sábado, 1 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


O cerco americano ao capitalismo

Para entender as aberrações de conduta política do presidente americano e de seu secretário de Estado em relação a países como o nosso, é sociologicamente incorreto imputar a Lula e às esquerdas a responsabilidade pela polarização ideológica que nos sufoca e cerceia.

Responsabilizá-los ainda é parte do jogo político da polarização promovida pelo “centro”. Em várias partes, as esquerdas da era pós-stalinista jogam o jogo já feito para nele identificar e superar seus erros, suas brechas, e ocupá-las.

As esquerdas já entenderam que não são elas que fazem o jogo político contemporâneo pois já feito pelas irracionalidades, pelas ambições de riqueza e poder, pela corrupção, que delas decorre. Há muito, o mundo não está polarizado entre capitalismo e comunismo. Está determinado pelo mero crescimento econômico a qualquer preço, de lucro imediato e desmedido, sem desenvolvimento social.

As esquerdas assumiram a função política de agentes de consciência social crítica das contradições autodestrutivas do capital.


Tudo sugere que o modelo capitalista americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos outros, como o nosso, o México, o Canadá. Isso não é coisa de agora. Em relação a nós, vem de longe.

É preciso definir as temporalidades do crescente processo de ação americana em suas relações internacionais no sentido de monitorar e limitar economias do Terceiro Mundo e, no que nos interessa, cercear o desenvolvimento capitalista na América Latina e, em particular na Argentina, no México e no Brasil.

O capitalismo se desenvolveu mais típica e caracteristicamente na Inglaterra, onde ocorreu a primeira revolução econômica capitalista. O Brasil nasceu, como país independente, patrocinado e financiado pela Inglaterra, que concebeu nossa independência e a financiou como parte do projeto inglês de potência econômica colonial. Esse plano está num documento de 1805 da Biblioteca Britânica, de Londres.

Quando a crise do capitalismo abateu o capitalismo inglês, o eixo da economia internacional se deslocou para os EUA. Surgiu a “doutrina” da América Latina como quintal americano, agora ainda invocada pelo governo Trump. O chamado imperialismo surgiu geopoliticamente como um modo de impedir a expansão territorial do capitalismo, para concentrar na metrópole sua poderosa capacidade de produzir riquezas e distribuí-las parcimoniosamente por menos do que o apetecido pelos subdesenvolvidos.

Antes mesmo de consolidar-se a transferência da hegemonia econômica da Inglaterra para os EUA, os americanos já temiam e estavam preocupados com o desenvolvimento da indústria no Brasil. Nos anos 1920, o Departamento de Comércio realizou na Argentina e no Brasil uma pesquisa sobre o desenvolvimento industrial nos dois países.

Descobriu que ambos tinham um desenvolvimento industrial significativo, com capacidade ociosa para atender a demanda interna de produtos industrializados numa eventual crise que dificultasse a importação de bens de consumo. Nossa industrialização não nasceu da crise do café, como equivocadamente supôs Celso Furtado, que não examinou os documentos americanos para explicá-la.

Os nossos engenheiros, mesmo os formados nas escolas militares, e nossa mão de obra qualificada, foram capazes de inventar peças e máquinas, começaram a substituir importações substituindo peças desgastadas de máquinas importadas por peças fabricadas aqui mesmo, artesanalmente, com a reciclagem de ferro-velho. Ou importação de matéria-prima.

Mesmo a espionagem industrial entrou no jogo. Antônio Pereira Inácio, que seria sogro de José Ermírio de Moraes, expressão da burguesia nacional, fez isso em empresas americanas. Quando decidiu voltar ao Brasil e montar sua própria indústria, devolveu à empresa que espionara todos os salários recebidos.

O exemplo que entre nós evidencia o quanto o capitalismo americano é anticapitalista é o da biografia de Roberto Cochrane Simonsen, industrial e político. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os americanos montaram o Plano Marshall para aplicar recursos de rápido desenvolvimento econômico nos países vencidos, especialmente na Europa.

