terça-feira, 25 de agosto de 2026

O direito de ouvir o outro

Poucos anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a jornalista, autora e tradutora alemã Jella Lepman (1891-1970) mobilizou um grupo de pessoas ligadas à literatura infantil em torno de uma ideia: os livros poderiam aproximar povos separados pelo conflito e contribuir para a construção da paz. Dessa iniciativa nasceu, em 1953, o International Board on Books for Young People (IBBY).

A ideia de Lepman era simples e poderosa: crianças que conhecem as histórias umas das outras crescem mais preparadas para compreender culturas diferentes da sua. Mais de sete décadas depois, essa missão permanece atual, embora tenha adquirido novas dimensões.

Sociedades democráticas não dependem apenas da liberdade de falar, mas também da disposição para ouvir. A literatura, especialmente aquela oferecida às novas gerações, constitui um dos primeiros espaços em que se aprende a conviver com experiências, valores e visões de mundo diferentes.


O tema escolhido para o 40º Congresso do IBBY, realizado em Ottawa, “escutar as vozes uns dos outros”, oferece uma chave interessante para compreender essa transformação. Mais do que um lema institucional, ele sintetiza uma mudança de paradigma. O debate internacional parece deslocar-se da tradicional pergunta: que livros devemos oferecer às crianças; para outra, mais abrangente: quais vozes conseguem chegar até elas?

A programação do congresso tornou essa evolução particularmente evidente. Povos indígenas, crianças refugiadas, jovens leitores e bibliodiversidade apareceram de forma recorrente nos debates. Temas distintos, mas unidos por uma preocupação comum: assegurar que toda criança possa encontrar nos livros tanto um espaço de reconhecimento quanto uma oportunidade de conhecer realidades diferentes da sua.

Essa perspectiva amplia a compreensão do papel da produção voltada à infância. Além da alfabetização, da formação e do incentivo à leitura, ganha espaço outra dimensão: a construção da alteridade. A boa literatura oferece espelhos, nos quais o leitor se reconhece, e janelas, pelas quais descobre o mundo.

A produção destinada aos adolescentes, assim como a tradução, a ilustração e a bibliodiversidade, faz parte desse mesmo movimento. Ampliar o repertório significa permitir que diferentes experiências, idiomas, culturas e formas de representar a infância e a juventude cheguem aos leitores. O Brasil, com uma sólida tradição de literatura infantil e juvenil, construída por nomes como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga e Ruth Rocha, tem muito a contribuir para esse debate, e também razões para refletir sobre ele.

O contraste com alguns episódios recentes no país é inevitável. Obras vêm sendo questionadas ou retiradas de escolas e bibliotecas não por sua qualidade literária, mas pelo desconforto provocado por determinados temas, personagens ou visões de mundo. É legítimo discutir adequação etária, critérios pedagógicos e mediação da leitura. Outra coisa é pretender proteger crianças eliminando de seu horizonte aquilo que contraria as convicções dos adultos.

Nesse ponto, Ottawa oferece uma inversão reveladora. Enquanto no Brasil, em alguns casos, se discute quais vozes devem deixar de ser ouvidas, o debate internacional procura identificar quais vozes ainda não estão sendo escutadas. São movimentos em direções opostas. Um reduz o repertório; o outro procura ampliá-lo.

A diferença não é apenas literária ou pedagógica. É também política. Uma sociedade democrática não se constrói oferecendo às novas gerações apenas ideias com as quais seus pais, professores ou governantes concordam. Forma-se para a democracia quando se desenvolve a capacidade de entrar em contato com perspectivas diferentes, examiná-las criticamente e conviver com a divergência. O oposto do cancelamento não é a concordância. É a convivência.

Isso não significa transformar qualquer livro em obra adequada para qualquer idade nem retirar das famílias e dos educadores a responsabilidade sobre a formação das crianças. Significa reconhecer a diferença entre mediação e interdição. A primeira contextualiza, acompanha, educa e promove o diálogo; a segunda simplesmente elimina a possibilidade de encontro com aquilo que incomoda.

A literatura infantil assume, assim, uma responsabilidade que ultrapassa a formação de leitores. Ela participa da formação de cidadãos capazes de viver em sociedades culturalmente complexas, nas quais diferenças não são acidentes a serem corrigidos, mas parte constitutiva da vida em comum.

“Escutar as vozes uns dos outros” recupera, mais de 70 anos depois, a intuição de Jella Lepman. Livros não eliminam conflitos nem fazem desaparecer divergências. Podem, entretanto, ensinar algo indispensável às sociedades democráticas: o outro não precisa pensar como nós para ter o direito de contar sua história. Antes de aprender a conviver com a diferença, é preciso reconhecer sua existência. E estar disposto a ouvi-la.

Oligopólios são uma ameaça à democracia, não o diploma de jornalismo

O debate em torno da exigência do diploma de Jornalismo para o exercício profissional ganhou escala nos últimos dias, a partir das declarações favoráveis dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e incendiaram as redes sociais. Não demorou para que o setor empresarial da mídia se insurgisse ostensivamente contra essa possibilidade, firmando o brado retumbante contra uma suposta evocação aos tempos do regime militar. Editoriais e colunas de opinião em alguns dos maiores jornais do país, como Folha de São Paulo e Estadão, que no passado foram eles próprios colaboradores da ditadura, voltaram a rotular a luta pelo diploma como “entulho autoritário” e como um risco para a liberdade de imprensa.

Na verdade, o que ameaça a liberdade de imprensa e a democracia brasileira é justamente um ambiente informacional marcado por alta concentração da propriedade dos meios de comunicação e precarização dos/as trabalhadores/as do setor. Cenário este que não apenas permaneceu tal qual, como foi piorado, na atualidade, pela arquitetura de funcionamento das corporações digitais oligopólicas. Elas passaram a dominar a infraestrutura de distribuição da informação, definindo o alcance de praticamente qualquer tema no debate público, sem nenhuma transparência algorítmica ou responsabilidade social, deslocando inclusive parte do poder de agendamento e da sustentabilidade econômica dos monopólios hegemônicos de outrora.

Entre as perguntas que precisam ser feitas no debate atual sobre o diploma de jornalista, estão: a dispensa da formação profissional obrigatória, decidida em 2009 pelo STF, trouxe ganhos sociais concretos na garantia das liberdades constitucionais? Melhorou a qualidade do Jornalismo brasileiro em relação ao período anterior? Em ambas as questões, as evidências disponíveis mostram que não.


Do ponto de vista das relações de trabalho, a desregulamentação profissional do Jornalismo só ajudou a aprofundar o processo de redução de postos de trabalho e salários, além de ampliar a perda de direitos por meio de contratações ultra precarizadas, situação agravada pela Reforma Trabalhista de 2017.

Obviamente que o fim da exigência do diploma não é a única explicação para a piora das condições trabalhistas, mas é inegável que foi, e segue sendo, um fator de desestabilização profissional, com impactos negativos sobre a independência e a autonomia dos/as jornalistas, que ficam ainda mais suscetíveis a pressões editoriais, processos judiciais de censura e assédio político.

Já do ponto de vista das prerrogativas constitucionais, como o sigilo da fonte, tão alardeado na última semana, a desregulamentação profissional criou foi mais insegurança jurídica para o seu exercício real, pois turvou a distinção entre quem atua como jornalista profissional, amparado em parâmetros técnicos e éticos, daqueles que se valem de uma garantia fundamental para operar desinformação, alimentar canais de difamação e, nos casos mais graves, acobertar ou sustentar o crime organizado.

Ao contrário do que propaga o senso comum corporativo, a exigência de diploma não cerceia vozes; ela organiza a profissão diante do abismo contemporâneo da desinformação e da precarização das condições de trabalho. Infelizmente, mitos e imprecisões têm prevalecido neste debate, e é preciso desfazê-los, como buscaremos a seguir.

Um dos argumentos mais frequentes de quem se opõe ao diploma é o de que ele representaria uma barreira de acesso excludente ao mercado de trabalho. Essa visão, no entanto, ignora as transformações socioeconômicas estruturais do Brasil recente. Se há algumas décadas o ingresso no ensino superior era um privilégio quase exclusivo de pessoas majoritariamente brancas das classes média e alta, e a oferta de cursos de Jornalismo era restrita, hoje o cenário se democratizou de forma significativa, com a expansão e a descentralização das universidades. É verdade que as instituições privadas são maioria e o custo ainda representa um obstáculo, mesmo que o financiamento estudantil seja política pública consolidada, mas falar em barreira elitista de acesso ao nível superior na atualidade é ignorar uma realidade concreta.

