sexta-feira, 22 de maio de 2026
Direita, de uma queda foi ao chão
Quando baixar a poeira do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, muitas perguntas poderão ser respondidas sobre o futuro da direita e, indiretamente, o futuro imediato do próprio País. Ao que parece, as revelações não são um mero incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro. É um homem limitado para uma tarefa complexa, e o simples fato de ter optado por um caminho dinástico, apresentando o filho como candidato, já é um sinal de estreiteza.
A direita brasileira, de um modo geral, não vencia eleições majoritárias, daí o grande número de tentativas de golpe em nossa história contemporânea. No entanto, o processo de redemocratização trouxe algumas novidades: Collor e o próprio Jair Bolsonaro se elegeram – hoje ambos cumprem prisão domiciliar por razões humanitárias.
A vitória de Jair Bolsonaro representou um encontro com o voto popular. No auge das lutas identitárias, ele soube como ninguém usar o desconforto conservador, explorando o lado sombrio do racismo, da homofobia e da misoginia. Líderes como Carlos Lacerda não teriam a mesma desenvoltura, apesar do brilho intelectual. Verdade é que as condições históricas estavam mudadas, mas a direita sempre foi acusada de elitismo. Bolsonaro conseguiu adicionar à clássica agenda da direita a luta contra a corrupção, além de todos os temas de costumes presentes no Brasil moderno. E enfatizou uma visão implacável na segurança pública, uma política do tipo “bandido bom é bandido morto”.
Numa época em que as redes sociais têm hegemonia na propaganda política, Bolsonaro se beneficiou de uma presença agressiva na internet e mobilizou, por sua vez, grupos aguerridos a seu favor. Com todas essas características, principalmente a capacidade de atrair votos, Bolsonaro galvanizou a direita e também o antipetismo. Os candidatos no seu campo que desprezam sua orientação seriam apenas coadjuvantes no processo eleitoral.
Agora que o modelo dinástico com a candidatura do filho está fazendo água, Bolsonaro coloca em risco toda a estratégia de avanço da direita que deveria culminar, ao lado da campanha presidencial, com uma eleição de grande número de senadores. Essa força no Senado seria usada para combater alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive com impeachment.
Nada autoriza dizer que a direita perderá espaço no Parlamento. Mas um baque na Presidência acaba refletindo nas eleições proporcionais. Muitos candidatos estão revendo seu plano de campanha diante da fragilidade de Flávio expressa nas relações com Vorcaro e suas desculpas inconsistentes. Certos candidatos ao Senado estudam disputar a Câmara. A expectativa vai baixar.
No campo da esquerda, havia um certo cansaço com o governo. O desgaste de Lula por nada disso foi alterado. Mas a primeira pesquisa que surgiu após as revelações mostra uma queda acentuada de Flávio e a manutenção das preferências por Lula. Diante desse quadro, o favoritismo se fortaleceu. Vários candidatos continuam a disputar o papel de opositor, mas dificilmente um deles vai superar a fragmentação.
Diante dessa possível realidade, o caminho é desejar que a política do atual governo mantenha alguns dos seus pontos positivos e, certamente, encontre outros.
A política de transição energética é fundamental para, entre outras coisas, fortalecer o papel do Brasil como um importante interlocutor global no campo do meio ambiente. A hipótese de que se vai lutar contra o desmatamento, explorar de forma sustentável nossos recursos naturais e proteger nossos povos originários pode ser uma boa previsão para o futuro.
Reformas serão necessárias: política, administrativa e judiciária. Muita coisa velha tem de ser superada. E todas essas tensões estarão presentes diante de um Congresso hostil e de grandes dificuldades financeiras em 2027.
Será preciso superar o problema de equilíbrio fiscal. Não tenho a fórmula. Sei que uma política austera dá margem ao desgaste e o avanço do populismo, conforme o próprio Lula admitiu em seu discurso de Barcelona.
Penso que uma reforma administrativa e a adesão do Estado aos instrumentos digitais poderiam tornar a máquina mais leve, a vida das pessoas e empresas mais fácil e, quem sabe, um grande alívio para o peso fiscal. Não podemos deixar de gastar e não podemos gastar. Será preciso discutir com calma como sair desse dilema.
É preciso saber também como será o resultado final das eleições, que tipo de correlação de forças emergirá das urnas, que evolução terá a conjuntura internacional com protagonistas tão imprevisíveis como Donald Trump.
É previsível que todos terão de tentar uma renovação, inclusive os vencedores. Com a velocidade dos fatos, a interdependência global, a nostalgia é proibida: a direita brasileira que o diga.
A direita brasileira, de um modo geral, não vencia eleições majoritárias, daí o grande número de tentativas de golpe em nossa história contemporânea. No entanto, o processo de redemocratização trouxe algumas novidades: Collor e o próprio Jair Bolsonaro se elegeram – hoje ambos cumprem prisão domiciliar por razões humanitárias.
A vitória de Jair Bolsonaro representou um encontro com o voto popular. No auge das lutas identitárias, ele soube como ninguém usar o desconforto conservador, explorando o lado sombrio do racismo, da homofobia e da misoginia. Líderes como Carlos Lacerda não teriam a mesma desenvoltura, apesar do brilho intelectual. Verdade é que as condições históricas estavam mudadas, mas a direita sempre foi acusada de elitismo. Bolsonaro conseguiu adicionar à clássica agenda da direita a luta contra a corrupção, além de todos os temas de costumes presentes no Brasil moderno. E enfatizou uma visão implacável na segurança pública, uma política do tipo “bandido bom é bandido morto”.
Numa época em que as redes sociais têm hegemonia na propaganda política, Bolsonaro se beneficiou de uma presença agressiva na internet e mobilizou, por sua vez, grupos aguerridos a seu favor. Com todas essas características, principalmente a capacidade de atrair votos, Bolsonaro galvanizou a direita e também o antipetismo. Os candidatos no seu campo que desprezam sua orientação seriam apenas coadjuvantes no processo eleitoral.
Agora que o modelo dinástico com a candidatura do filho está fazendo água, Bolsonaro coloca em risco toda a estratégia de avanço da direita que deveria culminar, ao lado da campanha presidencial, com uma eleição de grande número de senadores. Essa força no Senado seria usada para combater alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive com impeachment.
Nada autoriza dizer que a direita perderá espaço no Parlamento. Mas um baque na Presidência acaba refletindo nas eleições proporcionais. Muitos candidatos estão revendo seu plano de campanha diante da fragilidade de Flávio expressa nas relações com Vorcaro e suas desculpas inconsistentes. Certos candidatos ao Senado estudam disputar a Câmara. A expectativa vai baixar.
No campo da esquerda, havia um certo cansaço com o governo. O desgaste de Lula por nada disso foi alterado. Mas a primeira pesquisa que surgiu após as revelações mostra uma queda acentuada de Flávio e a manutenção das preferências por Lula. Diante desse quadro, o favoritismo se fortaleceu. Vários candidatos continuam a disputar o papel de opositor, mas dificilmente um deles vai superar a fragmentação.
