terça-feira, 6 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 



Ventos de direita anunciam crise

Aconteceu. Independentemente do resultado do segundo turno, o grande fato político é a vitória da direita no Senado, que, desde já, anuncia um ano de crises institucionais com o STF.

Aconteceu, e não creio que se possam culpar apenas os erros de campanha. A performance do governo teve peso. A frente que venceu em 2022 não foi capaz de crescer após as eleições, não soube se expandir para setores ainda não conquistados.


Escrevi alguns artigos mencionando minhas dúvidas aqui e ali. Mas às vezes as críticas são muito mal recebidas, e o velho argumento de que criticar é favorecer o adversário continua sendo dominante.

Para começar, acho que o tratamento judicial dado aos presos do 8 de Janeiro foi rigoroso demais. As sentenças foram muito longas, não houve avaliação individual de culpa.

O bolsonarismo se valeu da ideia de perseguição política e cresceu na condição de vítima. Creio que, em Santa Catarina, num desses discursos de campanha, Lula afirmou ser candidato para manter Bolsonaro na cadeia.

Esses discursos inflamados animam a militância, mas não trazem crescimento na sociedade. Identificar-se tão completamente com as decisões do Supremo não era um bom caminho, mesmo porque, adiante, o STF cairia em desgraça com o caso Master e se transformaria em vilão nacional.

Não pretendo me fixar nesse ponto, mas política de frente é algo distinto do que foi desenvolvido no Brasil. Frente significa trabalho comum e formulação comum. O PT tem uma indiscutível propensão hegemônica. Agrega, distribui cargos, mas quer o monopólio nas questões essenciais, como política externa.

Houve erros de interpretação dos ventos de direita que sopram no mundo. É difícil entendê-los, porque em cada país sopram de um jeito especial. No meu entender, a corrupção tem papel no Brasil. Mas é desconcertante para essa interpretação ver a vitória parcial de Flávio Bolsonaro. Ele tem os mesmos problemas de um político convencional, enriquecendo silenciosamente ao longo de seus mandatos.

O vento que soprou no Senado, de certa forma, atinge a Câmara. No caso específico do Rio de Janeiro, houve muitas baixas entre deputados de esquerda, uma estranha lista dos mais votados e a derrota parcial de quem parecia favorito, Eduardo Paes.

É difícil interpretar esse tsunami depois de um longo fim de semana de trabalho. Precisaremos de mais tempo, flexibilidade e abertura para entender melhor o que se passa no Brasil. Precisamos também de mais tolerância no debate. Não dá para avançar quando se pune o exercício do pensamento com agressões morais.

Detesto enfoques do tipo “bem que avisei”. No meu caso, avisei muito timidamente. Poderia ter feito mais, porque minha vida também estava em jogo. Dediquei anos à legislação ambiental, e ela será a primeira vítima.

Diziam no passado que a esquerda só se une na prisão. Ela tem uma excelente oportunidade de se unir nessa derrota parcial. Os anos que virão, com um Congresso dominado, serão difíceis. Deveríamos superar a arrogância, a lacração e nos tratarmos com a fraternidade dos outros tempos. Sabemos menos que pensamos, podemos menos que imaginamos, não sei mais o que falta para nos aplicarmos uma boa dose de humildade.

A volta a um passado que nunca existiu

Em sessão recente na Academia Brasileira de Letras, meu colega, o escritor João Almino, levantou uma importante questão: a estratégia da extrema direita, que, "sob uma capa superficial de defesa da liberdade, da família, dos costumes, da tradição, da ordem, da religião, da nação, da civilização ou da própria democracia, adota um discurso de regresso ao passado". E que passado é esse? Um que nunca existiu e muito menos foi vivido por aqueles que o defendem.


Um passado não só fictício como perigoso, porque transforma em supostas glórias os crimes que se cometeram para garanti-las e faz com que eles, os crimes, sejam vistos com naturalidade e anseio. Na Europa, isso se manifesta no atual controle pela extrema direita de países como Itália, Suécia, Hungria e Polônia e no crescimento dela na França, Espanha, Áustria e, inacreditavelmente, Alemanha. Que tais países estejam à beira de uma nova onda nazifascista já é suficientemente incompreensível – para que lutaram os avós desse pessoal entre 1932 e 1945? Mas, na Alemanha, é chocante – nenhum outro foi mais algoz e vítima de si mesmo.

