quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

Na madrugada de ontem, um protesto organizado pela Choose Democracy, em parceria com ativistas brasileiros, projetou em pontos de Nova York, entre eles a ponte do Brooklyn, imagens geradas por IA mostrando Flávio Bolsonaro colocando a faixa presidencial brasileira em Donald Trump 

O elo inquebrantável entre os Bolsonaro e o crime que já usou farda

É normal um miliciano ter o contato de uma assessora de um senador? É normal um senador enviar o dinheiro de uma emenda ao Orçamento da União para um miliciano? Não se espante nem um tantinho assim: no universo bolsonarista, é claro que é normal. Eu me arriscaria a dizer que é quase corriqueiro.

Flávio Bolsonaro destinou quase R$ 200 mil para um projeto esportivo a pedido de Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, miliciano condenado por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco. A Polícia Federal (PF) encontrou as mensagens trocadas entre “Peixe” e Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar no gabinete de Flávio no Senado. E, sem surpresa, a PF suspeita que o dinheiro tenha sido desviado.

E que justificativa ofereceu Flávio para isso? Algo parecido com a que ele deu sobre a aplicação dos mais de R$ 61 milhões destinados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, de exaltação da vida de seu pai — condenado e preso pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023? Não, é claro.


Desta vez, diante da falta da prestação de contas detalhada que havia prometido no caso do filme, Flávio foi mais cuidadoso e não se limitou a dizer que se trata de “uma página virada”. Preferiu inovar: por meio de sua assessoria, afirmou que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente” – e ponto final. Satisfeito?

Ora, a pergunta não foi sobre se a emenda contrariou “a legislação vigente”. Foi sobre o que ele achava do fato de o dinheiro público ter ido parar nas mãos de um miliciano. Não adianta insistir. A essa altura, ocupado como anda, certamente Flávio deve considerar o assunto “uma página virada”, e vamos para o próximo.

O miliciano é apontado como o homem que apresentou os mandantes do crime aos executores e providenciou a submetralhadora usada para assassinar a vereadora e o motorista Anderson Gomes. “Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar”, ele pediu a Maria de Fátima, segundo apurou o repórter Breno Pires. O dinheiro foi para uma ONG na Taquara, área de milícia no Rio de Janeiro.

O apoio a facções criminosas que já vestiram farda e cobram taxa de segurança não é um acidente de percurso, mas o alicerce da carreira política de Flávio. Como deputado estadual, ele homenageou o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega com a Medalha Tiradentes enquanto este estava preso por homicídio. Quem não sabe?

E quando os crimes de Adriano já eram largamente conhecidos, Flávio ainda empregou a mãe e a ex-mulher de Adriano em seu gabinete com salários de mais de R$ 6 mil, na época do famoso esquema das “rachadinhas” operado por Fabrício Queiroz. Amigo de longa data da família Bolsonaro, Queiroz foi uma espécie de faz-tudo de Flávio.

Em 2022, Queiroz concorreu a deputado estadual e não se elegeu. Nas eleições municipais de 2024, tentou uma vaga de vereador em Saquarema pelo Partido Liberal (PL), mas obteve apenas 588 votos e terminou como suplente. Hoje, candidato a presidente da República, Flávio raramente o encontra, e, quando o faz, é às escondidas.

A República de Vorcaro

A semana começou com notícias e imagens com potencial impacto nas campanhas. O vídeo de Alexandre de Moraes saindo do avião de Daniel Vorcaro, com sua mulher Viviane, é eloquente demais para ser ignorado pelo ministro. Ele se soma às 52 mensagens entre Moraes e o ex-banqueiro e ao contrato entre Vorcaro e o escritório Barci de Moraes. Outros casos estão surgindo, como os que mostram o julgamento favorável às usinas de cana-de-açúcar na segunda turma em processo conduzido pelo ministro Kassio Nunes Marques. A União perdeu uma causa na qual tinha completa razão.


