segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Trump quer ampliar produção de petróleo na Venezuela com garantias pára empresas dos EUA

Os Estados Unidos elaboraram um plano para tornar a Venezuela sua fornecedora estratégica de petróleo. A iniciativa cria, na prática, monopólio para empresas americanas sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, e busca lhes proporcionar segurança política, regulatória, jurídica e financeira.

A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.


O programa protege as receitas das vendas de petróleo venezuelano nos EUA contra credores. O novo governo apoiado por Washington alterou a legislação para dar mais autonomia às empresas privadas, reduzindo o controle da estatal PDVSA.

Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos para companhias americanas. Donald Trump diz que o arranjo assegura “controle majoritário” dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris. É uma definição política, não jurídica: o petróleo continua venezuelano.

A Chevron já se prepara para ampliar suas operações. A SLB, maior empresa de serviços e tecnologia para a indústria de petróleo do mundo, moderniza os precários bancos de dados geológicos da PDVSA.

Mas Exxon e ConocoPhillips, expropriadas por Hugo Chávez, continuam ressabiadas. A Venezuela ainda precisa provar que contratos assinados hoje sobreviverão ao próximo governo e que tribunais, câmbio e regras de propriedade serão previsíveis.

A guerra com o Irã deu nova relevância à estratégia. O petróleo venezuelano é pesado, justamente o tipo para o qual muitas refinarias da Costa do Golfo americano foram projetadas. Durante décadas, elas receberam grandes volumes da Venezuela e, depois das sanções, passaram a buscar alternativas, como petróleo pesado do Oriente Médio. A retirada do mercado desse óleo iraniano eleva a competição por outros óleos do mesmo tipo no Golfo Pérsico.

O plano tem boas chances de produzir aumento inicial da oferta para 1,5 milhão ou 1,7 milhão de barris por dia. Chegar novamente perto de 3 milhões é mais difícil. Exigiria dezenas de bilhões de dólares, infraestrutura e anos de estabilidade jurídica.

Trump tenta exercer poder com política energética: retirar petróleo da órbita da China e trazê-lo para a matriz energética americana. O maior risco está na abordagem. Quanto mais o acordo parecer uma nova forma de colonialismo, maior a contestação futura de sua legitimidade na Venezuela.

O silêncio de Flávio Bolsonaro e a miragem autoritária de El Salvador

O segredo de uma boa entrevista pode ser resumido em três pontos essenciais: a) saber perguntar e o que perguntar; b) saber ouvir para contestar ou não o que foi dito; e c) não deixar passar mentiras. Isso tudo depende do preparo do entrevistador. Requer conhecimento sobre os temas a serem tratados e o alvo de suas perguntas.

Em entrevista, ontem à noite, à TV Record, Flávio Bolsonaro voltou a repetir que nada houve de errado com o financiamento do filme “Dark Horse” por Daniel Vorcaro, o dono do extinto Banco Master e o protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil. Disse estar tranquilo e negou que o caso tenha envolvido dinheiro público. Vorcaro está preso e ainda não foi julgado, se é que um dia será. Sua vertiginosa ascensão à condição de um dos homens mais ricos do país deveu-se a favores regiamente pagos por ele a figuras públicas em troca de investimentos em seu banco. Trata-se de dinheiro pago pelos contribuintes por meio de impostos; dinheiro desviado.


Flávio considera que a discussão em torno do assunto “é página virada”. Esquece que prometera esclarecer em 30 dias tudo o que fosse preciso para que não restassem mais dúvidas a respeito. Mas já se passaram 100 dias desde então e ele julga que isso não é mais necessário. Aos insatisfeitos, cabe esperar uma decisão da Justiça.

Nada há de estranho no comportamento de Flávio. Primeiro, porque já recuperou os percentuais de voto perdidos nas pesquisas eleitorais. Segundo, porque qualquer coisa que fale só lhe causará prejuízos. Terceiro, porque os jornalistas que o interrogam, na maioria das vezes, se contentam com o que ele fala, desde que fale. A esse tipo de entrevista, o mais corrente, dá-se o nome de “quebra-queixo”. O jornalista quebra o seu ao perguntar, o entrevistado ao responder. E acaba ficando tudo por isso mesmo. A cada um, a sua missão. A do entrevistador, cumprir sua pauta, ou a que lhe deram. A do entrevistado, enganar o distinto público. Bola pra frente.