Roberto Simonsen foi aos EUA defender que o Plano Marshall fosse estendido à América Latina, que se transformaria numa potência econômica. Os americanos recusaram o apoio. Sem dizê-lo, não queriam que a América Latina se transformasse numa potência capitalista. Ficamos confinados nos limites bem definidos de um subcapitalismo, como o definiu Fernando Henrique Cardoso.

O golpe de 1964 foi patrocinado pelo governo americano em nome da geopolítica da dominação econômica. Para não sermos o que tínhamos condições de ser.

Acelerar de olhos fechados… contra o muro

“Acho que vamos precisar de um barco maior.” Esta frase, saída da boca do ator Roy Scheider, tornou-se rapidamente a mais célebre de Tubarão, de Spielberg, e uma das mais lembradas da história do cinema. Ela é proferida ao fim de uma hora de filme, quando o grupo de três homens numa frágil embarcação viu, finalmente, a dimensão do animal que perseguia. Em meia dúzia de palavras, estava ali tudo: além de ajudar a alimentar o clima de suspense, aquela meia dúzia de palavras passou a ser usada também, como parábola, em diversas situações, como quando se percebe que alguém não está preparado para a tarefa a que se propôs, que subestimou a dimensão de um problema ou ganhou consciência de que as ferramentas que tem ao dispor são demasiado pequenas para a enormidade do desafio que tem de enfrentar.

É uma frase que, na sua simplicidade, revela os valores da prudência e do bom senso. E da necessidade de um bom planeamento, de forma a evitar surpresas desagradáveis.


O mundo mudou muito, entretanto. Tanto que, ao contrário desses idos de 1975, em que até em Hollywood ainda se acreditava que a justiça iria prevalecer e que os justos acabariam sempre por derrubar os injustos, hoje a prudência e o bom senso passaram a ser características em desuso, associadas, tantas vezes, a espíritos fracos, quiçá medrosos. Foram substituídas pela fé inabalável no progresso tecnológico, pela ganância do lucro desmedido e pelo mais completo desprezo pela vida humana.

A corrida vertiginosa a que se assiste pelo domínio da Inteligência Artificial é o exemplo paradigmático de tudo isto. É um palco onde ninguém admite que está num barco pequeno demais para a envergadura do desafio. Aliás, neste mundo da IA ninguém quer estar no barco – todos querem ser o grande e poderoso tubarão-branco que vai devorar tudo e todos, não importa como e com que consequências.

Os sinais acumulam-se. Na última semana, tivemos conhecimento de como um dos modelos da OpenAI, a empresa do ChatGPT, conseguiu escapar ao controlo, invadir o sistema de uma outra empresa e, como que obedecendo ao seu “instinto”, aniquilar tudo o que foi preciso para cumprir a sua tarefa. Ou seja: aproximando-se daquilo a que se chama ganhar vida própria e, assim, deixar de responder ao seu “criador”.

Soaram os alarmes, mas é difícil acreditar que alguma coisa de importante vá mudar. Há anos que imensos cientistas têm alertado para os riscos do poder descontrolado da IA. Recentemente, uma consulta a 272 especialistas na matéria, conduzida pelo insuspeito MIT, indicou que existe uma probabilidade de 22% de ocorrerem danos catastróficos nos próximos cinco anos, caso o desenvolvimento das ferramentas e dos modelos de IA continuem como estão. E atenção que esses “danos catastróficos” são muito piores do que o ataque do tubarão-branco no filme de Spielberg: foram definidos como mais de um milhão de mortes ou dez mil milhões de dólares em perdas financeiras.

Mas o que é que isso interessa, bem poderia ter dito Elon Musk, na entrevista recente – e histórica – que deu à revista The Economist. Nessa longa conversa, o homem da Tesla e da SpaceX apenas quis sublinhar as virtudes da IA, que trará “dentro de dez anos” um mundo de abundância sem paralelo, em que as pessoas já não precisarão de trabalhar, em que as máquinas desempenham a maioria dos serviços, sejam eles manuais ou criativos. Mas, claro, será um mundo em que as contradições habituais de Musk estarão mais visíveis do que nunca, já que, em paralelo com o paraíso tecnológico, ele prevê também um pesadelo geopolítico em que, por exemplo, o Reino Unido cairá numa guerra civil.