A imagem do voo do ministro foi dada pelo colunista Lauro Jardim, do GLOBO, depois de mais uma negativa de Moraes de que usou aeronaves de Daniel Vorcaro. Os trechos de arquivo da Polícia Federal divulgados pelo Metrópoles levantam dúvidas sobre um julgamento que deu enorme prejuízo aos cofres públicos. Há trocas de mensagens revelando que Daniel Vorcaro chamava de “a turma do KN”, que seria o ministro Kassio Nunes, e se referindo ao pagamento de “R$ 427 milhões”.

Vorcaro era detentor de precatórios de usinas de cana-de-açúcar que reclamavam direito à indenização bilionária por parte do Tesouro alegando prejuízo com o congelamento ocorrido nos anos 1980. Os preços foram de fato controlados nos planos econômicos anteriores ao Plano Real. Mas foram todos os preços, inclusive os dos insumos das usinas. E essas empresas foram também subsidiadas. Na raiz, a reclamação dos usineiros nunca fez sentido.

Na segunda turma, Kassio Nunes, Dias Toffoli e Edson Fachin votaram por reconhecer o débito da União com os usineiros. Como Vorcaro era detentor de precatórios, a medida o beneficiou. Há trechos de diálogos entre intermediários narrando um pedido de desconto que teria sido feito pelo ministro em hospedagem no Hotel Fasano. Vorcaro, no diálogo com o escritório que defendeu a causa dos precatórios, afirmou que pagaria pela diária.

O Caso Master virou uma Caixa de Pandora da qual estão saindo indícios contra vários ministros, e o STF permanece como o centro do debate eleitoral, com o tema sendo usado para todo o tipo de manipulação. O candidato Flávio Bolsonaro acusou Alexandre de Moraes de ter “implodido a democracia” no Brasil. Quem tentou fazer isso foi o pai do candidato do PL. O ministro foi o relator do processo que puniu os responsáveis.

A extrema direita acusa Alexandre pelo que ele fez corretamente, que foi condenar os que atentaram contra a democracia. O ministro Alexandre de Moraes acha que não deve explicações ao país mesmo diante de todas as evidências de relações impróprias com um banqueiro, cujo negócio só ficaria de pé com favores e vantagens dadas por poderosos.

De vez em quando há pequenos avanços. No domingo, o ministro Flávio Dino determinou o prazo de 90 dias para que o governo apresente uma revisão da regulação dos fundos de investimento fiscalizados pela Comissão de Valores Mobiliários. A ação do Partido Novo, que tem a Transparência Internacional como amicus curiae, questiona as mudanças na regulação que aconteceram no governo Bolsonaro, em 2021 e 2022, e que permitiram manobras que estão no cerne do Caso Master. A regulação flexibilizada deu margem à criação daquele emaranhado de fundos, como o Reag, em que um fundo aplicava em outro. Essa cascata de ativos servia para lavar dinheiro e esconder o investidor. Segundo Dino, houve uma “permissividade sistêmica”.

A ordem do ministro é para que o Ministério da Fazenda coordene essa revisão da regulação da CVM, com outros órgãos, para enfrentar as “fragilidades relevantes nos mecanismos de controle interno”. O que torna o caso mais delicado é que o presidente da CVM, Otto Lobo, era diretor do órgão em 2022 quando foram aprovadas essas mudanças regulatórias. Assumiu interinamente a presidência em 2025 e contra a orientação da Fazenda foi confirmado no cargo.

Eu já escrevi aqui que o Caso Master é uma bomba de fragmentação que estourou distribuindo tarefas. Para evitar novos casos assim, há muito a ser feito em várias instâncias e órgãos. Mas o mais importante trabalho terá que ser realizado pelo Supremo Tribunal Federal. O STF tem que investigar seus próprios erros e criar um Código de Ética que evite a repetição de fatos que estão minando a confiança na democracia brasileira.

Desigualdade também é uma escolha

Mais de 40% de toda a riqueza criada no mundo neste século fluiu para o 1% mais rico da população. À metade mais pobre da humanidade – cerca de 4 bilhões de pessoas – coube apenas 1%. Já no Brasil os dados apontam que 37,3% da riqueza declarada está com o 1% mais rico.

