domingo, 26 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


Quando a distopia americana de Trump vai além do gênero literário

“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.


Por causa dessa conversa, aguardo a chegada às livrarias de “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”, do jornalista Jamil Chade, cujo lançamento será em agosto. Com prefácio do cineasta Walter Salles, o livro mostra o esgarçamento da democracia nos Estados Unidos entre a campanha eleitoral de 2024 e o início do segundo governo Trump. Chade percorre os lugares onde se espalham o medo, o rancor, a pobreza e a ilusão, de Manhattan à fronteira mexicana, do Madison Square Garden aos abrigos destinados aos deportados.

O resultado é um ensaio jornalístico sobre como as democracias podem sucumbir. A força do livro decorre de sua materialidade. Os fatos aconteceram. As pessoas perseguidas têm nome, família, emprego e endereço. Os agentes que as detêm pertencem ao Estado. As ordens partem da Casa Branca. Os recursos são aprovados pelo Congresso. As deportações aparecem nas estatísticas oficiais, enquanto as ameaças contra universidades, professores, minorias e servidores públicos se transformam em decretos, normas administrativas e decisões orçamentárias. E inibem as denúncias e protestos. Não é ficção literária.

Em “1984” (Camelot Editora), Orwell concebeu um Estado que controlava a sociedade pela vigilância, pela manipulação da linguagem e pela fabricação de inimigos. Trump não criou um Ministério da Verdade, mas construiu um ecossistema político no qual fatos inconvenientes são denunciados como falsos, adversários são apresentados como inimigos internos e a lealdade ao presidente se sobrepõe ao respeito às instituições.

O imigrante é responsabilizado pela criminalidade, pelo desemprego, pela deterioração das cidades e pelas deficiências dos serviços públicos. Produz-se, assim, uma falsa ameaça permanente, para justificar poderes excepcionais e impor o medo à sociedade, como como aconteceu com os judeus na ascensão do fascismo na Itália e na Alemanha.

Segundo levantamento do Migration Policy Institute, 622 mil estrangeiros haviam sido deportados desde a posse de Trump até o fim de 2025, enquanto as detenções realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, chegaram a cerca de 1.200 por dia. Parte expressiva dos detidos não possuía condenação criminal. Houve também cidadãos norte-americanos presos, separação de famílias, transferências para prisões estrangeiras e tentativas de restringir o direito de defesa. A Suprema Corte precisou reafirmar que até os estrangeiros submetidos à Lei dos Inimigos Estrangeiros têm direito a ser notificados e a contestar sua expulsão.

A distopia americana de Donald Trump não é uma metáfora. O terror político gerado pelas deportações difunde a insegurança entre milhões. Famílias evitam hospitais, escolas, igrejas e repartições por medo de detenções. Trabalhadores deixam de denunciar abusos. Crianças regressam para casa sem saber se encontrarão os pais. Agentes mascarados podem deter as pessoas sem se identificar claramente e levá-lo para lugar desconhecido; para eles, já existe um regime de exceção. Quatro pessoas foram mortas à frente de todos por essa milicia de Trump, duas das quais norte-americanas.

Em “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), de Ray Bradbury, os livros eram queimados porque preservavam a complexidade, estimulavam perguntas e impediam o pensamento uniforme. Trump não precisa organizar fogueiras em praças públicas. Mas manda retirar livros de bibliotecas, eliminar referências ao racismo, perseguir programas universitários e condicionar recursos federais à adesão ideológica. Trump revogou políticas de diversidade, equidade e inclusão e passou a considerar o combate ao racismo uma forma de discriminação contra os brancos.

Jamil Chade demonstra o absurdo dessa operação ao percorrer o delta do Mississippi, região decisiva para a expansão econômica dos Estados Unidos e profundamente marcada pela escravidão. Em West Helena, no Arkansas, 35% dos cerca de oito mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. No Mississippi, o estado mais pobre do país, 45% da população estão abaixo da linha de pobreza ou integra os segmentos de baixa renda. A paisagem de casas abandonadas, lojas fechadas e serviços precários não corresponde à prosperidade prometida pelo movimento Maga (Make America Great Again). É o avesso do chamado sonho americano.

