sábado, 15 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


A 'praga' dos influencers: o cinema e a política já não querem críticos, querem cúmplices

Começo pelo que me é mais próximo. Houve um tempo em que os distribuidores nacionais e internacionais mostravam os filmes aos críticos porque admitiam que um filme podia ser pensado antes de ser vendido. O crítico via, escrevia, irritava o realizador e, de vez em quando, ajudava o público a descobrir uma obra que a publicidade não sabia embrulhar. Agora, a ante-estreia parece quase uma festa infantil, daquelas que outrora se destinavam aos filmes de animação da Pixar ou da Disney, organizada por uma multinacional: uma parede “instagramável”, pipocas da cor da campanha, brindes nas cadeiras e telemóveis erguidos antes de a luz se apagar. O filme ainda não começou e já é “uma experiência imperdível”. A opinião chega antes do objeto e a obra-prima nasce no corredor, ao lado do photocall.


Chamam-lhes influencers ou criadores de conteúdos, expressão suficientemente vaga para não se perguntar que conteúdos criam, para quem e pagos por quem. Alguns são cinéfilos sérios e chegam a públicos que os jornais abandonaram. O problema não é o TikTok, o YouTube ou a juventude. Uma crítica não fica inteligente por sair num jornal, nem estúpida por ser filmada na vertical. A fronteira está entre pensamento e promoção, independência e publicidade.

Os estúdios perceberam depressa a vantagem. Um crítico pode gostar ou não gostar. Um influencer convidado para uma estreia, alojado num hotel, conduzido pela passadeira vermelha, alimentado pelo catering e colocado durante vinte segundos diante de uma estrela tem, no mínimo, um problema de gratidão e, regra geral, não ganha um “tusto”. Nem é preciso ordenar-lhe que elogie. A censura moderna não levanta a voz: gere listas. Quem embaraça a campanha deixa de receber convites. Quem escreve “obra-prima” antes do embargo ganha uma entrevista, uma viagem e uma caixa de merchandising que acabará no lixo depois de produzir quatro stories.

Os grandes estúdios e as distribuidoras internacionais organizam sessões preparadas para gerar reações, não análises, nas quais os influencers recebem acesso antecipado e o crítico chega quando o filme já está coberto por “uau”, “épico” e “não estava preparado para isto”. Entretanto, alguns criadores de conteúdos também descobriram que uma opinião negativa rende mais visualizações. A indústria criou mascotes e acordou rodeada de monstros algorítmicos.

No fundo, os distribuidores já não procuram quem saiba falar de cinema. Procuram quem reduza melhor a distância entre o trailer e a compra do bilhete. Não querem uma leitura; querem uma temperatura. Não querem uma ideia; querem engagement. Não querem saber se o filme presta; querem saber se a hashtag pega. A crítica pergunta o que uma obra significa e que linguagem inventa ou repete. O marketing pergunta quantos seguidores tem a pessoa que vai dizer que chorou no fim. Entre uma pergunta difícil e uma lágrima bem iluminada, Hollywood escolhe a lágrima.

Depois aparece a desculpa suprema: “Temos de chegar à Geração Z.” A frase é dita com o paternalismo de quem acredita que os jovens já não conseguem ler três parágrafos. A Geração Z não nasceu ignorante. Não é, afinal, a geração mais qualificada e viajada de sempre? Porém, foi educada num ecossistema que recompensa a velocidade, castiga a dúvida e oferece estímulos sem contexto. Se desconhece a história do cinema, talvez seja porque as televisões deixaram de mostrar clássicos, as revistas de cinema fecharam ou se limitaram à sobrevivência através dos cliques do online, os jornais despediram a maioria dos críticos e jornalistas culturais e as escolas tratam a cultura como decoração ou acessório. Culpar os jovens por comerem mal depois de lhes fechar a biblioteca e abrir vinte cadeias de fast food é cobardia adulta.

