segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Colapso climático que levou à "Odisseia" pode se repetir
Com exceção dos monstros, esse é um mundo baseado na realidade. A Odisseia – uma história de sobrevivência num contexto pós-Guerra de Tróia – se passa durante o colapso da civilização na Idade do Bronze.
De acordo com um novo estudo, essa situação de crise foi causada por uma grave mudança climática. Na pesquisa, os autores alertam sobre "implicações para o futuro".
Os cientistas já sabem há muito tempo da existência de seca misteriosa e severa que ocorreu há mais de 3 mil anos, coincidindo com a desintegração de reinos e estados em toda a região do Mediterrâneo.
Mas a pesquisa publicada no mês passado lança luz sobre a possível causa dessa crise. De acordo com o estudo, uma tendência lenta de ressecamento, combinada com um ciclo natural mais rápido de clima seco, acabou se sobrepondo e intensificando o fenômeno.
No final da Idade do Bronze, o sistema de monções da África Ocidental já vinha se reduzindo havia milhares de anos, transformando um Saara verde em deserto. Menos chuvas na África significaram menos chuvas no Mediterrâneo.
Essa tendência se intensificou quando a região passou por um período de seca causado por ciclos climáticos naturais do Atlântico, que fazem com que a região oscile entre períodos úmidos e de estiagem que duram décadas.
Katherine Power, pesquisadora da Universidade de Estocolmo que liderou o estudo, afirma que as condições ambientais da época poderiam explicar a migração em massa e os conflitos da era da Odisséia.
Há décadas, os estudiosos vêm especulando sobre a razão por trás desse movimento em grande escala durante o período — também conhecido como a era dos "Povos do Mar".
Arqueólogos argumentam que as mudanças climáticas poderiam ajudar a explicar a migração e o colapso político no final da Idade do Bronze. Agora, as novas descobertas acrescentam mais peças a esse quebra-cabeça.
"Não sabemos necessariamente por que essas pessoas se deslocaram", diz Power. "Mas se pudermos dizer que o clima estava ficando cada vez mais difícil para a sobrevivência, essa poderia ser uma possível causa."
Uma "tempestade perfeita"
Essa situação, afirma a pesquisadora da Universidade de Estocolmo, é relevante para os dias de hoje. Os principais rios da Europa estão com níveis recordes de baixa, e a estiagem está criando condições para incêndios florestais devastadores, além de causar perdas históricas nas colheitas. A França, por exemplo, enfrenta a menor safra de milho em 50 anos.
Os mesmos ciclos de umidade e seca provenientes do Atlântico ainda existem, mas agora ocorrem no contexto de um mundo que está se aquecendo como resultado da queima de petróleo, gás e carvão pelos seres humanos.
"Acho que isso é ainda mais alarmante e representa uma ameaça ainda maior", argumenta Power.
Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, autor de um livro sobre as origens da crise da Idade do Bronze, acrescenta que a seca e as doenças fizeram parte da "tempestade perfeita de calamidades" que levou ao colapso da sociedade naquela época.
Ele vê paralelos entre a crise na Idade do Bronze e o contexto atual. Cline diz que "devemos ficar muito preocupados" com a possibilidade de que as mudanças climáticas se tornem um fator de estresse para o colapso da civilização. "Esse temor não é nada exagerado."
Mas o arqueólogo afirma que, nos momentos mais otimistas, acredita que a humanidade vai "cair em si e evitar essa possibilidade em algum momento".
A pesquisa de Power buscou desvendar os padrões por trás dos eventos isolados de seca na Idade do Bronze.
Foram examinados esporos de plantas, núcleos de gelo, rochas de cavernas e outros registros naturais que indicavam a ocorrência de estiagem. Em seguida, a pesquisadora e a coautora, a paleoclimatologista Qiong Zhang, também da Universidade de Estocolmo, recorreram à modelagem para obter uma visão mais ampla do contexto geral da época.
O modelo analisou todo o planeta, sobreposto por uma grade em que cada célula abrangia uma área de aproximadamente 125 quilômetros quadrados. Um supercomputador calculou então as condições em cada uma dessas células, para cada mês, ao longo de milhares de anos. Isso permitiu que as cientistas analisassem toda a região do Mediterrâneo.
