sexta-feira, 15 de maio de 2026
Próximo de bandidos demais
Um dos efeitos imediatos da Revolução dos Cravos, que, em 1974, derrubou a ditadura que sepultava Portugal há 48 anos, foi a extinção da Pide (Polícia Internacional de Defesa do Estado), sua odiosa polícia política infiltrada em todo o país. Eu trabalhava em Lisboa na época e, como jornalista estrangeiro, devia estar na mira dos pides, como eram chamados os agentes. Caído o regime, logo começou a caça a eles e a seus informantes.
O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça ter de adotar uma prática severa: "Se denuncias um pide, ganhas 100 escudos. Se denuncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denuncias três pides, vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem, sim, por aqueles com quem têm proximidade.
O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e já prevendo ser associado a bandidos de todo tipo em sua carreira política, declarou "não poder responder por quem tem proximidade com ele". Se os ditos bandidos fossem apenas Fabrício Queiroz, seu ex-chefe de gabinete e do esquema de arrecadação de "rachadinhas", e o executado Adriano Magalhães da Nóbrega, da milícia Escritório do Crime e a quem condecorou na prisão, ele poderia tirar o corpo fora alegando ter sido "traído". Mas os citados eram apenas os cabeças de núcleos envolvendo dezenas de acusados, todos a seu serviço ou a de seu pai, patrono do complô.
Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
P.S.: Esta coluna já estava escrita quando estourou a bomba do áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao acusado máster do país, Daniel Vorcaro —comovente pelo tom de voz em que quase lhe implora pela grana.
O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça ter de adotar uma prática severa: "Se denuncias um pide, ganhas 100 escudos. Se denuncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denuncias três pides, vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem, sim, por aqueles com quem têm proximidade.
O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e já prevendo ser associado a bandidos de todo tipo em sua carreira política, declarou "não poder responder por quem tem proximidade com ele". Se os ditos bandidos fossem apenas Fabrício Queiroz, seu ex-chefe de gabinete e do esquema de arrecadação de "rachadinhas", e o executado Adriano Magalhães da Nóbrega, da milícia Escritório do Crime e a quem condecorou na prisão, ele poderia tirar o corpo fora alegando ter sido "traído". Mas os citados eram apenas os cabeças de núcleos envolvendo dezenas de acusados, todos a seu serviço ou a de seu pai, patrono do complô.
Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
P.S.: Esta coluna já estava escrita quando estourou a bomba do áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao acusado máster do país, Daniel Vorcaro —comovente pelo tom de voz em que quase lhe implora pela grana.
A vida é feita de opções, mas só para quem pode
Os capacetes nas cabeças, os fatos de proteção volumosos e um pouco hirtos, as grandes mochilas às costas. Parecem astronautas movendo-se lentamente sobre a superfície lunar, permanentemente consultando as rotas de GPS nos telemóveis que trazem nas mãos. É quase hora do almoço, para quem come cedo. Talvez a hora do brunch para quem se levantou tarde neste domingo. Por isso são tantos a chegar à praceta de canteiros bem arranjados, rodeada de apartamentos que se vendem facilmente por dez mil euros o metro quadrado. São seguramente estrangeiros e têm a pele escura estes homens que cirandam por ali à procura dos números de porta certos para as entregas. Pelas entradas dos prédios vejo passar outras pessoas, seguramente estrangeiras e de pele muito clara. Uns e outros são humanos de planetas diferentes. Separam-nos muitas milhas de desigualdade e provavelmente de incompreensão mútua.
Passo muitas vezes pelos entregadores de comida à porta de um centro comercial ou de um restaurante. Vejo-os quase sempre sentados no chão, numa espera de prontidão. Vagueiam, com olhos vazios de cansaço, pelos ecrãs dos telefones e quase parecem adormecidos nesse entorpecimento de expectativa. Mas é evidente neles uma espécie de mola à espera de ser ativada por mais uma notificação, mais uma viagem, feita às vezes em bicicletas que carregam esforçados pelas colinas de Lisboa acima, outras em motos, com as quais desafiam a morte e as probabilidades, para chegar mais depressa ao destino e seguir outra vez para ganhar mais uns euros antes que o dia se acabe.
Os profetas do empreendedorismo deviam considerá-los deuses. São modernamente flexíveis. Não conhecem a cara do patrão e, ainda que sejam escravos de um algoritmo, são para todos os efeitos “empresários por conta própria”. Não estão fechados num escritório nem numa rotina. E, com esta descrição, creio que já citei todas as maravilhas que os arautos da precariedade consideram ser tão apelativas para os jovens. Curiosamente, nas minhas deambulações pela cidade, raramente encontro jovens portugueses brancos de mochilas de Uber e Glovo às costas. Não se percebe.
Também não encontro assim muitos jovens portugueses brancos ao volante dos TVDE em que circulo. Encontro, sim, muitos portugueses (e portuguesas) e imigrantes menos jovens, que me contam como precisam do biscate para compor as contas do salário ou da reforma que não chegam ou como, num golpe da vida, aquela se tornou a única opção. Há os que gostam de andar por aí a conduzir e de falar com os clientes dispostos a trocar dois dedos de conversa, mas também há muito cansaço, muitas horas duras e a sensação de que se precisa de esticar as horas do dia para que os euros cheguem até ao fim do mês.
