terça-feira, 15 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


O Brasil como ponta de lança do neofascismo no Sul Global

A eleição presidencial brasileira ainda nem ocorreu, mas a desmobilização do Sul Global liderada pela extrema direita internacional já está em curso. Apesar de ser um dos sócios fundadores do bloco que mais tem redefinido as principais linhas de poder e da própria (des)ordem global nos últimos anos, o Brasil não foi representado pelo seu chefe de Estado no recente encontro anual dos Brics em Nova Delhi. Esse quadro reflete o enfraquecimento do país no cenário mundial em razão de um quadro de duradoura polarização doméstica e associado ao aumento do apelo por um (des)projeto nacional de alinhamento automático à potência hegemônica histórica do hemisfério. Essa situação se estende ao cenário mais amplo da América Latina como um todo e, a depender do que ocorra no próximo mês, esse processo pode se aprofundar de forma acelerada, com consequências preocupantes para além da nossa região.

Interessantemente, no início do século XXI o aprofundamento da democracia e a forte redução da desigualdade que ocorreu em quase todo o nosso continente pareciam indicar que oferecíamos algo novo para o mundo. Essas experiências foram tão significativas que foram capazes, inclusive, de dar origem a novas organizações de governança regional, como a Unasul e Celac, que buscam aumentar a presença regional por meio de uma atuação mais altiva e independente.

Tragicamente, muito desse quadro foi revertido de forma rápida e desordenada. E embora quando da eleição de Lula para seu terceiro mandato fôssemos um continente fragmentado ideológica e politicamente, hoje o Brasil pode ser visto como um dos últimos bastiões de um projeto de desenvolvimento nacional autônomo e multilateral. Mas se o clã Bolsonaro for alçado novamente ao controle direto do país, nos tornaremos não só o principal parceiro (e promotor dos interesses) dos Estados Unidos no mundo, como muito provavelmente o porta-voz e um dos representantes mais importantes da concertação da extrema direita mundial no Sul Global. 


A procura por autonomia no cenário global sempre foi uma característica da política externa brasileira, assim como da própria inserção internacional do país no mundo. Apesar da centralidade do relacionamento histórico com os Estados Unidos, desde a famosa guinada diplomática da Europa para as Américas, conduzida pelo Barão do Rio Branco no início do século XX, houve sempre a tentativa de não se alinhar automaticamente com nenhum aliado, por mais importante e poderoso que fosse. E ainda que tenhamos presenciado momentos de desvio desse objetivo tão importante, com o caso mais exemplar da vergonhosa tentativa de alinhamento automático junto aos Estados Unidos no primeiro mandato de Trump e de Jair Bolsonaro, o padrão do comportamento internacional brasileiro tem sido muito mais pautado pela busca consistente de flexibilidade e espaço de manobra.

Talvez como nunca antes – já que a principal tentativa anterior de busca de uma política externa independente tenha ocorrido no governo de João Goulart, projeto que foi revertido com o golpe de 1964 – tais objetivos foram realizados quando, no início do presente século, o Brasil, como um dos principais países emergentes no mundo de então, sob a batuta de Lula e Celso Amorim, conseguiu, ao mesmo tempo, manter um bom relacionamento com aliados tradicionais, como Europa e mesmo os Estados Unidos de George W. Bush, e aprofundar relações com novos países-chave, como Índia e, especialmente, China.

Além de ações dentro da esfera de ação bilateral, tais esforços também ocorreram, de maneira inovadora e eficaz, por meio de novas iniciativas diplomáticas de base multilateral, lideradas pelo Sul Global, como o G-20 e, especialmente, os Brics. Em ambos os projetos, o Brasil desempenhou um papel central, o que angariou um nível histórico de respeito ao nosso país na cena internacional. Tragicamente, esse reconhecimento não se traduziu nos mesmos parâmetros no contexto doméstico, onde nossas elites continuam hesitando entre o que se demonstrou sempre mais benéfico, isto é, a busca da autonomia no contexto internacional e o eventual atrelamento diplomático ao hegemon do continente americano.

Essa contradição faz pouco sentido ao se considerar que sempre foi exatamente quando buscamos maior altivez na nossa política externa que fomos mais respeitados, inclusive pelas grandes potências. Só para lembrar um episódio relativamente recente, no início do primeiro governo Lula, a Venezuela passava por profunda crise política. No ano anterior, Chávez tinha sofrido uma tentativa de golpe, mas, com forte resistência popular, conseguiu retornar ao poder. O clima interno do país continuou muito tenso. E, no começo de 2003, uma paralisação do setor petrolífero chamou a atenção do governo norte-americano. Foi quando Lula propôs a criação do Grupo de Amigos da Venezuela, medida que recebeu apoio do governo Bush, evitando uma possível intervenção externa no país vizinho. Ou seja, quando agimos com autonomia, somos valorizados e levados “a sério”.

Isso também se dá na esfera econômica, onde nossa diplomacia tem forte atuação multilateral, sobretudo nas negociações de condições favoráveis aos produtos do agronegócio – esses que hoje, com a memória seletiva da direita de sempre, lançam Ronaldo Caiado como candidato à presidência. Rápido retrospecto histórico recente, quando em 2003, numa reunião da OMC em Cancún, Brasil e Índia lideraram a criação do G-20 como resposta a barreiras alfandegárias criadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, ajudando a ampliar as esferas de governança global de forma duradoura.

De maneira efetiva, na negociação sobre o mercado mundial do algodão nacional, acionamos a OMC contra os excessivos subsídios fornecidos pelo governo norte-americano. Tivemos ganho de causa, embora os norte-americanos não tenham cumprido a decisão. Mantivemos a pressão, ameaçando quebrar as patentes de mais de cem produtos dos Estados Unidos, o que levou empresários norte-americanos a pressionarem seu governo a negociar e, por fim, ceder. O contencioso encerrou-se em 2014, já sob o governo Dilma, com os Estados Unidos pagando US$ 300 milhões para um fundo brasileiro de desenvolvimento do setor.

Apesar de todas essas, e várias outras, evidências do que conseguimos quando não nos subordinamos a qualquer ator hegemônico, é um possível atrelamento – provavelmente o mais dramático da nossa história – que está em jogo hoje. Esse caminho já foi tentando, com resultados pífios para o Brasil, pelo chefe do clã Bolsonaro, quando seu mandato coincidiu com o primeiro governo Trump. Hoje aquele país busca manter a América Latina ainda mais sob a sua tutela, o que deveria preocupar a todos que ainda acreditam que um país continental, como o nosso, não tem nada a ganhar com um alinhamento automático com qualquer potência, seja ela declinante ou ascendente.


Após um caminho continuado de guerras sem fim e aumento brutal da concentração de renda, processo que se desdobra há mais cinquenta anos, mesmo ainda sendo o país mais poderoso militarmente no mundo, os Estados Unidos se encontram hoje frente a duas encruzilhadas. A primeira é interna, qual seja, aprofundar ainda mais a trajetória das últimas décadas, administrando a crescente polarização doméstica por meio da intensificação dos aparelhos repressivos do Estado, ou reverter tal rumo a fim de, talvez, se tornar, de fato, uma democracia multicultural. Se tais opções são de impossível reconciliação, no cenário internacional, onde se encontra a segunda encruzilhada, as coisas não são menos complicadas.

Com um declínio tecnológico e perda de competitividade em vários setores, os Estados Unidos enfrentam crescentes desafios para manter seu poder e influência globais. E é nesse quadro que a agressividade da atual política externa dos Estados Unidos tem que ser entendida. Afinal, por que atacar aliados tradicionais, desmantelar a própria ordem internacional liberal que ajudou a criar no contexto do pós-guerra, ameaçar tomar territórios de vizinhos, a não ser como expressão de um país que já não acha que os elementos de cooptação (soft power) da sua hegemonia não mais dão conta do recado. E é nesse claro-escuro de um mundo em rápidas transformações (na expressão consagrada de Gramsci), que os monstros aparecem.

Que fique claro que os atores da extrema-direita internacional sabem bem o que fazem. Contra a ordem liberal carcomida, tanto das velhas democracias ocidentais quanto dos organismos a ela associados, a violência do mais forte é hoje vista como necessária, quando não como redentora, num milenarismo típico do fascismo zumbi dos dias de hoje. Como versão mais bizarra de tal movimento, para os Bolsonaros e seus asseclas, só cabe ocupar o papel de coadjuvantes em um filme B, sendo rodado sob nossos olhos. É isso que tem buscado seu articulador-mor, Eduardo Bolsonaro, em terras gringas – após ter abandonado seu cargo de deputado e passar a viver no Texas com recursos oriundos da maior fraude financeira da história do país, lavados através da produção também fraudulenta de uma peça publicitária ao chefe do clã. O ex-deputado chegou a se gabar da sua suposta influência direta junto à Casa Branca no episódio de taxação norte-americana imotivada sobre produtos de exportação brasileiros. Retaliação, agora política, mirando o governo Lula, mas atingindo as exportações nacionais. Tudo isso acontecendo, e as nossas (supostas) elites ainda em dúvida sobre qual caminho seguir, quando não mesmo aplaudindo o encaminhamento da subordinação almejada pela versão caipira do trumpismo.

Dentro desse quadro instável e grave, tudo parece indicar que estamos frente a uma das eleições mais consequentes das últimas décadas. Sabemos bem quem representa a possibilidade de avançar na busca por autonomia. Detemos a segunda maior reserva do que promete ser a mais importante matéria-prima do século XXI. Mas boa parte do país quer abrir mão, uma vez mais, de um caminho de desenvolvimento de matriz nacional e independente. Afinal, em 7 de setembro, no ritual anual de mau gosto e entreguismo típico do bolsonarismo – este ano embalado por orações que se elevavam ao Senhor dos Exércitos louvando o pastor e ministro do STF André Mendonça –, um enorme boneco de Trump celebrava seu Deus, sua pátria e a tal família de bem(bens).

Lembremos que no ano passado, na mesma data – interessantemente, nossa data da independência(!) – uma enorme bandeira dos Estados Unidos cobriu a massa bolsonarista da Paulista, comemorando sabe-se lá que ideia de “pátria” seria essa. No mesmo sentido, já em maio de 2019, logo após sua posse, Jair Bolsonaro foi indicado personalidade do ano, pela Brazilian-American Chamber of Commerce, dos Estados Unidos, evidentemente (tirem suas próprias conclusões) ao que o presidente da República do Brasil agradeceu batendo continência à bandeira norte-americana. O ensaio geral tinha sido em outubro de 2017, já pré-candidato, quando o então deputado Jair prestou continência à mesma bandeira estrangeira, num evento em Dallas.

