Em artigo-ensaio recente (“O golpe continuado”), o professor e historiador Lincoln de Abreu Penna estuda como um só fenômeno a tragédia que se abateu sobre nós em 1º de abril de 1964 e que, pelos seus efeitos, todos danosos, chega até nossos dias, justificando as apreensões que medram em setores significativos do pensamento democrático brasileiro.
Lincoln ressalta que o golpe militar “não foi [só] contra um governo constitucional, eleito pelo povo, mas contra o Brasil como nação que aos trancos e barrancos se estruturava para promover o arranco desenvolvimentista conjugado com as Reformas de Base”. Foi tudo isso, mas foi ainda mais: para além dessa tragédia, fez por terra um processo democrático então caracterizado pela crescente ascensão das forças populares e pelo esforço coletivo para dar fim à miséria.
É preciso lembrar e relembrar a herança de 21 anos de uma ditadura luciferina, que não só desterrou as liberdades civis e políticas, não só fechou o Congresso e aviltou o Poder Judiciário, como impôs o terror, tanto o terror cultural a que se referia Alceu Amoroso Lima quanto o terror das prisões, da tortura e dos assassinatos ainda sem conta fechada.
Pois foi defendendo esse legado de barbárie que o bolsonarismo chegou à Presidência da República e, como discípulo de régulos, governou o país e liderou a intentona de janeiro de 2023, mediante a qual, usurpando o mandato do presidente eleito, pretendia retornar ao poder do qual havia sido alijado pela soberania popular.
Independentemente de seus muitos erros e de seus muitos defeitos, ditados pela exorbitância de poderes e, lamentavelmente, pela sua composição atual, o STF desnudou o golpe; não se limitou a identificar os vândalos da Praça dos Três Poderes; indicou e puniu seus agentes, criminosos políticos que atentaram contra o Estado, e reles criminosos comuns. Foi quando esteve à altura dos desafios da história.
Demos, com seu concurso, uma lição ao mundo, ilustrando com coragem como as instituições podem se defender e defender o país.
Pois o bolsonarismo promete anistia para a malta de meliantes que, sob a liderança do capitão e o concurso de meia dúzia ou mais de generais e assemelhados, lançou-se contra as instituições republicanas.
Uma vez mais estamos sob graves riscos de nova fratura democrática e, na sua esteira, ameaça-nos um desastroso retrocesso histórico que promete levar de roldão as conquistas amealhadas pelo esforço nacional nesses 41 anos de vigência da Constituição de 1985. Desta feita, ao contrário de 1964, o mostrengo pode vir das urnas. E, uma vez mais, aponta contra o futuro do país, daquele país desenvolvido e soberano com o qual já chegamos a sonhar.
Ou seja, estamos sujeitos a um golpe de Estado que se pode processar segundo as regras da ordem constitucional, como os regimes fascistas e nazistas (que infestaram a Europa no século passado; alçando-se ao poder pela via eleitoral, logo implantaram longas ditaduras e ameaçaram a humanidade com a Segunda Guerra Mundial. E estão de novo na Itália, com a primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido Irmãos da Itália (FdI), e na Alemanha, com o sucesso, em eleições provinciais, do neofascista Alternativa para a Alemanha.
A extrema-direita nativa, destoando de suas matrizes europeias, é, ainda, desavergonhadamente entreguista. Não cora diante do trumpismo; mais do que isso, goza com o sonho de tornar o Brasil mais uma estrela da bandeira norte-americana, um grande protetorado no quintal do imperialismo. E não disfarça. Sem rebuços, um dos Bolsonaro transferiu-se de armas e bagagem para os subúrbios da Casa Branca, onde, áulico dos asseclas de Trump, forceja por conspirar contra os interesses de nosso país.
O bolsonarismo já deu provas concretas de seu desapreço pela democracia. Está bem viva a tentativa de golpe de janeiro de 2023.
O golpe de Estado não requer, necessariamente, a intervenção armada e pode ser operado tanto por dentro do governo (Getúlio Vargas, em 1937, rasgando a Constituição de 1934 e implantando o Estado Novo) quanto mesmo preservando a ordem constitucional. Neste caso, é exemplar o golpe da implantação do parlamentarismo em 1961, preço cobrado pelos militares para permitir a posse de João Goulart em face da renúncia de Jânio Quadros, por seu turno, peça de frustrada tentativa de autogolpe.
Nesta espécie, a história republicana está repleta de exemplos e consagra a expressão “golpe permanente”, como transformação continuada do regime a partir de dentro, iniciada em 1964 e jamais concluída, trazendo à baila os tempos recentes que vamos considerar a partir do golpe de Estado parlamentar que, sem ferir o rito constitucional, decretou a deposição da presidente Dilma Rousseff, abrindo espaço para a passagem de Michel Temer, eficiente na desconstrução do programa de governo que havia sido consagrado pela soberania popular no pleito de 2014.
Igual consideração se aplica ao golpe do Judiciário, reunindo em uma mesma peça um desonesto juiz de piso e o STF. Refiro-me aos crimes da Lava Jato, à decretação da prisão e da inelegibilidade de Lula, palmilhando o caminho da eleição do chefe da súcia bolsonarista, com as consequências conhecidas: seu governo e, hoje, a possibilidade de um desastre democrático no pleito do próximo domingo.
Outro golpe, levado a cabo nas duas últimas legislaturas, é a usurpação, pelo Congresso reacionário e tacanho, de poderes do Executivo, reduzindo sensivelmente sua capacidade de investimento ao pulverizar, através de emendas orçamentárias, os recursos da União, mediante as emendas impositivas e o “orçamento secreto”, implantado pelo sátrapa alagoano que pode retornar a Brasília com a faixa de senador da República.
Este Congresso, teoricamente a sede da expressão da soberania popular, é desaprovado por 64,4% da população (pesquisa Futura/100% Cidades, divulgada em 24/09/2026), fazendo par com o Judiciário, cuja desaprovação, segundo a mesma pesquisa, chega a 62,6%, sua pior fase de descrédito.
As ameaças à institucionalidade são graves. O novo Congresso, que pode nascer velho, pode ainda, como o atual, exercer o papel de estorvo para a defesa dos interesses sociais e instrumento de instabilidade nacional. O STF pode abastardar-se ainda mais e constituir-se em um antro da reação, com os mais graves riscos para o direito brasileiro e a ordem social. O próximo presidente da república indicará pelo menos quatro novos ministros. Além da vaga não preenchida com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, outras três serão abertas com as aposentadorias compulsórias dos ministros Luiz Fux, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. Isto é quase a metade do Plenário.
Mas não é só, se já não fosse muito. Conforme o andar da carruagem, a essas vagas poderão somar-se outras tantas. E os novos ministros podem tanto ser novos Dino ou novas Cármen Lúcia, quanto novos Mendonça, novos Kassio, novos Fux ou novos Moraes, carregando a tiracolo os escritórios de advocacia de esposas e filhos, alguns acusados de receber do bandido-banqueiro a bondosa prenda de uma mesada de 500 mil reais.
Não é só, portanto, a futura Presidência da República – o que já não seria pouco. Nestas eleições estaremos, igualmente, decidindo que Congresso e que STF queremos.
O bolsonarismo não é apenas a síntese da miséria política brasileira; representa um grande risco para a governança do país em face de suas ligações com o mundo do crime, sejam milicianos da pior extração, sejam bandidos de paletó e gravata, como o banqueiro trambiqueiro posto na cadeia, que financiou o filme sobre o chefe do clã e financia a vilegiatura do Bolsonaro que abandonou o mandato de deputado federal por São Paulo para instalar em Washington a banquinha de lobista contra os interesses nacionais, nessa sórdida tarefa mancomunado, lê-se nos jornais, com um neto de um ex-general presidente.