Há quem ache que a vida é feita de opções. Esses são os privilegiados. Os que podem ter escolhas de carreira, porque tiveram dinheiro para pagar os estudos e bons contactos para começar a trabalhar nos sítios certos. Os que já têm a casa paga ou perto disso, porque a receberam de herança ou com a ajuda dos pais, e nem se apercebem como tal se reverte em horas de tempo livre e, lá está, opções. Os que sabem que podem arriscar e pensar “fora da caixa” ou “fazer acontecer” porque têm uma rede familiar e contas bancárias que o permitem e que garantem que terão forma de arranjar quem lhes cuide dos filhos, que poderão tratar da saúde e manter o aspeto certo para que o sucesso lhes bata à porta. Pois são exatamente esses que mais acreditam no seu próprio mérito. São esses os que acham que tudo na vida se consegue com esforço. (Pausa para lançar uma sonora gargalhada).
Tenho-me apercebido, à medida que vou envelhecendo, de que no meu círculo de amigos e conhecidos as grandes diferenças sociais residem quase sempre na capacidade financeira dos pais… Não tanto no esforço, no mérito ou no talento. Mas naquela herança ou ajuda que os pais foram capazes de deixar e que, muitas vezes, já vinha de alguma forma dos avós (embora nem sempre, porque na geração dos meus pais houve efetivamente quem subisse na escada social só com o salário, quase sempre através da possibilidade de comprar casas). Há uma espécie de cadeia cármica, ou talvez seja de casta, que se passa de uma geração para a outra e que faz com que uns comecem a corrida muito à frente dos outros e ainda assim achem que estão à frente porque o merecem. Os que ficam para trás, claro, são uns falhados, que fizeram más opções na vida.
Esta mentira sobre o mérito tem um objetivo: apresentar como obsoletas e inúteis as políticas públicas que aumentam a igualdade. E os números mostram que a estratégia está a dar frutos. Uma análise publicada pela Comissão Europeia revela que os 10% mais ricos em Portugal controlam 60,2% da riqueza. Isto representa um aumento de três pontos na desigualdade desde 1995. Quem espalha esta ideologia da meritocracia tira daí bons proveitos.
Para os que apresentam dúvidas de fé, há a liturgia da literacia financeira, que há de nos ensinar os truques para ficar rico com o investimento certo em criptomoedas que não se tem como pagar ou poupando aquilo que não sobra (certamente por incompetência do próprio) do salário ao fim do mês. Há também as missas dos coaches que nos ensinam a visualizar para conseguir ter tudo o que não se consegue comprar e os missais dos livros de autoajuda, tudo, claro, vendido a bom preço. Exigir salários dignos é para meninos, fazer greves é para preguiçosos, reclamar melhores serviços públicos é para quem gosta de andar à mama, rejeitar políticas de opressão e austeridade é para ingénuos, defender impostos mais altos para o capital do que para o trabalho é para perigosos radicais.
Não sei se os vossos pais tiveram dinheiro para vos mandar para a melhor universidade sem terem de vos pôr a trabalhar, se têm um daqueles apelidos sonantes que abrem portas, se desde pequeninos têm um networking digno desse nome, se receberam uma herança que faz com que não precisem de ficar acordados à noite a pensar como é que pagam contas inesperadas, se podem fazer compras sem olhar para o saldo e usufruir de lazer e cultura à vontade e sem créditos. Se responderam a tudo que sim, são só o vosso umbiguismo e a vossa insensibilidade social que vos impedem de perceber a importância de terem uma sociedade mais justa, que será também uma sociedade menos tensa e mais segura. Se não e ainda acreditam que a meritocracia, o empreendedorismo, a literacia financeira e a flexibilidade vão salvar-vos, então não sei o que vos diga.
Passo muitas vezes pelos entregadores de comida à porta de um centro comercial ou de um restaurante. Vejo-os quase sempre sentados no chão, numa espera de prontidão. Vagueiam, com olhos vazios de cansaço, pelos ecrãs dos telefones e quase parecem adormecidos nesse entorpecimento de expectativa. Mas é evidente neles uma espécie de mola à espera de ser ativada por mais uma notificação, mais uma viagem, feita às vezes em bicicletas que carregam esforçados pelas colinas de Lisboa acima, outras em motos, com as quais desafiam a morte e as probabilidades, para chegar mais depressa ao destino e seguir outra vez para ganhar mais uns euros antes que o dia se acabe.
Os profetas do empreendedorismo deviam considerá-los deuses. São modernamente flexíveis. Não conhecem a cara do patrão e, ainda que sejam escravos de um algoritmo, são para todos os efeitos “empresários por conta própria”. Não estão fechados num escritório nem numa rotina. E, com esta descrição, creio que já citei todas as maravilhas que os arautos da precariedade consideram ser tão apelativas para os jovens. Curiosamente, nas minhas deambulações pela cidade, raramente encontro jovens portugueses brancos de mochilas de Uber e Glovo às costas. Não se percebe.