A desigualdade não é inevitável; ela resulta de escolhas. Escolhas sobre quem paga impostos e quem recebe benefícios fiscais; sobre quanto investimos em saúde, educação, proteção social, transporte, infraestrutura urbana e acesso a direitos; sobre as condições de trabalho; sobre quem participa das decisões e quem permanece à margem delas.

Se escolhas políticas ajudam a produzir desigualdade, elas também podem reduzi-la. Mas fazer escolhas melhores exige, antes de tudo, compreender melhor o problema: sua escala, suas diferentes dimensões, suas causas e as políticas capazes de enfrentá-lo.

É por isso que consideramos tão importante a proposta de criação do Painel Internacional sobre Desigualdade (International Panel on Inequality, IPI, na sigla em inglês), uma iniciativa liderada pelo professor Joseph Stiglitz, que será apresentada hoje às Nações Unidas. Brasil, África do Sul, Noruega e Espanha estão entre os países que defendem a iniciativa.


A proposta é criar uma estrutura científica internacional e independente, capaz de sistematizar evidências sobre as desigualdades, acompanhar sua evolução e aproximar a produção de conhecimento das políticas públicas e da governança global. A iniciativa nasce reunindo especialistas de diferentes regiões e disciplinas, vinculados a instituições de referência na produção de conhecimento e no apoio à formulação de políticas públicas.

A experiência da crise climática oferece um precedente importante. Ao reunir e avaliar conhecimento científico produzido em diferentes países, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) contribuiu para estabelecer uma base comum de evidências para o debate internacional. A desigualdade, pela dimensão alarmante que alcançou e pelos impactos que produz, também exige uma capacidade permanente e coordenada de diagnóstico.

Mas a importância de um painel dessa natureza dependerá não apenas das perguntas que formular, mas também de quem terá voz na produção das respostas. 

O debate global sobre desigualdade precisa refletir muito mais a experiência do Sul Global e das populações mais afetadas por ela. Países que convivem há décadas com desigualdades extremas – e, sobretudo, as pessoas e comunidades que as vivenciam diretamente – não podem ser tratados apenas como objetos de estudo ou fontes de dados. Devem participar da definição das agendas de pesquisa, das metodologias e das interpretações. Incorporar essas perspectivas não é apenas uma questão de representatividade: é condição para compreender como as desigualdades são produzidas, como se manifestam em diferentes contextos e quais respostas têm maior possibilidade de transformá-las.

O Brasil tem uma trajetória importante de políticas de combate à pobreza e à fome, ampliação do acesso a serviços e garantia de direitos. Durante sua presidência do G20, ajudou a colocar a fome, a pobreza e as desigualdades no centro da agenda internacional. Nos últimos anos, políticas públicas contribuíram para que o país saísse novamente do Mapa da Fome e alcançasse os menores níveis de pobreza e desigualdade de renda de suas séries históricas. O país também criou o ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial, incorporando explicitamente a mensuração e o enfrentamento das desigualdades raciais à sua implementação da Agenda 2030.

Mas o Brasil e a América Latina continuam profundamente desiguais, e a concentração de riqueza permanece um desafio central. Essa é também uma questão global: em diferentes sociedades, gênero, classe, raça e etnia se combinam com desigualdades territoriais – entre regiões, cidades e zonas rurais, centros e periferias – de maneiras distintas. Incorporar essas dimensões é essencial para entender quem é mais afetado pela desigualdade e quais políticas podem efetivamente reduzi-la.

Avançamos muito na produção de conhecimento capaz de orientar políticas de redução das desigualdades. Ainda assim, persistem lacunas e divergências sobre suas causas, seus efeitos e as respostas mais eficazes. No Brasil, avançar nesse conhecimento significa recorrer também à experiência de gestores públicos, pesquisadoras e pesquisadores, movimentos sociais e organizações que há décadas ajudam a compreender como renda, raça, gênero e território se combinam na produção das desigualdades — inclusive na experiência de mulheres negras, povos indígenas e populações de territórios historicamente marginalizados, sobre os quais diferentes desigualdades frequentemente se sobrepõem.

