domingo, 23 de agosto de 2026
Um pacto nacional contra o crime
Transparece no noticiário um crescimento da violência urbana em estados governados pelo PT. Mas inferências generalizantes por números de ocorrências ainda fornecem uma imagem desfocada da criminalidade vivida em todo o país. É sem dúvida insuportável a proliferação dos assaltos armados, balas perdidas, até drones explosivos nas metrópoles brasileiras. Entretanto, apenas estatísticas de mortes violentas não caracterizam insegurança maior numa região. Organizado, o crime altera o paradigma de abordagem do fenômeno.
O foco tradicional incide sobre o modelo de confronto entre Estado e facções criminosas, adequado a países da centralidade capitalista, com forte sociedade civil e corrupção controlada. Para nações periféricas, porém, vale evocar o conceito de Estado ampliado, em que Gramsci faz a crítica da identificação do Estado apenas com seus aparelhos coercitivos (governo, Forças Armadas, polícia e tribunais). E amplia com sociedade civil, que engloba as instituições (escolas, igrejas, mídia etc.) responsáveis pelo consenso de ideias, valores e crenças.
Acontece que esse modelo de Estado ampliado, sustentado pela hegemonia do bloco dirigente, pode se fragilizar devido a crises de confiança no pacto consensual entre povo e poder estatal. A descrença nas políticas públicas e o aumento desmesurado dos índices criminais são alarmantes. O anseio de paz e proteção desperta pulsões vingativas de segurança por repressão ilimitada ou matanças. Vale então ponderar o conceito de reversão (Jean Baudrillard, em "A Troca Simbólica e a Morte"), segundo o qual todo sistema que se expande sem limites tende a produzir um movimento contrário, que o desestabiliza. O excesso de segurança produziria maior insegurança.
É o caso da hipersegurança armada. Jamais funcionou nas potências, muito menos na periferia do grande capital, em que o povo sempre foi matéria-prima (com escasso valor agregado) de exploração do Estado e, agora, refém do crime. A visão extremista para o problema, em chavões como "bandido bom é bandido morto", só comprova a inanidade institucional da sociedade civil. Hoje, afim ao pretexto trumpista para construção do "escudo das Américas", versão armada da internacional direitista.
Na época de Gramsci, o Estado não enfrentava a crise de uma sociedade civil drogada pelo consumo de química e mídia nem atravessada pelo acidente histórico de uma criminalidade cuja intensidade corruptiva faz colapsar o equilíbrio institucional da ampliação Estado/sociedade civil. Uma crise incrementada pelo custo adicional da economia criminosa para o mercado formal.
O pensamento progressista atual não apreende o risco representado pela ruptura do equilíbrio social. Ao afetar qualitativamente o sistema, o acidente da emergência brutal do crime organizado assume proporções de mudança social disruptiva, despercebida pelos anacrônicos quadros cognitivos das militâncias, aquém da era digital.
Entre nós, essa emergência permeia instituições, empresas e altos poderes, em tal escala que Estado coercitivo e sociedade civil se tornam, eles próprios, criminogênicos. Ou seja, chegou-se à metástase social do crime. Daí o embaraço da classe política, parte do problema, com a questão. Daí a urgência de um magno pacto nacional de reajuste da ação social.
Acontece que esse modelo de Estado ampliado, sustentado pela hegemonia do bloco dirigente, pode se fragilizar devido a crises de confiança no pacto consensual entre povo e poder estatal. A descrença nas políticas públicas e o aumento desmesurado dos índices criminais são alarmantes. O anseio de paz e proteção desperta pulsões vingativas de segurança por repressão ilimitada ou matanças. Vale então ponderar o conceito de reversão (Jean Baudrillard, em "A Troca Simbólica e a Morte"), segundo o qual todo sistema que se expande sem limites tende a produzir um movimento contrário, que o desestabiliza. O excesso de segurança produziria maior insegurança.
