domingo, 14 de junho de 2026
Ninguém nos ensinou a ser cidadãos
A democracia tem uma exigência curiosa: espera que os cidadãos participem, mas pouco garante que estes compreendam verdadeiramente aquilo em que participam.
Todos os anos discutimos a abstenção, o afastamento dos jovens da política, a desinformação crescente e a fragilidade do debate público. Multiplicam-se análises, comentários, diagnósticos e preocupações. Procuram-se explicações para a aparente indiferença de uma parte significativa da população perante os assuntos que moldam a vida coletiva.
Mas como podemos exigir participação democrática de cidadãos que nunca foram ensinados a compreender as regras que os governam?
Ao longo da escolaridade obrigatória, aprendemos a interpretar textos, a resolver equações, a compreender fenómenos físicos e a memorizar acontecimentos históricos. Tudo isso é importante e contribui para a formação de indivíduos mais preparados.
O que se continua por explicar é a razão pela qual consideramos essencial ensinar os jovens a compreender o mundo, mas dispensável ensinar-lhes o funcionamento das estruturas que organizam a sua própria vida em sociedade.
A maioria dos jovens termina a escola sem compreender o processo legislativo. Sem saber exatamente quais são as competências dos diferentes órgãos de soberania. Sem conhecer os mecanismos de participação cívica que existem para além do voto. E até sem os conhecimentos básicos sobre direitos fundamentais, deveres cívicos, garantias constitucionais ou funcionamento institucional. Muitos não conseguem sequer distinguir claramente o papel do Governo, da Assembleia da República ou do Presidente da República.
E, ainda assim, esperamos que participem.
A cidadania é tratada como uma consequência natural da idade adulta. Quase como se bastasse atingir determinada idade para compreender automaticamente o funcionamento da democracia. Parece que o simples facto de possuir direitos implica saber exercê-los.
Mas a cidadania não surge espontaneamente. A cidadania aprende-se.
E o problema não é a ausência total deste tema nas escolas. É a forma como continua a ser abordado. Fala-se da importância da participação, mas raramente se explica com profundidade como funcionam as instituições, como nasce uma lei ou de que forma os cidadãos podem influenciar as decisões públicas.
Nenhuma democracia sobrevive apenas através das suas instituições. Sobrevive através da qualidade cívica dos cidadãos que as sustentam. E essa qualidade depende, inevitavelmente, do conhecimento.
Não existe participação informada sem literacia cívica, pensamento político crítico e autónomo, sem compreensão mínima das estruturas políticas ou verdadeira capacidade de escrutínio quando os mecanismos de decisão permanecem desconhecidos para uma parte significativa da população. Não basta conhecer os próprios direitos. É igualmente necessário compreender os deveres e responsabilidades que os acompanham.
O problema torna-se ainda mais evidente numa época marcada pelo excesso de informação. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdos políticos e a opiniões disponíveis. Nunca foi tão fácil comentar, reagir, partilhar ou posicionar-nos publicamente sobre qualquer tema. Mas uma democracia saudável não precisa apenas de cidadãos capazes de expressar opiniões. Precisa de cidadãos capazes de compreender aquilo sobre o qual opinam. A diferença entre as duas coisas é maior do que parece.
Uma sociedade pode produzir milhões de opiniões e continuar profundamente vulnerável à simplificação, à manipulação e à desinformação. Na verdade, é precisamente a ausência de conhecimento sólido que torna os slogans mais eficazes do que os argumentos e as emoções mais influentes do que os factos.
Quando a literacia cívico-jurídica é insuficiente, o espaço público transforma-se facilmente num espaço de reação permanente. Discute-se muito. Compreende-se pouco.
E quanto menor for a compreensão coletiva das instituições, mais fácil se torna reduzir a política a personalidades, escândalos ou ciclos de indignação momentânea.
A democracia perde profundidade quando os cidadãos deixam de compreender os seus próprios instrumentos. Por isso, a questão não é saber se os jovens estão interessados na política. A questão é perceber porque continuamos surpreendidos com a distância entre os cidadãos e as instituições quando nunca investimos seriamente em aproximá-los.