Voltando ao que está em jogo hoje, o atual candidato da família macabra (lembremos da tragédia genocida da pandemia da Covid-19) afirmou recentemente que o Brasil seria a solução para os Estados Unidos se livrarem da dependência industrial das terras raras chinesas. Na outra ponta do complexo digital, o mesmo candidato também se demonstrou alinhado à total desregulação da atuação das big techs em solo brasileiro, o que, em dupla com a inacreditável intenção de um eventual (des)governo de transição ser implementado sob o beneplácito oficial de membros do governo dos Estados Unidos, configura uma renúncia total a qualquer projeto de soberania nacional.

Em um contexto de enorme instabilidade como o atual, o que menos precisamos é subserviência. Mas essa parece ser a principal característica de um possível novo governo do clã. Poderemos não só vir a entregar, sem nenhuma contrapartida, nossos recursos naturais, como talvez mesmo abrir o caminho para bases militares dos Estados Unidos em nosso território. Já somos vistos como a próxima peça-chave na estratégia neocolonial norte-americana avançando a passos largos em nosso continente.

E em algumas semanas, decidiremos se conseguiremos seguir numa postura de não subordinação a Washington, ou se nos contentaremos em nos tornarmos a principal ponta de lança do neofascismo da extrema direita internacional dentro do Sul Global. Seja qual for nossa escolha, seus impactos não ficarão restritos às nossas fronteiras.

O futuro vos libertará

I

Em 2021, Jair Bolsonaro, então presidente, confrontou Alexandre de Moraes e xingou-o de “canalha”. Os comícios eleitorais de 2022 e 2024, tiveram suas particularidades. Quatro anos atrás, o eleitoralismo das direitas foi hegemônico, mas corriam por fora o monarquismo e o intervencionismo militar, duas formas distintas de conceber uma mudança de regime político no longo ou no curto prazo, respectivamente. Já nas eleições municipais, Pablo Marçal demonstrou como era possível um outsider hackear de forma subterrânea o showmício oficial, mesmo sendo barrado de subir no carro de som.

Já em 2023, não houve ocupação das ruas: um tempo já longínquo em que o “8 de Janeiro” ainda tinha reverberações negativas para todos os envolvidos no epílogo de uma campanha golpista – o tempo passou e a memória da depredação profanadora dos símbolos de poder se revelou frágil, com a responsabilização dos golpistas estando por um triz de ser revertido, dependendo de quem ganhar a presidência agora em outubro.

Por fim, em 2025, o dia da independência foi espetacularmente invertido por um clamor de dependência, graças ao bandeirão ianque que os bolsonaristas estenderam na Paulista. Outros significados relevantes se conectavam com a indefinição, à época, da chapa presidencial que representaria o bolsonarismo, com a figura tecnocrática de Tarcísio de Freitas ainda em evidência, e o enorme carisma de Michelle Bolsonaro, à espreita.

Nos meses seguintes, o pai consagrou o filho: Jair indicou Flávio como seu herdeiro oficial, com a esperança de, no mínimo, manter a hegemonia do clã sobre as direitas brasileiras, mesmo que perdessem a eleição e, no máximo, ao ganhar, ser uma via de anistia e libertação para si (e, secundariamente, para os presos do 8 de Janeiro). A candidatura de Flávio Bolsonaro, ao se consolidar, foi confrontada pela proliferação de candidatos que buscam de diferentes maneiras disputar e construir um bolsonarismo sem (a família) Bolsonaro: Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (MISSÃO). O liberalismo econômico brasileiro se degradou em reacionarismo.


Esse cenário só se torna compreensível em sua densidade histórica quando comparamos as candidaturas presidenciais de 2026 com as de 2022. Quatro anos atrás, no 1º turno, além de Lula retornando à cena eleitoral depois de dois governos, popularidade recorde, perseguição, prisão e redenção, tínhamos uma proliferação de candidaturas bem mais centristas (desconsiderando aqui o NOVO já bolsonarizado e a tragicômica figura de Padre Kelmon, duas linhas auxiliares de Jair, mas bem mais precárias do que hoje). De um lado, o então trabalhista Ciro Gomes (PDT) e, de outro, a social-liberal Simone Tebet (MDB). O segundo turno de 2022, selou o futuro divergente de ambos: Tebet foi integrada à frente ampla democrática que abrigou inclusive os economistas do Plano Real, se tornou ministra do governo eleito e agora é candidata ao Senado pelo PSB de Alckmin; e Ciro se apequenou, mantendo-se neutro, depois rompendo politicamente com seu irmão e praticamente se bolsonarizando como candidato ao governo estadual do Ceará, pelo PSDB de Aécio e Tasso.

Se formos voltar a eleições anteriores, podemos constatar a existência de relevantes espaços políticos tanto à esquerda quanto ao centro com relação ao PT (desconsiderando o finado papel do PSDB como polo de centro-direita que também organizou as eleições brasileiras entre 1994 e 2014): Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) em 2006; Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e Marina Silva (PV) em 2010; Luciana Genro (PSOL) e novamente Marina Silva (PSB) em 2014; Guilherme Boulos (PSOL) e Ciro Gomes (PDT) em 2018. Quando confrontamos o cenário eleitoral de 2026 com esta série histórica, tal espaço político ampliado simplesmente desapareceu. Diante do crescimento digital e eleitoral e o enraizamento societal da extrema direita, o PT e o campo democrático-popular se tornaram um centro gravitacional que convidou, incentivou, forçou e negociou que diversas forças sociais e políticas se tornassem seus satélites: de um lado, o papel das tendências menos esquerdistas do PSOL em torno de Guilherme Boulos; de outro, as ex-presidenciáveis Tebet e Marina, tornadas ministras e dupla que agora disputa o Senado por PSB e REDE. Em termos ideológicos, Lula 3 se tornou uma frente amplíssima, que vai do neoliberalismo (mais ou menos progressista) até a Bancada da Esquerda Radical.

Mas tal amplitude político-ideológica não se traduz em maioria segura em termos diretamente eleitorais. Muito pelo contrário: é como se o ecossistema da extrema direita tivesse se desenvolvido e se legitimado a um tal ponto que a profusão de lideranças políticas espalhadas por vários partidos permitiu que a unidade no 1º turno não precisasse ser construída. Já em termos ideológicos, Flávio, Zema, Caiado e Renan não se distinguem muito: todos têm como ídolo o autoritarismo reacionário do presidente salvadorenho Nayib Bukele, se sentem confortáveis no papel de subgovernadores de uma província estadunidense (a bomba atômica defendida por Renan parece surpreendentemente distingui-lo, mas sempre com consequências violentas) e ao menos nos três primeiros casos prometem para 1º de janeiro uma anistia para os golpistas de 2022-2023 – sob o manto da “pacificação” e também do revisionismo histórico: querem destruir a memória que nos permitiria, pela primeira vez, responsabilizar quem atenta contra a nossa democracia e naturaliza o secular “poder moderador” das Forças Armadas.

Junto com esta pulverização de candidaturas de extrema direita, o histórico recente das ruas também alimentava a possibilidade de um cenário de fragmentação no Sete de Setembro. A partir de 2023, no momento em que o pastor Silas Malafaia tomou a frente e passou a organizar showmícios cada vez mais profissionalizados e ofereceu ao clã Bolsonaro os principais palcos de sua campanha por anistia, uma dinâmica inédita tomou conta dos atos de rua da extrema direita. Se lá por 2014 até 2019, os protestos das direitas eram estruturados por múltiplos carros de som (MBL, Vem Pra Rua, Revoltados On Line, NasRuas, etc.), disputando a atenção da base social, com Malafaia foi instaurado um carro de som unificado. Conforme o pastor adiantou nas semanas anteriores que ele não seria o organizador do Sete de Setembro de 2026, passei a formular a hipótese de que isto poderia significar o retorno da pluralidade em termos de carros de som, lideranças políticas, movimentos sociais (liberais, conservadores e reacionários), além de candidaturas presidenciais. Tirando o ato bolsonarista em Copacabana, que conviveu com uma caminhada paralela em prol de Augusto Cury, a Avenida Paulista não confirmou esta minha expectativa centrífuga.

II

A manifestação bolsonarista reuniu 28 mil pessoas, o que poderia ser lido seja como declínio, seja como fracasso. De fato, os atos do Dia da Independência nos anos anteriores haviam mobilizado entre 45 e 42 mil manifestantes (em 2024 e 2025, respectivamente). Por outro lado, o número mais baixo que a série histórica do Monitor do Debate Político no Meio Digital do Cebrap registrou para a extrema direita foi 12 mil, em 29 de junho de 2025, sob o impacto negativo do tarifaço de Trump. Deste modo, quase 30 mil pessoas terem saído de suas casas sob baixíssima temperatura e risco de chuva não foi pouca coisa (e praticamente o dobro do que um dos maiores protestos convocados pela esquerda, em 10 de julho de 2025, também no contexto de reação à interferência trumpista). Além disso, a etnografia de protestos ensina que os elementos quantitativos precisam sempre ser analisados de forma articulada com os elementos qualitativos, o que se relaciona com a circulação de discursos, símbolos e emoções que constroem a dinâmica interativa entre lideranças e base. Quero chamar a atenção a seguir que o fato político mais relevante do que o relativo declínio numérico foi a convergência centrípeta dos agentes sociais e políticos em torno de Flávio Bolsonaro.

Dependendo se o ano é eleitoral ou não, a dinâmica do ato de Sete de Setembro se transforma. Se não há eleições, é temática é mais livre: em 2021, o intervencionismo militar ganhando visibilidade pública inédita no pós-redemocratização; já em 2025, diante da decepção com as Forças Armadas (“melancias”, “verdes por fora, vermelhas por dentro”), foi esboçado o deslizamento da intervenção militar em direção à intervenção estrangeira. Sendo setembro sempre no meio de campanhas eleitorais, os atos de 2022, 2024 e 2026 se reconfiguraram como comícios eleitorais sui generis. O elemento mais visível desta dinâmica são os bandeirões, camisetas, adesivos e, claro, os santinhos com números de candidatos (ao executivo e, principalmente, ao legislativo).