O mais incrível é que Musk também admite que há riscos neste percurso. Só que considera que não se pode fazer nada para travar o desenvolvimento de máquinas com capacidade de substituir os humanos. “O melhor que temos a fazer é aproveitar a viagem”, afirmou.

É melhor que tenhamos consciência do que pode ser essa viagem. Pela amostra que temos tido, será uma viagem em que a era da abundância será apenas para alguns. E em que outros terão de viajar sem cinto de segurança e a uma velocidade cada vez maior, a confiar que a IA não se esqueça de pisar no travão, antes de o carro embater contra o muro. Face ao desvario digital e ao crescente descontrolo das máquinas, o mundo está mesmo a precisar de mais prudência e de bom senso. Ou seja, de um barco maior..

O Brasil picou?

Os americanos, que vivem em competição doentia com os outros e entre eles próprios, têm uma expressão: "to peak". Significa atingir o pico, o ponto mais alto, o máximo de alguma coisa. Só que eles a usam como verbo: picar. Fulano picou na profissão, a música tal picou em décimo lugar nas paradas, a temperatura ontem picou em 35ºC. No Brasil, não falamos assim, mas poderíamos — e deveríamos. Para um país que há séculos se diz do futuro, o que fazer se, ao contrário do que queremos acreditar, o Brasil já tiver picado?


Ivan Lessa, arguto pensador popular, era dessa opinião. Para ele, o Brasil picou em algum momento entre os anos 1950 e 1960 — de Juscelino a, digamos, 1963. Foi quando tivemos vasta industrialização, urbanização e politização; o país começou a ser exaustivamente "pensado"; a criatividade em todas as categorias chegou a níveis absurdos; éramos adultos, responsáveis e otimistas; e tudo num clima de total liberdade democrática. Claro que esta é só a opinião de Ivan Lessa. Outros poderão atribuir outras épocas ao pico do Brasil. O que interessa é se o Brasil ainda tem jeito ou se já picou mesmo.

Desiludido, Ivan se mandou para Londres em 1978 e morreu lá, em 2012. Imagino se soubesse do Brasil de hoje, o paraíso dos bolsonaros, vorcaros, malafaias, neymares e outros luminares, dedicados a nos fazer de otários em primeiro grau. Eis alguns:

Políticos ligados a milicianos e facções. Influenciadores promovendo estilos de vida irrealizáveis. "Consultores" financeiros recomendando investimentos com lucros fabulosos em ativos sem lastro na economia real. Vendedores de cursos online sobre como ficar rico. Aliciadores de menores na internet. Sem falar em torcedores não mais de futebol, mas de "fubetol" (obrigado, Sérgio Rodrigues), cantores de sofrência pagos em milhões por prefeituras de cidades sem escolas e hospitais; mulheres com peitos pneumáticos, boca de peixe e bochechas de Fofão; etc.

Dúvida atroz: e se, em vez de ter picado no passado, o Brasil estiver picando agora?

O engano pelas palavras

Com a intenção de defender sua indústria, a Inglaterra usou o argumento humanista do combate ao trabalho escravo no Brasil, há pouco mais de duzentos anos. Agora, o governo de Donald Trump utiliza o mesmo argumento, com hipocrisia. É preciso condenar o oportunismo trumpista, mas sem perder de vista um drama social brasileiro real, que vem sendo camuflado por um vocabulário afeito a suavizar a tragédia. Para evitar caracterizar os brasileiros submetidos a trabalho análogo à escravidão como pobres desassistidos, o dicionário politicamente correto passou a chamá-los de “hipossuficientes”, termo técnico que esconde o drama e, de algum modo, absolve a responsabilidade dos políticos. Os sem-teto passam a ser “moradores em situação de vulnerabilidade”, expressão que não traduz o relento, nem a exclusão. Se, na África do Sul, o apartheid tivesse sido chamado de desigualdade racial, a bárbara desumanidade da separação entre negros e brancos teria sido diluída. É isso que se faz no Brasil ao chamar de desigualdade social a apartação que caracteriza a sociedade brasileira segregando condomínios de tugúrios.