A profissão continua exigindo um registro formal para ser exercida legalmente no Brasil. Isso jamais chegou a ser abolido. Ou seja, qualquer pessoa que queira exercer o Jornalismo como profissional, nos dias atuais, precisa ser registrada no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através das delegacias regionais de trabalho (DRTs). Antes da decisão do STF, o registro era apenas emitido a quem apresentasse diploma de conclusão de curso em jornalismo. Ocorre que, após a “queda do diploma”, não foram definidos, muito menos aplicados, parâmetros fixos, sérios e seguros para sua concessão. Importante lembrar que outras funções técnicas da comunicação, como repórteres fotográficos e repórteres cinematográficos, seguem exigindo registros profissionais específicos, que são emitidos mediante apresentação de portfólio e, muitas vezes, com participação sindical.

Mesmo nos países em que o diploma específico não é exigido, há sim, na grande maioria deles, critérios de acesso à profissão, que incluem obrigações como a sindicalização, a comprovação de atuação profissional (reconhecida por pares ou organizações de trabalhadores) ou algum registro formal que demonstre o vínculo com a atividade jornalística.

Se para exercer o Jornalismo ainda é necessário o registro, o caos se materializa, no caso brasileiro, pelo fato de que qualquer pessoa consegue esse documento sem maiores demonstrações. Memorial elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), e distribuído aos ministros do STF, aponta que pessoas que não foram alfabetizadas e até mesmo menores de 18 anos tiveram acesso ao registro profissional de jornalista. Sem contar os inúmeros oportunistas que hoje oferecem serviços pagos para auxiliar na emissão do registro – algo que é feito gratuitamente pelas DRTs.

Diante desse cenário de descaso e de outras propostas regulatórias complexas, o diploma acadêmico destaca-se como o critério mais objetivo, justo e transparente para organizar a prática jornalística. O diploma certifica que o profissional passou por um processo sistemático de aprendizado sobre ética, métodos de apuração e responsabilidade social. Ele deve ser o ponto de partida, não o diferencial. Sem esse anteparo, a profissão afunda em um cenário de desestruturação que mais interessa ao setor patronal do que ao conjunto da sociedade. E no qual qualquer critério subjetivo pode ser usado para fins de exclusão ou favorecimento. Apesar de ser considerada uma profissão essencial para a sociedade e pilar da democracia, não há qualquer zelo sobre quem pode atuar como jornalista.

A exaustiva narrativa de que a exigência de diploma ameaça a liberdade de expressão é uma inversão retórica aparentemente sofisticada, mas frágil. Como já destacado e amplamente verificável, a verdadeira mordaça ao pluralismo e à livre circulação de ideias não vem das salas de aula das faculdades, mas sim da altíssima concentração econômica exercida pelos oligopólios de mídia e, de forma crescente, pelos oligopólios digitais. São esses gigantes econômicos que controlam os canais de distribuição de informação, ditam e interditam as condições do debate público e sufocam iniciativas independentes.

Essa contradição fica evidente ao analisar o uso de exemplos demagógicos por parte de formadores de opinião da grande imprensa para se opor à necessidade de diploma. Nos últimos dias, tornou-se frequente o argumento de que a exigência do diploma impediria o funcionamento e as denúncias de emissoras comunitárias, por exemplo. No entanto, a questão das rádios comunitárias é historicamente invisibilizada por essa mesma grande imprensa.

Na prática, as rádios comunitárias sofrem há décadas com entraves para ampliar sua potência e obter sustentabilidade econômica devido à pressão direta de associações patronais de empresas de comunicação. Utilizar a radiodifusão comunitária como escudo para atacar o diploma é uma ironia que esconde o real sufocamento da liberdade de expressão e da comunicação democrática promovido pelos monopólios midiáticos. Além disso, antes de 2009, quando o diploma era obrigatório, a atuação de comunicadores populares e a liberdade de expressão comunitária nunca deixaram de existir, e eles já sofriam com a opressão dos setores empresariais que deveriam estimulá-los.

Outro argumento falso é o de que a exigência foi uma invenção autoritária da ditadura. Trata-se de reivindicação histórica do próprio movimento sindical de jornalistas iniciada na década de 1940. Os militares nunca precisaram se valer da regulamentação profissional para perseguir jornalistas. Eles o faziam de forma direta pela censura, pela cassação de licenças de emissoras e pela colaboração dos próprios empresários proprietários dos meios de comunicação. Vladimir Herzog, por exemplo, não foi perseguido, torturado e assassinado durante a ditadura em decorrência da legislação profissional, mas pelo exercício do poder de repressão política e ideológica do regime, operado por meio de órgãos como o DOI-CODI.

Usar a origem cronológica do decreto de regulamentação profissional para desqualificar a regra ignora que direitos trabalhistas cruciais, como a CLT, criada na era Vargas, também nasceram em períodos de exceção e nem por isso perdem seu valor de proteção social.

A conjuntura atual, em 2026, impõe desafios tecnológicos e trabalhistas muito mais complexos do que aqueles enfrentados em 2009. O avanço descontrolado da inteligência artificial (IA) generativa, o uso de deepfakes e a disseminação industrializada de desinformação ameaçam efetivamente a própria integridade da democracia. Nesse ecossistema de alta complexidade, a qualificação técnica rigorosa, baseada em métodos científicos de apuração e em um sólido código de ética profissional, torna-se um pilar inegociável para a integridade da informação de interesse público. Se, mesmo com a exigência de formação acadêmica, o mercado já se mostra vulnerável a abusos, sem o diploma a situação tende a se deteriorar de forma irreversível. Além de cobrar a volta da exigência do diploma, devemos também exigir a fiscalização da qualidade do ensino oferecido pelas faculdades de Jornalismo, em especial as particulares.

Ademais, a queda do diploma contribuiu significativamente para a degradação das relações trabalhistas na área, como já destacado. A desregulamentação da formação criou um ambiente extremamente favorável à precarização sistêmica, ao desemprego e à expansão da pejotização irregular. Esse quadro de fragilidade laboral se agravou mais recentemente com a aprovação da Lei nº 15.325/2026 (Lei do Multimídia).

Ao criar a figura do profissional de “multimídia”, essa legislação promoveu a sobreposição de funções e acendeu o alerta das entidades representativas, motivando uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), no STF, por parte da Fenaj e da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Organizar o exercício profissional por meio de critérios objetivos não se confunde com censura ou restrição da fala. Como defendem a Fenaj e seus sindicatos, o direito à livre expressão é universal e garantido a qualquer cidadão. O jornalismo, contudo, é um trabalho especializado que exige método, verificação empírica, técnicas de apuração e responsabilidade jurídica.

Superar o cenário atual de precariedade laboral e institucional passa, inevitavelmente, pelo resgate do diploma universitário de jornalismo como critério de registro profissional. Trata-se de uma medida a mais para proteger os direitos trabalhistas e conter as fraudes de registros falsos, e, sobretudo, para salvaguardar a sociedade na era da desinformação, garantindo a higidez da informação profissional indispensável à democracia.

Seria ingênuo e apelativo argumentar que a exigência do diploma resolveria o problema da desinformação. Essa epidemia precisa ser enfrentada com um conjunto amplo de políticas públicas, que vão desde a institucionalização da educação midiática nas escolas até a efetiva regulação democrática, pública e transparente do ambiente digital. Mas a exigência da formação em Jornalismo é um passo acertado na direção de proteger e promover esse pilar tão importante da democracia: o jornalismo profissional.
Renata Roncali Maffezoli / Pedro Rafael Vilela

A vanguarda do atraso

Não sei se Lulinha é inocente ou culpado por tudo que lhe atribuem. Isso está sob investigação. O inquérito corre em segredo de Justiça. Mas não preciso ser um jornalista diplomado (e sou) para concluir que grande parte da imprensa quer ver Lulinha enterrado na lama para, assim, prejudicar as chances de seu pai se reeleger. Nada muito diferente do que aconteceu durante o período da Lava Jato, que resultou na prisão de Lula por 580 dias e no impedimento de disputar a eleição presidencial de 2018, vencida por Jair Bolsonaro.


Todas as eleições presidenciais desde o fim da ditadura militar de 64 se deram à sombra do pernambucano nascido em 1945, registrado com o nome de Luiz Inácio da Silva e filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, que depois se tornaria conhecida como Dona Lindu. Ambos trabalhavam na agricultura de subsistência, cultivando a terra para o sustento da própria família. Como líder sindical na região do ABC paulista, Luiz Inácio virou Lula; e em 1982, para disputar o governo de São Paulo, adotou oficialmente o nome Luiz Inácio Lula da Silva.

Foi candidato a presidente da República pela primeira vez em 1989, sendo derrotado por Fernando Collor de Mello. Perdeu as eleições de 1994 e 1998 para Fernando Henrique Cardoso. Elegeu-se presidente em 2002, reelegeu-se em 2006 e venceu novamente em 2022. É o único presidente desde 1930 que elegeu e reelegeu sua sucessora, Dilma Rousseff. Ganhe ou perca a eleição deste ano, passará à História como o brasileiro que pelo voto popular governou o Brasil por mais tempo. Getúlio Vargas governou 15 anos como ditador e apenas quatro como presidente eleito.