Esta articulação entre eleições e protestos – o institucional e o extra-institucional – não é exclusividade da (extrema) direita, as esquerdas também funcionam da mesma forma: partidos e candidatos enxergam a manifestação de rua como uma oportunidade preciosa de disputar não apenas a atenção, mas a fidelidade político-eleitoral de pessoas com alta capacidade de mobilização social e engajamento digital. No caso da esquerda, pude observar atos assim em 2022 e 2024; este ano ainda não vi nada similar na cidade de São Paulo, o que parece indicar a baixa eletrização de sua base.

Fui registrando em meu caderno de campo os partidos presentes no ato bolsonarista. O PL obviamente surgiu com grande destaque. Mas diversos partidos de direita que não estão oficialmente na coligação de Flávio Bolsonaro abraçaram o protesto como campanha eleitoral: partidos que participaram da base congressual de Jair Bolsonaro (Republicanos, Progressistas), partidos nanicos (Podemos, Solidariedade) e partidos que foram em algum momento da base de Lula 3 (MDB, União Brasil). Por fim, nas margens do ato, compareceram até partidos que têm outros candidatos presidenciais (o NOVO de Zema e o PSD de Caiado). Curiosamente, não observei materiais ou candidatos do AVANTE de Augusto Cury nem do MISSÃO de Renan Santos – no caso deste último, a curiosidade também é histórica, considerando que o MBL, gênese social deste partido político, construía e disputava os protestos das direitas desde o seu surgimento, em 2014.

Junto com as pessoas contratadas para segurar bandeirões e distribuir santinhos, convive uma outra forma partidária. Longe deste formato clássico de partidos analógicos que terceirizam a propagação de materiais publicitários físicos, emergiu nos últimos anos o que Marcos Nobre e sua equipe de pesquisa no CCI/Cebrap chamaram de , que conta com o engajamento de influenciadores, responsáveis por mediar a experiência offline das ruas com a reverberação online nas redes sociais. A criação de conteúdo é descentralizada e consumida como “autêntica”, bastando estar com seu celular ligado para que múltiplas pessoas no chão do ato produzam imagens e narrativas que receberão views, likes e shares. Várias delas passaram por mim, em especial homens. Enquanto um dizia para sua câmera “o sistema soltou o Lula para roubar, esta é que é a verdade”, um outro só repetia freneticamente “vamo que vamo que vamo”. De um lado, o recorrente discurso antissistêmico; de outro, a confiança no movimento ascendente de seu próprio campo político.

Um momento privilegiado da interação entre carro de som e chão do ato é acompanhar as emoções despertadas e cultivadas pelas pessoas em torno dos discursos eletrificados. É possível inclusive falar em uma espécie de hierarquia emocional. Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, costuma ser um dos que menos desperta animação nos manifestantes. Sintoma de que o Partido Digital Bolsonarista depende formal e oficialmente do hackeamento de um partido analógico, mas seu modo de funcionamento é radicalmente distinto, transbordando o PL. Valdemar, que já foi um apoiador de Lula nos idos dos anos 2000, até tentou estimular os presentes, como quando formulou que “Flávio é o melhor para botar ordem neste país”, além de profetizar que “O Jair vai ficar preso mais 10 anos se o Flávio não for eleito. Volta Bolsonaro!”. Nem sequer recorrendo à libertação do ex-presidente a reação das pessoas deixou de ser fraca ou apática. Outro que não costuma engajar a atenção da base é Malafaia. Autorremovido de seu papel de centralidade como organizador do showmício, a reação das pessoas ao seu discurso, mais curto do que de costume, foi morna.

Em repetidas observações de protestos, percebo que Tarcísio é inicialmente muito bem recebido quando apresentado pelo mestre de cerimônias; desta vez contando inclusive com palmas e uivos. Contudo, no exato momento em que ele abre a boca, algo invariavelmente se perde e a atenção dos manifestantes se dispersa. Em outros momentos, o governador paulista erra a mão ao detalhar conceitos como “economia do conhecimento” ou apostar em um discurso excessivamente tecnocrático, voltado para detalhes de políticas públicas. Desta vez, ele até buscou inovar. Em vez de burocratizar sua fala, foi por um caminho historiográfico, tentando criar paralelos históricos e políticos entre 1822 e 2026. Se a independência do país foi uma luta contra os poderes absolutos de Portugal, estaríamos hoje vivendo o desafio e a oportunidade de mais uma vez reescrever a história do Brasil e “declarar independência da corrupção, da desfaçatez, do PT, de Lula e dessa corja”. As menções a Flávio foram tímidas ou inexistentes, mas obviamente tal segunda independência passaria por sua eleição como presidente.

Os contrastes entre Tarcísio e Nikolas – antepenúltimo e penúltimo a discursarem – são vários.

Por um lado, o carisma incomparável do jovem deputado federal por Minas Gerais. Embora algumas pessoas tenham se movido para mais perto do carro de som quando Tarcísio começou a falar, os manifestantes sempre ficam eletrizados do começo ao fim enquanto Nikolas discursa. A quantidade de celulares erguidos para o alto para registrá-lo em vídeo só perde para as vezes em que Michelle surge como protagonista. Aliás, seu não comparecimento surpreendeu. Nos dias anteriores, reportagens haviam antecipado que ela comporia o ato na Paulista. Acabou argumentando que precisava ficar em casa cuidando do marido. Não ficou claro para mim o significado político de sua ausência: as negociações não atenderam suas demandas ou Flávio está tão seguro da vitória que seu apoio deixou de ser indispensável como na época do desastroso quase rompimento entre madrasta e enteado?

Por outro lado, as menções a Flávio foram explícitas em seu discurso, ao contrário de Tarcísio. Aqui não se trata apenas do fato de que Nikolas está no topo da cadeia alimentar da economia da atenção ou da hierarquia emocional dos oradores no carro de som. É importante contrastar com sua postura – juvenil e rebelde – no e sua atual pré-disposição em ser enquadrado como mais um leal subordinado a serviço da candidatura de Flávio. No 1º semestre, Nikolas foi responsável por dissolver a melancolia dos atos de rua esvaziados em novembro e dezembro de 2025, diante da prisão da maior liderança da extrema direita. Não se verificou a esperada resistência ao sistema que supostamente perseguia Jair. Mas em janeiro de 2026, Nikolas convocou uma caminhada (vista como épica para quem estava dentro e ridícula para quem estava fora) que saiu do interior de Minas Gerais e desaguou em um protesto em Brasília, que ficou marcado por uma chuva torrencial e raios que atingiram manifestantes – algo lido como irresponsável pelo campo progressista, mas confirmando o tom heroico da campanha em torno de si.

O ato da Paulista em março deste ano era, portanto, a culminação deste ensaio de protagonismo e independência política na capacidade de convocar e organizar um ato de rua, fora da esfera de influência do consórcio Malafaia e família Bolsonaro. Neste contexto muito específico, Nikolas se sentiu à vontade para não apenas ser o penúltimo a discursar, mas também para usurpar o microfone de Flávio, que teoricamente era o último orador, fazendo questão de adiar o encerramento imediato da manifestação e, em seguida, de mencionar Michelle – até então ignorada pelas outras lideranças, inclusive o enteado – e, por fim, puxou um Pai Nosso, criando um epílogo mais teológico e moral do que propriamente político-eleitoral, como era do interesse de Flávio.

De lá para cá, a candidatura de 01 deixou de ser questionada ou ameaçada por potenciais alternativas (como Tarcísio, Michelle ou o próprio Caiado, que também estava no ato de março, prometendo anistia, aliás) e efetivamente se viabilizou. Mesmo que as lideranças políticas e a base social estejam “tampando o nariz” e fazendo um “voto útil” em Flávio, o fato é que ele se tornou incontornável, além de um candidato com perspectivas reais de poder (as pesquisas eleitorais passaram a dar empate técnico com Lula no 2º turno), o que reorganiza as disputas em torno do futuro do bolsonarismo em 2030 (quando Tarcísio sairá do Palácio dos Bandeirantes) e 2034 (quando Nikolas poderá finalmente ser elegível de acordo com a Constituição; hoje ele é jovem demais).

A evidência de que, até no chão do ato, os bolsonaristas não morrem de amor por Flávio é uma conversa informal entre três amigas que eu pude escutar e registrar. Em algum momento entre os discursos de Tarcísio e Nikolas, uma dela diz para as outras, bastante convicta: “eu prefiro o Eduardo mil vezes do que o Flávio!”. O que não a impedirá de apertar 22 na urna eletrônica. Sem contar a enorme maioria dos eleitores que apostarão no 1º turno nas demais candidaturas do “bolsonarismo sem Bolsonaro”: todas elas vão convergir e se explicitar como de extrema direita no provável 2º turno.

III

Nikolas costuma terminar seus discursos eletrificados no carro de som com o seguinte bordão: “O presente é deles, mas o futuro é nosso”. Um dos princípios da teologia judaico-cristã é aqui mobilizado: se a extrema direita se percebe, hoje, “oprimida”, ela promete para seus fiéis redenção em um amanhã crível e palpável, permitindo alimentar as esperanças em um horizonte melhor, mesmo diante de um cenário difícil, que teve tudo para incentivar e justificar o pessimismo e o niilismo no pós-8 de Janeiro e na imediata eclosão do escândalo que revelou as conexões do filme Dark Horse com o Banco Master.

Além disso, um dos principais jingles de Flávio 2026, tocado ao final do ato, se chama “Com o pé direito, o Brasil tem futuro”. Por estes motivos, me interessei em mapear e reconstruir as imagens de futuro que circularam no Dia da Independência, entre lideranças e base do campo reacionário. Quais são os desejos políticos que estão sendo prognosticados na eventual vitória de Flávio Bolsonaro e quais imaginários sociais são por ela encarnados?

O day after da posse de Flávio seria marcado pela libertação de seu pai e pela culminação da longa campanha por anistia política dos presos do 8 de Janeiro, que foi esboçada em 2023, adensada em 2024, mas frustrada em 2025, no que parecia ser uma inédita responsabilização do secular golpismo militar e civil brasileiro.