"Não estamos limitados a apenas um núcleo ou uma caverna", disse Power. "Podemos enxergar mais longe e construir um panorama completo."
O que as pesquisadoras descobriram não foi um único evento que alterou o clima de forma dramática e repentina. Em vez disso, ciclos mais curtos de umidade e seca se alinharam a uma tendência mais longa de aquecimento.
"Quando procuramos conexões entre as mudanças climáticas e as mudanças na civilização, muitas vezes estamos à procura daquele evento grande, gigantesco, abrupto e catastrófico", aponta Power, acrescentando que são mudanças lentas e graduais que levam uma sociedade a "ultrapassar um limiar".
Segundo a pesquisadora, poderia ter sido uma queda constante no abastecimento de água que levou a um declínio gradual nas colheitas, o que fez pessoas migrarem, desencadeando conflitos.
"Não é preciso muito para empurrar uma sociedade para além do limite com o qual ela se sente confortável", diz Power. "E se você acrescentar mais algum fator à equação? Talvez isso a empurre um pouco mais adiante, e você não consiga se recuperar totalmente disso."
Maggie Quinlan
Fome por 'lama'
A metáfora é tão apropriada que parece quase improvisada: os ingredientes sintéticos são concebidos para estimular as papilas gustativas, mas carecem de fibras, vitaminas, proteínas ou aminoácidos essenciais. Quanto mais se come, mais fome se sente. Essa insatisfação, que já deveria ser motivo suficiente para evitar o alimento, é, no entanto, o segredo do seu sucesso. Na década de 1990, um psicólogo chamado Patrick Carnes deu a esse estranho fenômeno um nome : vínculo traumático .
O vínculo traumático explica por que tantas pessoas permanecem presas em relacionamentos exploradores ou abusivos. É difícil de entender porque a explicação desafia o senso comum: elas não agem assim apesar do abuso, mas precisamente por causa dele. Elas retornam ao abusador repetidamente, como alguém que volta a uma máquina caça-níqueis que engole todas as suas moedas, na esperança de que desta vez sua lealdade seja recompensada com um momento de afeto. O aspecto perverso do sistema é que a máquina funciona melhor quando começa a distribuir menos prêmios, e os que distribui são cada vez piores, porque o processo degrada tanto os padrões da pessoa que, quando um alívio temporário chega, ela o recebe com a intensidade mística de uma aparição mariana. Elas transformam um gesto cotidiano, como lembrar um aniversário, em prova de um amor transcendente.
Em 2019, publiquei um livro que começava descrevendo o mesmo fenômeno, mas com foco nas redes sociais, não na IA . Naquela época, a máquina ainda distribuía prêmios. Havia algumas coisas muito interessantes que só existiam no Twitter, Instagram ou TikTok, mas o padrão de abuso já era evidente. Sabíamos que seus algoritmos opacos eram projetados para explorar a privacidade dos usuários, maximizando o tempo de interação. À medida que as plataformas se tornaram monetizadas, dois tipos de conteúdo floresceram: aqueles capazes de gerar o máximo de interação com o mínimo de orçamento e aqueles criados por agentes oportunistas para manipular a população.
A mediocridade é o resultado final desse processo: conteúdo curto, repetitivo, derivado e fragmentado, produzido em larga escala, otimizado para viralizar em questão de horas e, nos piores casos, explorar a instabilidade política e se aproveitar da nossa vulnerabilidade emocional. E isso corrói nossa capacidade de apreciar outras coisas que exigem investimento financeiro e esforço, como jornalismo ou literatura. Relacionamentos saudáveis são tediosos e demandam algo mais difícil do que submissão.
Como disse Jung, aquilo que permanece inconsciente tende a nos guiar, por isso vale a pena entender seu estranho mecanismo: não nos captura apesar de sua estupidez, mas precisamente por causa dela. Nos deixa tão famintos que nos força a comer mais. E essa dieta nos degrada até que não saibamos mais como comer outra coisa. É por isso que se chama degeneração cerebral.
