segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Voto em Flávio Bolsonaro expressa ideia perdida de nação

A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube.

Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.

O problema na verdade não eram só os inimigos, mas os "amigos", gente que acabaria caindo na própria armadilha, no que ela chama de "coordenação", ou deslealdade, dos intelectuais. "Eu não tinha a menor vontade de ficar perambulando pela Alemanha como cidadã de segunda classe."

Arendt é categórica ao declarar que, "se você é atacado como judeu, deve se defender como judeu, não como alemão ou cidadão do mundo ou defensor dos direitos humanos, ou o que quer que seja".

Nesse momento, o entrevistador pede que ela então explique o que queria dizer quando declarou: "Nunca amei nenhum povo ou grupo coletivo, nem alemães, nem franceses, nem americanos, nem a classe operária nem nada desse gênero. Só posso amar meus amigos. O amor pelos judeus seria suspeito, porque sou judia".

E ela esclarece: "Pertencer a um grupo por nascimento é da condição humana. Agora, pertencer a um grupo organizado politicamente é uma coisa completamente diversa. As pessoas se organizam politicamente por interesses comuns em relação ao mundo. O que chamamos de amor, e que pode existir no amor propriamente dito e também na amizade, é uma relação pessoal direta, que não está baseada em interesses comuns em relação ao mundo. [...] O amor é apolítico e desinteressado".


Arendt associa esse amor à condição judaica, à humanidade própria dos párias, que se perdeu com a criação do Estado de Israel. E lamenta: "A liberdade cobra um preço alto".

O amor desinteressado aparece na literatura, segundo ela, quando Homero decide cantar não apenas o vencedor, mas os vencidos; quando Heródoto conta os feitos dos gregos e também dos bárbaros. "Toda ciência nasce desse espírito. Se você é incapaz de imparcialidade, porque pretende amar seu próprio povo a ponto de comprometer a verdade, então não há o que fazer."

O interesse comum é da ordem política. É a condição das nações. O resultado das pesquisas, mostrando Flávio Bolsonaro encostado em Lula no segundo turno das eleições presidenciais em outubro, com tudo o que seu nome, seu pai e sua família representam contra os brasileiros, acrescido do passivo de subserviência a uma potência estrangeira com interesses contrários aos do país, faz pensar que estejamos cercados não só pelo cinismo de inimigos declarados, mas pelos que Arendt considerava "amigos desleais" que, em nome de interesses aparentemente comuns, nacionais, e muitas vezes sem se dar conta da extensão suicida de suas ações, preparam uma armadilha que, essa sim, será comum e fatal.

Não seria de todo descabido ver na política internacional aparentemente errática de Donald Trump, para além da ganância pessoal, um desmonte deliberado das nações, com a cumplicidade de grupos oportunistas internos compartilhando interesses em redes supranacionais de desregulação e corrupção.

Por mais contraintuitivo que pareça à primeira vista, a autocracia é a condição do esfacelamento nacional. A aliança do governo americano com a extrema direita na América Latina faz parte de uma política de espoliação, fundamental no seu confronto com a China, única potência capaz de lhe fazer frente.

Que significa quase metade dos eleitores declarar o voto em Flávio Bolsonaro senão uma ideia perdida de nação? O eco insistente de um governo funesto cujo lema —"Deus acima de todos..."— trazia embutida uma conclusão tácita e interessada: "...e cada um por si".

Extrema direita na Alemanha: isolar, proibir ou deixar governar?

A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU, de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na Alemanha desde 1945.

A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.

O poder de compra de Magdeburg ou Halle supera o de quase todo o sul e o leste da Europa; as aposentadorias de quem contribuiu por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, e produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental, diferença que reflete sobretudo o caráter mais rural da região.

A infraestrutura não fica atrás da de regiões comparáveis do continente: por exemplo, cerca de 30 dos quase 80 teatros de ópera do país estão no leste, que abriga um quinto da população. Ainda assim, 75% dos alemães orientais dizem que o que separa as duas partes do país pesa mais que o que as une, o maior índice desde 2004.

