segunda-feira, 9 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


Pouca imagnação

Um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação.
Albert Camus

O absurdo poder absoluto

Em meados de janeiro, em plena crise da Gronelândia, Donald Trump enviou uma carta ao primeiro-ministro da Noruega. Como lhe é habitual, o documento seguiu repleto de autoelogios, muitas inverdades e as usuais ameaças. Entre outras coisas, o Presidente dos EUA queixava-se do governo norueguês por este não lhe ter atribuído o Prémio Nobel da Paz – que, por acaso, é decidido pelo Comité Nobel e não pelo executivo de Oslo, o qual também não tem jurisdição na Gronelândia, que é um território autónomo da Dinamarca…

Ao sentir-se desrespeitado, Trump assinalou, nessa carta, uma conclusão que, conforme sublinhou, fez questão de tornar pública e que, agora, à luz dos últimos acontecimentos, merece ser lida com nova atenção: “Considerando que o seu país decidiu não me conceder o Prémio Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras, já não me sinto obrigado a pensar apenas na paz, embora ela seja sempre predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América.”

Se ficámos a saber, desde a “perda” do Nobel, que Trump deixou de pensar na paz, agora subsistem muitas dúvidas sobre se ele pensa sequer acerca das guerras que inicia. Em especial, quando decidiu avançar para aquele que pode tornar-se o conflito mais violento dos últimos anos, no momento em que tinha representantes em negociações diplomáticas com o Irão, através de um ataque-surpresa, sem cumprir as leis dos EUA e, mais uma vez, a obliterar tudo aquilo em que assentou o direito internacional instituído nas últimas décadas. Mas não só: seguindo o mesmo guião já utilizado na subida das tarifas, Trump avançou com o maior envolvimento de meios militares da História recente sem procurar nenhum tipo de concertação com os países aliados, ao arrepio das normas democráticas e sem a mínima avaliação das consequências económicas que um conflito à escala regional no Médio Oriente implica. Apenas e só, a região do mundo mais decisiva para o atual sistema energético, um poderoso centro de capital financeiro com ramificações em vários pontos do planeta e, ainda por cima, um espaço crítico para o comércio marítimo mundial.


A ação militar desencadeada na manhã de 28 de fevereiro teve um único e claro motivo: decapitar a liderança da República Islâmica e, em seguida, provocar uma mudança de regime – tarefa que, no entanto, terá de caber ao já martirizado povo iraniano. E algo neste ponto também parece evidente: mais do que do interesse dos EUA, essa ação é, há muito, um dos objetivos principais de Israel – o único aliado que Trump parece respeitar e com quem deseja colaborar ativamente.

Ainda é cedo para se fazer qualquer previsão sobre a duração e a dimensão desta guerra. Mas existem cada vez mais razões para desconfiar de que Donald Trump entrou nela com a mesma sobranceria com que Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia: convencido de que tudo se resolveria rapidamente e, por isso, sem avaliar convenientemente todas as consequências. Embora o líder espiritual Ali Khamenei possa ter sido eliminado à mesma velocidade de Nicolás Maduro, o Irão não é a Venezuela. E o barril de pólvora do Médio Oriente tem, ao contrário daquilo que sucede na América do Sul, o poder de incendiar o mundo, fazer renascer uma série de conflitos adormecidos, atiçar os vários poderes regionais que ali se cruzam e lançar ondas de choque que atingem todas as economias do planeta – com reflexos no custo de vida e nas carteiras de milhares de milhões de pessoas.

É exatamente para evitar decisões individuais deste tipo, como a de iniciar uma guerra sem uma declaração nem uma aprovação prévia do Parlamento, que as democracias criaram mecanismos de controlo dos seus governantes. A erosão do sistema democrático americano, que Donald Trump tem laboriosamente aplicado com os seus apoiantes MAGA, tem esta consequência: um Presidente que se acha dono e senhor de um poder absoluto, capaz de decidir sem freios nem contrapesos, que procura controlar os tribunais, os serviços públicos e até os fluxos de informação, como se tivesse um mandato divino e, por isso mesmo, inquestionável.