Nas eleições dos próximos dias seremos chamados a decidir entre a continuidade democrática e o autoritarismo larvar; entre um projeto progressista e a promessa de uma sociedade ultraconservadora; e entre um país soberano e um grande protetorado. Nosso voto dirá se na Presidência teremos um representante dos interesses nacionais ou um incumbente do imperialismo.
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
O que muda de Jair Bolsonaro em 2018 para Flávio em 2026?
Em 2018, a rejeição ao PT, a ojeriza aos partidos e grupos que dominavam a política nacional, a sensação de que a vida havia parado de melhorar, os ventos internacionais favoráveis a um populismo radical de direita e, como decorrência disso tudo, uma vontade quase desesperada de mudança de rumo político levaram milhões de eleitores a conceder praticamente um cheque em branco a Jair Bolsonaro. Um candidato que, sabia-se então como se sabe hoje, exibia poucas, se alguma, das qualidades que normalmente se procuram em alguém a quem se pretende entregar o governo do país.
De certa forma, Bolsonaro foi um "poste". Chamamos assim o candidato cuja viabilidade eleitoral provém menos de capital político próprio do que daquele que lhe transfere um patrocinador. A diferença é que Bolsonaro não era o poste de um padrinho determinado, mas de sentimentos políticos urgentes: o antipetismo, o desprezo pela política tradicional, o "não" a tudo o que parecia errado. Era o tapa na cara que se queria desferir no sistema político.
Teve fiadores, claro, mas, como candidatura do "não", Bolsonaro não precisava explicar com muita precisão para onde levaria o país. Bastava assegurar que seria para longe daquilo. O resto vinha depois.
É curioso que, em 2026, estejamos novamente diante de uma candidatura cuja principal credencial continua a ser apenas a capacidade de derrotar o PT. A pergunta sobre quais qualificações próprias Flávio apresenta para governar o Brasil continua difícil de responder a partir de tudo o que se sabe dele. Nem mesmo a desculpa "pelo menos é honesto", usada em 2018 para justificar o voto em um candidato sem outras qualidades, resiste a um exame atento.
Mas há uma diferença decisiva. O voto em Flávio já não pode ser entendido como o mesmo cheque em branco de 2018. Há agora um projeto muito mais legível. Quem escolhe Flávio escolhe também consequências mais previsíveis que aquelas de oito anos atrás: uma inflexão conservadora nas políticas públicas e nas instituições, sim, mas também uma ofensiva para alterar o equilíbrio interno do Judiciário e uma política externa voluntariamente subordinada ao governo Trump.
Além disso, um eventual governo Flávio se daria em circunstâncias muito distintas das enfrentadas por seu pai. Há, antes de tudo, uma diferença decisiva no sistema de contenção institucional. Durante o governo Bolsonaro, o Supremo e, particularmente, Alexandre de Moraes, de um jeito ou de outro, transformaram-se nas principais barreiras às sucessivas tentativas de erosão da democracia liberal.
Não é preciso canonizar ninguém no STF para reconhecer que foi o poder dissuasivo contra um movimento que nunca demonstrou quaisquer escrúpulos para tentar perpetuar-se no poder ou dominar o Estado sem obstáculos constitucionais.
Um novo governo bolsonarista encontraria uma corte em situação muito diferente. E não se trata apenas da queda da confiança no STF. A guerra aberta entre seus ministros tornou perfeitamente plausível a percepção de que eles podem colocar os interesses das facções internas a que pertencem acima da própria instituição. E, para piorar, alguns já parecem ter perdido o antigo cuidado de evitar que suas decisões fossem lidas como extensão das preferências políticas do campo que os indicou.
Some-se a isso o fato de que o próximo presidente também terá peso incomum sobre a composição do tribunal —Flávio já anunciou que pretenderia indicar cinco ministros— e teremos uma situação completamente diferente da vivida no passado.
Antes, o problema era se o STF teria força suficiente para conter um presidente disposto a testar os limites da democracia; no próximo governo, acrescenta-se a dúvida sobre se terá credibilidade suficiente para fazê-lo.
Por fim, também muda o ambiente internacional. Jair Bolsonaro governou entre Trump e Biden. Um eventual Flávio encontraria Trump na Casa Branca durante pelo menos os dois primeiros anos de mandato.
Finalmente, existe algo que não havia em 2018: aprendizado.
O primeiro governo Bolsonaro foi, em muitos momentos, improvisação, conflito interno, iniciativas mal executadas e recuos diante de obstáculos que seus integrantes pareciam não ter previsto. Trump oferece o exemplo de como uma segunda passagem pelo poder pode ser mais consciente dos obstáculos e, portanto, muito mais eficiente.
No Brasil, a analogia sugere ao menos isto: desta vez, haveria menos incerteza sobre o que se pretende fazer, mais clareza sobre meios e metas e, possivelmente, condições mais favoráveis para executar a agenda.
De certa forma, Bolsonaro foi um "poste". Chamamos assim o candidato cuja viabilidade eleitoral provém menos de capital político próprio do que daquele que lhe transfere um patrocinador. A diferença é que Bolsonaro não era o poste de um padrinho determinado, mas de sentimentos políticos urgentes: o antipetismo, o desprezo pela política tradicional, o "não" a tudo o que parecia errado. Era o tapa na cara que se queria desferir no sistema político.
Teve fiadores, claro, mas, como candidatura do "não", Bolsonaro não precisava explicar com muita precisão para onde levaria o país. Bastava assegurar que seria para longe daquilo. O resto vinha depois.
É curioso que, em 2026, estejamos novamente diante de uma candidatura cuja principal credencial continua a ser apenas a capacidade de derrotar o PT. A pergunta sobre quais qualificações próprias Flávio apresenta para governar o Brasil continua difícil de responder a partir de tudo o que se sabe dele. Nem mesmo a desculpa "pelo menos é honesto", usada em 2018 para justificar o voto em um candidato sem outras qualidades, resiste a um exame atento.
Mas há uma diferença decisiva. O voto em Flávio já não pode ser entendido como o mesmo cheque em branco de 2018. Há agora um projeto muito mais legível. Quem escolhe Flávio escolhe também consequências mais previsíveis que aquelas de oito anos atrás: uma inflexão conservadora nas políticas públicas e nas instituições, sim, mas também uma ofensiva para alterar o equilíbrio interno do Judiciário e uma política externa voluntariamente subordinada ao governo Trump.
Além disso, um eventual governo Flávio se daria em circunstâncias muito distintas das enfrentadas por seu pai. Há, antes de tudo, uma diferença decisiva no sistema de contenção institucional. Durante o governo Bolsonaro, o Supremo e, particularmente, Alexandre de Moraes, de um jeito ou de outro, transformaram-se nas principais barreiras às sucessivas tentativas de erosão da democracia liberal.
Não é preciso canonizar ninguém no STF para reconhecer que foi o poder dissuasivo contra um movimento que nunca demonstrou quaisquer escrúpulos para tentar perpetuar-se no poder ou dominar o Estado sem obstáculos constitucionais.
Um novo governo bolsonarista encontraria uma corte em situação muito diferente. E não se trata apenas da queda da confiança no STF. A guerra aberta entre seus ministros tornou perfeitamente plausível a percepção de que eles podem colocar os interesses das facções internas a que pertencem acima da própria instituição. E, para piorar, alguns já parecem ter perdido o antigo cuidado de evitar que suas decisões fossem lidas como extensão das preferências políticas do campo que os indicou.