Deforma eleitoral beneficiou sigla ligada à Universal
Agora, um estudo sugere que essa mudança produziu um efeito inesperado: esses limites mais rígidos de gastos deram vantagem ao Republicanos, partido historicamente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
Segundo os pesquisadores, a vantagem está relacionada à estrutura da Universal e que reflete no Republicanos: presença territorial, capacidade de mobilização e uma organização altamente centralizada - em um momento em que os demais partidos têm menos acesso ao montante para realizar campanhas.
"A igreja é uma maneira de se mobilizar fora do seio dos partidos políticos. Ela é muito influente e, além de tudo, não precisa de financiamento eleitoral, dado que é um tipo de organização que não precisa se preocupar em atrair recursos para as eleições”, afirma Lucas Novaes, professor de Ciência Política do Insper e um dos autores da pesquisa Special Interest Trade-Offs: Campaign Finance Reforms and Religious Influence in Politics in Brazil ("Compromissos entre interesses especiais: reformas no financiamento de campanhas eleitorais e influência religiosa na política brasileira") ao lado de Melani Cammett, de Harvard, e Guadalupe Tuñón, de Princeton.
A mudança começou a valer nas eleições municipais de 2016. Os gastos de campanha passaram a ter limites definidos por lei, calculados a partir do que havia sido desembolsado na eleição anterior.
Mas a regra estabeleceu um ponto de corte: municípios cujo maior gasto em 2012 ficou abaixo de determinado valor receberam um teto fixo em 2016, enquanto aqueles logo acima do corte tiveram um limite proporcionalmente maior. Isso fez com que cidades com gastos muito semelhantes em uma eleição fossem submetidos a tetos diferentes quatro anos depois, criando o que os pesquisadores classificam como um experimento natural.
Na prática, municípios situados imediatamente abaixo do corte ficaram sujeitos a um teto de R$ 108.039, enquanto, logo acima dele, o limite saltava para R$ 133.700, valores já corrigidos pela inflação entre 2012 e 2016. A diferença permitiu comparar cidades semelhantes, mas sujeitas a restrições distintas, e estimar o efeito de campanhas com menos dinheiro disponível.
Assim, candidatos de um grupo tiveram uma restrição maior de recursos, enquanto os do outro puderam gastar mais. Isso permitiu comparar os dois grupos e estimar o efeito provocado especificamente por uma campanha com menos dinheiro disponível, mostra o estudo.
"Nesses municípios [com maior restrição], os candidatos do Republicanos, por poderem contar com o auxílio das igrejas para a mobilização eleitoral, têm mais incentivos para concorrer. A competição se torna mais favorável porque candidatos de outros partidos não podem gastar tanto com mecanismos tradicionais de campanha, como a contratação de cabos eleitorais”, diz Lucas.
A vantagem identificada pelos pesquisadores está ligada a uma relação entre igreja e partido que vai muito além do apoio a determinadas candidaturas. De acordo com Maria das Dores Campos Machado, professora aposentada da UFRJ e pesquisadora de religião e política, o Republicanos funciona como braço político da Igreja Universal, servindo tanto para lançar candidaturas aos poderes Legislativo e Executivo nos estados e municípios quanto para ampliar a influência da igreja junto ao governo federal.
"Em algumas regiões os escritórios de campanha dos candidatos da IURD ficam em edifícios pertencentes à Igreja ou em área anexa ao templo. As fronteiras entre a religião e a política são muito fluídas e porosas", afirma. "Os recursos são de várias naturezas: os cultos são momentos importantes para apresentar ou defender candidaturas; usa-se também as gráficas para a produção de material de divulgação; uso de pessoal, obreiros e obreiras para convencer o eleitor nas ruas; uso da mídia religiosa, etc."
A proximidade entre igreja e partido também é percebida na forma de organização das duas instituições. Segundo Claudia Cerqueira, cientista política e pesquisadora da relação entre a Igreja Universal e o Republicanos, ambas são estruturadas de cima para baixo, em uma relação que ela classifica como quase corporativa.
Na avaliação da pesquisadora, a atuação dos candidatos do Republicanos é orientada mais por questões econômicas e de poder do que propriamente religiosas. As pautas de moral e costumes teriam uma presença mais reativa, enquanto temas econômicos aparecem de forma recorrente na atuação política de seus representantes.