Diante dessa possível realidade, o caminho é desejar que a política do atual governo mantenha alguns dos seus pontos positivos e, certamente, encontre outros.
A política de transição energética é fundamental para, entre outras coisas, fortalecer o papel do Brasil como um importante interlocutor global no campo do meio ambiente. A hipótese de que se vai lutar contra o desmatamento, explorar de forma sustentável nossos recursos naturais e proteger nossos povos originários pode ser uma boa previsão para o futuro.
Reformas serão necessárias: política, administrativa e judiciária. Muita coisa velha tem de ser superada. E todas essas tensões estarão presentes diante de um Congresso hostil e de grandes dificuldades financeiras em 2027.
Será preciso superar o problema de equilíbrio fiscal. Não tenho a fórmula. Sei que uma política austera dá margem ao desgaste e o avanço do populismo, conforme o próprio Lula admitiu em seu discurso de Barcelona.
Penso que uma reforma administrativa e a adesão do Estado aos instrumentos digitais poderiam tornar a máquina mais leve, a vida das pessoas e empresas mais fácil e, quem sabe, um grande alívio para o peso fiscal. Não podemos deixar de gastar e não podemos gastar. Será preciso discutir com calma como sair desse dilema.
É preciso saber também como será o resultado final das eleições, que tipo de correlação de forças emergirá das urnas, que evolução terá a conjuntura internacional com protagonistas tão imprevisíveis como Donald Trump.
É previsível que todos terão de tentar uma renovação, inclusive os vencedores. Com a velocidade dos fatos, a interdependência global, a nostalgia é proibida: a direita brasileira que o diga.
A política está vazia! Encheu-se de ruído
Vivemos numa época em que a política parece cada vez mais dominada pelo ruído. Há debates constantes, declarações sucessivas, polémicas diárias e uma presença permanente nas redes sociais e nos meios de comunicação. No entanto, no meio de tanto barulho, surge uma questão inevitável: onde está o conteúdo? Onde estão as ideias, as soluções e a discussão séria dos problemas que afetam a sociedade?
Muitas vezes, a política parece transformar-se numa competição pela atenção pública. O impacto imediato de uma frase, a rapidez de uma resposta ou a polémica do momento acabam por ocupar mais espaço do que a análise profunda dos desafios reais. Questões fundamentais como a educação, a saúde, a habitação, a desigualdade social ou o futuro do trabalho ficam frequentemente reduzidas a discursos breves ou a promessas superficiais.
O excesso de ruído tem consequências. Quando os cidadãos sentem que a política é apenas conflito, espetáculo ou troca de acusações, cresce o afastamento em relação às instituições e aumenta a desconfiança. A participação diminui porque muitos deixam de acreditar que a política possa representar uma verdadeira ferramenta de mudança.
No entanto, a política não deveria ser apenas palco de confronto. O seu propósito deve continuar a ser a procura de soluções, a construção de consensos e a resposta às necessidades coletivas. Discordar faz parte da democracia, mas a discussão política precisa de recuperar espaço para a reflexão, para a responsabilidade e para propostas concretas.
Mais do que uma política cheia de ruído, é necessária uma política com sentido, capaz de ouvir, dialogar e agir. Porque quando o barulho se torna mais forte do que as ideias, perde a política e perde a sociedade.
Hoje, o espaço político parece menos orientado para a discussão de ideias capazes de enfrentar problemas estruturais e mais centrado na produção de soundbites: mensagens curtas, mediáticas e de efeito imediato, que privilegiam a visibilidade em detrimento da profundidade.
Muitas vezes, a política parece transformar-se numa competição pela atenção pública. O impacto imediato de uma frase, a rapidez de uma resposta ou a polémica do momento acabam por ocupar mais espaço do que a análise profunda dos desafios reais. Questões fundamentais como a educação, a saúde, a habitação, a desigualdade social ou o futuro do trabalho ficam frequentemente reduzidas a discursos breves ou a promessas superficiais.
O excesso de ruído tem consequências. Quando os cidadãos sentem que a política é apenas conflito, espetáculo ou troca de acusações, cresce o afastamento em relação às instituições e aumenta a desconfiança. A participação diminui porque muitos deixam de acreditar que a política possa representar uma verdadeira ferramenta de mudança.
No entanto, a política não deveria ser apenas palco de confronto. O seu propósito deve continuar a ser a procura de soluções, a construção de consensos e a resposta às necessidades coletivas. Discordar faz parte da democracia, mas a discussão política precisa de recuperar espaço para a reflexão, para a responsabilidade e para propostas concretas.
Mais do que uma política cheia de ruído, é necessária uma política com sentido, capaz de ouvir, dialogar e agir. Porque quando o barulho se torna mais forte do que as ideias, perde a política e perde a sociedade.
Hoje, o espaço político parece menos orientado para a discussão de ideias capazes de enfrentar problemas estruturais e mais centrado na produção de soundbites: mensagens curtas, mediáticas e de efeito imediato, que privilegiam a visibilidade em detrimento da profundidade.
O Brasil das capitanias hereditárias sobrevive nos 'nepo babies' da política
A entronização de Flávio Bolsonaro como herdeiro-mor do bolsonarismo é exemplo de como o Brasil das capitanias hereditárias sobrevive nos "nepo babies" da política nacional.
O termo em inglês "nepo baby" é usado para descrever filhos de celebridades que seguem a carreira dos pais, herdando contatos e privilégios do nome famoso. Assim como no entretenimento e na moda, os ‘nepo babies’ dão o que falar no meio político, onde herdeiros de oligarquias e clãs trafegam com vantagem na disputa por indicações, cargos e visibilidade.
O filho 01 foi o escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para ser candidato à presidência, como herdeiro de um espólio político que já o fizera saltar de deputado estadual a senador.
Nepotismo que desmonta o discurso bolsonarista de ruptura com a chamada "velha política", ao reproduzir uma das práticas mais tradicionais na República brasileira: a transferência de capital político dentro da própria família.
O Brasil aboliu as capitanias hereditárias ainda no período colonial, mas jamais conseguiu eliminar a lógica do poder transmitido como herança. Uma cultura política profundamente marcada pelo patrimonialismo, pelo personalismo e pela ideia de que determinados sobrenomes carregam uma espécie de direito natural à liderança.
O "nepo babyismo" político é base das oligarquias que governam o Brasil há séculos. No Norte e Nordeste, o fenômeno é quase monárquico. Vide Renan Calheiros Filho e Jader Barbalho Filho galgando ministérios, governos estaduais e cadeiras no Parlamento carregando votos e o mesmo nome de seus patriarcas.
Já em outro lado do espectro ideológico, o "nepo baby" Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é acusado de operar nas sombras do poder paterno. Embora nunca tenha disputado cargos eletivos, o acesso a negócios e a influência em Brasília rendem investigações na Polícia Federal e no Ministério Público.
