Kate Lyra tinha razão: brasileiro é muito bonzinho. O que nos falta quando o assunto é Nobel e Copa do Mundo (quem diria, não?) é compensado com o talento para eufemismos.
O governo (este, o de antes, o anterior àquele e por aí afora) nunca é corrupto — apenas chegado a uma maracutaia. A expressão tem um quê de brincadeira infantil, mistura de maracatu e gandaia, a doce acidez do maracujá e a domesticidade da samambaia. Roubar, fraudar, corromper são verbos fortes demais para o nosso paladar — por aqui só rola uma boquinha, uma mamata. Uma ingênua mutreta, um lúdico cambalacho.
Se o presidente esconde gastos e finge que as contas públicas estão em ordem, o crime de responsabilidade contra a lei orçamentária, feito o sapo dos contos de fadas, vira pedalada. Como essas que a gente — no caso, você, porque minha coluna não permite esses arroubos — dá pelo Aterro ou nas ciclovias. Aliás, está arraigado na fala o hábito de não assumirmos nossos atos. Não bisbilhotamos, só damos uma espiada. Nunca fugimos: damos uma escapada. Então o governo nem sequer pedala: dá uma pedalada. Mais um pouco e será só uma voltinha de velocípede.
O diminutivo — que tem menos a ver com tamanho e mais com afeto — é nosso xodó, é coisa nossa. Covid era gripezinha. Crise financeira internacional, marolinha. A tentativa desesperada de criar mais impostos e aumentar a arrecadação, para dar conta da gastança, se transformou em taxa das blusinhas. Peculato é uma palavra muito feia: o desvio de salário de assessores públicos é simplesmente uma rachadinha.
Quem achaca quando você vai estacionar é o flanelinha. O garoto que rouba a carteira ou o celular é o trombadinha. A soltura antecipada de criminosos que o sistema prisional não cuidou de recuperar — e a sociedade que se vire — é uma saidinha. A propina para o policial fazer vista grossa a alguma irregularidade é a cervejinha. Tudo assim, carinhosa e simpaticamente no diminutivo, porque somos um povo cordial e inzoneiro, pouco afeito a ficar criando caso por coisa miúda.
Há também os aumentativos, que não aumentam nada, só deixam tudo mais jocoso: mensalão, tapetão, acordão, pistolão, Centrão, Xandão.
Trapaça para burlar o teto constitucional? Não: penduricalho. Nomeação de pencas de apadrinhados em fim de mandato? Trem da alegria. Emenda aprovada de contrabando com Projeto de Lei ou Medida Provisória? Jabuti. Cargo inútil, para acomodar parentes ou aliados, com salário pago pelo Estado (ou seja, por você e por mim)? Cabide. Empréstimo de nome ou conta para ocultar o responsável por algo ilícito? Laranja. Acordo de bastidores para abafar um escândalo, arquivar um processo, deixar um culpado impune? Pizza.
Como vamos nos indignar com um simpático quelônio, um cítrico rico em vitamina C, um comboio festivo, um balangandã ou a solução milagrosa para a fome e a preguiça de fazer comida?
Um filho do atual presidente — acusado de tráfico de influência e corrupção — e um do seu antecessor — já condenado por coação — são tratados por Lulinha e Bananinha, como se fossem personagens de desenho animado da Sessão da Tarde.
Será difícil tomarmos jeito se continuarmos partidários do jeitinho. Ou nos tornarmos bons de verdade enquanto insistirmos em ser tão bonzinhos.Eduardo Affonso
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