Por sua origem e suas ideias, Lula jamais foi aceito pelas elites que construíram um dos países mais desiguais do mundo – o último do Ocidente a acabar oficialmente com o sistema escravocrata. Quando o Brasil criou sua primeira universidade, já existiam 76 universidades na América do Norte e 26 na América do Sul. Embora figure entre as maiores economias do mundo, o Brasil ocupa a 79ª posição no ranking global de PIB nominal per capita, e a 87ª posição quando o cálculo considera a Paridade do Poder de Compra (PPC).

Daí a alta rejeição de Lula, que conseguiu incluir os mais pobres na agenda nacional. Na época da ditadura, dizia-se que era preciso deixar crescer o bolo das riquezas para depois reparti-lo. Um logro. A concentração de renda continua rígida no topo da pirâmide. Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram que a divisão atual do bolo penaliza os mais necessitados. O grupo dos 10% mais ricos detém mais de 40% de toda a renda gerada no país. Essa única fatia é maior do que toda a renda somada dos 70% mais pobres da população

Respondam com sinceridade: será Flávio Bolsonaro, se eleito presidente, que se empenhará em mudar essa situação, ou pelo menos atenuá-la? Se a resposta for sim, por que ele é contra a redução da jornada de trabalho de 6×1? Por que se esforça tanto para que ela não seja votada no Senado?
Ricardo Noblat

Bets causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump

Além dos riscos de vício, impactos sobre a saúde e sobre o endividamento e a situação financeira de milhares de brasileiros, as apostas têm um efeito maior, que ultrapassa suas consequências sobre o orçamento doméstico das famílias.

Para mensurar esse efeito, o economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou o impacto das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos pelo país), a arrecadação do governo e a desigualdade.

Segundo o estudo inédito, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.

"Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 [que foi de 2,3%] e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro", compara Klein, no estudo.


Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda estimou o potencial impacto da tarifa de importação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros em 0,2 ponto percentual do PIB entre agosto daquele ano o final de 2026.

Em julho, esse tarifaço foi prorrogado por mais um ano e os EUA anunciaram tarifas adicionais de 25% e 12,5% neste ano.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidades representativas do setor de bets, reconhecem "a importância de aprofundar o debate sobre os impactos econômicos e sociais das apostas", mas afirmam que os resultados "devem ser interpretados com cautela".

Para calcular o efeito das bets sobre o PIB, Klein parte de uma estimativa de transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas de apostas.

"Estamos falando basicamente da diferença entre o que é gasto pelas famílias em apostas e o que elas recebem de volta", diz o economista.

"Porque, pela própria natureza do jogo, obviamente o que as pessoas vão receber, em média, é menor do que o que elas pagam."


Crédito,AFP via Getty ImagesLegenda da foto,Estudo recente estima que brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões para bets em 2025

Um estudo recente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central, estima essa transferência líquida de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025.

Esse valor importa, explica Klein, porque cada R$ 1 "perdido" para apostas representa menos dinheiro disponível para o consumo.

A partir desse dado, o pesquisador busca estimar como essa transferência de recursos está distribuída entre as diferentes faixas de renda.

"As pessoas de renda menor gastam proporcionalmente mais da renda delas com consumo", observa Klein.

"Porque a pessoa que ganha pouco acaba tendo que gastar tudo com aluguel, alimentação, vestuário e assim por diante. Então, levamos isso em conta para entender esse efeito agregado."

Com base em outras pesquisas já publicadas, o economista constrói então dois cenários: um em que a maior parte do gasto com apostas vem da faixa de menor renda (até 2 salários mínimos, ou R$ 3.036 em 2025), e outro em que o gasto é mais concentrado nas faixas de renda mais alta.

De posse desses dois cenários, o economista aplica um multiplicador — uma estimativa de quanto R$ 1 a mais ou a menos no bolso das famílias se converte em mais ou menos consumo na economia..

"Fazendo esse cruzamento, chegamos a um efeito entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões — um valor bem importante, porque é quase 1% do PIB", observa.

"O contrafactual, que é o que teria acontecido [sem as apostas], é sempre difícil de fazer em economia, mas esse montante é basicamente metade de todo o crescimento que a gente teve em 2025."

Klein observa que, mesmo levando em conta a estimativa de empregos diretos e indiretos gerados pelas plataformas de apostas — cerca de 15,5 mil, segundo um estudo da LCA Consultores para a ANJL e IBJR, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na economia — esse impacto negativo pouco muda.

Um outro estudo, realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e publicado em abril deste ano, estimou que o avanço da inadimplência severa, parcialmente atribuída aos gastos com bets, retirou R$ 144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025.

Segundo a CNC, o impacto somente no comércio é equivalente às vendas de "dois Natais", principal data do varejo brasileiro, cujas vendas anuais giram em torno dos R$ 70 bilhões.

"As bets não representam apenas entretenimento; configuram-se como um risco sistêmico para a saúde financeira das famílias, drenando recursos que seriam destinados ao comércio varejista e ao consumo produtivo", destaca a confederação.

A partir da estimativa da queda do PIB, Klein calcula o impacto para a arrecadação do governo.

"Isso ocorre basicamente via tributos indiretos, porque cada real gasto com consumo paga imposto", explica Klein.

Ele cita como exemplos o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o Imposto Sobre Serviços (ISS) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), com a reforma tributária, que começou a ser implementada este ano.

No estudo, Klein estima que uma queda de 1% no PIB provoca uma perda de 0,8% a 1,2% na arrecadação.

Como a carga tributária bruta foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica causada pelas bets implicaria uma perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões da arrecadação, descontados os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com os impostos cobrados das plataformas de apostas.

O economista observa que esse dado é importante, porque as apostas muitas vezes são colocadas como algo que está gerando arrecadação para o governo. Mas, devido à perda de consumo, esse efeito pode ser, na verdade, negativo, quando as duas coisas são colocadas "na ponta do lápis".

"E isso sem nem entrar na questão dos gastos gerados, como as despesas com saúde devido ao vício", destaca o professor da UFRJ.

Por fim, para estimar o potencial impacto das apostas sobre a desigualdade, Klein também elabora dois cenários: um que considera que a perda de R$ 62,5 bilhões com bets se concentra nos 99% da população fora do 1% mais rico, e outro que considera que não só isso acontece, como que esse valor é transferido ao 1% mais rico (um cenário extremo, pois é sabido que parte das empresas de apostas são estrangeiras, então uma parte desses recursos vai, na verdade, para fora do país).

Nesses dois cenários, o aumento da concentração da renda no topo (esse 1% mais rico) varia de 0,5% a 2,1%, algo relevante num país que é ainda hoje um dos mais desiguais do mundo.

Para Klein, o que os resultados sugerem é que o Brasil deveria, no mínimo, aumentar a tributação das bets. "A taxação tem que ser ampliada, para que, pelo menos, tenhamos um aumento da arrecadação líquida", defende o economista.

"Não faz sentido nenhum permitir uma atividade que reduz a arrecadação, que aumenta a desigualdade num país já tão desigual, e causa uma série de outros problemas sociais e de saúde, que são o que a gente em economia chama de externalidades", observa.

O pesquisador cita o exemplo dos cigarros, que causam doenças que oneram o sistema público de saúde, e por isso são altamente taxados.

"Faz todo o sentido ter uma tributação alta o suficiente para, no mínimo, cobrir esses custos a mais que essa atividade gera."

Questionada sobre os resultados do estudo, a ANJL afirmou em nota à BBC News Brasil que "tais estimativas devem ser analisadas com cautela antes de serem divulgadas como verdadeiras e robustas".

Segundo a entidade, o exercício é "fortemente dependente das hipóteses adotadas, e não uma estimativa causal do efeito das bets sobre o PIB".

A ANJL considera que o multiplicador adotado por Klein no estudo é desproporcional, que o valor de R$ 62,5 bilhões em perdas estaria superestimado, e que a análise ignora que apostas são bem de lazer e substituem outros gastos de entretenimento, como cinema, teatro, streaming e futebol.

A associação refuta ainda a comparação com o crescimento de 2025, observando que as bets já existiam em 2024.

"Para avaliar quanto sua expansão teria reduzido o crescimento do PIB em 2025, seria necessário estimar principalmente o efeito incremental entre 2024 e 2025, e não comparar todo o suposto efeito de nível existente em 2025 com a variação do PIB naquele ano", pondera.

Já o IBJR destaca que os resultados "partem de uma estimativa contrafactual de R$ 62,5 bilhões, e não de perdas efetivamente observadas nas operadoras"; questiona algumas das pesquisas escolhidas por Klein como base para o estudo; e a premissa de que os recursos destinados às apostas seriam integralmente redirecionados ao consumo.

"O estudo também não mensura, com metodologia equivalente, o valor adicionado pelo setor regulado, incluindo aspectos como geração de empregos, cadeia de fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação tributária", observa o IBJR.

"Ressaltar essas limitações não significa desqualificar o estudo, mas contribuir para uma avaliação mais ampla e consistente dos seus resultados", diz o instituto.

