domingo, 30 de agosto de 2026
A náusea no caminho das urnas
É oportuna a expressão "baixo astral" para o desalento público com a desmoralização da classe política. "O povo vai meter 300 bandidos no Congresso", diz um presidenciável. "Um manicômio", diagnostica outro, psiquiatra. São sinais do ethos tóxico, agudo diante de eleições cujo parâmetro ético-político é a rejeição dos candidatos. A chamada para o voto de manutenção da democracia representativa debilita-se com a persistente sensação de desamparo social. A saturação dos modelos de governança neoliberal e a decomposição da representação parlamentar suscitam uma insólita náusea coletiva.
Não se trata de nojo, esse mal-estar psicológico que decorre da visão de uma sujidade, de intolerância física ou de repugnância moral frente a um comportamento execrável. Geralmente é individual, mas o nojo coletivo se manifesta em situações aberrantes, como figuras de uma antropologia negativa. Ficou gravada na memória pública a postagem despropositada pelo ex-presidente da República de um vídeo repulsivo, conhecido como "golden shower". O fato e o ato definem-se como asco, nojo absoluto.
A náusea, entretanto, não se confunde com essa abjeção. Trata-se de sensação estranha, o profundo mal-estar existencial categorizado como uma das bases do existencialismo de Sartre, descrito no romance "A Náusea" (1938). O protagonista experimenta a angústia de perceber que não há sentido predeterminado para o mundo. Do choque da existência sem essência nem finalidade, tal e qual ela aparece, advém a náusea.
Essa narrativa filosófica, que sempre trafegou no círculo das altas ideias, tem hoje correspondências com o mundo das significações correntes. Significação é o que se vive na prática de uma estrutura ou de um fenômeno, é o que torna concreto um conceito aplicado à vida. Viver uma realidade é percebê-la e lhe dar uma significação.
O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência, com perturbações profundas nos modelos de percepção da realidade e de elaboração de significações. Algo como se as palavras estivessem anêmicas, perdendo força.
Uma das consequências é a estupidez coletiva como fenômeno das clivagens político-partidárias agravadas pela infecção neofascista, que antes era assintomática. Nesse processo, aberto à ascensão ao poder por aberrações políticas, emerge popularmente uma formação psíquica, patológica ao juízo imediato, mas de fato relacionada ao distúrbio que na Antiguidade Clássica inquietou os estoicos: a estupidez. O indivíduo não reza a um pneu de caminhão porque é louco, e sim porque é idiota ou estúpido.
Para a mentalidade antiga, estoica principalmente, a estupidez era calamidade pública por afetar o laço social, dissolvendo formas de vida comunitárias, familiares e civis. Num plano distinto da loucura, o estúpido não perde a dimensão cognitiva nem moral, mas, incapaz de vínculos construtivos, perverte significações e valores como democracia, liberdade e outros. Entre nós, isso tem se concretizado na boçalidade bolsonarista. É um fenômeno que banaliza a náusea sartreana na figura do eleitor da antidemocracia, besta quadrada da manipulação algorítmica, que vota bovinamente no pasto do nojo moral.
Não se trata de nojo, esse mal-estar psicológico que decorre da visão de uma sujidade, de intolerância física ou de repugnância moral frente a um comportamento execrável. Geralmente é individual, mas o nojo coletivo se manifesta em situações aberrantes, como figuras de uma antropologia negativa. Ficou gravada na memória pública a postagem despropositada pelo ex-presidente da República de um vídeo repulsivo, conhecido como "golden shower". O fato e o ato definem-se como asco, nojo absoluto.
A náusea, entretanto, não se confunde com essa abjeção. Trata-se de sensação estranha, o profundo mal-estar existencial categorizado como uma das bases do existencialismo de Sartre, descrito no romance "A Náusea" (1938). O protagonista experimenta a angústia de perceber que não há sentido predeterminado para o mundo. Do choque da existência sem essência nem finalidade, tal e qual ela aparece, advém a náusea.
Essa narrativa filosófica, que sempre trafegou no círculo das altas ideias, tem hoje correspondências com o mundo das significações correntes. Significação é o que se vive na prática de uma estrutura ou de um fenômeno, é o que torna concreto um conceito aplicado à vida. Viver uma realidade é percebê-la e lhe dar uma significação.
O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência, com perturbações profundas nos modelos de percepção da realidade e de elaboração de significações. Algo como se as palavras estivessem anêmicas, perdendo força.
Uma das consequências é a estupidez coletiva como fenômeno das clivagens político-partidárias agravadas pela infecção neofascista, que antes era assintomática. Nesse processo, aberto à ascensão ao poder por aberrações políticas, emerge popularmente uma formação psíquica, patológica ao juízo imediato, mas de fato relacionada ao distúrbio que na Antiguidade Clássica inquietou os estoicos: a estupidez. O indivíduo não reza a um pneu de caminhão porque é louco, e sim porque é idiota ou estúpido.
Para a mentalidade antiga, estoica principalmente, a estupidez era calamidade pública por afetar o laço social, dissolvendo formas de vida comunitárias, familiares e civis. Num plano distinto da loucura, o estúpido não perde a dimensão cognitiva nem moral, mas, incapaz de vínculos construtivos, perverte significações e valores como democracia, liberdade e outros. Entre nós, isso tem se concretizado na boçalidade bolsonarista. É um fenômeno que banaliza a náusea sartreana na figura do eleitor da antidemocracia, besta quadrada da manipulação algorítmica, que vota bovinamente no pasto do nojo moral.
