segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O que proteger em tempos extremos

Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.

A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.


O depoimento de Daniel Vorcaro no gabinete de André Mendonça é uma óbvia tentativa de manipulação. As acusações sem lastro ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são para confundir, para tirar proveito da briga entre o ministro e o comando da Polícia Federal.

Qualquer delação premiada de Daniel Vorcaro tem que começar com ele respondendo às perguntas: onde está o dinheiro, quando e como você vai devolver? Ele nunca respondeu. Essa é a explicação para o fato de a delação premiada do ex-banqueiro não ter progredido nem na Polícia Federal, nem no Ministério Público. Vorcaro não admite sequer que cometeu crimes. Ele se comporta como se fosse vítima. E tentou neste depoimento ao juiz substituto do ministro Mendonça mais uma vez alimentar a tese de que é um perseguido. Vorcaro é o criminoso, tem direito às garantias constitucionais mantidas na democracia, mas não pode manipular o sistema judiciário.

Os fatos são importantes. Vorcaro tentava falar com todo mundo que pudesse ter interesse para ele na estrutura de poder no Brasil. Muitos falaram. O erro não está em ter tido contato com ele, mas no que houve na relação entre o agente público e o banqueiro corruptor. O contrato milionário entre o escritório da família de Alexandre de Moraes com ele, revelado por Malu Gaspar, é um fato incontornável. Os diálogos divulgados pelo relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça na terça-feira passada, trazem indícios contra Moraes que precisam ser esclarecidos.

O dinheiro de Vorcaro não era privado. Ele deu golpes em fundos de pensão de servidores públicos e colocou um rombo num banco público, o BRB. O senador Flávio Bolsonaro não tem razão quando diz que o dinheiro de Vorcaro era privado. Ele se capitalizou saqueando dinheiro público. Um senador da República não pode fazer o que Flávio fez: correr atrás de dinheiro de Vorcaro, sonegar informações de como os recursos foram usados, mentir sobre o volume de dinheiro que recebeu.

O que Vorcaro tenta agora é aproveitar os conflitos e escapar de alguma forma. Tenta criar suspeição sobre Andrei porque a Polícia Federal o prendeu, o interrogou e vai pedir seu indiciamento em breve. A suspeição sobre a PF daria a ele a nulidade do procedimento original.

Uma autoridade que acompanhou os momentos nervosos que levaram Vorcaro a ser apanhado em quase fuga diz que o diretor geral foi essencial desde o primeiro momento. “Eu sei o que ele fez para não deixar o cara escapar naquela noite”.

A estratégia de Daniel Vorcaro neste momento é evidente. Ele está preso, seu pai, seu cunhado e seu primo estão presos. Ele não conseguiu fazer delação premiada porque não entregou informações relevantes, nem quis devolver o dinheiro que escondeu. Está aproveitando a crise entre as instituições — e dentro delas — e a hora da ferrenha disputa eleitoral para fazer seu jogo. Vorcaro vai tentar de tudo agora.

As próximas semanas serão muito tensas. Fachin tem sobre seus ombros de juiz a carga mais pesada. Moraes não pode ser protegido. Mendonça não pode conduzir de forma seletiva sua relatoria. Em Provérbios há um versículo que orienta sobre o que é essencial em tempos turvos. “Sobretudo o que se deve guardar, guarde o seu coração porque dele procedem as fontes da vida”. Não é preciso ser religioso para valorizar a mensagem e entender que o bem mais precioso a guardar neste momento é a democracia.

O grande desafio alimentar que as mudanças climáticas trazem

O sistema alimentar global está sob crescente pressão , e novas pesquisas apontam para áreas específicas onde isso pode levar a conflitos.

Secas severas e eventos climáticos extremos estão prejudicando as colheitas em muitas regiões. O fenômeno El Niño, em desenvolvimento , ameaça agravar a escassez de alimentos para milhões de pessoas no próximo ano. Ao mesmo tempo, guerras e tensões geopolíticas estão interrompendo as cadeias de suprimentos que garantem o transporte de alimentos e produtos agrícolas.

Especialistas alertam há tempos que o aumento da insegurança alimentar pode levar à instabilidade. Quando as pessoas não conseguem mais alimentar suas famílias, elas lutam por terra, água e outros recursos, ou são deslocadas. Em países frágeis, essas pressões podem contribuir para a agitação social e até mesmo para conflitos armados.