Os argumentos dos extremistas europeus são os mesmos que Mussolini e Hitler usaram para se impor: crise econômica, nacionalismo, antiglobalização, xenofobia, pureza racial (luta contra a imigração) e a "volta à verdadeira essência da nação" —como se uma suposta essência fosse possível de determinar.

No Brasil, a receita bolsonarista adota a maioria desses ingredientes, enfatizando o papel da religião, com Jesus Cristo, como diz Almino, "rebaixado a cabo eleitoral". Há também uma nostalgia da ditadura civil-militar – nostalgia que, para existir, precisa negar o que a sustentou por 21 anos: proibição de eleições, empobrecimento político de duas gerações, censura, prisões, tortura, exílio de seus melhores cérebros (de imediato acolhidos pelos EUA e pela Europa) e um falso "milagre econômico".

Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá.

Teje preso!


O país do futuro ficou preso no passado

Miguel Baumgartner

Religião, poder e disputa pelo imaginário nacional

A disputa em torno de símbolos religiosos vai além da fé: em uma sociedade onde religião e vida pública se cruzam, ela também expressa diferentes projetos de nação. Associada à própria identidade brasileira ao longo do século XX, Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular nessa disputa, fazendo com que qualquer controvérsia em torno de sua figura alcance o campo do imaginário nacional.

Esse movimento ocorre em meio à crescente presença de setores evangélicos na política e no debate público. Embora o evangelicalismo seja diverso e a participação religiosa na política não represente, por si só, uma ameaça ao Estado laico, a questão ganha outra dimensão quando determinadas correntes passam a defender a reorganização da sociedade a partir de uma visão religiosa específica. Assim, a controvérsia ultrapassa o campo devocional: o que está em jogo é também a definição simbólica do Brasil, seus valores e os limites da relação entre religião e poder público.

Para compreender esse movimento, é necessário recorrer a um conceito que ganhou espaço no debate sobre a relação contemporânea entre cristianismo e política: a teologia do domínio. Mais do que identificar automaticamente essa corrente com qualquer grupo religioso ou movimento político, interessa compreender suas origens, seus fundamentos e a concepção de sociedade e de poder que ela expressa. É a partir dessa perspectiva que podemos examinar em que medida determinadas ideias sobre a presença do cristianismo na esfera pública ajudam a iluminar as disputas que vêm ocorrendo no Brasil.

Por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderíamos misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço (Michele Bolsonaro)

A Teologia do Domínio emergiu nos Estados Unidos na segunda metade do século XX, inicialmente vinculada ao chamado Christian Reconstructionism e, posteriormente, reelaborada por diferentes correntes do evangelicalismo e do movimento carismático. Seu desenvolvimento ocorreu em meio às profundas transformações sociais e culturais que atravessaram a sociedade norte-americana a partir das décadas de 1960 e 1970, incluindo o avanço da secularização (maior separação entre o Estado e as instituições religiosas), a luta pelos direitos civis, a revolução sexual, o feminismo e a transformação do papel da religião na educação e na vida pública. Em oposição à ideia de que a fé cristã deveria permanecer restrita à esfera privada ou eclesial, essa corrente passou a defender que os cristãos teriam um mandato bíblico para ocupar, influenciar e transformar as principais estruturas da sociedade, como governo, educação, mídia, economia e cultura, segundo princípios considerados derivados da Bíblia.

É nesse mesmo período histórico, embora em contexto geográfico e social completamente distinto, que ganha força na América Latina outra importante corrente cristã: a Teologia da Libertação. Enquanto esta se desenvolveu a partir da realidade de pobreza, desigualdade e exclusão social latino-americana, propondo uma leitura da fé orientada pelo compromisso com os pobres e pela transformação das estruturas de injustiça, a Teologia do Domínio partiu de outra premissa: a necessidade de recuperar a influência cristã sobre as estruturas que organizam a sociedade.

São, portanto, duas respostas teológicas distintas às grandes transformações de seu tempo e duas concepções diferentes sobre o lugar do cristianismo na vida social: uma privilegia a transformação da realidade a partir dos grupos socialmente marginalizados; a outra enfatiza a transformação das estruturas de poder a partir da presença cristã em suas instâncias de autoridade.


