Os capacetes nas cabeças, os fatos de proteção volumosos e um pouco hirtos, as grandes mochilas às costas. Parecem astronautas movendo-se lentamente sobre a superfície lunar, permanentemente consultando as rotas de GPS nos telemóveis que trazem nas mãos. É quase hora do almoço, para quem come cedo. Talvez a hora do brunch para quem se levantou tarde neste domingo. Por isso são tantos a chegar à praceta de canteiros bem arranjados, rodeada de apartamentos que se vendem facilmente por dez mil euros o metro quadrado. São seguramente estrangeiros e têm a pele escura estes homens que cirandam por ali à procura dos números de porta certos para as entregas. Pelas entradas dos prédios vejo passar outras pessoas, seguramente estrangeiras e de pele muito clara. Uns e outros são humanos de planetas diferentes. Separam-nos muitas milhas de desigualdade e provavelmente de incompreensão mútua.
Passo muitas vezes pelos entregadores de comida à porta de um centro comercial ou de um restaurante. Vejo-os quase sempre sentados no chão, numa espera de prontidão. Vagueiam, com olhos vazios de cansaço, pelos ecrãs dos telefones e quase parecem adormecidos nesse entorpecimento de expectativa. Mas é evidente neles uma espécie de mola à espera de ser ativada por mais uma notificação, mais uma viagem, feita às vezes em bicicletas que carregam esforçados pelas colinas de Lisboa acima, outras em motos, com as quais desafiam a morte e as probabilidades, para chegar mais depressa ao destino e seguir outra vez para ganhar mais uns euros antes que o dia se acabe.
Os profetas do empreendedorismo deviam considerá-los deuses. São modernamente flexíveis. Não conhecem a cara do patrão e, ainda que sejam escravos de um algoritmo, são para todos os efeitos “empresários por conta própria”. Não estão fechados num escritório nem numa rotina. E, com esta descrição, creio que já citei todas as maravilhas que os arautos da precariedade consideram ser tão apelativas para os jovens. Curiosamente, nas minhas deambulações pela cidade, raramente encontro jovens portugueses brancos de mochilas de Uber e Glovo às costas. Não se percebe.
Também não encontro assim muitos jovens portugueses brancos ao volante dos TVDE em que circulo. Encontro, sim, muitos portugueses (e portuguesas) e imigrantes menos jovens, que me contam como precisam do biscate para compor as contas do salário ou da reforma que não chegam ou como, num golpe da vida, aquela se tornou a única opção. Há os que gostam de andar por aí a conduzir e de falar com os clientes dispostos a trocar dois dedos de conversa, mas também há muito cansaço, muitas horas duras e a sensação de que se precisa de esticar as horas do dia para que os euros cheguem até ao fim do mês.
Há quem ache que a vida é feita de opções. Esses são os privilegiados. Os que podem ter escolhas de carreira, porque tiveram dinheiro para pagar os estudos e bons contactos para começar a trabalhar nos sítios certos. Os que já têm a casa paga ou perto disso, porque a receberam de herança ou com a ajuda dos pais, e nem se apercebem como tal se reverte em horas de tempo livre e, lá está, opções. Os que sabem que podem arriscar e pensar “fora da caixa” ou “fazer acontecer” porque têm uma rede familiar e contas bancárias que o permitem e que garantem que terão forma de arranjar quem lhes cuide dos filhos, que poderão tratar da saúde e manter o aspeto certo para que o sucesso lhes bata à porta. Pois são exatamente esses que mais acreditam no seu próprio mérito. São esses os que acham que tudo na vida se consegue com esforço. (Pausa para lançar uma sonora gargalhada).
Tenho-me apercebido, à medida que vou envelhecendo, de que no meu círculo de amigos e conhecidos as grandes diferenças sociais residem quase sempre na capacidade financeira dos pais… Não tanto no esforço, no mérito ou no talento. Mas naquela herança ou ajuda que os pais foram capazes de deixar e que, muitas vezes, já vinha de alguma forma dos avós (embora nem sempre, porque na geração dos meus pais houve efetivamente quem subisse na escada social só com o salário, quase sempre através da possibilidade de comprar casas). Há uma espécie de cadeia cármica, ou talvez seja de casta, que se passa de uma geração para a outra e que faz com que uns comecem a corrida muito à frente dos outros e ainda assim achem que estão à frente porque o merecem. Os que ficam para trás, claro, são uns falhados, que fizeram más opções na vida.
Esta mentira sobre o mérito tem um objetivo: apresentar como obsoletas e inúteis as políticas públicas que aumentam a igualdade. E os números mostram que a estratégia está a dar frutos. Uma análise publicada pela Comissão Europeia revela que os 10% mais ricos em Portugal controlam 60,2% da riqueza. Isto representa um aumento de três pontos na desigualdade desde 1995. Quem espalha esta ideologia da meritocracia tira daí bons proveitos.
Para os que apresentam dúvidas de fé, há a liturgia da literacia financeira, que há de nos ensinar os truques para ficar rico com o investimento certo em criptomoedas que não se tem como pagar ou poupando aquilo que não sobra (certamente por incompetência do próprio) do salário ao fim do mês. Há também as missas dos coaches que nos ensinam a visualizar para conseguir ter tudo o que não se consegue comprar e os missais dos livros de autoajuda, tudo, claro, vendido a bom preço. Exigir salários dignos é para meninos, fazer greves é para preguiçosos, reclamar melhores serviços públicos é para quem gosta de andar à mama, rejeitar políticas de opressão e austeridade é para ingénuos, defender impostos mais altos para o capital do que para o trabalho é para perigosos radicais.
Não sei se os vossos pais tiveram dinheiro para vos mandar para a melhor universidade sem terem de vos pôr a trabalhar, se têm um daqueles apelidos sonantes que abrem portas, se desde pequeninos têm um networking digno desse nome, se receberam uma herança que faz com que não precisem de ficar acordados à noite a pensar como é que pagam contas inesperadas, se podem fazer compras sem olhar para o saldo e usufruir de lazer e cultura à vontade e sem créditos. Se responderam a tudo que sim, são só o vosso umbiguismo e a vossa insensibilidade social que vos impedem de perceber a importância de terem uma sociedade mais justa, que será também uma sociedade menos tensa e mais segura. Se não e ainda acreditam que a meritocracia, o empreendedorismo, a literacia financeira e a flexibilidade vão salvar-vos, então não sei o que vos diga.
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