Assim como Flávio Bolsonaro também está na berlinda por ter negociado centenas de milhões com o encrencado Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre a trajetória do pai, em roteiro digno de "nepo baby".
O termo em inglês "nepo baby" é usado para descrever filhos de celebridades que seguem a carreira dos pais, herdando contatos e privilégios do nome famoso. Assim como no entretenimento e na moda, os ‘nepo babies’ dão o que falar no meio político, onde herdeiros de oligarquias e clãs trafegam com vantagem na disputa por indicações, cargos e visibilidade.
O filho 01 foi o escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para ser candidato à presidência, como herdeiro de um espólio político que já o fizera saltar de deputado estadual a senador.
Nepotismo que desmonta o discurso bolsonarista de ruptura com a chamada "velha política", ao reproduzir uma das práticas mais tradicionais na República brasileira: a transferência de capital político dentro da própria família.
O Brasil aboliu as capitanias hereditárias ainda no período colonial, mas jamais conseguiu eliminar a lógica do poder transmitido como herança. Uma cultura política profundamente marcada pelo patrimonialismo, pelo personalismo e pela ideia de que determinados sobrenomes carregam uma espécie de direito natural à liderança.
O "nepo babyismo" político é base das oligarquias que governam o Brasil há séculos. No Norte e Nordeste, o fenômeno é quase monárquico. Vide Renan Calheiros Filho e Jader Barbalho Filho galgando ministérios, governos estaduais e cadeiras no Parlamento carregando votos e o mesmo nome de seus patriarcas.
Já em outro lado do espectro ideológico, o "nepo baby" Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é acusado de operar nas sombras do poder paterno. Embora nunca tenha disputado cargos eletivos, o acesso a negócios e a influência em Brasília rendem investigações na Polícia Federal e no Ministério Público.
Assim como Flávio Bolsonaro também está na berlinda por ter negociado centenas de milhões com o encrencado Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre a trajetória do pai, em roteiro digno de "nepo baby".
A Síndrome de Estocolmo da direita
O bolsonarismo tem significado a redenção e a desgraça da direita brasileira. Esse paradoxo está ficando cada vez mais claro com a crise na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Suas relações com Daniel Vorcaro são mal contadas e injustificáveis, pensam aliados e outros candidatos do lado direitista. Porém, como criticar profundamente ou abandonar o filho de um grande líder popular que reordenou o mapa ideológico do país, antes com predomínio inconteste do espectro que vai do centro para a esquerda?
Compreender as razões desse dilema é fundamental para a direita não bolsonarista. Ela vive hoje uma espécie de Síndrome de Estocolmo, caracterizada por uma simpatia ou lealdade irrestrita em relação ao sequestrador. O bolsonarismo sequestrou quase todos os políticos direitistas e mesmo uma parcela mais ao centro. Tal aprisionamento impede críticas às posições ou atos da família Bolsonaro e dificulta sobremaneira um projeto efetivamente independente de poder, mesmo quando hoje temos mais presidenciáveis à direita do que à esquerda.
Não se trata de um feitiço político. Há quatro razões objetivas que explicam essa dificuldade de se libertar do sequestrador. A primeira é que o bolsonarismo conseguiu tornar a direita palatável e popular no país, pois Jair Bolsonaro nunca mascarou suas ideias e por meio delas chegou ao Palácio do Planalto. Claro que políticos direitistas sempre foram fortes no país, particularmente no Legislativo e nos governos locais. Contudo, tinham medo de dizer seu próprio nome, e isso ficou ainda mais destacado a partir da redemocratização, quando as ideias da direita eram remetidas ao período da ditadura militar e a um certo elitismo social.
O bolsonarismo deu amparo para quem quisesse ser chamado de direitista. Mais do que isso, gerou um projeto de poder com base popular, capaz de eleger um presidente da República. Isso não quer dizer que a direita, sozinha, seja capaz de ter hegemonia política no país - e nem a esquerda tem esse poder. Também não é verdade que haja um único ideário de direita - ao contrário, há várias tonalidades possíveis. Basta lembrar que os bolsonaristas concentram seu discurso no campo moral e quando estiveram no poder não levaram adiante nem uma agenda liberal à Javier Milei, nem foram nacionalistas econômicos como Trump está tentando ser no seu segundo mandato.
A diversidade de posições à direita e de centro-direita de fato existe em forças sociais e políticas brasileiras. No entanto, quem gritou mais alto e sem vergonha que era direitista foi o bolsonarismo, mesmo que sua corrente seja uma das formas possíveis desse espectro político, num ponto mais extremo dele.
Verdade que desde a década passada o MBL - hoje um partido, o Missão - trouxe à tona essa identidade, só que não ganhou a liderança do movimento. Isso coube a Jair Bolsonaro e sua vitória eleitoral em 2018, que levou direitistas ao poder, depois o distribuiu entre os aliados e tentou reverter a hegemonia mais à centro-esquerda que dominava a eleição presidencial e o discurso político-cultural.
Numa democracia, o peso eleitoral faz muita diferença. E aqui entra uma segunda razão que explica por que o bolsonarismo aprisionou o restante da direita em seu casulo. Os bolsonaristas-raiz, comandados diretamente pela família, conseguem ter um piso entre 20% e 30% dos votos do eleitorado brasileiro. Não têm a maioria dos eleitores ao seu lado, como comprova a derrota do projeto reeleitoral de Jair Bolsonaro, mas criaram uma barreira de entrada para outras forças de direita e mesmo do centro entrarem no jogo político maior da eleição presidencial.
O exemplo do escândalo de Flávio Bolsonaro e suas relações mal explicadas e antirrepublicanas com Daniel Vorcaro, que era líder de crime organizado e não banqueiro, revela bem a força que tem um piso eleitoral alto. É bem provável que o senador perca pontos nas próximas pesquisas, mas é muito difícil que caia para menos de 20% ou deixe de ficar na frente dos outros de seu front ideológico, como Zema, Caiado e Renan Santos. Daí que é muito tentador manter até o final uma candidatura quando se domina um espectro político e se há chances grandes de ir ao segundo turno.
Entretanto, se esse derretimento continuar, o que tende a ser alavancado por tanta coisa a ser descoberta na cleptocracia bolsonarista que governava o Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro perderá a eleição presidencial para manter a hegemonia da família dentro do bloco direitista.
Quem não tem esse piso eleitoral alto, mas não quer que Lula continue como presidente, deveria se contrapor e defender um projeto independente de poder. Zema arriscou ir por esse caminho, mas desistiu rapidamente, quase se desculpando. Caiado foi tão educado nas críticas que ninguém percebeu que ele as fez. O único que teve coragem de desafiar o bolsonarismo foi o Missão e seu candidato presidencial - se os Bolsonaros conhecem Maquiavel, deveriam temê-los.
Por que tanto medo e hesitação no momento em que Flávio Bolsonaro foi pego com a boca na botija com o maior larápio do país? É importante frisar que não é a primeira vez que a direita não bolsonarista retrocede em sua busca por independência. O caso mais conhecido foi o de Sergio Moro, que saiu do governo de Jair Bolsonaro propondo uma revolta ampla, dizendo que iria desvendar muitos escândalos, e hoje é um soldado apático e servil do bolsonarismo.