Essa perspectiva ajuda a compreender uma mudança importante na relação entre religião e política: a política deixa de ser vista apenas como espaço de representação de interesses religiosos e passa a ser concebida como parte de uma missão espiritual de transformação da sociedade. É nesse deslocamento que a ideia de uma “guerra espiritual” pode adquirir dimensão política: adversários deixam de representar apenas projetos diferentes de sociedade e passam, em determinadas narrativas, a ser identificados com forças que ameaçariam uma determinada ordem moral cristã.

No Brasil, essa linguagem encontrou expressão particularmente visível no campo político recente. Em fevereiro de 2024, durante um ato na Avenida Paulista, a então ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou:

“Por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderíamos misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento da libertação. Eu creio em um Deus todo-poderoso capaz de restaurar e curar nossa nação.”

A fala é reveladora porque apresenta a presença religiosa na política não apenas como uma escolha de participação cidadã, mas como resposta a uma suposta ocupação do espaço público pelo “mal”. Pesquisadores e analistas ouvidos à época interpretaram o discurso como expressão de uma concepção de supremacia cristã e de tensão com a laicidade do Estado.

É importante, contudo, não transformar essa relação em uma equivalência automática: nem todo evangélico, nem todo pentecostal e nem todo político que mobiliza referências cristãs adere à Teologia do Domínio. A questão é identificar quando determinadas ideias, como a necessidade de “ocupar” a política, a concepção de uma batalha entre o bem e o mal e a associação entre a restauração nacional e uma determinada ordem cristã, aproximam o discurso político de uma lógica dominionista.

O ponto crítico, portanto, não está na participação dos religiosos na política, que é legítima em uma democracia pluralista, mas na possibilidade de que uma determinada interpretação religiosa passe a reivindicar autoridade para definir a moral pública, a identidade nacional e os próprios limites de atuação do Estado. É nessa fronteira entre fé, poder e projeto de sociedade que a Teologia do Domínio se torna uma chave de leitura para compreender parte das disputas políticas e culturais que vêm ocorrendo no Brasil.

Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular na história brasileira porque seu significado ultrapassa as fronteiras da devoção católica. Ao longo do século XX, especialmente a partir de sua proclamação oficial como Padroeira do Brasil em 1930, a imagem foi progressivamente incorporada pelo Estado e pelas narrativas oficiais como um dos pilares da construção simbólica da nacionalidade.

A Padroeira passou a representar não apenas um dogma eclesial, mas uma síntese cultural da própria brasilidade, associada ao acolhimento, à coesão social, ao pertencimento coletivo e à ideia de proteção e unidade nacional.

É justamente por carregar essa dimensão simbólica que as controvérsias em torno de sua figura adquirem densidade política. A rejeição ao culto de santos e ao uso de imagens é uma objeção teológica histórica em determinadas tradições protestantes, fundamentada na interpretação do Segundo Mandamento bíblico sobre a proibição da idolatria. No entanto, quando atravessadas pela lógica da Teologia do Domínio, essas divergências doutrinárias mudam de escala: a “idolatria” deixa de ser apenas uma discordância de fé individual e passa a ser apresentada como um obstáculo espiritual que impediria o pleno alinhamento e a restauração da nação.

A disputa também envolve os sentidos sociais atribuídos à própria imagem de Aparecida. Negra e encontrada quebrada nas águas do Rio Paraíba do Sul por pescadores, sua trajetória foi incorporada à tradição da religiosidade popular brasileira e associada, ao longo do tempo, a experiências de proteção, sofrimento e pertencimento de parcelas amplas da população. A imagem tornou-se, assim, parte de uma memória religiosa que não se limita às instituições eclesiais, mas atravessa diferentes grupos sociais e dimensões da experiência brasileira.

É nesse ponto que a disputa pelo símbolo religioso se aproxima da disputa pelo imaginário nacional. De um lado, está uma tradição que reconhece em Aparecida uma expressão histórica da religiosidade popular e da formação cultural brasileira. De outro, determinadas correntes cristãs podem interpretar essa mesma tradição a partir de categorias como idolatria, batalha espiritual e necessidade de restauração moral. Não se trata, portanto, de uma simples oposição entre católicos e evangélicos, mas de diferentes formas de interpretar a relação entre religião, cultura, identidade e poder.

