A previsão de um El Niño intenso no segundo semestre deste ano traz uma série de alertas. Chuvas acima da média no Sul, temperaturas elevadas no Sudeste e maior risco de incêndios florestais fazem parte dos cenários traçados por estudiosos. De acordo com a agência meteorológica dos Estados Unidos, há 81% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro e figurar entre os maiores registrados desde 1950. No Rio de Janeiro, mais de 50 órgãos e agências municipais já foram mobilizados para enfrentar seus possíveis efeitos.
Essas previsões costumam ser tratadas como informações sobre o clima ou sobre a capacidade de resposta das cidades. Mas elas também dizem respeito à saúde mental. Para quem já perdeu a casa, o trabalho ou alguém próximo em uma enchente, um novo alerta meteorológico não é apenas um dado técnico. Pode soar como o anúncio de que tudo está prestes a acontecer outra vez.
A psiquiatria estuda a resiliência como a habilidade de atravessar adversidades, reorganizar a vida e seguir adiante. É uma competência fundamental, mas frequentemente mal compreendida. Ser resiliente não significa sair ileso de uma tragédia, nem suportar indefinidamente situações de ameaça. A elaboração do trauma exige tempo, apoio e alguma possibilidade de reconstruir a confiança no futuro.
O Brasil conhece bem a força da reação coletiva. Durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, milhares de voluntários se mobilizaram. Empresas reorganizaram suas operações para enviar alimentos e medicamentos. Organizações da sociedade civil arrecadaram recursos em todo o país. Em poucos dias, formou-se uma ampla rede de solidariedade.
Esse movimento teve enorme importância prática e emocional. Em momentos de ruptura, perceber que não se está sozinho ajuda a reduzir o desamparo e a recuperar vínculos. A solidariedade não entrega apenas comida ou abrigo. Ela também comunica à pessoa atingida que sua vida continua tendo valor para os outros.
O problema começa quando o desastre deixa de ser uma ruptura excepcional e passa a integrar o horizonte cotidiano. O trauma provocado por um episódio específico pode ser elaborado. Mais difícil é viver sob a expectativa de que ele se repetirá. A cada chuva forte ou novo alerta, o organismo pode voltar ao estado de ameaça.
Esse estado de vigilância contínua cobra um preço. O sono piora, a concentração diminui e o medo passa a ocupar uma parte maior da rotina. Em pessoas que já atravessaram uma catástrofe, sinais aparentemente comuns, como o som da chuva ou a elevação de um rio, podem reativar lembranças e respostas físicas associadas ao trauma.
Há ainda um desgaste coletivo menos visível. Quando os eventos extremos se repetem e as soluções parecem sempre provisórias, cresce a sensação de impotência. A pessoa deixa de acreditar que suas ações serão suficientes ou que as instituições conseguirão protegê-la. Nesse ambiente, a ansiedade tende a persistir e a desesperança encontra espaço.
Por isso, não basta celebrar a capacidade de reconstrução dos brasileiros. A resiliência não pode ser usada como justificativa para exigir que populações vulneráveis suportem perdas sucessivas. Há um limite para a adaptação quando a ameaça permanece e as condições de vida não mudam.
Preparar uma cidade para eventos extremos também é cuidar da saúde mental de seus habitantes. Sistemas de alerta confiáveis e rotas de evacuação conhecidas reduzem a sensação de abandono. Saber o que fazer e para onde ir não elimina o medo, mas impede que ele se transforme em completo desamparo.
A atenção psicossocial precisa fazer parte dessa preparação. O sofrimento não termina quando a água baixa ou quando as famílias deixam os abrigos. Muitas vezes, ele aparece mais forte justamente depois, quando a urgência passa e começam as dificuldades para retomar a rotina, reorganizar a vida.
Equipes de saúde mental devem estar presentes não apenas depois das tragédias, mas integradas aos planos de prevenção e resposta. Isso exige continuidade do atendimento e articulação com os serviços já existentes nos territórios. Sem essa rede, o cuidado corre o risco de chegar tarde ou desaparecer quando a comoção pública diminui.
