinou ser impossível pisarmos duas vezes no mesmo rio. Depois Hegel, ao ensinar que a História não se repete e outro autor, ao escrever sobre o 18 Brumário.


Ainda que seja assim, manifestações do nosso Poder Executivo hoje me perturbam, de sorte que – sorte ou azar? – não sei o quê, do que falar, escrever...

Aqui mesmo, na edição de 2 de abril passado, afirmei que a pandemia que hoje suportamos impacta sobre o todo do qual somos meras partículas. Política é a atuação dos que se ocupam dos assuntos públicos, no quadro em que estão inseridas relações institucionais e sociais. A suposição de que se possa instalar acirramento entre essas relações é expressiva de ignorância ou de más intenções. Atuação que, na primeira hipótese, conduz a conflitos entre instituições políticas e o todo social. Conflitos que nos levam àquelas palavras de Jesus: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”. Na segunda hipótese, expressiva de más intenções. Os graves momentos que hoje vivemos trazem de volta um poema de Álvaro Moreyra, no qual ele afirma que palavras não dizem nada, melhor é mesmo calar. Nada mesmo a dizer a respeito da atuação de quem se dispõe a agredir o todo a fim de obter vantagens pessoais.

São terríveis os momentos que hoje vivemos. Além da pandemia que assola o mundo em seu todo, habitamos um país onde os juízes dos nossos tribunais são agredidos aos gritos pelas ruas. Conheci Alexandre de Moraes na Faculdade de Direito da USP. Ele e o Toffoli eram da mesma turma. Eu – mais velho que eles – professor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Anos depois, início do ano 2000, Alexandre tornou-se meu colega, docente lá nas Arcadas. Quando chegou ao STF eu já me aposentara por conta da idade, mas esses três vínculos nos unem para sempre. Um homem correto, praticante de prudência – a phronesis aristotélica – ao decidir corretamente, no quadro da Constituição e das leis. A conduta de Alexandre como magistrado traz a mim esperança e certeza de que o Tempo nos livrará não apenas da angústia decorrente da pandemia, mas também da insegurança política que nos dias que correm suportamos.

Felizmente, no entanto, a angústia dos dias de hoje é superada por momentos de alegria, quais os que me trouxeram dois professores das velhas Arcadas do Largo de São Francisco que haviam rompido a amizade comigo e há dois ou três dias me convocaram para a ela voltarmos.

A música e a poesia me acompanham, por conta do que vou andar por aí, pra ver se encontro a paz que perdi! De repente soa em meus ouvidos o último verso de um poema do meu amigo Manuel Bandeira, Pneumotorax: a única coisa a fazer é tocar um tango argentino!

Os que por aí estão deveriam ouvir Sócrates: só sei que nada sei! Embora no fundo de mim mesmo eu suponha que Sócrates hoje se referiria a outros, assim: só sei que eles nada sabem!

O Brasil não relaxa nem aos domingos

Domingo já foi dia de pescaria, já foi lembrado pela nostalgia das jovens tardes, mas eis que não há mais calendário que resista à falta de romantismo dos tempos. Domingo agora é dia de manifestar disposição de guerra. Não tem mais piquenique na Quinta da Boa Vista. É o dia nacional de histeria, gritaria e todas as rimas ruins da bagunça na rampa do palácio em Brasília.

Era o dia em que se descansava das tensões. A sabedoria popular cunhou o “domingo pede cachimbo”, na crença de que era a pausa para o relaxamento, um dia bom para umas pitadas no fumo. Também acreditavam assim os católicos, todos nas igrejas lotadas, nas missas e rezas em uníssono para que o país se aquietasse, refletisse sobre seus pecados e fosse inundado de bons fluidos para uma semana de paz entre os homens de boa vontade. O novo domingo tem sido um inferno.

Não tem mais frango com polenta da mama paulista, nem picanha com arroz e feijão no Baixo Gávea. É o dia nacional da indigestão. Na santa hora do almoço em que antigamente a família se reunia para fortalecer os laços e saborear as tradições, meia dúzia de malucos tem ido todo domingo de maio para a porta do palácio. Da rampa, o presidente da república compactua com a aglomeração, vírus no vírus, em mais uma celebração do tenebroso festival “sunday, bloody sunday” tupiniquim.

Era o dia feliz de chutar pedrinha no calçadão da praia, uma unanimidade de sentimentos gentis, a ponto de o culto Drummond ter escrito “Nenhum desejo neste domingo/ Nenhum problema nesta vida”, e os popularíssimos Gal Costa e Tim Maia terem cantado “Eu preciso descobrir/ A emoção de estar contigo/ Ver o sol amanhecer/ E ver a vida acontecer/ Como um dia de domingo”. 

Nem as videocassetadas do Domingão do Faustão conseguem cenas tão grotescas como as do novo domingo nacional. Ontem, quando o placar da partida registrava 14 mil mortes a favor do coronavírus, foram transmitidos o close do umbigo presidencial e a insistência das bandeiras de Israel e dos Estados Unidos tremulando ao sol do planalto central do país. Só dói quando eu rio. Pela violência do espetáculo, na contramão do bom senso sanitário, desta vez não houve a necessidade de ofensas contra a democracia. A provocação era evidente. A filosofia da coisa não precisava ser declarada – morram-se todos.


Os domingos de outono têm sido assim. Não mais uma volta na Lagoa, não mais um intervalo para a pacificação dos espíritos - mas um trailer da tensão insuportável do que será o resto da semana. Um domingo ilegal. Saracoteando na rampa, desconhecidos sambam na cara de quem se mantém em isolamento e, incentivados pelo dono da casa, tiram selfies, tudo numa anarquia de despropósitos que contraria as regras de uso do prédio mais importante do país.

O novo domingo nacional se transformou num espetáculo de finalidades tenebrosas. Fora da nova ordem mundial, o aglomerado não parece nem aí para o risco e se joga à morte sob o estímulo da versão tropical de um amalucado imperador romano, aquele que jamais foi visto dizendo “obrigado”. Do alto da rampa, o homem acena para os fanáticos. Aos seus pés, eles se dividem entre pedir a volta ao trabalho, um cascudo no Toffoli e – Brasil acima de tudo - cloroquina na veia de todos.