"Em uma questão de tamanha relevância econômica e social, é necessário que a análise dos impactos considere a qualidade das bases utilizadas, os critérios metodológicos adotados e o conjunto das evidências disponíveis."
Thais Carrança

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A peste limpou as terras

“Deus é inglês”, disse o piedoso John Aylmer, pastor de almas, há uns quantos anos. E John Winthrop, fundador da colônia da baía de Massachusetts, afirma que os ingleses podem apropriar-se das terras dos índios tão legitimamente como Abraão entre os sodomitas: O que é comum a todos não pertence a ninguém. Este povo selvagem mandava sobre vastas terras sem título nem propriedade. Winthrop é o chefe dos puritanos que chegaram no Arbella, há quatro anos. Veio com seus sete filhos.

O reverendo John Cotton despediu os peregrinos no cais de Southampton garantindo-lhes que Deus os conduziria voando sobre eles com uma águia, da velha Inglaterra, terra de iniquidades, até a terra prometida.


Para construir a nova Jerusalém no alto da colina, chegam os puritanos. Dez anos antes do Arbella chegou o Mayflower a Plymouth, quando já outros ingleses, ansiosos por ouro, tinham alcançado, ao sul, a costa de Virgínia. As famílias puritanas fogem do rei e de seus bispos. Deixam atrás os impostos e as guerras, a fome e as pestes. Também fogem das ameças de mudança na velha ordem. Como diz Winthrop, advogado de Cambridge nascido em berço nobre, Deus todo-poderoso, em sua mais santa e sábia providência, dispõe que na condição humana de todos os tempos uns haverão de ser ricos e outros pobres; uns altos e eminentes no poder e dignidade, e outros medíocres e submetidos.

A primeira vez, os índios viram uma ilha que caminhava. O mastro era uma árvore e as velas, nuvens brancas. Quando a ilha parou, os índios se aproximaram, em suas canoas, para buscar morangos. Em lugar de morangos, encontraram varíola.

A varíola arrasou comunidades índias e limpou o terreno aos mensageiros de Deus, escolhidos por Deus, povo de Israel nas areias de Canaã. Como moscas morreram os que aqui viviam há mais de três mil anos. A varíola, diz Winthrop, foi enviada por Deus para obrigar os colonos ingleses a ocupar as terras limpas pela peste.

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

Confundir paz com pás

Numa das minhas últimas viagens a Angola, ofereceram-me uma obra já antiga de Pepetela, o romance Parábola do cágado velho (Luanda: Texto ed., 2016). A estória, escrita com a conhecida mestria do autor, reflete a cultura popular e a vida dos camponeses no interior do país, durante a longa guerra civil que se seguiu à independência.

Registei, em especial, uma frase: “(…) ainda não há paz, só se anda à procura dela.” Ou seja, as pessoas desejavam que o conflito terminasse para tocarem a sua vida para a frente, em sossego, mas a realidade de todos os dias ia desmentindo a possibilidade de alcançar a tão almejada paz e a segurança que dela haveria de decorrer.


Depois de os angolanos terem lutado pela libertação do colonizador, não contra o povo português mas sim contra o governo autocrático de Lisboa, guerreavam agora entre si, que é a pior das guerras, irmãos contra irmãos. Nada de novo na História.

O processo político e militar que levou as 13 colónias britânicas da América do Norte a rebelarem-se contra o domínio da Grã-Bretanha ficou conhecido como Revolução Americana (1765-1783), tendo influenciado a Revolução Francesa e movimentos independentistas. Dela resultou a fundação dos Estados Unidos da América, formalizada pela Declaração de Independência de 4 de julho de 1776, e portadora duma nova filosofia política, inspirada nos ideais liberais e iluministas europeus.

Décadas mais tarde, estalou a Guerra da Secessão (1861-1865), um confronto muito mais curto na duração mas muito mais penalizador em vidas humanas. Desse confronto, que opôs o norte industrializado ao sul agrário e esclavagista, resultaram cerca de 600 mil mortos, revelando-se assim muito mais devastador do que o processo da independência.

Como dizia a personagem de Pepetela, é preciso andar à procura da paz até a encontrar. Não é coisa que se descubra debaixo duma pedra, que se colha das árvores ou que se compre numa loja qualquer. A resolução de qualquer conflito parte de atitudes humanas de quem tem o poder. Tem que ser pacientemente tecida com muita determinação e consciência.

A guerra é a atividade humana mais estúpida ao cimo da terra, visto que ninguém ganha com ela, mesmo quando parece que sim. Mas se formos a ver até o vencedor declarado – quando o há – tem que lamber as feridas e pagar o preço de devastação na economia e no edificado, além dos mortos, feridos, estropiados e perturbados mental e emocionalmente. A guerra diminui-nos como seres humanos. Por isso Einstein dizia que “a paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.”

Isto devia levar os governantes dos países a pensar muito bem antes de iniciar um conflito armado. A administração Trump atirou-se ao Irão e afinal agora não sabe como sair de lá sem dar a ideia de derrota. Não alcançou nenhum dos seus objetivos e, entretanto, a situação ficou bem pior do que antes, como se vê pelo estado em que se encontra o Estreito de Ormuz. Lembremo-nos que a maior potência militar do mundo já antes tinha saído com o rabo entre as pernas do Vietname e, mais recentemente, do Afeganistão.

O Império Britânico não conseguiu impedir a independência dos Estados Unidos, nem da Índia e do Paquistão. O regime desumano do apartheid na África do Sul não conseguiu subsistir. As colónias africanas não puderam continuar a ser mantidas pelas potências europeias desde os anos sessenta. E no entanto todos recorreram à força para evitar o inevitável.

A ideia de que a paz se faz pela guerra é muito questionável. Normalmente, comportamento gera comportamento, e o povo diz que quem semeia ventos colhe tempestades. Segundo John Kennedy, “são precisos dois para fazer a paz.”

E claro, nunca é demais lembrar a afirmação de Jesus Cristo: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27). Mas esta é uma paz suprema, a paz espiritual, que está acima de qualquer outra.

A paz ambicionada não pode continuar a ser confundida com as pás de enterrar os mortos em Gaza, no Líbano, na Ucrânia, na Rússia e em tantos outros lugares de que pouco se fala. Tenham juízo, procurem a paz.

Considerações sobre o ‘interregno’

Como tudo na vida, palavras envelhecem, e talvez seja essa a sensação que nos assalta ao depararmos com o uso reiterado de “interregno” para indicar o atual estado das coisas. Na conhecida formulação de Gramsci, a velha ordem está morta e não mais regula corações e mentes, enquanto a nova ainda não consegue se afirmar. No intervalo entre ambas, o mundo se enche de sintomas mórbidos. Provocadora, a imagem parece explicar o caos ao redor, mas há quem nela observe a persistência de uma certeza anacrônica sobre a nova ordem que viria a se impor por meio da revolução.

Admitida a observação, pode-se ainda teimar em que a metáfora ao menos chama a atenção para os riscos próprios de épocas de transição como a nossa. Não por acaso, circulam por aí ideias-zumbis e figuras extravagantes, que recusam comportamentos baseados em regras, ainda que imperfeitas, e proclamam a lei do mais forte. Os sintomas precisam ser pesquisados, assim como buscados os remédios, todos eles políticos, naturalmente. Essa procura incessante, sem prescindir de analogias, não pode se limitar a elas – os adversários da sociedade aberta não são os mesmos de 1930 nem liquidá-los como “fascistas” nos deixa necessariamente em posição mais segura.


Pode ser que estejamos de novo em plena mudança estrutural do espaço público – mudança que, significativamente, Anton Jäger, pesquisador belga da Universidade de Oxford, descreve em termos de “hiperpolítica” (cf. Hyperpolitics: Extreme Politicization Without Political Consequences, Verso Books). Para onde quer que olhemos, pessoas comuns estão em meio a polêmicas ferozes e a contraposições intratáveis. Parecem se contentar com identidades fixas numa sequência interminável de guerras digitais. Algoritmos invisíveis confinam em guetos até quem, pouco antes da entronização das redes sociais, tocava em paz a vida, imerso no próprio mundo privado. Uma politização inflamada, sem dúvida, mas de modo geral sem engajamento em partido, sindicato ou associação “real”.

De fato, essa não é a política de massas da alta modernidade. Para o bem e para o mal, os partidos eram como que a “nomenclatura das classes”. Partidos conservadores podiam ter uma base popular considerável ou, se fossem democratas cristãos, inseriam uma dimensão solidária no liberalismo.

Partidos trabalhistas ou comunistas enraizavam-se na vida sindical, buscando integrar institucionalmente os “de baixo” ou mobilizá-los para a utópica nova ordem anteriormente mencionada. Tudo somado, um processo amplo de incorporação política, abalado, de tempos em tempos, por choques ideológicos que levaram a sacrifícios enormes e a guerras de violência sem precedentes.