A insurgência do analógico
Mauro Pinto, um dos fotógrafos moçambicanos com maior projeção internacional, esteve recentemente na Ilha de Moçambique, desenvolvendo um novo projeto. Estranhei vê-lo fotografar em película. Disse-me que não apenas regressara ao analógico como decidira voltar ao laboratório fotográfico, revelando os próprios negativos e ampliando as provas.
— Saber que tenho um número limitado de rolos obriga-me a olhar melhor. A escolher o que quero fotografar…
Mauro não está sozinho. Há cada vez mais fotógrafos optando pelo analógico. Muitos são jovens. Estão descobrindo as tecnologias antigas como se estas fossem revolucionárias — e são.
Porque no contexto atual, em que podemos produzir quase tudo num piscar de olhos, sem o menor esforço, uma imagem única, irrepetível, elaborada na sequência de um processo longo e difícil, seguindo rituais antigos, muito próximos da magia, é um formidável ato de resistência, um luxo, uma afirmação de autoria.
A banda paraibana Papangu foi notícia por ter gravado há poucas semanas um novo álbum, “Celestial”, num estúdio de Berlim, diretamente em fita magnética de duas polegadas. Tudo analógico, incluindo a masterização. Edição em vinil, claro.
Noutros países há outros exemplos. JP Cooper gravou “Just a few folk”, em fevereiro deste ano, em fita, sem recorrer a computadores, e com os músicos tocando juntos numa mesma sala. Cooper explicou que pretendera criar um álbum com todos os sons que um ser humano produz para que a música possa acontecer, da respiração ao deslizar dos dedos nas cordas.
Na literatura começa a desenhar-se uma onda semelhante. Conheço casos de escritores que voltaram a escrever à mão, em pequenos cadernos, num esforço para recuperar a emoção dos primeiros gestos.
Há também um número crescente de romancistas que decidem publicar nas redes sociais evidências físicas do seu labor. A Wired, revista norte-americana especializada em novas tecnologias e no impacto destas na vida política e cultural, publicou uma matéria com escritores mostrando manuscritos, pilhas de notas, cadernos cobertos de gatafunhos.
Quanto a mim, nunca deixei de tomar notas em cadernos. Escrevo e desenho nos lugares mais improváveis. A experiência ensinou-me que escrever à mão me traz a imponderável vantagem do erro. Muitas vezes, ao passar as anotações para o computador, não consigo decifrar o que eu próprio escrevi. Nesse esforço acabo descobrindo caminhos particularmente interessantes.
Escrever num computador é avançar ao longo de uma via expressa. Escrever à mão é passear ao longo de uma estradinha de terra batida, no meio do mato.
Uma escolha não exclui a outra.
A insurgência contra a enxurrada de produtos sem alma que a utilização preguiçosa da IA propiciou parece-me positiva; convém, contudo, não jogar fora o bebê, juntamente com a água suja. A IA continua sendo um instrumento magnífico. Precisamos, isso sim, de reaprender a utilizá-lo, ao mesmo tempo que reabilitamos o erro como instrumento criativo. O que mais me agrada em todo este processo é a demonstração do quanto, por vezes, o arcaico pode ser moderno.
— Saber que tenho um número limitado de rolos obriga-me a olhar melhor. A escolher o que quero fotografar…
Mauro não está sozinho. Há cada vez mais fotógrafos optando pelo analógico. Muitos são jovens. Estão descobrindo as tecnologias antigas como se estas fossem revolucionárias — e são.
Porque no contexto atual, em que podemos produzir quase tudo num piscar de olhos, sem o menor esforço, uma imagem única, irrepetível, elaborada na sequência de um processo longo e difícil, seguindo rituais antigos, muito próximos da magia, é um formidável ato de resistência, um luxo, uma afirmação de autoria.
A banda paraibana Papangu foi notícia por ter gravado há poucas semanas um novo álbum, “Celestial”, num estúdio de Berlim, diretamente em fita magnética de duas polegadas. Tudo analógico, incluindo a masterização. Edição em vinil, claro.
Noutros países há outros exemplos. JP Cooper gravou “Just a few folk”, em fevereiro deste ano, em fita, sem recorrer a computadores, e com os músicos tocando juntos numa mesma sala. Cooper explicou que pretendera criar um álbum com todos os sons que um ser humano produz para que a música possa acontecer, da respiração ao deslizar dos dedos nas cordas.
Na literatura começa a desenhar-se uma onda semelhante. Conheço casos de escritores que voltaram a escrever à mão, em pequenos cadernos, num esforço para recuperar a emoção dos primeiros gestos.
Há também um número crescente de romancistas que decidem publicar nas redes sociais evidências físicas do seu labor. A Wired, revista norte-americana especializada em novas tecnologias e no impacto destas na vida política e cultural, publicou uma matéria com escritores mostrando manuscritos, pilhas de notas, cadernos cobertos de gatafunhos.
Quanto a mim, nunca deixei de tomar notas em cadernos. Escrevo e desenho nos lugares mais improváveis. A experiência ensinou-me que escrever à mão me traz a imponderável vantagem do erro. Muitas vezes, ao passar as anotações para o computador, não consigo decifrar o que eu próprio escrevi. Nesse esforço acabo descobrindo caminhos particularmente interessantes.