Por isso, a controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida não deve ser compreendida como um episódio isolado. Ela expressa uma disputa mais ampla sobre quem possui autoridade para definir os símbolos, os valores e as referências que representam a nação. Se Aparecida foi historicamente incorporada ao imaginário nacional, contestar seu lugar nesse imaginário significa também disputar o próprio significado de Brasil. A questão deixa de ser apenas quem pode venerar uma santa e passa a envolver uma pergunta mais profunda: quem tem o direito de definir o que é o Brasil?

Ao término desta análise, torna-se evidente que as controvérsias contemporâneas em torno de Nossa Senhora Aparecida dizem muito menos sobre a figura da santa ou sobre dogmas marianos do que sobre quem pretende arrogar para si o direito de definir o que é o Brasil. A Padroeira, enquanto patrimônio cívico, histórico e afetivo, torna-se o terreno onde se confrontam duas visões distintas sobre o país: uma assentada na memória plural, na religiosidade popular e na diversidade cultural; outra pautada pela restauração moral, pela lógica da batalha espiritual e pela ocupação institucional do Estado.

A questão fundamental não é saber se o Brasil deve ou não ser uma sociedade religiosa. A presença da religião na vida pública faz parte de sua própria história, e a participação de pessoas e grupos religiosos na política é legítima em uma democracia. Em uma sociedade plural, nenhum grupo religioso precisa abandonar sua fé para participar da vida pública. Mas nenhum grupo pode transformar sua própria interpretação da fé em sinônimo da identidade nacional.

É exatamente nessa fronteira que o debate sobre a Teologia do Domínio se torna decisivo. A questão não é a existência de convicções religiosas nem sua atuação na política, mas o risco de uma interpretação teológica específica querer definir, sozinha, a moral pública, a identidade nacional e os limites da cidadania. Quando isso acontece, a disputa deixa de ser religiosa e passa a atingir a própria natureza do espaço público.

Nesse sentido, a laicidade do Estado não representa uma barreira à religião, mas uma condição para que diferentes crenças, e também a ausência delas, possam participar da vida pública em condições de igualdade. Preservar essa dimensão plural não significa negar a importância histórica e cultural da religiosidade, significa assegurar que no Brasil as diferentes crenças possam coexistir sem que uma visão teológica específica se imponha como valor universal da brasilidade.

Talvez seja justamente por isso que a disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida seja tão reveladora. A questão não é apenas quem pode venerar uma santa, mas quem tem o poder de dizer quais símbolos, valores e crenças podem falar em nome do Brasil.
Mauricio Alfredo

Congresso Internacional do Medo


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade, "Sentimento do Mundo"

A direita e o futuro do Brasil

Lula ladrão foi um apelido que pegou. Flávio miliciano não, e, se pegou, não causou prejuízos. Quase todas as falsas acusações contra a esquerda são levadas a sério, e todas as verdadeiras acusações contra a direita batem e voltam. O resultado do primeiro turno das eleições mostrou bem isso. Quanto mais provas surgiam do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o Banco Master e sua rede de lavagem de dinheiro, fraudes e falcatruas, mais ele subia nas pesquisas. Os vídeos das festinhas, então, se fossem divulgados, iam alimentar o mito do macho alfa e jamais o do defensor de Deus, Pátria e Família desmascarado.


Parece que esses valores, mesmo que discutíveis, deixaram de ter importância. O mito desfavorável que o PT criou para si e as trapalhadas do STF na fiscalização da Constituição para evitar que alguns de seus membros pudessem ser envolvidos na trama do Master acabaram dando a entender, erradamente, que o Supremo trabalha para o governo do PT e que é “tudo ladrão mesmo”.

O que o governo fez, sobretudo neste último governo de Lula, não foi levado em consideração. A queda do desemprego e da inflação, o aumento da qualidade de vida e dos salários, a melhora do atendimento no SUS e o desempenho do ensino público nem foram considerados e, se foram, também não tiveram importância nem marcaram pontos a favor dos candidatos do governo. E olha que muita gente boa deixou de ser eleita, enquanto outros, sem nenhuma relevância, conseguiram.

