Está se tornando cada vez mais óbvio que não é a fome, nem os micróbios, nem o câncer, mas o próprio homem o maior perigo para a Humanidade, porque ele não dispõe de proteção adequada contra epidemias psíquicas, infinitamente mais devastadoras, em seus efeitos, do que as maiores catástrofes naturais.
C. G. Jung, "O Homem Moderno em Busca de uma Alma"
terça-feira, 20 de outubro de 2026
Duas promessas de Flávio Marçal, o coach bolsonarista
Prosperidade qualquer um almeja. Então, por que não criar um ministério que abrace a causa? Tem orçamento, metas ou objetivos? Claro que não. Mas o que importa? A proposta de Flávio Bolsonaro tem a cara do discurso de coach de Pablo Marçal, que assumiu o papel de estrategista da campanha nesta reta final. O estelionato eleitoral transforma a prosperidade individual em promessa de governo, usando palavras genéricas como empreender, crescer e vencer, mas sem apresentar qualquer desenho administrativo.
Flávio propõe reunir qualificação profissional, crédito e incentivo aos pequenos negócios. Também afirmou que manterá o Bolsa Família, inclusive para quem conseguir emprego. “Para esse governo, Bolsa Família é o máximo. Para mim, é só o começo”, boa frase, mas já se sabe o final.
O problema, bem pequeno, é que o plano de governo de Flávio não prevê a nova pasta. Ao contrário, promete extinguir pelo menos dez ministérios para reduzir gastos. Não existe prosperidade quando o governo, o principal indutor de desenvolvimento e crescimento no país, fecha a torneira dos gastos. A prosperidade é apenas um slogan que jamais se tornará política pública.
Sejamos justos, o plano do candidato possui um eixo denominado “Brasil que Prospera”, com propostas como a prioridade de beneficiários de programas sociais em ações de qualificação profissional, o incentivo à abertura de pequenos negócios e a transformação da Caixa Econômica Federal em um “Banco da Prosperidade”. Pobre Caixa.
Chamou atenção outra promessa vazia de Flávio no debate. Se Lula anuncia bilhões em bondades eleitorais atropeladas sem saber como bancá-las, Flávio se viu autorizado a fazer o mesmo. Quis emular o Desenrola com o perdão da dívida para MEIs. “Para você que é pessoa física, vai ficar seis meses parada a sua dívida. Você não vai pagar boleto nenhum. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano”.
Mais uma vez, a proposta não está em seu plano de governo e evidentemente, o senador não detalhou como seria financiada a compra das dívidas, critérios para selecionar os beneficiários ou as condições de pagamento. Coisa de debate. Se não for eleito, senador fica sem mandato, mas não ficará sem emprego. Poderá seguir o caminho dos coachs, como seu estrategista Pablo Marçal.
Flávio propõe reunir qualificação profissional, crédito e incentivo aos pequenos negócios. Também afirmou que manterá o Bolsa Família, inclusive para quem conseguir emprego. “Para esse governo, Bolsa Família é o máximo. Para mim, é só o começo”, boa frase, mas já se sabe o final.
O problema, bem pequeno, é que o plano de governo de Flávio não prevê a nova pasta. Ao contrário, promete extinguir pelo menos dez ministérios para reduzir gastos. Não existe prosperidade quando o governo, o principal indutor de desenvolvimento e crescimento no país, fecha a torneira dos gastos. A prosperidade é apenas um slogan que jamais se tornará política pública.
Sejamos justos, o plano do candidato possui um eixo denominado “Brasil que Prospera”, com propostas como a prioridade de beneficiários de programas sociais em ações de qualificação profissional, o incentivo à abertura de pequenos negócios e a transformação da Caixa Econômica Federal em um “Banco da Prosperidade”. Pobre Caixa.
Chamou atenção outra promessa vazia de Flávio no debate. Se Lula anuncia bilhões em bondades eleitorais atropeladas sem saber como bancá-las, Flávio se viu autorizado a fazer o mesmo. Quis emular o Desenrola com o perdão da dívida para MEIs. “Para você que é pessoa física, vai ficar seis meses parada a sua dívida. Você não vai pagar boleto nenhum. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano”.