Um novo estudo da Universidade do Sarre conclui que renda e escolaridade quase nada explicam: o que prevê o voto na AfD é a preocupação com a imigração, e ela pesa tanto para ricos quanto pobres. E isso em um Estado onde estrangeiros são apenas 8% da população, menos da metade da média nacional e bem abaixo do que se vê em Hesse ou Hamburgo. Os autores tiram a conclusão incômoda: mais transferências e políticas de igualdade não trarão os eleitores de volta.


O segundo debate é o que fazer a respeito da ascensão do partido. Desde a fundação da AfD, em 2013, todos os partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o “muro cortafogo” erguido para jamais cooperar com a AfD. O muro cumpriu o que prometia, como lembra Thorsten Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, pois a AfD até hoje nunca chegou a governar um Estado. Mas fica cada vez mais evidente que fracassou como estratégia de contenção, e há algo paradoxal nisso: governar desgasta, e a AfD passou uma década sem governar nada.

Enquanto CDU, SPD e Verdes se consumiam em coalizões improváveis, a legenda cresceu sem nunca ter sido testada, e hoje lidera as pesquisas nacionais com quase 30%. Benner vai além e sustenta que o muro ajuda a explicar por que a AfD, ao contrário de outras siglas de extrema direita na Europa, se tornou mais radical à medida que crescia: sem perspectiva de poder, moderar-se não lhe traz nada.

Uma proposta é converter o veto absoluto em condições verificáveis, como expulsar Björn Höcke, seu dirigente mais influente no leste do país, que foi condenado duas vezes por usar, em eventos de campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, cujo uso é crime na Alemanha. Romper com esse tipo de quadro e de discurso seria o preço do diálogo, e a própria AfD teria de decidir se está disposta a pagá-lo.

Outros defendem a proibição do partido. Boris Pistorius, ministro da Defesa e há anos o político mais popular do país, pediu, ao lado de Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, que se abra um processo de banimento das seções da AfD no leste alemão, entre elas a da SaxôniaAnhalt.

O argumento é o mesmo do serviço de inteligência, que em 2025 classificou a AfD como “comprovadamente extremista de direita”, por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a Constituição alemã. Os críticos respondem que um processo desses levaria anos e daria à AfD o papel que ela mais gosta de encenar, o de vítima.

Há uma terceira via, que decorre do próprio diagnóstico de Benner: deixar a AfD governar um Estado e expor sua incapacidade. O partido defende um nacionalismo de slogans, mais definido pelo que rejeita do que pelo que propõe.

Um episódio quase cômico ilustra a aposta. Em 2021, Tino Chrupalla, hoje copresidente do partido, defendia em um programa infantil da TV pública que as escolas ensinassem mais canções populares e poesia clássica alemã. O repórter mirim quis saber, então, qual era seu poema alemão favorito. Chrupalla hesitou, disse que precisaria pensar e admitiu que nenhum lhe vinha à cabeça. Instado a citar ao menos um poeta, apontou Heinrich Heine, de origem judaica, exilado em Paris e cujos livros os nazistas queimaram em 1933.

Deixar governar foi, é verdade, o erro que a Alemanha cometeu nos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia recomendaram por escrito a proibição do partido nazista. O chanceler Heinrich Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente, temendo alimentar seu vitimismo, e menos de três anos depois Hitler chegava ao poder.

A comparação tem limites óbvios. Um Estado não é o país inteiro, e uma AfD obrigada a administrar escolas, hospitais e orçamentos deixaria de ser um partido de protesto para virar um governo cobrado por resultados, ofício bem menos glamouroso do que denunciar o sistema. Nenhuma das três saídas é isenta de risco. O que a eleição de ontem mostrou é que a atual estratégia de simplesmente isolar o partido deixou de ser uma opção.