Some-se a isso o fato de que o próximo presidente também terá peso incomum sobre a composição do tribunal —Flávio já anunciou que pretenderia indicar cinco ministros— e teremos uma situação completamente diferente da vivida no passado.
Antes, o problema era se o STF teria força suficiente para conter um presidente disposto a testar os limites da democracia; no próximo governo, acrescenta-se a dúvida sobre se terá credibilidade suficiente para fazê-lo.
Por fim, também muda o ambiente internacional. Jair Bolsonaro governou entre Trump e Biden. Um eventual Flávio encontraria Trump na Casa Branca durante pelo menos os dois primeiros anos de mandato.
Finalmente, existe algo que não havia em 2018: aprendizado.
O primeiro governo Bolsonaro foi, em muitos momentos, improvisação, conflito interno, iniciativas mal executadas e recuos diante de obstáculos que seus integrantes pareciam não ter previsto. Trump oferece o exemplo de como uma segunda passagem pelo poder pode ser mais consciente dos obstáculos e, portanto, muito mais eficiente.
No Brasil, a analogia sugere ao menos isto: desta vez, haveria menos incerteza sobre o que se pretende fazer, mais clareza sobre meios e metas e, possivelmente, condições mais favoráveis para executar a agenda.
O robot disse-me: "Anda comigo." E eu fui…
Nasci em 1978. Quando era ainda muito pequeno, tive um brinquedo que nunca mais esqueci: um robot que falava espanhol. A memória já não me permite reproduzir exatamente as palavras, mas dizia qualquer coisa como: “Sou um ser de outra galáxia. Anda comigo.”
Quase meio século depois, percebo a ironia: eu fui.
Cresci numa época em que os computadores começavam lentamente a entrar nas nossas vidas. Vi-os passar de máquinas estranhas, reservadas a poucos, para objetos domésticos. Vi aparecer o computador pessoal, os jogos, os primeiros chats, a Internet, o telemóvel, os motores de busca, as redes sociais e o smartphone. Coisas que hoje uma criança considera absolutamente banais pareciam ficção científica durante a minha infância.
Talvez por isso tenha acabado por estudar Engenharia Electrotécnica e de Computadores, na área de Controlo e Robótica. Sempre me fascinou a automação. Ainda hoje consigo ficar fascinado a observar uma fábrica praticamente autónoma, com robots, sensores, transportadores e sistemas de controlo a executarem movimentos sucessivos com uma precisão extraordinária.
Enquanto estudava, porém, havia uma pergunta que me ocorria repetidamente: porque é que certas coisas ainda não podiam ser automatizadas?
A resposta era frequentemente simples: porque a máquina sabia executar aquilo que tínhamos conseguido prever e programar. Perante o inesperado, a inteligência continuava do nosso lado.
Entretanto, alguma coisa mudou.
Hoje observo os humanoides a caminhar, equilibrar-se, manipular objetos e aprender tarefas. Já não estamos apenas a construir máquinas para ambientes especialmente preparados para elas. Estamos a tentar construir máquinas capazes de funcionar num mundo concebido para nós.
E chegou a Inteligência Artificial.
Também sou do tempo dos primeiros chats. Na altura, o computador era apenas o intermediário: de um lado estava uma pessoa, do outro outra pessoa. Seria quase impensável imaginar que, algumas décadas depois, eu pudesse sentar-me diante de um ecrã e conversar longamente com uma máquina sobre ciência, História, engenharia, deficiência, emoções ou sobre o próprio futuro da Inteligência Artificial.
É precisamente isso que estou a fazer hoje.
Não significa que devamos receber cada inovação sem perguntas. A IA traz problemas sérios: emprego, privacidade, desinformação, dependência tecnológica, concentração de poder e até a possibilidade de começarmos a delegar demasiado do nosso próprio raciocínio.
Mas há outro fenómeno igualmente extraordinário: o impacto psicológico de percebermos que a máquina deixou de ser apenas uma ferramenta que executa instruções e começou a tornar-se um interlocutor capaz de responder, interpretar e produzir.
Para quem nasceu nos anos 70, talvez seja difícil encontrar outro período da própria vida em que tantas fronteiras tecnológicas tenham caído tão depressa. É possível que seja apenas uma perceção geracional. Afinal, outras gerações assistiram à eletricidade, ao automóvel, ao avião, à rádio, à televisão ou aos antibióticos.
Mas a nossa atravessou uma transformação peculiar: conhecemos o mundo analógico, assistimos à sua digitalização e estamos agora a entrar numa época em que as máquinas começam a participar no próprio processo intelectual.
Não sei onde isto nos levará. E talvez seja precisamente essa a parte mais fascinante.
Aos 48 anos, olho para os humanoides que começam a sair dos laboratórios e lembro-me daquele pequeno robot da minha infância.
“Sou um ser de outra galáxia. Anda comigo.”
Eu fui.
E tenho a estranha sensação de que a viagem ainda agora começou.
Quase meio século depois, percebo a ironia: eu fui.
Cresci numa época em que os computadores começavam lentamente a entrar nas nossas vidas. Vi-os passar de máquinas estranhas, reservadas a poucos, para objetos domésticos. Vi aparecer o computador pessoal, os jogos, os primeiros chats, a Internet, o telemóvel, os motores de busca, as redes sociais e o smartphone. Coisas que hoje uma criança considera absolutamente banais pareciam ficção científica durante a minha infância.
Talvez por isso tenha acabado por estudar Engenharia Electrotécnica e de Computadores, na área de Controlo e Robótica. Sempre me fascinou a automação. Ainda hoje consigo ficar fascinado a observar uma fábrica praticamente autónoma, com robots, sensores, transportadores e sistemas de controlo a executarem movimentos sucessivos com uma precisão extraordinária.
Enquanto estudava, porém, havia uma pergunta que me ocorria repetidamente: porque é que certas coisas ainda não podiam ser automatizadas?
A resposta era frequentemente simples: porque a máquina sabia executar aquilo que tínhamos conseguido prever e programar. Perante o inesperado, a inteligência continuava do nosso lado.
Entretanto, alguma coisa mudou.
Hoje observo os humanoides a caminhar, equilibrar-se, manipular objetos e aprender tarefas. Já não estamos apenas a construir máquinas para ambientes especialmente preparados para elas. Estamos a tentar construir máquinas capazes de funcionar num mundo concebido para nós.
E chegou a Inteligência Artificial.
Também sou do tempo dos primeiros chats. Na altura, o computador era apenas o intermediário: de um lado estava uma pessoa, do outro outra pessoa. Seria quase impensável imaginar que, algumas décadas depois, eu pudesse sentar-me diante de um ecrã e conversar longamente com uma máquina sobre ciência, História, engenharia, deficiência, emoções ou sobre o próprio futuro da Inteligência Artificial.
É precisamente isso que estou a fazer hoje.
Não significa que devamos receber cada inovação sem perguntas. A IA traz problemas sérios: emprego, privacidade, desinformação, dependência tecnológica, concentração de poder e até a possibilidade de começarmos a delegar demasiado do nosso próprio raciocínio.
Mas há outro fenómeno igualmente extraordinário: o impacto psicológico de percebermos que a máquina deixou de ser apenas uma ferramenta que executa instruções e começou a tornar-se um interlocutor capaz de responder, interpretar e produzir.
Para quem nasceu nos anos 70, talvez seja difícil encontrar outro período da própria vida em que tantas fronteiras tecnológicas tenham caído tão depressa. É possível que seja apenas uma perceção geracional. Afinal, outras gerações assistiram à eletricidade, ao automóvel, ao avião, à rádio, à televisão ou aos antibióticos.
Mas a nossa atravessou uma transformação peculiar: conhecemos o mundo analógico, assistimos à sua digitalização e estamos agora a entrar numa época em que as máquinas começam a participar no próprio processo intelectual.