O medo da perseguição bolsonarista, especialmente nas redes sociais, é o terceiro ingrediente da Síndrome de Estocolmo que tomou conta da direita. Por ora, é inegável a capacidade de o bolsonarismo destruir reputações e carreiras políticas de gente do seu mesmo espectro político ou de ex-aliados. Praticamente todos que saíram do ventre eleitoral comandado pela família Bolsonaro e desafiaram o clã político estão hoje menores politicamente. Para usar a linguagem militar, trata-se de um fator dissuasório para os pretendentes a dissidentes. É uma patrulha ideológica eficaz, tal como outras que a esquerda usou no passado aos que abandonavam o ideal comunista.
O bolsonarismo deu identidade e poder à direita, tem um piso eleitoral muito alto, sabe dissuadir dissidentes com grande eficácia, e, como quarto fator do poder de aprisionamento do seu espectro ideológico, edificou firmemente uma causa comum: o antipetismo e a oposição ao presidente Lula, visto como o principal inimigo a ser batido. Por meio desse objetivo, o mais estratégico de todos, os bolsonaristas clamam pelo esquecimento das brigas ou escândalos da família que comanda o movimento, dado que há um projeto unificador que só pode ser realizado com o apoio inconteste ao líder mais forte: Jair Bolsonaro ou quem ele indique.
É por meio desse discurso do inimigo comum que o bolsonarismo vai atacar os direitistas que ousarem criticar Flávio Bolsonaro e sua busca pelo patrocínio de Daniel Vorcaro. Há o risco de descobrirem mais histórias mal explicadas, ou até “videozinhos do senador”, mas sempre se retornará à questão central: só um Bolsonaro pode chegar a um segundo turno contra Lula. Na verdade, seria mais fácil um candidato que não viesse da extrema direita vencer a disputa presidencial, do mesmo modo que o lulismo cresce toda vez que acena para um eleitorado mais amplo.
O problema é que nos últimos quatro anos todos os pretendentes à direita fora da “família real” não tiveram a coragem de buscar a independência frente ao bolsonarismo, seja por amor ou medo do patriarca. O que ganharam Zema, Caiado, Tarcísio, Ratinho e outras lideranças mais à direita indo a comícios na avenida Paulista de defesa da anistia a Jair Bolsonaro? O direito de ficarem calados toda vez que houver algum escândalo envolvendo a família Bolsonaro.
Fica a lição: só se mudará essa realidade na direita, ou mesmo no centro, buscando um caminho alternativo no início do próximo período presidencial. Quem tentar montar um projeto somente no final do quadriênio, às vésperas da eleição, não terá tempo para mudar o jogo. A coragem de escolher um caminho próprio é um processo e não um lampejo frágil de quem é dependente politicamente. Cabe recordar que ao início Jair Bolsonaro era visto como uma caricatura, percorreu todo o Brasil e construiu uma candidatura.
Quem estiver no mesmo espectro eleitoral deveria guiar sua própria trajetória, pois os políticos ou partidos só se tornam fortes ao longo da história quando são livres e independentes de qualquer tipo de mito ou aprisionamento a um grupo.
Tal subserviência não é o único efeito dessa Síndrome de Estocolmo. Ao se colar completamente ao bolsonarismo, as direitas deixaram de discutir ideias sobre democracia, políticas públicas e o papel do Brasil no mundo, questões cujos resultados foram desastrosos no governo Bolsonaro. É fundamental ter conservadores e liberais com um projeto claro, para não dizer de um centro robusto, essencial para o equilíbrio das democracias. Antes, todavia, é preciso se libertar dos grilhões que os acorrentam a uma família que tem muitos esqueletos no armário, numa narrativa que é dominada agora pelo ponto e vírgula, uma vez que a única coisa certa é que Flávio Bolsonaro desmentirá o que disse ontem.
Compreender as razões desse dilema é fundamental para a direita não bolsonarista. Ela vive hoje uma espécie de Síndrome de Estocolmo, caracterizada por uma simpatia ou lealdade irrestrita em relação ao sequestrador. O bolsonarismo sequestrou quase todos os políticos direitistas e mesmo uma parcela mais ao centro. Tal aprisionamento impede críticas às posições ou atos da família Bolsonaro e dificulta sobremaneira um projeto efetivamente independente de poder, mesmo quando hoje temos mais presidenciáveis à direita do que à esquerda.
Não se trata de um feitiço político. Há quatro razões objetivas que explicam essa dificuldade de se libertar do sequestrador. A primeira é que o bolsonarismo conseguiu tornar a direita palatável e popular no país, pois Jair Bolsonaro nunca mascarou suas ideias e por meio delas chegou ao Palácio do Planalto. Claro que políticos direitistas sempre foram fortes no país, particularmente no Legislativo e nos governos locais. Contudo, tinham medo de dizer seu próprio nome, e isso ficou ainda mais destacado a partir da redemocratização, quando as ideias da direita eram remetidas ao período da ditadura militar e a um certo elitismo social.
O bolsonarismo deu amparo para quem quisesse ser chamado de direitista. Mais do que isso, gerou um projeto de poder com base popular, capaz de eleger um presidente da República. Isso não quer dizer que a direita, sozinha, seja capaz de ter hegemonia política no país - e nem a esquerda tem esse poder. Também não é verdade que haja um único ideário de direita - ao contrário, há várias tonalidades possíveis. Basta lembrar que os bolsonaristas concentram seu discurso no campo moral e quando estiveram no poder não levaram adiante nem uma agenda liberal à Javier Milei, nem foram nacionalistas econômicos como Trump está tentando ser no seu segundo mandato.
A diversidade de posições à direita e de centro-direita de fato existe em forças sociais e políticas brasileiras. No entanto, quem gritou mais alto e sem vergonha que era direitista foi o bolsonarismo, mesmo que sua corrente seja uma das formas possíveis desse espectro político, num ponto mais extremo dele.
Verdade que desde a década passada o MBL - hoje um partido, o Missão - trouxe à tona essa identidade, só que não ganhou a liderança do movimento. Isso coube a Jair Bolsonaro e sua vitória eleitoral em 2018, que levou direitistas ao poder, depois o distribuiu entre os aliados e tentou reverter a hegemonia mais à centro-esquerda que dominava a eleição presidencial e o discurso político-cultural.
Numa democracia, o peso eleitoral faz muita diferença. E aqui entra uma segunda razão que explica por que o bolsonarismo aprisionou o restante da direita em seu casulo. Os bolsonaristas-raiz, comandados diretamente pela família, conseguem ter um piso entre 20% e 30% dos votos do eleitorado brasileiro. Não têm a maioria dos eleitores ao seu lado, como comprova a derrota do projeto reeleitoral de Jair Bolsonaro, mas criaram uma barreira de entrada para outras forças de direita e mesmo do centro entrarem no jogo político maior da eleição presidencial.