O uso da expressão “vítima de insegurança alimentar”, em vez da palavra faminto, transforma a dor em um conceito técnico e não transmite o sofrimento de quem passa fome. Para evitar estigmas, o termo prostituição infantil foi substituído por “exploração sexual de menores”. Evita-se a marca infame de crianças submetidas à prostituição, mas atenua-se a violência moral e transforma-se a vergonha social em mais um tipo de exploração, como se a ação de um criminoso pervertido fosse comparável à exploração de um operário. De forma semelhante, trocar favela por “comunidade” pode atenuar o estigma de quem mora nela, mas mascara a carência de serviços urbanos e oculta o tamanho da desigualdade.

O politicamente correto é moralmente imperfeito

Por sentirem que o termo analfabeto carrega discriminação ofensiva, alguns defendem o uso do termo “iletrado”. Essa substituição disfarça a tortura diária de quem não sabe ler e isenta os governos da responsabilidade por essa tragédia. Iletrado é quem aprendeu a ler, mas não lê com frequência, sem a dramaticidade da situação de uma pessoa que, por falta de cuidados do Estado e da sociedade, chegou à vida adulta incapaz de ler. A mudança de escravo para “escravizado” tem o mérito de lembrar que os africanos eram livres antes de capturados, mas ofusca o fato de que, salvo raras exceções de alforria ou fuga, o capturado tornava-se escravo por toda a vida. O sistema fazia com que, desde a captura, o estar escravizado se transformasse na condição permanente de ser escravo. A mulher negra grávida carregava um bebê ainda não escravizado, mas já escravo — condenado desde o ventre, como se o útero fosse um navio negreiro humano. A boa intenção de indicar uma condição temporária pode ocultar a perversidade de um sistema vitalício.

A prática de camuflar a tragédia, tratando-a como etapa de um processo, repete-se no uso da expressão “em vias de desenvolvimento”, em lugar de subdesenvolvido. Embora a palavra mais antiga transmita a ideia de condenação ao atraso, a nova expressão oculta o círculo vicioso que mantém as populações na pobreza, caso não ocorram rupturas políticas, econômicas e educacionais. Embora com boas intenções, o politicamente correto fica imperfeito moralmente.

Eleição além-fronteiras

“Não temos tido sequer um minuto de sossego”, afirmou o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez ao receber em 1982 o Nobel de Literatura em um discurso no qual ele percorre a história de fantasias e dramas da América do Sul. Mais de 40 anos depois, a frase parece ecoar uma vez mais e, no Brasil, será escrito e testado o próximo capítulo dessa história de assédio ao continente.

A eleição no País não vai determinar apenas quem será o novo presidente ou qual a composição do Congresso. O que está em jogo é uma disputa que vai muito além de nossas fronteiras. Vamos definir quem somos no mundo, que projeto de nação queremos. Mas também como a nova ordem global será desenhada. O que vimos nos últimos dias com o envolvimento de Javier Milei, viagens de equipes obscuras de Donald Trump ou mesmo um telefonema de Xi Jinping são sinais escancarados de que há muito mais em jogo na eleição brasileira do que interesses domésticos.


Para o governo de Trump, reafirmar a América Latina como quintal é parte fundamental de sua política externa e estratégia para conter o avanço da influência chinesa pelo mundo. Ao longo dos últimos meses, a ação da Casa Branca em eleições pela região foi determinante para os resultados das urnas. Qualquer ambição de controlar a América Latina entraria, no entanto, para a história como um projeto fracassado se não incluir o Brasil, que representa um terço da população e do território, além de um volume preponderante da economia do continente. Para Washington, portanto, a eleição é o momento definidor dessa estratégia.