Mais uma vez, a proposta não está em seu plano de governo e evidentemente, o senador não detalhou como seria financiada a compra das dívidas, critérios para selecionar os beneficiários ou as condições de pagamento. Coisa de debate. Se não for eleito, senador fica sem mandato, mas não ficará sem emprego. Poderá seguir o caminho dos coachs, como seu estrategista Pablo Marçal.
O Brasil quer um presidente. A TV dá um inimigo
Se Hitler, Stalin e Pol Pot desembarcassem no Brasil, sem conhecer nossa eleição, poderiam imaginar que estamos escolhendo o responsável pelo fim do mundo e eles também achariam que estamos substituindo-os com muita competência. Cada campanha apresenta seu guerreiro como a última esperança da humanidade e o ninja adversário como uma mistura de assombração, cobrador e criador da Covid. Falta explicar, aos brasileirinhos, quem e como é que vai governar quando o terror passar.
Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.
Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.
O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.
Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?
Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!
No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.
Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.
Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.
Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!
O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.
O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.
Roberto Caminha Filho, economista, perguntará, aos dois, após as honoráveis propostas: Como farás e pagarás essa obra, Excelência? Sempre com muito respeito.
Neste segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro, o eleitor tem direito a alguma coisa, além de um menu de maldades, para escolher o seu presidente? O eleitor amigo precisa saber o que cada um pretende fazer, como pretende fazer e de onde sairá o dinheiro. Parece pouco. Na campanha brasileira, perguntar isso já equivale a interromper uma festa para conferir a conta. Falta explicar o “Como”. Por enquanto, tudo sairá de uma varinha mágica e não do nosso santo bolsinho e do sagrado suor de cada dia.
Não há problema em apontar erros, contradições e responsabilidades do Drácula concorrente. Democracia não exige disputa entre candidatos que troquem carinhos de beija-flor e beijos de borboleta, flores e receitas de bolo. Histórico importa. Caráter importa. Mas denunciar o defeito do outro não comprova a competência de ninguém.
O momento é confortável: quando falta explicação, sobra acusação. Quando a proposta fica difícil, entra um vídeo assustador. O candidato pode atravessar uma entrevista inteira descrevendo a tragédia que o adversário causará e sair sem esclarecer como pretende reduzir uma fila de atendimento. A plateia aplaude. A fila continuará aumentando.
Segurança, por exemplo. O brasileirinho quer sair de casa, trabalhar e voltar com o celular, o salário e a vida. Que medidas o próximo presidente propõe para enfrentar o “crime mais organizado do mundo”? Como coordenará União e estados? Como investigará o dinheiro das organizações criminosas?
Na saúde, a pergunta também dispensa tradução: como encurtar a espera por consulta, exame e cirurgia? Quem enfrenta uma suspeita de doença não pode receber como tratamento um discurso sobre a maldade do outro partido. Dor não respeita calendário eleitoral. Que tal os candidatos vencidos como fiscais das novas construções? Errei fácil!
No bolso, o cidadão deseja entender como o salário poderá alcançar o fim do mês. Nem pensar em poupança. Que ambiente haverá para investimento, emprego e pequenos negócios? Como o governo cuidará das próprias contas? Prometer benefício sem explicar financiamento é oferecer almoço e esconder o cardápio de preços. Alguém paga. Frequentemente, o convidado descobre que também era o patrocinador.
Aqui, pela nossa Amazônia, todos querem saber como as decisões de Brasília chegarão à vida de quem depende dos rios, enfrenta distâncias enormes e precisa produzir. Cada alma que chega, neste imenso depósito de pobres, tem que comer. Transporte, energia, comunicação e atendimento público exigem soluções concretas. O mapa nacional não pode terminar onde termina a estrada. Quem vive além dela também paga imposto, trabalha e vota. Que tal um Programa para as Várzeas? O Tennessee tem um para vender e vem com o dinheiro do Tio Sam.