O exemplo do escândalo de Flávio Bolsonaro e suas relações mal explicadas e antirrepublicanas com Daniel Vorcaro, que era líder de crime organizado e não banqueiro, revela bem a força que tem um piso eleitoral alto. É bem provável que o senador perca pontos nas próximas pesquisas, mas é muito difícil que caia para menos de 20% ou deixe de ficar na frente dos outros de seu front ideológico, como Zema, Caiado e Renan Santos. Daí que é muito tentador manter até o final uma candidatura quando se domina um espectro político e se há chances grandes de ir ao segundo turno.
Entretanto, se esse derretimento continuar, o que tende a ser alavancado por tanta coisa a ser descoberta na cleptocracia bolsonarista que governava o Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro perderá a eleição presidencial para manter a hegemonia da família dentro do bloco direitista.
Quem não tem esse piso eleitoral alto, mas não quer que Lula continue como presidente, deveria se contrapor e defender um projeto independente de poder. Zema arriscou ir por esse caminho, mas desistiu rapidamente, quase se desculpando. Caiado foi tão educado nas críticas que ninguém percebeu que ele as fez. O único que teve coragem de desafiar o bolsonarismo foi o Missão e seu candidato presidencial - se os Bolsonaros conhecem Maquiavel, deveriam temê-los.
Por que tanto medo e hesitação no momento em que Flávio Bolsonaro foi pego com a boca na botija com o maior larápio do país? É importante frisar que não é a primeira vez que a direita não bolsonarista retrocede em sua busca por independência. O caso mais conhecido foi o de Sergio Moro, que saiu do governo de Jair Bolsonaro propondo uma revolta ampla, dizendo que iria desvendar muitos escândalos, e hoje é um soldado apático e servil do bolsonarismo.
O medo da perseguição bolsonarista, especialmente nas redes sociais, é o terceiro ingrediente da Síndrome de Estocolmo que tomou conta da direita. Por ora, é inegável a capacidade de o bolsonarismo destruir reputações e carreiras políticas de gente do seu mesmo espectro político ou de ex-aliados. Praticamente todos que saíram do ventre eleitoral comandado pela família Bolsonaro e desafiaram o clã político estão hoje menores politicamente. Para usar a linguagem militar, trata-se de um fator dissuasório para os pretendentes a dissidentes. É uma patrulha ideológica eficaz, tal como outras que a esquerda usou no passado aos que abandonavam o ideal comunista.
O bolsonarismo deu identidade e poder à direita, tem um piso eleitoral muito alto, sabe dissuadir dissidentes com grande eficácia, e, como quarto fator do poder de aprisionamento do seu espectro ideológico, edificou firmemente uma causa comum: o antipetismo e a oposição ao presidente Lula, visto como o principal inimigo a ser batido. Por meio desse objetivo, o mais estratégico de todos, os bolsonaristas clamam pelo esquecimento das brigas ou escândalos da família que comanda o movimento, dado que há um projeto unificador que só pode ser realizado com o apoio inconteste ao líder mais forte: Jair Bolsonaro ou quem ele indique.
É por meio desse discurso do inimigo comum que o bolsonarismo vai atacar os direitistas que ousarem criticar Flávio Bolsonaro e sua busca pelo patrocínio de Daniel Vorcaro. Há o risco de descobrirem mais histórias mal explicadas, ou até “videozinhos do senador”, mas sempre se retornará à questão central: só um Bolsonaro pode chegar a um segundo turno contra Lula. Na verdade, seria mais fácil um candidato que não viesse da extrema direita vencer a disputa presidencial, do mesmo modo que o lulismo cresce toda vez que acena para um eleitorado mais amplo.
O problema é que nos últimos quatro anos todos os pretendentes à direita fora da “família real” não tiveram a coragem de buscar a independência frente ao bolsonarismo, seja por amor ou medo do patriarca. O que ganharam Zema, Caiado, Tarcísio, Ratinho e outras lideranças mais à direita indo a comícios na avenida Paulista de defesa da anistia a Jair Bolsonaro? O direito de ficarem calados toda vez que houver algum escândalo envolvendo a família Bolsonaro.
Fica a lição: só se mudará essa realidade na direita, ou mesmo no centro, buscando um caminho alternativo no início do próximo período presidencial. Quem tentar montar um projeto somente no final do quadriênio, às vésperas da eleição, não terá tempo para mudar o jogo. A coragem de escolher um caminho próprio é um processo e não um lampejo frágil de quem é dependente politicamente. Cabe recordar que ao início Jair Bolsonaro era visto como uma caricatura, percorreu todo o Brasil e construiu uma candidatura.
Quem estiver no mesmo espectro eleitoral deveria guiar sua própria trajetória, pois os políticos ou partidos só se tornam fortes ao longo da história quando são livres e independentes de qualquer tipo de mito ou aprisionamento a um grupo.
Tal subserviência não é o único efeito dessa Síndrome de Estocolmo. Ao se colar completamente ao bolsonarismo, as direitas deixaram de discutir ideias sobre democracia, políticas públicas e o papel do Brasil no mundo, questões cujos resultados foram desastrosos no governo Bolsonaro. É fundamental ter conservadores e liberais com um projeto claro, para não dizer de um centro robusto, essencial para o equilíbrio das democracias. Antes, todavia, é preciso se libertar dos grilhões que os acorrentam a uma família que tem muitos esqueletos no armário, numa narrativa que é dominada agora pelo ponto e vírgula, uma vez que a única coisa certa é que Flávio Bolsonaro desmentirá o que disse ontem.
Uma caneca de plástico e tudo o que ela diz sobre nós
No dia 16 de maio de 2026, formaram-se filas à porta de lojas Swatch em várias cidades do mundo. Houve cenas de pancadaria em vários sítios. E também aqui, em Portugal, no Colombo, em Lisboa, houve gente que dormiu dentro do centro comercial, de um dia para o outro, para garantir o lugar. As pessoas tinham saído de casa de madrugada, algumas tinham passado a noite ali, para comprar um objeto. Não um medicamento que faltasse, não pão, nada de que precisassem. Um relógio de bolso.
Escrevo isto outra vez devagar, porque vale a pena fixar a estranheza da frase. Um relógio de bolso. Aquela coisa que os nossos bisavôs traziam no colete e que desapareceu da vida humana há cerca de um século. Voltou ontem, custa à volta de quatrocentos euros, vende-se um por pessoa, por loja, por dia, não há venda online, e foi suficiente para mover multidões. Chama-se Royal Pop e nasceu de uma colaboração entre a Swatch e a Audemars Piguet, uma das casas relojoeiras mais fechadas e elitistas do mundo, que nunca na sua história tinha emprestado o seu desenho a quem quer que fosse. Nem a estrelas, nem a marcas, a ninguém.