Não sei onde isto nos levará. E talvez seja precisamente essa a parte mais fascinante.
Aos 48 anos, olho para os humanoides que começam a sair dos laboratórios e lembro-me daquele pequeno robot da minha infância.
“Sou um ser de outra galáxia. Anda comigo.”
Eu fui.
E tenho a estranha sensação de que a viagem ainda agora começou.
O tempo fechou para Flávio Bolsonaro a quatro dias das eleições
Não existe guerra limpa que pelo menos respeite as regras estabelecidas pelo Direito Internacional; todas as guerras são sujas. Dado o horror que produzem, se as guerras fossem transmitidas em tempo real e sem qualquer censura, talvez elas deixassem de existir. Dá-se o mesmo no caso da política, especialmente em época de eleições, momento em que o poder está em disputa. No entanto, a alternância no poder é um dos pilares da democracia — e, apesar de suas imperfeições, ainda não se inventou um regime melhor do que esse.
A desinformação e a propaganda enganosa não surgiram com a internet. A história das eleições brasileiras é marcada por boatos, falsificações e manipulações que alteraram os rumos políticos do país muito antes de o termo fake news se popularizar.
Meses antes da eleição presidencial de 1922, o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publicou cartas atribuídas ao candidato Artur Bernardes. Elas chamavam os militares de “canalhas”. Embora fossem falsificações grosseiras, as cartas geraram uma crise militar profunda e quase impediram a posse de Bernardes.
Na primeira eleição após a ditadura de Getúlio Vargas (1930 a 1945), panfletos falsos foram espalhados alegando que o candidato da UDN, o brigadeiro Eduardo Gomes, teria dito que “não precisava dos votos dos marmiteiros” (trabalhadores das classes mais baixas). A frase forjada arruinou sua imagem popular na reta final e ajudou a eleger 0 general Eurico Gaspar Dutra.
A eleição de 1989, entre Fernando Collor e Lula, foi o ápice do uso de narrativas de forte apelo emocional na televisão. Collor levou ao seu programa eleitoral a enfermeira Miriam Cordeiro, uma ex-namorada de Lula, que o acusou falsamente de ter sugerido que ela abortasse uma filha do casal. Posteriormente, soube-se que Miriam fora paga para dar aquele depoimento.
No dia do segundo turno daquele mesmo ano, a polícia estourou o cativeiro do empresário Abílio Diniz, que havia sido sequestrado, e encontrou panfletos do PT com os sequestradores. Mais tarde, descobriu-se que os policiais haviam obrigado os criminosos a vestir camisetas do partido para serem fotografados, criando uma associação falsa deliberada nas vésperas da votação.
Boatos espalhados por correntes de e-mail e panfletos apócrifos diziam que, se o candidato José Serra (PSDB) vencesse a eleição de 2010, ele extinguiria o programa Bolsa Família. Na mesma ocasião, boatos religiosos focados em pautas morais e no aborto foram amplamente usados contra a candidata Dilma Rousseff (PT).
Não foi diferente em 2014. A campanha de Dilma à reeleição veiculou comerciais no rádio e na televisão sugerindo que o projeto econômico da adversária Marina Silva (PSB) entregaria a autonomia do Banco Central aos banqueiros, fazendo com que a comida sumisse, literalmente, do prato dos trabalhadores brasileiros.
“Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”, disse Dilma na época. Foi o que fez Jair Bolsonaro (PL) em 2018 para derrotar Fernando Haddad (PT). Circularam massivamente vídeos alegando que Haddad distribuiria livros de educação sexual inadequados nas escolas primárias (batizados falsamente de “kit gay”) e mamadeiras com bicos em formato peniano para creches.
Flávio Bolsonaro queixa-se de ser vítima de uma notícia falsa sobre sua suposta disposição de se eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Mas, em 2022, vendo que seu pai, então presidente da República, corria o risco de não se reeleger, o próprio senador foi um dos impulsionadores do boato de que Lula fecharia igrejas evangélicas caso vencesse a eleição.
Aparentemente, não há falsidade no fato relatado pelo site PlatôBR de que Flávio participou de festas com garotas de programa anos atrás, tendo empresários e amigos custeado algumas de suas despesas. Há imagens e documentos que comprovariam isso, reunidos por Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio em uma franquia de chocolates no Rio de Janeiro que foi suspeita de lavagem de dinheiro.
O advogado Alan Belaciano aparece no dossiê de Santini como pagador de equipamentos para a academia da residência de Flávio em Brasília, cujo valor ultrapassou R$ 90 mil, além de um relógio de luxo da marca Rolex, modelo em ouro branco, adquirido por R$ 305 mil em fevereiro de 2022. Procurado por jornalistas, Flávio negou-se a declarar qualquer coisa a respeito.
A poucos dias da eleição, o tempo fechou para Flávio, e não há sinais de que se abrirá tão cedo.
A desinformação e a propaganda enganosa não surgiram com a internet. A história das eleições brasileiras é marcada por boatos, falsificações e manipulações que alteraram os rumos políticos do país muito antes de o termo fake news se popularizar.
Meses antes da eleição presidencial de 1922, o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publicou cartas atribuídas ao candidato Artur Bernardes. Elas chamavam os militares de “canalhas”. Embora fossem falsificações grosseiras, as cartas geraram uma crise militar profunda e quase impediram a posse de Bernardes.
Na primeira eleição após a ditadura de Getúlio Vargas (1930 a 1945), panfletos falsos foram espalhados alegando que o candidato da UDN, o brigadeiro Eduardo Gomes, teria dito que “não precisava dos votos dos marmiteiros” (trabalhadores das classes mais baixas). A frase forjada arruinou sua imagem popular na reta final e ajudou a eleger 0 general Eurico Gaspar Dutra.
A eleição de 1989, entre Fernando Collor e Lula, foi o ápice do uso de narrativas de forte apelo emocional na televisão. Collor levou ao seu programa eleitoral a enfermeira Miriam Cordeiro, uma ex-namorada de Lula, que o acusou falsamente de ter sugerido que ela abortasse uma filha do casal. Posteriormente, soube-se que Miriam fora paga para dar aquele depoimento.
No dia do segundo turno daquele mesmo ano, a polícia estourou o cativeiro do empresário Abílio Diniz, que havia sido sequestrado, e encontrou panfletos do PT com os sequestradores. Mais tarde, descobriu-se que os policiais haviam obrigado os criminosos a vestir camisetas do partido para serem fotografados, criando uma associação falsa deliberada nas vésperas da votação.
Boatos espalhados por correntes de e-mail e panfletos apócrifos diziam que, se o candidato José Serra (PSDB) vencesse a eleição de 2010, ele extinguiria o programa Bolsa Família. Na mesma ocasião, boatos religiosos focados em pautas morais e no aborto foram amplamente usados contra a candidata Dilma Rousseff (PT).
Não foi diferente em 2014. A campanha de Dilma à reeleição veiculou comerciais no rádio e na televisão sugerindo que o projeto econômico da adversária Marina Silva (PSB) entregaria a autonomia do Banco Central aos banqueiros, fazendo com que a comida sumisse, literalmente, do prato dos trabalhadores brasileiros.
“Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”, disse Dilma na época. Foi o que fez Jair Bolsonaro (PL) em 2018 para derrotar Fernando Haddad (PT). Circularam massivamente vídeos alegando que Haddad distribuiria livros de educação sexual inadequados nas escolas primárias (batizados falsamente de “kit gay”) e mamadeiras com bicos em formato peniano para creches.