Lula precisa explicar o que pretende corrigir, manter e o que fazer de diferente. É difícil, após vinte anos tentando e empurrando a dívida para outros pagarem. Flávio precisa demonstrar como transformaria suas promessas em decisões de governo. Um não pode pedir procuração em branco pelo passado; o outro não pode recebê-la apenas por representar a troca em família. Experiência deve prestar contas. Renovação tem que mostrar trabalho.
Governo envolve escolhas: gastar aqui pode exigir economizar ali; mudar uma regra pode beneficiar uns e prejudicar outros. Quem admite dificuldades oferece ao eleitor uma informação útil. Quem vende facilidade ilimitada está fazendo promoção com mercadoria que ainda não entregou. Nunca esqueça as palavras do Everardo Maciel: Para cada R$1,00 de bondade, temos que criar R$1,00 de imposto porque ninguém doa reais ao Estado. E tome imposto no lombo!
O eleitor amigo, por sua vez, pode cobrar sem pedir licença às torcidas. Perguntar aos candidatos não é pecado nem traição. É zelo pelo voto. A política melhora quando o apoiador deixa de trabalhar como advogado de defesa permanente e começa a agir como cidadão.
O brasileirinho eleitor merece conhecer o próximo governo antes de passar quatro anos descobrindo. Porque, no dia seguinte à eleição, o inimigo da propaganda pode sair de cena. O boleto fica. E ele nunca aceita desculpa de palanque.
Roberto Caminha Filho, economista, perguntará, aos dois, após as honoráveis propostas: Como farás e pagarás essa obra, Excelência? Sempre com muito respeito.
Roberto Caminha Filho
Fascismo, crise climática e desinformação: sinais de um mundo em colapso
O livro é “A paixão pela mentira — A família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller. Lançado em 2025, discute as angústias e traumas infantis que resultam no adulto que nos tornamos. Como o título e o subtítulo indicam, o livro denuncia as narrativas estrambólicas que sustentam o fascismo desde sua origem, no âmbito familiar. A leitura é atrativa a leitores de qualquer espectro político, mas abri o livro justo neste frenético outubro de 2026, e ele me ajudou a entender a razão de estarmos tão assustados com a possibilidade de sermos governados por uma família que se encaixa exemplarmente na análise profissional e isenta do autor.
Faltavam apenas 50 páginas para eu terminar a leitura quando minha filha mais nova saiu do quarto determinada a me convencer a assistir a “Digger”, em cartaz apenas nos cinemas. Sério? Logo esse filme que, dizem, é um fracasso de bilheteria? “Sério, mãe”. Você escuta isso de uma garota que nasceu de seu ventre e, se tiver juízo, vai conferir a razão de ela ter deixado o celular de lado para conversar com você sobre uma obra de arte. Dois nomes da ficha técnica bastariam para credibilizar o filme: Tom Cruise está assombroso, candidatíssimo ao Oscar de 2027, e o diretor Alejandro Iñárritu, mais uma vez, não passa despercebido pela telona. São motivo suficiente para sair de casa.
“Digger” é uma experiência cinematográfica. Reúne comédia, tragédia, farsa, cinema, teatro, realidade, fantasia, tecnologia, tudo sacudido na mesma coqueteleira. Extravagante, aborda nossa dependência do petróleo, “o leite materno da Terra” (como define um personagem), e as insanidades feitas em seu nome. Ao mesmo tempo, dá palco ao aquecimento global, que acabará por afogar a ânsia inconsequente pelo poder. Batemos no teto? Chegamos ao fim da linha? Irá tudo por água abaixo?
E aí entra a vida. Entre a leitura do livro e a ida ao cinema, fui surpreendida pelas imagens da lama invadindo o bairro de Las Condes, em Santiago do Chile, cidade em que morei. Lembro bem do arroio que corta suas vias. Foi chocante ver o transbordamento arrastando carros, os transeuntes em pânico. Cortesia da chuva intensa e do derretimento da Cordilheira dos Andes, da mesma forma que se deu no Himalaia, no Nepal, poucos meses atrás, assim como tem acontecido com geleiras e calotas polares — afundaremos todos, é isso mesmo?