"E isso tem muita relação com o tipo de candidaturas que a igreja tenta emplacar. Tem um termo de 'candidatura corporativa', ou seja, quem concorre pela IURD não é simplesmente um candidato pastor, ele é um cara que representa os interesses da igreja. Por isso acabaram incorporando todas essas atividades que são necessariamente já pautadas pelo partido e igreja", afirma.
Segundo a pesquisa, a maneira centralizada de gestão também fortalece o controle do Republicanos sobre seus quadros, facilitando sua permanência no partido e sua mobilização em outras campanhas e pautas partidárias. "Se a Igreja vira um ativo político e é centralizada, se esse político migrar de partido, ele não vai conseguir levar consigo a organização da Igreja e os benefícios que a Igreja traz para a sua carreira política", conta Lucas Novaes.
Essa centralização também diferencia o Republicanos de outros partidos historicamente ligados a igrejas evangélicas brasileiras. Um dos exemplos citados no estudo é o Partido Social Cristão (PSC), que manteve uma relação com a Assembleia de Deus e, em 2023 foi incorporado pelo Podemos.
"A Igreja Assembleia de Deus é fragmentada e não tem o mesmo modelo de governo e atuação que a IURD. Embora as duas igrejas trabalhem na formação de lideranças para a política partidária, a IURD é uma igreja bem vertical, com uma orientação centralizada e uma grande capacidade de controle sobre seus quadros políticos”, afirma Maria das Dores Campos Machado.
Na prática, a vantagem proporcionada pela estrutura da Universal se refletiu também na estratégia eleitoral do Republicanos. Segundo o estudo, o partido passou não só a vencer mais, como também a lançar mais candidatos nos municípios submetidos aos limites mais rígidos de gastos.
"A gente vê, através disso, que, de fato, aumentaram muito as candidaturas do Republicanos nesses municípios tratados e, além disso, aumentou a quantidade de candidatos eleitos do Republicanos nesses municípios, em comparação aos municípios de controle, que são aqueles onde se pode gastar mais", diz Lucas.
Os resultados também foram influenciados desde o início da nova regra. Nos municípios em que os locais de votação estavam mais próximos dos templos da Igreja Universal, os limites mais rígidos aumentaram a vantagem eleitoral do Republicanos; nos municípios em que essa distância era maior, esse efeito não foi identificado. "Nas seções eleitorais mais perto de igrejas, a gente vê também que o apoio cresce ainda mais para o Republicanos”, afirma o pesquisador.
O estudo encontrou ainda um movimento posterior à eleição de 2016: a Universal passou a abrir novas unidades de forma desproporcional nos municípios submetidos aos limites mais rígidos. Até a eleição seguinte, a diferença acumulada chegava perto de um templo adicional nesses locais.
Apesar de o foco do estudo ser nas eleições municipais e seus desdobramentos, para Novaes, porém, a lógica identificada pelo estudo continua relevante para entender como uma base religiosa organizada nos municípios pode se projetar para outras esferas de poder.
"Dentro do que a gente mostra aqui, diminuir o poder econômico teve esse efeito e esse mecanismo é válido. A gente vê que a bancada evangélica continua forte e acho que esse reforço na base municipal provavelmente reflete também em um maior apoio para candidatos do Congresso, que eventualmente conseguem fazer leis ou influenciar o processo legislativo de acordo com as preferências dessa base local", afirma.
Ao mesmo tempo, o crescimento do Republicanos para além de candidaturas diretamente vinculadas à Universal abre frentes que podem ir além das pautas tradicionais do partido. Um exemplo é São Paulo, governado por Tarcísio de Freitas, que se filiou ao Republicanos em 2022 e não construiu sua trajetória política dentro da IURD.
Para a pesquisadora, quanto mais o Republicanos busca ocupar espaço no sistema político e incorporar lideranças de outras origens, maior pode ser a necessidade de acomodar interesses. "Talvez a IURD tenha que abrir mão de muita coisa para crescer e se tornar um player tão importante em um sistema tão fragmentado", conclui.
Procuradas, a IURD, o Republicanos, a Assembleia de Deus e o Podemos não responderam aos questionamentos da reportagem.
Trump quer ampliar produção de petróleo na Venezuela com garantias pára empresas dos EUA
A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.