O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (CADI, na sigla em inglês), desenvolvido por Hannes Mueller e seus colegas, mostra como as mudanças climáticas estão transformando a produtividade agrícola em todo o mundo. "As perdas mais severas estão ocorrendo nas regiões tropicais", afirma Mueller, pesquisador do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona.

As mudanças climáticas já estão reduzindo a produção de alimentos em muitas partes do mundo. Centenas de milhões de pessoas vivem em áreas onde as colheitas são menores do que eram há 30 anos. Mueller menciona Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador como países onde as perdas agrícolas já estão sendo sentidas. Nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial poderá estar vivendo em áreas onde as fazendas produzem menos alimentos.


Essas pressões podem enfraquecer governos, alimentar a migração e facilitar o recrutamento de combatentes por grupos armados. Em sociedades já instáveis, esses fatores podem levá-las à crise.

No entanto, a pesquisa da CADI aponta para uma realidade surpreendente: o aumento da produtividade agrícola também parece aumentar o risco de violência. Mueller explica que a questão fundamental não é apenas a escassez, mas a mudança. A crise climática e outras perturbações não estão simplesmente empobrecendo algumas regiões. Em alguns lugares, terras antes marginais estão se tornando mais produtivas e valiosas. E isso atrai investidores e cria competição pela propriedade e pelo acesso.

Portanto, países que aparentam se beneficiar de forma geral podem enfrentar novas tensões. O Sudão, por exemplo, tem previsão de aumentar sua produção de alimentos com as mudanças climáticas. Mas, embora algumas áreas possam se tornar mais produtivas, outras podem sofrer perdas, criando novos vencedores e perdedores dentro do país e aumentando o risco de conflitos.

Essa instabilidade iminente também afeta áreas onde a mudança na produtividade ainda nem ocorreu. "Se soubermos que sua terra será mais produtiva, podemos querer tomá-la de você hoje mesmo. É exatamente aí que as negociações fracassam e a violência irrompe."

Uma das descobertas mais surpreendentes da equipe do CADI é que as mudanças na agricultura têm maior probabilidade de desencadear conflitos em países não democráticos. “As democracias podem parecer irritantes e burocráticas. Nada acontece tão rápido quanto as pessoas gostariam. Mas isso é fantástico, porque incentiva a comunicação entre as pessoas”, afirma Mueller. “Existe uma plataforma para negociação. Existem instituições que ajudam as pessoas a negociar. Esse processo de busca constante por soluções é fundamental para prevenir conflitos.”
Enquanto a Índia realiza seu censo populacional, pesquisadores alertam que as mudanças climáticas podem dificultar a produção de alimentos suficientes para uma população crescente em algumas áreas do país.

“Não damos a devida atenção às ameaças que pairam sobre a fonte de nossos meios de subsistência”, afirma Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP). “As regiões às quais precisamos prestar mais atenção são o Sul da Ásia e o Sahel, onde a vulnerabilidade climática e o rápido crescimento populacional significam que o número de pessoas afetadas pode aumentar drasticamente.”

À medida que a insegurança alimentar se agrava, as consequências sociais e políticas podem se multiplicar. "Quando a escassez de recursos ou os efeitos das mudanças climáticas forçam as pessoas a buscar outros meios de subsistência, elas às vezes acabam sendo recrutadas por grupos terroristas", enfatiza Fahimi, que cita exemplos da Nigéria e do Afeganistão. Em outros casos, a frustração pública se volta contra os governos se estes não conseguirem mitigar o impacto sobre os meios de subsistência das pessoas; sua legitimidade é questionada, e isso pode degenerar em conflitos violentos.

Isso corrobora a conclusão geral de Mueller. Mudanças climáticas, guerras e interrupções no comércio não levam automaticamente a conflitos. A questão fundamental é se as sociedades possuem instituições capazes de gerenciar essas mudanças. Onde governos, tribunais e instituições locais conseguem ajudar as comunidades a lidar com as novas realidades, será possível mitigar os impactos. Onde essas instituições são frágeis, a pressão sobre os sistemas alimentares pode se tornar uma ameaça à própria paz.