A globalização neoliberal dos anos 1990 significa ruptura radical com este “mundo de ontem”. A revolução assim desencadeada, disseminando a mercantilização de todos ou quase todos os âmbitos da vida, teve uma característica singular: fez da economia o fator de ordenação tendencialmente total. Com Reagan e Thatcher, o capitalismo se reinventa e mais uma vez dissolve no ar tudo o que aparentava solidez. A administração das coisas predomina, as instituições se esvaziam, os partidos apresentam programas que mal se distinguem uns dos outros. Afinal, “não havia alternativa”, uma frase de rara soberba que se proclamava aos quatro ventos.

O século 21, sobretudo a partir da grande crise de 2008, se encarregou de liquidar as ilusões economicistas da “pós política” – e aqui voltamos ao argumento mais original de Jäger sobre o “interregno”. Coletivamente não nos livramos da rarefação institucional anterior, até porque não se interrompeu a individualização frenética da vida. Movemo-nos como átomos, as mobilizações hiperpolíticas podem ser intensas, mas são também fugazes e instáveis. E o drama maior é que não há caminho de volta: impossível, ou inaceitável, voltar às formas organizacionais da maior parte do século passado, que não mais seriam vividas como vetores de liberdade.

A reconstrução da sociedade civil, espaço de mediação entre indivíduo e Estado, é o desafio posto diante das forças democráticas há muito na defensiva. No variado espectro do liberalismo, há gente disposta a experimentar formas inovadoras de mudança e recriação da vida social. E, felizmente, o mesmo pode ser dito dos socialistas que não se curvaram ao canto das sereias populistas e à sua recorrente desconfiança dos procedimentos democráticos. Fazer com que aqui e ali, e ainda que aos poucos, se estabeleçam nexos entre essas duas grandes áreas político-culturais é um objetivo permanente, não uma tática para circunstâncias críticas.

O motor de tal convergência é a constatação de que, no presente “interregno”, o frenesi hiperpolítico e a pobreza institucional formam terreno propício para a recomposição dos poderes fortes e a afirmação dos homens providenciais. Tais processos negativos – é dispensável dizer – constituem o núcleo dos sintomas mórbidos que vêm corroendo por dentro as modernas democracias e o sistema de liberdades que lutas seculares nelas inscreveram.

O lado evangélico da força

A estrutura moral sobre a qual se erguem as religiões é tão rígida que, se não houvesse a figura do perdão, seria humanamente impossível segui-la. Mas os crentes podem ficar descansados porque perfeito só Deus e até Jesus Cristo vacilou na hora da morte quando exclamou: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” Era a solidão extrema a falar, depois de carregar os pecados do mundo. Para os humanos, existe um consolo: podem pecar, são humanos, e arrepender-se depois, alcançando o perdão da bondade divina.

Nos tempos atuais, as contradições entre o que manda a lei divina e o que os crentes pensam parecem ter deixado de ser dilemas morais dilacerantes que exigem arrependimento. Podemos acreditar em Deus e nos seus mandamentos (“Não matarás”) e defender abertamente a pena de morte em público, pregando-a até através dos média.

Não levantar falsos testemunhos, não cometer adultério, não cobiçar as coisas alheias… tudo muito relativo numa lista de mandamentos que devia ser absoluta. A famosa hipocrisia que sempre se atribuiu à Igreja Católica (pregando a humildade e o jejum enquanto os seus representantes se refastelavam em riquezas e banquetes) é o novo normal dos crentes em geral, não só os católicos. E aqui falaremos dos cristãos, católicos e evangélicos, que se dizem guiados pela palavra de Jesus Cristo.


Somos todos irmãos? Mais ou menos. Para a ultradireita religiosa, ciganos, africanos ou indostânicos não são propriamente nossos irmãos, não têm o direito de habitar o nosso país, como um irmão que queremos ver expulso de nossa casa. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra? Especial cuidado com esta, podemos acabar violentamente apedrejados pelo julgamento precipitado de quem não mostra qualquer misericórdia.

Somos contra a imigração, mas aceitamos o apoio de evangélicos brasileiros? Claro, são uma franja importante da direita radical a quem é preciso dar a mão. Deputadas do Chega, entre as quais Rita Matias, integram o novo movimento de mulheres conservadoras, onde se incluem várias brasileiras evangélicas. Não estão lá por acaso, elas têm um papel principal, refletido, aliás, nos vídeos de promoção.

Os vídeos de mulheres cristãs conservadoras são uma ferramenta preciosa para os grupos red pill, de homens que odeiam a emancipação feminina. Eles usam-nas justamente para mostrar que as próprias mulheres defendem este regresso a casa e à família, como se alguma vez elas tivessem deixado de ter o trabalho maior em casa e com os filhos. Curioso que muitos destes homens nem sequer têm um salário que lhes permita sustentar sozinhos uma família, mas isso são pormenores, contradições – e talvez a grande causa do seu ódio contra as mulheres independentes.

As mulheres conservadoras cristãs também vivem um paradoxo sem nenhuma lógica. Se defendem que o voto, por exemplo, deve ser familiar (ou seja, um voto por família, centrado no chefe da casa, como pedem tantos movimentos evangélicos), o que andam a fazer em vídeos nas redes sociais ou por que andam a criar movimentos para ter voz? Não devíamos estar a ouvi-las a elas, mas sim aos maridos.

Sem nenhuma coerência entre o que dizem e o que fazem, fica difícil convencer os não crentes. Neste atentado à razão, resta suspirar, como Jesus Cristo: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.”

Este filme já passou e no fim o bandido morre. Mas se não morrer?

Saudades de quando Flávio Bolsonaro ensaiava, meio sem jeito, dancinhas despojadas de graça e se apresentava como a versão moderada do pai — aquela tão desejada pelo Brasil, segundo ele. Agora, Flávio desfila pelos palcos do país como uma cópia quase perfeita do pai, condenado a 23 anos e sete meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. É uma cópia quase perfeita porque o pai tem carisma e ele não, além de o pai ser muito mais inteligente do que o filho.

O escândalo do Banco Master começou a derrubar a farsa do Flávio bonzinho, educado e conciliador. Uma vez que fracassou na tarefa de atrair o apoio de outros partidos ao seu nome, restou-lhe se conformar com o que de fato é: aliado de milicianos, adepto de práticas heterodoxas no manuseio do dinheiro público, capaz de prestar vassalagem a presidentes estrangeiros e de negociar os interesses nacionais, se preciso for, para se eleger.


Com isso, está de volta o Flávio defensor da retirada de circulação, “em pé ou deitado”, de bandidos, “porque quem tem de andar nas ruas é a população”. Está de volta o Flávio que também promete aprovar no Congresso a castração química para estupradores de crianças e mulheres. “Não gostou? Vote em defensor de bandido”, ele sugere. Está de volta o Flávio que ataca a segurança das urnas eletrônicas e se propõe a reformar, ao seu gosto, o Poder Judiciário.

Esse filme já passou, e no fim o bandido morre. Mas isso foi no tempo em que o espectador sabia distinguir com clareza entre bandido e mocinho. Na era da busca incessante por justiceiros, o bandido pode parecer mais eficaz do que o mocinho de bons modos. Os ritos da democracia costumam ser mais lentos do que os da ditadura, e os golpistas se aproveitam disso para alcançar seus objetivos. Espantoso é que o façam em nome da democracia e da liberdade de expressão.

Por fim, derrotar o bolsonarismo pela segunda vez consecutiva não o sepultará para sempre, mas daqui a quatro anos ele estará mais fraco. Pensem nisso na hora de votar.

Alerta urgente: a água que ainda teimamos em desperdiçar

Há viagens que nos deixam fotografias. Outras deixam-nos uma inquietação que regressa connosco a casa. A viagem que fizemos entre os dias 4 e 14 de agosto, ao longo de cerca de 2.900 quilómetros de estrada, entre Aveiro, Burgos, Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan, Bordéus, Valladolid e Tordesilhas, trouxe-me uma certeza física que é difícil ignorar: o clima que durante décadas associei a Cabo Verde, ao Brasil, à Guiné Equatorial, à Tunísia ou a outras geografias de calor e escassez começou a instalar-se dentro da Europa.

Em sucessivos dias, atravessámos temperaturas entre os 36 e os 41 graus Celsius. Em Albi, os registos apontaram para 40 graus nos dias 13 e 14; em Carcassonne, a estação registou 40,6 graus no dia 13; em Bordéus, a Météo-France registou 40,9 graus nesse mesmo dia; e, em Narbonne, as temperaturas máximas chegaram aos 40 e 41 graus. Não são apenas números: são temperaturas que modificam o comportamento, alteram o sono, dificultam o trabalho, tornam penosa a permanência ao ar livre, a respiração e transformam a simples deslocação de uma pessoa numa experiência árdua de resistência física.