No meio de todo esse absurdo de absolutismo no exercício do poder, Trump acaba por revelar a ausência da sua estratégia e, pior ainda, de qualquer plano. Os sinais que deu nos primeiros dias foram claros: tão depressa disse que os ataques iriam demorar dias como semanas; afirmou que tinha substitutos pensados para o lugar de Khamenei, mas acabou por reconhecer que todos eles foram mortos também nos primeiros ataques; adiantou que estava disponível para conversar com o novo poder iraniano, mas logo a seguir ameaçou com bombardeamentos ainda mais fortes e “nunca vistos”. O único plano de Donald Trump é o de demonstrar, perante todas as nações, que é o comandante do Exército mais poderoso do planeta, que possui um poder absoluto absurdo e sem igual. E isso só diz uma coisa: que ele não é de confiança.

'Não à guerra' e algo mais

Nenhuma guerra jamais resolveu nada em lugar nenhum; no máximo, reorganizou o cenário geopolítico, redefiniu as relações de poder e estabeleceu novas fronteiras — as cicatrizes da história. O que não é pouca coisa, mas depois das atrocidades do século XX, da escalada nuclear e da destruição absoluta que poderia dizimar toda a humanidade, parecia que tínhamos chegado a um consenso unânime de que existem outras maneiras de resolver conflitos.


Um consenso, porém, desmentido pela existência de violência em muitos países durante esse período que chamamos de paz. Paz de quem? Quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, repetiu-se à exaustão que era a primeira guerra em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, como se a Bósnia pertencesse a outro continente .

Os conflitos que ocorrem em outros países também não conseguem destruir essa ilusão tão prevalente no imaginário ocidental. O slogan “não à guerra”, nesse sentido, parece uma proclamação maleável brandida de acordo com os interesses do momento. Muitos pacifistas não são pacifistas em todos os aspectos. E a atenção da mídia também parece ser condicionada por interesses variáveis, e não pela gravidade dos conflitos.


Play Video

Eu também digo “não à guerra”, mas não apenas à guerra armada e imperialista, e sim às invasões estrangeiras que ocupam países soberanos, camuflando interesses econômicos sob supostos princípios democráticos (rio enquanto escrevo isso, pensando em Donald Trump). Digo também “não à guerra” travada contra os cidadãos de ditaduras tão atrozes quanto a do Irã. Ouvimos isso das vítimas que levantam suas vozes, pagando um preço terrível: prisão, tortura, pena de morte . O que o Ocidente fez nas últimas décadas para contribuir para essa paz, que é a liberdade e o respeito aos direitos humanos? Para minha vergonha como cidadão europeu, creio que muito pouco. Sanções para armas nucleares, mas nenhuma teocracia misógina é sancionada por maltratar mulheres. Basta ver as boas relações que a Espanha mantém com Marrocos (onde o adultério ainda é crime, onde as filhas herdam metade do que os filhos herdam e o casamento infantil ainda existe) ou com a Arábia Saudita (onde dançar em um vídeo do TikTok pode levar à prisão).

São sempre os homens, de terno escuro e amordaçados pela formalidade da diplomacia, que falam de uma paz que ignora a paz das mulheres. Nunca falam daquela guerra. É a guerra normal, aquela que sempre existiu.

Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social

Manchete de uma chamada num desses canais eletrônicos, em dias passados, dizia que um brasileiro fizera um discurso em inglês, em Nova York, e fora aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e não pelo conteúdo do discurso.

Tive minha estreia na língua inglesa do modo mais estranho e humilhante. Foi pelo fim da década de 1940, quando minha família morava na roça, em Guaianases. Eventualmente vínhamos a São Paulo de trem. Na entrada da estação do Norte, no Brás, havia uma banca de jornal que exibia uma revista americana, com belas fotografias em preto e branco.

Perguntei ao jornaleiro quanto custava a revista Life. “É Laife”, respondeu agressivamente. “Mas está escrito Life”, justifiquei-me. “Em inglês se escreve de um jeito e se fala de outro, seu tonto.”

Quase no fim de minha adolescência, o meu melhor amigo era um baiano de Campo Formoso. De uma das muitas famílias de migrantes atraídos pelo começo do “boom” da indústria automobilística na região do ABC. Muitíssima gente vinda do Nordeste e todas definidas como baianas.