Em seguida, o foco passaria a ser a reconfiguração do STF. Embora o antipetismo continue constitutivo da extrema direita, Lula passou a ser superado por Alexandre de Moraes como o grande antagonista político do campo reacionário. Graças ao escândalo do Banco Master, o impeachment de Moraes deixou de ser algo inconcebível e restrito a franjas radicalizadas e passou a habitar o centro do debate público. Sua legitimidade foi erodida tanto no âmbito do campo progressista, como aquele que havia sido sagrado como “salvador da democracia”, quanto no âmbito da grande mídia (Folha, Estadão, O Globo), que pediu sua cabeça em editoriais publicados apenas 24h depois da revelação da troca de mensagens com Daniel Vorcaro. E a legitimidade do próprio STF diante da opinião pública está ameaçada caso se opte pela tentativa de um grande acordo. A questão é que estamos longe de uma conjuntura política que permita uma justa discussão sobre reforma política e reforma do Judiciário que levaria a sociedade a debater e deliberar como os três poderes poderiam reorganizar suas relações e regular seu envolvimento ilegal e corrupto com o poder financeiro das diferentes frações das classes dominantes.

Uma coisa é certa: de tudo que vimos e aprendemos com o Governo Jair Bolsonaro, todos os democratas deste Brasil deveriam saber que as melhores condições hoje para uma reorganização democrática do STF (transparência nas investigações doa a quem doer, Polícia Federal independente, imprensa livre) se dariam sob um Governo Lula 4. Um eventual Governo Flávio vai se inspirar nas autocracias de Orban, Erdogan e Trump: o manual da extrema direita prevê para o segundo mandato a destruição da independência do Judiciário.

O contexto imediato é, portanto, de incentivo ao assalto que a extrema direita planeja dar, esvaziando o Judiciário com relação aos demais poderes (com Flávio na presidência e o Centrão empoderado no nosso atual semi-presidencialismo). Além de subordinar o STF ao bolsonarismo, Flávio também revela ao final de seu discurso que em janeiro de 2027, ele vai acabar com “a polarização” porque “não vai mais ter PT”. Tudo isto alimenta a plausibilidade de uma mudança de regime político com relação ao que foi vigente no pós-1988, com sua mescla de méritos e falhas: Constituição democrática, presidencialismo de coalizão e institucionalização inédita de direitos sociais, mesmo que precarizados e subfinanciados.

Sempre considero relevante prestar atenção não apenas aos discursos (no carro de som, em cartazes ou em conversas informais), mas também aos símbolos que circulam em um protesto. Vários dos que compareceram no Sete de Setembro são velhos conhecidos para quem já frequentou ao menos uma vez ou viu fotos das manifestações das direitas: as bandeiras do Brasil monárquico, dos EUA, de Israel e, por fim, a Bandeira de Gadsden, símbolo anarcocapitalista e também mobilizado pelo trumpismo.

Já outros símbolos foram inéditos em minhas observações, o que pode nos revelar a distância entre o rotinizado e o que surge como elemento emergente no cenário da extrema direita brasileira. Em primeiro lugar, um boneco inflável do ministro André Mendonça, sintoma de seu protagonismo na atual crise institucional do STF na qual o bolsonarismo busca surfar.

Em segundo lugar, um pixuleco gigante de Trump segurando um pixulequinho de Lula em uma versão presidiário. O inusitado e indigesto da situação não se esgota na ode ao imperialismo, emulando e desejando que Trump faça algo similar ao que fez com Maduro: sequestrar, prender, humilhar e apequenar. A imagem original do presidente estadunidense é a cena fotografada e espetacularizada na qual ele cerra os punhos ao alto, logo após a tentativa de assassinato que ele sofreu em um comício na Pensilvânia, na campanha eleitoral de 2024. A cereja do bolo da presença trumpista no Dia da Independência é o surgimento de bonés vermelhos, cor do Partido Republicano, seja com a inscrição Make America Great Again, seja com os escritos “Trump 2028” – uma palavra de ordem golpista, que reivindica rasgar a Constituição estadunidense, que impede expressamente, na 22ª Emenda, que o atual presidente se candidate novamente.

Por fim, quando eu já iniciava meu retorno para casa, me afastando do quarteirão Trianon/MASP em direção à Estação Brigadeiro de Metrô, me deparei com um último símbolo inédito: um homem trajava a bandeira da Bolívia, amarrada em seu pescoço como uma capa de herói, fazendo o vídeo de uma mulher, trajando uma bandeira brasileira da mesma forma – ele então dirigia sua performance, perguntando repetidamente se ela votaria 22 em outubro. Ele parecia ser um imigrante boliviano, mas falava português sem sotaque aparente.

Esta cena, exteriormente singela, pode ser mais bem compreendida se inserida em um contexto simbólico, discursivo e emocional mais amplo. Aquele mesmo trio de amigas que eu já me referi acima também conversou sobre os EUA, em mais um momento em que praticamente viraram de costas para o carro de som, absorvidas em sua própria sociabilidade informal. Uma delas, a mais articulada e extrovertida, afirmou efusivamente “os EUA ainda é a maior potência do mundo”. Em seguida, passou a explicar e enumerar, com grande admiração, como isto se refletia em diferentes âmbitos, como o maior poderio militar em termos de armamentos ou uma suposta liderança tecnológica. Não ficou claro para mim qual era o contexto anterior da conversa, mas, em termos analíticos, é inescapável contabilizar a ascensão da China na necessidade de ela reafirmar que os EUA ainda é o número um. Por último, a conversa foi por um caminho de elogiar enfaticamente como diferentes países na América do Sul estão “mudando”, tais como Colômbia e Venezuela – o primeiro país por conta da eleição de maio, na qual a extrema direita venceu o candidato de continuidade do Governo Petro; o segundo país devido ao já mencionado sequestro de seu então presidente e uma estranha permanência da cúpula bolivariana, mas agora em condições subordinadas a Trump.

Os novos símbolos – pixuleco e boné pró-Trump e bandeira boliviana – e os discursos – a veneração do poder estadunidense e a comemoração do realinhamento de Colômbia e Venezuela – compõem uma rede de significados bastante evidente: uma aguda consciência geopolítica por parte da base social da extrema direita que deseja participar ativamente do processo de subordinação do Brasil e da América Latina aos EUA de Trump (um projeto que Branko Milanovic chamou recentemente de “nacional-liberalismo de mercado” e outros chamam de neomercantilismo ou neoimperialismo). Como Flávio já formulou explicitamente, no encontro deste ano do CPAC (Conservative Political Action Conference), seu plano de política externa é o que os nacionalistas brasileiros dos anos 1950 chamavam, sem meias palavras, de entreguismo: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.

O mais insólito de tudo no dia 7 de setembro, na Avenida Paulista, foi o clímax do discurso de Flávio Bolsonaro no carro de som. Logo depois de afirmar categoricamente que ele vai indicar 5 ministros do STF e que o dia 4 de outubro ficaria marcado como um “grito de liberdade”, ele vociferou, empoderado como eu nunca tinha visto ou ouvido: “Eu quero ser o libertador da pátria!”. No universo simbólico singular da extrema direita brasileira, independência (do Brasil) se transmuta em dependência (dos EUA) e a libertação dos poderes supostamente absolutistas do STF se transforma em subordinação do Judiciário ao presidente autocrata.

Mas e se Flávio não for eleito, como se comportarão as direitas? Em 2021 e 2022, já era evidente em minhas pesquisas de campo que o campo reacionário só reconheceria como legítima a vitória eleitoral de Jair. Já Flávio abriu seu discurso enumerando uma “primeira facada” (que seu pai recebeu em Juiz de Fora, em setembro de 2018), a “segunda facada” (o 8 de Janeiro e a posterior prisão de seu pai) e uma enigmática “terceira facada”: “vão tentar não só em mim, mas também em meus aliados. Não vai adiantar nada! Somos muito mais fortes do que eles”. O que seria, então, esta terceira facada? Entendo que este é um ensaio de enquadramento interpretativo com o objetivo de deslegitimar o possível cenário de sua derrota.

Sempre enfatizo que a firmeza do Governo Biden foi crucial para desarmar o golpe militar de 2022, ao bloquear qualquer aliança entre o Departamento de Estado dos EUA e as Forças Armadas brasileiras, notadamente americanófilas, o que rachou o Alto-Comando do Exército entre golpistas, “em cima do muro” e “legalistas” a ponto de impedir a unidade de ação. Conforme estamos sob Trump e a Doutrina Donroe, corremos o risco de uma real possibilidade de uma nova campanha de ação coletiva de “patriotas” que deslizaria da demanda por intervenção militar (como em 2022 e 2023) para uma reivindicação explícita por intervenção estrangeira, o que dobraria a aposta na subversão e na insurgência. O imaginário reacionário é notadamente escatológico e apocalíptico: caos, desordem e destruição são desejados tendo em vista uma restauração futura de uma ordem cujo parâmetro de progresso se tornou uma regressão neoextrativista selvagem e hiper-dependente, o que expande exponencialmente o que Letícia Cesarino chamou de “o mundo do avesso”.

Se a candidatura de Flávio Bolsonaro e todos os seus cúmplices no autoritarismo e no entreguismo não forem derrotados eleitoralmente em outubro e deslegitimados socialmente nos anos seguintes (com participação interna de centristas, direitistas e eleitores independentes e participação internacional de governos que reconheçam o resultado das urnas eletrônicas), quem precisará ser liberta e restaurada na década seguinte será a democracia do Brasil, assim como nossa soberania. Ainda há tempo para escrever, agora, outro futuro.
Jonas Medeiros

Dizem os índios

Que tem dono a terra? Como assim? Como se há de vender? Como se há de comprar? Se ela não nos pertence... Nós somos dela. Seus filhos somos. Assim sempre, sempre. Terra viva. Como cria os vermes, assim nos cria. Tem ossos e sangue. Tem leite, e nos dá de mamar. Tem cabelos, pasto, palha, árvores. Ela sabe parir batatas. Faz nascer casas. Gente, faz nascer. Ela cuida de nós e nós cuidamos dela. Ela bebe chicha, aceita nosso convite. Filhos seus somos. Como há de vender-se? Como há de comprá-la?
Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

Por que eleitor demorou a saber de investigação sobre Flávio?

A Polícia Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?

Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores brasileiros disseram à Quaest que a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto. Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29% levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.


Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.

Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado, está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.

A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.

Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na noite de anteontem.

Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master, revelaram Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos, atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.

Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13 ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.

Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.

A tentação Tentação do modelo Bukele coloca à prova duas democracias modelo na América Latina

De Keiko Fujimori a Abelardo de la Espriella , a onda de vitórias de candidatos de direita que a região vem vivenciando nos últimos meses é sustentada pela crescente demanda por segurança , que se tornou uma das principais preocupações sociais em quase todos os países da região.

O sucesso das políticas de redução da criminalidade de Nayib Bukele inspirou promessas de uma abordagem mais rigorosa nos últimos anos , que, na prática, muitas vezes não produzem os resultados esperados. Mas agora o debate sobre quantas liberdades as pessoas estão dispostas a sacrificar em troca de segurança está colocando à prova até mesmo países considerados exemplos de democracia na região, como Chile e Costa Rica .

A estratégia de Bukele tem dois pilares visíveis. Por um lado, a construção de megaprisões, que tem sido imitada em toda a América. Um relatório da Insight Crime publicado este mês estima que existam cerca de 15 planejadas ou já construídas, incluindo uma na Argentina.

Por outro lado, há a concentração de poder por meio de um estado de emergência que suspendeu as garantias constitucionais e permitiu prisões em massa (estima-se que 2% da população esteja atrás das grades). A inegável diminuição da criminalidade em El Salvador tem um custo institucional muito alto, com um líder que já reescreveu as regras para garantir uma segunda reeleição .

“Mas, apesar de terem imitado a abordagem de El Salvador, nenhum outro país conseguiu replicar seus resultados”, afirma o relatório.

A experiência do Equador , que já dura mais de um ano, serve como um alerta precoce sobre as limitações dessa abordagem. Daniel Noboa recorreu a estados de emergência , militarizou as ruas e construiu uma prisão de segurança máxima . No entanto, a violência continuou a aumentar e, em 2025, o país atingiu uma taxa recorde de homicídios de 50,9 por 100.000 habitantes . Em El Salvador, havia um terceiro pilar, invisível, mas crucial: as negociações que o governo Bukele manteve com os líderes das gangues, que, segundo diversos estudos, contribuíram para uma queda nos homicídios mesmo antes da declaração do estado de emergência.

“Dizer que os países estão tentando copiar o modelo de Bukele é uma afirmação forte”, disse Guadalupe Correa-Cabrera, codiretora da Contra, um think tank especializado em crime organizado da Universidade George Mason.

Na opinião dele, muitas das políticas de linha dura anunciadas na América Latina são mais como retórica eleitora : medidas isoladas, altamente visíveis e bem divulgadas, mas sem um projeto abrangente por trás delas.

“Em El Salvador foi mais fácil. Havia muitos problemas, mas era relativamente mais simples implementar essas políticas do que em outros países mais complexos , onde a própria geografia dificulta o controle territorial pelas forças de segurança, tanto militares quanto policiais”, explica Correa-Cabrera. “O território de El Salvador é pequeno e não apresenta tanta complexidade em termos de geografia e demografia.”

O verdadeiro desafio, argumenta ele, reside no combate à corrupção e à impunidade dentro do próprio Estado. "O crime organizado que vemos na América Latina não consegue sobreviver sozinho; precisa de proteção política", afirma.

A presidente da Costa Rica, Laura Fernández, no canteiro
de obras do Centro de Alta Segurança para o Crime Organizado 

Os alertas, contudo, não diminuíram o apelo eleitoral da fórmula. Os dois últimos presidentes a assumirem o cargo na América do Sul fizeram da promessa de uma postura firme o ponto central de suas campanhas.

No Peru , Keiko Fujimori anunciou estado de emergência em Lima e Callao na sexta-feira e enviou um projeto de lei ao Congresso para que possa legislar por decreto sobre segurança e outras áreas por 120 dias.

Na Colômbia , Abelardo de la Espriella também fez da segurança uma de suas prioridades, com uma agenda de maior cooperação militar com os Estados Unidos e a incorporação de seu país ao Escudo das Américas , a coalizão regional promovida por Washington contra os cartéis que contempla a possibilidade de enviar soldados americanos para a região.

Os processos políticos pelos quais o Chile e a Costa Rica , duas democracias consideradas modelos para a região, estão passando, são um bom exemplo do debate sobre até que ponto as regras institucionais podem ser flexibilizadas em nome da segurança.

Até o início da crise de 2019 , o Chile era visto como um país previsível, garantia de estabilidade. Os anos turbulentos que se seguiram, incluindo dois processos traumáticos de reforma constitucional, testemunharam um aumento dramático da violência, com os homicídios subindo até 30% entre 2021 e 2022. A segurança tornou-se a maior reivindicação dos cidadãos durante a reta final do mandato de Gabriel Boric , e então José Antonio Kast emergiu . Com um discurso baseado na restauração da ordem e uma visita a El Salvador, ele conseguiu dissipar as dúvidas que o cercavam e vencer a presidência.

Mas a primeira parte do seu mandato provou ser difícil, em parte devido a fatores externos como o aumento dos preços dos combustíveis causado pela guerra, e em parte devido a erros internos, como quando descartou a prometida deportação em massa de migrantes como uma “metáfora”. Com a sua imagem gravemente prejudicada, ele agora tomou outra medida ousada em prol da segurança. Primeiro, realizou uma transferência de prisioneiros nos moldes de Bukele, a “Operação Cérbero ”, e depois apresentou um projeto de reforma constitucional para estabelecer um novo tipo de estado de emergência . Essa medida concederia ao presidente o poder de declarar unilateralmente um estado de emergência por 120 dias, prorrogável por mais 120 dias sem necessidade de aprovação do Congresso, permitindo-lhe restringir as liberdades de movimento, reunião e associação, e interceptar comunicações sem supervisão judicial prévia, entre outras coisas.

A iniciativa gerou um intenso debate, com críticas esperadas da esquerda e, em menor grau, da direita, e Kast, que havia conseguido se apresentar como uma opção moderada durante a campanha, agora recebe acusações de seus próprios aliados de ser "iliberal" .

“Desde o ano passado, quando Kast era candidato, alguns intelectuais delinearam a teoria de que o seu projeto era antiliberal”, explicou o analista político Cristóbal Bellolio ao jornal La Nacion. “E a verdade é que Kast resistiu muito bem a essa acusação porque não tem a estridência de outros líderes semelhantes. Sempre demonstrou grande respeito pelos princípios republicanos. Além disso, tem um estilo muito organizado.”

Segundo Bellolio, essa imagem começou a ruir com a nova reforma constitucional. “Na sua necessidade de cumprir a promessa de ordem pública , de mão firme , de combater o crime e o crime organizado, ele acaba de apresentar uma reforma constitucional que já é um tanto inconsistente com a filosofia conservadora que ele próprio estabeleceu: a de que a Constituição não é necessariamente o instrumento para mudar a realidade das pessoas, que as coisas devem ser feitas através de uma melhor gestão”, destaca.

Nesse sentido, ele acredita que o argumento de Kast para promover a reforma é justamente o que alimenta as acusações de iliberalismo. "Kast invoca a democracia para corroer o componente liberal ", resume ele. Em outras palavras, o argumento de Kast é que ele tem um mandato popular que os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio do sistema o impedem de cumprir.

Para Bellolio, no entanto, o principal problema político de Kast não reside no debate acadêmico sobre se seu governo é ou não iliberal, mas no fato de que o próprio público não parece apoiar suas propostas. "Se Kast tivesse uma taxa de aprovação de 80% para sua reforma da segurança, o que acadêmicos e intelectuais dissessem seria praticamente irrelevante", argumenta ele.

A pesquisa Cadem Praça Pública revelou que apenas 10% dos cidadãos apoiam a reforma constitucional em sua forma atual, e 51% acreditam que ela deveria ser retirada do Congresso. “O problema é que as pessoas não apoiaram sua reforma da segurança nas pesquisas. Elas a consideraram excessiva”, conclui Bellolio. “Foram as próprias pessoas que, ao não apoiarem essa reforma, estão colocando o governo Kast em uma posição difícil.”

Na Costa Rica , as pessoas não parecem tão convencidas quanto os chilenos de que sacrificar liberdades em prol da segurança seja uma má escolha. Durante décadas, o país foi considerado uma exceção na América Central devido à força de suas instituições democráticas e à ausência de forças armadas. No entanto, desde 2020, o país enfrenta um aumento de 50% na taxa de homicídios, parte de uma onda de violência ligada à entrada de redes de narcotráfico sul-americanas que utilizam os portos costarriquenhos como pontos de transbordo para os mercados internacionais.

Uma extensa reportagem publicada esta semana no The Wall Street Journal relata como a frustração gerou um terremoto político em 2022, quando o país elegeu por uma pequena margem Rodrigo Chaves , um ex -funcionário do Banco Mundial que prometeu combater a corrupção no sistema político.

Durante sua presidência, Chávez atacou o judiciário , a mídia e seus adversários políticos, ao mesmo tempo em que impulsionava mudanças fundamentais. Ele também propôs combater a violência seguindo o exemplo de El Salvador e visitou a prisão de segurança máxima construída por Bukele. Ao retornar, defendeu a construção de uma prisão semelhante na Costa Rica, com inauguração prevista para este ano. Eleita presidente este ano, sua sucessora política, Laura Fernández , aprofundou essa abordagem e nomeou Chávez como uma espécie de superministro.

Ricardo Zúñiga , ex -funcionário do Departamento de Estado dos EUA que trabalhou durante anos na América Central, afirmou que Chávez e Fernández estão tentando “enfraquecer” o único ramo do governo que não controlam. “Há um alto risco de que consigam”, alertou. “A população tem pouca paciência para discussões sobre o Estado de Direito .”

A oposição e diversos analistas concordam com Zúñiga que a pressão sobre o judiciário faz parte de um projeto autoritário que visa enfraquecer os mecanismos democráticos de controle e equilíbrio de poderes . Na Costa Rica, grupos de oposição e o procurador-geral denunciaram as persistentes acusações de ineficiência contra juízes e os drásticos cortes orçamentários impostos ao sistema judiciário como uma manobra para concentrar poder e enfraquecer a capacidade de investigação judicial do Estado.