Para a extrema-direita global, as urnas no País também são centrais. Sequestrar o Estado brasileiro é fundamental para o plano de refundar o Ocidente a partir de novos valores, ultraconservadores. Ao longo dos últimos anos –e principalmente após a vitória de Trump nos EUA –, o movimento orquestrou uma tentativa de sequestro de organismos internacionais. A tática foi tão simples quanto assustadora. Washington fechou as torneiras a entidades globais e condicionou qualquer retomada de recursos a uma transformação daquelas instituições para que cumpram seus objetivos. Em outras palavras: um sequestro e uma exigência para iniciar qualquer diálogo que permita um resgate da vítima. Mas há um limite. Principalmente no mundo em desenvolvimento. Ter em suas mãos a rede da diplomacia brasileira garante ao movimento reacionário a influência sobre dezenas de países que contam com o Brasil como referência e uma força sedutora substancial nos organismos internacionais e regionais.

O que ocorrer em outubro também terá uma repercussão imediata para o destino de Javier Milei, José Kast e tantos outros líderes sul-americanos de extrema-direita. Ainda que façam oposição ao presidente Lula, todos sabem que suas economias irão à falência se o Brasil optar por romper acordos ou fechar pontes comerciais ou diplomáticas. Na Casa Rosada ou em qualquer outro gabinete presidencial da região, os governos são cientes de que precisam do mercado brasileiro para que ­suas próprias economias possam prosperar.

Essa é também uma eleição estratégica para a China. Em Pequim, diplomatas questionam de que maneira uma eventua­l vitória de Flávio Bolsonaro seria decisiva para o novo mapa mundial que se desenha e a ambição de Trump de expulsar qualquer presença chinesa na América Latina. Um Brasil sem forças progressistas significaria um golpe profundo no projeto do BRICS? Um Brasil com um Bolsonaro submisso à Casa Branca significaria o fim do projeto de desdolarizar parte do comércio mundial? Quem teria controle sobre as terras-raras brasileiras? Qual o destino da agenda de desenvolvimento, de combate à fome e das questões climáticas globais com um governo em Brasília que romperia com tratados internacionais? Não há almoço grátis no mundo do poder. Qual seria, portanto, o preço que Trump cobrará de Flávio Bolsonaro para apoiá-lo na eleição?

Nas urnas brasileiras, essencialmente, são rabiscadas as fronteiras estratégicas da disputa entre dois poderes que têm ambições hegemônicas. No fundo, é a própria definição do conceito de soberania e a sobrevivência do direito internacional que estão sendo testados.

As veias abertas da América Latina continuam a sangrar. Um continente que percorre séculos na tentativa de construir um caminho do outro lado do colonialismo. A esperança é que essas veias também resistam. Uma resistência que terá no Brasil um de seus capítulos mais críticos de nossa geração. Com disputas por terras, violência e ingerências que repetem algumas das cenas mais tristes de um continente exausto, a história global do século XXI tem sido taquigrafada uma vez mais no Brasil.

Religião ajuda ou atrasa um país?

Sou um homem de fé, sempre fui. Gosto de acreditar no divino, no mistério, na transcendência, no candomblé, no budismo. Educado por padres jesuítas, aprendi muita coisa, mas também a detestar toda aquela arquitetura do medo, da culpa, do desamparo, que os padres incutiam nos adolescentes. Depois, a duras penas, você se liberta, ou quase. A verdade é que você pode sair dos jesuítas, mas eles não saem de você. Na origem, é uma ordem religiosa militarizada, fundada por Santo Inácio de Loyola como Companhia de Jesus, em que os fiéis são “soldados de Cristo”, guerreiros da fé, que deve ser levada aos infiéis a qualquer preço, pela catequese ou pelas armas.


Durante muito tempo, o Brasil foi o maior país católico do mundo, mas não é mais, com o crescimento dos evangélicos a quase 30% da população, enquanto os católicos caíram para 55%. Nos Estados Unidos, eles são só 20%, enquanto os protestantes de diversas denominações são quase 45%.