O custo de ser responsável

Em março deste ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução classificando o tráfico transatlântico de escravos como o crime mais grave contra a Humanidade. O documento foi aprovado com 123 votos a favor. Três países votaram contra (Estados Unidos da América, Israel e Argentina) e 52 abstiveram-se (entre os quais, todos os 27 países da União Europeia, Reino Unido, Canadá, Austrália, etc.).

É, de facto, difícil pensar num crime maior do que este contra a Humanidade, embora os representantes da União Europeia, e especificamente da Alemanha, se tenham manifestação contra a formulação jurídica de haver uma hierarquia de crimes. Seria o tráfico de escravos mais grave do que o Holocausto? No Holocausto, morreram seis milhões de pessoas; no tráfico transatlântico de escravos, que decorreu até à segunda metade do século XIX, foram embarcadas 12,5 milhões de pessoas – dessas, 10,7 milhões terão chegado ao destino, tendo as restantes morrido na viagem. Os números são da Slave Voyages, uma base de dados académica de acesso público. Em terra, durante as capturas, os historiadores calculam que terão morrido entre um e dois milhões de pessoas.


A votação da resolução, geograficamente dividida de forma bem nítida, entende-se sob outra perspetiva. O documento não se limita a classificar o crime, pede que os países envolvidos assumam a responsabilidade, ora em forma de pedidos de desculpa oficiais, ora em forma de compensações financeiras, algo que os países responsáveis não estão dispostos a fazer. No caso do Holocausto, a Alemanha pagou e continua a pagar indemnizações e reparações às vítimas e a organizações judaicas.

Na semana passada, a ONU voltou à carga: o Comité das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial emitiu uma resolução defendendo que os países envolvidos, direta ou indiretamente, no tráfico transatlântico de escravos têm a obrigação de conceder reparações pelos danos que causaram. Este crime, diz o documento, “distorceu as relações económicas globais ao distribuir riqueza acumulada injustamente por todas as sociedades e fronteiras, criando uma responsabilidade partilhada pelos seus efeitos duradouros”.

De facto, podemos não nos sentir responsáveis como sociedade por aquilo que fizeram os nossos antepassados. Mas é como um filho que herda dinheiros sujos – ele não cometeu o crime, mas vive à custa dele, beneficia do crime. Porque é inegável a desigualdade que ainda hoje persiste – e persistirá por muito tempo –, consequência do tráfico de escravos.

Quem são os pobres e quem são os ricos? Quem, na nossa sociedade, continua a sofrer todo o tipo de discriminação e impedimentos de aceder aos serviços e aos direitos que damos por garantidos? E quem construiu e desenvolveu Estados com riquezas que não lhe pertenciam?

Como sociedade, somos herdeiros deste privilégio, usufruímos dele e dizemos, ao mesmo tempo, que isso não nos pertence, que o passado já lá vai e a obrigação de o corrigir não nos cabe. Como o “filhinho de papai” incapaz de assumir a idade adulta. Os custos da responsabilidade podem até ser penosos, mas se forem justos permitem-nos existir com mais dignidade. Há heranças que pesam, ainda que façamos tudo por ignorar o fardo que representam.

O que proteger em tempos extremos

Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.

A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.


O depoimento de Daniel Vorcaro no gabinete de André Mendonça é uma óbvia tentativa de manipulação. As acusações sem lastro ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são para confundir, para tirar proveito da briga entre o ministro e o comando da Polícia Federal.

Qualquer delação premiada de Daniel Vorcaro tem que começar com ele respondendo às perguntas: onde está o dinheiro, quando e como você vai devolver? Ele nunca respondeu. Essa é a explicação para o fato de a delação premiada do ex-banqueiro não ter progredido nem na Polícia Federal, nem no Ministério Público. Vorcaro não admite sequer que cometeu crimes. Ele se comporta como se fosse vítima. E tentou neste depoimento ao juiz substituto do ministro Mendonça mais uma vez alimentar a tese de que é um perseguido. Vorcaro é o criminoso, tem direito às garantias constitucionais mantidas na democracia, mas não pode manipular o sistema judiciário.