Burgos não escapou a esse corredor de calor. No dia 12 de agosto, a estação do aeroporto chegou aos 36 graus durante a tarde. Em Valladolid, a estação da AEMET registou 37,3 graus às 18 horas do dia 12, depois de uma manhã que já começara com temperaturas elevadas; no dia seguinte, as previsões locais apontavam para 39 graus. Em Tordesilhas, onde parámos antes do regresso, a temperatura acompanhava a mesma massa de ar quente que afetava a província de Valladolid. O termómetro pode variar alguns graus entre estações e localidades, mas a sensação no corpo não precisa de uma casa decimal para se tornar evidente: atravessávamos uma Espanha e uma França que nos obrigavam a reorganizar o dia em função do calor.


Em Toulouse, Carcassonne, Albi, Narbonne, Narbonne-Plage, Gruissan e Bordéus, a paisagem continuava magnífica, mas o corpo já não a recebia da mesma maneira. Há um momento em que o calor deixa de ser apenas uma característica do lugar e passa a dominar o lugar. O monumento continua no mesmo sítio, o rio Garonne e o Canal du Midi continuam a correr, a praça continua cheia de história, as vinhas continuam alinhadas no horizonte; mas nós começamos a perguntar-nos quanto tempo podemos permanecer ali. O clima deixa de ser pano de fundo e transforma-se em protagonista.

Conheço essa sensação. Vivi em Cabo Verde, na Tunísia, no Brasil e na Guiné Equatorial. Conheço o que significa viver numa geografia onde a água não é uma evidência quotidiana. Sei o que é passar semanas sem água. Sei o que significa receber na cisterna uma tonelada de água para um mês inteiro e ter de a distribuir pela higiene, pelo banho, pela cozinha, pela roupa, pela limpeza da casa e pelas restantes necessidades essenciais. Uma tonelada são mil litros. Divididos por 30 dias, representam cerca de 33,3 litros por dia. Não 33 litros para beber, porque é impossível por ser perigosa. Não 33 litros para tomar banho. Trinta e três litros para tudo.

Quando se vive assim, a água muda de estatuto. Deixa de ser invisível. Cada banho é uma decisão. Meio copo de água para lavar os dentes. Cada lavagem de roupa implica planeamento. Cada balde tem um destino. Cada litro desperdiçado transforma-se numa perda concreta. Em Cabo Verde, lavavam o meu carro com meio balde de água. Aquilo que um europeu pode interpretar como uma curiosidade ou uma extravagância de contenção era, na realidade, uma resposta racional à escassez. Quando a água pode faltar durante dias ou semanas, desperdiçá-la deixa de ser um comportamento banal e passa a ser uma forma de irresponsabilidade.

É impossível transportar essa experiência para a Europa sem fazer uma pergunta incómoda: quanto gastamos nós?

Um residente europeu utiliza, em média, cerca de 124 litros de água por pessoa e por dia no abastecimento doméstico, embora existam diferenças muito significativas entre países e regiões. Isto significa que o consumo doméstico médio europeu é aproximadamente 3,7 vezes superior aos 33,3 litros diários com que aprendi a viver em situações de escassez. A diferença é tão grande que deveria bastar para nos obrigar a repensar a palavra “normalidade”. O que chamamos consumo normal numa sociedade de abundância seria, noutro contexto, um luxo difícil de imaginar.

Há, porém, uma segunda conta, muito mais perturbadora. Os 124 litros não representam a água escondida nos alimentos que comemos, na energia que consumimos ou nos bens que compramos. Quando se calcula a pegada hídrica associada ao consumo de um cidadão médio da União Europeia, incluindo a água incorporada nos processos de produção, a estimativa chega a cerca de 5.011 litros por pessoa e por dia. Desses, aproximadamente 3.687 litros correspondem à alimentação. Não estamos, portanto, perante cinco mil litros que cada europeu abre diariamente numa torneira. Estamos perante água incorporada naquilo que consumimos, grande parte dela invisível para o consumidor final. A dimensão desta diferença é decisiva: os 33 litros da escassez e os 124 litros do uso doméstico tornam-se quase incompreensíveis quando os comparamos com uma pegada hídrica de milhares de litros por dia.

É precisamente nesta água invisível que começa uma parte fundamental da discussão sobre o desperdício.

Quando deitamos fora comida, estamos também a desperdiçar a água utilizada para a produzir. Quando compramos mais alimentos do que aqueles que conseguimos consumir, não estamos apenas a desperdiçar euros. Desperdiçamos água, solo, energia, trabalho agrícola, transporte e tempo. Quando exigimos frutas e legumes disponíveis durante todo o ano, indiferentes à estação, ao território e à disponibilidade hídrica, estamos a transferir o custo ambiental para regiões onde a água já é escassa. Quando consumimos produtos agrícolas produzidos em contextos de forte pressão sobre os recursos hídricos, a água continua a fazer parte do produto, embora já não esteja diante dos nossos olhos.

A água que não vemos é, muitas vezes, a água que mais desperdiçamos.

É por isso que a questão climática não pode ficar confinada à temperatura do ar. Os 41 graus que sentimos em determinados momentos da viagem são apenas uma parte da equação. A outra está debaixo dos nossos pés: nos solos secos, nos aquíferos pressionados, nos rios com caudais reduzidos, nas culturas agrícolas que precisam de água precisamente quando a evaporação é maior, nos agricultores que olham para o céu e sabem que uma semana sem chuva pode significar uma parte substancial do rendimento anual perdida.

Os dados do Joint Research Centre da Comissão Europeia mostram precisamente esse problema. As ondas de calor e a precipitação limitada têm afetado a humidade dos solos e a produção agrícola em várias regiões europeias, com revisões em baixa das previsões para diferentes culturas, incluindo milho e girassol. A agricultura está a entrar numa nova relação com o clima: não basta saber se choverá; é necessário saber quando choverá, quanto choverá, durante quanto tempo o solo conseguirá reter essa água e se a temperatura permitirá que a planta complete o seu ciclo.

O agricultor encontra-se no centro deste dilema. É ele quem recebe a primeira fatura de um clima alterado. Uma indústria pode, dentro de determinados limites, mudar processos, deslocar horários, instalar sistemas de refrigeração. A agricultura não pode simplesmente mandar uma planta esperar que a temperatura desça. O trigo, o milho, o girassol, a vinha, a oliveira, as árvores de fruto e as hortaliças têm ciclos biológicos. Uma cultura não negoceia com o calendário económico. Precisa de água numa determinada fase, de temperaturas compatíveis com a floração, de solos capazes de reter humidade e de condições que permitam a maturação.

Quando tudo isso falha, perdemos mais do que uma colheita. Perdemos alimento. E quando perdemos alimento, aumentam os preços. Quando aumentam os preços dos alimentos, a inflação deixa de ser um conceito macroeconómico e passa a entrar diretamente no orçamento das famílias.

A França oferece um exemplo evidente. A seca e o calor de agosto afetaram fortemente as culturas de milho, com estimativas de quebra significativa da produção nacional. O problema não termina no campo francês: a redução da produção de um grande produtor europeu altera os equilíbrios de mercado, aumenta a necessidade de importações e pode repercutir-se na alimentação animal, nos preços e em toda a cadeia agroalimentar.

Precisamos de compreender esta cadeia antes de dizermos que a água é apenas uma questão ambiental. A água é agricultura. A agricultura é alimentação. A alimentação é economia. A economia é estabilidade social. E a estabilidade social é política.

Uma seca prolongada pode começar num aquífero e acabar numa eleição.

É por isso que o editorial de Rui Tavares Guedes, publicado na VISÃO de 19 de agosto, merece ser lido como um sinal de mudança de escala. O clima deixou de ser uma preocupação que podíamos projetar para um futuro distante ou atribuir a regiões pobres e vulneráveis do planeta. A seca e o calor estão agora a atingir diretamente a Europa rica, com consequências económicas que o próprio editorial estima em dezenas ou mesmo centenas de milhares de milhões de euros. O clima voltou a ser urgente porque já deixou de ser abstrato.

Mas falta acrescentar uma palavra que, na minha opinião, deve ocupar o centro desta discussão: desperdício.

Enquanto agricultores enfrentam restrições de água, continuamos a alimentar uma cultura de consumo excessivo. Enquanto rios e aquíferos suportam pressão, aceitamos usos de água que poderiam ser substituídos ou reduzidos. Enquanto discutimos a seca, continuamos a lavar automóveis com água potável, a limpar pavimentos com mangueiras, a manter jardins que exigem rega intensa, a encher piscinas e a comportarmo-nos como se cada verão fosse garantidamente igual ao anterior.

A Agência Europeia do Ambiente chama a atenção para um dado igualmente relevante: o turismo pode representar consumos muito superiores ao uso doméstico dos residentes em determinadas regiões. A estimativa citada pela Agência situa o consumo turístico entre 300 e 2.000 litros por pessoa e por dia, devido sobretudo a hotéis, piscinas, restauração, espaços verdes e outros serviços. O problema torna-se particularmente sensível em áreas mediterrânicas, onde a pressão turística coincide precisamente com os meses de maior escassez de água.