Sobreviverá quem estiver no lucro. E não falo de dinheiro, e sim do lucro de ter vivido bastante, cercado por livros, informação e consciência do momento presente.
Agora imagina quem não lê, quem não vai ao cinema, nem respeita a ciência e o conhecimento. Desfocado da realidade, só lhe resta acreditar em miragens.
Faltavam apenas 50 páginas para eu terminar a leitura quando minha filha mais nova saiu do quarto determinada a me convencer a assistir a “Digger”, em cartaz apenas nos cinemas. Sério? Logo esse filme que, dizem, é um fracasso de bilheteria? “Sério, mãe”. Você escuta isso de uma garota que nasceu de seu ventre e, se tiver juízo, vai conferir a razão de ela ter deixado o celular de lado para conversar com você sobre uma obra de arte. Dois nomes da ficha técnica bastariam para credibilizar o filme: Tom Cruise está assombroso, candidatíssimo ao Oscar de 2027, e o diretor Alejandro Iñárritu, mais uma vez, não passa despercebido pela telona. São motivo suficiente para sair de casa.
“Digger” é uma experiência cinematográfica. Reúne comédia, tragédia, farsa, cinema, teatro, realidade, fantasia, tecnologia, tudo sacudido na mesma coqueteleira. Extravagante, aborda nossa dependência do petróleo, “o leite materno da Terra” (como define um personagem), e as insanidades feitas em seu nome. Ao mesmo tempo, dá palco ao aquecimento global, que acabará por afogar a ânsia inconsequente pelo poder. Batemos no teto? Chegamos ao fim da linha? Irá tudo por água abaixo?
E aí entra a vida. Entre a leitura do livro e a ida ao cinema, fui surpreendida pelas imagens da lama invadindo o bairro de Las Condes, em Santiago do Chile, cidade em que morei. Lembro bem do arroio que corta suas vias. Foi chocante ver o transbordamento arrastando carros, os transeuntes em pânico. Cortesia da chuva intensa e do derretimento da Cordilheira dos Andes, da mesma forma que se deu no Himalaia, no Nepal, poucos meses atrás, assim como tem acontecido com geleiras e calotas polares — afundaremos todos, é isso mesmo?
Sobreviverá quem estiver no lucro. E não falo de dinheiro, e sim do lucro de ter vivido bastante, cercado por livros, informação e consciência do momento presente.
Agora imagina quem não lê, quem não vai ao cinema, nem respeita a ciência e o conhecimento. Desfocado da realidade, só lhe resta acreditar em miragens.
Trumpistas fogem do mundo real
Há quem goste de qualificar Stephen Miller como a éminence grise de Donald Trump. O epíteto não lhe faz justiça. Seu poder é mais vasto do que o do frade de batina cinza Leclerc du Tremblay, braço direito de Richelieu nos tempos de Luís XIII. Miller é o homem que transforma em política pública os impulsos mais incivilizados de Trump. Imprime sua ideologia raivosa com métodos de inquisidor, não aceita desculpas nem abre espaço a dissenso. É temido não pela fisionomia que lembra Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, mas por deter um poder de ação e persuasão imenso na Casa Branca. Não por acaso, escolheu a dedo um cargo que não quer dizer nada (e, portanto, pode significar tudo) e não exige ser sabatinado pelo Senado: vice-chefe de Gabinete para Políticas Públicas. Opera melhor nas sombras do que à luz do dia, e poucos no universo Make America Great Again (Maga) se aventuram a contrariá-lo.
Fora da bolha, a história é outra. Até outubro do ano passado, Stephen, sua mulher, Katie, e os quatro filhos pequenos moravam numa daquelas deliciosas mansões arborizadas de Arlington, na Virgínia, a não mais de 15 quilômetros da Casa Branca. Ali, a vizinhança democrata lhes pareceu hostil. Surgiram pichações no asfalto contra as mudanças da vida cívica implantadas por Trump. O incômodo da vizinhança com o excesso de agentes e seguranças nas redondezas (Miller é o único funcionário de segundo escalão com direito a guarda-costas do Serviço Secreto) acabou levando o casal a vender a propriedade.
