domingo, 4 de outubro de 2026
Que Deus? Que pátria? Que família?
A controvérsia em torno da patrona, da imagem negra recolhida de um rio por pescadores, não deixou de produzir um milagre. O esforço do chamado jornalismo profissional em provar que alguns fatos compunham uma fake news, a ponto de colocar em dúvida o trabalho de uma das mais competentes jornalistas, Maria Cristina Fernandes, se assemelha a um épico bíblico. A água se converteu em vinho.
Lembremos os fatos: a jornalista apenas, e tão somente, informou o incômodo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com uma ala evangélica ligada umbilicalmente ao senador que defende o “rebaixamento” da santa. Como se sabe, os protestantes sempre criticaram a adoração de imagens. A preocupação da CNBB tem razão de ser. Desde 2018, aponta um relatório da Comissão de Justiça e Paz, foram registrados 58 episódios de ataques a católicos. Victório Galli, ex-deputado e ex-assessor da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro, propôs um projeto, rejeitado na Câmara, para mudar o status de Nossa Senhora para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O pastor JB Carvalho, responsável pelo batismo de Flávio Bolsonaro, considera inconstitucional o título da santa estabelecido por uma lei de 1980. E o presidenciável afirmou que, na eventualidade de ser eleito, decretará, como primeiro ato, “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” (supomos que o segundo será assinar a anistia ao pai, condenado por tentativa de golpe).
Em geral, onde há fumaça há fogo, mas os meios de comunicação, em uma cruzada, se empenharam em desqualificar esse conjunto de evidências por meio de editoriais, artigos e “reportagens”. Faltam registros de veemência semelhante quando mentiras comprovadas – e não análises plausíveis − contra candidatos progressistas, de qualquer época, influíram na dinâmica eleitoral. Mais. Não foram raros os momentos em que a mídia foi o centro irradiador ou a caixa de ressonância da desinformação. Mas nunca é tarde para a remissão dos pecados.
Apesar da condescendência, Flávio Bolsonaro não passa de uma caricatura. O carola no expediente comercial vira um endiabrado entre quatro paredes, conforme as revelações de Alexandre Santini, seu ex-sócio na fantástica loja de chocolates, a mais lucrativa franquia da Kopenhagen, especializada em movimentar dinheiro vivo. Diante das “encomendas” – e nem vieram à tona detalhes das festas de Daniel Vorcaro em Trancoso −, pode-se dizer que o presidenciável tem um conceito amplo de família. Sempre cabe mais uma.
O filho 01 encarna, por fim, um paradoxo consolidado sob a égide do bolsonarismo: o patriota entreguista. Flávio não concorre ao cargo de presidente do Brasil. Sua ambição, captada pela foto da visita à Casa Branca, é arrumar um bico de mordomo de Trump.
Neste domingo, os eleitores terão a chance de afastar a tentação.
As famílias estão cansadas
As famílias estão cansadas de correr do emprego para ir buscar os filhos à escola e de regressar a casa numa nova corrida para fazer o jantar.
As famílias estão cansadas da subida dos preços dos legumes, da fruta, da carne, do peixe… de ter de repensar diariamente as refeições com tostões na mão.
As famílias estão cansadas da instabilidade dos preços dos combustíveis, de ter de decidir se abastecem esta semana, se esperam pela próxima ou se colocam apenas os habituais vinte euros.
As famílias estão cansadas de ter de reunir adereços de outono, camisolas de Natal, abóboras, camisolas lilás e tantas outras exigências para levar para a escola.
As famílias estão cansadas de fazer contas para perceber se sobra mês no fim do salário ou salário no fim do mês.
As famílias estão cansadas de ter de perceber de taxas de juro, Euribor, spreads, indexantes, taxa fixa e taxa variável.
As famílias estão cansadas de ouvir que têm de renegociar contratos, rever mensalidades, recalcular despesas e analisar taxas de esforço.
As famílias estão cansadas de ter de ser especialistas em finanças, economia, geopolítica, saúde, nutrição, ambiente, ecologia, agricultura biológica e tecnologia.
As famílias estão cansadas de apoios a que não conseguem aceder, porque são desenhados para que apenas os especialistas os compreendam.
As famílias estão cansadas de ter de compreender greves que as deixam sem transportes, enquanto os trabalhadores lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de ter de compreender consultas desmarcadas e urgências fechadas, enquanto os médicos lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de ter de compreender greves que deixam os filhos sem aulas e sem onde ficar, enquanto os professores lutam pelos seus direitos laborais.