A praga, portanto, não são propriamente os influencers. A praga é o modelo que transforma toda a pessoa numa superfície publicitária, toda a experiência em conteúdo e toda a opinião numa mercadoria. O influencer é apenas o rosto mais fotogénico do problema. Atrás dele estão distribuidoras, agências, departamentos de marketing e plataformas que descobriram uma forma barata de comprar proximidade. A publicidade tradicional tinha, pelo menos, a decência de parecer publicidade. Esta nova publicidade veste a roupa da amizade e começa por dizer: “Malta, tenho de vos contar uma coisa.”

É também por isso que tantos vídeos parecem ter sido produzidos pela mesma pessoa, ainda que apresentem rostos, penteados e sotaques diferentes. Há sempre uma estante estrategicamente desarrumada, uma planta que prova sensibilidade ecológica, um pequeno microfone agarrado entre os dedos e uma energia de vendedor de aspiradores promovido a filósofo da cultura. O filme “bateu-me muito”. A interpretação “está incrível”. A fotografia “é brutal”. A história “faz pensar”. Pensar em quê já seria pedir demasiado. O algoritmo não recompensa desenvolvimento; recompensa reconhecimento. O espectador deve perceber imediatamente se deve gostar, odiar, comprar ou partilhar. A dúvida, essa velha matéria-prima da inteligência, faz perder retenção.

Não é que os influencers digam sempre bem. Alguns já aprenderam que destruir um filme pode dar mais visualizações do que elogiá-lo. Mas até a negatividade obedece ao mesmo mecanismo. O filme não é analisado: é executado. “O pior do ano”, “uma vergonha”, “ninguém pediu isto”. De um lado, o entusiasmo alugado; do outro, a indignação industrial. No meio, o cinema, reduzido a combustível para alimentar uma personalidade digital que precisa de publicar amanhã, depois de amanhã e todos os dias, até que o algoritmo a substitua por alguém mais novo, mais rápido e com uma estante ainda mais bonita atrás de si.

O contágio não termina no cinema. A televisão e a informação televisiva descobriu o seu próprio influencer: o comentador residente. À segunda-feira domina finanças, à terça a guerra, à quarta a justiça e à quinta explica, com a mesma segurança, a alma nacional e o Governo do País. É uma marca com gravata. Mandar um repórter investigar custa dinheiro e pode produzir uma conclusão incómoda; sentar quatro comentadores à mesa ou por videoconferência de casa, custa menos e gera clips. A televisão imita o algoritmo: frases curtas, indignação pronta, adversários fixos. Quem diz “não sei” desaparece; quem grita muito regressa amanhã e nos dias seguintes.

O comentador televisivo já não está ali para esclarecer. Está para representar uma posição, ocupar uma trincheira e produzir frases suficientemente inflamáveis para circularem nas redes sociais. É o influencer político adaptado ao horário nobre. Tem maquilhagem profissional em vez de ring light, auricular em vez de microfone minúsculo e um realizador a escolher-lhe o melhor plano quando levanta a sobrancelha. A função, porém, é semelhante: transformar complexidade em identidade e informação em espetáculo.

O Digital News Report 2026 ajuda a perceber a mudança: 27% dos inquiridos recebem notícias de criadores dedicados à informação e 46% consomem alguma informação através de criadores de qualquer género. Consideram-nos mais divertidos e próximos, mas também menos fiáveis e imparciais do que os meios tradicionais. Confiamos menos, mas vemos mais; desconfiamos da mensagem, mas partilhamo-la porque dura quarenta segundos e sorri para nós.

A autoridade deixou de depender do conhecimento e passou a depender da familiaridade, por vezes até de um estúdio de televisão com croma atrás. Vemos a mesma pessoa todos os dias, ouvimos a sua voz durante meses, conhecemos a sala onde grava, o cão que lhe passa atrás e a caneca de café que segura. Acabamos por acreditar nela não porque apresente provas, mas porque já faz parte da mobília emocional da nossa vida. O jornalismo tinha instituições, editores, regras, correções e responsabilidades. O novo pregador digital tem seguidores. E um seguidor, como a própria palavra indica, não é exatamente alguém treinado para fazer perguntas.