Na manhã de ontem, em um hotel no centro de São Paulo, Flávio reuniu-se com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Nayib Bukele, de El Salvador, a meca dos candidatos da extrema-direita à Presidência dos seus países na América Latina. Em El Salvador, bandido bom é bandido morto. De acordo com Flávio, Bukele e Villatoro foram responsáveis por “implementar um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania e devolver a segurança pública para o povo deles, o povo salvadorenho”. Aqui, acrescentou Flávio, “tem pouco preso. Tinha que ter mais, só não tem mais porque a legislação é frouxa”.

Que nada. A população carcerária no Brasil é de cerca de 965 mil pessoas, segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. É a terceira maior do mundo e cresce a uma taxa média de 3,3% ao ano desde o início da década. Há superlotação em 28% dos presídios. El Salvador tem 6,4 milhões de habitantes, dos quais 100 mil estão presos. El Salvador vive um regime de exceção permanente, aprovado pelo Congresso, que suspendeu garantias constitucionais como o direito de defesa. Presos são torturados e mortos. A Câmara Constitucional aprovou um regime de reeleição indefinida do atual governo. Donald Trump morre de inveja de Bukele. Pelo visto, Flávio também.

Brasileiro é tão bonzinho mesmo?

 Kate Lyra tinha razão: brasileiro é muito bonzinho. O que nos falta quando o assunto é Nobel e Copa do Mundo (quem diria, não?) é compensado com o talento para eufemismos.

O governo (este, o de antes, o anterior àquele e por aí afora) nunca é corrupto — apenas chegado a uma maracutaia. A expressão tem um quê de brincadeira infantil, mistura de maracatu e gandaia, a doce acidez do maracujá e a domesticidade da samambaia. Roubar, fraudar, corromper são verbos fortes demais para o nosso paladar — por aqui só rola uma boquinha, uma mamata. Uma ingênua mutreta, um lúdico cambalacho.

Se o presidente esconde gastos e finge que as contas públicas estão em ordem, o crime de responsabilidade contra a lei orçamentária, feito o sapo dos contos de fadas, vira pedalada. Como essas que a gente — no caso, você, porque minha coluna não permite esses arroubos — dá pelo Aterro ou nas ciclovias. Aliás, está arraigado na fala o hábito de não assumirmos nossos atos. Não bisbilhotamos, só damos uma espiada. Nunca fugimos: damos uma escapada. Então o governo nem sequer pedala: dá uma pedalada. Mais um pouco e será só uma voltinha de velocípede.

O diminutivo — que tem menos a ver com tamanho e mais com afeto — é nosso xodó, é coisa nossa. Covid era gripezinha. Crise financeira internacional, marolinha. A tentativa desesperada de criar mais impostos e aumentar a arrecadação, para dar conta da gastança, se transformou em taxa das blusinhas. Peculato é uma palavra muito feia: o desvio de salário de assessores públicos é simplesmente uma rachadinha.

Quem achaca quando você vai estacionar é o flanelinha. O garoto que rouba a carteira ou o celular é o trombadinha. A soltura antecipada de criminosos que o sistema prisional não cuidou de recuperar — e a sociedade que se vire — é uma saidinha. A propina para o policial fazer vista grossa a alguma irregularidade é a cervejinha. Tudo assim, carinhosa e simpaticamente no diminutivo, porque somos um povo cordial e inzoneiro, pouco afeito a ficar criando caso por coisa miúda.

Há também os aumentativos, que não aumentam nada, só deixam tudo mais jocoso: mensalão, tapetão, acordão, pistolão, Centrão, Xandão.

Trapaça para burlar o teto constitucional? Não: penduricalho. Nomeação de pencas de apadrinhados em fim de mandato? Trem da alegria. Emenda aprovada de contrabando com Projeto de Lei ou Medida Provisória? Jabuti. Cargo inútil, para acomodar parentes ou aliados, com salário pago pelo Estado (ou seja, por você e por mim)? Cabide. Empréstimo de nome ou conta para ocultar o responsável por algo ilícito? Laranja. Acordo de bastidores para abafar um escândalo, arquivar um processo, deixar um culpado impune? Pizza.

Como vamos nos indignar com um simpático quelônio, um cítrico rico em vitamina C, um comboio festivo, um balangandã ou a solução milagrosa para a fome e a preguiça de fazer comida?

Um filho do atual presidente — acusado de tráfico de influência e corrupção — e um do seu antecessor — já condenado por coação — são tratados por Lulinha e Bananinha, como se fossem personagens de desenho animado da Sessão da Tarde.

Será difícil tomarmos jeito se continuarmos partidários do jeitinho. Ou nos tornarmos bons de verdade enquanto insistirmos em ser tão bonzinhos.
Eduardo Affonso