A pergunta torna-se inevitável: que sentido faz continuar a tratar a água como um recurso barato e praticamente ilimitado precisamente nos lugares e nos meses em que ela é mais escassa?

Não defendo uma cultura de privação. Defendo uma cultura de inteligência. Não precisamos de voltar ao meio balde de água para lavar um carro. Precisamos de aprender com a lógica que existe por detrás dele: usar apenas aquilo que é necessário.

Há uma enorme diferença entre austeridade e eficiência. A austeridade é imposta pela falta. A eficiência é construída antes da falta. Essa diferença deveria orientar a política de água, como prioridade e urgência absoluta.

Precisamos de redes de abastecimento com menos perdas. Precisamos de reutilizar águas residuais tratadas sempre que isso seja tecnicamente e sanitariamente seguro. Precisamos de recolher água da chuva. Precisamos de sistemas de rega mais eficientes. Precisamos de culturas agrícolas adaptadas às características hídricas de cada território. Precisamos de solos ricos em matéria orgânica, capazes de reter água durante mais tempo. Precisamos de proteger zonas húmidas, rios, nascentes e aquíferos. Precisamos de cidades desenhadas para absorver e guardar água e não apenas para a escoar rapidamente para longe.

E precisamos de começar a discutir sem tabus aquilo que a escassez obrigará a discutir mais tarde: prioridades.

Quando a água não chega para todos, quem tem prioridade? A água para beber ou a água para uma piscina? A água para produzir alimentos ou a água para manter um jardim ornamental? A água para uma comunidade ou a água para uma atividade económica altamente consumidora?

Estas perguntas não podem ser adiadas até ao momento em que os depósitos estejam vazios. Uma política de água responsável estabelece critérios antes da emergência.

Também os agricultores precisam de uma política de transição. Não podemos pedir-lhes que mudem culturas, sistemas de rega, variedades de sementes e técnicas agrícolas sem financiamento, conhecimento e assistência técnica. Não podemos exigir alimentos baratos e abundantes e, simultaneamente, deixar o produtor sozinho perante uma transformação climática que não provocou.

A agricultura de amanhã terá de produzir mais alimento com menos água, mas isso não acontecerá por decreto. Exigirá ciência, tecnologia, investigação agronómica, seleção genética, gestão dos solos, agricultura de precisão, conhecimento local e investimento. Exigirá também uma mudança no consumidor. Comprar local, respeitar a sazonalidade, reduzir desperdício alimentar e aceitar que determinados produtos podem tornar-se mais caros ou menos disponíveis constituem formas concretas de participar nessa adaptação.

A escola também terá de mudar.

Uma criança portuguesa deveria saber que a água que sai da torneira não nasce na torneira. Deveria compreender o ciclo hidrológico, conhecer o conceito de bacia hidrográfica, perceber a importância dos aquíferos, saber quanto custa tratar água e compreender a relação entre aquilo que come e a água utilizada para produzir esse alimento. Deve ainda possuir uma família inteligente, sábia, esclarecida.

Devemos ensinar que deitar comida fora é também deitar água fora. Devemos ensinar que um jardim não precisa necessariamente de plantas importadas de climas húmidos. Devemos ensinar que abrir uma torneira durante cinco minutos não é um gesto neutro. Uma torneira aberta durante cinco minutos pode desperdiçar entre 45 e 60 litros de água. Devemos ensinar que a água é um bem comum antes de ser um serviço. E devemos ensinar uma palavra que durante décadas confundimos com privação: contenção.

Conter não é viver pior. Conter é saber distinguir o necessário do excessivo.

A Europa construiu um modelo de vida baseado na disponibilidade permanente. Água disponível. Energia disponível. Alimentos disponíveis. Transporte disponível. Consumo disponível. Esse modelo funcionou enquanto os recursos pareceram abundantes e os seus custos ambientais permaneceram escondidos. A crise climática está a revelar o preço que não quisemos ver.

É neste ponto que o estudo associado ao MIT e ao modelo World3 precisa de ser lido sem exageros. A notícia do canal francês TF1, no dia 19 de agosto, apresentou o tema sob um enquadramento alarmista, sugerindo um eventual colapso da civilização em 15 anos. O estudo científico não afirma que a civilização terminará numa data concreta. O que a investigação fez foi recalibrar o modelo com dados empíricos mais recentes e verificar que, num cenário de continuidade das tendências, persiste uma dinâmica de overshoot and collapse: crescimento para além dos limites do sistema, seguido de deterioração de algumas variáveis fundamentais. O valor do estudo não está numa profecia apocalíptica, mas na demonstração de que sistemas complexos podem ultrapassar limites antes de a sociedade perceber que os ultrapassou.

Esta diferença é fundamental. O futuro não é uma data marcada num calendário. É uma consequência. E as consequências começam com milhões de decisões aparentemente pequenas.

Uma torneira aberta. Uma piscina cheia. Um jardim regado durante as horas de maior evaporação. Um carro lavado com água potável. Uma cultura agrícola plantada num lugar onde a água já não chega. Uma floresta sem capacidade de retenção. Um solo empobrecido. Um alimento comprado e depois deitado fora. Uma rede de abastecimento que perde água antes de ela chegar a casa.

Cada ato isolado parece pequeno. O sistema de muitos milhões de atos deixa de ser pequeno.

Foi isso que compreendi ao regressar de uma viagem em que atravessei Espanha e França sob temperaturas que o meu corpo reconheceu, mas que o meu imaginário europeu ainda não estava preparado para aceitar como rotina. De Aveiro a Burgos, de Burgos a Toulouse, de Toulouse a Carcassonne e Albi, de Albi a Narbonne e à costa mediterrânica, de Narbonne a Bordéus, e depois novamente para Valladolid, Tordesilhas e Aveiro, a paisagem foi mudando. A sensação permaneceu.

Calor. Secura. Cansaço. Necessidade de procurar sombra. Necessidade de água.

E uma pergunta cada vez mais insistente: quanto tempo conseguimos continuar a viver como se a água nunca fosse faltar?

Não considero a Europa condenada. Considero-a atrasada na aprendizagem.

Há milhões de pessoas no mundo que sabem viver com muito menos água do que nós porque foram obrigadas a fazê-lo. Aprenderam a guardar, reutilizar, selecionar, conter. Aprenderam que um recurso escasso merece outra relação.

Eu próprio aprendi isso com uma tonelada de água. Mil litros. Trinta e três litros por dia.

Hoje, diante de uma Europa que consome, em média, cerca de 124 litros por pessoa diariamente, apenas no uso doméstico, e cuja pegada hídrica associada ao consumo pode ultrapassar os 5.000 litros por dia, essa experiência deixou de ser apenas uma memória pessoal. Tornou-se uma unidade de medida moral.

Não precisamos de viver com 33 litros por dia. Precisamos de deixar de viver como se tivéssemos água infinita. Essa é a verdadeira urgência.

Não basta combater as alterações climáticas. Temos de aprender a adaptar-nos ao clima que já mudou e, ao mesmo tempo, reduzir tudo aquilo que aumenta a pressão sobre os recursos.

Não basta pedir chuva. Temos de proteger a água quando ela chega. Não basta pedir aos agricultores que poupem. Temos de mudar a agricultura. Não basta pedir aos cidadãos que fechem a torneira. Temos de transformar as cidades e as redes de abastecimento. Não basta falar de sustentabilidade. Temos de transformar hábitos, políticas públicas, agricultura, educação e economia.

A água não é o futuro. A água é o presente. O futuro depende da forma como decidimos tratá-la hoje.

E quando, depois de quase três mil quilómetros de estrada, regressamos a casa e abrimos uma torneira, deveríamos lembrar-nos de que há pessoas para quem esse gesto continua a ser um privilégio.

Foi isso que Cabo Verde, a Tunísia e outros lugares onde vivi me ensinaram. A escassez não começa quando a torneira deixa de deitar água. Começa muito antes. Começa no momento em que deixamos de compreender o valor de cada litro, cada gota.

Fica aqui o desafio ao leitor dos 33,3 litros por dia.

Linchamento em Copacabana é o fundo do poço


Não chega a ser novidade a banalização da vida. No Rio de Janeiro. No Brasil. No mundo. Discute-se intensamente quais são os corpos suscetíveis à morte, deixados para morrer, matáveis. Cartão-postal carioca, território do maior réveillon do planeta, cenário de atrações internacionais todo mês de maio, bairro do hotel mais famoso do país, Copacabana agora é também palco da barbárie nua e crua. Cláudio Rafael Landeiro, de 37 anos, foi espancado até a morte, em via pública, por quatro assassinos, por supostamente ter subtraído a bicicleta com que saíra para passear na noite de terça-feira, 11 de agosto.