É o caso da hipersegurança armada. Jamais funcionou nas potências, muito menos na periferia do grande capital, em que o povo sempre foi matéria-prima (com escasso valor agregado) de exploração do Estado e, agora, refém do crime. A visão extremista para o problema, em chavões como "bandido bom é bandido morto", só comprova a inanidade institucional da sociedade civil. Hoje, afim ao pretexto trumpista para construção do "escudo das Américas", versão armada da internacional direitista.
Na época de Gramsci, o Estado não enfrentava a crise de uma sociedade civil drogada pelo consumo de química e mídia nem atravessada pelo acidente histórico de uma criminalidade cuja intensidade corruptiva faz colapsar o equilíbrio institucional da ampliação Estado/sociedade civil. Uma crise incrementada pelo custo adicional da economia criminosa para o mercado formal.
O pensamento progressista atual não apreende o risco representado pela ruptura do equilíbrio social. Ao afetar qualitativamente o sistema, o acidente da emergência brutal do crime organizado assume proporções de mudança social disruptiva, despercebida pelos anacrônicos quadros cognitivos das militâncias, aquém da era digital.
Entre nós, essa emergência permeia instituições, empresas e altos poderes, em tal escala que Estado coercitivo e sociedade civil se tornam, eles próprios, criminogênicos. Ou seja, chegou-se à metástase social do crime. Daí o embaraço da classe política, parte do problema, com a questão. Daí a urgência de um magno pacto nacional de reajuste da ação social.
Programa de Flávio: extermínio, entrega de minerais críticos, vida desde a concepção e respeito a todos os arranjos familiares
O programa de Flávio Bolsonaro apresentado ao TSE, Para o Brasil vencer o atraso, registra formalmente um conjunto de moderações que o candidato já anunciava. Traz uma frase impensável no bolsonarismo de 2018 – “Este Plano respeita todos os arranjos familiares” – e uma série de acenos: manter os programas sociais (“nenhum brasileiro fica para trás”); tratar o meio ambiente como “ativo”; zerar o desmatamento ilegal; dar “autonomia” a povos indígenas e quilombolas (que já não são medidos em arrobas, como fez seu pai); proteger as mulheres com o que anuncia como o maior programa da história. E não fala em armamento: o marcador identitário central de anos atrás sai da vitrine.
Aliás, nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.
O desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou – significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem conseguido impor seu repertório.
Então uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?
A literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.
Há também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.
O caso clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia; Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.
Se a desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no vocabulário.
A posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela Editora Contracorrente.
Flávio silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso, o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.
A relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um conteúdo.
O campo da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita, passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual que propomos no livro que mencionei.
Estão todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.
Não é à toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de segurança, antes é a sua canibalização.
Redução da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça – embutido.
O neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola, negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o “Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.
Mas o programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas, protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.
O texto promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de 2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.
Os mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política social como direito e com o entreguismo como política externa.
O programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e, diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas “soluções diplomáticas eficazes”.
Ali se promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra “soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a fragiliza.
O quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica, institucionalizada.
E o “Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –, mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma de guerra cultural.
O privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do mercado sobre a sociedade.
A extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo – mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo igualitário, não.
Deixaria de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos três testes.
Mantém todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”, os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo “narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas; os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de que o complô funciona.
O programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.
A moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.
A moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para adotar sua agenda.
Aliás, nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.
O desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou – significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem conseguido impor seu repertório.
Então uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?
A literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.
Há também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.
O caso clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia; Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.
Se a desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no vocabulário.
A posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela Editora Contracorrente.
Flávio silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso, o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.
A relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um conteúdo.
O campo da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita, passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual que propomos no livro que mencionei.
Estão todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.
Não é à toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de segurança, antes é a sua canibalização.
Redução da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça – embutido.
O neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola, negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o “Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.
Mas o programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas, protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.
O texto promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de 2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.
Os mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política social como direito e com o entreguismo como política externa.
O programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e, diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas “soluções diplomáticas eficazes”.
Ali se promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra “soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a fragiliza.
O quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica, institucionalizada.
E o “Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –, mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma de guerra cultural.
O privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do mercado sobre a sociedade.
A extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo – mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo igualitário, não.
Deixaria de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos três testes.
Mantém todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”, os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo “narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas; os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de que o complô funciona.
O programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.
A moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.
A moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para adotar sua agenda.
Telefonema entre Trump e Lula mostra que relações não estão abaladas
O telefonema entre Lula e Donald Trump na sexta-feira confirma o que minhas fontes no governo americano sempre me dizem: não existe animosidade pessoal do presidente americano para com o brasileiro. E abre oportunidade no momento em que Trump precisa de boas notícias na política externa.
Um presidente americano não dedica 1h20 de seu tempo, perto de eleições cruciais para o Congresso, se não tiver interesse em cultivar o relacionamento com um governante estrangeiro. A iniciativa da conversa foi de Lula, e parece ter sido em ambiente de cordialidade.
Quem mudou não foi Trump, mas a estratégia de Lula. Ele parece ter chegado à conclusão de que um embate com o presidente americano, que lhe rendeu popularidade no ano passado, pode ser menos interessante, neste momento de tarifaço contra o Brasil, do que demonstrar estatura política para falar com Trump, como fez seu adversário Flávio Bolsonaro em maio ao visitar a Casa Branca.
Lula aparentemente atingiu seu principal objetivo na conversa: retomar as negociações comerciais, encerradas em julho com o fim do período de um ano das investigações da Seção 301, que resultaram em alíquota adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Mas não adianta retomá-las, se o Brasil não estiver disposto a fazer concessões.
O Escritório do Representante Comercial dos EUA apenas executa a ordem de Trump de melhorar as condições de comércio com os parceiros do mundo inteiro. Não é algo dirigido contra o Brasil. Mas atinge produtos brasileiros em cheio por causa das altas barreiras protecionistas praticadas pelo País.
Segundo o relato do governo brasileiro, Trump perguntou sobre o processo eleitoral. Lula defendeu a integridade do sistema de votação e o presidente americano não fez comentários. Ou seja, mesmo o interesse de Trump de tracionar a tese de fraude eleitoral que prejudica a direita não evoluiu para um desgaste entre os presidentes.
A recusa de vistos para funcionários americanos que pretendiam averiguar o processo eleitoral, combinada com a falta do agrément para o embaixador Daniel Perez, nomeado por Trump, levou a uma grave crise diplomática, com a retirada do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O assunto nem sequer foi tratado.
Esses atritos diplomáticos não são provocados por Trump, mas por seu poderoso secretário de Estado, Marco Rubio, hostil a governos de esquerda da América Latina. Lula criticou a designação do crime organizado como terrorismo e defendeu a cooperação entre os dois países no seu combate. Outro tema caro a Trump, que não causou irritação na conversa.
Um presidente americano não dedica 1h20 de seu tempo, perto de eleições cruciais para o Congresso, se não tiver interesse em cultivar o relacionamento com um governante estrangeiro. A iniciativa da conversa foi de Lula, e parece ter sido em ambiente de cordialidade.
Quem mudou não foi Trump, mas a estratégia de Lula. Ele parece ter chegado à conclusão de que um embate com o presidente americano, que lhe rendeu popularidade no ano passado, pode ser menos interessante, neste momento de tarifaço contra o Brasil, do que demonstrar estatura política para falar com Trump, como fez seu adversário Flávio Bolsonaro em maio ao visitar a Casa Branca.
Lula aparentemente atingiu seu principal objetivo na conversa: retomar as negociações comerciais, encerradas em julho com o fim do período de um ano das investigações da Seção 301, que resultaram em alíquota adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Mas não adianta retomá-las, se o Brasil não estiver disposto a fazer concessões.
O Escritório do Representante Comercial dos EUA apenas executa a ordem de Trump de melhorar as condições de comércio com os parceiros do mundo inteiro. Não é algo dirigido contra o Brasil. Mas atinge produtos brasileiros em cheio por causa das altas barreiras protecionistas praticadas pelo País.