O Brasil tem muito a oferecer. Dispõe de instituições públicas de pesquisa reconhecidas, ampla produção acadêmica, sistemas de dados e estatísticas, experiência acumulada em políticas de redução das desigualdades e uma sociedade civil ativa. Ao participar desde o início da construção do IPI, o país tem condições de exercer um papel de liderança em sua consolidação.

Para isso, será importante sustentar um forte apoio brasileiro ao IPI e, ao mesmo tempo, articular governo, universidades, instituições de pesquisa e sociedade civil em torno dessa agenda. O Brasil já conta com iniciativas importantes, como o Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades e seu Observatório Brasileiro das Desigualdades. A construção do IPI pode também servir de impulso para fortalecer os instrumentos domésticos de enfrentamento às desigualdades, estabelecendo metas mais claras, aprimorando sua mensuração e avaliando de forma mais sistemática como as principais políticas públicas contribuem para reduzi-las.

Essa articulação entre as dimensões nacional e internacional é especialmente importante. O Brasil pode trazer para o país conhecimento produzido em outras partes do mundo e, ao mesmo tempo, levar ao debate global perguntas, evidências e experiências que nascem da realidade brasileira.

Evidentemente, nenhum painel científico substituirá a política. Não cabe à ciência decidir quais impostos cobrar, onde investir recursos públicos ou quais direitos uma sociedade deseja assegurar. Mas cabe a ela mostrar, com independência e rigor, as consequências dessas escolhas: quem ganha, quem perde e quais desigualdades são reduzidas ou aprofundadas. O IPI poderá ajudar a construir uma base comum de evidências, identificar onde existem consensos e tornar mais claras as questões sobre as quais ainda há incerteza ou divergência.

A criação do IPI oferece ao mundo uma oportunidade de tratar a desigualdade com a urgência, o rigor científico e a cooperação internacional que sua dimensão exige. O Brasil já está ajudando a construir essa resposta. Agora, pode contribuir decisivamente para sua consolidação e, ao mesmo tempo, avançar na construção de instrumentos nacionais ainda mais robustos para enfrentar suas próprias desigualdades. Ao fazê-lo, leva ao centro do debate global o conhecimento, as experiências e as vozes de uma sociedade que conhece profundamente as consequências da desigualdade – e a possibilidade de transformá-la.
Viviana Santiago (diretora Executiva da Oxfam Brasil), Jayati Ghosh (professora de Economia na Jawaharlal Nehru University em Nova Deli), Adriana Abdenur (Copresidente do Global Fund for a New Economy)

O Estado laico sobreviverá?

Uma das maiores conquistas da civilização ocidental é o conceito de laicidade. O estado laico não tem religião oficial ou oficiosa nem apoia nenhuma religião. Também não apoia a ausência de fé religiosa, de modo a manter equidistância de todas as tradições e opções religiosas e filosóficas. Só assim os cidadãos poderão ser livres para aderir a uma religião, para a manter, para deixar de a ter, para mudar de filiação religiosa ou para escolher não ter qualquer religião.

Os cidadãos têm o direito de não revelar a sua filiação religiosa, nem que seja um polícia a perguntar. É questão do foro íntimo do indivíduo, o que lhe garante plena liberdade de fé e crença.


A religião sempre enfrentou a tentação do poder. Inicialmente, a Europa era católica romana e o papa mantinha um poder desmesurado sobre o continente. Roma fazia parte do jogo político e pensava a Igreja como agente chave desse tabuleiro. Mas a reforma protestante do século XVI e as guerras religiosas que a seguiram, num primeiro momento, assim como a emergência da modernidade que trouxe o primado do indivíduo, conjugaram-se para que surgisse a ideia da separação formal entre estado e religião.

Assim, o estado não deve ter religião oficial mas os cidadãos podem ter a sua religião livremente, vivê-la e praticá-la de acordo com a sua consciência. A ideia é que o estado é laico, embora a sociedade não costume sê-lo.