Uma família negra recebe anualmente cerca de US$ 30 mil menos do que uma família branca. Há um desmonte da proteção social. A lei orçamentária aprovada em 2025 reduz em mais de US$ 1 trilhão os gastos federais previstos com saúde ao longo de uma década e 10 milhões de pessoas a mais ficarão sem seguro-saúde. Uma guerra cultural fomenta a distopia. Trump produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas são transformados em ameaças aos valores tradicionais. A fé também é instrumentalizada. Deus, pátria e governo estariam unidos num mesmo projeto. O dissidente político passa a ser tratado como inimigo da nação, da família e dos cristãos.

Fingidores de sempre fingem e há quem acredite!

Somos mais fortes do que aqueles que fingem nos governar. O fascismo está em alta nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Não temos consciência da nossa força porque nosso conceito de poder geralmente envolve aqueles que elegemos.

Angela Davis, filósofa e ativista socialista americana

O comunismo dos retardatários

O final do século XVIII foi palco das grandes revoluções no mundo ocidental – a Revolução Industrial na Inglaterra, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, também chamada de Revolução Americana. O século XIX assistiu à consolidação da modernidade econômica, social e política – o progresso, o fim das aristocracias absolutistas e o florescimento da democracia. Alheios a essas revoluções, estiveram o Império Russo Czarista, que derrotou Napoleão em 1812; e o Império Chinês, que foi submetido ao Ocidente em meados do século XIX – quero dizer com isso que os conceitos de Revolução Francesa, direitos do cidadão e democracia nunca chegaram a estes confins.

A era da modernidade do século XIX, no Ocidente, foi acompanhada por um intenso processo de urbanização, desestruturação do tecido social, migrações em massa, recorrentes crises econômicas e grandes mobilizações operárias. Em 1848, Karl Marx anunciou o fim do reino da mercadoria, isto é, do sistema na Inglaterra, o país que detinha a hegemonia capitalista internacional; e o nascimento de uma nova era, o socialismo.

O capitalismo, contudo, sobreviveu na Inglaterra e se alastrou pela Europa Continental e pelos Estados Unidos. Friedrich Engels responsabilizou a sobrevida do sistema inglês ao aburguesamento de sua classe operária, por conta da exploração dos trabalhadores do além-mar – uma argumentação terminantemente espúria à teoria de Marx.

No início do século XX foram desintegrados os impérios Austro-Húngaro e Otomano – multiétnicos, multilíngues e multinacionais; e ruíram também os impérios Russo (Revolução Russa de 1917) e Chinês (Revolução Xin Hai de 1911).
O Império Russo

Em 1848, quando Marx considerou que “o capitalismo construiu mais maravilhas para o mundo do que todas as gerações anteriores juntas, incluindo as pirâmides do Egito”, a Inglaterra, com 17 milhões de habitantes, já reunia 50% da população na zona urbana. Em 1917, às vésperas da Revolução, o Império Russo, com 175 milhões de habitantes, constituía uma sociedade essencialmente agrária – apenas 15% de sua população vivia nas cidades.

Vladimir Lenin sonhava em atravessar Varsóvia para se juntar aos comunistas alemães e alcançar Paris, Londres e… Nova York. Mas, concretamente, Lenin e Joseph Stalin, em seu “socialismo real”, se dedicaram, com sucesso, a “desenvolver as forças produtivas” do agrário Império Russo.

Os bolcheviques implementaram a industrialização acelerada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – num ritmo que faria inveja a Frederick Taylor e Henry Ford; e promoveram a coletivização forçada do campo, para garantir o excedente agrícola necessário ao intrínseco processo de urbanização.

Em 1989, depois de transformar o país em uma potência internacional, os bolcheviques foram levados a abrir mão de seus estados satélites no Leste Europeu e, em 1991, dissolver a União Soviética e abdicar do poder na Rússia.