Escrever num computador é avançar ao longo de uma via expressa. Escrever à mão é passear ao longo de uma estradinha de terra batida, no meio do mato.
Uma escolha não exclui a outra.
A insurgência contra a enxurrada de produtos sem alma que a utilização preguiçosa da IA propiciou parece-me positiva; convém, contudo, não jogar fora o bebê, juntamente com a água suja. A IA continua sendo um instrumento magnífico. Precisamos, isso sim, de reaprender a utilizá-lo, ao mesmo tempo que reabilitamos o erro como instrumento criativo. O que mais me agrada em todo este processo é a demonstração do quanto, por vezes, o arcaico pode ser moderno.
O Império da Mercadoria
Embora para muitos possa parecer milenar, o capitalismo como sistema tem pouco mais do que dois séculos de vida. Para o decadente Império Americano, que permaneceu como polo hegemônico do capitalismo internacional por menos de um século, parece que é o fim do mundo, coisa de comunista; para o Partido Comunista, que governa a China em nome da Mercadoria, é “socialismo com características chinesas”; e, para quem gosta de contemporizar, a China está além do capitalismo e do comunismo.
O Império Chinês nunca se interessou pela remota e pouco civilizada Europa, mas o contrário não é verdadeiro. A Europa sempre se interessou pela China, como fonte de conhecimento, tecnologia e luxo – invenções da bússola, papel, imprensa, pólvora; produção de chá, porcelana, seda etc. – desde Marco Polo no século XIII, passando pelo Renascimento Europeu, para desembocar na expansão do Capitalismo Industrial no século XIX.
A Inglaterra, em meados do século XIX, submeteu o Império Chinês, que desabou em 1912. Seguiu-se a república, a guerra civil sob as lideranças de Mao Ze Dong e Chiang Kai Shek, a invasão do Japão e, por fim, a Revolução de 1949. A China, então uma sociedade predominantemente agrária, com 90% da população vivendo na zona rural, desenvolveu as suas “forças produtivas” sob a liderança do Partido Comunista, industrializando e urbanizando o país, a ponto de transformá-lo no polo hegemônico do capitalismo internacional nas primeiras décadas do século XXI.
A gênese do Império da Mercadoria, que corresponde à sua pré-história, data do Renascimento europeu e de sua expansão ultramarina iniciada no século XV. O processo de generalização da Mercadoria, propriamente dito, ocorreu durante a Revolução Industrial inglesa, na passagem dos séculos XVIII para o XIX. O eixo hegemônico do sistema capitalista internacional cruzou o Atlântico no século XX e o Pacífico no século XXI… e, assim, completamos a volta ao mundo, voltamos para a China, agora não mais na condição de um império milenar, mas como a nova sede do Império da Mercadoria.
O país que está herdando a hegemonia do capitalismo internacional está em clima de festa. A poderosa elite banha-se em champanha e acende charutos com notas de 100 yuan. O dinheiro não vale mais nada, pode-se gastar, pode-se desperdiçar à vontade. A massiva classe média, mais comedida, segue atrás, refestelando-se com o mundo da Mercadoria às suas mãos, feliz por se libertar da carestia, abraçando o desperdício, ainda que com certo acanhamento. Os camponeses e os migrantes urbanos, mesmo sujeitos à baixa remuneração e restritos direitos trabalhistas e sociais para habitação, saúde, educação etc., são deferentes à autoridade do governo e agradecem o Partido Comunista por lhes garantir a sobrevivência – o apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados do mundo.
Dedicados operários batem continência, agradecem o governo por lhes oferecer trabalho e se dedicam à produção em prol de garantir a sobrevivência da restaurada soberania da China – suas vidas privadas e familiares são uma abstração. Em maio de 2026, em Shang Hai, por acaso, presenciei, na abertura do expediente de um restaurante, uma gerente falando com oito funcionários em pé, eretos, postados em duas fileiras (como um sargento a seus soldados). Já havia visto cenas semelhantes em vídeos que retratavam operários em unidades industriais e fiquei observando o evento à distância. A gerente falava pelos cotovelos e os garçons, altamente concentrados, nem piscavam. Depois que ela acabou o seu longo discurso, todos levantaram os braços, dispersando e gritando hurra! Pela música, entendi que ela não tinha nada para comunicar, era só um ritual, um exercício de autoritarismo e subserviência (a cena também chamava a atenção pelo empenho da gerente, apesar do reduzido número de subalternos).
Para se ter uma ideia do expediente que impera na China, os comissários de bordo da Air China são “desenhados” acompanhando o layout das aeronaves – idade entre 18 e 25 anos, longilíneos, como só jovens adultos soem ser. Dois tripulantes conseguem transitar tranquilamente lado a lado pelos estreitos corredores; entre os comissários das companhias ocidentais você pode encontrar pessoas com idade avançada e sobrepeso, até com dificuldade de se locomover na aeronave.
A China já está até exportando tecnologia em gerenciamento da classe trabalhadora. A Fuyao Glass Industry Group, que assumiu uma planta industrial nos Estados Unidos, autorizou a filmagem de American Factory acreditando que o documentário registraria uma história de sucesso, a geração de milhares de empregos. Os cineastas independentes, porém, com amplo acesso ao chão de fábrica, reuniões, operários e executivos, nos Estados Unidos e na China, documentaram conflitos trabalhistas, redução de salários, aceleração do ritmo de trabalho, imposição de horas extras, ressentimentos pela restrita vida privada e familiar, cerceamento à organização sindical etc. Ironicamente, a China Comunista está ensinando ao Império Capitalista Americano como fazer seus trabalhadores esquecerem seus parcos direitos trabalhistas conquistados e se submeterem ao capital.