Quando esta lógica entra na política internacional, o assunto deixa de ser apenas irritante e torna-se altamente perigoso e perverso. Um filme mal promovido pode perder espectadores; uma guerra promovida como produto pode fazer desaparecer seres humanos dentro de uma narrativa. Em Setembro de 2025, documentação registada nos EUA ao abrigo da lei dos agentes estrangeiros descreveu uma campanha internacional ligada a Israel, com verbas destinadas à produção de conteúdos e ao trabalho com influencers, incluindo metas mensais de publicações. O documento não prova que toda a defesa pública de Israel seja paga, nem permite acusar alguém apenas porque tem uma determinada opinião. Prova que os Estados compreenderam o valor estratégico de uma voz aparentemente pessoal e espontânea.

No caso de Gaza e da Palestina, esconder a origem de um patrocínio não é uma pequena infração publicitária. É manipular a confiança entre uma pessoa e a sua comunidade. Pode defender-se Israel, a Palestina, um cessar-fogo, dois Estados ou outra solução. O que não se pode é vender uma narrativa encomendada como descoberta moral. Uma viagem paga não é uma epifania. Um guião de agência não é consciência. E um vídeo diante de ruínas não se transforma em jornalismo só porque tem boa luz, música grave e um plano de drone.

A propaganda mais eficaz já não começa com uma voz oficial. Começa com: “Estive aqui e ninguém vos está a contar a verdade eu.” Trinta segundos mais tarde, uma guerra cabe num reel e o espectador sente que compreendeu tudo. Não compreendeu; foi conduzido. Desde outubro de 2025, a União Europeia aplica regras de transparência à publicidade política, que podem abranger criadores remunerados para promover ideias. Uma opinião patrocinada continua a ser publicidade, mesmo quando filmada na cozinha.

A manipulação tornou-se mais eficaz porque perdeu o aspeto de manipulação. Já não chega num panfleto assinado pelo ministério, mas numa conversa aparentemente casual. O influencer visita um lugar escolhido, fala com pessoas selecionadas, recebe dados preparados e regressa com a convicção daqueles que descobriram a verdade numa viagem de três dias com motorista e guia orientado. Tudo parece testemunho. Tudo parece espontâneo. Tudo foi pensado para parecer exatamente assim.

Não se trata de proibir opiniões favoráveis a um país, a um governo ou a uma causa. Trata-se de exigir que saibamos quando uma opinião também é um serviço. Quem paga a viagem? Quem escolhe o itinerário? Quem organiza os encontros? Quem fornece os números? Quem aprova o conteúdo? A transparência não impede ninguém de falar; apenas impede que a publicidade se faça passar por consciência individual. E talvez seja por isso que tanta gente a detesta.

Volto à velha crítica de cinema, sejamos honestos, também cavou parte da sua própria sepultura. Tornou-se previsível e prudente. Houve críticos que aceitaram funcionar como máquinas de promoção, confundindo o amor pelo cinema com a obrigação de elogiar tudo, fazer entrevistas coletivas em barda e não levantar ondas. Depois ficaram surpreendidos quando a indústria encontrou profissionais mais rápidos, mais jovens em geral, baratos, sorridentes e, portanto, menos sisudos e mal-vestidos.

Durante demasiado tempo, alguns críticos acreditaram que defender o cinema significava recomendar todos os filmes, como se uma crítica negativa fechasse salas e uma positiva salvasse a arte. Aceitaram entrevistas coletivas de cinco minutos, perguntas previamente negociadas, frases promocionais arrancadas aos textos e embargos desenhados para impedir qualquer pensamento antes do fim-de-semana de estreia. Habituaram a indústria à docilidade e agora queixam-se de que apareceu uma espécie ainda mais dócil. É a velha história do cortesão que protesta quando o rei arranja um cão ou um novo animal de estimação.

Mas a solução não é substituir a crítica por relações-públicas com rosto humano. É recuperar aquilo que ela ainda pode oferecer e o marketing nunca oferecerá: distância, memória, contexto, contradição, estilo, risco e liberdade para dizer não. Um crítico não existe para levar pessoas ao cinema a qualquer preço. Existe para lhes dar razões, inclusive razões suficientemente fortes para não ficarem em casa. Trabalha para a vida posterior do filme, quando o brinde foi deitado fora, o reel deixou de circular e sobra a obra ou o vazio.