Flávio Bolsonaro queixa-se de ser vítima de uma notícia falsa sobre sua suposta disposição de se eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Mas, em 2022, vendo que seu pai, então presidente da República, corria o risco de não se reeleger, o próprio senador foi um dos impulsionadores do boato de que Lula fecharia igrejas evangélicas caso vencesse a eleição.
Aparentemente, não há falsidade no fato relatado pelo site PlatôBR de que Flávio participou de festas com garotas de programa anos atrás, tendo empresários e amigos custeado algumas de suas despesas. Há imagens e documentos que comprovariam isso, reunidos por Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio em uma franquia de chocolates no Rio de Janeiro que foi suspeita de lavagem de dinheiro.
O advogado Alan Belaciano aparece no dossiê de Santini como pagador de equipamentos para a academia da residência de Flávio em Brasília, cujo valor ultrapassou R$ 90 mil, além de um relógio de luxo da marca Rolex, modelo em ouro branco, adquirido por R$ 305 mil em fevereiro de 2022. Procurado por jornalistas, Flávio negou-se a declarar qualquer coisa a respeito.
A poucos dias da eleição, o tempo fechou para Flávio, e não há sinais de que se abrirá tão cedo.
Piketty prevê fim do dólar como moeda global: 'Muito em breve'
Cinco anos atrás, uma percepção do economista francês Thomas Piketty, 55 anos, rodou o planeta. Ela defendia que o mundo estava em condições parecidas às que desaguaram na Revolução Francesa, no fim do século 18: uma desigualdade extrema em que elites riquíssimas (a nobreza daquela França) viviam às custas de uma multidão de pessoas em situações precárias.
Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.
"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.
"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".
Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.
No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil, na cotação do final de setembro) até 2100.
O relatório também propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional, cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção de alimentos para os setores de educação e saúde.
Além disso, há propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou famoso, nos anos 2010, com seu O capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.
E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.
Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.
"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.
A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.
Como acomodar pretensões globais tão robustas em um mundo atravessado por conflitos e por Estados nacionais mais voltados aos seus interesses particulares?
Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro, como instalar data centers em todos os lugares possíveis — no planeta Terra ou em Marte — e estão fazendo guerras para extrair ainda mais combustíveis fósseis pelo mundo. É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver. É hora de discutir uma outra perspectiva. Não podemos ficar só assistindo a isso, pessimistas, esperando para ver o que acontecerá.
Além do mais, a agenda tecnonacionalista, tecnocapitalista, sequer durará para sempre. Não vai entregar o que promete, embora tenha um longo caminho pela frente. Vamos ver o que acontece nas eleições (de meio de mandato) nos Estados Unidos [em novembro] e no Brasil.
Alguns anos atrás, o senhor disse que a situação do mundo era semelhante àquela que culminou na Revolução Francesa. Algo mudou desde então?
Eu diria que, em muitos sentidos, ela piorou. Mas sejamos otimistas: a longo prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e próspero. É perfeitamente possível seguir nessa direção.
Entre todas as propostas, há alguma que o senhor considera mais urgente?
A ideia do relatório é pensar em que tipo de prosperidade compartilhada nós podemos ter em um planeta finito. Se todos os países alcançassem um alto nível de prosperidade no futuro, como o mundo seria? Essa é a questão que estamos fazendo ali. Mas depende de muitas condições. A transformação do sistema energético é uma delas. Outra é uma mudança estrutural nos modelos de produção. É preciso ainda diminuir a desigualdade global para conseguirmos arcar com investimentos climáticos, educacionais e de acesso à saúde.
Essas propostas estão alinhadas ao que países do Sul global têm dito nos últimos anos. Basta lembrarmos que, na reunião do G20, em 2024, o presidente Lula propôs o imposto global sobre as fortunas dos bilionários que foi apoiada pela África do Sul e por vários outros países. Claro que não é suficiente. Era difícil convencer os 20 países que estavam ali, mas o fato de ter sido discutido no âmbito do G20 foi interessante. Mostra que essa demanda por justiça econômica e climática está presente.
O senhor acha que a proposta de taxar fortunas tem possibilidade de se concretizar?
Está claro, para mim, que, em um futuro relativamente próximo, haverá um grupo de países se movendo juntos para taxar os bilionários e para criar um sistema monetário internacional, porque eles sabem que o modelo atual não está funcionando.
A economia do Estados Unidos está ficando pequena em comparação ao tamanho da economia global. Ela era maior no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, mas vem diminuindo gradativamente — e ficará cada vez menor. Logo, não é mais possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global. Essa não é uma notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit comercial deles.
E, então, sabemos: se há desequilíbrios internacionais, vem consequências geopolíticas. As políticas atuais de Donald Trump são só uma reação que não estão resolvendo esse problema.
Por serem políticas bélicas?
A mensagem dele é basicamente a seguinte: "Eu vou colocar as minhas armas na mesa, pegar petróleo na Venezuela, no Irã ou na Groelândia e reduzir o meu déficit interno". Mas nós acreditamos em uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.
Em uma economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos climáticos. Isso não será possível com o sistema de hoje. E eu acredito que isso acontecerá mais cedo do que as pessoas imaginam.
O senhor mencionou a proposta de criar uma moeda internacional administrada pela ONU, mas vários líderes mundiais, como o próprio Lula, acabaram de criticar toda a estrutura da instituição na Assembleia Geral, em Nova York. Eles dizem que ela tem sido incapaz de "manter o mundo em ordem". Para esse objetivo, prosperar, seria necessário criar uma entidade global nova ou bastaria reformar a ONU?
Seria melhor se houvesse um consenso, entre membros da ONU, de transformá-la — e também o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Como não é viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o que chamamos de "coalizão incompleta", isto é, uma coalizão de países que não cubra o mundo inteiro — em alguns casos não cubra mesmo os Estados Unidos —, mas que consiga ir na direção certa.
Era mais um alerta do que uma comparação, porque, sempre que isso aconteceu na história, o resultado foi uma grave crise política capaz de mudar o rumo das coisas.
"Em muitos sentidos, [a situação] piorou" nesse intervalo de meia década, sentencia ele agora à BBC News Brasil.
"Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro", diz ele, alertando para "uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver".
Piketty retornou à cena global em junho com um conjunto audacioso de propostas reunidas no Relatório de Justiça Global. É o resultado do esforço conjunto de uma equipe liderada por ele, no World Inequality Lab, da Paris School of Economics, na capital francesa, que se debruçou sobre dados sociais e econômicos de vários países ao longo dos últimos anos.
No total, cerca de 50 pessoas trabalharam no estudo, que elaborou propostas como criar uma moeda única internacional, gerida pela Organização das Nações Unidas (ONU), em substituição ao dólar, e impulsionar políticas globais que nivelem a renda per capita global em 5 mil euros (cerca de R$ 29 mil, na cotação do final de setembro) até 2100.
O relatório também propõe que, até lá, o total de horas de trabalho, na média internacional, cairia para menos da metade, com um deslocamento das funções ligadas à produção de alimentos para os setores de educação e saúde.
Além disso, há propostas historicamente ligadas às pesquisas de Piketty — que se tornou famoso, nos anos 2010, com seu O capital no século XXI (Intrínseca, 2013) – como a criação de um imposto global sobre a riqueza e, especialmente, sobre fortunas dos bilionários.
E aí que, para ele, o Brasil exerce um papel central. Em 2024, durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, o país conseguiu incluir uma menção inédita à importância de tributar os super-ricos no comunicado final da Cúpula, apesar da dura resistência argentina.
Nos fóruns que se seguiram, a diplomacia brasileira seguiu reforçando o projeto, como nas rodadas de negociação, no âmbito da ONU, por um sistema tributário internacional. A próxima reunião do grupo será realizada entre novembro e dezembro, no Quênia.