O presidente da Fuyao, Cao De Wang, no final do documentário, disse que a China de sua juventude era pobre, mas que sentia que era mais feliz naquela época. Declarou: “Nas últimas décadas, eu construí inúmeras fábricas. Será que só causei perturbação e destruí o meio ambiente? Não sei se contribuí para o bem ou se sou um criminoso.”
A forte interferência do Estado na economia tem sido usada por algumas organizações de esquerda – que não conseguem sobreviver sem uma “pátria do socialismo” – para identificar a China como comunista. Mas a ingerência do Estado na economia não é algo novo no capitalismo. Durante o século XIX, o capitalismo enfrentava crises econômicas periódicas sem que o Estado interferisse em sua dinâmica. Mas, a partir do século XX, o Estado passou a intervir com maior ou menor intensidade nas economias capitalistas. Uma das mais importantes iniciativas, além de políticas fiscais anticíclicas, foi a substituição do padrão ouro pelo padrão monetário administrado por bancos centrais, com o uso de políticas monetárias.
Diante da Grande Depressão de 1929, sob a presidência de Franklin Roosevelt, os Estados Unidos lançaram o New Deal, com forte intervenção estatal na economia, criação de empregos, regulação financeira e medidas para garantir o bem-estar social. O Estado na Alemanha, sob a liderança de Adolf Hitler, também exerceu forte intervenção na economia – um sucesso do ponto de vista econômico, expressiva reativação industrial e redução do desemprego.
Barack Obama foi eleito em meio à Crise Financeira de 2008 e, em 2009, seu papel no enfrentamento da crise nos Estados Unidos, que evitou o aprofundamento da crise na Europa, foi o motivo subjacente, não explicitado, de ele receber o Prêmio Nobel da Paz (em 2009, os Estados Unidos estavam militarmente envolvidos em conflitos com o Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iêmen e Somália). Obama havia declarado publicamente que ninguém gostava de ajudar os bancos a saírem de uma crise que eles mesmo geraram, mas que as consequências para a sociedade seriam piores se o governo não socorresse as instituições financeiras.
Voltando à interferência do Estado na economia capitalista da Alemanha Nacional-Socialista, seu desempenho econômico foi angariado por uma política estatal racista, expansionista e bélica. Por um momento, isto me fez lembrar a política estatal da atual administração da decadente sociedade norte-americana.
O Império Chinês nunca se interessou pela remota e pouco civilizada Europa, mas o contrário não é verdadeiro. A Europa sempre se interessou pela China, como fonte de conhecimento, tecnologia e luxo – invenções da bússola, papel, imprensa, pólvora; produção de chá, porcelana, seda etc. – desde Marco Polo no século XIII, passando pelo Renascimento Europeu, para desembocar na expansão do Capitalismo Industrial no século XIX.
A Inglaterra, em meados do século XIX, submeteu o Império Chinês, que desabou em 1912. Seguiu-se a república, a guerra civil sob as lideranças de Mao Ze Dong e Chiang Kai Shek, a invasão do Japão e, por fim, a Revolução de 1949. A China, então uma sociedade predominantemente agrária, com 90% da população vivendo na zona rural, desenvolveu as suas “forças produtivas” sob a liderança do Partido Comunista, industrializando e urbanizando o país, a ponto de transformá-lo no polo hegemônico do capitalismo internacional nas primeiras décadas do século XXI.
A gênese do Império da Mercadoria, que corresponde à sua pré-história, data do Renascimento europeu e de sua expansão ultramarina iniciada no século XV. O processo de generalização da Mercadoria, propriamente dito, ocorreu durante a Revolução Industrial inglesa, na passagem dos séculos XVIII para o XIX. O eixo hegemônico do sistema capitalista internacional cruzou o Atlântico no século XX e o Pacífico no século XXI… e, assim, completamos a volta ao mundo, voltamos para a China, agora não mais na condição de um império milenar, mas como a nova sede do Império da Mercadoria.
O país que está herdando a hegemonia do capitalismo internacional está em clima de festa. A poderosa elite banha-se em champanha e acende charutos com notas de 100 yuan. O dinheiro não vale mais nada, pode-se gastar, pode-se desperdiçar à vontade. A massiva classe média, mais comedida, segue atrás, refestelando-se com o mundo da Mercadoria às suas mãos, feliz por se libertar da carestia, abraçando o desperdício, ainda que com certo acanhamento. Os camponeses e os migrantes urbanos, mesmo sujeitos à baixa remuneração e restritos direitos trabalhistas e sociais para habitação, saúde, educação etc., são deferentes à autoridade do governo e agradecem o Partido Comunista por lhes garantir a sobrevivência – o apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados do mundo.
Dedicados operários batem continência, agradecem o governo por lhes oferecer trabalho e se dedicam à produção em prol de garantir a sobrevivência da restaurada soberania da China – suas vidas privadas e familiares são uma abstração. Em maio de 2026, em Shang Hai, por acaso, presenciei, na abertura do expediente de um restaurante, uma gerente falando com oito funcionários em pé, eretos, postados em duas fileiras (como um sargento a seus soldados). Já havia visto cenas semelhantes em vídeos que retratavam operários em unidades industriais e fiquei observando o evento à distância. A gerente falava pelos cotovelos e os garçons, altamente concentrados, nem piscavam. Depois que ela acabou o seu longo discurso, todos levantaram os braços, dispersando e gritando hurra! Pela música, entendi que ela não tinha nada para comunicar, era só um ritual, um exercício de autoritarismo e subserviência (a cena também chamava a atenção pelo empenho da gerente, apesar do reduzido número de subalternos).