Também não encontro assim muitos jovens portugueses brancos ao volante dos TVDE em que circulo. Encontro, sim, muitos portugueses (e portuguesas) e imigrantes menos jovens, que me contam como precisam do biscate para compor as contas do salário ou da reforma que não chegam ou como, num golpe da vida, aquela se tornou a única opção. Há os que gostam de andar por aí a conduzir e de falar com os clientes dispostos a trocar dois dedos de conversa, mas também há muito cansaço, muitas horas duras e a sensação de que se precisa de esticar as horas do dia para que os euros cheguem até ao fim do mês.
Há quem ache que a vida é feita de opções. Esses são os privilegiados. Os que podem ter escolhas de carreira, porque tiveram dinheiro para pagar os estudos e bons contactos para começar a trabalhar nos sítios certos. Os que já têm a casa paga ou perto disso, porque a receberam de herança ou com a ajuda dos pais, e nem se apercebem como tal se reverte em horas de tempo livre e, lá está, opções. Os que sabem que podem arriscar e pensar “fora da caixa” ou “fazer acontecer” porque têm uma rede familiar e contas bancárias que o permitem e que garantem que terão forma de arranjar quem lhes cuide dos filhos, que poderão tratar da saúde e manter o aspeto certo para que o sucesso lhes bata à porta. Pois são exatamente esses que mais acreditam no seu próprio mérito. São esses os que acham que tudo na vida se consegue com esforço. (Pausa para lançar uma sonora gargalhada).
Tenho-me apercebido, à medida que vou envelhecendo, de que no meu círculo de amigos e conhecidos as grandes diferenças sociais residem quase sempre na capacidade financeira dos pais… Não tanto no esforço, no mérito ou no talento. Mas naquela herança ou ajuda que os pais foram capazes de deixar e que, muitas vezes, já vinha de alguma forma dos avós (embora nem sempre, porque na geração dos meus pais houve efetivamente quem subisse na escada social só com o salário, quase sempre através da possibilidade de comprar casas). Há uma espécie de cadeia cármica, ou talvez seja de casta, que se passa de uma geração para a outra e que faz com que uns comecem a corrida muito à frente dos outros e ainda assim achem que estão à frente porque o merecem. Os que ficam para trás, claro, são uns falhados, que fizeram más opções na vida.
Esta mentira sobre o mérito tem um objetivo: apresentar como obsoletas e inúteis as políticas públicas que aumentam a igualdade. E os números mostram que a estratégia está a dar frutos. Uma análise publicada pela Comissão Europeia revela que os 10% mais ricos em Portugal controlam 60,2% da riqueza. Isto representa um aumento de três pontos na desigualdade desde 1995. Quem espalha esta ideologia da meritocracia tira daí bons proveitos.
Para os que apresentam dúvidas de fé, há a liturgia da literacia financeira, que há de nos ensinar os truques para ficar rico com o investimento certo em criptomoedas que não se tem como pagar ou poupando aquilo que não sobra (certamente por incompetência do próprio) do salário ao fim do mês. Há também as missas dos coaches que nos ensinam a visualizar para conseguir ter tudo o que não se consegue comprar e os missais dos livros de autoajuda, tudo, claro, vendido a bom preço. Exigir salários dignos é para meninos, fazer greves é para preguiçosos, reclamar melhores serviços públicos é para quem gosta de andar à mama, rejeitar políticas de opressão e austeridade é para ingénuos, defender impostos mais altos para o capital do que para o trabalho é para perigosos radicais.
Não sei se os vossos pais tiveram dinheiro para vos mandar para a melhor universidade sem terem de vos pôr a trabalhar, se têm um daqueles apelidos sonantes que abrem portas, se desde pequeninos têm um networking digno desse nome, se receberam uma herança que faz com que não precisem de ficar acordados à noite a pensar como é que pagam contas inesperadas, se podem fazer compras sem olhar para o saldo e usufruir de lazer e cultura à vontade e sem créditos. Se responderam a tudo que sim, são só o vosso umbiguismo e a vossa insensibilidade social que vos impedem de perceber a importância de terem uma sociedade mais justa, que será também uma sociedade menos tensa e mais segura. Se não e ainda acreditam que a meritocracia, o empreendedorismo, a literacia financeira e a flexibilidade vão salvar-vos, então não sei o que vos diga.
Cristofascismo
Como se sabe, boa parte da igreja alemã deixou-se instrumentalizar e deu o seu apoio a Adolf Hitler e ao regime nazi, durante o chamado Terceiro Reich. Tal atitude infeliz não apenas contribuiu para alimentar o monstro e produzir morte e destruição na Alemanha dos anos 30 e em toda a Europa, como veio a ser fator decisivo para o descrédito e a perda de influência que a fé cristã veio a sofrer em todo continente no pós-guerra.
O estudo dessa opção levou a teóloga e poetisa protestante alemã Dorothee Sölle (1929-2003) a criar o termo técnico “Cristofascismo” a fim de denunciar tal postura que, no seu entender, transforma a fé numa ferramenta de dominação, abandonando a mensagem de libertação em favor de um sistema totalitário e imperialista.