Há uma diferença entre reconhecer um risco e viver permanentemente submetido a ele. A consciência permite agir e buscar proteção. O medo contínuo, ao contrário, estreita a vida. O desafio do país é evitar que milhões de brasileiros passem a interpretar cada mudança no tempo como a possível chegada de uma nova perda.
A solidariedade continuará sendo indispensável. Mas ela não pode substituir políticas públicas, nem planejamento. Um país preparado não é aquele que apenas reconstrói com rapidez depois de cada tragédia. É aquele que reduz perdas e oferece condições para que sua população não precise viver em estado permanente de alerta.
A aproximação de um El Niño potencialmente intenso torna essa discussão ainda mais urgente. Os próximos meses dirão muito sobre a capacidade do país de antecipar riscos, mas também sobre o modo como escolhemos proteger a saúde mental das pessoas. Resiliência é uma força humana importante. Ela não pode, porém, ser confundida com a obrigação de suportar o insuportável.
Jorge Jaber
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Isolado, Flávio se pendura na Casa Branca
Cinco dias antes do discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exumando notícias falsas sobre as urnas eletrônicas, o presidente americano, Donald Trump, acusou a China de intervenção nas eleições de 2020, quando perdeu para Joe Biden, e apontou “chocantes vulnerabilidades” no sistema de votação dos EUA.
A “denúncia” a diplomatas estrangeiros valendo-se da Smartmatic, que denunciou a fraude cometida por um de seus clientes, o governo venezuelano, e foi derrotada numa licitação de urnas do TSE, só perde, em grau de insanidade, para a acusação de Trump de que a China acessou 220 milhões de arquivos de eleitores americanos para fraudar aquela disputa.
Tanto no Brasil quanto nos EUA, a história não começou pelas urnas. Na semana passada, a campanha do PL informou não ter interesse em ser incluída no esquema montado pela Polícia Federal para proteger os candidatos, com 450 servidores, veículos blindados e equipamentos antidrone e de vistoria antibomba. Preferiu permanecer com a polícia do Senado. Em seguida, sua campanha acrescentou que o senador passaria a usar colete à prova de balas em função de ameaças crescentes.
Enquanto isso, nos EUA, o secretário de Estado, Marco Rubio, reuniu representantes de mais de 60 países para anunciar a reconstrução da arquitetura internacional de contraterrorismo montada no 11/9. Desta vez, esta estrutura estaria voltada contra o “ressurgimento do terrorismo político de extrema esquerda”. Ainda participaram desta apresentação Stephen Miller, do gabinete de Trump, e Scott Bessent, secretário do Tesouro.
Grande parte da falação tem como fonte oculta Hugo Carvajal, o ex-chefe da inteligência militar venezuelana, preso nos EUA por narcoterrorismo, que se ofereceu a depor contra supostas redes de corrupção e financiamento político ilícito contra Nicolás Maduro. O Brasil não é mencionado. Quem enfiou o país nessa história foi Flávio Bolsonaro, na esteira de Rubio.
Um mês antes, os EUA haviam oficializado a classificação do PCC e do CV como terroristas. Tudo soa muito conspiracionista e é, mas quem dá o tom é o secretário do Departamento de Estado que já antecipa o que pode vir a ser seu discurso de campanha à sucessão de Trump.
As universidades, centros de pesquisa e imprensa seriam legitimadores da violência de esquerda. No mesmo pacote, Rubio colocou a “hostilidade” da extrema esquerda à religião como uma ameaça à civilização ocidental, sob a liderança de Cuba e Irã. Num triplo salto carpado juntou tudo isso com os atentados contra Trump e com o assassinato de Charlie Kirk.
Coube a Bessent fazer a ponte entre as fantasias Rubio e Miller e o sistema financeiro. Detalhou o arcabouço para detectar a operação da extrema esquerda latino-americana e os fluxos financeiros em território americano formado, por exemplo, pela Ofac, agência de controle de ativos estrangeiros. Dias antes os EUA haviam aplicado as primeiras sanções contra brasileiros supostamente ligados ao PCC. A ação acabaria por atrapalhar uma operação da PF para prender o empresário acusado de lavagem de dinheiro.