James Baker, secretário de Estado dos EUA, reunido com Mikhail Gorbachev para tratar da reunificação da Alemanha, garantiu que a “OTAN não se moveria uma polegada para o leste”, que os países do extinto Pacto de Varsóvia constituiriam uma zona neutra entre os dois blocos políticos. Mas, com a dissolução da URSS em 1991, a OTAN considerou o acordo sem efeito e não só absorveu o Leste Europeu, como passou a contemplar a Ucrânia também.

Distrito financeiro de Lujiazui em Xangai

A China, às vésperas da Revolução de 1949, com 540 milhões de habitantes, constituía uma sociedade ainda mais rural do que o Império Russo em 1917 – apenas 10% de sua população vivia nas cidades. A República Popular da China também se empenhou em “desenvolver as forças produtivas” da agrária sociedade chinesa.

Entre 1958 e 1962, promoveu o Grande Salto Adiante, em um período de crise e fome que levou milhões à morte. Após a radical e violenta Revolução Cultural (1966-1976), o Partido Comunista da China – PCCh, nos anos 1980 e sem abrir mão do poder, resolveu mercantilizar a economia, valorizar os mecanismos de mercado, iniciativa privada, empreendedorismo, competitividade e abertura da China ao investimento capitalista internacional.

A indústria chinesa atraiu o capital estrangeiro e invadiu o mundo com mercadorias descartáveis – produzidas por disciplinados trabalhadores com baixo nível de consumo – e taxas de câmbio administradas. A China industrializou-se, generalizou a mercadoria e, em recordes 40 anos, deixou de ser um país pobre para, com tecnologia de ponta, se transformar na maior economia do planeta, o país que detém hoje a hegemonia internacional do capital.

A mercadoria não tem preconceitos de “raça”, cultura, gênero etc. O capitalismo industrial, a partir da Inglaterra, generalizou a mercadoria pelo mundo, além de incluir as mulheres no mercado de trabalho, emponderando-as e libertando-as da condição de procriadoras.

Nas sociedades agrárias russa e chinesa, particularmente, o processo de mercantilização da economia – industrialização, urbanização, modernização e desestruturação da sociedade rural tradicional para garantir o excedente agrícola – foi propiciado pela ascensão dos comunistas ao poder.

Os campônios, que representavam 85% da população no Império Russo e 90% da população na China, se aliaram aos comunistas para se livrarem da exploração dos senhores de terra – para descobrirem, mais tarde, que foram traídos, que teriam que elevar ainda mais o seu excedente agrícola – de modo a alimentar a industrialização de seus “retrógrados” países e propiciar “o desenvolvimento das forças produtivas”.

A mercadoria é democrática – a hegemonia capitalista mundial passou da Inglaterra no século XIX para a “inculta” sociedade norte-americana no século XX; e desta para “os china” no século XXI. Para se ter uma ideia dos direitos dos trabalhadores na atualidade, seguem o corrente número de horas semanais e o direito a férias em alguns países selecionados.

Na Inglaterra, a jornada de trabalho é de 37 a 40 horas, com 4 semanas de férias ao ano; na Alemanha, 35 a 40 horas de trabalho e 4 semanas de férias; e na França, 35 horas de trabalho e 5 semanas de férias. Na Rússia são 40 horas de trabalho e 4 semanas de férias.

Nos Estados Unidos, a jornada é de 40 horas, mas as férias não são regulamentadas; empresas costumam oferecer férias do tipo 1 semana nos primeiros 5 anos de trabalho, 2 semanas de 5 a 10 anos, 3 semanas de 10 a 20 anos e 4 semanas após 20 anos de serviço (a contagem do tempo de trabalho para efeito das férias recomeça do zero a cada novo emprego). Na China, legalmente, são 44 horas e 1 semana de férias nos primeiros 10 anos de trabalho, 2 semanas de 10 a 20 anos e 3 semanas após 20 anos de serviço.