Esse confronto se estendeu à imprensa. O questionamento constante do governo a veículos de comunicação críticos, como o jornal La Nación, e a consequente revogação dos vistos americanos de seus executivos, foram descritos pelo ex-presidente e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Óscar Arias, como táticas de intimidação características de regimes autoritários .

“Não há ‘ expropriação’ na Costa Rica . Devemos continuar com mão firme”, disse o presidente Fernández esta semana em entrevista ao El País. Um vídeo de 1998, que ocasionalmente ressurge nas redes sociais, mostra Hugo Chávez prometendo que não haveria expropriações na Venezuela. Em uma região que ainda sente o custo de deixar uma democracia como a Venezuela morrer, os alarmes sobre a Costa Rica podem começar a soar com mais força.

Juan Landaburu

A IA nos matará?

No último dia 26, agosto já terminando, Bill Gates publicou em seu site pessoal um longo ensaio a respeito de inteligência artificial. Afirmou que os modelos em desenvolvimento já cruzaram inúmeros limiares de risco. Já são capazes de desenvolver bioarmamento, quebrar cibersegurança, manipular psicologicamente pessoas, destruir empregos. Ainda assim, não temos qualquer conversa organizada sobre como gerenciar quaisquer riscos. Pois Gates publicou o ensaio, passou o dia na TV dando entrevistas. E aí nada aconteceu. No dia 11 agora, sexta-feira passada, foi a vez de Yoshua Bengio se manifestar num ensaio. Ele é um dos três padrinhos da IA. Pediu que o ritmo de atualização fosse mais lento. Que as empresas desacelerassem. No sábado, veio Dario Amodei com seu ensaio. O CEO da Anthropic e criador do Claude diz que há risco existencial para a humanidade. Quando chegou domingo agora, se manifestaram concordando com Gates, Bengio e Amodei tanto Sam Altman, da OpenAI (GPT), quanto Elon Musk, da x/AI (Grok).



Quando os homens que mais ganharam com uma tecnologia até aqui dizem que o cenário está perigoso, no mínimo deveríamos prestar atenção. Se a mensagem é que a inteligência artificial, no ritmo que é desenvolvida, impõe riscos que podem levar ao extermínio da humanidade, talvez esse seja o tema mais relevante em debate no momento.

É claro que passa em branco por aqui. Hoje o Supremo Tribunal Federal mergulhará numa sessão histórica. Pela primeira vez, um ministro pode vir a ser investigado com autorização da Corte. A briga tem impacto imenso na eleição. Mas, enquanto o Brasil discute seu futuro imediato, também escolhe ausentar-se de um debate com impacto imensamente maior.

Novos modelos de IA, treinados com dados brutos sobre DNA e células, aumentam temor de nova corrida por armas biológicas - Magnific

O alerta de Gates, Amodei, Altman e Musk não é unânime. No início de agosto, Mark Zuckerberg, da Meta, disse que a ameaça da IA vem de monopólios. Não da tecnologia. Na Casa Branca de Donald Trump, o alerta foi encarado com ceticismo. David Sacks, ex-czar de IA do governo, foi além. Diz que se trata de um estratagema das empresas para suspender as regras antitruste e criar um cartel. Hoje, empresas de um mesmo setor não podem se juntar para decidir como rumarão, juntas, na direção do futuro. Sua tese não é absurda.

Arvind Narayanan e Sayash Kapoor, da Universidade de Princeton, vão além. Argumentam que IAs vêm sendo descritas como entidades quase vivas, capazes de autonomia e vontade própria. Mas a autonomia, dizem, é concedida. IAs não são como vírus cibernéticos, e nós, humanos, não somos deuses que criamos uma espécie. O que criamos foi uma tecnologia imensamente capaz de repetir padrões que lhe são ensinados. Ela é capaz de refazer aquilo que é replicável. Faz o que aprendeu a fazer. Não é capaz de criar do zero. Acelera nosso trabalho de inventar, não inventa ela própria. Para eles, o risco está na ausência de regulação técnica. É preciso garantir legalmente que a tecnologia seja implementada com controles, e a sociedade é que deve ditar estes controles. Não as empresas.

Há outra tese circulando. O problema do setor não é a ameaça de extinção da humanidade. É outro: treinar modelos de ponta é muito, muito caro. O valor está na casa dos US$ 700 milhões —e subindo. Mas, muito em virtude da aceleração da própria tecnologia, treinar um modelo de uma ou duas gerações atrás sai por até US$ 10 milhões. A diferença é absurda. Quem disputa a fronteira da tecnologia paga mais de dez vezes o que os concorrentes logo atrás custeiam. Em essência, o que se cria por quase US$ 1 bilhão hoje vira commodity em menos de um ano.

Se empresas como OpenAI e Anthropic pararem agora, os chineses as alcançarão em seis meses e, depois, as ultrapassarão. Não podem parar. E bateram no limite da capacidade de financiar o desenvolvimento constante da tecnologia. Estar na frente não compensa como negócio. E, como são empresas de capital fechado, se acaso quebrarem, o impacto será sentido por um número pequeno de investidores. O que precisam é de uma história boa para contar, que justifique desacelerar até que abram o capital. Tanto uma como a outra pretendem entrar na Bolsa nos próximos meses.

Mas eles é que estão criando a mais estupenda tecnologia que já vimos. E se estiverem certos?

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Ao expor suspeita sobre o PCC, Dino desafia Mendonça e expõe Flávio Bolsonaro

Se a tragédia que abate o Supremo Tribunal Federal – e o país – neste caso Master se transformasse numa história em quadrinhos, a cena produzida na manhã deste domingo com a decisão do ministro Flávio Dino o reproduziria, em frente ao ministro André Mendonça e uma simples frase escrita num balão: “Vai encarar?”. As armas em seus coldres não têm a mesma munição.'

O desafio está escancarado numa decisão que não se limita a reproduzir, com ironia, trechos do despacho do relator do Master com diálogos entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro em que são mencionados artigos da Constituição em defesa da transparência. Dino os reproduz em profusão, a começar pelo inciso LX do artigo 5: “A lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem”.

Em sua provocação, Dino inclui o presidente do Supremo Tribunal Federal ao mencionar despachos do ministro Edson Fachin tornados públicos em investigações que ainda estão em fase de instauração. Ao fazê-lo, diz Dino, o presidente da Corte executa diretriz emanada do ministro André Mendonça. Por isso, conclui haver uma “viragem jurisprudencial em curso à qual devo me adaptar, em homenagem ao princípio da colegialidade”.


Dino, porém, vai muito além de uma ode à ironia. Expõe, com uma clareza cristalina como a dos Lençóis Maranhenses, o que está em curso na transformação de um processo criminal numa comissão da verdade. Se é para abrir o sigilo de Moraes, que a perda de confidencialidade valha para todos, inclusive para aqueles que são candidatos e seus potenciais vínculos com o crime organizado.

Numa canetada, o ministro expôs ao escrutínio público as evidências do que parece ser uma grande lavanderia internacional que envolveu Karina Gama, sócia tanto da produtora do filme quanto da empresa investigada por suspeita de contrato fraudulento de wifi na periferia de São Paulo, o deputado Mario Frias (PL-SP), produtor do filme e autor das emendas parlamentares que lhe repassaram verbas, Antonio Carlos Freixo, intermediador das remessas aos EUA, Daniel Vorcaro, financiador da lavagem, e o senador e candidato a presidente pelo PL, Flávio Bolsonaro, negociador dos recursos desta operação.

Nos arquivos abertos por Dino, o personagem investigado por prestar serviços tanto a este esquema do ‘Dark Horse’ quanto ao PCC é Alex Leandro Bispo dos Santos. O empresário, que havia sido preso em dezembro do ano passado por suspeita de feminicídio, foi solto em agosto e teve novo mandado de prisão expedido quatro dias depois. Hoje está foragido. Karina Gama terceirizou para algumas empresas, entre as quais a de Santos, Favela Conectada, o serviço de wifi na periferia durante a gestão Ricardo Nunes, num contrato de R$ 12 milhões. No contrato, o empresário é identificado apenas por “Alex”.

A prefeitura informa que a responsabilidade de sua contratação é de Karina Gama e esta, que no momento da contratação, não havia óbices contra a Favela Conectada. O que ainda está por ser provado são os atuais vínculos desta empresa com o PCC. Antes de ser preso pela suspeita de feminicídio, Santos cumpriu pena por outros delitos em presídios onde estão detidos integrantes da cúpula do PCC. Decisão de Dino de 3 de setembro atribui a “órgãos de inteligência da polícia”, citados na imprensa, a informação de que Santos seria integrante da facção. O que foi divulgado, até aqui, não permite quantificar dinheiro do PCC no filme ou identificar filiação à facção dos integrantes do circuito.

A outra frente de vínculos com o crime organizado investigada são as operações entre a empresa de Freixo (Entre Investimentos), que teve sua delação homologada por Mendonça, o fundo Gold Style (administrado pela Reag), o BK Bank, a Aster Petroleo, e a ACX ITC, que tiveram o fio de suas relações com o PCC puxado pela operação Carbono Oculto, conduzida pelo MP-SP, a Polícia Federal e as polícias civil e militar de São Paulo. A hipótese de lavagem de dinheiro ainda carece do liame entre todas essas camadas.

Dino já decidiu favoravelmente ao pedido da PF para que as investigações saiam da Polícia Civil e fiquem sob sua responsabilidade, por envolver investigados com foro privilegiado e suspeita de transações internacionais de lavagem de dinheiro. Com a PF no comando das operações, a expectativa é de que o vínculo com o PCC da teia que transferiu, aos EUA, os recursos dados por Vorcaro ao Dark Horse a pedido de Flávio Bolsonaro, seja provado. Até o momento, não está.

Para complicar um pouco mais, Michael Davis, sócio americano da Go Up, produtora do filme, disse que não entregará documentos de sua empresa à Polícia Federal sem ordem expressa da Justiça americana. Sem esses documentos, a investigação sobre os repasses para o fundo Havengate, administrado pelo advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, foragido nos EUA, pode vir a ficar prejudicada.