Meu amigo fazia questão de diferençar os verdadeiros baianos, como ele, dos outros “baianos” que não o eram. Gostava de lembrar aos que o rodeavam nas conversas que Rui Barbosa era baiano, culto e inteligente, mais que a imensa maioria dos brasileiros. Tão inteligente que até fora à Inglaterra ensinar inglês aos ingleses.

E tinha mais: em 1907, fora enviado à Segunda Conferência de Paz, em Haia, como representante do Brasil. Opusera-se com veemência à exclusão dos países menos influentes por parte das grandes potências. Ficou conhecido como o Águia de Haia.

Aberta a sessão em que Rui deveria falar, deu-lhe o presidente a palavra. Ele perguntou: “Em que língua quereis que vos fale?”. “Fala na tua língua”, respondeu-lhe o presidente. Ele, então, fez um veemente discurso, em língua nheengatu, derivada do tupi antigo, sobre direito internacional. Falava inglês, mas era patriota. Tinha baixa estatura, mas o Romualdo esclarecia: “É nos pequenos frascos que estão as grandes essências”.

Aí por 1955, realizou-se em São Paulo o 7º Congresso Mundial de Evangelismo. Alguns amigos e eu resolvemos acompanhar os cultos em diferentes igrejas. Imaginávamos que aquilo seria o inesperado. Ouviríamos inglês ao vivo, falado por gente de carne e osso, as bocas se abrindo na nossa frente. Comentava-se que os americanos fariam milagres, coisa que jamais havíamos visto.

Acabamos descobrindo que o “mundial” do Congresso era principalmente texano. E todos os pregadores eram pentecostais. Além disso, foi uma descoberta, muitos deles falavam as bíblicas “línguas estranhas”, um dom do Espírito Santo. Não era para qualquer um. Para que os brasileiros entendessem as pregações, havia intérpretes que faziam a tradução do inglês para o português. Multidões compareceram aos diferentes templos em que tudo aquilo acontecia. Em alguns bairros, grandes tendas foram montadas, as tendas da cura divina.

Hoje sei que São Paulo chegara à pós-modernidade antes de chegar ao mundo moderno. Dava para entender o moto paulista muito difundido: “São Paulo não pode parar”. Pressa de chegar ao depois sem chegar ao antes.

Um senhor ao meu lado, numa dessas pregações, comentou com a mulher, depois que um dos americanos recebera o Espírito Santo e falara em língua estranha: “Agora, eu sei porque não sabemos o que Deus quer de nós: Deus fala inglês”.

Após um mês de americanos espalhando inglês pela cidade e pelo subúrbio, os texanos foram embora. Algum tempo depois, começaram a surgir nas igrejas evangélicas pregadores brasileiros que falavam português de periferia com acentuado sotaque, pretensamente americano. Outros, aos pares, dividiam o trabalho. Um fazia a voz do Espírito Santo, em língua estranha, e o outro, com sotaque inglês, “traduzia”.

Foi ficando claro para muitíssimos que Deus falava uma língua que podia ser traduzida. Diferentemente do Deus católico, que falava latim e não tinha tradução que só o padre sabia. Uma bobagem dessas talvez explique a expansão das igrejas e seitas evangélicas entre nós.

O brasileiro que falou inglês em Nova York e foi aplaudido de pé é um que está refugiado nos EUA, sujeito a prisão se voltar ao Brasil. É um desses casos notáveis de ascensão social. Anos atrás emigrara para a América e fora trabalhar como chapeiro de hambúrguer numa lanchonete. Ouvi uma de suas falas daquela época. Seu inglês era muito pobre. A notícia de agora tem suas conexões explicativas. No caso de que seu irmão seja eleito presente da República, ele irá para o Itamaraty. Será o Barão do Rio Branco da pós-modernidade. Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social.

José de Souza Martins

Mochilas cor-de-rosa cobertas de sangue: quando a infância vira alvo

No décimo dia do Ramadã, o mês mais sagrado do calendário islâmico, as redes sociais foram inundadas por imagens que jamais deveriam se tornar banais: pequenas mochilas cor-de-rosa cobertas de sangue, cadernos espalhados pelo chão, salas de aula transformadas em ruínas. Vi um pai, diante da câmera, segurando o braço decepado de sua filha e chorando como quem tenta acordar de um pesadelo interminável.