E a imprensa especializada, que não costuma ser dada a filosofias, encontrou imediatamente a palavra certa para descrever o que isto é. Chamaram-lhe o Labubu dos relógios. “Bye bye Labubu”, escreveu uma revista da especialidade. Outra foi mais cruel e mais exata: a fivela de saco tornada mecânica, masculina, a seiscentos e trinta dólares. O Labubu, aquele boneco de olhos esbugalhados que durante ano e meio andou pendurado em malas que custam mais do que um carro, provou uma coisa, e foi esta: o acessório passou a ser o ponto, e não a mala. O que se pendura passou a valer mais do que aquilo de onde se pendura.
Eu podia agora escrever o texto fácil. O texto que toda a gente espera e que já foi escrito mil vezes. As pessoas são fúteis, materialistas, vazias, capazes de dormir na rua por um boneco mas incapazes de atravessar a rua para ajudar um sem-abrigo. É verdade que esse contraste existe e dói olhar para ele. Mas se eu escrevesse isso, estaria a fazer exatamente o que critico noutros, que é resolver uma questão complicada com desprezo. E o desprezo é confortável precisamente porque dispensa pensar. Por isso não vou por aí.
Vou por outro lado, que é mais incómodo e, acho eu, mais honesto.
Aquela fila não foi um acidente. Aquilo não é gente fraca a comportar-se mal espontaneamente. Aquilo foi desenhado. Uma das marcas mais inacessíveis do planeta sentou-se numa sala de reuniões e decidiu, ao milímetro, fabricar um objeto de pertença barato. Decidiu o preço para ser desejável e ainda assim doloroso. Decidiu a escassez, um por pessoa, por dia. Decidiu não vender online para obrigar o corpo das pessoas a estar fisicamente ali, na fila, à vista umas das outras, porque a fila faz parte do produto. A sensação de pertencer a um clube, de ter conseguido, de ser dos que apanharam, isso não nasceu no comprador. Foi engenharia. Foi produzido e foi-lhe vendido já pronto, embrulhado, com a emoção incluída no preço.
Digo isto porque me parece que metade da culpa que despejamos sobre o indivíduo está mal endereçada. Ninguém acordou um dia, sozinho, com a ideia genial de que precisava de um relógio de bolso. Essa necessidade foi-lhe construída por gente muito inteligente, muito bem paga, que estuda exatamente como é que o nosso cérebro responde à escassez e ao olhar dos outros. Quando vemos a fila e dizemos “mas que gente parva”, estamos a olhar para a vítima e a chamar-lhe culpada, enquanto quem desenhou o anzol fica de fora da conversa, a contar o dinheiro.
Mas, e tem de haver um mas, senão isto era um texto a inocentar toda a gente, e as pessoas também não são marionetas. A engenharia só funciona porque encontra terreno onde pegar. O anzol só apanha porque há fome. E a pergunta que verdadeiramente interessa, a única que vale a pena fazer, é esta: porque é que este objeto consegue mover multidões de madrugada e uma petição por direitos humanos não consegue mover ninguém? Porque é que se faz fila por uma caneca e não se faz fila por uma causa?
A resposta honesta não é que as pessoas são más. Eu acho mesmo que não é. A resposta é que o consumo dá uma coisa que a solidariedade não dá. O consumo dá pertença imediata, visível e sem custo moral. Compro, ponho ao pescoço, e no minuto seguinte pertenço a um grupo, toda a gente vê que pertenço, e não tive de me interrogar sobre nada. A solidariedade dá o contrário disto tudo. Exige esforço prolongado, quase nunca se vê, não dá estatuto nenhum e ainda por cima obriga a olhar para coisas desagradáveis. Adotar um cão dá trabalho durante quinze anos e ninguém bate palmas. Ajudar um sem-abrigo não se pendura na mala. Lutar por direitos é lento, ingrato e às vezes perde-se. Entre os dois caminhos, alguém otimizou um até ele ficar irresistível e deixou o outro cheio de buracos. Depois admiramo-nos de que as pessoas escolham o caminho asfaltado.
E aqui chego ao que mais me custa, porque liga isto a uma coisa de que já escrevi e que não me sai da cabeça.
A mesma sociedade que sai de casa de madrugada por um relógio é a sociedade que, em Portugal, em 2026, assistiu calada à revogação de direitos de pessoas que não fizeram mal a ninguém. Não estou a dizer que quem comprou o Royal Pop é responsável por isso. Seria estúpido e injusto dizê-lo. Estou a dizer outra coisa, mais funda e mais difícil de digerir. Aprendemos a mover-nos por pertença fabricada e desaprendemos a mover-nos por pertença a uma causa. Treinámos o músculo de pertencer a um clube que se compra e deixámos atrofiar o músculo de pertencer a uma ideia de justiça que não se compra e que só dá trabalho. Não é o mesmo fenómeno, a fila da loja e o silêncio perante a injustiça. Mas há um mecanismo comum por baixo dos dois, e o mecanismo é este: a pertença a um grupo tornou-se um motor mais forte do que a justiça. E quem souber operar esse motor, seja uma marca de relógios, seja um partido que precisa de inimigos, faz de nós o que quiser.
Tenho de dizer também o que torna isto tudo menos limpo do que eu gostaria, porque não quero escrever uma caricatura. Há contradições inconvenientes para a minha própria tese, e a honestidade obriga a pô-las aqui. A Audemars Piguet anunciou que doa 100% da parte que lhe cabe nestas vendas à preservação do saber-fazer relojoeiro e à formação de uma geração nova de artesãos. Quer dizer que dentro da própria máquina de consumo existe um gesto que aponta ao contrário. E as gerações que fazem fila pelo Labubu são, em dados que se podem verificar, das mais ativas de sempre em voluntariado, em causas, em ativismo. Não devo verificar isto de cor, mas o padrão está documentado e desmente a ideia preguiçosa de uma juventude apenas fútil. Digo isto de propósito, porque se a minha crítica só funcionasse caricaturando as pessoas, então não valeria nada. Vale precisamente por funcionar mesmo depois de eu reconhecer isto.
Então o que é que fica, depois de tirar o desprezo fácil e a caricatura?
Fica isto. O problema nunca foi querermos pertencer. Querer pertencer é das coisas mais humanas que há, talvez a mais humana de todas, e não há nada de errado em querer pertencer. O problema é a quem decidimos que vale a pena pertencer. E, sobretudo, o problema é que, na maior parte das vezes, não fomos nós que decidimos. Decidiram por nós, numa sala de reuniões ou num comício, e venderam-nos a decisão já tomada, com a emoção embrulhada, ao preço que o mercado aguentasse. Uma caneca de plástico chega para nos pôr na rua. Uma pessoa a perder direitos, ali ao lado, muitas vezes não chega. Não porque sejamos maus. Porque alguém trabalhou muito para que fosse assim, e nós deixámos.
E talvez o gesto mais radical que ainda nos resta, num tempo assim, seja o mais aborrecido de todos: escolher por nós a que é que vale a pena pertencer, mesmo quando não dá estatuto, mesmo quando ninguém vê, mesmo quando só dá trabalho. Sobretudo quando só dá trabalho.