Há, no mundo inteiro, uma incontestável guinada à direita que assusta a democracia. Aliás, democracia é um sistema que está saindo de moda. Qualquer valor que envolva a coletividade ou que se baseie no pensamento de vários é desconsiderado. O que importa agora é a rede social, a iniciativa individual, o empreendedorismo que vai do vendedor de salgadinho na praia ao banqueiro que lava o dinheiro, que pode também ajudar o empreendedor mais bem relacionado que faça um negócio em que sobre mais para todos, além dos salgadinhos produzidos. É uma teia que ignora o Estado nesse aspecto, despreza os sindicatos e associações e leva em consideração somente a iniciativa privada. Seja você mesmo e somente você para poder ser agraciado por Deus ou pelo seu esforço pessoal, que será reconhecido. Ignorando as dificuldades sociais e estruturais, cobram de você um sucesso quase impossível, mas que, quando acontece, é supervalorizado.

Assim vivemos essas eleições, com um partido chamado de desonesto, que trabalha pela coletividade, de um lado, e, do outro, um grupo político que ignora, despreza a política, que se diz contra o sistema e que pretende usar os elementos decadentes da democracia para se manter no poder e valorizar o indivíduo, e que atrai muita gente, o suficiente para levá-los ao poder.

Flávio ganhou as eleições sem falar de plano de governo. Os empresários da Faria Lima querem que ele apresente uma proposta. Eles são gananciosos, mas querem profissionalismo. Aquele que o candidato Lula fornecia para eles no seu governo, mas valorizando também o ganho coletivo. Eles preferem o lucro sem ter que abrir mão de nada. Aí entram Flávio, Tarcísio e toda a direita.

Vai ser difícil retomar o rumo que o Brasil seguia, valorizando a política, a cultura, a educação e tudo o mais que faz de um país um lugar melhor para se viver. Se Lula não ganhar no segundo turno e usar sua capacidade política para negociar apoios e acordos, será complicado. Vamos reviver momentos de total descrédito no povo brasileiro, esse mesmo que, pela metade, optou por esta situação, e vamos ter que renovar a energia e a capacidade de luta para voltar a ter esperança no Brasil.

Vitória de Lula é a única possibilidade de conter uma avalanche reacionária

Vocês querem um pouco de paz, assim, na chamada coisa pública? Acho que não terão. Se Lula vencer a eleição — e é claro que pode triunfar —, encontrará o Congresso mais adverso de seus quatro mandatos. Se Flávio Bolsonaro se sagrar vitorioso, aí o grande risco está no delírio da vitória. Com um apoio que pode ser esmagador no Senado e com chance de uma maioria contundente na Câmara, pode ser tomado pelo frenesi do poder absoluto — justamente aquele que só encontra seu limite na lei. Mas Flávio já falou — e seu pai, o Jair, também — que o objetivo mesmo é atropelar o STF, além de controlar todas as instâncias do Estado, inclusive as agências reguladoras. Vencendo o candidato do PL, vamos finalmente conhecer as “mudanças” que a extrema direita quer fazer no Brasil e como os pobres vão encontrar a redenção.

“O Último Dia de Pompeia”, de Karl Bryullov (1799-1852)
 sobre a erupção do Vesúvio no ano 79


Vamos a algumas considerações sobre a disputa eleitoral deste domingo e os cenários possíveis. A extrema direita teve, sim, uma vitória acachapante. A coisa muda um pouco de figura se perder a eleição presidencial, o que obviamente é possível, embora Flávio Bolsonaro, do PL, esteja à frente. No primeiro turno, o presidente Lula, do PT, obteve 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do senador do PL. No dia 25 de outubro, ambos disputam o segundo turno. O resultado surpreendeu Lula e o PT, embora pesquisas tenham captado o movimento em favor do voto útil. Em alguns Estados, o desempenho do atual mandatário ficou bem abaixo do esperado. Qualquer que seja o resultado, a chance de uma crise das boas é imensa se faltar juízo. Os mercados estão animadinhos porque maximizam a importância do “equilíbrio das contas” — se vier — e tendem a ignorar o risco de uma confusão dos diabos com o Judiciário.