Para se ter uma ideia do expediente que impera na China, os comissários de bordo da Air China são “desenhados” acompanhando o layout das aeronaves – idade entre 18 e 25 anos, longilíneos, como só jovens adultos soem ser. Dois tripulantes conseguem transitar tranquilamente lado a lado pelos estreitos corredores; entre os comissários das companhias ocidentais você pode encontrar pessoas com idade avançada e sobrepeso, até com dificuldade de se locomover na aeronave.
A China já está até exportando tecnologia em gerenciamento da classe trabalhadora. A Fuyao Glass Industry Group, que assumiu uma planta industrial nos Estados Unidos, autorizou a filmagem de American Factory acreditando que o documentário registraria uma história de sucesso, a geração de milhares de empregos. Os cineastas independentes, porém, com amplo acesso ao chão de fábrica, reuniões, operários e executivos, nos Estados Unidos e na China, documentaram conflitos trabalhistas, redução de salários, aceleração do ritmo de trabalho, imposição de horas extras, ressentimentos pela restrita vida privada e familiar, cerceamento à organização sindical etc. Ironicamente, a China Comunista está ensinando ao Império Capitalista Americano como fazer seus trabalhadores esquecerem seus parcos direitos trabalhistas conquistados e se submeterem ao capital.
O presidente da Fuyao, Cao De Wang, no final do documentário, disse que a China de sua juventude era pobre, mas que sentia que era mais feliz naquela época. Declarou: “Nas últimas décadas, eu construí inúmeras fábricas. Será que só causei perturbação e destruí o meio ambiente? Não sei se contribuí para o bem ou se sou um criminoso.”
A forte interferência do Estado na economia tem sido usada por algumas organizações de esquerda – que não conseguem sobreviver sem uma “pátria do socialismo” – para identificar a China como comunista. Mas a ingerência do Estado na economia não é algo novo no capitalismo. Durante o século XIX, o capitalismo enfrentava crises econômicas periódicas sem que o Estado interferisse em sua dinâmica. Mas, a partir do século XX, o Estado passou a intervir com maior ou menor intensidade nas economias capitalistas. Uma das mais importantes iniciativas, além de políticas fiscais anticíclicas, foi a substituição do padrão ouro pelo padrão monetário administrado por bancos centrais, com o uso de políticas monetárias.
Diante da Grande Depressão de 1929, sob a presidência de Franklin Roosevelt, os Estados Unidos lançaram o New Deal, com forte intervenção estatal na economia, criação de empregos, regulação financeira e medidas para garantir o bem-estar social. O Estado na Alemanha, sob a liderança de Adolf Hitler, também exerceu forte intervenção na economia – um sucesso do ponto de vista econômico, expressiva reativação industrial e redução do desemprego.
Barack Obama foi eleito em meio à Crise Financeira de 2008 e, em 2009, seu papel no enfrentamento da crise nos Estados Unidos, que evitou o aprofundamento da crise na Europa, foi o motivo subjacente, não explicitado, de ele receber o Prêmio Nobel da Paz (em 2009, os Estados Unidos estavam militarmente envolvidos em conflitos com o Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iêmen e Somália). Obama havia declarado publicamente que ninguém gostava de ajudar os bancos a saírem de uma crise que eles mesmo geraram, mas que as consequências para a sociedade seriam piores se o governo não socorresse as instituições financeiras.
Voltando à interferência do Estado na economia capitalista da Alemanha Nacional-Socialista, seu desempenho econômico foi angariado por uma política estatal racista, expansionista e bélica. Por um momento, isto me fez lembrar a política estatal da atual administração da decadente sociedade norte-americana.
Flávio Bolsonaro renega ajuste fiscal; direita já pode defender a democracia
Ô direitista, não precisa pular a coluna. Hoje o tema te interessa.
Não vou falar dos 145 mil mortos só por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.
Pode ficar tranquilo, vou falar do único tema que a direita discute utilizando o conceito adequado de risco: ajuste fiscal.
Ninguém no mercado acha que o risco de crise fiscal é zero até o dia em que o país quebra. Mas é assim que os ricos brasileiros medem o risco que o bolsonarismo representa para a democracia: só admitirão que a democracia corre risco quando os adversários da ditadura de direita já estiverem no pau-de-arara por pelo menos seis meses. E olhe lá.
Enfim, Flávio Bolsonaro foi ao Jornal Nacional e disse que não vai fazer os ajustes que o mercado está pedindo. Disse que vai dar aumento real para o salário mínimo, que não vai desindexar os programas sociais do salário mínimo, que não vai mexer na Previdência. Disse inclusive que vai cortar impostos, o que agravaria o desequilíbrio fiscal.
Também disse que não acredita no aquecimento global. Mas calma, já falei que só vou falar de coisas que você, direitista, acha importantes.
O fato de Flávio no JN ter contrariado sua equipe econômica, em si, não é grave: sua equipe econômica é uma porcaria.