Segundo o relato do governo brasileiro, Trump perguntou sobre o processo eleitoral. Lula defendeu a integridade do sistema de votação e o presidente americano não fez comentários. Ou seja, mesmo o interesse de Trump de tracionar a tese de fraude eleitoral que prejudica a direita não evoluiu para um desgaste entre os presidentes.
A recusa de vistos para funcionários americanos que pretendiam averiguar o processo eleitoral, combinada com a falta do agrément para o embaixador Daniel Perez, nomeado por Trump, levou a uma grave crise diplomática, com a retirada do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O assunto nem sequer foi tratado.
Esses atritos diplomáticos não são provocados por Trump, mas por seu poderoso secretário de Estado, Marco Rubio, hostil a governos de esquerda da América Latina. Lula criticou a designação do crime organizado como terrorismo e defendeu a cooperação entre os dois países no seu combate. Outro tema caro a Trump, que não causou irritação na conversa.
EUA ameaçam suspender vistos na Argentina devido a compras da Huawei
A alta direção da Cooperativa Calf, que fornece eletricidade, gás, água e fibra óptica para Neuquén - a nona maior cidade da Argentina e a maior da Patagônia - viajou em abril para a sede da empresa chinesa de tecnologia Huawei, e alguns meses depois eclodiu um conflito diplomático entre Washington e Pequim.
Executivos da empresa argentina, que presta serviços à principal cidade próxima ao rico campo de petróleo e gás de Vaca Muerta, foram conhecer ferramentas de inteligência para monitoramento de redes elétricas e soluções de fibra óptica para Wi-Fi.
Em julho, diplomatas da embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires reagiram enviando mensagens de WhatsApp aos executivos da Calf , alertando-os de que negariam ou revogariam, conforme o caso, os vistos de turista e de negócios dos 18 principais executivos da cooperativa se eles contratassem a Huawei.
Em 2018, durante seu primeiro mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, proibiu a entrada da empresa chinesa Huawei no país, alegando que ela representava um risco à segurança nacional. O governo de seu sucessor, Joe Biden, deu continuidade à campanha contra a Huawei e recomendou que países como a Argentina não firmassem contratos com a empresa. Diversas nações aderiram à proibição da empresa chinesa: Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Japão, Alemanha, Lituânia, Portugal, Letônia e Paraguai, entre outras.

Em 29 de julho, Marcelo Severini, presidente da Calf, enviou uma carta ao embaixador dos EUA na Argentina, Peter Lamelas, questionando se as mensagens informais do WhatsApp refletiam a posição oficial dos EUA e quais eram as objeções técnicas relativas à segurança cibernética e à proteção de dados contra a Huawei. Sem obter resposta, em 4 de agosto, solicitou a intervenção do Ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, e tornou a denúncia pública.
Até o momento, o governo argentino permanece em silêncio, mesmo em resposta às perguntas da DW. A Huawei, fornecedora de grandes empresas de telecomunicações que operam na Argentina, como a Telecom Argentina e a Claro (pertencente à América Móvil), também permanece em silêncio.
Em vez disso, as mensagens das embaixadas chinesa e americana começaram a se intensificar por meio da plataforma X. Em 5 de agosto, a embaixada chinesa comentou: "Essas práticas refletem plenamente a arrogância e o preconceito dos EUA, constituem uma grave violação da soberania de outros países e prejudicam seriamente os princípios do livre mercado". No dia seguinte, o embaixador Lamelas respondeu: "Negar ou revogar um visto não é um privilégio; é uma decisão para proteger a segurança e os interesses do país". No dia 12, ele se reuniu com executivos da Calf.
"O embaixador reiterou as mensagens intimidatórias", disse Sergio Fernández Novoa, gerente de Tecnologia da Informação e Comunicação da Calf, à DW. "O que lhe dissemos foi que compramos de marcas americanas, europeias e asiáticas. No caso de uma rede para Neuquén, a Huawei tem algumas características que consideramos vantajosas em termos de preço, qualidade e financiamento. Mas estamos abertos a ouvir propostas. Não vamos deixar de comprar de todas as empresas das quais compramos atualmente", acrescentou o gerente da Calf.