Outros investigadores desenvolveram posteriormente estudos sociológicos e teológicos sobre o fenómeno. É o caso do teólogo Fábio Py, docente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF que lançou em 2020 a obra “Pandemia cristofascista” (Editora Recriar), e que adaptou o conceito ao contexto brasileiro.
Py caracterizou como tal a aliança que diversos setores da igreja do país irmão estabeleceram com os bolsonaristas, com vista à implantação de um governo autoritário e de características neofascistas e ultraliberais.
Segundo o autor, as marcas principais do cristofascismo brasileiro assentam na utilização de um discurso e simbologia cristã, de modo a validar políticas que implicam a exclusão de setores sociais e mesmo a violência política sobre os adversários. A fé é assim instrumentalizada para fins políticos que se opõem à essência da mesma.
Seguindo as pisadas de Hitler, o bolsonarismo lançou mão de jargões cristãos no seu discurso e de frases bíblicas como “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Da mesma forma estas lideranças políticas recorreram à presença em grandes eventos cristãos, como palco privilegiado para fazerem campanha eleitoral. Chegam a submeter-se ao batismo e a anunciarem pretensas conversões à fé com o mesmo intuito.
O foco nas bandeiras morais decorrentes dum conservadorismo rígido, e na proclamação da família idealizada é também usado para marginalizar minorias, em especial movimentos feministas e tudo quanto sejam comportamentos e opções sexuais não heterossexuais dos cidadãos. Pontifica a oposição à pluralidade democrática com base numa teologia política autoritária.
O que conta é um ideário maniqueísta simbolizado no pretenso embate entre o bem e o mal. O mal está nos comunistas, liberais, humanistas e petistas, ficando do outro lado os “cidadãos de bem”, seja lá o que isso for.
Outro elemento fundamental do cristofascismo será a permanente classificação dos opositores políticos ou intelectuais como inimigos da fé e agentes do mal, em especial se forem gente de esquerda. Esta demonização do outro é necessária ao discurso extremista e populista que necessita de manter a dinâmica de confronto “nós, os bons, contra os outros, os maus”.
Também a velha palavra de ordem “Deus, Pátria, Família” ou aparentada, é usada na ligação entre grandes estruturas religiosas e governos de extrema-direita. No Brasil, a coligação de líderes evangélicos e católicos conservadores com o governo Bolsonaro levou a que a religião tenha servido de suporte para o discurso da intolerância e apoio a práticas autoritárias.
Afirma o autor sobre a apresentação do populista religioso, a propósito da mortandade promovida, ou pelo menos permitida, durante a pandemia de Covid-19: “A artimanha construída pela cúpula o desenha numa cristologia profana, apontando-o como messias, servo sofredor, ungido e eleito da nação. Faz isso para reagrupar as forças a fim de manter, a duras chicotadas, a implementação de medidas ultraliberais que hoje entregam à morte os mais vulneráveis.”
Na mesma entrevista, Fábio Py remete o fenómeno do populismo religioso no país para duas causas históricas: por um lado a herança da ditadura militar, que ainda não terá sido apagada com o regresso do regime democrático e, por outro lado, a responsabilidade do PT e do PSOL na promoção de políticas fraturantes que assustaram os evangélicos e os levaram para o colo da extrema-direita.
O estudo dessa opção levou a teóloga e poetisa protestante alemã Dorothee Sölle (1929-2003) a criar o termo técnico “Cristofascismo” a fim de denunciar tal postura que, no seu entender, transforma a fé numa ferramenta de dominação, abandonando a mensagem de libertação em favor de um sistema totalitário e imperialista.
Outros investigadores desenvolveram posteriormente estudos sociológicos e teológicos sobre o fenómeno. É o caso do teólogo Fábio Py, docente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF que lançou em 2020 a obra “Pandemia cristofascista” (Editora Recriar), e que adaptou o conceito ao contexto brasileiro.
Py caracterizou como tal a aliança que diversos setores da igreja do país irmão estabeleceram com os bolsonaristas, com vista à implantação de um governo autoritário e de características neofascistas e ultraliberais.
Segundo o autor, as marcas principais do cristofascismo brasileiro assentam na utilização de um discurso e simbologia cristã, de modo a validar políticas que implicam a exclusão de setores sociais e mesmo a violência política sobre os adversários. A fé é assim instrumentalizada para fins políticos que se opõem à essência da mesma.
Seguindo as pisadas de Hitler, o bolsonarismo lançou mão de jargões cristãos no seu discurso e de frases bíblicas como “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Da mesma forma estas lideranças políticas recorreram à presença em grandes eventos cristãos, como palco privilegiado para fazerem campanha eleitoral. Chegam a submeter-se ao batismo e a anunciarem pretensas conversões à fé com o mesmo intuito.