Os fatos são importantes. Vorcaro tentava falar com todo mundo que pudesse ter interesse para ele na estrutura de poder no Brasil. Muitos falaram. O erro não está em ter tido contato com ele, mas no que houve na relação entre o agente público e o banqueiro corruptor. O contrato milionário entre o escritório da família de Alexandre de Moraes com ele, revelado por Malu Gaspar, é um fato incontornável. Os diálogos divulgados pelo relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça na terça-feira passada, trazem indícios contra Moraes que precisam ser esclarecidos.

O dinheiro de Vorcaro não era privado. Ele deu golpes em fundos de pensão de servidores públicos e colocou um rombo num banco público, o BRB. O senador Flávio Bolsonaro não tem razão quando diz que o dinheiro de Vorcaro era privado. Ele se capitalizou saqueando dinheiro público. Um senador da República não pode fazer o que Flávio fez: correr atrás de dinheiro de Vorcaro, sonegar informações de como os recursos foram usados, mentir sobre o volume de dinheiro que recebeu.

O que Vorcaro tenta agora é aproveitar os conflitos e escapar de alguma forma. Tenta criar suspeição sobre Andrei porque a Polícia Federal o prendeu, o interrogou e vai pedir seu indiciamento em breve. A suspeição sobre a PF daria a ele a nulidade do procedimento original.

Uma autoridade que acompanhou os momentos nervosos que levaram Vorcaro a ser apanhado em quase fuga diz que o diretor geral foi essencial desde o primeiro momento. “Eu sei o que ele fez para não deixar o cara escapar naquela noite”.

A estratégia de Daniel Vorcaro neste momento é evidente. Ele está preso, seu pai, seu cunhado e seu primo estão presos. Ele não conseguiu fazer delação premiada porque não entregou informações relevantes, nem quis devolver o dinheiro que escondeu. Está aproveitando a crise entre as instituições — e dentro delas — e a hora da ferrenha disputa eleitoral para fazer seu jogo. Vorcaro vai tentar de tudo agora.

As próximas semanas serão muito tensas. Fachin tem sobre seus ombros de juiz a carga mais pesada. Moraes não pode ser protegido. Mendonça não pode conduzir de forma seletiva sua relatoria. Em Provérbios há um versículo que orienta sobre o que é essencial em tempos turvos. “Sobretudo o que se deve guardar, guarde o seu coração porque dele procedem as fontes da vida”. Não é preciso ser religioso para valorizar a mensagem e entender que o bem mais precioso a guardar neste momento é a democracia.

O grande desafio alimentar que as mudanças climáticas trazem

O sistema alimentar global está sob crescente pressão , e novas pesquisas apontam para áreas específicas onde isso pode levar a conflitos.

Secas severas e eventos climáticos extremos estão prejudicando as colheitas em muitas regiões. O fenômeno El Niño, em desenvolvimento , ameaça agravar a escassez de alimentos para milhões de pessoas no próximo ano. Ao mesmo tempo, guerras e tensões geopolíticas estão interrompendo as cadeias de suprimentos que garantem o transporte de alimentos e produtos agrícolas.

Especialistas alertam há tempos que o aumento da insegurança alimentar pode levar à instabilidade. Quando as pessoas não conseguem mais alimentar suas famílias, elas lutam por terra, água e outros recursos, ou são deslocadas. Em países frágeis, essas pressões podem contribuir para a agitação social e até mesmo para conflitos armados.

O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (CADI, na sigla em inglês), desenvolvido por Hannes Mueller e seus colegas, mostra como as mudanças climáticas estão transformando a produtividade agrícola em todo o mundo. "As perdas mais severas estão ocorrendo nas regiões tropicais", afirma Mueller, pesquisador do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona.