Sem cobrar tarifa, o bolsonarismo importa todas essas teorias conspiracionistas. Na “live” do jornalista Claudio Dantas na tarde de quarta-feira, a coordenadora-jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro, Maria Claudia Buchianeri, que foi ministra do TSE, chegou a mencionar que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem impulsionamentos feitos por uma “organização criminosa digital”. Também informou que é a segurança paralela de Flávio que está a mapear as ameaças digitais contra o senador.
E, depois da onda de associação de Lula ao crime organizado colombiano, pela resistência conjunta com Gustavo Petro à designação de narcoterrorismo, chegou a vez de estender esta associação ao ditador nicaraguense Daniel Ortega, como fez esta semana o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), um dos principais aliados de Flávio Bolsonaro.
A campanha de Lula e os órgãos de investigação do governo vêm sendo municiados de informações sobre esta teia crescente entre a campanha de Flávio e o Departamento de Estado americano que aponta para os riscos de uma vitória eleitoral apertada. Estaria em curso a descredibilização do processo eleitoral com o pano de fundo do “terrorismo político da esquerda latino-americana”. O bolsonarismo se valeria dos dois anos restantes de Trump para minar o quarto mandato lulista. Da Abin à PF, monitora-se o tema, mas, como Lula não aposta que a Casa Branca se insurja contra sua eleição, não há reação em curso.
A escalada de Flávio rumo à radicalização mudou a face de uma campanha que se iniciou sob a promessa de que traria um “Bolsonaro que toma vacina”. Seu isolamento político, provocado pela reação de aliados ao envolvimento com o Master e com o tarifaço, contribuiu para que o senador venha a ser obrigado a buscar uma vice no seu próprio partido enquanto o governador Tarcísio Freitas, de São Paulo, deve ter 12 partidos em sua chapa. É o governador paulista, aliás, que capitaneia a resistência do apoio do Republicanos a Flávio.
O sonho do Centrão em torno de nomes como o de Teresa Cristina, até para cabeça de chapa, esbarra na percepção clara de que pretende usar a senadora do PP apenas para sair do beco em que se encontra. A recusa da federação PP-União ao apoio a Flávio fechou o cerco. Por fim, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, achou por bem confessar que o senador não estava preparado para a campanha. Isolado até no seu partido, o senador pendurou-se na Casa Branca.
A “denúncia” a diplomatas estrangeiros valendo-se da Smartmatic, que denunciou a fraude cometida por um de seus clientes, o governo venezuelano, e foi derrotada numa licitação de urnas do TSE, só perde, em grau de insanidade, para a acusação de Trump de que a China acessou 220 milhões de arquivos de eleitores americanos para fraudar aquela disputa.
Tanto no Brasil quanto nos EUA, a história não começou pelas urnas. Na semana passada, a campanha do PL informou não ter interesse em ser incluída no esquema montado pela Polícia Federal para proteger os candidatos, com 450 servidores, veículos blindados e equipamentos antidrone e de vistoria antibomba. Preferiu permanecer com a polícia do Senado. Em seguida, sua campanha acrescentou que o senador passaria a usar colete à prova de balas em função de ameaças crescentes.
Enquanto isso, nos EUA, o secretário de Estado, Marco Rubio, reuniu representantes de mais de 60 países para anunciar a reconstrução da arquitetura internacional de contraterrorismo montada no 11/9. Desta vez, esta estrutura estaria voltada contra o “ressurgimento do terrorismo político de extrema esquerda”. Ainda participaram desta apresentação Stephen Miller, do gabinete de Trump, e Scott Bessent, secretário do Tesouro.
Grande parte da falação tem como fonte oculta Hugo Carvajal, o ex-chefe da inteligência militar venezuelana, preso nos EUA por narcoterrorismo, que se ofereceu a depor contra supostas redes de corrupção e financiamento político ilícito contra Nicolás Maduro. O Brasil não é mencionado. Quem enfiou o país nessa história foi Flávio Bolsonaro, na esteira de Rubio.