— Éramos ótimos vizinhos, até aumentamos o valor dos terrenos da redondeza — contou Katie Miller no podcast Ruthless. — O lugar deixou de ser seguro para nossos filhos brincarem no gramado de casa.
Mudaram-se para uma instalação militar fortemente protegida, em Washington D.C. Ali, ocupam uma das residências historicamente reservadas a oficiais de alta patente, transformada numa espécie de assentamento Maga. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, e outros integrantes da bolha Trump também se mudaram para esse Xanadu fortificado, onde se sentem em segurança por viverem intramuros.
— Agora as crianças estão tão felizes, podem brincar e correr em liberdade. Elas adoram ver os soldados, é uma experiência única na vida delas — festejou a senhora Miller.
Logo no início de seu segundo mandato, Trump havia declarado estado de emergência criminal na capital do país. Batizou a ação de “Dia da Libertação” e decretou a federalização da polícia municipal. Designou tropas da Guarda Nacional com fuzis M4 e blindados para erradicar a criminalidade que dizia ver em todas as esquinas da cidade — o contingente chegou a mobilizar 4.600 militares e deve marcar presença em Washington até o fim do mandato. A empreitada — que também conta com agentes do FBI, do ICE e de delegados federais — resultou em mais de 16 mil prisões até agora e trombeteia índices questionáveis de eficácia.
Ainda assim, os Millers, os Hegseths, os Rubios não se sentem seguros, ou não querem ser incomodados, a ponto de conviver com a população local, blindando-se da sociedade que acreditam conhecer e governar. Não é síndrome nova. Ela adquire facetas variadas, mas tem um denominador comum: o medo do conhecimento da realidade. A apoteose dessa síndrome já recebeu atenção neste espaço em 2009, por ocasião da inauguração da nova embaixada americana em Bagdá, capital do Iraque. Os Estados Unidos haviam invadido o país em 2003 sob falso pretexto e não conseguiam mais sair daquela terra islâmica de 48 milhões de árabes (80%) e curdos (20%).
Primeiro, demarcaram uma “Zona Verde” de 10 quilômetros em pleno centro de Bagdá e a transformaram em minicidade estanque e inviolável. Ali funcionavam órgãos do governo e embaixadas, entre outros. Cidadãos iraquianos comuns eram proibidos de acessar ou transitar pelo perímetro. Arame farpado, barreiras de concreto e tanques, revistas físicas minuciosas mesmo para credenciados faziam parte do controle. Mas nem isso bastou para que se sentissem seguros na cidade por eles ocupada. Ergueram, então, um mastodonte emparedado de 21 edificações às margens do Rio Tigre, dentro da tal Zona Verde, e lá criaram um mundo estanque e ficcional.
Idealizado para abrigar até 16 mil ocupantes (entre funcionários diplomáticos, equipe de segurança, administradores e pessoal terceirizado), o projeto previu restaurantes, cinemas, piscinas, campo de beisebol, shopping, escolas, usina elétrica e hidráulica à prova de morteiros e foguetes. Só não previu a marcha da História. Os Estados Unidos deixaram o Iraque em frangalhos, as instalações pantagruélicas não têm um décimo da ocupação imaginada, e até o posto de embaixador continua vago. A ver se as próximas eleições americanas apontarão para uma debandada trumpista.
Fora da bolha, a história é outra. Até outubro do ano passado, Stephen, sua mulher, Katie, e os quatro filhos pequenos moravam numa daquelas deliciosas mansões arborizadas de Arlington, na Virgínia, a não mais de 15 quilômetros da Casa Branca. Ali, a vizinhança democrata lhes pareceu hostil. Surgiram pichações no asfalto contra as mudanças da vida cívica implantadas por Trump. O incômodo da vizinhança com o excesso de agentes e seguranças nas redondezas (Miller é o único funcionário de segundo escalão com direito a guarda-costas do Serviço Secreto) acabou levando o casal a vender a propriedade.