Laicidade é diferente de laicismo. Alguns setores ateus lutam para passar da laicidade ao laicismo, isto é, proibir toda e qualquer manifestação de fé religiosa no espaço público, o que é manifestamente abusivo, uma vez que tal circunstância retira o direito de os cidadãos expressarem a sua fé fora dos templos ou das suas casas, direitos constitucionalmente consagrados nas democracias.

Contudo, a ideia do estado laico no ocidente está a perder dinâmica a cada dia que passa perante o surgimento duma tendência teocrática. Se durante uns tempos o mundo contava apenas com o estado do Vaticano como uma teocracia católica (1929) e o estado de Israel como teocracia judaica (1948), hoje conta com as teocracias islâmicas do Irão (1979) e do Afeganistão (2021).

Mas, além disso, o que mais preocupa o mundo ocidental é a tentação geral de alguns círculos políticos lançarem mão do sentimento religioso das populações para fins de obtenção do poder. Normalmente, são as forças políticas de extrema-direita que recorrem a tal expediente, por vezes aliadas a líderes religiosos sem escrúpulos. Usam-se do sentimento religioso das massas para as arregimentar contra aquilo que clamam ser as ameaças à fé.

Assustam as pessoas com perseguição religiosa onde ela não existe e fazem campanha política ameaçando que, se eles, os “bons”, não ganharem as eleições, virão os “maus” e fecharão igrejas, prenderão pastores e erradicarão a fé. E quando não o dizem abertamente, sugerem-no nas entrelinhas.

A manipulação do eleitorado menos esclarecido em estados democráticos de direito, por via do medo de perseguição religiosa, fabricado por esses espertalhões, encontra eco numa sociedade que não lê jornais, e pensa que se pode informar nas redes sociais, que são um imenso repositório de notícias falsas.

À força da aparência de querer defender a liberdade religiosa dos crentes, de facto estão a pretender extingui-la, criando uma teocracia qualquer que é excludente e autoritária. Se pusermos de parte o estado do Vaticano, dada a sua dimensão e características específicas, basta olharmos para a teocracia judaica, onde os judeus ortodoxos cospem na cara dos cristãos e agridem-nos, ou no Irão e Afeganistão, onde qualquer discípulo de Cristo se arrisca a ser preso e assassinado em nome da fé.

O conceito do estado laico foi gizado por cristãos, em nome da liberdade e da tolerância. Está na hora dos cristãos se unirem em todo o mundo na defesa do estado laico, que é como quem diz, em defesa da sua fé e da fé alheia, seja ela qual for.

A IA pode aumentar a produtividade. A questão é quem fica com os ganhos

Há uma coisa que mudou no trabalho e que ainda ninguém diz em voz alta: há gente com medo. Não do cenário de ficção científica, das máquinas conscientes que decidem acabar connosco — isso fica bem num filme, não numa conversa de café com um colega. O medo real é mais aborrecido do que isso. É abrir o email de manhã e ver uma convocatória do departamento de recursos humanos na caixa de entrada. É ouvir a palavra “reestruturação” outra vez. É a equipa que há seis meses parecia intocável e que já não existe. É saber que aquela tarefa que se fazia há três anos agora é feita por uma ferramenta que custa uma fração do salário. E é olhar para o colega despedido e pensar — sem dizer a ninguém, claro — quando será a sua vez.

Não sei quantos dos despedimentos de que ouvimos falar são mesmo culpa da Inteligência Artificial. Contrataram-se pessoas a mais em 2021, as vendas caem, os custos têm de baixar, reorganiza-se a empresa — a IA aparece muitas vezes só como mais um ingrediente numa transformação que já vinha a acontecer por outras razões. Seria cómodo usar essa confusão toda como desculpa para não olhar de frente para o problema. Mas já há empresas a fazer o mesmo trabalho com menos gente, e isto não é uma previsão para daqui a dez anos: está a acontecer agora, neste trimestre.
Quando uma administração percebe que consegue produzir o mesmo com uma equipa mais pequena, há uma escolha a fazer. Pode usar esse ganho para crescer, investir, pagar melhor, encurtar horários. Ou pode simplesmente despedir. A tecnologia não escolhe — quem escolhe é gente com nome e apelido, sentada numa sala de reuniões.