Um mês antes, os EUA haviam oficializado a classificação do PCC e do CV como terroristas. Tudo soa muito conspiracionista e é, mas quem dá o tom é o secretário do Departamento de Estado que já antecipa o que pode vir a ser seu discurso de campanha à sucessão de Trump.
As universidades, centros de pesquisa e imprensa seriam legitimadores da violência de esquerda. No mesmo pacote, Rubio colocou a “hostilidade” da extrema esquerda à religião como uma ameaça à civilização ocidental, sob a liderança de Cuba e Irã. Num triplo salto carpado juntou tudo isso com os atentados contra Trump e com o assassinato de Charlie Kirk.
Coube a Bessent fazer a ponte entre as fantasias Rubio e Miller e o sistema financeiro. Detalhou o arcabouço para detectar a operação da extrema esquerda latino-americana e os fluxos financeiros em território americano formado, por exemplo, pela Ofac, agência de controle de ativos estrangeiros. Dias antes os EUA haviam aplicado as primeiras sanções contra brasileiros supostamente ligados ao PCC. A ação acabaria por atrapalhar uma operação da PF para prender o empresário acusado de lavagem de dinheiro.
Sem cobrar tarifa, o bolsonarismo importa todas essas teorias conspiracionistas. Na “live” do jornalista Claudio Dantas na tarde de quarta-feira, a coordenadora-jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro, Maria Claudia Buchianeri, que foi ministra do TSE, chegou a mencionar que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem impulsionamentos feitos por uma “organização criminosa digital”. Também informou que é a segurança paralela de Flávio que está a mapear as ameaças digitais contra o senador.
E, depois da onda de associação de Lula ao crime organizado colombiano, pela resistência conjunta com Gustavo Petro à designação de narcoterrorismo, chegou a vez de estender esta associação ao ditador nicaraguense Daniel Ortega, como fez esta semana o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), um dos principais aliados de Flávio Bolsonaro.
A campanha de Lula e os órgãos de investigação do governo vêm sendo municiados de informações sobre esta teia crescente entre a campanha de Flávio e o Departamento de Estado americano que aponta para os riscos de uma vitória eleitoral apertada. Estaria em curso a descredibilização do processo eleitoral com o pano de fundo do “terrorismo político da esquerda latino-americana”. O bolsonarismo se valeria dos dois anos restantes de Trump para minar o quarto mandato lulista. Da Abin à PF, monitora-se o tema, mas, como Lula não aposta que a Casa Branca se insurja contra sua eleição, não há reação em curso.
A escalada de Flávio rumo à radicalização mudou a face de uma campanha que se iniciou sob a promessa de que traria um “Bolsonaro que toma vacina”. Seu isolamento político, provocado pela reação de aliados ao envolvimento com o Master e com o tarifaço, contribuiu para que o senador venha a ser obrigado a buscar uma vice no seu próprio partido enquanto o governador Tarcísio Freitas, de São Paulo, deve ter 12 partidos em sua chapa. É o governador paulista, aliás, que capitaneia a resistência do apoio do Republicanos a Flávio.
O sonho do Centrão em torno de nomes como o de Teresa Cristina, até para cabeça de chapa, esbarra na percepção clara de que pretende usar a senadora do PP apenas para sair do beco em que se encontra. A recusa da federação PP-União ao apoio a Flávio fechou o cerco. Por fim, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, achou por bem confessar que o senador não estava preparado para a campanha. Isolado até no seu partido, o senador pendurou-se na Casa Branca.
Um olhar sobre a política e o poder no Brasil
O aviso foi dado por Daniel Ortega, presidente da Nicarágua: “Não haverá mais eleições aqui”. O líder da Revolução Sandinista discursava em Manágua, no último domingo. Depois do anúncio, explicou: vai proibir o voto porque a oposição não pode chegar ao poder.
Ortega participou da guerrilha que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza. O levante de 1979 empolgou a esquerda latino-americana, sufocada por regimes militares no Brasil, na Argentina e no Chile.