Se alguém na Faria Lima declarar apoio a Flávio Bolsonaro, tenha certeza: é gente da série D do mercado querendo outra boquinha como a que o bolsonarismo ofereceu a Daniel Vorcaro. São patrocinadores em potencial da continuação de "Dark Horse", "The Revenge of Little Banana".
O problema, para Flávio, é que no JN ele aumentou o preço de fazer o ajuste que já prometeu à Faria Lima que fará. Os dois presidentes impichados em nossa história começaram o governo fazendo o que tinham prometido que não fariam.
A única medida de ajuste que Flávio anunciou no JN foi combate à corrupção. Pois é. O Flávio. Combatendo a corrupção. Enfim.
Mesmo se a proposta fosse séria, seria insuficiente. Pergunte para qualquer economista: não é a corrupção que explica nossa taxa de juros, a estagnação de nossa produtividade, o déficit da Previdência ou a trajetória da dívida pública.
E sim, esses assuntos deveriam ocupar uma parte maior de nosso debate público. Eu topo um ajuste fiscal equânime na distribuição de sacrifícios. Mas não contem comigo para discutir economia enquanto anistia aos golpistas, golpe no STF e submissão aos Estados Unidos estiverem sendo discutidos na sala ao lado.
Gosto de contas públicas equilibradas, mas gosto mais de democracia e de soberania nacional. No Jornal Nacional, Flávio não soube defender nenhum dos três. Quem sabe agora você, leitor direitista, comece a se preocupar com os outros dois.
Não vou falar dos 145 mil mortos só por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.
Pode ficar tranquilo, vou falar do único tema que a direita discute utilizando o conceito adequado de risco: ajuste fiscal.
Ninguém no mercado acha que o risco de crise fiscal é zero até o dia em que o país quebra. Mas é assim que os ricos brasileiros medem o risco que o bolsonarismo representa para a democracia: só admitirão que a democracia corre risco quando os adversários da ditadura de direita já estiverem no pau-de-arara por pelo menos seis meses. E olhe lá.
Enfim, Flávio Bolsonaro foi ao Jornal Nacional e disse que não vai fazer os ajustes que o mercado está pedindo. Disse que vai dar aumento real para o salário mínimo, que não vai desindexar os programas sociais do salário mínimo, que não vai mexer na Previdência. Disse inclusive que vai cortar impostos, o que agravaria o desequilíbrio fiscal.
Também disse que não acredita no aquecimento global. Mas calma, já falei que só vou falar de coisas que você, direitista, acha importantes.
O fato de Flávio no JN ter contrariado sua equipe econômica, em si, não é grave: sua equipe econômica é uma porcaria.
Se alguém na Faria Lima declarar apoio a Flávio Bolsonaro, tenha certeza: é gente da série D do mercado querendo outra boquinha como a que o bolsonarismo ofereceu a Daniel Vorcaro. São patrocinadores em potencial da continuação de "Dark Horse", "The Revenge of Little Banana".
O problema, para Flávio, é que no JN ele aumentou o preço de fazer o ajuste que já prometeu à Faria Lima que fará. Os dois presidentes impichados em nossa história começaram o governo fazendo o que tinham prometido que não fariam.
A única medida de ajuste que Flávio anunciou no JN foi combate à corrupção. Pois é. O Flávio. Combatendo a corrupção. Enfim.
Mesmo se a proposta fosse séria, seria insuficiente. Pergunte para qualquer economista: não é a corrupção que explica nossa taxa de juros, a estagnação de nossa produtividade, o déficit da Previdência ou a trajetória da dívida pública.
E sim, esses assuntos deveriam ocupar uma parte maior de nosso debate público. Eu topo um ajuste fiscal equânime na distribuição de sacrifícios. Mas não contem comigo para discutir economia enquanto anistia aos golpistas, golpe no STF e submissão aos Estados Unidos estiverem sendo discutidos na sala ao lado.
Gosto de contas públicas equilibradas, mas gosto mais de democracia e de soberania nacional. No Jornal Nacional, Flávio não soube defender nenhum dos três. Quem sabe agora você, leitor direitista, comece a se preocupar com os outros dois.
O partido da mídia
Nas primeiras eleições diretas após o fim da ditadura, Lula, líder de uma agremiação que ainda não completara uma década, passou longe do radar no primeiro turno. Em 1989, a ameaça aos senhores do poder não era o sapo barbudo, mas o ex-governador Leonel Brizola. A ida do sindicalista à segunda volta marcaria o início de uma nova rivalidade. A manipulação pela Rede Globo do debate entre Lula e Fernando Collor, em favor do “caçador dos marajás”, seria a Pedra de Roseta de sucessivas intervenções dos meios de comunicação no processo eleitoral.
Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.
Fábio Luís da Silva, o primogênito apelidado de “Lulinha” pela mídia para criar uma associação direta com o pai, começou a despontar com mais frequência no noticiário e no universo das fake news em 2010. Lulinha, sabe qualquer cidadão de bem, é proprietário de uma Ferrari banhada a ouro e dono da Friboi. Em 2014, no auge da República de Curitiba, a revista Veja, às vésperas das eleições, estampou a capa “Eles sabiam”, ilustrada com as fotos de Lula e da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição.
A cruzada midiática não impediu as vitórias do PT nas urnas, mas degradou o ambiente político. Dois anos depois, Dilma seria cassada sem cometer crime de responsabilidade. Na sequência, Lula passaria 580 dias atrás das grades. Como era preciso prender e “esculachar”, o então ex-presidente acabaria impedido pelo ministro do STF José Dias Toffoli, acoelhado pela pressão da “opinião pública”, de ir ao enterro do irmão Vavá. E silenciado durante a disputa presidencial de 2018, quando o bolsonarismo emergiu das tubulações.