As mudanças climáticas já estão reduzindo a produção de alimentos em muitas partes do mundo. Centenas de milhões de pessoas vivem em áreas onde as colheitas são menores do que eram há 30 anos. Mueller menciona Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador como países onde as perdas agrícolas já estão sendo sentidas. Nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial poderá estar vivendo em áreas onde as fazendas produzem menos alimentos.


Essas pressões podem enfraquecer governos, alimentar a migração e facilitar o recrutamento de combatentes por grupos armados. Em sociedades já instáveis, esses fatores podem levá-las à crise.

No entanto, a pesquisa da CADI aponta para uma realidade surpreendente: o aumento da produtividade agrícola também parece aumentar o risco de violência. Mueller explica que a questão fundamental não é apenas a escassez, mas a mudança. A crise climática e outras perturbações não estão simplesmente empobrecendo algumas regiões. Em alguns lugares, terras antes marginais estão se tornando mais produtivas e valiosas. E isso atrai investidores e cria competição pela propriedade e pelo acesso.

Portanto, países que aparentam se beneficiar de forma geral podem enfrentar novas tensões. O Sudão, por exemplo, tem previsão de aumentar sua produção de alimentos com as mudanças climáticas. Mas, embora algumas áreas possam se tornar mais produtivas, outras podem sofrer perdas, criando novos vencedores e perdedores dentro do país e aumentando o risco de conflitos.

Essa instabilidade iminente também afeta áreas onde a mudança na produtividade ainda nem ocorreu. "Se soubermos que sua terra será mais produtiva, podemos querer tomá-la de você hoje mesmo. É exatamente aí que as negociações fracassam e a violência irrompe."

Uma das descobertas mais surpreendentes da equipe do CADI é que as mudanças na agricultura têm maior probabilidade de desencadear conflitos em países não democráticos. “As democracias podem parecer irritantes e burocráticas. Nada acontece tão rápido quanto as pessoas gostariam. Mas isso é fantástico, porque incentiva a comunicação entre as pessoas”, afirma Mueller. “Existe uma plataforma para negociação. Existem instituições que ajudam as pessoas a negociar. Esse processo de busca constante por soluções é fundamental para prevenir conflitos.”
Enquanto a Índia realiza seu censo populacional, pesquisadores alertam que as mudanças climáticas podem dificultar a produção de alimentos suficientes para uma população crescente em algumas áreas do país.

“Não damos a devida atenção às ameaças que pairam sobre a fonte de nossos meios de subsistência”, afirma Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP). “As regiões às quais precisamos prestar mais atenção são o Sul da Ásia e o Sahel, onde a vulnerabilidade climática e o rápido crescimento populacional significam que o número de pessoas afetadas pode aumentar drasticamente.”

À medida que a insegurança alimentar se agrava, as consequências sociais e políticas podem se multiplicar. "Quando a escassez de recursos ou os efeitos das mudanças climáticas forçam as pessoas a buscar outros meios de subsistência, elas às vezes acabam sendo recrutadas por grupos terroristas", enfatiza Fahimi, que cita exemplos da Nigéria e do Afeganistão. Em outros casos, a frustração pública se volta contra os governos se estes não conseguirem mitigar o impacto sobre os meios de subsistência das pessoas; sua legitimidade é questionada, e isso pode degenerar em conflitos violentos.

Isso corrobora a conclusão geral de Mueller. Mudanças climáticas, guerras e interrupções no comércio não levam automaticamente a conflitos. A questão fundamental é se as sociedades possuem instituições capazes de gerenciar essas mudanças. Onde governos, tribunais e instituições locais conseguem ajudar as comunidades a lidar com as novas realidades, será possível mitigar os impactos. Onde essas instituições são frágeis, a pressão sobre os sistemas alimentares pode se tornar uma ameaça à própria paz.