Enquanto isso, China e Japão exibem um progresso espetacular e estão entre os países mais prósperos do mundo, com menos de 1% de cristãos na população. Na China, mais da metade do povo é de ateus, e, entre os crentes, a maioria é budista e confucionista. No Japão, mais de 80% são budistas e xintoístas, que não são propriamente religiões, mas um conjunto de filosofias e regras de conduta.

Quando a religião se mistura cada vez mais com a política e se transforma em instrumento de poder no Brasil, é inevitável pensar em que medida a religião pode atrasar o progresso social e econômico de um país. Vejam a China e o Japão, em contraste com os países em que a religião tem grande poder e exerce o culto do medo, da obediência, da exclusão, da intolerância, da irracionalidade, da ignorância, da ânsia de pertencimento, de transcendência, onde a religião se mistura com partidos e políticos de direita têm atrasado o progresso social e a liberdade individual com preconceitos e discriminações de origem supostamente religiosa.

Certamente na China e no Japão as pessoas dispõem de um imenso espaço livre no seu pensamento para tudo o que lhes interessa de verdade, sem a opressão e os limites da religião. Imagino quanto espaço a religião ocupa na vida das pessoas no Brasil e nos países católicos. O poder que desfrutam os pastores sobre seus rebanhos, como representantes de Deus na Terra. Sejam evangélicos ou católicos, muçulmanos ou judeus. O problema é o rebanho e suas crenças. A mistura de política e religião deu na teocracia iraniana que criou um estado policial que exige obediência absoluta a regras religiosas, e deu todo o poder aos aiatolás há 47 anos. No Afeganistão, o Talibã se consolidou no poder na base de princípios religiosos que destroem a liberdade individual e o crescimento social.

Na China e no Japão não há manadas de crentes. A religião não influi nas políticas de Estado. Não dá votos nem para síndico do prédio. Não dá dinheiro para seus pastores, cardeais ou mulás. Não é o “ópio do povo” de Marx. O ópio do povo são as bets.

Pensamento proibido

Pedi para ir para a catequese. Os meus pais eram aquilo a que se chama católicos não praticantes. A minha mãe andava com pagelas de santinhos na carteira e rezava quando tinha uma aflição. O meu pai não se metia nisso. E a religião não era propriamente um tema em minha casa, a não ser nas vezes em que a minha mãe decidia perceber outros ritos e lá tínhamos nós mórmons ou testemunhas de Jeová em casa. Mas essa é outra conversa. E eu pedi para ir para a catequese em parte, estou certa disso, por causa da ideia do vestido branco e da festa da primeira comunhão, mas também porque tinha genuína curiosidade. Tive, claro, um vestido com laços cor-de-rosa, feito especialmente para mim, e os avós e primos do Porto num almoço. Mas quando a refeição foi servida e o bolo cortado, já eu tinha decidido que não acreditava em nada daquilo.

Tomei essa decisão definitiva quando percebi que tinha de inventar pecados para a confissão que iria dar-me acesso à hóstia sagrada. Mas era uma coisa que já andava a maturar nas aulas da catequese, enquanto a mente vagueava por dúvidas e eu percebia que esse Deus todo-poderoso não conseguia entrar nos meandros da minha mente de criança. Se eu conseguia mentir na confissão sem que nada me acontecesse, então nada daquilo fazia sentido, concluí eu. E não pensei mais nisso.


A ideia de que ninguém entra na nossa cabeça é uma das armas mais poderosas que se pode ter na infância. Percebi isso cedo. Usava esse superpoder para imaginar outros mundos, viajar sem sair do quarto, inventar histórias e conversas, quando o que estava à volta não me interessava, quando precisava de combater o tédio de não ter nada para fazer ou resolver o facto de não ter com quem brincar naquele momento. Esse músculo fica para a vida. Há uma resistência em quem consegue viver dentro da própria cabeça sem que lhe falte o ar.