É evidente que a campanha de Flávio em favor do voto útil funcionou. Todos os demais candidatos da direita tiveram um desempenho abaixo do que indicavam as pesquisas, ainda que dentro da margem de erro: Augusto Cury (Avante), 2,89%; Renan Santos (Missão), 2,24%; Ronaldo Caiado (PSD), 2,18%; e Romeu Zema (Novo), 0,27%. Esses dados, curiosamente, podem ser um alento para o petista, a ver. A pregação em favor do voto útil foi muito forte — já que o mote era “evitar a vitória de Lula”. Em tese, ao menos, estes que resistiram não migram em massa para o candidato do PL. Mas tudo depende da campanha. Vamos ver.

A vitória mais contundente da extrema direita se deu no Senado. O PL elegeu 19 senadores e passará a contar com uma bancada de 28; o PP salta de 3 para 6; o extremista Novo, que hoje não tem parlamentar na Casa, passará a contar com 3; o União Brasil cresce de 2 para 5. Até aqui, estamos falando já de 42 senadores. Com os 6 do Republicanos, chega-se a 48. Juntando-se 2 do Podemos, atinge-se a marca de 50. O MDB passará a ter uma representação de 8, e certamente contam-se bolsonaristas entre eles. É certo que o PL tentará fazer a Presidência da Casa — e, nesse caso, o senador Rogério Marinho (RN) é um candidato, vamos dizer, natural. Ainda que Flávio perca, a agenda de vingança contra o Supremo vira item obrigatório da pauta dos reacionários. Se vão ou não levar a efeito, é o que se vai ver. Nota: o PSD, que tem uma agenda de contenção de extremismos sob a batuta de Gilberto Kassab, é o grande derrotado na Casa: cai dos atuais 14 senadores para 5 — elegeu apenas 2. O PT conseguiu eleger 6 e conserva os mesmos 9 que já tinha. O PSB elegeu 3, mas cai de 7 para 4.

Os progressistas perderam espaço: a Federação PT-PCdoB-PV até subiu de 82 para 88 deputados, mas o PL salto de 98 para 121 . O PSB passou de 17 para 15, e o PDT caiu de 10 para 6. O União Brasil, que até ensaia alguma moderação às vezes, perdeu 6: de 52 para 46; o PP, de 46 para 41, e o Republicanos, de Motta, foi de 42 para 41. O Novo, que estava com 5 deputados e passa a ter 10. É claro que o bolsonarismo tentará ter o comando da Câmara também. Quando menos, num eventual acordo com Hugo Motta, o que hoje parece improvável, tentaria lhe impor uma agenda reacionária.

Depois da divulgação de resultados, Flávio não fez exatamente o discurso dos que esperam muito sangue. Não repetiu, por exemplo, a promessa de que vai subir a rampa em companhia do pai, Jair, que está em prisão domiciliar. Disse que o resultado é o prenúncio do que chamou de “fim da era PT” e fez um resumo bem perturbado sobre o que é o governo Lula. O Supremo não ficou de fora, mas se limitou a falar sobre as quatro indicações que há por fazer no próximo mandato. Na campanha, manifestou a intenção de se livrar de todos os magistrados indicados pelo PT — além, claro, de alvejar Alexandre de Moraes. Certamente espera deixar isso com o Senado. Reafirmou seu compromisso de encaminhar o fim da reeleição para presidente.

Lula também discursou ontem. Admitiu que o desempenho ficou aquém de suas expectativas e brincou que o povo gosta que ele dispute o segundo turno. Criticou o que chamou de “biografia tenebrosa” do adversário, acusando ligação com as milícias e com o crime organizado. Pregou equilíbrio fiscal, mas disse que o ajuste não será feito para “prejudicar as pessoas mais pobres do país”. Dadas as mais de 33 milhões de abstenções, o presidente fez uma convocação para que as pessoas compareçam às urnas. E disse que “o jogo vai começar de verdade”.

Já assistimos a muitas viradas eleitorais em Estados e cidades em que há segundo turno — isto é, quem larga atrás acaba vencendo —, mas isso nunca aconteceu numa disputa presidencial. Lula, de todo modo, é o homem dos ineditismos — ninguém antes se elegeu três vezes presidente da República. Se conseguir o quarto mandato, marcará dois ineditismos: além de chefiar o Executivo pela quarta vez, ultrapassar quem larga na frente. As pesquisas não tardarão. No sábado, quatro institutos divulgaram números de uma simulação da etapa final. Todas apontam empate técnico, e três delas com o petista numericamente à frente: Atlas/Bloomberg: 50,1% a 49,9%, com margem de erro de um ponto; CNT/MDA: 47,3% a 43,1%, com margem de 2,2 pontos; Datafolha: 47% a 46%, com dois de oscilação possível. A Quaest apontou Flávio com 44% e Lula com 42%, também com dois pontos a mais ou a menos.