As famílias estão cansadas de viver em casas que não respondem às suas necessidades, enquanto outros especulam no setor imobiliário.
As famílias estão cansadas de sobreviver nos intervalos da jornada laboral. O que sobra do dia é pouco tempo. E nesse pouco tempo pede-se que se cultivem, que estejam presentes, que brinquem com qualidade, que se informem, que corram supermercados à procura dos preços mais baixos, que negoceiem com bancos, elétricas e telecomunicações, que cozinhem refeições saudáveis, que vejam séries e que façam exercício.
Pede-se ainda às famílias cansadas que não recorram à escola, porque a escola está sobrecarregada. Que não recorram ao SNS, porque também esse está sobrecarregado.
E, se possível, pede-se às famílias cansadas que não incomodem, porque assim torna-se difícil governar.
Em nome de Deus
Mas seus conceitos sobreviveram por mais de vinte séculos com ampla discussão através de entidades religiosas. A descoberta do Brasil foi obra da Igreja Católica. É uma história bonita e complicada. A ordem dos Templários, que protegia os peregrinos no caminho de Jerusalém, ganhou muito dinheiro com o sistema financeiro que criou. Ela financiava as excursões e protegia seus integrantes. A Ordem ficou rica. Tão rica, que um dos principais devedores foi o Rei de França, Filipe IV. Diante da dívida, o soberano francês escolheu o caminho mais curto: ao invés de pagar, extinguiu a ordem, torturou e executou seus dirigentes. O chefe supremo da Ordem, Jacques de Molay, morreu na fogueira. Mas o dinheiro dos templários sumiu.
O dinheiro apareceu, séculos depois, em Portugal, na Ordem dos Cavaleiros de Cristo, que tinha as características militares dos Templários. O Infante D. Henrique, português que organizou as grandes navegações, vivia como um templário: asceta e isolado. Suas caravelas, inclusive as da frota de Pedro Álvares Cabral que aportou na Bahia, ostentavam a famosa Cruz de Cristo, símbolo dos Templários. E os primeiros europeus brancos que chegaram ao novo continente eram presidiários ou judeus convertidos, ou seja, grupo de cristãos novos. A colonização do Brasil foi realizada, basicamente, por jesuítas que se espalharam de norte a sul. Portugueses faziam negócios. Os padres catequizavam índios e negros.
Até hoje existem as festas do Divino no interior do Brasil. Elas representam a vitória dos cristãos contra os mouros, ou seja, árabes, que foram expulsos da península ibérica. O Brasil é filho dos rigores da Igreja Católica. A Inquisição enviou quatro visitações para punir infiéis na colônia tropical. As punições ocorreram em Lisboa, onde muita gente morreu na fogueira. Só para efeito de comparação, a colonização dos Estados Unidos, por pioneiros ingleses, é fenômeno reverso. O país é consequência histórica da contrarreforma, ou seja do protestantismo de Martinho Lutero. Os pioneiros fugiram dos rigores da igreja católica na Europa, o que favoreceu o surgimento de várias denominações religiosas na nação do norte.
No século 18, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, descobriu que para bem governar Portugal era necessário evitar os religiosos. Expulsou os jesuítas de todas as colônias e extinguiu a ordem religiosa, que só ressurgiu muito tempo depois. Ele dividiu o Brasil em duas colônias. A do Grão Pará e Maranhão (onde ele colocou seu irmão para governar) falava diretamente com Lisboa. A colônia do Brasil, do Nordeste para o Sul, se relacionava através da capital, Salvador. O conflito Igreja versus Estado é recorrente na história do Brasil. No Brasil independente, ao tempo do Império, o governo brasileiro era formalmente católico, mas permitia que outras religiões existissem desde que em prédios discretos, sem qualquer publicidade.
Hoje os adeptos das religiões pentecostais clamam pelo segundo advento do Senhor Jesus nas mesmas áreas que ele frequentou séculos atrás. Isto explica a referência a Israel nos comícios políticos no Brasil. Curiosamente, o estado de Israel não guarda nenhuma semelhança com o que os religiosos professam. Lá o aborto é permitido, a mulher é livre e serve no Exército, em todas as funções disponíveis. A crise em torno da Nossa Senhora, padroeira do. Brasil, que, supostamente, perderia este posto, só se explica pelas profundas raízes religiosas do brasileiro. Um pastor, tempos atrás, chutou a imagem da Santa. Esta agressão ficou gravada no inconsciente nacional. A menção de que a Santa perderia sua qualificação fez com que Lula ganhasse, com incrível rapidez, cinco pontos no tracking de sua campanha, de um dia para outro.