A China garante hoje um sofisticado consumo à elite e uma situação financeira bastante confortável à classe média urbana, enquanto 800 milhões entre os 1,4 bilhão de habitantes sobrevivem com restritos direitos trabalhistas e sociais – 450 milhões de camponeses na zona rural e 350 milhões de migrantes urbanos e principalmente rurais que vivem e trabalham em cidades na qualidade de cidadãos de segunda classe.

A extremamente autoritária e eficiente República Popular, embora declare como ilegal, “não consegue” livrar a China dos regimes 996 e 997 (doze horas de trabalho, das 9h às 21h, 7 dias por semana). Em 2020, uma empresa de entregas, que demitiu um funcionário que se recusou a cumprir a jornada 996, foi condenada a pagar uma indenização de 8.000 yuans ao trabalhador (equivalente a um mês de trabalho). A empresa também “recebeu advertências”, porque suas normas e regulamentos exigiam 72 horas semanais (28 horas excedentes às 44 horas legais) e 120 horas extras ao mês (84 horas excedentes às 36 horas-extras legais).

Apesar da ridícula indenização determinada pela justiça, o Supremo Tribunal Popular e o Ministério de Recursos Humanos e Seguridade Social divulgaram este caso como paradigmático. O mais significativo, entretanto, é que o governo não se declara contra as prolongadas jornadas simplesmente por serem insanas, mas também por privarem os trabalhadores exaustos de constituírem um mercado de consumo em condições de aquecer a economia do país, de acordo com o Plano de Ação Especial para Impulsionar o Consumo – o que confirma que a mercadoria, soberana, rege hoje a sociabilidade da milenar civilização chinesa.

As grandes marcas e grifes internacionais, que alimentam a elite mundial e, particularmente, a elite chinesa, também gostariam de ampliar o seu mercado consumidor e aquecer a economia da China – anseiam por lançar uma linha “mais popular” e acessível para contemplar os 490 milhões de chineses da classe média. Contudo, estão empenhadas neste projeto com muito cuidado para não melindrar a elite (e acabar perdendo este seu mercado cativo).

Mais que nunca, pensar

A IA anda à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.

Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.


Mas as máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica, impotente no incessante transformar-se do mundo, onde se mostram apenas a existência e a realidade. Em outras palavras, a razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial fragmentação da vida, ao mistério do mundo, que é a cultura. Jorge Luis Borges bem o viu: "A solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e do divino; a solução, do jogo manual" (em "O Aleph").

Nenhum esoterismo nessa ideia de mistério. É só uma palavra para o que se oculta no movimento de aparecer e velar da physis, a natureza. Místico é o que se esconde, o que aciona a criatividade de toda cultura. Para isso, é preciso especular, imaginar, pesquisar, seja com as artes do pensamento, da criação ou do trabalho científico.

Tudo disso difere da combinatória dos saberes armazenados para resolver problemas práticos e imediatos. É o que Borges chama de "jogo manual", hoje uma interação com o hardware dos computadores. Num software, o logaritmo é mera sequência lógica de caminhos para dar solução rápida a determinada questão. É funcionamento de máquina, não pensamento ou busca de sentido para as coisas.

Mas há criações humanas que, sem serem meras combinações do já dado, prescindem de sentido. É o caso da música, que engendra o seu próprio real. Igualmente, a matemática, que tem rigorosa coerência, mas não sentido, e se aproxima da linguagem da physis: "O livro da natureza está escrito em linguagem matemática" (Galileu Galilei).

É assim que a matemática, indo além da medição, pode ensejar a construção de mundos, que não apenas replicam a realidade, mas produzem novos universos conceituais. E com todo o seu rigor, costeia a mística. O jovem indiano Ramanujan, um dos maiores matemáticos do século passado, atordoou os luminares britânicos ao revelar que suas complexas equações lhe eram sopradas em sonho por uma divindade familiar.

Agregadas como pensamento, matemática, música, ciências da natureza e do homem mostram que a redução da complexidade da vida à eficácia produtiva e ao consumo é efeito de uma programação neoliberal capaz de levar ao emburrecimento do mundo.