— Éramos ótimos vizinhos, até aumentamos o valor dos terrenos da redondeza — contou Katie Miller no podcast Ruthless. — O lugar deixou de ser seguro para nossos filhos brincarem no gramado de casa.
Mudaram-se para uma instalação militar fortemente protegida, em Washington D.C. Ali, ocupam uma das residências historicamente reservadas a oficiais de alta patente, transformada numa espécie de assentamento Maga. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, o secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, e outros integrantes da bolha Trump também se mudaram para esse Xanadu fortificado, onde se sentem em segurança por viverem intramuros.
— Agora as crianças estão tão felizes, podem brincar e correr em liberdade. Elas adoram ver os soldados, é uma experiência única na vida delas — festejou a senhora Miller.
Logo no início de seu segundo mandato, Trump havia declarado estado de emergência criminal na capital do país. Batizou a ação de “Dia da Libertação” e decretou a federalização da polícia municipal. Designou tropas da Guarda Nacional com fuzis M4 e blindados para erradicar a criminalidade que dizia ver em todas as esquinas da cidade — o contingente chegou a mobilizar 4.600 militares e deve marcar presença em Washington até o fim do mandato. A empreitada — que também conta com agentes do FBI, do ICE e de delegados federais — resultou em mais de 16 mil prisões até agora e trombeteia índices questionáveis de eficácia.
Ainda assim, os Millers, os Hegseths, os Rubios não se sentem seguros, ou não querem ser incomodados, a ponto de conviver com a população local, blindando-se da sociedade que acreditam conhecer e governar. Não é síndrome nova. Ela adquire facetas variadas, mas tem um denominador comum: o medo do conhecimento da realidade. A apoteose dessa síndrome já recebeu atenção neste espaço em 2009, por ocasião da inauguração da nova embaixada americana em Bagdá, capital do Iraque. Os Estados Unidos haviam invadido o país em 2003 sob falso pretexto e não conseguiam mais sair daquela terra islâmica de 48 milhões de árabes (80%) e curdos (20%).
Primeiro, demarcaram uma “Zona Verde” de 10 quilômetros em pleno centro de Bagdá e a transformaram em minicidade estanque e inviolável. Ali funcionavam órgãos do governo e embaixadas, entre outros. Cidadãos iraquianos comuns eram proibidos de acessar ou transitar pelo perímetro. Arame farpado, barreiras de concreto e tanques, revistas físicas minuciosas mesmo para credenciados faziam parte do controle. Mas nem isso bastou para que se sentissem seguros na cidade por eles ocupada. Ergueram, então, um mastodonte emparedado de 21 edificações às margens do Rio Tigre, dentro da tal Zona Verde, e lá criaram um mundo estanque e ficcional.
Idealizado para abrigar até 16 mil ocupantes (entre funcionários diplomáticos, equipe de segurança, administradores e pessoal terceirizado), o projeto previu restaurantes, cinemas, piscinas, campo de beisebol, shopping, escolas, usina elétrica e hidráulica à prova de morteiros e foguetes. Só não previu a marcha da História. Os Estados Unidos deixaram o Iraque em frangalhos, as instalações pantagruélicas não têm um décimo da ocupação imaginada, e até o posto de embaixador continua vago. A ver se as próximas eleições americanas apontarão para uma debandada trumpista.
A luta contra o desmatamento
A queda do desmatamento na Amazônia ao menor número nos 38 anos em que o INPE faz o monitoramento é uma vitória cuja dimensão só se entende através de uma viagem no tempo. Não poderia ser colhida se não houvesse uma decisão do governo seguida zelosamente por todas as equipes dos órgãos públicos envolvidos na missão. O presidente Lula repete o feito dos primeiros dois mandatos em que também derrubou fortemente o desmatamento na Amazônia. Dessa vez, há outra boa notícia a comemorar. O Cerrado, o bioma que vem sendo mais atacado, também teve o seu melhor número.