"Será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção desse nacionalismo trumpista em algumas semanas [nas eleições]. Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima", diz.
A seguir, trechos da entrevista que Thomas Piketty concedeu à BBC News Brasil alguns dias antes do primeiro turno da eleição presidencial brasileira.
Como acomodar pretensões globais tão robustas em um mundo atravessado por conflitos e por Estados nacionais mais voltados aos seus interesses particulares?
Estamos em um período repleto de distopias. Os tecnobilionários, os tecnonacionalistas estão elaborando visões malucas sobre o futuro, como instalar data centers em todos os lugares possíveis — no planeta Terra ou em Marte — e estão fazendo guerras para extrair ainda mais combustíveis fósseis pelo mundo. É uma visão trumpista do futuro que não está funcionando, que não resolve problemas de desenvolvimento, de meio ambiente, que precisamos resolver. É hora de discutir uma outra perspectiva. Não podemos ficar só assistindo a isso, pessimistas, esperando para ver o que acontecerá.
Além do mais, a agenda tecnonacionalista, tecnocapitalista, sequer durará para sempre. Não vai entregar o que promete, embora tenha um longo caminho pela frente. Vamos ver o que acontece nas eleições (de meio de mandato) nos Estados Unidos [em novembro] e no Brasil.
Alguns anos atrás, o senhor disse que a situação do mundo era semelhante àquela que culminou na Revolução Francesa. Algo mudou desde então?
Eu diria que, em muitos sentidos, ela piorou. Mas sejamos otimistas: a longo prazo, as forças democráticas e as lutas sociais estarão prontas para transformar as instituições e fazer do mundo um lugar mais igualitário e próspero. É perfeitamente possível seguir nessa direção.
Entre todas as propostas, há alguma que o senhor considera mais urgente?
A ideia do relatório é pensar em que tipo de prosperidade compartilhada nós podemos ter em um planeta finito. Se todos os países alcançassem um alto nível de prosperidade no futuro, como o mundo seria? Essa é a questão que estamos fazendo ali. Mas depende de muitas condições. A transformação do sistema energético é uma delas. Outra é uma mudança estrutural nos modelos de produção. É preciso ainda diminuir a desigualdade global para conseguirmos arcar com investimentos climáticos, educacionais e de acesso à saúde.
Essas propostas estão alinhadas ao que países do Sul global têm dito nos últimos anos. Basta lembrarmos que, na reunião do G20, em 2024, o presidente Lula propôs o imposto global sobre as fortunas dos bilionários que foi apoiada pela África do Sul e por vários outros países. Claro que não é suficiente. Era difícil convencer os 20 países que estavam ali, mas o fato de ter sido discutido no âmbito do G20 foi interessante. Mostra que essa demanda por justiça econômica e climática está presente.
O senhor acha que a proposta de taxar fortunas tem possibilidade de se concretizar?
Está claro, para mim, que, em um futuro relativamente próximo, haverá um grupo de países se movendo juntos para taxar os bilionários e para criar um sistema monetário internacional, porque eles sabem que o modelo atual não está funcionando.
A economia do Estados Unidos está ficando pequena em comparação ao tamanho da economia global. Ela era maior no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, mas vem diminuindo gradativamente — e ficará cada vez menor. Logo, não é mais possível ter o dólar operando como moeda internacional em um mundo em que a economia dos EUA é apenas uma pequena fração do PIB global. Essa não é uma notícia tão boa ao mundo, mas tampouco é para os Estados Unidos, porque esse sistema está sobrevalorizando o dólar e contribuindo para o enorme déficit comercial deles.
E, então, sabemos: se há desequilíbrios internacionais, vem consequências geopolíticas. As políticas atuais de Donald Trump são só uma reação que não estão resolvendo esse problema.
Por serem políticas bélicas?
A mensagem dele é basicamente a seguinte: "Eu vou colocar as minhas armas na mesa, pegar petróleo na Venezuela, no Irã ou na Groelândia e reduzir o meu déficit interno". Mas nós acreditamos em uma mudança estrutural no sistema monetário internacional.
Em uma economia mundial multipolar, isto é, em que não há um país com hegemonia sobre o PIB global, temos que ter uma moeda internacional baseada em uma cesta de moedas — dos EUA, da China, da Índia, do Brasil, seja lá de quem for — que colabore para financiar o desenvolvimento dos países e para fazer investimentos climáticos. Isso não será possível com o sistema de hoje. E eu acredito que isso acontecerá mais cedo do que as pessoas imaginam.
O senhor mencionou a proposta de criar uma moeda internacional administrada pela ONU, mas vários líderes mundiais, como o próprio Lula, acabaram de criticar toda a estrutura da instituição na Assembleia Geral, em Nova York. Eles dizem que ela tem sido incapaz de "manter o mundo em ordem". Para esse objetivo, prosperar, seria necessário criar uma entidade global nova ou bastaria reformar a ONU?
Seria melhor se houvesse um consenso, entre membros da ONU, de transformá-la — e também o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Como não é viável, seria necessário, pelo menos durante um período intermediário, criar o que chamamos de "coalizão incompleta", isto é, uma coalizão de países que não cubra o mundo inteiro — em alguns casos não cubra mesmo os Estados Unidos —, mas que consiga ir na direção certa.
Teria um exemplo de como isso funcionaria?
Está acontecendo agora uma convenção, no âmbito da ONU, de cooperação global para um imposto sobre os ricos. Haverá uma sessão de negociações entre representantes dos governos em Nairóbi, no Quênia, em novembro, em que o Brasil participará ao lado de outros países que já se mostraram favoráveis.
A agenda existe para incluir mais atores no sistema tributário internacional — em especial países do Sul global que não querem ver as riquezas serem extraída dos mais pobres em benefício de interesses econômicos das economias do Norte. É uma questão de soberania. Essa é apenas uma das questões.
Nós já sabemos que alguns países, em particular os Estados Unidos, vão votar contra a convenção, mas ela está sendo construída para adotar a fórmula da maioria, o que será muito importante em comparação a outras convenções, como a do clima, que se baseia na unanimidade.
As convenções do clima (COPs), então, não funcionam mais?
Eu não diria que são um fracasso, mas tampouco são um tremendo sucesso: ainda que ocorram anualmente, elas não conseguem tomar decisões, porque se baseiam nesse modelo de unanimidade.
Esse desenho do projeto da convenção tributária da ONU será definido no ano que vem, mas já está claro que as decisões serão tomadas com base na maioria qualificada, porque é importante levar em conta os tamanhos das populações nacionais. Não dá para ter países pequenos, por exemplo, com os direitos de voto iguais a um Brasil, mas tampouco queremos ver os países ricos capturando esse processo.
Mas e se países ricos e grandes, como os EUA, não quiserem participar?
Nós sabemos que os EUA não vão querer participar, tanto quanto sabemos que, para a reforma do sistema monetário internacional, eles seriam necessários. Mas a proporção da população norte-americana em relação à global, ou mesmo a participação deles no PIB mundial, já está começando a cair. Eles podem perder seu poder de veto.
Aliás, sabe uma coisa que ninguém fala e nós destacamos no relatório? O FMI tem uma regra de que, se um país reúne 15% dos direitos de voto, seja pela população que tem ou pelo tamanho da economia, pode vetar qualquer decisão importante, como a criação de "direitos especiais de saque" (Special Drawing Rights, SDRs em inglês), que são, nada mais nada menos, que o embrião de uma... moeda internacional. Mas, como os EUA têm esses 15% de direitos de voto, eles vetam. Os governos republicanos sempre o fizeram.