No dia seguinte ao encontro com os executivos da cooperativa, Lamelas participou de um fórum de empresas norte-americanas sobre energia na Argentina e declarou que a Huawei espiona para o Partido Comunista Chinês e que isso poderia afetar os investimentos em Vaca Muerta. A embaixada chinesa respondeu novamente por meio do canal X: "O governo chinês nunca pede, nem jamais pedirá, que empresas forneçam, coletem ou armazenem dados em violação das leis locais. O que os EUA estão fazendo é motivado por uma mentalidade da Guerra Fria."
"Não me lembro de os Estados Unidos jamais terem demonstrado tanta sensibilidade em relação às atividades de uma cooperativa no Sul Global, mas trata-se de uma região muito sensível devido à energia", observa Gustavo Girado, diretor do Centro de Pesquisa Sino-Latino-Americana da Universidade de Lanús. "A lei de defesa chinesa estipula que as informações devem ser fornecidas mediante solicitação do regime de partido único, mas o Departamento de Estado também pode fazer o mesmo", argumenta Girado.
"A Argentina não respondeu porque, em fevereiro, assinou um acordo de comércio e investimento com os Estados Unidos que a compromete a coordenar esforços para combater políticas antimercado em outros países", explicou Federico Merke, professor da Universidade de San Andrés, à DW. "Mas os Estados Unidos também não oferecem uma alternativa mais barata", acrescentou.
"Estão a começar investimentos vultosos em áreas estratégicas, como Vaca Muerta, e em centros de dados de inteligência artificial na Patagônia, uma vez que os Estados Unidos têm interesse em garantir que esta região não fique sob jurisdição eletrônica chinesa", afirma Fabián Calle, professor das universidades UCA e UCEMA.
Seu colega em ambas as universidades, Ignacio Labaqui, observa que, embora os métodos variem, os EUA, com ou sem Trump, têm suas "linhas vermelhas" em relação à infraestrutura chinesa na América Latina, mas não em relação ao comércio.
Prova disso é que, nas recentes licitações para dragagem do Rio Paraná, para obras elétricas e para a privatização de ferrovias, o governo Milei proibiu a participação de empresas cujos acionistas sejam Estados estrangeiros, em clara alusão à China, mas promove suas exportações para o gigante asiático, abre o mercado para seus produtos e acaba de renovar um acordo de swap cambial para fortalecer as reservas de seu banco central.
Executivos da empresa argentina, que presta serviços à principal cidade próxima ao rico campo de petróleo e gás de Vaca Muerta, foram conhecer ferramentas de inteligência para monitoramento de redes elétricas e soluções de fibra óptica para Wi-Fi.
Em julho, diplomatas da embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires reagiram enviando mensagens de WhatsApp aos executivos da Calf , alertando-os de que negariam ou revogariam, conforme o caso, os vistos de turista e de negócios dos 18 principais executivos da cooperativa se eles contratassem a Huawei.
Em 2018, durante seu primeiro mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, proibiu a entrada da empresa chinesa Huawei no país, alegando que ela representava um risco à segurança nacional. O governo de seu sucessor, Joe Biden, deu continuidade à campanha contra a Huawei e recomendou que países como a Argentina não firmassem contratos com a empresa. Diversas nações aderiram à proibição da empresa chinesa: Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Japão, Alemanha, Lituânia, Portugal, Letônia e Paraguai, entre outras.
Em 29 de julho, Marcelo Severini, presidente da Calf, enviou uma carta ao embaixador dos EUA na Argentina, Peter Lamelas, questionando se as mensagens informais do WhatsApp refletiam a posição oficial dos EUA e quais eram as objeções técnicas relativas à segurança cibernética e à proteção de dados contra a Huawei. Sem obter resposta, em 4 de agosto, solicitou a intervenção do Ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, e tornou a denúncia pública.