É mais fácil dizer “os empregos vão desaparecer” do que perguntar o que fazemos com a produtividade que sobra quando uma tarefa deixa de ser precisa. A primeira frase soa a fatalidade, quase a meteorologia. A segunda obriga a falar de dinheiro, de poder, de quem manda numa empresa — e isso já ninguém gosta tanto de discutir.

Durante muito tempo, acreditou-se que a tecnologia acabaria por libertar as pessoas de parte do trabalho. Produzir mais em menos tempo devia significar melhores salários, mais tempo livre, jornadas mais curtas. E durante uns bons anos foi mais ou menos isso que aconteceu: trabalhámos menos horas do que os nossos avós, e eles menos do que os pais deles. A pergunta é se ainda queremos continuar essa história ou se já a deixámos ficar para trás algures no caminho.

Porque há qualquer coisa de estranho a formar-se à nossa frente: construímos máquinas cada vez mais capazes de fazer o trabalho por nós, e ao mesmo tempo criámos uma sociedade onde se trabalha cada vez mais depressa. Já vimos este filme antes. Um email que antigamente esperava um dia por resposta, hoje “tem” de ser respondido em cinco minutos — não porque ganhámos um dia inteiro de folga, mas porque agora conseguimos despachar muito mais emails no mesmo dia. A produtividade transforma-se assim numa espécie de esteira rolante: anda-se mais depressa, mas ninguém fica com o tempo que se poupou.

A IA pode levar isto ainda mais longe. Se uma equipa de dez faz o que antes precisava de quinze pessoas, há uma pergunta que devia ser feita antes de se contarem despedimentos: o que acontece às cinco que já não são precisas ali? A resposta do costume é que “têm de se requalificar” — como se fosse tão simples como atualizar uma aplicação no telemóvel. Só que estamos a falar de gente que construiu uma carreira ao longo de dez, vinte, trinta anos, e que de repente descobre que parte do que sabe fazer vale menos no tal “mercado”. Dizer-lhes que precisam de novas competências, tudo bem. Dizer-lhes que a responsabilidade é só deles é outra conversa completamente diferente.

Se a transformação beneficia a empresa toda, porque é que a adaptação recai quase sempre sobre o trabalhador sozinho? Há responsabilidade das empresas nisto, claro, mas também responsabilidade pública. Se queremos que as pessoas mudem de profissão várias vezes ao longo da vida — e vamos precisar disso —, então é preciso construir uma sociedade preparada para tal: formação de verdade e acessível, tempo para estudar sem perder o emprego a fazê-lo, proteção social nas transições, empresas que invistam nos seus trabalhadores em vez de os trocarem assim que aparece uma ferramenta nova e mais barata.

E depois há os jovens, dos quais quase ninguém fala nesta conversa toda. Muita gente entra numa carreira a fazer o trabalho aparentemente menos importante — é assim que se aprende o ofício. O problema é que são precisamente essas tarefas que a IA está a fazer cada vez melhor. Corremos o risco de chegar a uma situação um bocado absurda: as empresas precisam de trabalhadores experientes, mas já não criam os empregos onde essa experiência se ganhava, e depois alguém pergunta, surpreendido, porque é que os jovens têm tanta dificuldade em entrar no mercado de trabalho. A IA não vai ser a única razão, longe disso, mas fingir que não tem nada a ver com isto seria ingénuo.

Mesmo quando ninguém é despedido, basta saber que uma máquina consegue fazer uma fatia cada vez maior do teu trabalho para mudar a forma como olhas para o teu próprio emprego. Sente-se a pressão para produzir mais, responder mais depressa, estar sempre disponível, aprender a ferramenta nova que apareceu esta semana. A IA pode não eliminar o trabalhador — mas torná-lo mais esgotado, isso consegue perfeitamente. E quando a mesma ferramenta que ajuda também permite medir cada minuto e avaliar cada decisão, a linha entre produtividade e vigilância fica bastante ténue.

