Não sei por que algumas pessoas estão estranhando esses dias em que o país marcha para trás, e pega fogo, literalmente.
Em que todos nós estamos com o dedo na cara um do outro, enquanto os outros, os de sempre, metem a mão no pouco que nos resta de dignidade.
Porém, uma coisa sempre esteve clara, nós, os pobres, negros, índios, mulheres, gays e nordestinos, não somos bem-vindos neste país, a não ser que aceitemos as migalhas de sempre.
A menos que aceitemos a escravidão disfarçada de salário mínimo. Ou de salário nenhum.
Tem gente que acha que cantamos ou fazemos poesia porque estamos felizes, satisfeitos com tudo. Na verdade, da nossa música, do poema, da nossa dança, sai o lamento, o chamado pra luta. Por isso muita gente estranha o refrão.
Tem gente que se cala, descansa na neutralidade, mas a história não é muda, um dia ela conta quem não perdeu a fala.
Desde sempre ouço dizer que tínhamos que combater o sistema que ninguém sabia quem era, o que era, e pra que servia. Mas sob uma luz sombria, e sem vergonha de ser o que é, eis que o Brasil mostra novamente sua face mais sinistra e covarde: ódio à sua própria gente. Essa mesma gente que acorda cedo para adorar um Deus chamado trabalho, e que de tanta sede pra ser feliz bebe o próprio suor. A água benta pra suportar o céu que nunca vem.
E falando nisso, se Jesus estiver me ouvindo, queria dizer que “Amai-vos uns aos outros!” e “Amai o próximo como a ti mesmo” agora é coisa do Demônio. E as crianças que não venham, elas viraram a escória do mundo, conforme as profecias dos novos profetas.
Estão queimando a Amazônia, o Pantanal, enquanto queimamos em silêncio a coragem de lutar contra tudo isso.
O inferno somos nós.
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