Nasci em 1978. Quando era ainda muito pequeno, tive um brinquedo que nunca mais esqueci: um robot que falava espanhol. A memória já não me permite reproduzir exatamente as palavras, mas dizia qualquer coisa como: “Sou um ser de outra galáxia. Anda comigo.”
Quase meio século depois, percebo a ironia: eu fui.
Cresci numa época em que os computadores começavam lentamente a entrar nas nossas vidas. Vi-os passar de máquinas estranhas, reservadas a poucos, para objetos domésticos. Vi aparecer o computador pessoal, os jogos, os primeiros chats, a Internet, o telemóvel, os motores de busca, as redes sociais e o smartphone. Coisas que hoje uma criança considera absolutamente banais pareciam ficção científica durante a minha infância.
Talvez por isso tenha acabado por estudar Engenharia Electrotécnica e de Computadores, na área de Controlo e Robótica. Sempre me fascinou a automação. Ainda hoje consigo ficar fascinado a observar uma fábrica praticamente autónoma, com robots, sensores, transportadores e sistemas de controlo a executarem movimentos sucessivos com uma precisão extraordinária.
Enquanto estudava, porém, havia uma pergunta que me ocorria repetidamente: porque é que certas coisas ainda não podiam ser automatizadas?
A resposta era frequentemente simples: porque a máquina sabia executar aquilo que tínhamos conseguido prever e programar. Perante o inesperado, a inteligência continuava do nosso lado.
Entretanto, alguma coisa mudou.
Hoje observo os humanoides a caminhar, equilibrar-se, manipular objetos e aprender tarefas. Já não estamos apenas a construir máquinas para ambientes especialmente preparados para elas. Estamos a tentar construir máquinas capazes de funcionar num mundo concebido para nós.
E chegou a Inteligência Artificial.
Também sou do tempo dos primeiros chats. Na altura, o computador era apenas o intermediário: de um lado estava uma pessoa, do outro outra pessoa. Seria quase impensável imaginar que, algumas décadas depois, eu pudesse sentar-me diante de um ecrã e conversar longamente com uma máquina sobre ciência, História, engenharia, deficiência, emoções ou sobre o próprio futuro da Inteligência Artificial.
É precisamente isso que estou a fazer hoje.
Não significa que devamos receber cada inovação sem perguntas. A IA traz problemas sérios: emprego, privacidade, desinformação, dependência tecnológica, concentração de poder e até a possibilidade de começarmos a delegar demasiado do nosso próprio raciocínio.
Mas há outro fenómeno igualmente extraordinário: o impacto psicológico de percebermos que a máquina deixou de ser apenas uma ferramenta que executa instruções e começou a tornar-se um interlocutor capaz de responder, interpretar e produzir.
Para quem nasceu nos anos 70, talvez seja difícil encontrar outro período da própria vida em que tantas fronteiras tecnológicas tenham caído tão depressa. É possível que seja apenas uma perceção geracional. Afinal, outras gerações assistiram à eletricidade, ao automóvel, ao avião, à rádio, à televisão ou aos antibióticos.
Mas a nossa atravessou uma transformação peculiar: conhecemos o mundo analógico, assistimos à sua digitalização e estamos agora a entrar numa época em que as máquinas começam a participar no próprio processo intelectual.
Não sei onde isto nos levará. E talvez seja precisamente essa a parte mais fascinante.
Aos 48 anos, olho para os humanoides que começam a sair dos laboratórios e lembro-me daquele pequeno robot da minha infância.
“Sou um ser de outra galáxia. Anda comigo.”
Eu fui.
E tenho a estranha sensação de que a viagem ainda agora começou.
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