Os tempos estranhos que vivemos fazem-me pensar em coisas como esta. No pensamento como resistência, na imaginação como arma. Vivi toda a minha vida sem ser realmente confrontada com a possibilidade de haver ideias interditas. É impossível andar pelo mundo sem perceber que algumas ideias pesam mais do que outras, algumas convicções vêm com preços altos a pagar. Sabemos disso. Mas o mundo ocidental ofereceu-nos nas últimas décadas a ilusão de uma bolha de liberdade que começa agora a revelar as suas fissuras.

No site da Casa Branca está em destaque um comunicado de 16 de julho no qual se anuncia que a Administração americana “vai lançar uma campanha global para esmagar o terrorismo da extrema-esquerda”. A palavra “global” é importante, porque este é um anúncio sobre como esta luta se vai estender internacionalmente e não é por acaso que, entre os 60 países que aceitaram ir a uma reunião sobre esta estratégia, está Portugal. Há muito poucos anos, independentemente da filiação política de cada um, ninguém se atreveria a defender que um antifascista era um alvo abater. Os antifascistas eram aqueles poucos que tinham passado 48 anos a sofrer na pele a tortura, a clandestinidade, a perseguição e o exílio por ousarem pensar de forma diferente, por lutarem contra a injustiça, por quererem igualdade e liberdade. Querem que nos esqueçamos disso.

A Estratégia de Combate ao Terrorismo dos Estados Unidos para 2026, publicada em maio, aponta os antifascistas como terroristas. Não há uma definição clara de que atividades estão aqui em causa. Só um pensamento. Aparentemente, ser contra o fascismo é o problema. É um crime pensar assim. E a indefinição sobre os termos daquilo que é proibido pensar faz com que a regra se torne suficientemente elástica para pôr qualquer um em perigo. Não era isso o fascismo? E, se ser antifascista é um crime, é suposto os cidadãos americanos serem a favor do fascismo? Estas são perguntas que devem fazer todos os democratas pensar.

Nunca tive dúvidas de que pensar é a coisa mais perigosa que existe. Nunca tive dúvidas de que imaginar é a atividade mais subversiva de todas. Mas também nunca pensei chegar a ver o dia em que o pensamento voltasse a ser perseguido como um crime e em que a imaginação fosse erradicada, substituída pelas fórmulas mastigadas e vazias de vídeos de TikTok e criações de Inteligência Artificial.

Habituámo-nos a pensar que o fascismo era uma coisa com cheiro a ranço, guardada no formol dos museus. Esquecemo-nos de que o fascismo quando nasce é revolucionário, apanha o comboio da modernidade do momento, é futurista e deslumbrado com as tecnologias que lhe servem os propósitos de repressão. Começa por prometer abalar o sistema que falha, para depois o substituir por um novo sistema velho, muito mais podre e instalado.

E o problema está em abrir-lhes a porta. Deixar que entrem e nos digam quais são as pessoas proibidas, as bandeiras proibidas, os livros proibidos, as palavras proibidas, as ideias proibidas. Enquanto invocam a liberdade, amordaçam, enquanto invocam a segurança, atemorizam, enquanto invocam a ordem, espalham o caos. Conhecemos os métodos. Sabemos ao que vêm. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.

Sabemos tudo dos livros e da nossa memória ou da dos outros. Mas isso não chega. E o problema não está só nos que entram, mas nos que lhes abrem a porta. Nos que fingem que está tudo bem. Nos que nos deixam frustrados com uma igualdade que não se cumpre, com uma liberdade que é um luxo exclusivo de alguns. É preciso dizer todas estas coisas em voz alta, uma e outra vez, antes de sermos obrigados a guardar para nós pensamentos que serão perseguidos. Outra vez. E desta vez com máquinas capazes de os adivinhar, com algoritmos capazes de nos fazer duvidar de nós próprios, com tecnologia capaz de nos aniquilar qualquer possibilidade de existência social antes mesmo de nos matar.

Nada está escrito antes de acontecer. As coisas não são inevitáveis. O pensamento não tem de voltar a ser proibido. A desigualdade não tem de ser galopante. A liberdade não tem de ser restringida. Repitam-no em voz alta e muitas vezes. E voltará a ser verdade.