Exigimos participação, responsabilidade, sentido crítico e compromisso democrático. Mas continuamos a tratar a formação cívica como um complemento e não como uma prioridade. O resultado está à vista.
Esperamos cidadãos plenamente preparados para exercer direitos que nunca aprenderam verdadeiramente a compreender. E depois confundimos essa falha coletiva com desinteresse individual.
O maior problema da democracia portuguesa pode não ser a falta de participação. Pode ser o facto de continuarmos a acreditar que a participação dispensa aprendizagem.
Todos os anos discutimos a abstenção, o afastamento dos jovens da política, a desinformação crescente e a fragilidade do debate público. Multiplicam-se análises, comentários, diagnósticos e preocupações. Procuram-se explicações para a aparente indiferença de uma parte significativa da população perante os assuntos que moldam a vida coletiva.
Mas como podemos exigir participação democrática de cidadãos que nunca foram ensinados a compreender as regras que os governam?
Ao longo da escolaridade obrigatória, aprendemos a interpretar textos, a resolver equações, a compreender fenómenos físicos e a memorizar acontecimentos históricos. Tudo isso é importante e contribui para a formação de indivíduos mais preparados.
O que se continua por explicar é a razão pela qual consideramos essencial ensinar os jovens a compreender o mundo, mas dispensável ensinar-lhes o funcionamento das estruturas que organizam a sua própria vida em sociedade.
A maioria dos jovens termina a escola sem compreender o processo legislativo. Sem saber exatamente quais são as competências dos diferentes órgãos de soberania. Sem conhecer os mecanismos de participação cívica que existem para além do voto. E até sem os conhecimentos básicos sobre direitos fundamentais, deveres cívicos, garantias constitucionais ou funcionamento institucional. Muitos não conseguem sequer distinguir claramente o papel do Governo, da Assembleia da República ou do Presidente da República.
E, ainda assim, esperamos que participem.
A cidadania é tratada como uma consequência natural da idade adulta. Quase como se bastasse atingir determinada idade para compreender automaticamente o funcionamento da democracia. Parece que o simples facto de possuir direitos implica saber exercê-los.
Mas a cidadania não surge espontaneamente. A cidadania aprende-se.
E o problema não é a ausência total deste tema nas escolas. É a forma como continua a ser abordado. Fala-se da importância da participação, mas raramente se explica com profundidade como funcionam as instituições, como nasce uma lei ou de que forma os cidadãos podem influenciar as decisões públicas.
Nenhuma democracia sobrevive apenas através das suas instituições. Sobrevive através da qualidade cívica dos cidadãos que as sustentam. E essa qualidade depende, inevitavelmente, do conhecimento.
Não existe participação informada sem literacia cívica, pensamento político crítico e autónomo, sem compreensão mínima das estruturas políticas ou verdadeira capacidade de escrutínio quando os mecanismos de decisão permanecem desconhecidos para uma parte significativa da população. Não basta conhecer os próprios direitos. É igualmente necessário compreender os deveres e responsabilidades que os acompanham.
O problema torna-se ainda mais evidente numa época marcada pelo excesso de informação. Nunca tivemos tanto acesso a conteúdos políticos e a opiniões disponíveis. Nunca foi tão fácil comentar, reagir, partilhar ou posicionar-nos publicamente sobre qualquer tema. Mas uma democracia saudável não precisa apenas de cidadãos capazes de expressar opiniões. Precisa de cidadãos capazes de compreender aquilo sobre o qual opinam. A diferença entre as duas coisas é maior do que parece.
Uma sociedade pode produzir milhões de opiniões e continuar profundamente vulnerável à simplificação, à manipulação e à desinformação. Na verdade, é precisamente a ausência de conhecimento sólido que torna os slogans mais eficazes do que os argumentos e as emoções mais influentes do que os factos.
Quando a literacia cívico-jurídica é insuficiente, o espaço público transforma-se facilmente num espaço de reação permanente. Discute-se muito. Compreende-se pouco.