O programa protege as receitas das vendas de petróleo venezuelano nos EUA contra credores. O novo governo apoiado por Washington alterou a legislação para dar mais autonomia às empresas privadas, reduzindo o controle da estatal PDVSA.
Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos para companhias americanas. Donald Trump diz que o arranjo assegura “controle majoritário” dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris. É uma definição política, não jurídica: o petróleo continua venezuelano.
A Chevron já se prepara para ampliar suas operações. A SLB, maior empresa de serviços e tecnologia para a indústria de petróleo do mundo, moderniza os precários bancos de dados geológicos da PDVSA.
Mas Exxon e ConocoPhillips, expropriadas por Hugo Chávez, continuam ressabiadas. A Venezuela ainda precisa provar que contratos assinados hoje sobreviverão ao próximo governo e que tribunais, câmbio e regras de propriedade serão previsíveis.
A guerra com o Irã deu nova relevância à estratégia. O petróleo venezuelano é pesado, justamente o tipo para o qual muitas refinarias da Costa do Golfo americano foram projetadas. Durante décadas, elas receberam grandes volumes da Venezuela e, depois das sanções, passaram a buscar alternativas, como petróleo pesado do Oriente Médio. A retirada do mercado desse óleo iraniano eleva a competição por outros óleos do mesmo tipo no Golfo Pérsico.
O plano tem boas chances de produzir aumento inicial da oferta para 1,5 milhão ou 1,7 milhão de barris por dia. Chegar novamente perto de 3 milhões é mais difícil. Exigiria dezenas de bilhões de dólares, infraestrutura e anos de estabilidade jurídica.
Trump tenta exercer poder com política energética: retirar petróleo da órbita da China e trazê-lo para a matriz energética americana. O maior risco está na abordagem. Quanto mais o acordo parecer uma nova forma de colonialismo, maior a contestação futura de sua legitimidade na Venezuela.
O silêncio de Flávio Bolsonaro e a miragem autoritária de El Salvador
Em entrevista, ontem à noite, à TV Record, Flávio Bolsonaro voltou a repetir que nada houve de errado com o financiamento do filme “Dark Horse” por Daniel Vorcaro, o dono do extinto Banco Master e o protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil. Disse estar tranquilo e negou que o caso tenha envolvido dinheiro público. Vorcaro está preso e ainda não foi julgado, se é que um dia será. Sua vertiginosa ascensão à condição de um dos homens mais ricos do país deveu-se a favores regiamente pagos por ele a figuras públicas em troca de investimentos em seu banco. Trata-se de dinheiro pago pelos contribuintes por meio de impostos; dinheiro desviado.
Flávio considera que a discussão em torno do assunto “é página virada”. Esquece que prometera esclarecer em 30 dias tudo o que fosse preciso para que não restassem mais dúvidas a respeito. Mas já se passaram 100 dias desde então e ele julga que isso não é mais necessário. Aos insatisfeitos, cabe esperar uma decisão da Justiça.
Nada há de estranho no comportamento de Flávio. Primeiro, porque já recuperou os percentuais de voto perdidos nas pesquisas eleitorais. Segundo, porque qualquer coisa que fale só lhe causará prejuízos. Terceiro, porque os jornalistas que o interrogam, na maioria das vezes, se contentam com o que ele fala, desde que fale. A esse tipo de entrevista, o mais corrente, dá-se o nome de “quebra-queixo”. O jornalista quebra o seu ao perguntar, o entrevistado ao responder. E acaba ficando tudo por isso mesmo. A cada um, a sua missão. A do entrevistador, cumprir sua pauta, ou a que lhe deram. A do entrevistado, enganar o distinto público. Bola pra frente.
Na manhã de ontem, em um hotel no centro de São Paulo, Flávio reuniu-se com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Nayib Bukele, de El Salvador, a meca dos candidatos da extrema-direita à Presidência dos seus países na América Latina. Em El Salvador, bandido bom é bandido morto. De acordo com Flávio, Bukele e Villatoro foram responsáveis por “implementar um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania e devolver a segurança pública para o povo deles, o povo salvadorenho”. Aqui, acrescentou Flávio, “tem pouco preso. Tinha que ter mais, só não tem mais porque a legislação é frouxa”.