O foco nas bandeiras morais decorrentes dum conservadorismo rígido, e na proclamação da família idealizada é também usado para marginalizar minorias, em especial movimentos feministas e tudo quanto sejam comportamentos e opções sexuais não heterossexuais dos cidadãos. Pontifica a oposição à pluralidade democrática com base numa teologia política autoritária.
O que conta é um ideário maniqueísta simbolizado no pretenso embate entre o bem e o mal. O mal está nos comunistas, liberais, humanistas e petistas, ficando do outro lado os “cidadãos de bem”, seja lá o que isso for.
Outro elemento fundamental do cristofascismo será a permanente classificação dos opositores políticos ou intelectuais como inimigos da fé e agentes do mal, em especial se forem gente de esquerda. Esta demonização do outro é necessária ao discurso extremista e populista que necessita de manter a dinâmica de confronto “nós, os bons, contra os outros, os maus”.
Também a velha palavra de ordem “Deus, Pátria, Família” ou aparentada, é usada na ligação entre grandes estruturas religiosas e governos de extrema-direita. No Brasil, a coligação de líderes evangélicos e católicos conservadores com o governo Bolsonaro levou a que a religião tenha servido de suporte para o discurso da intolerância e apoio a práticas autoritárias.
Afirma o autor sobre a apresentação do populista religioso, a propósito da mortandade promovida, ou pelo menos permitida, durante a pandemia de Covid-19: “A artimanha construída pela cúpula o desenha numa cristologia profana, apontando-o como messias, servo sofredor, ungido e eleito da nação. Faz isso para reagrupar as forças a fim de manter, a duras chicotadas, a implementação de medidas ultraliberais que hoje entregam à morte os mais vulneráveis.”
Na mesma entrevista, Fábio Py remete o fenómeno do populismo religioso no país para duas causas históricas: por um lado a herança da ditadura militar, que ainda não terá sido apagada com o regresso do regime democrático e, por outro lado, a responsabilidade do PT e do PSOL na promoção de políticas fraturantes que assustaram os evangélicos e os levaram para o colo da extrema-direita.
Vorcaro não comprou o Brasil por um triz
Quero novamente ressaltar o dilema do formalismo bacharelesco que marca o campo político brasileiro; tal como ele é conceituado pela IA, em sua capacidade extracorpórea de ser uma excepcional máquina pensante.
A inteligência artificial define política como “o conjunto de práticas, decisões e ações utilizadas para organizar, governar e administrar sociedades, visando ao bem comum, a mediação de conflitos e a distribuição de poder. Originada do grego polis (cidade), refere-se à gestão da vida coletiva, elaboração de leis e definição de rumos para a comunidade”. Beleza, mas a sua prática – a nossa conhecida politicagem – é qualificada por dois malditos apêndices: crise e corrupção.
Entre teoria e prática, existe uma fratura que denuncia como é fácil adotar e como é um dilema praticar, porque a democracia exige uma separação radical entre público e privado, sem o que não há igualitarismo. Discursar fantasias com alicerces escravocratas ou tomar consciência para chegar ao centro de um sistema que, em 1979, no livro Carnavais, Malandros e Heróis, denunciei como dilemático.
Nele, heróis como os “caxias” e os certinhos, vistos como trouxas seguidores de regras, e o malandro atuam simultaneamente. Essa ambiguidade, lida como piada, inventa o “jeitinho” – esse caminho entre o imparcial e o parcial que promove anistias e certezas de impunidade. É plenamente possível, diz Pedro Malasartes aos seus afilhados que roubaram o INSS e a Daniel Vorcaro, comprador dos donos do poder, enriquecer por amizade, como nos velhos tempos do rei.
Não é por acaso que a política é atropelada pela politicagem de um republicanismo atropelado por elos de parentesco, camaradagem e amizade. Esse estilo, jamais criticado, é até hoje visto como “corrupto” e não como a base a ser rejeitada do legado monárquico.
Como ensina a IA: politicagem é o uso da política para fins pessoais, caracterizada por trocas de favores. Seus traços são: interesses pessoais, foco na vantagem própria ou de um grupo restrito. Ou seja: elos pessoais ou amizades instrumentais.
Enquanto a política foca o interesse público, a politicagem foca a manutenção do poder a qualquer custo e a ausência de ações concretas para a sociedade.
Nessa veraz conceituação, não se enxerga a nossa incapacidade (inconsciente e malandra) de distinguir o impessoal do pessoal, numa canibalização não prevista por Max Weber – a da dominação burocrática pela tradicional.
A questão que nos envergonha é a incapacidade de sustentar a imparcialidade estrutural da democracia pelo controle da inevitável parcialidade dos interesses pessoais que, em todo lugar, promovem desigualdade e, no nosso caso, devido a uma estrutura administrativa personalista e hierarquizada.
PS: Daniel Vorcaro não comprou o Brasil por um triz.
A inteligência artificial define política como “o conjunto de práticas, decisões e ações utilizadas para organizar, governar e administrar sociedades, visando ao bem comum, a mediação de conflitos e a distribuição de poder. Originada do grego polis (cidade), refere-se à gestão da vida coletiva, elaboração de leis e definição de rumos para a comunidade”. Beleza, mas a sua prática – a nossa conhecida politicagem – é qualificada por dois malditos apêndices: crise e corrupção.