Até o momento, o governo argentino permanece em silêncio, mesmo em resposta às perguntas da DW. A Huawei, fornecedora de grandes empresas de telecomunicações que operam na Argentina, como a Telecom Argentina e a Claro (pertencente à América Móvil), também permanece em silêncio.
Em vez disso, as mensagens das embaixadas chinesa e americana começaram a se intensificar por meio da plataforma X. Em 5 de agosto, a embaixada chinesa comentou: "Essas práticas refletem plenamente a arrogância e o preconceito dos EUA, constituem uma grave violação da soberania de outros países e prejudicam seriamente os princípios do livre mercado". No dia seguinte, o embaixador Lamelas respondeu: "Negar ou revogar um visto não é um privilégio; é uma decisão para proteger a segurança e os interesses do país". No dia 12, ele se reuniu com executivos da Calf.
"O embaixador reiterou as mensagens intimidatórias", disse Sergio Fernández Novoa, gerente de Tecnologia da Informação e Comunicação da Calf, à DW. "O que lhe dissemos foi que compramos de marcas americanas, europeias e asiáticas. No caso de uma rede para Neuquén, a Huawei tem algumas características que consideramos vantajosas em termos de preço, qualidade e financiamento. Mas estamos abertos a ouvir propostas. Não vamos deixar de comprar de todas as empresas das quais compramos atualmente", acrescentou o gerente da Calf.
No dia seguinte ao encontro com os executivos da cooperativa, Lamelas participou de um fórum de empresas norte-americanas sobre energia na Argentina e declarou que a Huawei espiona para o Partido Comunista Chinês e que isso poderia afetar os investimentos em Vaca Muerta. A embaixada chinesa respondeu novamente por meio do canal X: "O governo chinês nunca pede, nem jamais pedirá, que empresas forneçam, coletem ou armazenem dados em violação das leis locais. O que os EUA estão fazendo é motivado por uma mentalidade da Guerra Fria."
"Não me lembro de os Estados Unidos jamais terem demonstrado tanta sensibilidade em relação às atividades de uma cooperativa no Sul Global, mas trata-se de uma região muito sensível devido à energia", observa Gustavo Girado, diretor do Centro de Pesquisa Sino-Latino-Americana da Universidade de Lanús. "A lei de defesa chinesa estipula que as informações devem ser fornecidas mediante solicitação do regime de partido único, mas o Departamento de Estado também pode fazer o mesmo", argumenta Girado.
"A Argentina não respondeu porque, em fevereiro, assinou um acordo de comércio e investimento com os Estados Unidos que a compromete a coordenar esforços para combater políticas antimercado em outros países", explicou Federico Merke, professor da Universidade de San Andrés, à DW. "Mas os Estados Unidos também não oferecem uma alternativa mais barata", acrescentou.
"Estão a começar investimentos vultosos em áreas estratégicas, como Vaca Muerta, e em centros de dados de inteligência artificial na Patagônia, uma vez que os Estados Unidos têm interesse em garantir que esta região não fique sob jurisdição eletrônica chinesa", afirma Fabián Calle, professor das universidades UCA e UCEMA.
Seu colega em ambas as universidades, Ignacio Labaqui, observa que, embora os métodos variem, os EUA, com ou sem Trump, têm suas "linhas vermelhas" em relação à infraestrutura chinesa na América Latina, mas não em relação ao comércio.
Prova disso é que, nas recentes licitações para dragagem do Rio Paraná, para obras elétricas e para a privatização de ferrovias, o governo Milei proibiu a participação de empresas cujos acionistas sejam Estados estrangeiros, em clara alusão à China, mas promove suas exportações para o gigante asiático, abre o mercado para seus produtos e acaba de renovar um acordo de swap cambial para fortalecer as reservas de seu banco central.
André Mendonça será o novo Sergio Moro?
Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça atirando. Acusou o então presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para blindar o filho Flávio, investigado no escândalo da rachadinha. Para o lugar de Moro, o capitão escalou um auxiliar mais discreto, que chefiava a Advocacia-Geral da União. Era André Mendonça, que se notabilizaria por usar o cargo para abrir inquéritos contra críticos e opositores do chefe.
Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com potencial para influir no resultado da eleição.
Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a intimidade do senador com Daniel Vorcaro. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno.
Ninguém deve se sair bem dessas histórias. Flávio foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro preso por aplicar golpes, subornar políticos e atuar como chefe de máfia. Fábio Luís, o Lulinha, recebia favores e mordomias da lobista Roberta Luchsinger, que buscava negócios com o governo do pai dele.
Os escândalos devem servir de munição para as duas campanhas, como é próprio da política. A questão é saber se o árbitro vai apitar o jogo com imparcialidade, sem vestir a camisa de um dos times.
Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala pelos cotovelos. Na quinta-feira, soube-se que a Procuradoria-Geral da República pediu o envio do caso Lulinha à primeira instância. Argumentou que a investigação não cita autoridades com foro privilegiado, o que justificaria a permanência no Supremo. Assim que o pedido veio a público, Mendonça fez circular a informação de que vai recusá-lo. A informação foi atribuída a “interlocutores” do ministro — método de divulgação judicial que fez escola na Lava-Jato.
Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo. A seis dias do primeiro turno, divulgou uma delação de alto impacto contra o PT. O titular da 13ª Vara Federal de Curitiba desfrutava uma imagem de herói, depois demolida pela anulação de suas sentenças.
Em declarações a um podcast de seu próprio instituto, Mendonça prometeu conduzir todos os inquéritos com “rigor técnico” e “imparcialidade”, por entender que corrupção “não tem cor partidária”. Bonitas palavras, mas melhor seria demonstrá-las na prática.
Nesta quinta, Flávio disse considerar seu envolvimento no caso Master uma “página virada”. O candidato do PL tem razões para se sentir protegido. Desde que as conversas com Vorcaro vieram à tona, nada lhe aconteceu. Ele permanece a salvo de novos vazamentos, operações de busca ou intimações para se explicar à polícia.
Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com potencial para influir no resultado da eleição.
Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a intimidade do senador com Daniel Vorcaro. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno.
Ninguém deve se sair bem dessas histórias. Flávio foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro preso por aplicar golpes, subornar políticos e atuar como chefe de máfia. Fábio Luís, o Lulinha, recebia favores e mordomias da lobista Roberta Luchsinger, que buscava negócios com o governo do pai dele.
Os escândalos devem servir de munição para as duas campanhas, como é próprio da política. A questão é saber se o árbitro vai apitar o jogo com imparcialidade, sem vestir a camisa de um dos times.
Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala pelos cotovelos. Na quinta-feira, soube-se que a Procuradoria-Geral da República pediu o envio do caso Lulinha à primeira instância. Argumentou que a investigação não cita autoridades com foro privilegiado, o que justificaria a permanência no Supremo. Assim que o pedido veio a público, Mendonça fez circular a informação de que vai recusá-lo. A informação foi atribuída a “interlocutores” do ministro — método de divulgação judicial que fez escola na Lava-Jato.
Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo. A seis dias do primeiro turno, divulgou uma delação de alto impacto contra o PT. O titular da 13ª Vara Federal de Curitiba desfrutava uma imagem de herói, depois demolida pela anulação de suas sentenças.
Em declarações a um podcast de seu próprio instituto, Mendonça prometeu conduzir todos os inquéritos com “rigor técnico” e “imparcialidade”, por entender que corrupção “não tem cor partidária”. Bonitas palavras, mas melhor seria demonstrá-las na prática.
Nesta quinta, Flávio disse considerar seu envolvimento no caso Master uma “página virada”. O candidato do PL tem razões para se sentir protegido. Desde que as conversas com Vorcaro vieram à tona, nada lhe aconteceu. Ele permanece a salvo de novos vazamentos, operações de busca ou intimações para se explicar à polícia.
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