Que nada. A população carcerária no Brasil é de cerca de 965 mil pessoas, segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. É a terceira maior do mundo e cresce a uma taxa média de 3,3% ao ano desde o início da década. Há superlotação em 28% dos presídios. El Salvador tem 6,4 milhões de habitantes, dos quais 100 mil estão presos. El Salvador vive um regime de exceção permanente, aprovado pelo Congresso, que suspendeu garantias constitucionais como o direito de defesa. Presos são torturados e mortos. A Câmara Constitucional aprovou um regime de reeleição indefinida do atual governo. Donald Trump morre de inveja de Bukele. Pelo visto, Flávio também.
Brasileiro é tão bonzinho mesmo?
Kate Lyra tinha razão: brasileiro é muito bonzinho. O que nos falta quando o assunto é Nobel e Copa do Mundo (quem diria, não?) é compensado com o talento para eufemismos.
O governo (este, o de antes, o anterior àquele e por aí afora) nunca é corrupto — apenas chegado a uma maracutaia. A expressão tem um quê de brincadeira infantil, mistura de maracatu e gandaia, a doce acidez do maracujá e a domesticidade da samambaia. Roubar, fraudar, corromper são verbos fortes demais para o nosso paladar — por aqui só rola uma boquinha, uma mamata. Uma ingênua mutreta, um lúdico cambalacho.
Se o presidente esconde gastos e finge que as contas públicas estão em ordem, o crime de responsabilidade contra a lei orçamentária, feito o sapo dos contos de fadas, vira pedalada. Como essas que a gente — no caso, você, porque minha coluna não permite esses arroubos — dá pelo Aterro ou nas ciclovias. Aliás, está arraigado na fala o hábito de não assumirmos nossos atos. Não bisbilhotamos, só damos uma espiada. Nunca fugimos: damos uma escapada. Então o governo nem sequer pedala: dá uma pedalada. Mais um pouco e será só uma voltinha de velocípede.
O diminutivo — que tem menos a ver com tamanho e mais com afeto — é nosso xodó, é coisa nossa. Covid era gripezinha. Crise financeira internacional, marolinha. A tentativa desesperada de criar mais impostos e aumentar a arrecadação, para dar conta da gastança, se transformou em taxa das blusinhas. Peculato é uma palavra muito feia: o desvio de salário de assessores públicos é simplesmente uma rachadinha.
Quem achaca quando você vai estacionar é o flanelinha. O garoto que rouba a carteira ou o celular é o trombadinha. A soltura antecipada de criminosos que o sistema prisional não cuidou de recuperar — e a sociedade que se vire — é uma saidinha. A propina para o policial fazer vista grossa a alguma irregularidade é a cervejinha. Tudo assim, carinhosa e simpaticamente no diminutivo, porque somos um povo cordial e inzoneiro, pouco afeito a ficar criando caso por coisa miúda.
Há também os aumentativos, que não aumentam nada, só deixam tudo mais jocoso: mensalão, tapetão, acordão, pistolão, Centrão, Xandão.
Trapaça para burlar o teto constitucional? Não: penduricalho. Nomeação de pencas de apadrinhados em fim de mandato? Trem da alegria. Emenda aprovada de contrabando com Projeto de Lei ou Medida Provisória? Jabuti. Cargo inútil, para acomodar parentes ou aliados, com salário pago pelo Estado (ou seja, por você e por mim)? Cabide. Empréstimo de nome ou conta para ocultar o responsável por algo ilícito? Laranja. Acordo de bastidores para abafar um escândalo, arquivar um processo, deixar um culpado impune? Pizza.
Como vamos nos indignar com um simpático quelônio, um cítrico rico em vitamina C, um comboio festivo, um balangandã ou a solução milagrosa para a fome e a preguiça de fazer comida?
Um filho do atual presidente — acusado de tráfico de influência e corrupção — e um do seu antecessor — já condenado por coação — são tratados por Lulinha e Bananinha, como se fossem personagens de desenho animado da Sessão da Tarde.
Será difícil tomarmos jeito se continuarmos partidários do jeitinho. Ou nos tornarmos bons de verdade enquanto insistirmos em ser tão bonzinhos.Eduardo Affonso