Por isso é que esta conversa não pode ficar fechada nos departamentos de tecnologia ou nas salas de administração das grandes empresas. É uma conversa sobre que tipo de relação laboral queremos ter daqui a dez, vinte anos. A pergunta não é como travar a IA — é como impedir que ela seja só mais uma forma de concentrar riqueza e poder nas mesmas mãos de sempre.

Se uma empresa passa a ganhar mais porque precisa de menos horas de trabalho humano, parte desse ganho vira lucro. Normal, até certo ponto. Mas não tem de ser tudo lucro. Podia ser salários melhores, menos horas, mais contratação noutras áreas, mais formação, ou simplesmente mais tempo de vida para quem trabalha. Esta última hipótese soa hoje quase radical — o que já diz muito sobre a forma como pensamos a economia.

Talvez valesse a pena medir o progresso de outra forma. Não só pelo PIB ou pelo número de startups a nascer mas pelo tempo que sobra às pessoas para os filhos, para os amigos, para descansar, para cuidar de alguém, para ler um livro ou não fazer rigorosamente nada. A economia existe para servir as pessoas, não o contrário — é uma ideia velha, quase batida, mas convém repeti-la sempre que se fala de máquinas capazes de fazer cada vez mais trabalho por nós.

Em Portugal ainda temos outra manha: celebrar a modernização sempre que ela chega disfarçada de aplicação nova ou serviço público digital. E sim, é bem melhor tratar de uma coisa online do que perder uma manhã numa repartição de finanças. Mas isso é só a parte fácil da transformação. Digitalizar um formulário é simples; mudar a relação entre tecnologia e trabalho é outra história bem mais complicada.

Os próximos anos vão obrigar-nos a decidir muito mais do que como usar ferramentas de IA no dia a dia — vão obrigar a decidir que tipo de economia queremos construir com elas. E talvez seja aqui que Portugal precise de menos obsessão com o próximo unicórnio e mais preocupação com quem já trabalha nas empresas que existem hoje.

Precisamos de empresas mais produtivas, sim. De inovação, de investimento, de gente capaz de usar estas ferramentas bem. Isso não está em causa. Mas precisamos também de perguntar quem paga a transição — porque é fácil falar da necessidade de “adaptar os trabalhadores”, mais difícil falar da responsabilidade de adaptar as empresas, e ainda mais difícil falar de quem fica com o dinheiro quando produzir o mesmo passa a exigir menos gente.

É essa a conversa que continuamos a adiar.

Ou aceitamos uma sociedade onde algumas empresas ficam com quase todos os ganhos da automação enquanto milhões de pessoas vivem à espera de que o emprego desapareça, ou decidimos que uma parte dessa riqueza deve dar às pessoas aquilo que a tecnologia prometeu há séculos e raramente cumpriu: mais segurança, mais tempo, uma vida que não gire só em torno do trabalho.

Não sei se a IA vai destruir milhões de empregos — ninguém sabe ao certo. Mas os primeiros sinais já estão aí e esperar por certezas antes de discutir as consequências seria um erro caro. Os despedimentos coletivos não são uma nota de rodapé de uma revolução tecnológica qualquer. São pessoas. A requalificação não é uma palavra bonita num documento da União Europeia. São anos da vida de alguém. E a produtividade não é só uma percentagem num relatório trimestral — pode significar mais lucro para uma empresa, ou mais tempo de vida para um trabalhador.

Não precisamos de ter medo da Inteligência Artificial. Precisamos de ter cuidado com quem fica com aquilo que ela produz. Se as máquinas nos vierem a devolver tempo, se calhar já não é altura de perguntar como trabalhar ainda mais depressa. É talvez altura de perguntar, sem medo da resposta: quando a tecnologia nos devolver esse tempo, quem é que fica com ele?

Guterres e a IA

A inteligência artificial deve ser moldada pela humanidade, com a humanidade e para toda a humanidade
António Guterres, Secretário-Geral da ONU