A crítica sobreviverá, provavelmente sem o antigo trono de eleição, porque tudo tem o seu tempo e agora os influencers são decerto uma moda. Porém, seja de cinema ou de qualquer outra arte, terá de escrever melhor, dominar novas linguagens e deixar de confundir perda de privilégios com o fim da civilização. Mas não pode abdicar da independência para parecer moderna. Quando o cinema troca críticos por cúmplices, o jornalismo por comentadores e a política por vendedores de narrativas, não estamos perante uma democratização da comunicação. Estamos perante a privatização da confiança.

A verdadeira praga dos influencers não está no telemóvel, no ring light ou no microfone minúsculo, preso entre o indicador e o polegar. Está numa sociedade que só valoriza a opinião quando ela vende alguma coisa: um filme, um candidato, uma guerra, uma causa. Quando todos são convidados a influenciar, a única rebeldia séria é recusar ser influenciado pelo convite. E quando um estúdio, um partido ou um governo pergunta quantos seguidores temos, talvez esteja na altura de responder com a única métrica que ainda interessa: quantas perguntas somos capazes de fazer sem medo nem hesitações, até onde estamos dispostos a levar a nossa curiosidade e atenção e quantas verdades estamos preparados para dizer, mesmo sabendo que não haverá convite para a próxima estreia ou apresentação.

O momento do México e do Brasil

Na manhã de 6 de agosto, reuni-me, em nome da presidenta Claudia Sheinbaum, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Coincidimos em um ponto central: é momento de levar a colaboração entre nossos países a um novo nível. Nesse mesmo dia, realizou-se a sexta reunião da Comissão Binacional México-Brasil, três anos após a quinta, em um intervalo que transformou a ordem internacional.

O Brasil e o México são as duas maiores economias e as duas nações mais populosas da América Latina e do Caribe. Concentramos cerca de 60% do PIB regional, figuramos entre as 15 maiores economias do mundo e fazemos parte do G20. Essa dimensão implica responsabilidade compartilhada diante dos desafios de nosso tempo: combater a pobreza, a desigualdade e as mudanças climáticas, defender a democracia e preservar o multilateralismo.

Em matéria energética, a cooperação entre a Pemex e a Petrobras avança com base no memorando assinado em junho, que abriu uma agenda de intercâmbio técnico, tecnológico e regulatório em exploração, produção e transformação de hidrocarbonetos. Soma-se a isso uma cooperação crescente em biocombustíveis, área na qual o México aprenderá com a experiência brasileira.

Nossos governos compartilham uma convicção: a soberania energética e o desenvolvimento econômico devem avançar de mãos dadas com o combate às mudanças climáticas e com soluções baseadas na natureza. O Brasil demonstrou isso em novembro passado, quando sediou, em Belém, a COP30, a primeira conferência climática das Nações Unidas realizada na Amazônia. Dela resultaram compromissos sobre adaptação, proteção florestal e combustíveis sustentáveis. O México chegou a esse encontro com uma Contribuição Nacionalmente Determinada renovada.

Segundo o Banco do México, no primeiro semestre deste ano, nossas exportações para o Brasil cresceram cerca de 33%, e ambos os governos concordaram em ampliar o intercâmbio e os investimentos. O memorando de ciência, tecnologia e inovação assinado nesse mesmo dia abre caminho para o trabalho em inteligência artificial, semicondutores e computação quântica.

O Brasil convidou o México a integrar o Centro Latino-Americano de Biotecnologia, e o México convidou o Brasil a integrar a Agência Latino-Americana e Caribenha do Espaço. A cultura segue o mesmo caminho: a nova sede do Instituto Guimarães Rosa abrirá suas portas no México, junto ao Instituto Matías Romero, para ensinar português aos nossos funcionários e funcionárias.

Diante de um momento complexo na ordem internacional, México e Brasil compartilham uma mesma visão: diplomacias a serviço dos povos — e do nosso planeta — e uma ordem internacional sustentada no direito, que se aplique igualmente a todos e todas. Daí nossa defesa do multilateralismo, do direito internacional, da não ingerência e da igualdade jurídica dos Estados; o impulso a uma reforma das Nações Unidas à altura do nosso tempo; e o compromisso de preservar a América Latina e o Caribe como a Zona de Paz proclamada pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Nesse mesmo espírito, o México apoia a candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral das Nações Unidas.