Mas, após a crise financeira de 2008 e da pandemia, governos democratas permitiram ao FMI criar alguns SDRs distribuídos pelo PIB do país ou pela proporção dos direitos de votos. Não foi um grande avanço, porque eu entendo que é melhor distribuí-los pelo tamanho da população de cada país ou os danos climáticos que ele gera.
Isso mudará, então, quando os EUA perderem o poder de veto?
Eles vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI, logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos próximos 10 ou 20 anos. Poderemos ver uma mudança na estrutura do fundo.
Então, para responder à pergunta lá do início: precisamos ser muito pragmáticos. Em alguns casos, será necessário criar novas instituições com aquela "coalizão incompleta", como para cooperação tributária internacional ou, talvez, para criar um imposto global sobre a riqueza para custear as reparações climáticas, por exemplo.
Esse nervosismo que vemos, hoje, em Washington, para dizer o mínimo, tem a ver com o fato de os EUA estarem perdendo o controle sobre o mundo. Daí, os nacionalistas, como Trump, reagem desesperados, colocando as armas na mesa. Elas são mais um sinal de fraqueza do que de força.
Qual é o papel do Brasil em tudo isso?
Países como o Brasil têm o papel de remoldar o balanço global de poder, de colocar essa conversa global na direção certa. O Brasil contribuiu muito com isso no passado, e será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas.
Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima. Sob o governo Lula, houve um papel importante de propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante. Eu acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular, teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte a ficar muito mais difícil. Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer "não".
Por quê?
Porque é uma situação difícil para eles. De um lado, eles não querem pagar pela reparação climática, mas, de outro, eles sabem que carregam a responsabilidade histórica enorme das suas emissões de carbono. É impossível negá-la. Mais do que isso: eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação — de suas classes trabalhadores ou das suas classes médias. Logo, em algum momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os que deverão arcar com essa conta. Isso vale, é importante dizer, tanto para bilionários do Norte quanto do Sul. Se um país tal como o Brasil — ou como uma África do Sul, uma Índia, uma Indonésia — coloca pressão sobre as questões climáticas ou de justiça econômica, fica impossível resistir.
Vejo o Brasil pronto para articular isso, não só como parte do Sul, mas também por ser um país grande. Será triste se ele perder a dimensão internacionalista, progressista e colocar, no lugar, uma visão estreita, tecnocapitalista e tecnonacionalista. Ela não vai resolver os problemas do mundo nem os do Brasil. Eu acho, inclusive, que essa agenda já vai ser derrotada na eleição que se aproxima nos EUA e nos próximos anos também. Assim, vai ser estranho o Brasil se mover em uma direção errada no momento errado.
Ao mesmo tempo, as agendas das direitas radicais globais se baseiam no mérito individual como verdadeiro produtor de justiça econômica, e não a redistribuição de renda (defendida pela esquerda). Essas agendas são populares – como se vê no Brasil, por exemplo. (Para a esquerda), não seria necessário fazer a agenda da redistribuição voltar a ter apelo popular?
A esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades, para redistribuir a riqueza. Veio um consenso em torno da liberalização dos mercados e de diminuir a progressividade dos impostos, o que prejudicou muito as classes com renda baixa tanto quanto as médias. Em muitos casos, esquerdas e centro-esquerdas estão se associando a políticas pró-corporações. É uma abertura para retóricas nacionalistas. Às vezes, elas são mais pró-capitalismo que os próprios partidos centristas. Elas fazem isso para atrair eleitores das classes baixas, médias, e enfatizando a dimensão nacionalista que, como eu disse, não vai resolver os problemas.
Inclusive, nem os eleitores estão tão confiantes na agenda trumpista. Eles sabem que os partidos estão propondo um mesmo modelo de desenvolvimento que não integra a desigualdade, mas não veem alternativa. Essa é a principal explicação.
É uma questão de repetição das propostas, portanto?
Se você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se resume em controle fronteiriço e identidade.
Abandonamos as discussões sobre políticas econômicas, sobre a estrutura de classes, sobre as desigualdades socioeconômicos. Mas, se a gente reabri-las, as coisas vão começar a mudar, porque, na prática, se você olhar para os governos nacionalistas no poder hoje, depois de alguns anos a opinião pública já não estará tão satisfeita com eles. Basta olhar para as taxas de popularidade de Trump nos EUA. É isso que me deixa otimista, a longo prazo, com a volta de soluções internacionalistas, democráticas e mais igualitárias — como as que apresentamos no relatório. Não será fácil.
Mas haverá algum ponto de ruptura, na sua opinião?
Não dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que aconteça. Temos que estar prontos para, no momento, apresentar uma alternativa.
Escrevi um livro sobre história da desigualdade (Uma breve história da igualdade, Intrínseca, 2022) e, uma coisa que eu aprendi é que, em períodos críticos, em que as sociedades precisam mudar o sistema, fazer mudanças institucionais, elas devem estar prontas para fazê-lo. Foi assim que surgiram a seguridade social, os serviços públicos, a educação universal e gratuita, o sufrágio, os direitos trabalhistas, a decolonização, todas coisas que criaram mais prosperidade junto a mais igualdade. Não será fácil. Passaremos por mais crises, catástrofes, batalhas pelo poder, mas, no fim do dia, o caminho em direção à igualdade, democracia e prosperidade vai prevalecer.
Em um cenário em que nada disso aconteça, em que as propostas do relatório nunca sejam implementadas, como o senhor vê o mundo daqui a 50 anos?
Se o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por consequência, mais instável que o atual. Mas esse futuro distópico não vai acontecer, eu acredito nisso. As forças tecnonacionalistas até podem ganhar algumas eleições, mas, como elas não sabem como resolver os problemas estruturais do mundo, o futuro será multipolar com uma prevalência das forças democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.
Vinícius Mendes
Está acontecendo agora uma convenção, no âmbito da ONU, de cooperação global para um imposto sobre os ricos. Haverá uma sessão de negociações entre representantes dos governos em Nairóbi, no Quênia, em novembro, em que o Brasil participará ao lado de outros países que já se mostraram favoráveis.
A agenda existe para incluir mais atores no sistema tributário internacional — em especial países do Sul global que não querem ver as riquezas serem extraída dos mais pobres em benefício de interesses econômicos das economias do Norte. É uma questão de soberania. Essa é apenas uma das questões.
Nós já sabemos que alguns países, em particular os Estados Unidos, vão votar contra a convenção, mas ela está sendo construída para adotar a fórmula da maioria, o que será muito importante em comparação a outras convenções, como a do clima, que se baseia na unanimidade.
As convenções do clima (COPs), então, não funcionam mais?
Eu não diria que são um fracasso, mas tampouco são um tremendo sucesso: ainda que ocorram anualmente, elas não conseguem tomar decisões, porque se baseiam nesse modelo de unanimidade.
Esse desenho do projeto da convenção tributária da ONU será definido no ano que vem, mas já está claro que as decisões serão tomadas com base na maioria qualificada, porque é importante levar em conta os tamanhos das populações nacionais. Não dá para ter países pequenos, por exemplo, com os direitos de voto iguais a um Brasil, mas tampouco queremos ver os países ricos capturando esse processo.
Mas e se países ricos e grandes, como os EUA, não quiserem participar?
Nós sabemos que os EUA não vão querer participar, tanto quanto sabemos que, para a reforma do sistema monetário internacional, eles seriam necessários. Mas a proporção da população norte-americana em relação à global, ou mesmo a participação deles no PIB mundial, já está começando a cair. Eles podem perder seu poder de veto.