Ana Inês Patrício
Escrevo isto outra vez devagar, porque vale a pena fixar a estranheza da frase. Um relógio de bolso. Aquela coisa que os nossos bisavôs traziam no colete e que desapareceu da vida humana há cerca de um século. Voltou ontem, custa à volta de quatrocentos euros, vende-se um por pessoa, por loja, por dia, não há venda online, e foi suficiente para mover multidões. Chama-se Royal Pop e nasceu de uma colaboração entre a Swatch e a Audemars Piguet, uma das casas relojoeiras mais fechadas e elitistas do mundo, que nunca na sua história tinha emprestado o seu desenho a quem quer que fosse. Nem a estrelas, nem a marcas, a ninguém.
E a imprensa especializada, que não costuma ser dada a filosofias, encontrou imediatamente a palavra certa para descrever o que isto é. Chamaram-lhe o Labubu dos relógios. “Bye bye Labubu”, escreveu uma revista da especialidade. Outra foi mais cruel e mais exata: a fivela de saco tornada mecânica, masculina, a seiscentos e trinta dólares. O Labubu, aquele boneco de olhos esbugalhados que durante ano e meio andou pendurado em malas que custam mais do que um carro, provou uma coisa, e foi esta: o acessório passou a ser o ponto, e não a mala. O que se pendura passou a valer mais do que aquilo de onde se pendura.
Eu podia agora escrever o texto fácil. O texto que toda a gente espera e que já foi escrito mil vezes. As pessoas são fúteis, materialistas, vazias, capazes de dormir na rua por um boneco mas incapazes de atravessar a rua para ajudar um sem-abrigo. É verdade que esse contraste existe e dói olhar para ele. Mas se eu escrevesse isso, estaria a fazer exatamente o que critico noutros, que é resolver uma questão complicada com desprezo. E o desprezo é confortável precisamente porque dispensa pensar. Por isso não vou por aí.
Vou por outro lado, que é mais incómodo e, acho eu, mais honesto.
Aquela fila não foi um acidente. Aquilo não é gente fraca a comportar-se mal espontaneamente. Aquilo foi desenhado. Uma das marcas mais inacessíveis do planeta sentou-se numa sala de reuniões e decidiu, ao milímetro, fabricar um objeto de pertença barato. Decidiu o preço para ser desejável e ainda assim doloroso. Decidiu a escassez, um por pessoa, por dia. Decidiu não vender online para obrigar o corpo das pessoas a estar fisicamente ali, na fila, à vista umas das outras, porque a fila faz parte do produto. A sensação de pertencer a um clube, de ter conseguido, de ser dos que apanharam, isso não nasceu no comprador. Foi engenharia. Foi produzido e foi-lhe vendido já pronto, embrulhado, com a emoção incluída no preço.
Digo isto porque me parece que metade da culpa que despejamos sobre o indivíduo está mal endereçada. Ninguém acordou um dia, sozinho, com a ideia genial de que precisava de um relógio de bolso. Essa necessidade foi-lhe construída por gente muito inteligente, muito bem paga, que estuda exatamente como é que o nosso cérebro responde à escassez e ao olhar dos outros. Quando vemos a fila e dizemos “mas que gente parva”, estamos a olhar para a vítima e a chamar-lhe culpada, enquanto quem desenhou o anzol fica de fora da conversa, a contar o dinheiro.
Mas, e tem de haver um mas, senão isto era um texto a inocentar toda a gente, e as pessoas também não são marionetas. A engenharia só funciona porque encontra terreno onde pegar. O anzol só apanha porque há fome. E a pergunta que verdadeiramente interessa, a única que vale a pena fazer, é esta: porque é que este objeto consegue mover multidões de madrugada e uma petição por direitos humanos não consegue mover ninguém? Porque é que se faz fila por uma caneca e não se faz fila por uma causa?
A resposta honesta não é que as pessoas são más. Eu acho mesmo que não é. A resposta é que o consumo dá uma coisa que a solidariedade não dá. O consumo dá pertença imediata, visível e sem custo moral. Compro, ponho ao pescoço, e no minuto seguinte pertenço a um grupo, toda a gente vê que pertenço, e não tive de me interrogar sobre nada. A solidariedade dá o contrário disto tudo. Exige esforço prolongado, quase nunca se vê, não dá estatuto nenhum e ainda por cima obriga a olhar para coisas desagradáveis. Adotar um cão dá trabalho durante quinze anos e ninguém bate palmas. Ajudar um sem-abrigo não se pendura na mala. Lutar por direitos é lento, ingrato e às vezes perde-se. Entre os dois caminhos, alguém otimizou um até ele ficar irresistível e deixou o outro cheio de buracos. Depois admiramo-nos de que as pessoas escolham o caminho asfaltado.
E aqui chego ao que mais me custa, porque liga isto a uma coisa de que já escrevi e que não me sai da cabeça.
A mesma sociedade que sai de casa de madrugada por um relógio é a sociedade que, em Portugal, em 2026, assistiu calada à revogação de direitos de pessoas que não fizeram mal a ninguém. Não estou a dizer que quem comprou o Royal Pop é responsável por isso. Seria estúpido e injusto dizê-lo. Estou a dizer outra coisa, mais funda e mais difícil de digerir. Aprendemos a mover-nos por pertença fabricada e desaprendemos a mover-nos por pertença a uma causa. Treinámos o músculo de pertencer a um clube que se compra e deixámos atrofiar o músculo de pertencer a uma ideia de justiça que não se compra e que só dá trabalho. Não é o mesmo fenómeno, a fila da loja e o silêncio perante a injustiça. Mas há um mecanismo comum por baixo dos dois, e o mecanismo é este: a pertença a um grupo tornou-se um motor mais forte do que a justiça. E quem souber operar esse motor, seja uma marca de relógios, seja um partido que precisa de inimigos, faz de nós o que quiser.
Tenho de dizer também o que torna isto tudo menos limpo do que eu gostaria, porque não quero escrever uma caricatura. Há contradições inconvenientes para a minha própria tese, e a honestidade obriga a pô-las aqui. A Audemars Piguet anunciou que doa 100% da parte que lhe cabe nestas vendas à preservação do saber-fazer relojoeiro e à formação de uma geração nova de artesãos. Quer dizer que dentro da própria máquina de consumo existe um gesto que aponta ao contrário. E as gerações que fazem fila pelo Labubu são, em dados que se podem verificar, das mais ativas de sempre em voluntariado, em causas, em ativismo. Não devo verificar isto de cor, mas o padrão está documentado e desmente a ideia preguiçosa de uma juventude apenas fútil. Digo isto de propósito, porque se a minha crítica só funcionasse caricaturando as pessoas, então não valeria nada. Vale precisamente por funcionar mesmo depois de eu reconhecer isto.
Então o que é que fica, depois de tirar o desprezo fácil e a caricatura?