Entre teoria e prática, existe uma fratura que denuncia como é fácil adotar e como é um dilema praticar, porque a democracia exige uma separação radical entre público e privado, sem o que não há igualitarismo. Discursar fantasias com alicerces escravocratas ou tomar consciência para chegar ao centro de um sistema que, em 1979, no livro Carnavais, Malandros e Heróis, denunciei como dilemático.
Nele, heróis como os “caxias” e os certinhos, vistos como trouxas seguidores de regras, e o malandro atuam simultaneamente. Essa ambiguidade, lida como piada, inventa o “jeitinho” – esse caminho entre o imparcial e o parcial que promove anistias e certezas de impunidade. É plenamente possível, diz Pedro Malasartes aos seus afilhados que roubaram o INSS e a Daniel Vorcaro, comprador dos donos do poder, enriquecer por amizade, como nos velhos tempos do rei.
Não é por acaso que a política é atropelada pela politicagem de um republicanismo atropelado por elos de parentesco, camaradagem e amizade. Esse estilo, jamais criticado, é até hoje visto como “corrupto” e não como a base a ser rejeitada do legado monárquico.
Como ensina a IA: politicagem é o uso da política para fins pessoais, caracterizada por trocas de favores. Seus traços são: interesses pessoais, foco na vantagem própria ou de um grupo restrito. Ou seja: elos pessoais ou amizades instrumentais.
Enquanto a política foca o interesse público, a politicagem foca a manutenção do poder a qualquer custo e a ausência de ações concretas para a sociedade.
Nessa veraz conceituação, não se enxerga a nossa incapacidade (inconsciente e malandra) de distinguir o impessoal do pessoal, numa canibalização não prevista por Max Weber – a da dominação burocrática pela tradicional.
A questão que nos envergonha é a incapacidade de sustentar a imparcialidade estrutural da democracia pelo controle da inevitável parcialidade dos interesses pessoais que, em todo lugar, promovem desigualdade e, no nosso caso, devido a uma estrutura administrativa personalista e hierarquizada.
PS: Daniel Vorcaro não comprou o Brasil por um triz.
A contribuição de 'Dark horse' para a cultura brasileira
Pessoal, justiça seja feita. Antes de criticar os R$ 61 milhões do financiamento secreto do banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark horse”, sobre Jair Bolsonaro, é preciso assistir ao trailer. O bonequinho assistiu.
Por ser um orçamento recorde na história do cinema brasileiro, bem acima de duas premiadas produções recentes, “Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, temos obrigação de fazer uma crítica técnica e imparcial sobre o filme que Flávio Bolsonaro, o filho do mito, classificou de “obra-prima”. Em inglês, “masterpiece”.
O trailer se passa quase todo no hospital. A faca é a protagonista. Tem sangue, maca, cirurgia, tem franja de cabelo caindo na testa, tem flexões mal feitas. Matutamos por que a produção foi tão cara assim. O senador Flávio, pré-candidato à Presidência, tinha pedido ao “irmãozão” Daniel Vorcaro R$ 134 milhões. Uau. Blockbuster. Orçamento mais alto que o de 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar.
Natural, para um documentário com atores americanos “renomadíssimos”, que nunca receberam um prêmio. “A true story is begin told to the world” (sic). Ops, não foi erro aqui. É assim que está escrito no teaser oficial de “Dark horse”. A autoria deve ser de Eduardo Bolsonaro, todos conhecemos seu domínio da língua inglesa, falada e escrita. Tinha que retribuir. Parte do dinheiro parece ter ido parar no Texas. A produtora do filme nega ter recebido.
O título, “Dark horse”, é uma expressão idiomática para “azarão”. O candidato surpresa, o desconhecido. Hoje, o Brasil sabe muito bem o significado do sobrenome Bolsonaro – nem a elite nem o pobre votarão no escuro. Chamado de “a real hero” no documentário, Jair foi um desastre fatal para centenas de milhares de famílias na pandemia. E foi condenado como mandante de conspiração contra a democracia.
Será que o documentário, prometido por Flávio para exibição em “todos os cinemas do Brasil”, mostrará tudo isso? Se for mesmo uma “true story”, será um marco. Já estou vendo as plateias com popi-corni e aice-crim. Tem gente – ô pessoal malvado – prometendo comemorar com “espumante Ypê”.
Pena que essas gravações e mensagens tenham prejudicado a pós-produção do filme. Ficou esquisito. A não ser que o documentário concorra, nos festivais, na categoria “comédia estrangeira”. Porque, nas redes, não há nada mais engraçado do que as repercussões desse vazamento, uma facada nas pretensões da extrema direita.
O maior protagonista da comédia é o próprio Flávio. Prêmio de melhor ator coadjuvante, na certa. Primeiro, ele debocha do repórter que pergunta se o filme do Jair foi financiado por Vorcaro. “Mentira! De onde tirou isso? Militante”, diz, rindo, na cara do jornalista, e foge. Horas depois, na maior cara de pau, Flávio defende uma CPI do Master e confirma que pediu grana “privada” ao banqueiro acusado de fraudes bilionárias.