A soberania tecnológica de uma nação depende hoje de IA, mas não resulta da importação de modelos lógicos avançados, e sim de pensamento próprio, de universidades que respirem como territórios livres. Pensar, singularidade humana, não virá salvar apenas empregos, mas a nossa própria espécie.

Eleição entre soberania e entreguismo, ordem e desordem. Milei: o lixo

O esforço dos Estados Unidos de interferir no processo eleitoral brasileiro em favor de Flávio Bolsonaro não é mais nem uma possibilidade nem uma hipótese: trata-se de uma realidade. E, como os fatos também revelam, a operação é conduzida em parceria com a família Bolsonaro, a começar do próprio candidato, sob a orientação, digamos, ideológica de Eduardo e Paulo Figueiredo — Pinky e o Cérebro do intervencionismo.

Como revelou o jornal “The Washington Post”, Marco Rubio queria despachar um par de funcionários para vir ao Brasil com o intuito de pôr em dúvida a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Trata-se de Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente do Departamento de Estado. Os respectivos pedidos de visto já foram negados pelo Itamaraty.

A notícia vem a público três dias depois de Flávio participar de um seminário em Brasília, na terça, em que repetiu as acusações falsas de seu pai, o golpista condenado Jair Bolsonaro, às urnas eletrônicas. Nesta quinta, foi a vez de Eduardo participar de uma live, em companhia de Fernando Cerimedo, o picareta argentino que inventou uma teoria conspiratória sobre a totalização dos votos em 2022, para acusar vulnerabilidade no sistema eleitoral e sugerir que houve fraude naquela eleição.

“Argentino Picareta”? Javier Milei discursou há pouco na Convenção do PL que oficializou o nome de Flávio à Presidência. Nesta sexta, o agora candidato do partido publicou nas redes um vídeo feito por IA em que ambos chegavam ao estádio do Pacaembu, em São Paulo, pilotando caças. A Argentina — então Províncias Unidas do Rio do Prata — não invade solo brasileiro desde a Batalha do Passo do Rosário (ou de Ituzaingó, com a chamam  os “hermanos”), em 20 de fevereiro de 1827. Agora temos essa cortesia de Flávio, ainda que no território da fantasia.

É grotesco. O “Leão”, como Milei chama a si mesmo, contrastando a mixuriquice de seus dotes físico e moral com a majestade do bicho, falou contra uma suposta ameaça socialista e, ao lado do Zero Um, dançou ao som de “Panic Show”, da banda La Renga, como faz em todos os seus eventos — à revelia da vontade do grupo, note-se:

“Olá a todos! Eu sou o leão
A fera rugiu no meio da avenida
Todos correram sem entender
Show de pânico em plena luz do dia
Por favor, não fujam de mim
Eu sou o rei de um mundo perdido
Eu sou o rei e eu vou te destroçar
Todos os cúmplices são do meu apetite
Não fuja! Venha a mim
Fique desnudo e enfrente meus dentes
Eu sou o rei, o leão
Venha saber como é”.

O vídeo circula por aí. Não parece coisa de gente que transita clinicamente no vasto orbital da normalidade.

Quando os EUA impuseram a tarifa de 25% a parte dos produtos brasileiros, mais uma das delicadezas do Imperador do Norte impostas a nosso país com o patrocínio interno da família Bolsonaro, Rubio houve por bem desferir um ataque a Lula nas redes, descontente porque o presidente brasileiro não assentiu em se comportar como um estafeta do império, o que Flávio lhe prometeu numa carta pessoal e num documento de 84 páginas enviado ao Escritório de Representação Comercial (USTR).

Rubio emprestava um viés político àquilo que é parte da guerra comercial de Washington contra o… mundo, o que se confirma com a tarifa adicional de 12,5%, esta imposta a 59 países mais a União Europeia. Donald Trump elegeu o planeta como alvo, mas é evidente que o Brasil vive uma circunstância particular.