E quanto menor for a compreensão coletiva das instituições, mais fácil se torna reduzir a política a personalidades, escândalos ou ciclos de indignação momentânea.
A democracia perde profundidade quando os cidadãos deixam de compreender os seus próprios instrumentos. Por isso, a questão não é saber se os jovens estão interessados na política. A questão é perceber porque continuamos surpreendidos com a distância entre os cidadãos e as instituições quando nunca investimos seriamente em aproximá-los.
Exigimos participação, responsabilidade, sentido crítico e compromisso democrático. Mas continuamos a tratar a formação cívica como um complemento e não como uma prioridade. O resultado está à vista.
Esperamos cidadãos plenamente preparados para exercer direitos que nunca aprenderam verdadeiramente a compreender. E depois confundimos essa falha coletiva com desinteresse individual.
O maior problema da democracia portuguesa pode não ser a falta de participação. Pode ser o facto de continuarmos a acreditar que a participação dispensa aprendizagem.
Em Portugal e num charco...
A nossa direita populista é tenebrosa e é muito incompetente. A outra direita que tenta distinguir-se desta também não tem grandes vultos
Flávio, um candidato pesado
O filme parcialmente financiado por Daniel Vorcaro, a diplomacia suicida e a plataforma oca de Flávio Bolsonaro cobraram seu preço na última pesquisa Quaest. Lula ultrapassou-o, marcando 44% contra 38%. Junho é cedo para se prever o resultado de uma eleição marcada para outubro, mas alguma coisa vai mal com o candidato.
Lula conseguiu sair de um viés de queda para outro, de alta, na segunda metade de um terceiro mandato e a poucos meses da eleição. De novo, nesta eleição, até agora a única novidade é a recuperação do presidente. Essa proeza foi conseguida muito mais pelos escorregões e abulias dos adversários do que por mais de três anos de desempenho.
Flávio, como o pai, cavalga o antipetismo, e só. Os eleitores independentes migraram e passaram ao largo de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em 2026 o antipetismo está num nicho, encolhido por falta de agenda. Bolsonaro deu a Lula o auriverde pendão desta terra e ele está enrolado nela. Zema e Caiado parecem sem rumo. Como a campanha ainda não começou, qualquer dos três anti-Lula pode, em tese, dar uma disparada, mas quem melhor cultiva a pista é Lula. Ele semeou-a mudando a tabela de alíquotas do Imposto de Renda e oferece a escala 5x2. A proximidade de Lulinha com o Careca do INSS não tem o efeito do áudio de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Até agora, o antipetismo tem só dois ativos, a segurança pública e Donald Trump. No primeiro, o governo apresenta planos árduos e a oposição põe na mesa chacinas como a da Penha. No segundo, depois da carta neurastênica do ano passado, Trump bombardeia o Brasil com tarifaços que afetam a economia nacional e, com ela, os eleitores.
No século passado, John Kennedy asfixiava o governo de João Goulart enchendo a bola dos governadores da oposição com programas de moradia e agendas reformistas. Trump enche a bola dos Bolsonaro com fotografias e frases banais.
(Vale lembrar que em janeiro de 1964, quando a derrubada de Goulart já estava no baralho, o embaixador americano Lincoln Gordon passou por Washington e pediu para ser recebido pelo presidente Lyndon Johnson. Pedido negado. Gordon baixou a bola e pediu para tirar uma fotografia com Johnson, pois isso o ajudaria no Brasil. Pedido igualmente negado.)
Lula conseguiu sair de um viés de queda para outro, de alta, na segunda metade de um terceiro mandato e a poucos meses da eleição. De novo, nesta eleição, até agora a única novidade é a recuperação do presidente. Essa proeza foi conseguida muito mais pelos escorregões e abulias dos adversários do que por mais de três anos de desempenho.