A Amazônia começou a ser monitorada pelo INPE em 1988, usando os dados coletados pelos satélites que cruzam nossos céus. Era o governo José Sarney, o desmatamento havia aumentado muito e o ambientalista Chico Mendes havia sido assassinado. A resposta do governo foi criar o Ibama, lançar um programa chamado Nossa Natureza e pedir ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para iniciar o monitoramento. Os primeiros movimentos dessa supervisão foram difíceis, quase épicos. A tecnologia na época era rudimentar perto da que temos hoje.
Várias vezes, os desmatadores testaram governos. Os bons governos reagiram defendendo a lei e o meio ambiente. No começo da primeira gestão Fernando Henrique, a destruição da Amazônia atingiu o pior número da história, 29 mil km². A reação de FHC foi aprovar a Lei de Crimes Ambientais e elevar a reserva legal da Amazônia para 80%. A taxa caiu nos anos seguintes, depois voltou a subir. No início do primeiro governo Lula, o desmatamento teve novo pico, o segundo pior da história, 27 mil km². A resposta, comandada pela ministra Marina Silva, foi a criação de um plano que integrava vários ministérios, o PPCDAm. Por anos, a taxa caiu até atingir 4,5 mil km² em 2012. Oscilou e voltou a subir no governo Bolsonaro.
O melhor resumo da política ambiental de Jair Bolsonaro foi dado pelo então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles naquela trágica reunião de abril de 2020. O “vamos passar a boiada” era um crime duplo, porque o contexto era do início da pandemia, o país amedrontado, o governo omisso diante do que seria a maior tragédia sanitária do país com 700 mil mortos. Aquela reunião ministerial deveria ser para organizar a estratégia de enfrentar o vírus, mas não foi este o tema. Bolsonaro tinha uma preocupação: evitar que sua família fosse investigada, especialmente seu filho Flávio. Ele disse que demitiria um ministro se não fosse obedecido. O ministro Sergio Moro saiu denunciando a interferência na Polícia Federal. Hoje ele faz parte do bolsonarismo. O que Salles propôs naquela reunião foi aproveitar “que a atenção da imprensa está voltada exclusiva quase que exclusivamente pro Covid”, para fazer o desmonte da legislação ambiental. Eles realizaram o plano e passaram a boiada. A taxa de desmatamento na Amazônia subiu até 13 mil km² em 2021.
Quando Marina Silva assumiu novamente o Ministério do Meio Ambiente encontrou o próprio órgão devastado. Um sinal pequeno dessa devastação foi vista na secretaria-executiva. A mesa de reunião era tão pequena que João Paulo Capobianco decidiu medir. Tinha 80 centímetros. Dava para quatro cadeiras. Foi preciso consertar o desmonte praticado deliberadamente pelo governo Bolsonaro e trabalhar com muita determinação para chegar ao resultado divulgado na sexta-feira. O desmatamento caiu 71, 2% em quatro anos e atingiu o nível mais baixo da História a 3,3 mil km². Isso torna possível sonhar com o fim do desmatamento até 2030.
As decisões de Brasília, seja no executivo, seja no Congresso, têm consequências concretas na vida do país. São árvores que deixam de ser derrubadas, gases de efeito estufa que deixam de ser emitidos, é o país que fica mais forte para enfrentar a emergência climática.
Em fevereiro de 2023, perguntei a Capobianco, que hoje é o ministro do Meio Ambiente, qual havia sido a diferença entre assumir a pasta, em 2003 e em 2023. Ele disse que foi totalmente diferente. O governo Fernando Henrique deixou tudo preparado. “O secretário anterior me aguardava, a mesa estava coberta de processos, de encaminhamentos, havia trabalho em andamento. Desta vez, não houve transição, ninguém nos esperava, a mesa estava limpa, nada havia”. Em 2023, foi um recomeçar sobre terra arrasada. Por isso, a vitória anunciada na sexta, do menor desmatamento da história, é tão valiosa. Ela mostra que é possível vencer a destruição.