Essa visão compartilhada tem expressões concretas. O Brasil assumiu a representação dos interesses do México no Peru enquanto durou a ruptura: um gesto que agradecemos e que honra a melhor tradição da vizinhança latino-americana.

O passo seguinte é transformar esse momento em uma arquitetura duradoura: transitar do diálogo bilateral para uma parceria estratégica de longo prazo, medida em resultados concretos. Cadeias regionais de valor em biocombustíveis, indústria aeroespacial, farmacêutica e minerais estratégicos; autossuficiência sanitária; capacidades espaciais próprias; posições compartilhadas no G20 e nos sistemas interamericano e das Nações Unidas.

Antes de receber o Prêmio Nobel da Paz, Alfonso García Robles foi embaixador do México no Brasil e se tornou o principal artífice do Tratado de Tlatelolco, acordo que fez da América Latina e do Caribe a primeira região habitada do planeta livre de armas nucleares.

Tlatelolco foi uma conquista regional e uma contribuição latino-americana para a ordem mundial, feita por países armados com o poder da diplomacia e do direito internacional. Esse é o padrão histórico que hoje reafirmamos: o momento do México e do Brasil não será medido pelo que alcançarmos internamente, mas pelo que a região — e o mundo — receberem de nós.

Fim da credibilidade de uma superpotência

Na semana passada, um pequeno terremoto geopolítico abalou o Oriente Médio. A Arábia Saudita e a Turquia – duas nações que mantiveram uma hostilidade aberta uma em relação à outra durante grande parte da última década – comprometeram-se a entrar em guerra em defesa uma da outra. Juntamente com o Paquistão, elas assinaram o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, declarando, ao estilo da Otan, que um ataque a uma delas seria considerado um ataque a todas.

O Paquistão e a Arábia Saudita mantêm, há muito tempo, laços estreitos em matéria de segurança. Mas a Arábia Saudita e a Turquia têm sido rivais regionais acirrados, entrando em conflito por causa do Catar, do Egito, da Irmandade Muçulmana e, de forma mais explosiva, do assassinato de Jamal Khashoggi em Istambul, pelo qual o líder turco, Recep Tayyip Erdogan, pareceu culpar diretamente o príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman.


Então, o que os uniu? Donald Trump – ou, melhor dizendo, a confiança cada vez menor dos dois países nele e em sua palavra. A guerra com o Irã tem sido uma aula magistral sobre como desperdiçar credibilidade. Vale lembrar que tanto a Arábia Saudita quanto o Catar receberam garantias de segurança de Trump apenas no ano passado. Mas a palavra dele é tão confiável para seus aliados no exterior quanto era para seus banqueiros em Nova York.

Trump declarou repetidamente que um acordo com Teerã estava a apenas alguns dias de ser fechado. Em meados de junho, uma contagem registrou pelo menos 38 declarações de que um acordo estava próximo ou de que o Irã o desejava desesperadamente.

No entanto, nesta semana, uma fonte iraniana disse à Reuters que as negociações não haviam feito “absolutamente nenhum progresso”. O mundo aprendeu a tratar seus anúncios na rede social como uma mistura de fato e ficção, assim como alguns dos vídeos gerados por IA que ele publica.

O mesmo padrão é visto na Europa. Em maio, Trump anunciou que 5 mil soldados americanos deixariam a Alemanha e sugeriu que mais cortes estavam por vir. O Pentágono cancelou um plano de envio de cerca de 4 mil soldados para a Polônia. Dias depois, Trump anunciou que mais 5 mil soldados iriam para a Polônia.

Às vezes, ele ameaça não defender a Europa contra a Rússia; outras vezes, diz que o fará. Imagine ser um ministro da Defesa europeu tentando elaborar um plano militar de dez anos com base nisso.

Trump declarou nesta semana que os EUA tinham “controle total” do Estreito de Ormuz. No entanto, dados de rastreamento de navios registraram apenas 14 embarcações transitando em um único dia recentemente, em comparação com mais de 130 por dia antes da guerra. Isso não é simplesmente uma questão de estilo presidencial ou retórica. Toca no cerne do poder americano.