O ataque à escola em Minab não é apenas mais um capítulo da escalada militar que envolve Israel, Estados Unidos e Irã. É um marco moral. Porque há princípios que deveriam permanecer inegociáveis, mesmo em tempos de guerra: não se atacam crianças. Não se bombardeiam escolas. Hospitais não são alvos. Combatentes feridos têm direito a tratamento médico. Jornalistas devem poder circular com segurança para cumprir seu trabalho.

Quando essas regras deixam de ser respeitadas, não estamos apenas diante de um conflito armado. Estamos diante da erosão deliberada da própria ideia de humanidade.

Desde Faixa de Gaza, a instrumentalização da infância tornou-se ainda mais visível e brutal. Dados de organismos internacionais indicam que milhares de crianças foram mortas ou feridas em sucessivas ofensivas militares nos últimos anos. Escolas administradas pela UNRWA foram atingidas. Hospitais pediátricos ficaram sem energia, incubadoras deixaram de funcionar, bebês prematuros morreram por falta de combustível e insumos básicos.

Além das mortes diretas, a infância em Gaza passou a ser moldada pelo cerco prolongado: desnutrição, interrupção escolar massiva, deslocamentos forçados, trauma contínuo. Relatórios da UNICEF e da Organização Mundial da Saúde apontam para uma geração inteira exposta a níveis extremos de traumas. Crianças que aprendem a identificar o som de drones antes mesmo de aprenderem a ler. Que desenham tanques em vez de árvores.

A infância, nesse contexto, deixa de ser apenas vítima, torna-se também instrumento narrativo. Imagens de crianças mortas circulam como prova, como denúncia, como propaganda. Seus corpos passam a sustentar discursos geopolíticos antagônicos. Enquanto isso, suas subjetividades reais – seus medos, seus desejos, suas histórias – desaparecem sob a avalanche de interpretações estratégicas.

Enquanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu – alvo de mandado do Tribunal Penal Internacional – é recebido na Alemanha, que se recusa a cumprir a ordem de prisão, o mundo assiste a uma encenação desconcertante de normalidade. Vídeos mostram cidadãos fazendo ioga em bunkers, enquanto, do outro lado, pais recolhem os restos de seus filhos. A assimetria não é apenas militar; é simbólica. Uns têm abrigos e respaldo diplomático. Outros têm escombros e luto.

Há quem tente justificar tudo em nome da “segurança”, da “autodefesa”, da “luta contra o terrorismo”. Mas nenhuma narrativa estratégica resiste à imagem de uma mochila infantil ensanguentada. Nenhuma justificativa geopolítica apaga o fato essencial de que meninas entre sete e doze anos foram mortas dentro de uma escola. 

Crianças sempre estiveram entre as principais vítimas dos projetos imperiais. Nas invasões coloniais, nas guerras por recursos, nas intervenções travestidas de defesa da democracia, são elas que pagam o preço das ambições de poder. O imperialismo contemporâneo pode ter sofisticado sua linguagem, mas o resultado concreto permanece: corpos pequenos sob os escombros.

Destruir uma escola não é apenas derrubar um prédio. É interromper futuros. É ferir a possibilidade de reconstrução de um país. É produzir traumas que atravessam gerações. Como psicóloga que escuta histórias de migração e guerra, sei que a violência contra crianças não termina com a explosão. Ela se instala na memória, nos sonhos interrompidos, nos silêncios das famílias. Torna-se herança psíquica.

Dizer que “a guerra é assim mesmo” é aceitar que a infância seja tratada como dano colateral. É admitir que o direito internacional humanitário vale apenas quando convém às potências. É permitir que a chamada “ordem baseada em regras” funcione como retórica vazia, acionada seletivamente.

Não se trata de escolher um lado nacional. Trata-se de escolher um lado ético. O lado que afirma que crianças não são moeda de troca. Que escolas não são alvos legítimos. Que nenhuma disputa estratégica justifica a mutilação de uma menina.

Se aceitarmos que isso se torne normal, o que restará da nossa capacidade de indignação? O que dirá a história sobre nós – que vimos mochilas cor-de-rosa cobertas de sangue e seguimos rolando a tela?

O preço dessa guerra, como de tantas outras, continuará sendo pago pelos mais vulneráveis. Sempre foi assim. A pergunta que permanece é se continuaremos permitindo que seja.