A Amazônia começou a ser monitorada pelo INPE em 1988, usando os dados coletados pelos satélites que cruzam nossos céus. Era o governo José Sarney, o desmatamento havia aumentado muito e o ambientalista Chico Mendes havia sido assassinado. A resposta do governo foi criar o Ibama, lançar um programa chamado Nossa Natureza e pedir ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para iniciar o monitoramento. Os primeiros movimentos dessa supervisão foram difíceis, quase épicos. A tecnologia na época era rudimentar perto da que temos hoje.
Várias vezes, os desmatadores testaram governos. Os bons governos reagiram defendendo a lei e o meio ambiente. No começo da primeira gestão Fernando Henrique, a destruição da Amazônia atingiu o pior número da história, 29 mil km². A reação de FHC foi aprovar a Lei de Crimes Ambientais e elevar a reserva legal da Amazônia para 80%. A taxa caiu nos anos seguintes, depois voltou a subir. No início do primeiro governo Lula, o desmatamento teve novo pico, o segundo pior da história, 27 mil km². A resposta, comandada pela ministra Marina Silva, foi a criação de um plano que integrava vários ministérios, o PPCDAm. Por anos, a taxa caiu até atingir 4,5 mil km² em 2012. Oscilou e voltou a subir no governo Bolsonaro.
O melhor resumo da política ambiental de Jair Bolsonaro foi dado pelo então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles naquela trágica reunião de abril de 2020. O “vamos passar a boiada” era um crime duplo, porque o contexto era do início da pandemia, o país amedrontado, o governo omisso diante do que seria a maior tragédia sanitária do país com 700 mil mortos. Aquela reunião ministerial deveria ser para organizar a estratégia de enfrentar o vírus, mas não foi este o tema. Bolsonaro tinha uma preocupação: evitar que sua família fosse investigada, especialmente seu filho Flávio. Ele disse que demitiria um ministro se não fosse obedecido. O ministro Sergio Moro saiu denunciando a interferência na Polícia Federal. Hoje ele faz parte do bolsonarismo. O que Salles propôs naquela reunião foi aproveitar “que a atenção da imprensa está voltada exclusiva quase que exclusivamente pro Covid”, para fazer o desmonte da legislação ambiental. Eles realizaram o plano e passaram a boiada. A taxa de desmatamento na Amazônia subiu até 13 mil km² em 2021.
Quando Marina Silva assumiu novamente o Ministério do Meio Ambiente encontrou o próprio órgão devastado. Um sinal pequeno dessa devastação foi vista na secretaria-executiva. A mesa de reunião era tão pequena que João Paulo Capobianco decidiu medir. Tinha 80 centímetros. Dava para quatro cadeiras. Foi preciso consertar o desmonte praticado deliberadamente pelo governo Bolsonaro e trabalhar com muita determinação para chegar ao resultado divulgado na sexta-feira. O desmatamento caiu 71, 2% em quatro anos e atingiu o nível mais baixo da História a 3,3 mil km². Isso torna possível sonhar com o fim do desmatamento até 2030.
As decisões de Brasília, seja no executivo, seja no Congresso, têm consequências concretas na vida do país. São árvores que deixam de ser derrubadas, gases de efeito estufa que deixam de ser emitidos, é o país que fica mais forte para enfrentar a emergência climática.
Em fevereiro de 2023, perguntei a Capobianco, que hoje é o ministro do Meio Ambiente, qual havia sido a diferença entre assumir a pasta, em 2003 e em 2023. Ele disse que foi totalmente diferente. O governo Fernando Henrique deixou tudo preparado. “O secretário anterior me aguardava, a mesa estava coberta de processos, de encaminhamentos, havia trabalho em andamento. Desta vez, não houve transição, ninguém nos esperava, a mesa estava limpa, nada havia”. Em 2023, foi um recomeçar sobre terra arrasada. Por isso, a vitória anunciada na sexta, do menor desmatamento da história, é tão valiosa. Ela mostra que é possível vencer a destruição.
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