Detalhe. Já tinha recebido R$ 61 milhões. Queria mais, o prometido. Organizou jantar com o elenco do filme e o banqueiro. Pressionou, com áudios lamuriantes sobre “parcelas atrasadas”. Invocou Deus. Prometeu solidariedade a Vorcaro: “Estou e estarei sempre contigo”. Pode-se acusar Flávio de qualquer coisa, menos de ser mau cobrador.
Dessa tragédia para o bolsonarismo, resultaram muitas paródias nas redes. “Dark horse” foi traduzido para “Pangaré sinistro”. Um áudio de Flávio virou letra de música sertaneja, a interpretação é de chorar de rir. Dizem por aí que Vorcaro é o Desenrola do Flávio.
Como vaticinou o pré-candidato numa de suas mensagens ao irmãozinho Daniel: “Não sei como é que vai ser daqui para frente, como é que isso tudo vai acabar, mas está na mão de Deus”. Ou do eleitor. Amém.
Por ser um orçamento recorde na história do cinema brasileiro, bem acima de duas premiadas produções recentes, “Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, temos obrigação de fazer uma crítica técnica e imparcial sobre o filme que Flávio Bolsonaro, o filho do mito, classificou de “obra-prima”. Em inglês, “masterpiece”.
O trailer se passa quase todo no hospital. A faca é a protagonista. Tem sangue, maca, cirurgia, tem franja de cabelo caindo na testa, tem flexões mal feitas. Matutamos por que a produção foi tão cara assim. O senador Flávio, pré-candidato à Presidência, tinha pedido ao “irmãozão” Daniel Vorcaro R$ 134 milhões. Uau. Blockbuster. Orçamento mais alto que o de 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar.
Natural, para um documentário com atores americanos “renomadíssimos”, que nunca receberam um prêmio. “A true story is begin told to the world” (sic). Ops, não foi erro aqui. É assim que está escrito no teaser oficial de “Dark horse”. A autoria deve ser de Eduardo Bolsonaro, todos conhecemos seu domínio da língua inglesa, falada e escrita. Tinha que retribuir. Parte do dinheiro parece ter ido parar no Texas. A produtora do filme nega ter recebido.
O título, “Dark horse”, é uma expressão idiomática para “azarão”. O candidato surpresa, o desconhecido. Hoje, o Brasil sabe muito bem o significado do sobrenome Bolsonaro – nem a elite nem o pobre votarão no escuro. Chamado de “a real hero” no documentário, Jair foi um desastre fatal para centenas de milhares de famílias na pandemia. E foi condenado como mandante de conspiração contra a democracia.
Será que o documentário, prometido por Flávio para exibição em “todos os cinemas do Brasil”, mostrará tudo isso? Se for mesmo uma “true story”, será um marco. Já estou vendo as plateias com popi-corni e aice-crim. Tem gente – ô pessoal malvado – prometendo comemorar com “espumante Ypê”.
Pena que essas gravações e mensagens tenham prejudicado a pós-produção do filme. Ficou esquisito. A não ser que o documentário concorra, nos festivais, na categoria “comédia estrangeira”. Porque, nas redes, não há nada mais engraçado do que as repercussões desse vazamento, uma facada nas pretensões da extrema direita.
O maior protagonista da comédia é o próprio Flávio. Prêmio de melhor ator coadjuvante, na certa. Primeiro, ele debocha do repórter que pergunta se o filme do Jair foi financiado por Vorcaro. “Mentira! De onde tirou isso? Militante”, diz, rindo, na cara do jornalista, e foge. Horas depois, na maior cara de pau, Flávio defende uma CPI do Master e confirma que pediu grana “privada” ao banqueiro acusado de fraudes bilionárias.
Detalhe. Já tinha recebido R$ 61 milhões. Queria mais, o prometido. Organizou jantar com o elenco do filme e o banqueiro. Pressionou, com áudios lamuriantes sobre “parcelas atrasadas”. Invocou Deus. Prometeu solidariedade a Vorcaro: “Estou e estarei sempre contigo”. Pode-se acusar Flávio de qualquer coisa, menos de ser mau cobrador.
Dessa tragédia para o bolsonarismo, resultaram muitas paródias nas redes. “Dark horse” foi traduzido para “Pangaré sinistro”. Um áudio de Flávio virou letra de música sertaneja, a interpretação é de chorar de rir. Dizem por aí que Vorcaro é o Desenrola do Flávio.
Como vaticinou o pré-candidato numa de suas mensagens ao irmãozinho Daniel: “Não sei como é que vai ser daqui para frente, como é que isso tudo vai acabar, mas está na mão de Deus”. Ou do eleitor. Amém.
Flávio, o azarão, e as mentiras que poderão enterrar sua candidatura
De “rachadinha” a “rachadão”, assim caminha Flávio Bolsonaro, o Zero Um do pai condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, pré-candidato a presidente da República em outubro próximo, e que talvez não chegue inteiro até lá. Ou lhe faltará apoio para tanto, ou coragem para enfrentar a vida sem dispor de um mandato.