A investida protecionista e, a rigor, anticapitalista de Trump não encontra eco entre seus aliados ideológicos em nenhum outro país do mundo. Ele costuma ser até bem desagradável com aqueles que compartilham alguns de seus valores ideológicos. Há, no entanto, duas exceções: o Brasil e a Argentina.

Por aqui, a família Bolsonaro, que tem a hegemonia da extrema direita e fagocita parte considerável da direita amorfa, aceita ser o instrumento da tentativa de tomar de assalto a economia. Assim, a presença de Milei, outro esbirro do trumpismo, é apenas uma ilustração cômica, apalhaçada, da subserviência e do entreguismo. Eduardo já ganhou o “green card” como gorjeta. Imaginem quanto pode render a concessão das terras raras e do Pix — ainda que de forma maquiada —a seus patrões caso Flávio vença a eleição.

Os setores da indústria e do agro que se engraçavam, ou se engraçam ainda, com Flávio fiquem espertos. A depender do resultado da eleição, preparem-se para atuar como meros agentes de um novo “Pacto Colonial”.

Tudo está devidamente exposto. Nem chega a haver opinião neste texto. Listo evidências apenas. E, se alguém achou exagerada a interpretação que deu o Itamaraty à classificação das organizações criminosas como terroristas, alertando para o risco óbvio de invasão do território brasileiro — o que as leis norte-americanas facultam —, bem, a esta altura, creio, caberia uma reconsideração. Os dois funcionários de Rubio falam por si. Ademais, tal designação permite que a CIA realize operações secretas em nome da… segurança dos EUA.

Você não gosta de Lula e do PT? É parte do jogo democrático. Cada um escolha o seu sonho e o seu voto. O que resta inequívoco, e isto não depende nem da minha vontade nem da sua, é que a eleição de outubro se dará entre forças que representam a soberania — e não excluo que equívocos se cometam em seu nome; também isso é do jogo — e as forças mais escancaradas do entreguismo.

Se a soberania pode se equivocar, o entreguismo, do seu ponto de vista, não se equivoca nunca: está sempre a serviço da intervenção e dos seus próprios interesses mesquinhos. No primeiro caso, pode-se fazer uma correção de rota; no segundo, firma-se o pacto com a destruição do país. Sem retorno.

Em seu discurso, Milei nos brindou com esta frase de suposto requinte intelectual:

“O Brasil pode se somar à transformação regional que, nos últimos anos, levou a América Latina a deixar de ser uma região associada à miséria romantizada, retratada por certas obras de realismo mágico, para se tornar um sinônimo de progresso. Creio firmemente que não há outro caminho capaz de afastar o risco que paira sobre o Brasil, como uma ‘Espada de Dâmocles'”.

A literatura latino-americana, com efeito, é rica no chamado realismo mágico, que não fez fortuna crítica no Brasil. Nossa impressionante riqueza literária segue por outros caminhos — e deixo isso para outra hora. O presidente argentino, fica claro, não entende nada dessa corrente: trata-se, não raro, da denúncia da miséria, não da sua romantização. As elites retratadas em tom crítico, muitas vezes fantasmagórico, são precisamente as forças a que se aliam Milei e Flávio. Acerta ao dizer que há uma “Espada de Dâmocles” (pesquisem a respeito depois) sobre o Brasil. E ela é representada hoje por aqueles que atentam contra a sua independência e a sua liberdade.

Milei referiu-se a Alexandre de Moraes como “o lixo Careca”. Tem-se aí mais um evento inédito: um chefe de Estado de país estrangeiro refere-se a um membro do Supremo Tribunal Federal em termos obviamente inaceitáveis, numa outra evidência de uma articulação de forças estrangeiras contra a autonomia do Brasil — e, como resta evidente, em parceria com os Bolsonaros.

O lixo intervencionista vai se acumulando. A eleição, assim, não se dá apenas entre soberania e entreguismo. Também se trata de escolher entre as forças da ordem institucional e as da desordem.
Reinaldo Azevedo