Em 2022, aturdidos pelas ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, os meios de comunicação ficaram entre a cruz e a espada. Mas não demoraram a rodopiar no salão um Sátántangó, o tango com satã. Sem a quimera da “terceira via”, escolheram para a valsa um juiz-torcedor (qualquer semelhança não é mera coincidência) e as viúvas da Lava Jato na PF. Lulinha está de novo sob os holofotes, por meio de vazamentos seletivos, novelizados e desconexos. Já a apuração sobre os 61 milhões doados por Daniel Vorcaro ao clã Bolsonaro merece registros pontuais.
Não se trata exatamente de torcer por Flávio Bolsonaro. Basta conter qualquer ímpeto heterodoxo do atual mandatário. Quanto mais difícil a eventual vitória de Lula, menor a margem de ação do presidente no quarto e derradeiro mandato. Em paralelo, Arminio Fraga encarna Cassandra e vaticina, com ampla cobertura, a derrota da Troia petista. “Recessão, recessão”, repete aos quatro ventos.
Engana-se quem pensa que os adversários de Lula foram no passado os tucanos e são no presente os Bolsonaro. Desde sempre, a oposição é o partido da mídia.
CartaCapital
Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.
Fábio Luís da Silva, o primogênito apelidado de “Lulinha” pela mídia para criar uma associação direta com o pai, começou a despontar com mais frequência no noticiário e no universo das fake news em 2010. Lulinha, sabe qualquer cidadão de bem, é proprietário de uma Ferrari banhada a ouro e dono da Friboi. Em 2014, no auge da República de Curitiba, a revista Veja, às vésperas das eleições, estampou a capa “Eles sabiam”, ilustrada com as fotos de Lula e da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição.
A cruzada midiática não impediu as vitórias do PT nas urnas, mas degradou o ambiente político. Dois anos depois, Dilma seria cassada sem cometer crime de responsabilidade. Na sequência, Lula passaria 580 dias atrás das grades. Como era preciso prender e “esculachar”, o então ex-presidente acabaria impedido pelo ministro do STF José Dias Toffoli, acoelhado pela pressão da “opinião pública”, de ir ao enterro do irmão Vavá. E silenciado durante a disputa presidencial de 2018, quando o bolsonarismo emergiu das tubulações.
Em 2022, aturdidos pelas ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, os meios de comunicação ficaram entre a cruz e a espada. Mas não demoraram a rodopiar no salão um Sátántangó, o tango com satã. Sem a quimera da “terceira via”, escolheram para a valsa um juiz-torcedor (qualquer semelhança não é mera coincidência) e as viúvas da Lava Jato na PF. Lulinha está de novo sob os holofotes, por meio de vazamentos seletivos, novelizados e desconexos. Já a apuração sobre os 61 milhões doados por Daniel Vorcaro ao clã Bolsonaro merece registros pontuais.
Não se trata exatamente de torcer por Flávio Bolsonaro. Basta conter qualquer ímpeto heterodoxo do atual mandatário. Quanto mais difícil a eventual vitória de Lula, menor a margem de ação do presidente no quarto e derradeiro mandato. Em paralelo, Arminio Fraga encarna Cassandra e vaticina, com ampla cobertura, a derrota da Troia petista. “Recessão, recessão”, repete aos quatro ventos.
Engana-se quem pensa que os adversários de Lula foram no passado os tucanos e são no presente os Bolsonaro. Desde sempre, a oposição é o partido da mídia.
CartaCapital
O jornalista e o que ele deve fazer diante de um mentiroso compulsivo
Perdão pela frase redundante, mas ela foi dita por Flávio Bolsonaro em entrevista ao Jornal Nacional (JN) na última sexta-feira: “Eu fui bem claro ao dizer que jamais questionei a questão do processo eleitoral”. Insatisfeitos com a resposta, Cesar Tralli e Renata Vasconcellos, os âncoras do programa, insistiram no assunto. Flávio não recuou do que disse, nem quando confrontado com a lembrança de declarações recentes feitas por ele.
Recapitulando: em 2014, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, ele afirmou na tribuna da Assembleia Legislativa que havia desconfiança na população em relação à urna eletrônica, já que ela não podia ser auditada — o que não é verdade. “O que nos une é a desconfiança da urna eletrônica, um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic, que é impossível de ser auditada porque não tem o voto impresso”, disse ele.
No seu perfil no X, em 11 de setembro de 2018, Flávio voltou a dizer que “é impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”, acrescentando: “Na minha avaliação, alguns institutos de pesquisas podem ser usados, exatamente, para dar um ar de legitimidade ao candidato da urna eletrônica, e não o do eleitor, vencer as eleições”. Em agosto de 2021, no Senado, lamentou a rejeição da proposta de restabelecimento do voto impresso: “Teremos eleições sob suspeita”.
Logo após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, Flávio deu uma entrevista ao jornal O Globo em que afirmou que não houve fraude nas urnas, “mas podia ter acontecido”. Fez menção a um relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização do sistema eletrônico de votação. O documento, contudo, encomendado por seu pai, não detectou qualquer falha concreta de segurança que pudesse levar à adulteração de votos.