Fica isto. O problema nunca foi querermos pertencer. Querer pertencer é das coisas mais humanas que há, talvez a mais humana de todas, e não há nada de errado em querer pertencer. O problema é a quem decidimos que vale a pena pertencer. E, sobretudo, o problema é que, na maior parte das vezes, não fomos nós que decidimos. Decidiram por nós, numa sala de reuniões ou num comício, e venderam-nos a decisão já tomada, com a emoção embrulhada, ao preço que o mercado aguentasse. Uma caneca de plástico chega para nos pôr na rua. Uma pessoa a perder direitos, ali ao lado, muitas vezes não chega. Não porque sejamos maus. Porque alguém trabalhou muito para que fosse assim, e nós deixámos.
E talvez o gesto mais radical que ainda nos resta, num tempo assim, seja o mais aborrecido de todos: escolher por nós a que é que vale a pena pertencer, mesmo quando não dá estatuto, mesmo quando ninguém vê, mesmo quando só dá trabalho. Sobretudo quando só dá trabalho.
Ana Inês Patrício
A influência dos livros e dos jornais
Os jornais e os livros exercem no nascimento e na propagação das opiniões uma influência imensa, conquanto inferior à dos discursos. Os livros atuam muito menos que os jornais, pois a multidão não os lê. Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influência sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais são as obras de Rousseau, verdadeira bíblia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tomás, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secessão na América do Norte. Outras obras como Robinson Crusoé e os romances de Júlio Verne exerceram grande influência nas opiniões da juventude e determinaram muitas carreiras.
Essa força dos livros era, sobretudo, considerável quando se lia pouco. A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.
Hoje, a influência dos jornais é muito superior à força dos livros. São em número incalculável as pessoas que têm unicamente a opinião do jornal que elas leem.
Gustave Le Bon
Essa força dos livros era, sobretudo, considerável quando se lia pouco. A leitura da Bíblia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um número avultado de fanáticos. Sabe-se que na época em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ação tão perniciosa em todos os cérebros que os soberanos espanhóis vedaram, finalmente, a venda desses livros.
Hoje, a influência dos jornais é muito superior à força dos livros. São em número incalculável as pessoas que têm unicamente a opinião do jornal que elas leem.
Gustave Le Bon
Isso não é normal: a República que esconde suas relações com o dinheiro
Não, não é normal, e lembra-me a história — ou lenda — sobre o escafandrista que, nos anos 1970, entrou no Antonio’s, bar mítico do Leblon, na esquina das ruas Bartolomeu Mitre e Ataulfo de Paiva. Vestido com seu pesado equipamento de mergulho, sentou-se a uma mesa, tirou o capacete e pediu uma cerveja. Depois de certo tempo, irritado com a aparente indiferença dos frequentadores do lugar, o jornalista João Saldanha subiu numa mesa, bateu palmas e reclamou em voz alta: “Pessoal, tem um homem aqui, um escafandrista, com capacete e tudo, tomando cerveja, e isso não é normal, não pode ser normal.” Ninguém deu bola para a fala irritada de Saldanha.
Não, não é normal, não pode ser normal ouvir em silêncio o que disse, ontem, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ao presidir mais uma sessão do Congresso. Ele anunciou que rejeitava mais um requerimento para a instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o escândalo do Banco Master. E por quê? Porque o regimento interno do Congresso lhe dava poderes para tal, só por isso. Sim, mas por qual razão ele o fez? Ninguém perguntou. Se perguntaram, ele não respondeu. Todos sabiam, mas se negam a admitir, que Alcolumbre poderia se tornar um dos alvos da CPMI. Todos sabem que ele procurou Lula para revelar seu temor.
Diga-se em favor de Alcolumbre — e em desfavor dele e de boa parte dos seus pares — que a CPMI foi enterrada para impedir que seja investigada a relação de muitas autoridades da República com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. Minutos antes de Alcolumbre anunciar sua decisão, o senador Flávio Bolsonaro discursou, desafiando a bancada do governo a assinar o requerimento da CPMI. Ouviram-se resmungos, apenas isso. Flávio disse que assinara todos os requerimentos que lhe apresentaram. Mentiu, para variar. Foram cinco no total, e ele recusou-se a assinar três. Não é normal mentir por tão pouco, mas Flávio mentiu. Hábito. Vício.
Flávio está em modo desespero desde a descoberta de que tomou dinheiro de Vorcaro para financiar o filme de exaltação a seu pai. Trocou de marqueteiro — ex-servidor de Vorcaro — a pretexto de que ele não o estava orientando muito bem. Entregou uma cabeça para preservar a sua. Livrou-se da suspeita de que o marqueteiro poderia estar sendo pago por Vorcaro. No próximo domingo, como alardeiam seus assessores, Flávio deverá embarcar para os Estados Unidos para se encontrar com o irmão Eduardo e com o presidente Donald Trump. Tudo por uma foto com Trump para sentir-se fortalecido. Tudo para não estar aqui quando forem publicadas as próximas pesquisas de intenção de voto. A sina de Flávio é triste. Mesmo que definhe, ele está condenado a ir até o fim como candidato. Ordem do pai.
Não, não é normal, não pode ser normal ouvir em silêncio o que disse, ontem, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ao presidir mais uma sessão do Congresso. Ele anunciou que rejeitava mais um requerimento para a instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o escândalo do Banco Master. E por quê? Porque o regimento interno do Congresso lhe dava poderes para tal, só por isso. Sim, mas por qual razão ele o fez? Ninguém perguntou. Se perguntaram, ele não respondeu. Todos sabiam, mas se negam a admitir, que Alcolumbre poderia se tornar um dos alvos da CPMI. Todos sabem que ele procurou Lula para revelar seu temor.
Diga-se em favor de Alcolumbre — e em desfavor dele e de boa parte dos seus pares — que a CPMI foi enterrada para impedir que seja investigada a relação de muitas autoridades da República com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. Minutos antes de Alcolumbre anunciar sua decisão, o senador Flávio Bolsonaro discursou, desafiando a bancada do governo a assinar o requerimento da CPMI. Ouviram-se resmungos, apenas isso. Flávio disse que assinara todos os requerimentos que lhe apresentaram. Mentiu, para variar. Foram cinco no total, e ele recusou-se a assinar três. Não é normal mentir por tão pouco, mas Flávio mentiu. Hábito. Vício.
Flávio está em modo desespero desde a descoberta de que tomou dinheiro de Vorcaro para financiar o filme de exaltação a seu pai. Trocou de marqueteiro — ex-servidor de Vorcaro — a pretexto de que ele não o estava orientando muito bem. Entregou uma cabeça para preservar a sua. Livrou-se da suspeita de que o marqueteiro poderia estar sendo pago por Vorcaro. No próximo domingo, como alardeiam seus assessores, Flávio deverá embarcar para os Estados Unidos para se encontrar com o irmão Eduardo e com o presidente Donald Trump. Tudo por uma foto com Trump para sentir-se fortalecido. Tudo para não estar aqui quando forem publicadas as próximas pesquisas de intenção de voto. A sina de Flávio é triste. Mesmo que definhe, ele está condenado a ir até o fim como candidato. Ordem do pai.
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