Durante oito décadas, os EUA construíram algo tão poderoso quanto porta-aviões e esquadrões de caças F-35: credibilidade. Os aliados acreditavam que os compromissos americanos perdurariam de um governo para o outro.

Os adversários compreendiam que as ameaças americanas, embora às vezes exageradas, tinham peso real. O sistema não era perfeito. Washington quebrou promessas e cometeu erros. Mas havia uma presunção de que os EUA eram um ator previsível e as palavras do presidente tinham significado.

Trump trata promessas e ameaças como se estivesse jogando um grande jogo de blefe. Mas a imprevisibilidade é algo muito diferente em uma aliança do que em uma negociação imobiliária. Se os aliados não conseguem saber se as tropas chegarão ou partirão, se as tarifas aumentarão ou diminuirão, se um acordo assinado hoje será válido amanhã, eles não se tornam mais obedientes. Eles se tornam mais independentes.

Os países estão criando estratégias de segurança. A Dinamarca escolheu o sistema de defesa aérea franco-italiano SAMP/T em vez do americano Patriot. O Canadá está reconsiderando suas compras de F-35. Os governos europeus estão investindo em suas próprias indústrias de armamento.

A Coreia do Sul tornou-se o segundo maior fornecedor de armas para os países europeus da Otan e está ajudando a equipar a defesa aérea do Golfo com sistemas mais baratos que os Patriots. O banco central holandês transferiu serviços essenciais de nuvem para um provedor europeu, a fim de reduzir a dependência da tecnologia americana. E agora Arábia Saudita, Turquia e Paquistão estão construindo sua própria arquitetura de segurança.

Nenhuma dessas medidas, por si só, representa uma ruptura com Washington. Mas elas demonstram uma perda cada vez maior de confiança na palavra dos EUA. O mesmo está acontecendo com as ameaças americanas.

Se Washington ameaça aplicar tarifas, obtém concessões e depois volta a ameaçar com tarifas, os governos concluem que ceder não traz segurança. Parafraseando o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no início deste ano, se os países esperam que a obediência garanta segurança, isso não vai acontecer. Portanto, a resposta racional é construir alternativas.

Até mesmo Bibi Netanyahu não levou muito a sério as propostas de Trump, rejeitando de forma seca e sumária o plano de 15 pontos do presidente americano para o território da Faixa Gaza nesta semana. Ele já viu muitos planos de Trump anunciados com grande alarde, que depois são rapidamente esquecidos. Lembra-se do plano da Riviera de Gaza?

É assim que as grandes potências entram em declínio – não necessariamente por meio de alguma derrota dramática, mas à medida que outros, discretamente, deixam de organizar o mundo em torno delas.

Os EUA continuam imensamente poderosos. Possuem as forças armadas mais fortes do mundo, tecnologias de ponta, vastos mercados de capitais, alianças formidáveis e o dólar. Mas a credibilidade também é um ativo, acumulado meticulosamente ao longo de gerações e surpreendentemente fácil de esgotar e desperdiçar.

Durante a crise dos mísseis cubanos, o presidente John F. Kennedy enviou o ex-secretário de Estado, Dean Acheson, a Paris para informar Charles de Gaulle sobre a descoberta de mísseis nucleares soviéticos em Cuba. Acheson levou fotografias de reconhecimento para comprovar o caso.

De Gaulle, que dificilmente poderia ser considerado um súdito dos EUA, dispensou as imagens com um gesto. Ele disse que não precisava das provas. A palavra do presidente dos EUA era suficiente. Essa cena é inimaginável hoje em dia.

Candidato a capitão do mato

Se a extrema-direita apostasse, de fato, na conquista do poder pelo voto, teria se imposto à família Bolsonaro e substituído o candidato às eleições presidenciais. Flávio é inepto e corrupto. Como o pai, confiou na débil Justiça fluminense e no socorro de uma ala do Ministério Público (e agora, na condescendência de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”) para livrá-lo dos rigores da lei, embora sem conseguir apagar os rastros das atividades ilícitas. O último escândalo no qual aparece envolvido até o pescoço, o do Banco Master, ainda está quente. Também são indeléveis suas digitais nas negociações com o governo de Donald­ Trump para impor sanções ao Brasil e ameaçar a soberania do País.