Flávio, como o pai, cavalga o antipetismo, e só. Os eleitores independentes migraram e passaram ao largo de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em 2026 o antipetismo está num nicho, encolhido por falta de agenda. Bolsonaro deu a Lula o auriverde pendão desta terra e ele está enrolado nela. Zema e Caiado parecem sem rumo. Como a campanha ainda não começou, qualquer dos três anti-Lula pode, em tese, dar uma disparada, mas quem melhor cultiva a pista é Lula. Ele semeou-a mudando a tabela de alíquotas do Imposto de Renda e oferece a escala 5x2. A proximidade de Lulinha com o Careca do INSS não tem o efeito do áudio de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Até agora, o antipetismo tem só dois ativos, a segurança pública e Donald Trump. No primeiro, o governo apresenta planos árduos e a oposição põe na mesa chacinas como a da Penha. No segundo, depois da carta neurastênica do ano passado, Trump bombardeia o Brasil com tarifaços que afetam a economia nacional e, com ela, os eleitores.
No século passado, John Kennedy asfixiava o governo de João Goulart enchendo a bola dos governadores da oposição com programas de moradia e agendas reformistas. Trump enche a bola dos Bolsonaro com fotografias e frases banais.
(Vale lembrar que em janeiro de 1964, quando a derrubada de Goulart já estava no baralho, o embaixador americano Lincoln Gordon passou por Washington e pediu para ser recebido pelo presidente Lyndon Johnson. Pedido negado. Gordon baixou a bola e pediu para tirar uma fotografia com Johnson, pois isso o ajudaria no Brasil. Pedido igualmente negado.)
Um inferno chamado Brasil
Não sei por que algumas pessoas estão estranhando esses dias em que o país marcha para trás, e pega fogo, literalmente.
Em que todos nós estamos com o dedo na cara um do outro, enquanto os outros, os de sempre, metem a mão no pouco que nos resta de dignidade.
Porém, uma coisa sempre esteve clara, nós, os pobres, negros, índios, mulheres, gays e nordestinos, não somos bem-vindos neste país, a não ser que aceitemos as migalhas de sempre.
A menos que aceitemos a escravidão disfarçada de salário mínimo. Ou de salário nenhum.
Tem gente que acha que cantamos ou fazemos poesia porque estamos felizes, satisfeitos com tudo. Na verdade, da nossa música, do poema, da nossa dança, sai o lamento, o chamado pra luta. Por isso muita gente estranha o refrão.
Tem gente que se cala, descansa na neutralidade, mas a história não é muda, um dia ela conta quem não perdeu a fala.
Desde sempre ouço dizer que tínhamos que combater o sistema que ninguém sabia quem era, o que era, e pra que servia. Mas sob uma luz sombria, e sem vergonha de ser o que é, eis que o Brasil mostra novamente sua face mais sinistra e covarde: ódio à sua própria gente. Essa mesma gente que acorda cedo para adorar um Deus chamado trabalho, e que de tanta sede pra ser feliz bebe o próprio suor. A água benta pra suportar o céu que nunca vem.
E falando nisso, se Jesus estiver me ouvindo, queria dizer que “Amai-vos uns aos outros!” e “Amai o próximo como a ti mesmo” agora é coisa do Demônio. E as crianças que não venham, elas viraram a escória do mundo, conforme as profecias dos novos profetas.
Estão queimando a Amazônia, o Pantanal, enquanto queimamos em silêncio a coragem de lutar contra tudo isso.
O inferno somos nós.
Em que todos nós estamos com o dedo na cara um do outro, enquanto os outros, os de sempre, metem a mão no pouco que nos resta de dignidade.
Porém, uma coisa sempre esteve clara, nós, os pobres, negros, índios, mulheres, gays e nordestinos, não somos bem-vindos neste país, a não ser que aceitemos as migalhas de sempre.
A menos que aceitemos a escravidão disfarçada de salário mínimo. Ou de salário nenhum.
Tem gente que acha que cantamos ou fazemos poesia porque estamos felizes, satisfeitos com tudo. Na verdade, da nossa música, do poema, da nossa dança, sai o lamento, o chamado pra luta. Por isso muita gente estranha o refrão.