A PF teria que recorrer ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, que integra o Ministério da Justiça, para fazer valer o cumprimento de sua solicitação em território americano. Teoricamente, o vínculo com o crime organizado, poderia facilitar a cooperação, uma vez que esta é uma das prioridades da segurança nacional do governo Donald Trump. Na prática, as injunções políticas decorrentes dos vínculos entre bolsonaristas e a Casa Branca podem impor um desfecho lento e descompassado da urgência do calendário eleitoral.

E esta é a chave da decisão de Dino, ou, para ficar na cena de HQ, é isso que está por trás da provocação a Mendonça que perpassa a decisão. Ao abrir os diálogos entre Moraes e Vorcaro, o relator do Master teria respaldado sua decisão de tornar públicas as suspeitas sobre os vínculos de uma operação desencadeada pelo pedido de recursos de um candidato a presidente da República ao banqueiro do maior escândalo financeiro da história. Ainda que nada fique provado, a suspeita terá um carimbo judicial grave a ser explorado à exaustão.

Há quem aposte na repetição do Fiat Elba que derrubou Fernando Collor de Mello. Para isso, teria que haver a comprovação de que Flávio Bolsonaro se beneficiou de uma operação de lavagem de dinheiro comandada pelo PCC. Em 1992, os esquemas de corrupção do empresário Paulo Cesar Farias no governo Collor já estavam comprovados mas não se provavam benefícios dele auferidos pelo ex-presidente. Até que apareceu o cheque que comprou carro. Naquele caso, tudo só seria comprovado três anos depois da eleição de Collor.

Um novo golpe, os mesmos autores

Tenho falado sobre a banalidade do linchamento como solução para a própria insegurança com princípios morais, e julgamento que veremos na semana que vem do ministro Alexandre de Moraes pode já estar decidido se os ministros acatarem a condenação que já foi feita pela mídia, pelo bolsonarismo e pelas redes sociais, que pretendem representar a opinião pública — embora os “retratos instantâneos” dos institutos de pesquisa de opinião usem várias réguas, se fossem científicos todos dariam os mesmos resultados.


O que se julga são fatos e os fatos que se conhece em relação a Moraes não demonstram nada. Só sua complementação pode esclarecer se houve quebra de lei ou mesmo de comportamento ético. Mas aguardar este esclarecimento não entra na cabeça de quem tem ódio dele por ter garantido as eleições de 2022 e sido o relator da tentativa de golpe.

O que a mídia, porta-voz do “mercado”, está julgando é a recusa do Brasil a adotar o modelo Trump de Estado, em que governam os bilionários, lascam-se a classe média e os pobres. O “mercado” pensa que, implantada a autocracia bolsonarista, os multimilionários locais — temos poucos bilionários — viverão seu mar de rosas.

Que estão redondamente enganados é prova o que viveu o País nos anos do capeta. Morte, fome, desemprego, destruição das instituições etc.

Importa agora é saber que temos um risco verdadeiro com a admissão da candidatura (indireta) de Jair Bolsonaro por um tribunal eleitoral capitaneado por um frágil juiz de comarca no tempo do Onça e por um adorador do profeta da segurança, ambos sem o menor escrúpulo.

Fiquemos com o personagem da semana, André Mendonça. O conde de Afonso Celso avisava que quem “está sempre a falar de sua probidade faz desconfiar que é tratante; da sua vigilância, que é preguiçoso; da sua gratidão, que é ingrato; da sua coragem, que é covarde”.

Sua ascensão do púlpito para o golpe foi rápida. Enquanto pastoreava, passou, como advogado da União, por um curso intensivo com Wagner Rosário, Descontrolador Geral dos governos Temer e Bolsonaro. Nomeado chefe da AGU, defendeu, como lhe competia, os atos do Cavalão. Mas o Moro foi muito incompetente e não soube trocar o comando da Polícia Federal no Rio de Janeiro, que, segundo declarou o genocida em reunião ministerial, “queria f…der com a gente”. Era preciso alguém que fizesse a PF entender que sua função era pessoal e familiar, não institucional, e lá estava o Catão.

A posse foi emocionante. Naquele momento o adorador se viu em condições de realizar os trinta anos de profecias na segurança pública (bomba no Guandu, matar 30.000 para limpeza de sangue, matar o Presidente Fernando Henrique, estuprar quem merecesse, levar para o Rio de Janeiro os agentes exterminadores, medalhar assassinos, elemento bom é elemento morto, reverenciar o Ulstra e o leitor acrescente aqui outras barbaridades que lhe pareçam oportunas). Vieram-lhe lágrimas aos olhos de vaca perdida. Ao abraçar o profeta, pousou, reverente e humilde, a cabeça em seu peito. Logo logo a PF passou a ser obediente. No Ministério da Justiça por onde passaram nomes ilustres — Montezuma, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Nabuco de Araújo… bastem — criou-se uma Diretoria de Inteligência (sic) que investigou — já contei aqui — os malvados antifascistas (o policial que dirige o gabinete de Catão no STF vem de lá).

Mendonça foi ministro da Justiça de abril de 2020 a março de 2021. Talvez o leitor tenha apagado da memória, mas nesse período houve uma grande disputa do governo com o STF: o Isento lutava para evitar que se tomassem precauções contra a Covid, enquanto o Supremo validava as medidas tomadas por Estados e Municípios. Enquanto isso as pessoas morriam num ritmo 4 vezes superior à média mundial e o profeta barbarizava, desde imitar pessoas sufocando a menosprezar e se comprazer com a morte. Um trabalho glorioso, que Mendonça deixou para aguardar na AGU a aprovação na sabatina para ministro do STF, que se arrastava.

O dia em que finalmente foi aprovado foi marcado pela profetiza Michela, que, ao vivo e a cores, recebeu línguas (certamente angelicais) e as pronunciou da mesma maneira como, quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, “os ouvimos falar em nossa própria língua materna”, menos nós, infiéis, que ouvimos mesmo um cafarnaum do diacho.

Não podemos dizer que no período em que foi ministro do Supremo Tribunal Federal sua ação tenha sido pálida. Não! Ele se notabilizou por dizer besteiras contraditadas por quase todos os outros ministros, do detestado Moraes à reverenciada Carmen Lúcia.

A chegada da eleição o encontrou a postos. Era chegada a hora. Com o apoio de Donald, o incentivo de Flávio, o esporro de Dudu, a fé no bolso de muitos, o adorador foi aparando as bordas. Dificulta a campanha de Lula, facilita a de Flávio — e de seus acumpliciados com candidaturas irregulares Brasil afora. Mantém uma funcionária com a torneira vazando sem registro, mas com o controle para que se formem manchetes contra o presidente da República e nada saia sobre o filho do profeta. Assume, claro que ilegalmente, o papel de polícia, parquet e pauteiro. Os linchadores profissionais ululam.

Finalmente parte para o ataque aberto. O alvo é a defesa da democracia, que atinge o presidente e facilita o discurso de vítima de Bolsonaro. A acusação formal não é boa isca para linchamento, o melhor é a insinuação.

O presidente do STF sempre foi um lavajatista enrustido, um homem sem coragem de assumir suas — poucas — convicções. Marcou o dia do linchamento. Há protestos, talvez se evite o espetáculo que a mídia quer. Sem linchamento televisado, falarão de pizza.

Pouco importa. O linchamento é irreversível. Como as plumas espalhadas ao vento que não voltam a se reunir, a reputação de Moraes precisa de um milagre para ser restaurada.

É possível, no entanto, conter o golpe. Para isso contará o trabalho dos ministros que não estão comprometidos. A tarefa é impedir que o Catão continue a agir. É afastar a candidatura de Jair Bolsonaro, que tem seus direitos políticos suspensos e, portanto, não pode ser eleito, mesmo por interposta pessoa. É prender os vendilhões do Brasil — promessa de venda passada em papel timbrado —, golpistas e explicitamente acumpliciados com PCC (via Karina Gama) e CV (via Bacelar & Castro).
Pedro Costa

Nós, as formigas da inteligência artificial

Jacob Coxon, um investigador que passou três anos construindo os sistemas por detrás de alguns dos modelos de IA mais poderosos do mundo, demitiu-se há poucos dias da Anthropic. O motivo? “As pessoas que constroem sistemas de IA acreditam sinceramente que estes podem matar-nos a todos até ao fim da década.”

Li estas terríveis declarações em diversos jornais. Depois fui passear de caiaque. Afastei-me um pouco da costa. Voltei-me de frente para o sol, pousei os remos e fechei os olhos. Quando os reabri, estava um corvo-marinho junto ao caiaque, o corpo quase submerso na água lisa, o pescoço erguido, a cabeça de lado. Pareceu-me que a ave me observava com aguda curiosidade.

Ficamos assim durante uma fugaz eternidade — eu e a ave —, habitantes de um mesmo planeta, mas olhando-nos como completos desconhecidos. Ele, o meu alienígena. Eu, o alienígena dele.




Não sei o que o corvo-marinho viu quando olhou para mim. Com certeza não pensou:

— Nossa, um escritor!

Provavelmente viu apenas um animal grande, feio e desajeitado, flutuando sobre o vasto mar. Não posso ter certeza de que havia curiosidade no modo como me encarava. Talvez estivesse apenas tentando decidir se eu era um peixe flutuante, e qual a melhor forma de me devorar.


Ali estava eu, portanto, sentado no meu caiaque, avaliando a inteligência de um corvo-marinho com os instrumentos do meu próprio discernimento. Regra geral, procuramos nos outros animais a nossa própria inteligência, em vez de procurar a deles. O corvo-marinho é altamente eficiente no seu meio. Conhece a arte da pesca com o bico, ou a arte de voar, de uma forma que eu apenas posso imaginar. O seu corpo contém uma maneira de conhecer o mundo que não cabe nos nossos testes de QI.

Jacob Coxon falando sobre os sistemas de IA incorre num erro semelhante ao meu com o corvo. Coxon tem noção de que não conseguimos sequer intuir como funcionarão os sistemas mais avançados de IA. Contudo, uma coisa ele já sabe — que nos irão devorar.

Não lhes parece um terror um pouco arrogante?

Talvez estejamos cometendo um erro semântico ao imaginar a superinteligência como uma espécie de inteligência humana aumentada — ainda nós, mas com esteroides.

Ocorre-me que uma inteligência superior há de estar atenta a tudo que brilhe. Eis uma boa medida da inteligência — a capacidade de compreender a existência de inteligências diversas da nossa.