Os vitoriosos se inspiraram no marxismo e na Teologia da Libertação. Fizeram a reforma agrária, alfabetizaram o povo, reduziram a pobreza. Depois da euforia inicial, o país enfrentou um embargo econômico e mergulhou numa guerra civil financiada pelos Estados Unidos. A revolução começou a fazer água, e os sandinistas foram derrotados nas urnas em 1990.
Ortega perdeu três eleições até vencer de novo, em 2006. De volta ao palácio, resolveu reescrever a Constituição para se eternizar no poder. Em 2018, virou alvo de protestos e ordenou uma repressão violenta, que deixou mais de 300 mortos. Depois passou a censurar a imprensa, prender opositores e perseguir religiosos que contestavam seu autoritarismo.
A fala de domingo só escancarou o que já não era segredo: a Nicarágua voltou a viver sob uma ditadura familiar. No ano passado, o cargo de “copresidente” foi criado sob medida para a primeira-dama, Rosario Murillo.
“É inacreditável”, desabafa o escritor Frei Betto, que vibrou com o levante de 1979 e frequentou o país por uma década, envolvido em programas de educação popular. “O projeto revolucionário acabou. Por apego ao poder, Ortega está fazendo o mesmo que o Somoza. É triste, porque depõe contra as utopias que alimentamos por muito tempo na América Latina”, lamenta.
Lula ainda era dirigente sindical quando desembarcou na Nicarágua para o primeiro aniversário da revolução, em 1980. Vinte e sete anos depois, voltou ao país como presidente.
No mandato atual, prometeu ao Papa Francisco que tentaria interceder pela libertação do bispo Rolando José Álvarez, preso sob acusação de “traição à pátria”. Ortega ignorou o pedido e expulsou o embaixador brasileiro em 2024, selando um distanciamento definitivo. O petista tem sorte.
Bernardo Mello Franco
Ortega participou da guerrilha que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza. O levante de 1979 empolgou a esquerda latino-americana, sufocada por regimes militares no Brasil, na Argentina e no Chile.
Os vitoriosos se inspiraram no marxismo e na Teologia da Libertação. Fizeram a reforma agrária, alfabetizaram o povo, reduziram a pobreza. Depois da euforia inicial, o país enfrentou um embargo econômico e mergulhou numa guerra civil financiada pelos Estados Unidos. A revolução começou a fazer água, e os sandinistas foram derrotados nas urnas em 1990.
Ortega perdeu três eleições até vencer de novo, em 2006. De volta ao palácio, resolveu reescrever a Constituição para se eternizar no poder. Em 2018, virou alvo de protestos e ordenou uma repressão violenta, que deixou mais de 300 mortos. Depois passou a censurar a imprensa, prender opositores e perseguir religiosos que contestavam seu autoritarismo.
A fala de domingo só escancarou o que já não era segredo: a Nicarágua voltou a viver sob uma ditadura familiar. No ano passado, o cargo de “copresidente” foi criado sob medida para a primeira-dama, Rosario Murillo.
“É inacreditável”, desabafa o escritor Frei Betto, que vibrou com o levante de 1979 e frequentou o país por uma década, envolvido em programas de educação popular. “O projeto revolucionário acabou. Por apego ao poder, Ortega está fazendo o mesmo que o Somoza. É triste, porque depõe contra as utopias que alimentamos por muito tempo na América Latina”, lamenta.
Lula ainda era dirigente sindical quando desembarcou na Nicarágua para o primeiro aniversário da revolução, em 1980. Vinte e sete anos depois, voltou ao país como presidente.
No mandato atual, prometeu ao Papa Francisco que tentaria interceder pela libertação do bispo Rolando José Álvarez, preso sob acusação de “traição à pátria”. Ortega ignorou o pedido e expulsou o embaixador brasileiro em 2024, selando um distanciamento definitivo. O petista tem sorte.
Bernardo Mello Franco
Filho de golpista, golpista é. Os Bolsonaros são prova disso
Primeiro foi o Flávio, aspirante a presidente da República, ao discursar na última terça-feira para cerca de 40 diplomatas. Ontem, em um podcast, foi Eduardo Bolsonaro, refugiado nos Estados Unidos desde março do ano passado a pretexto de salvar o pai de condenação por tentativa de golpe de Estado. Não conseguiu.