Tem gente que se cala, descansa na neutralidade, mas a história não é muda, um dia ela conta quem não perdeu a fala.
Desde sempre ouço dizer que tínhamos que combater o sistema que ninguém sabia quem era, o que era, e pra que servia. Mas sob uma luz sombria, e sem vergonha de ser o que é, eis que o Brasil mostra novamente sua face mais sinistra e covarde: ódio à sua própria gente. Essa mesma gente que acorda cedo para adorar um Deus chamado trabalho, e que de tanta sede pra ser feliz bebe o próprio suor. A água benta pra suportar o céu que nunca vem.
E falando nisso, se Jesus estiver me ouvindo, queria dizer que “Amai-vos uns aos outros!” e “Amai o próximo como a ti mesmo” agora é coisa do Demônio. E as crianças que não venham, elas viraram a escória do mundo, conforme as profecias dos novos profetas.
Estão queimando a Amazônia, o Pantanal, enquanto queimamos em silêncio a coragem de lutar contra tudo isso.
O inferno somos nós.
Campanha não é apenas TV
Daqui a dois meses, em 15 de agosto, começará a programação eleitoral na televisão, no rádio e na Internet, oportunidade em que os candidatos apresentam seus programas a um eleitorado cada vez mais descrente das propostas e compromissos dos políticos. Muitos acham que sua visibilidade pública, por meio do uso de rádio e TV, será suficiente para garantir urnas cheias de votos, capazes de torná-los vitoriosos. Será que os programas eleitorais poderão mudar as atuais posições no ranking eleitoral dos dois principais candidatos à presidente da República e dos candidatos aos governos dos Estados?
Essa questão, que preocupa os chamados “marqueteiros” acende as conversas em todos os espaços nacionais, carece de uma análise que contemple não apenas as características do meio indutor de imagem, mas de uma leitura acurada a respeito do momento social, político e econômico vivido pela sociedade.
A maioria das pessoas tende a acreditar que as posições serão alteradas, a partir da programação eleitoral. É provável que as coisas se mantenham como está. Vamos a algumas razões.
Em primeiro lugar, cabe dizer que uma campanha eleitoral não é apenas fruto da visibilidade de um candidato, via TV ou rádio, principalmente nesta era das redes sociais. A internet foi incluída como ferramenta de comunicação, o que pode mudar as regras do jogo. A campanha é um conjunto de elementos, fatores e ações, que abarcam o discurso, a leitura dos anseios e expectativas dos eleitores, a mobilização e todo o potencial de eventos, a ação dos candidatos proporcionais e o trabalho dos cabos eleitorais, a força dos prefeitos e a grande energia dispensada por ações não governamentais, que formam um imenso sistema de pressão e influência. Em primeiro lugar, é bom lembrar que cada campanha possui um clima próprio, diferente da temperatura da campanha anterior, mesmo que apresente nomes bastante conhecidos. Significa dizer que cada campanha tem o seu horizonte definido, a sua cor básica. Neste ano, por exemplo, teremos a campanha mais polarizada da história política contemporânea.
De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sustentado o discurso da soberania. Sua posição tem sido a de defender a autonomia das instituições nacionais, a independência da política externa brasileira e a rejeição a iniciativas que possam ser interpretadas como interferência estrangeira em assuntos internos do país.
Do outro lado, setores da oposição liderados politicamente pelo candidato Flávio Bolsonaro defendem uma abordagem mais alinhada à visão de segurança adotada pelos Estados Unidos. Nessa perspectiva, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram classificadas pelo governo Trump como organizações terroristas. Tal decisão abre uma porta para uma eventual intervenção norte-americana no território brasileiro, sob a alegação de que o combate aos dois grupos é uma decisão do presidente “para proteger” os EUA. Para complicar, o novo tarifaço do governo Trump contra o Brasil está caindo no colo do senador. Segundo o Instituto Quaest, 47% concordam que Flávio pediu a Trump novo tarifaço contra o Brasil. Ademais, o clã Bolsonaro, pela voz do filho 02, Eduardo, propõe mudar o PIX, unanimidade nacional, pelo “PIX norte-americano”, Zelle, um sistema privado mantido por um consórcio de grandes bancos americanos.