A direita também ganhou de lavada nos governos dos Estados. Vinte deles elegeram ou reelegeram em primeiro turno o chefe dos Executivos estaduais. O PL, que tem apenas um mandatário hoje, já elegeu cinco: Sergio Moro (PR); Luciano Zucco (RS); Marcos Rogério (RO); Arthur Henrique (RR) e Jorginho Mello (SC). Entre os outros 15, há pelo menos outros cinco bolsonaristas, a começar por Tarcísio de Freitas (Republicanos), que teve uma vitória maiúscula em São Paulo. O PL ainda disputa o governo do Rio: Douglas Ruas (49,27%) enfrenta Eduardo Paes, do PSD, que ficou com 42,76%. No DF, Celina Leão, do PP (49,93%), entra como franca favorita contra Leandro Grass, do PT (34,47%). O PT é competitivo no Rio Grande do Norte com Carlos Eduardo Xavier (35,16%), que enfrenta Allyson Bezerra, do União (36,94%). Há apenas três governadores progressistas efetivamente eleitos: CE, PI e BA. Pode haver um quarto no Rio Grande do Norte. No Amazonas, Omar Aziz, do PSD, alinhado com Lula, entra como favorito.

Voltemos ao ponto: alguma chance de sossego? Depende. Se Lula vencer, parece certo que os bolsonaristas tentarão sabotar o governo e só a lei poderá lhes impor algum limite. Se Flávio chegar à Presidência, aí o objetivo já declarado pelo pai e pelo filho é tomar de assalto também a lei. Viveremos dias agitados e creio que não muito interessantes.

PS: Os dados da composição da Cãmara foram alterados com dados oficiais. Antes, eram projeções apenas.

O tsunami do pior da direita que varreu o Brasil

Ela pode até não saber, mas metade dos brasileiros que votaram ontem para presidente da República se sente representada por um governo extremista, fundamentalista e fascista. Apenas isso.

Nas democracias, perdem-se eleições. Numa eleição, o que não se pode perder é a democracia. Se tal coisa não faz diferença para metade dos brasileiros, sinto muito, mas para a outra metade faz..



Não se pode dizer democrata quem chama golpe militar de revolução e tentativa de golpe de baderna. Democrata não é quem assiste calado a atos que desqualificam o processo eleitoral.

Tampouco é honesto quem se apropria de dinheiro público destinado ao pagamento de servidores, compra imóveis abaixo dos preços cobrados pelo mercado e aceita doações para equipá-los.

Como confiar em quem é ligado ao crime organizado, condecora assassinos de aluguel e defende o direito de a polícia matar a rodo bandidos ou simples suspeitos de bandidagem?

Pode ser tudo, menos patriota, quem bate à porta de governos estrangeiros e hipoteca os interesses do seu próprio país em troca de ajuda para vencer uma eleição. Na verdade, é um entreguista.

Investigado por evasão de divisas, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Flávio Bolsonaro, até que prove sua inocência, não merece ocupar nenhum cargo público.

O tsunami que varreu o Brasil, produzindo muitos estragos ao final do primeiro turno das eleições gerais deste ano, não foi provocado pela direita, mas pelo que há de pior na direita.

Flávio atraiu 47,03% dos votos válidos contra os 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual. Sua vantagem crescerá quando órfãos dos demais candidatos migrarem para seu lado.

A política é regida por leis informais. Uma delas: candidato a presidente que vai para o segundo turno atrás do vencedor do primeiro está condenado à derrota. Esse é o maior desafio de Lula.

Mas leis informais existem para ser quebradas. Aconteceu em 2022: presidente candidato à reeleição nunca perde. Jair Bolsonaro perdeu no segundo turno por 1,80 ponto percentual.

Se arrependimento matasse, Jair estaria morto. Tivesse sido ele o candidato no lugar do filho, a essa altura o morto seria Lula. O DNA de golpista de Bolsonaro prevaleceu sobre a astúcia do político.