Nenhum dos candidatos apresentou projetos relevantes para o país. As denúncias lançadas contra o candidato de oposição, como farras com prostitutas, amizade com milicianos e lavagem de dinheiro, não incomodaram tanto quanto acusação de fundo religioso. Até a poderosa Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – divulgou nota oficial condenando a mistura de política e religião. O Brasil da República é laico, mas o brasileiro é religioso, graças a Deus. Bom voto.
André Gustavo Stumpf
Reforma tributária, para quem
Quando se falava de reforma tributária, partia-se da injusta política tributária existente, que faz com que os pobres paguem, proporcionalmente, mais impostos que os ricos. Um objetivo central das propostas de reforma tributária era, assim, reverter essa situação, o que sempre significava fazer com que aumentassem os impostos pagos pelos ricos e diminuíssem os pagos pelos pobres.
Na própria afirmação, tão reiterada por Lula, de que é necessário colocar os pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda, está implícita uma crítica à política tributária existente.
Até que se criou um consenso geral a favor da reforma tributária. E o governo Lula finalmente realizou, dirigido por Fernando Haddad, uma reforma tributária em que os ricos pagam mais e a grande maioria da população deixa de pagar, até porque salário não é renda.
Mas esse projeto, embora aprovado pela grande maioria da população e dos parlamentares, não contenta a todos. Segue a cantilena de que se pagariam muitos impostos no Brasil, comparado com outros países.
Se contentasse a todos, não estaria cumprindo com seu objetivo. Porque a mídia tem como um de seus temas reiterados a crítica ao Estado, que gastaria muito, que não cortaria os gastos que deveria cortar, que não se preocuparia com os riscos da inflação.
Haveria, além disso, uma anarquia tributária, que haveria de simplificar. Costuma-se afirmar que se pagariam muitos impostos; todos costumam fazer essa afirmação. Como se todos realmente pagassem mais. Como se não houvesse uma enorme sonegação da parte dos ricos. Como se não houvesse paraísos fiscais, aos quais apelam grandes empresas para não pagar impostos no país.
O que unificaria a todos seria a vontade de pagar menos impostos, ricos e pobres. Demandam-se maiores ações do Estado, mas se quer diminuir a arrecadação estatal. A visão das elites é a do Estado mínimo. Demandar mais isenções e pagar menos impostos.
Como é característico do neoliberalismo, degrada-se a imagem do Estado, que arrecadaria demais, que gastaria demais e mal, que tributaria demais, que gastaria muito com pagamento a servidores, que despenderia excessivos recursos com políticas sociais. Uma reforma tributária que se orientasse por essas visões teria piorado ainda mais o sistema tributário, em que já agora os pobres pagam relativamente mais do que os ricos.
Não se corrigiria, em nada, o já injusto sistema tributário existente. Os ricos pagariam menos ainda, enquanto os pobres seguiriam pagando injustamente por serviços precários.
Pela concepção predominante na mídia e em grande parte do Congresso, deveria ter sido aprovada uma reforma tributária que promovesse o Estado mínimo e a centralidade do mercado. Que enfraquecesse, ao invés de fortalecer, o Estado. Em que os ricos seriam menos tributados e não sofreriam políticas que combatam a sonegação e os paraísos fiscais.
Em suma, pelo clima criado pela mídia, deveria ter sido uma contrarreforma tributária, na contramão da difícil reconstrução da democracia no Brasil. Em que a definição de quem paga impostos e para onde vão é essencial para que verdadeiramente tenhamos uma democracia no país.
É outra das realizações de Lula na Presidência do país, que ficam para sempre, mas que seguem promovendo o descontentamento das elites, que detestam pagar impostos, mesmo se suas rendas sejam nababescas. Também por isso se opõem à reeleição de Lula, enquanto os que deixaram de pagar impostos estão a favor. Quem ganha mais paga mais; quem ganha pouco deixa de pagar. Este é o princípio de uma reforma tributária democrática.
Decisão será fácil porque eleitor sabe onde o calo aperta
A esta altura, resta pouco a dizer sobre a corrida eleitoral, entre os Poderes, acidentada; entre os eleitores, entediante. O que faltou em transparência e aprofundamento de propostas sobrou em protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF), ora por atos dos próprios ministros, ora pela judicialização recorrente por candidatos e legendas. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, em artigo aqui no GLOBO, classificou o pleito deste 2026 como a eleição do cansaço. É sentimento expresso tanto no excesso de trabalho, dívida, perrengue, frustração quanto na escassez de encantamento pela política e, pior, pela democracia.