Na verdade, o candidato que mais se aproximar dos anseios das comunidades deverá abrir espaços maiores e o induzindo o sistema de decisão do eleitor. Nesse sentido, vale o ditado: água de morro abaixo, fogo de morro acima, quando o vento corre para um lado, ninguém é capaz de detê-lo. Os dois candidatos que estão na liderança da corrida se assemelham aos ventos do tempo.
Há de se considerar, ainda, o nível de satisfação das classes sociais. Como pensa a classe média sobre o terceiro governo de Lula? Porque as margens sociais, mesmo beneficiadas por um vigoroso programa de distribuição de renda, têm diminuído seu apoio ao presidente Lula, conforme atestam as pesquisas.
Cada classe dispõe de uma percepção diferenciada dos problemas; as classes C, D e E, decidem com sentimentos mais ligados ao dia a dia, outras com expectativas voltadas para médio e longo prazos, ou seja, vive-se tanto a pressão do momento quanto o medo do futuro. Não se trata, apenas, de prometer. Nesse ponto, o eleitor volta sua atenção para o patrimônio de credibilidade de cada um. A promessa deverá ser embalada pelo efeito-demonstração, ou seja, como será cumprida a promessa e com que recursos. Alguns candidatos podem prometer muita coisa, mas os sinais emitidos, quando contrastados com a descrença passada pelo candidato, cairão por terra.
Se essas ferramentas forem colocadas numa balança, há de se concluir que o tempo de TV não pode ser considerado fator determinante de sucesso ou fracasso. E essa é a questão central. Alguns candidatos, principalmente na área proporcional, apostam sua eventual vitória à programação eleitoral na TV e no rádio, como se a exposição e a visibilidade pública fossem elementos de poder definitivo e arrebatador. O programa eleitoral é apenas força auxiliar. Diz-se que, quando um cego guia outro cego, ambos caem no buraco. Esta é a ameaça que paira sobre profissionais de marketing e certos candidatos. É claro que o tempo de TV tem importância, principalmente quando se trata de comparar um candidato que dispõe de bom espaço e de outro, que conta com escassos minutos. Um largo tempo, usado de maneira inadequada, com formatos antiquados, elogios adjetivados, chavões batidos, será um bumerangue, voltando-se contra o próprio candidato.
Mais do que nunca, está provado que candidato que entra no gosto do povo não pode ser considerado mero sabonete a ser vendido pela TV nos monótonos programas eleitorais. Se a TV fizesse milagre, muitos candidatos no passado, que dispuseram de grandes tempos de mídia eleitoral, entre eles Ulysses Guimarães, que, em 1989, teve míseros 4,7% dos votos para presidente.
Essa questão, que preocupa os chamados “marqueteiros” acende as conversas em todos os espaços nacionais, carece de uma análise que contemple não apenas as características do meio indutor de imagem, mas de uma leitura acurada a respeito do momento social, político e econômico vivido pela sociedade.
A maioria das pessoas tende a acreditar que as posições serão alteradas, a partir da programação eleitoral. É provável que as coisas se mantenham como está. Vamos a algumas razões.
Em primeiro lugar, cabe dizer que uma campanha eleitoral não é apenas fruto da visibilidade de um candidato, via TV ou rádio, principalmente nesta era das redes sociais. A internet foi incluída como ferramenta de comunicação, o que pode mudar as regras do jogo. A campanha é um conjunto de elementos, fatores e ações, que abarcam o discurso, a leitura dos anseios e expectativas dos eleitores, a mobilização e todo o potencial de eventos, a ação dos candidatos proporcionais e o trabalho dos cabos eleitorais, a força dos prefeitos e a grande energia dispensada por ações não governamentais, que formam um imenso sistema de pressão e influência. Em primeiro lugar, é bom lembrar que cada campanha possui um clima próprio, diferente da temperatura da campanha anterior, mesmo que apresente nomes bastante conhecidos. Significa dizer que cada campanha tem o seu horizonte definido, a sua cor básica. Neste ano, por exemplo, teremos a campanha mais polarizada da história política contemporânea.