Os dois irmãos voltaram a atacar a credibilidade do processo eleitoral brasileiro e, por tabela, a dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal, a quem acusam de perseguir seu pai. Enquanto governou o país entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro pavimentou o caminho a ser percorrido pelos filhos “zero”.
Todos eles já são bastante crescidinhos, poderiam pensar com a própria cabeça, determinar o próprio destino, mas não: seguem como cópias encardidas do pai. “Quem puxa aos seus não degenera”, ensina um velho ditado português. Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan puxaram ao pai, um degenerado por sua livre vontade.
Juntar-se a uma família de tal estirpe não deve ser bom para ninguém, mas foi o que fez Michelle de Paula Firmo Reinaldo, uma moça pobre, porém bonita, nascida na periferia de Brasília e servidora pública à época em que conheceu Jair, então obscuro deputado federal do baixo clero. Resultado: deu nisso que se vê.
Da boca de Michelle, os brasileiros jamais ouviram uma só palavra contra a Justiça ou o Estado Democrático de Direito. Pelo contrário: ouviram elogios ao ministro Alexandre de Moraes. Porém, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair, diz ter ouvido Michelle incentivar o marido a dar o golpe que acabou abortado.
Não faz sentido acreditar que o vídeo postado por Michelle com duros ataques contra Flávio possa ter sido uma jogada combinada entre eles para ocupar espaço e reforçar a marca da família, pois, afinal, Flávio perdeu espaço e votos, e ainda por cima ganhou a pecha de misógino. Michelle saiu do episódio como mais uma mulher vítima de abusos.
Faz sentido, sim, para que não venha a ser culpada pelo que possa acontecer de mal aos Bolsonaros, que Michelle tenha sido convencida a aceitar o renovado pedido de desculpas de um Flávio desesperado e ladeira abaixo. Dê no que der, ela espera que sua imagem de boa esposa e de boa madrasta resista de pé. A conferir mais adiante.
Os dois irmãos voltaram a atacar a credibilidade do processo eleitoral brasileiro e, por tabela, a dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal, a quem acusam de perseguir seu pai. Enquanto governou o país entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro pavimentou o caminho a ser percorrido pelos filhos “zero”.
Todos eles já são bastante crescidinhos, poderiam pensar com a própria cabeça, determinar o próprio destino, mas não: seguem como cópias encardidas do pai. “Quem puxa aos seus não degenera”, ensina um velho ditado português. Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan puxaram ao pai, um degenerado por sua livre vontade.
Juntar-se a uma família de tal estirpe não deve ser bom para ninguém, mas foi o que fez Michelle de Paula Firmo Reinaldo, uma moça pobre, porém bonita, nascida na periferia de Brasília e servidora pública à época em que conheceu Jair, então obscuro deputado federal do baixo clero. Resultado: deu nisso que se vê.
Da boca de Michelle, os brasileiros jamais ouviram uma só palavra contra a Justiça ou o Estado Democrático de Direito. Pelo contrário: ouviram elogios ao ministro Alexandre de Moraes. Porém, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair, diz ter ouvido Michelle incentivar o marido a dar o golpe que acabou abortado.
Não faz sentido acreditar que o vídeo postado por Michelle com duros ataques contra Flávio possa ter sido uma jogada combinada entre eles para ocupar espaço e reforçar a marca da família, pois, afinal, Flávio perdeu espaço e votos, e ainda por cima ganhou a pecha de misógino. Michelle saiu do episódio como mais uma mulher vítima de abusos.
Faz sentido, sim, para que não venha a ser culpada pelo que possa acontecer de mal aos Bolsonaros, que Michelle tenha sido convencida a aceitar o renovado pedido de desculpas de um Flávio desesperado e ladeira abaixo. Dê no que der, ela espera que sua imagem de boa esposa e de boa madrasta resista de pé. A conferir mais adiante.
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