Além da folha corrida, o filho de Jair não oferece nada ao eleitor. Escancarou um discurso misógino mesmo diante da evidência de que estará derrotado nas urnas se não quebrar o franco favoritismo do presidente Lula no eleitorado feminino. Escolheu como vice um homem que traz na bagagem uma denúncia por estupro de vulnerável. Fez discursos ameaçadores contra o seu próprio País e apoiou publicamente (e incentivou) as ameaças de Trump ao sistema eleitoral. Rompeu publicamente com a madrasta que, dizem, tem mais votos do que ele. Perdeu apoio entre evangélicos, segmento fundamental na eleição de seu pai em 2018 e na tessitura de um movimento de massas de perfil fascista que manteve Jair no poder e apoiou a tentativa de golpe quando o “mito” foi derrotado por Lula em 2022.

Flávio faz movimentos desagregadores no próprio partido. Tomou para si, como se propriedade sua fosse, uma máquina partidária que, embora tenha ganhado força e importância na esteira do bolsonarismo, constituiu-se nacional e regionalmente como uma legenda forte, com boa representação municipal e uma bancada expressiva no Congresso. É duvidoso que a tomada de assalto do PL de Valdemar Costa Neto dê ao candidato algo além do que financiamento eleitoral. Não existe uma relação orgânica da legenda com ele. O partido cristianizá-lo no meio de um processo eleitoral (jargão político para designar abandono do candidato pelo seu próprio partido, em favor de outro com maiores chances de vitória) não é uma hipótese implausível.

São enormes as evidências de que Flávio é um candidato fraco. Por que, então, se mantém candidato?

A candidatura é um projeto familiar, não apenas de poder, mas de sobrevivência. Estar no poder é a única proteção contra os processos que correm em várias instâncias judiciais contra seus integrantes. Um dos filhos, Eduardo, é foragido da Justiça. O pai está preso por tentativa de golpe de Estado. Carlos e Renan, candidatos, respectivamente, a senador e deputado­ federal por Santa Catarina, precisam de um mandato parlamentar para se proteger de futuras condenações. Flávio seria a tábua de salvação dele próprio. Em algum momento, algum juiz pode se perguntar por que ele compra tantos apartamentos em dinheiro vivo e os vende meses depois pelo triplo do preço.

Se hoje o único apoio inconteste de Flávio é o do governo Trump, e se a tendência eleitoral da família Bolsonaro, representada pelo senador, é a de declínio, e perder a eleição é a hipótese mais plausível no momento, se ele não exerce poder agregador sobre as outras candidaturas de direita, de cujos votos precisaria desesperadamente no segundo turno, se optou por uma candidatura do medo – ou ele, ou a intervenção dos EUA sobre as eleições brasileiras e um possível golpe no candidato com chances efetivas de vitória, o presidente Lula, se conseguiu a façanha de ser rejeitado inclusive pelo setor das Forças Armadas que apoiou a tentativa de golpe contra Lula em 8 de janeiro de 2023, é lógico que aposta na chegada ao poder por um golpe tipo Venezuela. Lula ganha, os EUA contestam a eleição e usam a força para tirá-lo do poder, e Flávio, o amigo do imperador do mundo, assume.

É esse o projeto de Flávio, Eduardo, Carlos, Jair Renan e Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo. E, principalmente, de Jair, que não quer morrer na cadeia. É esse o projeto de Trump, que quer do Brasil petróleo, terras-raras e o que der para agregar não apenas à riqueza dos EUA, mas, principalmente, às próprias finanças. O mundo vive o imperialismo das plutocracias, do uso do poder militar para a concentração cada vez maior das riquezas do planeta nas mãos de poucos. Nesta nova divisão internacional existem os hiper-ricos, o poder militar concentrado nas mãos do país central do capitalismo e os capitães do mato, aqueles que fazem o serviço sujo de desviar a riqueza das nações para os bolsos dos donos do mundo.

Flávio é candidato a capitão do mato.