Não parecia que, quatro anos depois, trama golpista de Jair Bolsonaro exposta, investigada e julgada, estaríamos novamente diante do risco de ruptura. Estamos. Míriam Leitão tem alertado em voz e texto o tanto que a defesa do regime anda negligenciada, numa corrida eleitoral com bolsonarismo competitivo e interferência estrangeira à espreita. Sob influência de Eduardo Bolsonaro e aliados lá radicados há mais de ano, os Estados Unidos têm atuado pela capitulação do Brasil à cartilha trumpista. Além de duas rodadas de tarifaço sobre exportações, houve sanção a autoridades; classificação de PCC e CV como organizações terroristas; pressão sobre a Justiça e o processo eleitoral; duas dezenas de inaceitáveis exigências comerciais; restrição de visto à embaixadora do Brasil em Washington; e até investida contra o Pix.
É verdade que faltou debate no período oficial da campanha, a partir de meados de agosto. Nas últimas semanas, os candidatos ocuparam-se de ataques mútuos e ao STF; aprofundaram pouco ou nada os planos de governo; abusaram de frases feitas e ideias rasas. Mas, por aí, se diz que mal uma eleição termina, outra começa. Pode ser que a disputa presidencial, de tão antecipada, tenha deixado tempo para os eleitores pensarem. Quem sabe o desinteresse de agora não seja fruto da reflexão exaustiva de antes? Há exemplos aos montes. Fico com um, as bets.
Nesta semana, tanto Quaest quanto Datafolha trouxeram dados robustos sobre a restrição total às apostas on-line, imposta por Medida Provisória assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, há uma semana. Difícil imaginar que, em poucos dias, tantos brasileiros tenham se posto contra as bets, mesmo com times popularíssimos, Flamengo à frente, assumindo em praça pública a própria ludopatia financeira. Seria o fim do futebol se perdessem os patrocínios. Ao Datafolha, 78% se declararam a favor da proibição; à Quaest, 62%. Nas duas pesquisas, os resultados foram assemelhados em todos os grupos analisados: gênero, faixa etária, religião, região, escolaridade, renda. Brasileiras e brasileiros, analisou Felipe Nunes, diretor da Quaest, não apenas já tinham opinião formada, mas deram sinais claros de que enxergar uma medida como certa não tem relação direta com o voto. Assim, é possível ser contra bets e não escolher o candidato a presidente que canetou a decisão.
À luz do caminhão de conversas e estudos e relatórios e vivências, não parece errado inferir que os eleitores chegam, nesta véspera do primeiro turno de uma campanha aquém do desejável, com opinião formada sobre tudo. Ou quase tudo. O brasileiro experimentou, em anos recentes, vendaval, chuvarada, calor extremo. Sabe, portanto, que a emergência climática é real. Tem consciência de que o desmatamento, se agravado, pode levar a Amazônia ao ponto de não retorno. Passa tempo demais em meios de transporte caros e de má qualidade. Vive em condições habitacionais precárias, paga caro por direitos tornados serviços (água, luz, internet, gás). Não há quem não vá ao mercado ou à feira.
Mulheres brasileiras sabem do perigo da multiplicação das armas de fogo em mãos civis. Mães já se deram conta dos riscos do território livre das redes sociais para crianças e adolescentes. Favelados perceberam que a política de confrontos nos territórios ceifa vidas, mas não reduz o crime. Nos lares de baixa renda, está claro que é justa a correção monetária para recompor o poder de compra do Bolsa Família, tal como a classe média aprovou a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Trabalhadores, mesmo os autônomos, empreendedores por conta própria, compreendem que a jornada excessiva, sem folga, sequestra tempo da família, do descanso, do lazer. Católicos e macumbeiros aprenderam a reagir à intolerância de líderes evangélicos inimigos do Estado laico.
Todo mundo sabe onde o calo dói. Já deu para distinguir barbárie e civilização; necropolítica e bem viver; mentira e verdade; subordinação ou altivez. O Brasil vai às urnas escolher de que lado ficará. Bom voto.
O risco evangélico
Duas vertentes andam juntas na promoção desses conflitos. Uma é a do sionismo cristão, que defende o apoio incondicional ao Estado de Israel, incluindo o genocídio promovido na Faixa de Gaza. É movida por interpretações escatológicas do fim dos tempos. A recriação do Estado de Israel e as guerras que ele promove seriam cumprimentos de profecias bíblicas preparadoras da segunda vinda do Cristo à Terra. Em nome dessa loucura validam guerras, massacres e genocídios. O secretário da Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, justifica a guerra contra o Irã em nome dessa insanidade.