Rachadinha foi a maneira que ele encontrou, como deputado estadual do Rio de Janeiro, para subtrair dinheiro público destinado a pagar o salário dos servidores do seu gabinete. Não precisou sujar as próprias mãos com a lambança. Teve quem as sujasse por ele. A Justiça foi condescendente com Flávio e deixou tudo por isso mesmo.
O “rachadão” está em cartaz e, na melhor das hipóteses, poderá lhe custar o sonho de subir a rampa do Palácio do Planalto na companhia da sua família. Quanto mais Flávio tenta explicar por que bateu à porta de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atrás de dinheiro para financiar um filme de exaltação ao seu pai, mais ele se enrola.
Não tem pé nem cabeça o que ele diz e repete. Primeiro, negou que pedira dinheiro a Vorcaro. Segundo, negou que fosse seu amigo de longa data; apenas o conhecia. Terceiro, negou a existência de um áudio gravado por ele que pudesse desmentir suas afirmações anteriores. Para sua desgraça, o áudio apareceu. Mais do que ninguém, Flávio desmentiu Flávio.
Foi obrigado a admitir que mentira; o dinheiro seria mesmo para custear o filme. Então, Flávio justificou-se em entrevista à GloboNews: “Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual [com Vorcaro]? Isso gera multa, exposição dos investidores. Falo disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”. Se tivesse, talvez negasse.
Foi contraditado duas vezes. Mário Frias, produtor do filme, disse não haver “um centavo” de Vorcaro na produção. A empresa responsável pelo filme negou ter recebido os R$ 61 milhões supostamente repassados por Vorcaro. Se falaram a verdade, onde foi parar o dinheiro ou quem o embolsou?
A Polícia Federal investiga se parte do dinheiro não foi para o bolso de Eduardo, irmão de Flávio, ex-deputado federal cassado que vive nos Estados Unidos. Um dos advogados de Eduardo é também advogado da empresa escolhida para fazer o filme. A respeito da origem do dinheiro doado por Vorcaro, Flávio é categórico: “Zero de dinheiro público”. Só pode estar brincando.
O mais reles dos bicheiros que atuam na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sabe que a fortuna acumulada por Vorcaro está encharcada de dinheiro público e que por isso ele foi preso pela segunda vez. Não importa. Flávio simplesmente ignorava que, desde o governo do seu pai, Vorcaro comprou uma larga fatia da República valendo-se de dinheiro sujo.
Os que se preocupam com Flávio deveriam interditá-lo para que não continue a cavar sua sepultura.
Rachadinha foi a maneira que ele encontrou, como deputado estadual do Rio de Janeiro, para subtrair dinheiro público destinado a pagar o salário dos servidores do seu gabinete. Não precisou sujar as próprias mãos com a lambança. Teve quem as sujasse por ele. A Justiça foi condescendente com Flávio e deixou tudo por isso mesmo.
O “rachadão” está em cartaz e, na melhor das hipóteses, poderá lhe custar o sonho de subir a rampa do Palácio do Planalto na companhia da sua família. Quanto mais Flávio tenta explicar por que bateu à porta de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atrás de dinheiro para financiar um filme de exaltação ao seu pai, mais ele se enrola.
Não tem pé nem cabeça o que ele diz e repete. Primeiro, negou que pedira dinheiro a Vorcaro. Segundo, negou que fosse seu amigo de longa data; apenas o conhecia. Terceiro, negou a existência de um áudio gravado por ele que pudesse desmentir suas afirmações anteriores. Para sua desgraça, o áudio apareceu. Mais do que ninguém, Flávio desmentiu Flávio.
Foi obrigado a admitir que mentira; o dinheiro seria mesmo para custear o filme. Então, Flávio justificou-se em entrevista à GloboNews: “Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual [com Vorcaro]? Isso gera multa, exposição dos investidores. Falo disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”. Se tivesse, talvez negasse.
Foi contraditado duas vezes. Mário Frias, produtor do filme, disse não haver “um centavo” de Vorcaro na produção. A empresa responsável pelo filme negou ter recebido os R$ 61 milhões supostamente repassados por Vorcaro. Se falaram a verdade, onde foi parar o dinheiro ou quem o embolsou?
A Polícia Federal investiga se parte do dinheiro não foi para o bolso de Eduardo, irmão de Flávio, ex-deputado federal cassado que vive nos Estados Unidos. Um dos advogados de Eduardo é também advogado da empresa escolhida para fazer o filme. A respeito da origem do dinheiro doado por Vorcaro, Flávio é categórico: “Zero de dinheiro público”. Só pode estar brincando.
O mais reles dos bicheiros que atuam na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sabe que a fortuna acumulada por Vorcaro está encharcada de dinheiro público e que por isso ele foi preso pela segunda vez. Não importa. Flávio simplesmente ignorava que, desde o governo do seu pai, Vorcaro comprou uma larga fatia da República valendo-se de dinheiro sujo.
Os que se preocupam com Flávio deveriam interditá-lo para que não continue a cavar sua sepultura.
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