Finalmente, em julho último, durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília com representantes de mais de 40 países, Flávio afirmou falsamente que as urnas eletrônicas brasileiras teriam sido fabricadas pela Smartmatic — empresa que ele associou a suspeitas de fraudes eleitorais na Venezuela utilizando relatórios da CIA, agência de espionagem dos Estados Unidos. Na entrevista ao JN, ele admitiu ter se equivocado ao citar a Smartmatic.
É fato, pois, que Flávio mentiu ao JN ao garantir que jamais questionou “a questão do processo eleitoral”. Mas não foi a única vez que mentiu ao longo da entrevista de 40 minutos. Para driblar as repetidas perguntas sobre suas ligações com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, ele chegou a criar um diálogo fictício entre Lula e Vorcaro. Nesse ponto, Tralli e Renata poderiam ter falado: “Espera aí, senador, isso não existiu”. Mas não falaram.
Também ouviram em silêncio Flávio dizer que o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Força Aérea Brasileira à época do governo de seu pai, anda pedindo votos para reeleger Lula. Baptista chamou a afirmação de “leviandade”, dizendo que o comentário foi uma forma de o candidato fugir de uma pergunta dos entrevistadores. A birra de Flávio com o tenente-brigadeiro é porque ele não aderiu ao golpe de 8 de janeiro de 2023.
Perguntado sobre o Pix, e se o manterá caso se eleja presidente da República, Flávio respondeu que sim, informando em seguida que a gratuidade do Pix foi decidida por exigência do seu pai. Mentiu, para variar. A gratuidade foi decidida pelo Banco Central em outubro de 2020. Jair Bolsonaro não fazia a menor ideia do que se tratava. Indagado a respeito por um apoiador que o parabenizou pela medida, Bolsonaro pai disse:
— Não tomei conhecimento. Vou conversar esta semana com o Roberto Campos [presidente do Banco Central].
Se o compromisso número um do jornalista é com a verdade, ele não pode deixar passar mentiras quando entrevista alguém ao vivo ou para posterior divulgação. Se procede assim, associa-se às mentiras e desinforma em vez de informar. Esse é um dos pecados capitais do jornalismo, infelizmente muito em voga.
Recapitulando: em 2014, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, ele afirmou na tribuna da Assembleia Legislativa que havia desconfiança na população em relação à urna eletrônica, já que ela não podia ser auditada — o que não é verdade. “O que nos une é a desconfiança da urna eletrônica, um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic, que é impossível de ser auditada porque não tem o voto impresso”, disse ele.
No seu perfil no X, em 11 de setembro de 2018, Flávio voltou a dizer que “é impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”, acrescentando: “Na minha avaliação, alguns institutos de pesquisas podem ser usados, exatamente, para dar um ar de legitimidade ao candidato da urna eletrônica, e não o do eleitor, vencer as eleições”. Em agosto de 2021, no Senado, lamentou a rejeição da proposta de restabelecimento do voto impresso: “Teremos eleições sob suspeita”.
Logo após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, Flávio deu uma entrevista ao jornal O Globo em que afirmou que não houve fraude nas urnas, “mas podia ter acontecido”. Fez menção a um relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização do sistema eletrônico de votação. O documento, contudo, encomendado por seu pai, não detectou qualquer falha concreta de segurança que pudesse levar à adulteração de votos.
Finalmente, em julho último, durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília com representantes de mais de 40 países, Flávio afirmou falsamente que as urnas eletrônicas brasileiras teriam sido fabricadas pela Smartmatic — empresa que ele associou a suspeitas de fraudes eleitorais na Venezuela utilizando relatórios da CIA, agência de espionagem dos Estados Unidos. Na entrevista ao JN, ele admitiu ter se equivocado ao citar a Smartmatic.
É fato, pois, que Flávio mentiu ao JN ao garantir que jamais questionou “a questão do processo eleitoral”. Mas não foi a única vez que mentiu ao longo da entrevista de 40 minutos. Para driblar as repetidas perguntas sobre suas ligações com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, ele chegou a criar um diálogo fictício entre Lula e Vorcaro. Nesse ponto, Tralli e Renata poderiam ter falado: “Espera aí, senador, isso não existiu”. Mas não falaram.
Também ouviram em silêncio Flávio dizer que o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Força Aérea Brasileira à época do governo de seu pai, anda pedindo votos para reeleger Lula. Baptista chamou a afirmação de “leviandade”, dizendo que o comentário foi uma forma de o candidato fugir de uma pergunta dos entrevistadores. A birra de Flávio com o tenente-brigadeiro é porque ele não aderiu ao golpe de 8 de janeiro de 2023.
Perguntado sobre o Pix, e se o manterá caso se eleja presidente da República, Flávio respondeu que sim, informando em seguida que a gratuidade do Pix foi decidida por exigência do seu pai. Mentiu, para variar. A gratuidade foi decidida pelo Banco Central em outubro de 2020. Jair Bolsonaro não fazia a menor ideia do que se tratava. Indagado a respeito por um apoiador que o parabenizou pela medida, Bolsonaro pai disse:
— Não tomei conhecimento. Vou conversar esta semana com o Roberto Campos [presidente do Banco Central].
Se o compromisso número um do jornalista é com a verdade, ele não pode deixar passar mentiras quando entrevista alguém ao vivo ou para posterior divulgação. Se procede assim, associa-se às mentiras e desinforma em vez de informar. Esse é um dos pecados capitais do jornalismo, infelizmente muito em voga.
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