Quando construímos uma via rápida não estamos preocupados com as formigas. Da mesma forma, argumentam pessoas como Jacob Coxon, uma superinteligência poderia ser tentada a exterminar a Humanidade, não por perfídia, mas porque nós seríamos para ela como formigas. Acontece que até nós já nos preocupamos com outras formas de vida — de inteligência — ao construir estradas. Não agimos assim por pura bondade. Agimos assim porque intuímos que essas outras formas de inteligência estão ligadas a nós. A nossa sobrevivência depende delas.

O corvo-marinho mergulhou. Creio que a inteligência começa quando deixamos de perguntar se os outros seres a possuem. A pergunta correta seria: que inteligência é a deles?

'Trump tenta interferir na eleição brasileira e o preocupante é que muitas vezes isso funciona'

O governo de Donald Trump está tentando interferir na eleição presidencial brasileira, e a história recente da América Latina mostra que esse tipo de pressão externa costuma dar certo. O diagnóstico é de Peter Birle, um dos principais especialistas europeus em assuntos brasileiros, em entrevista à BBC News Brasil.

Diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim e avaliador do Brasil no BTI, o índice de democracia da Fundação Bertelsmann, Birle compara o momento atual a um episódio de 1946, quando os Estados Unidos tentaram barrar a ascensão de Juan Perón na Argentina e acabaram ajudando a elegê-lo.

Com Trump, diz Birle, o resultado tem sido o oposto: na Argentina de hoje, a interferência funcionou; no Brasil, ainda é cedo para saber.


Birle, que acompanha o Brasil desde o início dos anos 2000, e fala português com desenvoltura, aqui e ali salpicado de espanhol, fruto de décadas dedicadas a toda a região, conversou de Berlim, poucos dias antes de embarcar para São Paulo.

Para o cientista político alemão, a ofensiva de Washington, tarifas, sanções e revogação de vistos, "não é uma política muito inteligente", porque tende a gerar mais resistência do que resultado.

Mas vê uma América Latina que virou "um campo muito à direita", um Brasil que não conseguiu retomar a liderança regional dos anos 2000, e uma eleição em que a democracia, ao contrário de 2022, deixou de ser o tema central, substituída pela economia e pela segurança pública.

Sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), faz um alerta: a experiência internacional mostra que "é no segundo mandato que vêm as mudanças mais radicais".

Como a Alemanha e a Europa estão encarando esta eleição presidencial brasileira?

Peter Birle – Infelizmente, muito pouco do que se passa no Brasil é levado em consideração. O público em geral não sabe quase nada. No mundo político, depende da posição ideológica de cada um.

A Fundação Friedrich Ebert, mais à esquerda, organizou vários eventos e, claro, ali se quer a reeleição de Lula. Já a Fundação Adenauer, mais à direita, mas não uma direita nos moldes do bolsonarismo, gostaria de uma política mais conservadora, sobretudo na economia e na segurança. Mas conseguiria conviver muito bem com um novo governo Lula.

Há um temor maior em relação a um governo de Flávio Bolsonaro?

– Uns meses atrás, diria que sim. Agora, acho que eles se adaptariam. A situação é muito diferente da de quatro ou oito anos atrás, porque a forma de Flávio se apresentar é distinta da do pai. Ele se apresenta como conservador, mas não tão extremo, e não tem o carisma do pai.

No mundo conservador alemão, acho que conviveriam bem com ele, se eleito. Da extrema-direita, da AfD, não sei se têm posição pública sobre o Brasil. Mas, se tomarem posição, estarão claramente a favor de Bolsonaro.

As relações entre Brasília e Washington estão no pior momento em décadas: tarifas, sanções, vistos, ataques políticos. O que isso revela sobre a visão que o governo Trump tem do Brasil?

Acho que Trump está tentando influir na eleição, porque eles querem um governo Bolsonaro e fazem tudo para que isso aconteça. Talvez ainda não de forma tão aberta quanto na Argentina, mas é uma política muito agressiva contra o governo Lula. E não sabemos o que ainda pode acontecer nos próximos meses.

Há o receio de que essa interferência aumente?

Sim. Antes das eleições na Argentina, no ano passado [as legislativas de outubro de 2025, nas quais Trump condicionou abertamente uma ajuda financeira a uma vitória de Javier Milei], eles deixaram claro que, se os argentinos não votassem nos partidos próximos de Milei, não haveria ajuda. E funcionou.

Agora, a política em relação ao Brasil é muito agressiva. Felizmente, o governo brasileiro está tentando não aceitar tudo, mas também não pôr lenha na fogueira. É muito difícil. Com um governo Bolsonaro, isso mudaria completamente: eles desejam outra relação com Washington.

Esse tipo de interferência não se via de forma tão aberta desde os tempos do regime militar, do apoio aos golpes no Chile e no Brasil?

Sim, é muito preocupante. E mais ainda porque muitas vezes funciona. Conheço bem a história da Argentina. Na eleição de 1946, os Estados Unidos tentaram interferir por meio do embaixador americano, Spruille Braden, notório por sua atuação contra Perón. O lema do peronismo virou "Braden ou Perón", em defesa da soberania nacional, e Perón ganhou. Agora, com Milei e Trump, essa interferência não encontrou resistência. Os argentinos votaram como Trump queria.

E no caso brasileiro, essa pressão pode ter efeito reverso?

Sim. Não é uma política inteligente da parte de Trump, porque cria mais resistência do que uma postura construtiva geraria. O Brasil não é só o governo Lula. O país tem uma ideia do seu próprio lugar no mundo, do tratamento que merece. Mas muitas coisas que esse governo americano faz não são muito inteligentes.

Vocês avaliam a democracia no índice BTI. Como o Brasil aparece hoje, depois do 8 de Janeiro e às vésperas de uma eleição tão polarizada?

Posso falar da última avaliação publicada, do início do terceiro ano do governo Lula. Comparando os dois primeiros anos de Lula com os dois últimos de Bolsonaro, a situação melhorou muito: uma democracia mais estável, sem um governo atacando as instituições, e com desenvolvimento positivo também na área socioeconômica.

Agora se vê o clima de campanha. Ainda há forte polarização, mas a situação não é a de 2022. Naquele ano, tratava-se da continuidade do bolsonarismo, com um risco grande para a democracia. Lula se apresentou, digamos, não com a camiseta amarela, mas com a branca, para mostrar que não era o Lula da esquerda, e sim o que defendia a democracia.

Hoje, com Alckmin de novo como vice, as perguntas que dominam a campanha não são a democracia ou o risco de autoritarismo, mas a economia, a segurança pública, o crime organizado.

Há uma percepção de que houve avanço democrático nos últimos quatro anos, e a economia tem tido um desempenho razoável, mas boa parte do eleitorado não reconhece isso. É o fator mais preocupante para Lula?

Isso tem a ver com a figura de Lula e não é novo. Há muita gente que gosta dele, mas quase 45% dizem que nunca votariam nele. Nos últimos quatro anos, o desenvolvimento econômico foi positivo, ainda que com juros muito altos, a Selic em 14%, e com a vida de muita gente ainda difícil. Ao mesmo tempo, houve queda da pobreza e da pobreza extrema.

Os números macroeconômicos não são ruins, mas a percepção da população, sobretudo neste ano, é outra. Por isso, a pergunta é como será o desempenho nas próximas semanas. Lula tem certa vantagem sobre Flávio, mas não vai ganhar no primeiro turno. E há mais candidatos à direita do que à esquerda, o que pode ser um problema para ele.

O resultado está em aberto?

As pesquisas indicam um provável segundo turno entre Lula e Flávio, com certa vantagem de Lula, mas sem garantia. Fica muito em aberto.

Vários países da América do Sul foram para a direita: Chile, Argentina, Colômbia e Equador. Se houver uma interferência americana mais agressiva no Brasil, dado o seu peso no continente, a Europa pode reagir?

Acho que não. A Europa não vai intervir dessa maneira, porque, apesar de tudo, quer preservar uma boa relação com o governo americano. Mas a América Latina hoje é um campo muito à direita, e por isso é difícil para o governo Lula voltar a ter o papel que teve nos governos Lula 1 e 2. Lula restabeleceu o Brasil como ator internacional de perfil sólido, mas não conseguiu o que queria: recriar o regionalismo latino-americano da primeira década do século 21.

Trump não se interessa por relações estáveis com a América Latina. Ele quer acordos, quer gente que concorde com ele em tudo, como Milei. É uma política muito transacional, um ambiente muito difícil para um governo como o de Lula.

Muito se dizia que o Brasil era o país do futuro, mas que esse futuro nunca chegou. Você vê um caminho para o país superar, no médio e longo prazo, os problemas de renda, infraestrutura, investimento e educação?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Se compararmos o Brasil de hoje com o de trinta anos atrás, há muitas conquistas. Continua sendo um país com muitos problemas, mas isso é normal, porque o Brasil é um continente. Depende de para onde se olha: o Sul e o Sudeste, ou o Oeste e o Noroeste, são mundos distintos.

Um caminho seria mais cooperação latino-americana, não nos moldes da integração europeia, porque a história da região é outra, mas uma cooperação que hoje não existe. Não se deve superestimar nem subestimar o país. O Brasil tem muitas conquistas, e as instituições democráticas sobreviveram ao governo Bolsonaro.

O que não sabemos é o que aconteceria num segundo governo da ultradireita. A experiência mostra, com a Hungria, e muitas vezes com o próprio Trump, que é no segundo mandato que vêm as mudanças mais radicais.

Isso seria um risco caso Flávio Bolsonaro vença e retome a agenda do pai?

É um risco. Flávio pode fazer muitas coisas das quais agora não fala, porque tenta aparecer como mais moderado. Com ele na Presidência, haveria uma anistia, e não só para ele. Não sabemos o que pode acontecer depois.

A atuação do Supremo Tribunal Federal tem causado polêmica. Houve um momento em que foi importante na defesa da democracia, mas há quem ache que agora extrapola. Você vê isso com preocupação?

É verdade que o Supremo foi muito importante para defender a democracia durante o governo Bolsonaro. Não tenho a impressão de que tenha passado das suas competências, mas entendo a discussão de que uma politização forte do tribunal também traz riscos. Parte da crítica é pelo menos compreensível. Talvez fosse aconselhável uma postura menos política, mais moderação.