De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sustentado o discurso da soberania. Sua posição tem sido a de defender a autonomia das instituições nacionais, a independência da política externa brasileira e a rejeição a iniciativas que possam ser interpretadas como interferência estrangeira em assuntos internos do país.
Do outro lado, setores da oposição liderados politicamente pelo candidato Flávio Bolsonaro defendem uma abordagem mais alinhada à visão de segurança adotada pelos Estados Unidos. Nessa perspectiva, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram classificadas pelo governo Trump como organizações terroristas. Tal decisão abre uma porta para uma eventual intervenção norte-americana no território brasileiro, sob a alegação de que o combate aos dois grupos é uma decisão do presidente “para proteger” os EUA. Para complicar, o novo tarifaço do governo Trump contra o Brasil está caindo no colo do senador. Segundo o Instituto Quaest, 47% concordam que Flávio pediu a Trump novo tarifaço contra o Brasil. Ademais, o clã Bolsonaro, pela voz do filho 02, Eduardo, propõe mudar o PIX, unanimidade nacional, pelo “PIX norte-americano”, Zelle, um sistema privado mantido por um consórcio de grandes bancos americanos.
Na verdade, o candidato que mais se aproximar dos anseios das comunidades deverá abrir espaços maiores e o induzindo o sistema de decisão do eleitor. Nesse sentido, vale o ditado: água de morro abaixo, fogo de morro acima, quando o vento corre para um lado, ninguém é capaz de detê-lo. Os dois candidatos que estão na liderança da corrida se assemelham aos ventos do tempo.
Há de se considerar, ainda, o nível de satisfação das classes sociais. Como pensa a classe média sobre o terceiro governo de Lula? Porque as margens sociais, mesmo beneficiadas por um vigoroso programa de distribuição de renda, têm diminuído seu apoio ao presidente Lula, conforme atestam as pesquisas.
Cada classe dispõe de uma percepção diferenciada dos problemas; as classes C, D e E, decidem com sentimentos mais ligados ao dia a dia, outras com expectativas voltadas para médio e longo prazos, ou seja, vive-se tanto a pressão do momento quanto o medo do futuro. Não se trata, apenas, de prometer. Nesse ponto, o eleitor volta sua atenção para o patrimônio de credibilidade de cada um. A promessa deverá ser embalada pelo efeito-demonstração, ou seja, como será cumprida a promessa e com que recursos. Alguns candidatos podem prometer muita coisa, mas os sinais emitidos, quando contrastados com a descrença passada pelo candidato, cairão por terra.
Se essas ferramentas forem colocadas numa balança, há de se concluir que o tempo de TV não pode ser considerado fator determinante de sucesso ou fracasso. E essa é a questão central. Alguns candidatos, principalmente na área proporcional, apostam sua eventual vitória à programação eleitoral na TV e no rádio, como se a exposição e a visibilidade pública fossem elementos de poder definitivo e arrebatador. O programa eleitoral é apenas força auxiliar. Diz-se que, quando um cego guia outro cego, ambos caem no buraco. Esta é a ameaça que paira sobre profissionais de marketing e certos candidatos. É claro que o tempo de TV tem importância, principalmente quando se trata de comparar um candidato que dispõe de bom espaço e de outro, que conta com escassos minutos. Um largo tempo, usado de maneira inadequada, com formatos antiquados, elogios adjetivados, chavões batidos, será um bumerangue, voltando-se contra o próprio candidato.
Mais do que nunca, está provado que candidato que entra no gosto do povo não pode ser considerado mero sabonete a ser vendido pela TV nos monótonos programas eleitorais. Se a TV fizesse milagre, muitos candidatos no passado, que dispuseram de grandes tempos de mídia eleitoral, entre eles Ulysses Guimarães, que, em 1989, teve míseros 4,7% dos votos para presidente.
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