Cláudio Rafael não era ladrão. A bicicleta com que saíra de Botafogo, outro bairro da Zona Sul, para Copacabana pertencia a uma de suas irmãs. Inocente, foi vítima do ódio homicida de quatro criminosos, dois deles disfarçados de seguranças privados — eufemismo Zona Sul para aqueles que, no subúrbio e na favela, são denominados milicianos — e os demais, de entregadores do iFood. Em seis minutos, o quarteto desferiu 57 pauladas, chutes, pisões e socos num homem neurodivergente. Cláudio permaneceu em agonia na calçada por meia hora, até ser resgatado por bombeiros. No hospital, faleceu.

O sangue da vítima ficou no calçamento. Dias atrás, depois que a família denunciou o assassinato, a polícia passou pelo local em busca de vestígios e imagens. Os registros não deixam dúvidas sobre a covardia. O delegado encarregado do caso, Ângelo Lages, titular da 12ª DP, classificou o crime como homicídio triplamente qualificado: por motivo fútil, cometido com crueldade e sem chance de defesa da vítima.


A barbaridade cometida pela gangue é infinitamente mais grave que o pretenso furto ou roubo da bicicleta, fosse Cláudio Rafael um assaltante. Tiraram a vida de um inocente. Mas linchamento, pena capital, execução sumária não são punições previstas no Código Penal para furto simples (um a quatro anos de detenção), qualificado (dois a oito anos), nem para roubo (quatro a dez anos), ainda que com lesão corporal (sete a 18) ou morte (20 a 30 anos).

Uma sociedade que permite linchamento está, ela própria, adoecida; se pactua com o justiçamento, está ferida de morte. No corpo inerte de Cláudio Rafael ficaram as digitais dos quatro homicidas. Mas há sangue nas mãos da gente que contrata e autoriza milícia privada a imputar crime, condenar e punir, à margem do Estado Democrático de Direito. Há sangue nas mãos de quem passou pela rua e nada fez; de quem assistiu da janela e não gritou. Há sangue nas mãos de quem não chamou a polícia; que valoriza patrimônio em detrimento da vida. Há responsabilidade de um Estado que, detentor do monopólio da força, se mostra incapaz de dar segurança aos cidadãos.

O Brasil anda tomado pela violência desmedida, por dolo ou indiferença. O Rio de Janeiro, em particular, parece entorpecido pelo sequestro longevo do poder público pelo crime. O estado teve seis governadores presos ou investigados. Há cinco meses, é governado e faxinado pelo presidente do Tribunal de Justiça (TJ-RJ). O Tribunal Superior Eleitoral condenou à inelegibilidade Cláudio Castro, o governador que se reelegeu em 2022 abusando do poder econômico; renunciou para não ser cassado; e, hoje, é suspeito de envolvimento com Ricardo Magro, dono da refinaria Refit, maior devedora e sonegadora de impostos do país, e com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, protagonista da maior fraude bancária da História. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, foi retirado da linha sucessória por envolvimento com o Comando Vermelho. Está preso em penitenciária federal. Foi tornado réu pela Primeira Turma do STF nesta semana.

Um dos maiores intelectuais do Brasil, Muniz Sodré, professor emérito da UFRJ, autor de dezenas de livros, em entrevista ao “Angu de Grilo”, podcast que mantenho com a jornalista Isabela Reis, minha filha, disse que a política perdeu o sentido. Por girar em torno dos próprios interesses, esvaziou-se. Ele se referia à morte, em junho, da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21 anos, lançada sem amarras da Ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis (SP), no que seria um salto de rope jump.

— Eu realmente fiquei estomagado com aquilo. Como é que três pessoas seguram uma moça, ela própria não percebeu também que não tinha cordas, e a lançam? Isso é o Brasil. As pessoas não percebem que é preciso cordas, porque é preciso vínculo. Vínculo é diferente de relação. Temos relações sociais, mas vínculo é diferente. Passa pelo corpo, pela perna, pelo coração, pelo braço. Estamos numa crise da vinculação, que é ao mesmo tempo uma crise da política, da política sem amarras. Então, de repente, se abre o buraco para o pior.

É o fundo do poço.

domingo, 23 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Um pacto nacional contra o crime

Transparece no noticiário um crescimento da violência urbana em estados governados pelo PT. Mas inferências generalizantes por números de ocorrências ainda fornecem uma imagem desfocada da criminalidade vivida em todo o país. É sem dúvida insuportável a proliferação dos assaltos armados, balas perdidas, até drones explosivos nas metrópoles brasileiras. Entretanto, apenas estatísticas de mortes violentas não caracterizam insegurança maior numa região. Organizado, o crime altera o paradigma de abordagem do fenômeno.


O foco tradicional incide sobre o modelo de confronto entre Estado e facções criminosas, adequado a países da centralidade capitalista, com forte sociedade civil e corrupção controlada. Para nações periféricas, porém, vale evocar o conceito de Estado ampliado, em que Gramsci faz a crítica da identificação do Estado apenas com seus aparelhos coercitivos (governo, Forças Armadas, polícia e tribunais). E amplia com sociedade civil, que engloba as instituições (escolas, igrejas, mídia etc.) responsáveis pelo consenso de ideias, valores e crenças.

Acontece que esse modelo de Estado ampliado, sustentado pela hegemonia do bloco dirigente, pode se fragilizar devido a crises de confiança no pacto consensual entre povo e poder estatal. A descrença nas políticas públicas e o aumento desmesurado dos índices criminais são alarmantes. O anseio de paz e proteção desperta pulsões vingativas de segurança por repressão ilimitada ou matanças. Vale então ponderar o conceito de reversão (Jean Baudrillard, em "A Troca Simbólica e a Morte"), segundo o qual todo sistema que se expande sem limites tende a produzir um movimento contrário, que o desestabiliza. O excesso de segurança produziria maior insegurança.

É o caso da hipersegurança armada. Jamais funcionou nas potências, muito menos na periferia do grande capital, em que o povo sempre foi matéria-prima (com escasso valor agregado) de exploração do Estado e, agora, refém do crime. A visão extremista para o problema, em chavões como "bandido bom é bandido morto", só comprova a inanidade institucional da sociedade civil. Hoje, afim ao pretexto trumpista para construção do "escudo das Américas", versão armada da internacional direitista.

Na época de Gramsci, o Estado não enfrentava a crise de uma sociedade civil drogada pelo consumo de química e mídia nem atravessada pelo acidente histórico de uma criminalidade cuja intensidade corruptiva faz colapsar o equilíbrio institucional da ampliação Estado/sociedade civil. Uma crise incrementada pelo custo adicional da economia criminosa para o mercado formal.

O pensamento progressista atual não apreende o risco representado pela ruptura do equilíbrio social. Ao afetar qualitativamente o sistema, o acidente da emergência brutal do crime organizado assume proporções de mudança social disruptiva, despercebida pelos anacrônicos quadros cognitivos das militâncias, aquém da era digital.

Entre nós, essa emergência permeia instituições, empresas e altos poderes, em tal escala que Estado coercitivo e sociedade civil se tornam, eles próprios, criminogênicos. Ou seja, chegou-se à metástase social do crime. Daí o embaraço da classe política, parte do problema, com a questão. Daí a urgência de um magno pacto nacional de reajuste da ação social.

Programa de Flávio: extermínio, entrega de minerais críticos, vida desde a concepção e respeito a todos os arranjos familiares

O programa de Flávio Bolsonaro apresentado ao TSE, Para o Brasil vencer o atraso, registra formalmente um conjunto de moderações que o candidato já anunciava. Traz uma frase impensável no bolsonarismo de 2018 – “Este Plano respeita todos os arranjos familiares” – e uma série de acenos: manter os programas sociais (“nenhum brasileiro fica para trás”); tratar o meio ambiente como “ativo”; zerar o desmatamento ilegal; dar “autonomia” a povos indígenas e quilombolas (que já não são medidos em arrobas, como fez seu pai); proteger as mulheres com o que anuncia como o maior programa da história. E não fala em armamento: o marcador identitário central de anos atrás sai da vitrine.

Aliás, nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.

O desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou – significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem conseguido impor seu repertório.

Então uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?


A literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.

Há também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.

O caso clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia; Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.

Se a desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no vocabulário.

A posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela Editora Contracorrente.

Flávio silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso, o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.

A relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um conteúdo.

O campo da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita, passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual que propomos no livro que mencionei.

Estão todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.

Não é à toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de segurança, antes é a sua canibalização.

Redução da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça – embutido.

O neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola, negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o “Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.

Mas o programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas, protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.

O texto promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de 2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.

Os mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política social como direito e com o entreguismo como política externa.

O programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e, diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas “soluções diplomáticas eficazes”.

Ali se promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra “soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a fragiliza.

O quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica, institucionalizada.

E o “Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –, mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma de guerra cultural.

O privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do mercado sobre a sociedade.

A extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo – mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo igualitário, não.

Deixaria de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos três testes.

Mantém todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”, os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo “narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas; os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de que o complô funciona.

O programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.

A moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.

A moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para adotar sua agenda.