Michelle Bolsonaro é a expoente evangélica ligada ao sionismo cristão, com formação teológica nessa corrente. Em determinados vídeos, exibe a estrela de Davi e usa camisetas e bandeiras de Israel. Não é a única. O governador Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e outros políticos bolsonaristas também exibiram essas indumentárias, num desprezo absoluto pelos milhares de crianças, mulheres e inocentes massacrados e despedaçados em Gaza.
Michelle, com frequência, usa termos que soam como ameaças ao Estado laico. Defende a interferência religiosa na política, apela para a expressão “exército de Deus” para se referir aos seus partidários e declara que “o Brasil é do Senhor”. Flávio Bolsonaro declarou em vídeo que, se eleito, decretará que “o Brasil pertence a Nosso Senhor Jesus Cristo”. Falsos profetas se arvoram de uma autoridade que não têm. Em nome de Jesus defendem teses e atitudes anticristãs. Michelle declara que André Mendonça “é escolhido e ungido do Senhor”. Ungido para ser parcial no caso Master, visando proteger crimes de bolsonaristas e para censurar postagens na internet para favorecer Flávio Bolsonaro, um mentiroso contumaz e acusado de vários crimes de corrupção.
A segunda vertente é a da guerra espiritual. Trata-se de uma crença evangélica, emanada dos Estados Unidos, principalmente pelo teólogo Peter Wagner, que sustenta a existência de um conflito invisível e contínuo entre o Reino de Deus e as forças do mal, representadas por Satanás e os demônios. Essa guerra teria três dimensões. Pessoal, que se manifesta na luta contra as próprias tentações. Interpessoal, com orações para expulsar os demônios de indivíduos. E Estratégica ou Territorial, crença de que regiões geográficas, instituições, imagens e autoridades abrigam as potestades do mal.
A maior parte dos evangélicos defende que a guerra é puramente espiritual, travada por orações, jejuns e clamores. Outros grupos pregam, no entanto, a intolerância religiosa e procuram inflamar fiéis para atitudes violentas contra outras religiões, autoridades e instituições. Agridem indivíduos, destroem imagens e disseminam o ódio. Afirmam que o mal está oculto em determinados símbolos, como imagens de Nossa Senhora Aparecida ou a Virgem do Rosário, na cidade de Rosário, na Argentina.
No fim de 2022 e início de 2023, pastores partidários da guerra espiritual incitaram os acampamentos em frente a quartéis do Exército e defenderam a violência armada para impedir a posse de Lula. Na Marcha para Jesus de 2026, Flávio Bolsonaro declarou que o Brasil vive uma guerra espiritual e, com afirmações belicistas, afirmou que o mal será expulso do governo. É escandaloso e hipócrita que um político investigado e acusado de vários crimes fale como se tivesse um mandato divino para empunhar o bem na guerra contra o mal.
Essa retórica violenta e a manipulação da fé por parte de pastores e políticos precisam ser repudiadas, para evitar que conflitos religiosos e políticos descambem para a violência. Embora a maioria esmagadora dos evangélicos seja tolerante e respeitadora do pluralismo religioso, o fato é que crescem os grupos intolerantes que insuflam o ódio, a manipulação política e tendem à violência.
Os evangélicos não podem se considerar melhores do que os integrantes de outras religiões, pois esse é o princípio da intolerância. Eles não são exclusivistas da doutrina cristã. Não são portadores da verdade única nem exclusivistas da salvação. Gente boa e má existe em todas as religiões.
Levantamento da Plataforma de Mídia Ploc Social indica que, entre janeiro e meados de julho de 2026, foram registrados 158 casos envolvendo pastores evangélicos em crimes. Dados consolidados do Disque 100 mostram que, nos últimos três anos, foram registrados 167 casos de denúncias de violência sexual de líderes religiosos. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 43% das mulheres evangélicas sofreram violência de gênero ou doméstica.
As principais categorias de crimes e escândalos que envolvem líderes evangélicos são de violência sexual, incluindo estupros de vulneráveis, abuso de poder religioso, estelionato e crimes financeiros, corrupção política e tráfico de influência. Crimes desse tipo não são exclusividade de evangélicos. Mas líderes evangélicos se destacam, entre religiosos, na prática deles.