domingo, 30 de agosto de 2026

A insurgência do analógico

Mauro Pinto, um dos fotógrafos moçambicanos com maior projeção internacional, esteve recentemente na Ilha de Moçambique, desenvolvendo um novo projeto. Estranhei vê-lo fotografar em película. Disse-me que não apenas regressara ao analógico como decidira voltar ao laboratório fotográfico, revelando os próprios negativos e ampliando as provas.

— Saber que tenho um número limitado de rolos obriga-me a olhar melhor. A escolher o que quero fotografar…

Mauro não está sozinho. Há cada vez mais fotógrafos optando pelo analógico. Muitos são jovens. Estão descobrindo as tecnologias antigas como se estas fossem revolucionárias — e são.

Porque no contexto atual, em que podemos produzir quase tudo num piscar de olhos, sem o menor esforço, uma imagem única, irrepetível, elaborada na sequência de um processo longo e difícil, seguindo rituais antigos, muito próximos da magia, é um formidável ato de resistência, um luxo, uma afirmação de autoria.


A banda paraibana Papangu foi notícia por ter gravado há poucas semanas um novo álbum, “Celestial”, num estúdio de Berlim, diretamente em fita magnética de duas polegadas. Tudo analógico, incluindo a masterização. Edição em vinil, claro.

Noutros países há outros exemplos. JP Cooper gravou “Just a few folk”, em fevereiro deste ano, em fita, sem recorrer a computadores, e com os músicos tocando juntos numa mesma sala. Cooper explicou que pretendera criar um álbum com todos os sons que um ser humano produz para que a música possa acontecer, da respiração ao deslizar dos dedos nas cordas.

Na literatura começa a desenhar-se uma onda semelhante. Conheço casos de escritores que voltaram a escrever à mão, em pequenos cadernos, num esforço para recuperar a emoção dos primeiros gestos.

Há também um número crescente de romancistas que decidem publicar nas redes sociais evidências físicas do seu labor. A Wired, revista norte-americana especializada em novas tecnologias e no impacto destas na vida política e cultural, publicou uma matéria com escritores mostrando manuscritos, pilhas de notas, cadernos cobertos de gatafunhos.

Quanto a mim, nunca deixei de tomar notas em cadernos. Escrevo e desenho nos lugares mais improváveis. A experiência ensinou-me que escrever à mão me traz a imponderável vantagem do erro. Muitas vezes, ao passar as anotações para o computador, não consigo decifrar o que eu próprio escrevi. Nesse esforço acabo descobrindo caminhos particularmente interessantes.

Escrever num computador é avançar ao longo de uma via expressa. Escrever à mão é passear ao longo de uma estradinha de terra batida, no meio do mato.

Uma escolha não exclui a outra.

A insurgência contra a enxurrada de produtos sem alma que a utilização preguiçosa da IA propiciou parece-me positiva; convém, contudo, não jogar fora o bebê, juntamente com a água suja. A IA continua sendo um instrumento magnífico. Precisamos, isso sim, de reaprender a utilizá-lo, ao mesmo tempo que reabilitamos o erro como instrumento criativo. O que mais me agrada em todo este processo é a demonstração do quanto, por vezes, o arcaico pode ser moderno.

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