Aliás, sabe uma coisa que ninguém fala e nós destacamos no relatório? O FMI tem uma regra de que, se um país reúne 15% dos direitos de voto, seja pela população que tem ou pelo tamanho da economia, pode vetar qualquer decisão importante, como a criação de "direitos especiais de saque" (Special Drawing Rights, SDRs em inglês), que são, nada mais nada menos, que o embrião de uma... moeda internacional. Mas, como os EUA têm esses 15% de direitos de voto, eles vetam. Os governos republicanos sempre o fizeram.
Mas, após a crise financeira de 2008 e da pandemia, governos democratas permitiram ao FMI criar alguns SDRs distribuídos pelo PIB do país ou pela proporção dos direitos de votos. Não foi um grande avanço, porque eu entendo que é melhor distribuí-los pelo tamanho da população de cada país ou os danos climáticos que ele gera.
Isso mudará, então, quando os EUA perderem o poder de veto?
Eles vão perder esse poder de veto muito em breve, porque, se hoje os EUA detêm cerca de 15% do PIB mundial e, por consequência, dos direitos de voto no FMI, logo eles vão cair para perto de 10%. Eu diria que isso vai acontecer pelos próximos 10 ou 20 anos. Poderemos ver uma mudança na estrutura do fundo.
Então, para responder à pergunta lá do início: precisamos ser muito pragmáticos. Em alguns casos, será necessário criar novas instituições com aquela "coalizão incompleta", como para cooperação tributária internacional ou, talvez, para criar um imposto global sobre a riqueza para custear as reparações climáticas, por exemplo.
Esse nervosismo que vemos, hoje, em Washington, para dizer o mínimo, tem a ver com o fato de os EUA estarem perdendo o controle sobre o mundo. Daí, os nacionalistas, como Trump, reagem desesperados, colocando as armas na mesa. Elas são mais um sinal de fraqueza do que de força.
Qual é o papel do Brasil em tudo isso?
Países como o Brasil têm o papel de remoldar o balanço global de poder, de colocar essa conversa global na direção certa. O Brasil contribuiu muito com isso no passado, e será muito triste para o próprio país tanto quanto para o mundo se o Brasil seguir na direção do nacionalismo trumpista daqui algumas semanas.
Precisamos do Brasil contribuindo para reconstruir o sistema monetário, econômico internacional em um sentido muito mais inclusivo, igualitário, democrático e consciente sobre o clima. Sob o governo Lula, houve um papel importante de propor um imposto a bilionários na agenda do G20. Ela quase foi adiante. Eu acredito que, se houvesse um apoio mais firme da Índia ali, em particular, teria se criado uma coalizão do Sul global que tornaria a resistência do Norte a ficar muito mais difícil. Mesmo sem esse apoio, muitos países europeus já ficaram constrangidos em negar a proposta. Não apoiaram, mas não souberam dizer "não".
Por quê?
Porque é uma situação difícil para eles. De um lado, eles não querem pagar pela reparação climática, mas, de outro, eles sabem que carregam a responsabilidade histórica enorme das suas emissões de carbono. É impossível negá-la. Mais do que isso: eles sabem que não podem cobrar mais impostos — para pagar reparação — de suas classes trabalhadores ou das suas classes médias. Logo, em algum momento, terão que aceitar que são os mais ricos, em especial bilionários, os que deverão arcar com essa conta. Isso vale, é importante dizer, tanto para bilionários do Norte quanto do Sul. Se um país tal como o Brasil — ou como uma África do Sul, uma Índia, uma Indonésia — coloca pressão sobre as questões climáticas ou de justiça econômica, fica impossível resistir.
Vejo o Brasil pronto para articular isso, não só como parte do Sul, mas também por ser um país grande. Será triste se ele perder a dimensão internacionalista, progressista e colocar, no lugar, uma visão estreita, tecnocapitalista e tecnonacionalista. Ela não vai resolver os problemas do mundo nem os do Brasil. Eu acho, inclusive, que essa agenda já vai ser derrotada na eleição que se aproxima nos EUA e nos próximos anos também. Assim, vai ser estranho o Brasil se mover em uma direção errada no momento errado.
Ao mesmo tempo, as agendas das direitas radicais globais se baseiam no mérito individual como verdadeiro produtor de justiça econômica, e não a redistribuição de renda (defendida pela esquerda). Essas agendas são populares – como se vê no Brasil, por exemplo. (Para a esquerda), não seria necessário fazer a agenda da redistribuição voltar a ter apelo popular?
A esquerda perdeu suas ambições de fazer propostas para reduzir desigualdades, para redistribuir a riqueza. Veio um consenso em torno da liberalização dos mercados e de diminuir a progressividade dos impostos, o que prejudicou muito as classes com renda baixa tanto quanto as médias. Em muitos casos, esquerdas e centro-esquerdas estão se associando a políticas pró-corporações. É uma abertura para retóricas nacionalistas. Às vezes, elas são mais pró-capitalismo que os próprios partidos centristas. Elas fazem isso para atrair eleitores das classes baixas, médias, e enfatizando a dimensão nacionalista que, como eu disse, não vai resolver os problemas.
Inclusive, nem os eleitores estão tão confiantes na agenda trumpista. Eles sabem que os partidos estão propondo um mesmo modelo de desenvolvimento que não integra a desigualdade, mas não veem alternativa. Essa é a principal explicação.
É uma questão de repetição das propostas, portanto?
Se você passa anos a fio dizendo para a opinião pública que não há políticas econômicas alternativas, que os governos precisam todos seguir a mesma agenda pró-corporações e que a única coisa que eles podem realmente fazer é controlar suas fronteiras, depois de 20, 30 anos, o resultado é um debate político que se resume em controle fronteiriço e identidade.
Abandonamos as discussões sobre políticas econômicas, sobre a estrutura de classes, sobre as desigualdades socioeconômicos. Mas, se a gente reabri-las, as coisas vão começar a mudar, porque, na prática, se você olhar para os governos nacionalistas no poder hoje, depois de alguns anos a opinião pública já não estará tão satisfeita com eles. Basta olhar para as taxas de popularidade de Trump nos EUA. É isso que me deixa otimista, a longo prazo, com a volta de soluções internacionalistas, democráticas e mais igualitárias — como as que apresentamos no relatório. Não será fácil.
Mas haverá algum ponto de ruptura, na sua opinião?
Não dá para prever que tipo de catástrofe política, que tipo de crise levará à transição, mas é importante discutir como queremos nos reorganizar antes que aconteça. Temos que estar prontos para, no momento, apresentar uma alternativa.
Escrevi um livro sobre história da desigualdade (Uma breve história da igualdade, Intrínseca, 2022) e, uma coisa que eu aprendi é que, em períodos críticos, em que as sociedades precisam mudar o sistema, fazer mudanças institucionais, elas devem estar prontas para fazê-lo. Foi assim que surgiram a seguridade social, os serviços públicos, a educação universal e gratuita, o sufrágio, os direitos trabalhistas, a decolonização, todas coisas que criaram mais prosperidade junto a mais igualdade. Não será fácil. Passaremos por mais crises, catástrofes, batalhas pelo poder, mas, no fim do dia, o caminho em direção à igualdade, democracia e prosperidade vai prevalecer.
Em um cenário em que nada disso aconteça, em que as propostas do relatório nunca sejam implementadas, como o senhor vê o mundo daqui a 50 anos?
Se o curso não mudar, o mundo ficará mais desigual e mais quente. Por consequência, mais instável que o atual. Mas esse futuro distópico não vai acontecer, eu acredito nisso. As forças tecnonacionalistas até podem ganhar algumas eleições, mas, como elas não sabem como resolver os problemas estruturais do mundo, o futuro será multipolar com uma prevalência das forças democráticas. E isso, principalmente, pela pressão que sairá do Sul global.
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